Terras sem Sombra apresenta em o ‘Pulsar do Universo’ em Castelo de Vide
![]()
Um quarteto de solistas de algumas das principais orquestras sinfónicas polacas leva a Castelo de Vide o concerto ‘Sentir o Pulsar do Universo: Música para Quatro Trompas’. O Hornet Quartet apresenta-se a 7 de novembro (21h30), na igreja do convento de São Francisco. Todas as atividades são de acesso livre e gratuito.
Castelo de Vide ocupa uma posição muito especial na vertente norte da Serra de São Mamede, um espaço de fronteira onde a história deixou marcas densas ao nível da arquitetura, das práticas devocionais e da própria organização da paisagem.
É neste quadro que o Terras sem Sombra (TSS) regressa a Castelo de Vide a 7 e 8 de novembro, colocando a música no centro de uma programação que entretece criação artística, património e natureza.
O momento crucial da passagem pelo concelho alentejano materializa-se no concerto ‘Sentir o Pulsar do Universo: Música para Quatro Trompas’, na igreja do convento de São Francisco. O concerto oferece ao polaco Hornet Quartet a oportunidade de explorar a amplitude expressiva de uma formação pouco habitual, com incidência na música dos séculos XX e XXI. O Festival propõe ainda uma leitura da religiosidade inscrita no tecido urbano e uma aproximação à diversidade ecológica da Serra de São Mamede.
Um concerto assente numa notável tradição europeia
A trompa nasceu como instrumento de sinal e de chamamento, concebido para projetar o som a grande distância, muito antes de conquistar lugar próprio na orquestra e na música de câmara. Dessa origem conserva ainda uma vocação expansiva, que a tradição europeia transformou numa linguagem de notável riqueza tímbrica e expressiva, capaz de oscilar entre a solenidade e a delicadeza, entre a projeção sonora e uma quase intimidade vocal. É nessa plasticidade sonora que se estrutura o concerto «Sentir o Pulsar do Universo: Música para Quatro Trompas», apresentado a 7 de novembro (21h30), na igreja do convento de São Francisco, em Castelo de Vide.

Fundado em 2012, o Hornet Quartet reúne Gabriel Czopka, Michał Szczerba, Łukasz Łacny e Piotr Kowalski, solistas de algumas das mais importantes orquestras sinfónicas polacas da atualidade. A formação tem desenvolvido um trabalho continuado em torno das possibilidades expressivas da trompa, com particular atenção à música contemporânea e à criação de novo repertório para o instrumento. Em Castelo de Vide, o programa concede lugar de destaque à música polaca, com obras de Włodzimierz Kotoński, Jan Stokłosa, Feliks Rybicki e Witold Lutosławski. A este núcleo juntam-se as Fripperies, de Lowell E. Shaw, e as Trois Chansons, de Claude Debussy, aqui transpostas para quatro trompas.
A igreja do convento de São Francisco acrescenta ao concerto uma expressiva dimensão histórica, além de excelentes condições acústicas. Fundado em 1585, o antigo convento de Nossa Senhora da Conceição dos Frades Recoletos de São Francisco conserva a memória de sucessivas campanhas arquitetónicas, entre as quais avulta a renovação barroca do século XVIII.
Uma geografia da devoção
Na tarde de sábado, 7 de novembro (15h00), o Jardim Grande – Parque João José da Luz constitui o ponto de partida para ‘Património que Protege: Oratórios, Nichos e Capelas’. A atividade é orientada por Rosário Salema de Carvalho, historiadora de arte e diretora do Museu Nacional do Azulejo, e por Carolino Tapadejo, profundo conhecedor e divulgador da história local.
O percurso propõe uma alteração deliberada da escala com que habitualmente se observa o património, ao privilegiar um olhar de minúcia sobre as formas através das quais a devoção se inscreveu no quotidiano: um nicho aconchegado numa fachada, uma imagem destinada a proteger uma rua ou uma casa, um pequeno oratório, uma capela. De acordo com José António Falcão, diretor-geral do TSS, «a sua leitura permite recuperar não apenas uma história artística, mas também gestos, crenças e práticas sociais que moldaram a experiência da vila».
A Serra de São Mamede, um mosaico de diversidade
A Serra de São Mamede introduz uma particularidade na paisagem do Alto Alentejo. A altitude, o relevo e o clima permitem que, numa região dominada pela influência mediterrânica, sobrevivam comunidades vegetais de características distintas das planícies envolventes. O Parque Natural regista cerca de 800 espécies de plantas e constitui o limite meridional da distribuição do carvalho-negral em formações boscosas e de montado.

É a esta diversidade que se dedica o itinerário «Do Bosque ao Montado: Os Carvalhos da Serra de São Mamede», na manhã de domingo, 8 de novembro (09h30), com partida da Praça D. Pedro V. A visita é orientada por Carlos Vila-Viçosa, biólogo e investigador do CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, cujo trabalho se tem centrado na biodiversidade, ecologia e evolução do género Quercus, nas florestas mediterrânicas e no restauro de habitats.
Aqui coexistem carvalhais de carvalho-negral (Quercus pyrenaica) e montados de sobreiro (Quercus suber) e azinheira (Quercus rotundifolia). Entre o bosque e o montado revela-se, assim, mais do que uma diferença de fisionomia vegetal: tornam-se legíveis modos distintos de relação com a terra.
Na distribuição das espécies inscrevem-se clima, geologia e evolução; no montado, séculos de trabalho humano e adaptação; na sua regeneração, joga-se parte do futuro destes ecossistemas. É esta leitura, simultaneamente ecológica e histórica, que a atividade propõe aprofundar no terreno.
Na sua passagem por Castelo de Vide, o Terras sem Sombra conta com a parceria do Município de Castelo de Vide, da Embaixada da República da Polónia, do Ministério da Cultura da Polónia, do PCMA e da Fundação Nossa Senhora da Esperança. Mantêm-se igualmente os apoios institucionais da Direção-Geral das Artes, do BPI-Fundação «la Caixa» e da CCDR Alentejo. O Festival decorre sob o Alto Patrocínio da Presidência da República. A programação do Terras sem Sombra prossegue a 21 e 22 de novembro, em Beja.