A Bunge, uma das maiores empresas do agro mundial, teve um lucro líquido de US$ 318 milhões no terceiro trimestre de 2026, quase o dobro dos US$ 166 milhões registrados um ano antes. O lucro líquido ajustado ficou em US$ 496 milhões, alta de 10,2% na comparação anual.
O resultado foi impulsionado pelo desempenho das operações de processamento e refino de soja e de outras oleaginosas, que compensaram a piora em segmentos como óleos tropicais e ingredientes especiais.
No acumulado do ano, o lucro líquido da trading ficou em US$ 1,06 bilhão, ante US$ 721 milhões nos nove primeiros meses de 2025.
A receita líquida somou US$ 23,8 bilhões no trimestre, alta de 7,4% na comparação anual. O resultado operacional ajustado (EBIT) alcançou US$ 846 milhões, ante US$ 757 milhões no terceiro trimestre de 2025, avanço de 11,8%.
Na divulgação do balanço financeiro, a Bunge afirma que a América do Norte foi o principal fator para a melhoria do desempenho, impulsionada por resultados mais sólidos no processamento, parcialmente compensados por um desempenho inferior no refino.
Na América do Sul, a melhora no desempenho refletiu resultados mais fortes no processamento na Argentina e no Brasil, parcialmente compensados por resultados mais fracos nos segmentos de fertilizantes e refino em ambos os países.
O volume de soja processada globalmente foi de 11,75 milhões de toneladas, queda de 3,2% em relação às 12,14 milhões de toneladas do terceiro trimestre de 2025.
Na Europa, o processamento teve bom resultado e foi parcialmente compensados por uma menor originação na América do Sul e por resultados de processamento mais fracos na Ásia.
O segmento de processamento e refino de outras oleaginosas, como canola e girassol, também apresentou avanço. Os volumes processados cresceram de 3,13 milhões para 3,61 milhões de toneladas, refletindo um ambiente de margens mais favorável.
A América do Norte foi novamente o principal motor da melhora nessa divisão, enquanto a companhia registrou resultados inferiores nas operações de processamento e refino na Argentina.
Os resultados globais da comercialização de óleo de soja ficaram abaixo dos registrados no ano anterior. Volumes menores de processamento na América do Sul e na Ásia foram parcialmente compensados por volumes maiores na Europa. Os volumes de processamento nos EUA mantiveram-se em patamares semelhantes aos do ano anterior.
“Em um ambiente complexo — marcado por incertezas geopolíticas, fluxos comerciais em transformação e políticas governamentais em constante evolução —, nossa plataforma global nos permitiu aproveitar oportunidades e, ao mesmo tempo, gerenciar riscos de forma eficaz. Paralelamente, continuamos avançando em nossas principais prioridades de criação de valor, incluindo as sinergias relacionadas à Viterra e o progresso nos esforços para viabilizar grandes investimentos voltados ao crescimento”, diz o CEO da empresa, Greg Heckman, em nota.
A companhia mantém a estimativa de lucro ajustado por ação entre US$ 9,25 e US$ 9,75 em 2026.
Um dos maiores compradores de aves do Brasil, a Arábia Saudita, se manifestou oficialmente sobre a suspensão de compras da proteína brasileira. Em um comunicado enviado ao país nesta quarta-feira (28), Ríade informou que todo o estado de Santa Catarina foi bloqueado.
Antes, a propria adidancia brasileira havia recomendado o bloqueio em um raio de 10km do foco principal da doença, mas a autoridade sanitária Saudita ainda nao havia se manifestado.
Quais países suspenderam as compras?
O quadro atualizado pelo Ministério da Agricultura em 28 de outubro mostra que as restrições variam conforme o país e a abrangência territorial definida por cada autoridade sanitária.
Embargos para Santa Catarina:China, Chile, Peru, Turquia, Paraguai, Uzbequistão e os integrantes da União Econômica Eurasiática — Armênia, Belarus, Cazaquistão, Quirguistão e Rússia.
Restrições limitadas à área sob controle sanitário: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Japão, União Europeia, Reino Unido, Coreia do Sul, Filipinas, África do Sul, Omã, Jordânia, Hong Kong, Egito, Argentina, Cuba, Vietnã, Canadá, Bahamas, Argélia, Namíbia, República Dominicana, Nova Caledônia, Tanzânia, Marrocos, Timor-Leste, Bolívia, El Salvador e Vanuatu.
A lista considera a atualização do ministério, mas a decisão saudita publicada nesta quinta-feira exige atenção pela divergência quanto à extensão territorial do embargo.
