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Received — 25 October 2026 ⏭ Jornal do Algarve

Um hábito e uma reforma

25 October 2026 at 12:04

Lembro-me do que disse – salvo seja, que a cabeça já não é o que era, e não era grande coisa – Giovanni Agnelli sobre Rui Barros quando jogava em Itália. Agnelli era, na altura presidente da Juventus e terá afirmado, provavelmente num dia em que as coisas não tinham saído assim tão bem, que “não aprecio jogadores que não se vêem da bancada”, questão que não terá sido alheia à estatura do antigo internacional português, jogador da equipa. Não querendo comentar a justeza (nem a fineza da expressão), uso-a para me situar em relação ao hóquei-em-patins, modalidade praticada num país (Portugal), numa região (Catalunha); cidade (Milão) e bairro (Boca, Buenos Aires), tudo comentários dos espanhóis, sempre nossos amigos. Pois, pegando em Agnelli e nos espanhóis posso aqui deixar a seguinte ideia: não gosto de desportos, de bola, em que não se vê a bola. Posta, no papel, esta manifestação de intenções, posso dizer-vos que me aflige sempre a sina da selecção tuga nos campeonatos; dão não sei quantos a zero aos que não têm onde cair mortos, jornada após jornada. São dez a zero, doze a um e depois lá se apanha a Espanha e zás, perdemos um a zero, dois a um e assim sucessivamente. Nunca vi tantas vitórias morais como as conseguidas nos jogos contra a Espanha. Perdemos e foi a arbitragem, o piso, o calor ou da tempestade perfeita, considerando que em certas (e determinadas) condições podemos padecer (ao mesmo tempo) de má arbitragem, mau piso e calor. Desta vez, no mundial da modalidade, entrámos a perder com Espanha, o que é sempre uma variação em relação à norma. Vamos ver o que vai dar.

Escrevo na semana em que não se ouve nem vê outra coisa que não seja o orçamento de Estado. Devia ser uma ocasião de falar sobre o que está em causa, mas, na realidade, o que vejo são mais entrevistas dadas por André Ventura a tudo quanto é televisão e até a mais uma ocasião para se ouvir Pedro Passos Coelho, não sei bem para quê. E este não sei bem para quê não é retórica cá do Avarias, mas antes uma opinião alicerçada numa pergunta que eu faço: se o termo “reformas” (sempre na boca do homem do pin) é a maior muleta que qualquer oposição (e olhem que cá o rapaz, não mete prego nem estopa no governo de Montenegro) pode dirimir nos dias de hoje, por qual razão os avisados (hi,hi,hi) jornalistas não questionam quem enche a boca com as ditas. Afinal o que é que querem, por exemplo, com a reforma da educação, ou da saúde? Dizer que se quer reformar é fácil, o mais difícil é capaz de ser explicarem-nos, como se tivéssemos dez ou noventa anos (as idades unem-se como os extremos de uma linha) em que consistem tais reformas. É que – gato escaldado de água fria tem medo – já tive uma pequena amostra das tais proezas, marca de Pedro Passos Coelho, e digo-vos meus amigos, não sei se teríamos razões para contentamento. Como tal, convinha que certa malta abrisse o jogo e não papagueasse o que não passa de – aí sim – retórica, e podia ser que me convencessem. Mas conhecendo os proponentes como os conheço, penso que dali viria alguma coisa de bom, mas só para alguns.

Received — 18 October 2026 ⏭ Jornal do Algarve

O mundo está – mesmo – perigoso

18 October 2026 at 12:02

É um lugar-comum dizer que ver televisão faz mal à saúde. Reformulo a questão; faz mal à saúde ver noticiários e territórios adjacentes que podem incluir publicidade, documentários – e sabe-se como fazemos bons documentários, mas a vida é assim. Por um lado há uma seca sem fim, logo a seguir, chove e quando chove é sempre muito. As calotes estão como estão – e os caloteiros também. Os mares quentes fervem e, sem tirar uma vírgula (por acaso tirava, aqui e ali, mas não é conversa para agora), parece que o diabo veio para ficar, e ficou mesmo. Também estamos muito gordos, porque comemos muito ou mal, e agora a cereja sobre o bolo, sabemos que um em cada quatro maiores de sessenta anos está mal nutrido. Não estou a dizer que nada disto deixe de fazer sentido, mas que nos complica a vida, complica.

Há estudos (há estudos para tudo; para nutridos, desnutridos e um dia destes, nutridos desnutridos, que o meu amigo fica a saber que a vida é feitas destes pequenos nadas) para tudo e informação contraditória para, quase tudo. E agora o perigo; nas estatísticas, onde é que nos situamos? Eu, que tenho mais que sessenta anos estou na parte dos maravilhosamente mal nutridos ou dos restantes? Durmo bem, mal ou assim-assim? Leio livros em quantidade ou não? Vou ao médico com regularidade ou não? A conclusão é simples: façamos o que façamos, há uma catástrofe a cada virar de esquina. O que fazer? Acalmemo-nos, que um gajo quando morrer vai deitado. Ou não.

Terei resistido, mantendo uma réstia de vida no interior do meu cérebro, ao mais recente folhetim da vida portuguesa entre aqueles dois que os meus amigos sabem de quem se trata e por isso não os vou nomear? Penso que sim, estou – quase – incólume. Pelo menos sempre escusámos de ouvir o discurso de António José Seguro, que para lugares comuns já basta o que basta. E de que lado estamos, agora que a poeira se começou a instalar? Do lado que as questões do futebol costumam ser vistas. Quem gosta mais de Ronaldo, que sim tudo foi feito com lisura. Quem gosta de Jorge Jesus, que tudo foi feito como deve ser. Tal e qual como quando vemos um daqueles jogos do campeonato da Polónia, transmitido pelo canal 11. Não conhecemos ninguém nem nenhuma das equipas, mas depois de vermos cinco minutos de jogo, começamos a tirar por um dos dois. Ou seja, estamos, quase sempre, no lado das emoções e não da razão, e isso só pode estar certo. O ponto é que são problemas destes que mostram que o futebol moderno tem muito pouco a ver com desporto. Estamos no reino dos interesses económicos, da venda de camisolas, dos contratos publicitários e descobrimos que tudo isso manda mais que o jogo. Tenho a absoluta convicção que se Ronaldo quisesse jogar até aos cinquenta (sempre uma possibilidade), qualquer seleccionador tinha que o convocar, apesar de ser suplente na quarta liga saudita. E fazia uma perninha de três em três jogos, sem aquecimento para os ossos da perna não torcerem. Eramos a piada infinita (obrigado, literatura), mas lá vendíamos mais vinte camisolas, que o Cris manda nos gajos da federação.

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