A próxima geração de vantagens europeias não é garantida
Na Alfândega do Porto, um robô desenvolvido pelo INESC TEC a partir de um problema identificado pela Sonae MC retirava caixas de um contentor. Chama-se CARGO e mostrava uma forma de automatizar uma das tarefas fisicamente mais exigentes da logística. Era uma demonstração de tecnologia, mas também um ponto de partida para perguntas mais difíceis: como assegurar que a solução funciona de forma fiável numa operação industrial, como melhorá-la com a experiência, e como fazê-la chegar a outros clientes?
Estas perguntas estiveram no centro do AI, Data and Robotics Forum 2026 (ADRF26), que organizámos com a ADRA, a associação europeia de inteligência artificial (IA), dados e robótica, com o apoio da Comissão Europeia. Nos dias 13 e 14 de outubro, reunimos no Porto mais de 500 participantes de mais de 30 países. Quisemos trazer esta comunidade ao encontro da experiência científica e industrial da nossa região. Para uma organização de investigação e tecnologia como o INESC TEC, esta ligação entre conhecimento, engenharia e utilização faz parte da nossa missão.
As discussões reforçaram uma preocupação em que temos vindo a trabalhar: a Europa dispõe de excelentes capacidades científicas, tecnológicas e industriais, mas nem sempre consegue transformá-las em posições competitivas sustentáveis. Num contexto em que as vantagens tecnológicas podem ser rapidamente reproduzidas ou ultrapassadas, a capacidade de aprender e avançar depressa torna-se, ela própria, uma vantagem competitiva.
A inteligência artificial física que combina IA com sistemas capazes de perceber e atuar no mundo, abre novas possibilidades para a robótica, os equipamentos industriais e muitas outras atividades em que a Europa dispõe de competências relevantes. Seria arriscado concluir que a nossa base industrial nos assegura uma posição de liderança. Persistem problemas científicos exigentes e a concorrência internacional está a desenvolver capacidades que vão muito além dos modelos de IA.
Não se trata de rejeitar a tecnologia desenvolvida noutros países: em muitos casos faz sentido utilizá-la e permite às empresas ganhar produtividade. O problema surge quando essa utilização nos deixa progressivamente menos capazes de compreender, adaptar e melhorar os sistemas de que dependemos. Podemos ganhar produtividade e perder margem de escolha. E podemos deixar passar oportunidades de desenvolver produtos e empresas que seriam competitivos à escala mundial. A questão não é assegurar uma origem europeia para cada componente, mas identificar onde podemos e devemos construir capacidades próprias, desenvolver posições relevantes e renová-las à medida que as tecnologias evoluem.
Os caminhos seguidos pelos Estados Unidos e pela China ajudam a compreender o que está em causa. Nos Estados Unidos, assistimos a uma renovada disposição para financiar projetos científicos e tecnológicos de grande ambição. A aproximação entre ciência, empreendedorismo e capital capaz de assumir riscos abre oportunidades extraordinárias, embora o financiamento não garanta por si só que os projetos venham a produzir tecnologias úteis ou negócios viáveis. A experiência chinesa, particularmente visível nos drones e nos veículos elétricos, e agora muito relevante para a robótica, chama a atenção para outra dimensão: a velocidade com que as empresas conseguem melhorar os seus produtos quando desenvolvimento, fornecedores, produção e clientes estão próximos. Uma solução inicialmente limitada pode encontrar utilizações, gerar receitas e experiência e dar origem a versões sucessivamente melhores. Subestimar um concorrente pela qualidade do produto que hoje apresenta pode impedir-nos de perceber a velocidade a que está a aprender.