Regionalização busca limitar perdas
O Ministério da Agricultura e o Ministério das Relações Exteriores trabalham para que os parceiros comerciais reconheçam a regionalização sanitária brasileira, restringindo as compras às áreas afetadas em vez de suspender as importações de todo o país.
Segundo o governo brasileiro, as negociações internacionais ajudaram a evitar perdas potenciais estimadas em US$ 954 milhões por ano. O cálculo compara as restrições efetivamente adotadas em 2026 com um cenário hipotético em que os países repetissem as medidas mais amplas aplicadas durante o episódio de Newcastle registrado no Rio Grande do Sul, em 2024.
A receita líquida da venda de máquinas agrícolas somou R$ 5,2 milhões em setembro, o que representa uma queda de 15,7% em relação ao mesmo mês de 2025. Em relação a agosto, houve um aumento de 8,2%, segundo a Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos).
No ano, a queda é ainda mais pronunciada, de 21,6%, com um total de vendas acumulado de R$ 41,5 milhões.
O desempenho ocorre em um cenário de restrição ao investimento dos produtores rurais, marcado pelo endividamento e pelo custo elevado do financiamento. Esses fatores têm limitado a renovação do parque de máquinas agrícolas e pressionado as vendas no mercado brasileiro. Entretanto, a expectativa da Abimaq é uma estabilidade e um leve crescimento daqui para frente.
Mais cedo, a Abac, que representa o setor de consórcios, divulgou que a movimentação do setor chegou a R$ 17,57 bilhões em créditos comercializados de janeiro a setembro de 2026, queda de 10,8% em relação ao mesmo período do ano passado.
Exportações avançam
Enquanto o mercado doméstico permanece enfraquecido, as exportações de máquinas e equipamentos agrícolas apresentam desempenho positivo. Em setembro, as exportações alcançaram US$ 161,69 milhões, alta de 21,2% em relação a agosto e de 8,4% na comparação anual.
Entre janeiro e setembro de 2026, as exportações totalizaram US$ 1,312 bilhão, 12,1% acima do mesmo período de 2025.
Importações recuam no acumulado
As importações de máquinas e implementos agrícolas somaram US$ 902,6 milhões de janeiro a setembro, queda de 4,2% na comparação com os nove primeiros meses de 2025.
Somente em setembro, as compras externas totalizaram US$ 91,71 milhões, recuo de 4,2% em relação ao mesmo mês do ano passado, apesar do aumento de 1,6% ante agosto.
Com exportações de US$ 161,69 milhões e importações de US$ 91,71 milhões em setembro, o segmento registrou superávit comercial de US$ 69,98 milhões no mês.
Tratores e colheitadeiras
Em unidades, foram comercializados 7.159 tratores em setembro de 2026, 1,28% abaixo dos 7.252 tratores negociados em agosto de 2026. Do total, 3.577 foram vendidos para o usuário final, 7,6% acima do mês anterior, porém 32,5% menos do que setembro de 2025.
Outros 3.140 foram comercializados para fábricas, 8,7% menos do que em agosto de 2026 e 48,4% menos do que setembro de 2025.
Os 442 tratores restantes foram destinados à exportação, que registrou queda de 9,4% em comparação a agosto de 2026, e queda de 12,6% em relação a setembro de 2025.
O BTG Pactual reiterou a recomendação de compra para as ações da 3tentos (TTEN3) e manteve a companhia como sua principal escolha no setor de agronegócios. O banco estabeleceu preço-alvo de R$ 26 para os próximos 12 meses, ante cotação de R$ 10,90 em 27 de outubro, o que representa potencial de valorização de 138,5%, sem considerar dividendos.
Em relatório sobre as perspectivas para o terceiro trimestre de 2026, o BTG avalia que a pressão sobre as margens industriais da companhia pode estar próxima do fim. A recuperação dos preços do farelo de soja e do biodiesel tende a favorecer a rentabilidade do processamento de soja, enquanto o banco projeta uma normalização gradual dos resultados industriais em 2027.
O BTG também destaca o avanço da produção de etanol de milho como vetor de crescimento. Para 2027, a instituição estima lucro bruto de R$ 419 milhões com a operação, considerando utilização média de 95% da capacidade da planta e processamento de 930 mil toneladas de milho.
Outro fator de potencial melhora é a redução dos custos logísticos. A joint venture com a Caramuru, que prevê investimentos conjuntos de R$ 400 milhões em infraestrutura no corredor de exportação do Arco Norte, poderá gerar economia anual de R$ 60 milhões a R$ 70 milhões para a 3tentos quando estiver plenamente operacional. Esses ganhos ainda não estão incorporados às estimativas do banco.
