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Museu da Família Teixeira: um legado de memória da emigração madeirense e da diáspora luso-venezuelana

29 October 2026 at 20:22
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O arquipélago da Madeira, território insular que, ao longo dos séculos, se afirmou como um singular cais de chegadas e partidas no oceano Atlântico, ocupa um lugar incontornável na história da emigração portuguesa. Marcada pela partida de sucessivas gerações em busca de melhores condições de vida, a sociedade madeirense construiu, dentro e fora do território nacional, uma expressiva herança migratória, profundamente ligada à identidade portuguesa e à diáspora espalhada pelo mundo.

Entre os principais destinos da emigração madeirense na segunda metade do século XX destacou-se, inequivocamente, a Venezuela. Este país sul-americano, que nas últimas décadas tem enfrentado uma profunda crise estrutural, de natureza económica, política e social, acolheu milhares de portugueses, muitos dos quais oriundos da Madeira, que ali encontraram oportunidades para reconstruir as suas vidas, constituir famílias e desenvolver atividades empresariais. Atualmente, a comunidade portuguesa e os seus descendentes representam uma presença significativa na sociedade venezuelana, com particular expressão em Caracas e em setores como o comércio, a hotelaria, a construção civil e a restauração.

O percurso desta comunidade, marcado pelo trabalho, pelo empreendedorismo, pela capacidade de adaptação e pela preservação dos laços com Portugal, constitui um capítulo relevante da história contemporânea da emigração portuguesa. Um legado que importa conhecer, estudar e transmitir às gerações futuras, reconhecendo o contributo das comunidades portuguesas para as sociedades de acolhimento e para a afirmação de Portugal além-fronteiras.

É neste contexto que assume particular significado o Museu da Família Teixeira, situado na Fajã da Murta, na freguesia do Faial, concelho de Santana, na ilha da Madeira. Concebido pelo empresário Aneclet Teixeira de Freitas, este espaço museológico nasceu de uma profunda ligação às suas origens e do desejo de homenagear os seus progenitores, Albino Teixeira e Conceição Caires, naturais daquela localidade madeirense.

Na década de 1950, à semelhança de tantos outros conterrâneos, Albino Teixeira e Conceição Caires partiram para a Venezuela, em busca de melhores condições de vida e de novas oportunidades para a família. A sua história espelha a experiência de inúmeras famílias portuguesas que, confrontadas com dificuldades económicas e limitadas perspetivas de futuro na terra natal, encontraram na emigração um caminho para construir uma vida diferente.

Na década de 1960, com apenas sete anos de idade, Aneclet Teixeira foi ao encontro dos pais em Caracas. Foi na capital venezuelana que cresceu e iniciou um percurso pessoal e profissional que viria a alcançar uma dimensão assinalável. No início da década de 1980, especializou-se em gastronomia judaico-ortodoxa, área em que, aliando conhecimento, espírito empreendedor e uma notável capacidade de trabalho, viria a afirmar-se.

O seu percurso profissional, sustentado pelo rigor, pela dedicação e pelo sentido de oportunidade, conduziu à construção de um relevante universo empresarial, de que fazem parte as conhecidas lojas da cadeia Rey David, em Caracas. A sua atividade estendeu-se também a outros investimentos na América Latina e à Madeira, onde tem apostado, designadamente, nos setores hoteleiro e imobiliário.

Contudo, para além do êxito empresarial, é na ligação às suas raízes familiares e à terra de origem que se encontra uma das dimensões mais significativas do percurso de Aneclet Teixeira. Apesar da distância, das vicissitudes da vida e das responsabilidades inerentes à atividade empresarial, nunca deixou de valorizar a memória dos pais e a comunidade de onde partiu a sua família.

Essa ligação materializou-se na criação do Museu da Família Teixeira, um projeto de homenagem familiar que adquiriu uma dimensão patrimonial e cultural mais ampla. Ao reunir memórias, objetos, correspondência e fotografias, o museu dá visibilidade à experiência de uma família emigrante e, simultaneamente, evoca as trajetórias de tantos madeirenses que partiram para a Venezuela ao longo do século XX.

Aberto ao público e de entrada gratuita, o espaço integra um conjunto de elementos que contribuem para a sua singularidade, entre os quais um jardim com vinte palmeiras provenientes do Egito, uma capela, um coreto e uma adega. Mais do que um espaço de evocação familiar, constitui um lugar de encontro entre a história individual e a memória coletiva, onde as vivências de uma família se cruzam com a história mais vasta da emigração madeirense e da diáspora luso-venezuelana.

O Museu da Família Teixeira assume um papel relevante na valorização da memória histórica da Madeira e no reconhecimento do contributo da comunidade luso-venezuelana. Ao preservar o legado de Albino Teixeira e Conceição Caires, Aneclet Teixeira homenageia não apenas os seus pais, mas também todos aqueles que, partindo da “Pérola do Atlântico”, atravessaram o oceano em busca de novas oportunidades, levando consigo a língua, os costumes, os valores e a esperança de construir um futuro melhor.

Esta dimensão simbólica ganha particular relevância numa época em que a preservação da memória das comunidades portuguesas no estrangeiro constitui um desafio cultural e intergeracional. Conhecer as histórias daqueles que partiram é também reconhecer o papel da diáspora na construção da história contemporânea da Madeira e de Portugal, compreendendo que a identidade madeirense e nacional se prolonga muito para além das fronteiras geográficas.