A Europa não precisa de reproduzir integralmente qualquer destes modelos. Mas temos de encontrar formas mais eficazes de mobilizar investigação, engenharia, investimento e capacidade empresarial, criando condições para que o sucesso de um projeto alimente o seguinte. Isto implica também pensar de forma mais ambiciosa sobre o que pretendemos fazer com a IA. Automatizar tarefas existentes pode trazer ganhos importantes de produtividade. Quando aproveitamos as novas capacidades para transformar processos e organizações, as oportunidades tornam-se mais amplas. E surgem possibilidades ainda mais interessantes quando conseguimos criar produtos, serviços e negócios que anteriormente não eram viáveis. A passagem entre estes níveis depende tanto do desenvolvimento tecnológico como da capacidade das organizações para repensarem o que fazem e como criam valor.
O CARGO ajuda a tornar este percurso concreto. O que um cliente procura é resolver um problema e não necessariamente adquirir mais uma tecnologia. Para que uma solução de descarga de contentores seja utilizada de forma continuada, é necessário assegurar fiabilidade em condições variáveis, integrar a tecnologia na operação, responder aos requisitos de segurança e demonstrar que os benefícios justificam os custos. A colaboração com uma empresa que conhece profundamente o problema permite avançar neste percurso e cria oportunidades de aprendizagem para ambos os parceiros.
É por isso que atribuímos tanta importância ao envolvimento de clientes exigentes no desenvolvimento tecnológico. Empresas e instituições públicas que contribuem com conhecimento, ambientes de teste e recursos podem desempenhar um papel decisivo. Mas há uma diferença entre manifestar interesse, participar na experimentação e assumir um compromisso de aquisição. Conseguir chegar ao primeiro cliente é fundamental; chegar ao segundo pode determinar se estamos perante uma solução isolada ou o início de um negócio com capacidade de crescer.
Esta preocupação esteve presente no debate sobre o European Robotics Catalyst, uma iniciativa prevista na estratégia Apply AI da Comissão Europeia, em colaboração com a ADRA. A proposta procura mobilizar utilizadores industriais em torno de desafios partilhados, envolvendo equipas de investigação e desenvolvimento e capacidades de experimentação e avaliação. O seu interesse está na possibilidade de reunir recursos e compromissos hoje dispersos para enfrentar problemas que dificilmente seriam resolvidos por cada entidade isoladamente. A concretização desta ambição terá de mostrar que a colaboração permite desenvolver tecnologias mais depressa, reduzir os riscos da sua utilização e abrir oportunidades a novas empresas.
O investimento público tem um papel fundamental neste processo. Defendemos uma aposta europeia muito mais ambiciosa em investigação e inovação, mas a dimensão dos recursos não resolve, por si só, a questão da sua utilização. Precisamos de financiar equipas e capacidades de engenharia, dar responsabilidade a pessoas com competência para conduzir projetos exigentes e criar condições para ajustar os percursos em função do que vamos aprendendo. A continuidade do financiamento é importante, particularmente na investigação científica, mas não deve significar insistir indefinidamente em soluções que deixaram de se justificar. Ao mesmo tempo, seria um erro orientar toda a investigação pelas necessidades que as empresas hoje conseguem identificar. Algumas das oportunidades mais importantes nascerão de descobertas inesperadas ou de novas empresas dispostas a desafiar a forma como os mercados funcionam.
Para Portugal, esta perspetiva tem consequências importantes. Não dispomos da escala necessária para reproduzir todas as capacidades científicas, tecnológicas e industriais de que precisamos. A participação em iniciativas europeias permite-nos combinar recursos, aceder a mercados e assumir responsabilidades em áreas onde temos competências relevantes. E permite-nos contribuir, a partir do nosso tecido científico e industrial, para o desenvolvimento de tecnologias e empresas com alcance internacional.
Na Alfândega, mostrámos um robô capaz de executar uma tarefa exigente. O passo seguinte será conseguir que essa tecnologia encontre novas utilizações e clientes, melhore com a experiência e abra caminho a outras soluções. É esse o percurso que queremos multiplicar, com os nossos parceiros em Portugal e na Europa. Porque o que determinará a nossa posição no futuro será, em grande medida, aquilo que conseguirmos construir a partir das capacidades que temos hoje.