Daniel Bastos/MS

Emma Lazarus e as suas raízes portuguesas: da memória sefardita à Estátua da Liberdade

23 October 2026 at 18:14

 

Emma Lazarus (1849-1887). DR

Na história das relações entre Portugal e os Estados Unidos da América, marcadas por mais de dois séculos de amizade diplomática e por fortes laços humanos, destaca-se a figura de Emma Lazarus (1849-1887), célebre poetisa norte-americana de ascendência judaico-sefardita portuguesa, autora do poema The New Colossus (“O Novo Colosso”), gravado numa placa de bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, um dos maiores símbolos universais da liberdade, da esperança e do acolhimento.

Emma Lazarus nasceu a 22 de julho de 1849, em Nova Iorque, no seio de uma família judaica de ascendência sefardita, ligada à história dos judeus de Portugal e de Espanha. A expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, e as medidas decretadas em Portugal a partir de 1496, seguidas das conversões forçadas de 1497, deram origem a sucessivas vagas de exílio. Os seus descendentes estabeleceram-se em diferentes países, preservando memórias, tradições e ligações à Península Ibérica.

Em 1883, Emma Lazarus escreveu The New Colossus, a pedido de William Maxwell Evarts, no âmbito de uma iniciativa de angariação de fundos destinados à construção do pedestal da Estátua da Liberdade. Inaugurado a 28 de outubro de 1886, o monumento, oferecido pela França aos Estados Unidos, adquiriu, em parte graças ao poema, um significado que ultrapassou a celebração da liberdade política, passando a representar também a esperança dos imigrantes e dos refugiados. Emma Lazarus morreu em 1887, e os seus versos só foram inscritos numa placa de bronze no interior do pedestal em 1903.

Muito antes, no século XVII, a história dos judeus sefarditas portugueses já se cruzara com a formação das comunidades judaicas na América do Norte. Durante o domínio holandês de parte do Nordeste brasileiro, o Recife acolheu uma comunidade judaica que beneficiou de condições de maior liberdade religiosa. Com a reconquista portuguesa da região, em 1654, e perante o receio de perseguições inquisitoriais, um grupo de judeus refugiou-se em Nova Amesterdão, então uma colónia holandesa na ilha de Manhattan, lançando as bases de uma presença judaica duradoura na cidade que viria a chamar-se Nova Iorque.

A congregação Shearith Israel, de tradição sefardita e historicamente conhecida como Spanish and Portuguese Synagogue, tornou-se uma das instituições centrais desta comunidade. A sua história testemunha a importância dos judeus de origem ibérica na vida religiosa, económica e cultural da América do Norte.

Entre as famílias que ilustram esta herança encontra-se a dos Mendes Seixas. Isaac Mendes Seixas, nascido em Lisboa no início do século XVIII, era trisavô de Emma Lazarus, poetisa norte-americana de ascendência judaico-sefardita portuguesa. Estabelecida na América do Norte, a família teve uma participação relevante na vida religiosa, económica e cívica das comunidades judaicas. Entre os seus descendentes destacou-se Moses Mendes Seixas, dirigente da comunidade judaica de Newport, no estado de Rhode Island, que, em 1790, dirigiu uma carta a George Washington por ocasião da visita do presidente à cidade. Na resposta, Washington reafirmou os princípios da liberdade religiosa e da igualdade cívica, num testemunho significativo dos ideais da nova república americana.

A ascendência sefardita portuguesa de Emma Lazarus inscreve-se neste percurso de exílio, reconstrução e participação cívica. A sua obra, porém, não se limitou à evocação das origens familiares. Sensível à situação dos judeus perseguidos na Europa, a poetisa envolveu-se no apoio aos imigrantes em Nova Iorque, experiência que contribuiu para a dimensão humanista do seu pensamento.

No célebre soneto, a Estátua da Liberdade deixa de ser apenas um monumento à grandeza nacional. Emma Lazarus transforma-a na «Mãe dos Exilados», uma figura que ergue a tocha para acolher aqueles que chegam de terras distantes, cansados da perseguição, da pobreza e da opressão. Os versos «Dai-me os vossos cansados, os vossos pobres, / as vossas massas apinhadas, ansiosas por respirar liberdade» tornaram-se uma das mais conhecidas expressões do ideal de acolhimento associado aos Estados Unidos.

Esta mensagem permanece atual num mundo marcado por guerras, deslocações forçadas e debates sobre a imigração. A história demonstra que a liberdade não se esgota na proclamação de princípios, exige também respeito pela dignidade humana, proteção dos perseguidos e capacidade de acolher quem procura reconstruir a sua vida.

A diáspora portuguesa faz igualmente parte desta história. Atualmente, cerca de 1,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos identificam-se com ascendência portuguesa, segundo estimativas baseadas em dados censitários. Ao longo de gerações, os portugueses e os seus descendentes têm contribuído para a vida económica, social e cultural do país, preservando os laços com Portugal e construindo pontes entre as duas margens do Atlântico.

A história de Emma Lazarus recorda-nos que as identidades nacionais também se constroem através de percursos familiares que atravessam fronteiras. As suas raízes sefarditas portuguesas ligam a memória da Península Ibérica à história dos Estados Unidos e à experiência universal da diáspora.

A tocha que ilumina a entrada do porto de Nova Iorque permanece, assim, como símbolo de uma história que também passa por Portugal, uma história de exílio e esperança, de memória e integração, que continua a interpelar a diáspora portuguesa e o mundo contemporâneo.

Daniel Bastos/MS

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