O balanço da companhia será divulgado dia 12 de novembro.
A recomendação considera, porém, que o curto prazo continua pressionado. Para o terceiro trimestre, o BTG projeta lucro líquido de R$ 155 milhões, queda de 24% na comparação anual. O segmento de grãos deve registrar recuo de 45% no volume negociado, após vendas excepcionalmente fortes de soja no primeiro semestre.
No segundo trimestre, o lucro líquido da empresa recuou 86,3% na comparação anual, para R$ 14,4 milhões. Segundo o CEO, João Marcelo Dumoncel, o resultado foi pressionado pelo desempenho do biodiesel, pelo atraso na entrada em operação de novas capacidades industriais e por uma mudança no mix de receitas, com maior participação do segmento de grãos, de margens mais baixas.
Apesar das incertezas, o banco considera atrativa a avaliação da companhia. As ações negociam a cerca de seis vezes o lucro estimado para 2027, enquanto o BTG projeta crescimento anual dos resultados superior a 20% até 2029.
O consórcio de máquinas agrícolas movimentou R$ 17,57 bilhões em créditos comercializados de janeiro a setembro de 2026, queda de 10,8% em relação ao mesmo período do ano passado, quando o volume chegou a R$ 19,70 bilhões. Os dados são de levantamento da Abac (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios), que estima os indicadores do segmento a partir de sua participação no mercado de veículos pesados.
O recuo nos negócios acompanha a redução de 9,2% nas adesões. Foram vendidas 70,95 mil cotas nos nove primeiros meses do ano, ante 78,15 mil no mesmo intervalo de 2025.
E o tíquete médio das operações (cotas) aumentou 10,6% no mês passado, em comparação a 2025, e ficou em R$ 284,42 mil por mês.
Segundo a Abac, os resultados do segmento de veículos pesados refletem as oscilações do mercado interno de transporte e de equipamentos destinados ao agronegócio, com expectativa de recuperação gradual. A entidade, porém, não detalha no levantamento o peso individual de fatores como custo do crédito, renda agrícola ou preços das commodities sobre o resultado dos consórcios.
As contemplações, que se referem a consorciados que tiveram oportunidade de comprar bens, somou 35,49 mil pessoas neste ano, o que representa uma retração de 2,5% na relação anual.
O volume de crédito disponível no acumulado do período ficou em R$ 8,74 bilhões, com queda de 4,3%.
Governos de diferentes regiões estão reorganizando suas políticas agrícolas e industriais para reduzir a dependência externa de proteínas, em um movimento que pode alterar os fluxos internacionais de soja, rações, carnes e ingredientes alimentares. A tendência, que combina proteção da produção doméstica, investimento em tecnologia e controle sobre cadeias de abastecimento, transforma a proteína em um ativo estratégico de segurança nacional e não apenas em uma commodity negociada no mercado internacional.
A mudança tem implicações diretas para o Brasil. O país ocupa posição central no fornecimento mundial de soja e proteínas animais, mas sua competitividade exportadora passa a conviver com uma nova variável, a disposição de grandes compradores de investir para produzir internamente o que hoje importam.
O fenômeno é denominado “nacionalismo das proteínas” pelo Eurasia Group, que, em relatório publicado em setembro de 2026, diz que o risco não se limita à imposição de tarifas ou cotas. Envolve a possibilidade de mudanças estruturais na demanda, o surgimento de concorrentes subsidiados e a disputa pelo domínio de tecnologias de produção e processamento.
O relatório identifica a convergência entre fragmentação geopolítica, demanda crescente por proteínas e maior intervenção dos Estados na produção e no comércio de alimentos. No cenário considerado mais provável pela consultoria, países continuarão adotando medidas para proteger o abastecimento doméstico e ampliar sua autonomia produtiva, enquanto as restrições comerciais tendem a ganhar espaço.
China no centro da transformação
A China representa a transformação mais relevante para os exportadores agrícolas. Mas o movimento não é exclusivo de Pequim; os Estados Unidos procuram ampliar a produção de carne bovina; a União Europeia quer reduzir a dependência de proteínas vegetais importadas para alimentar seus rebanhos; e a Índia investe para diminuir a necessidade de comprar leguminosas de outros países. Ao mesmo tempo, economias como Dinamarca, Países Baixos, Coreia do Sul e Singapura tentam conquistar espaço na produção de proteínas alternativas.
Embora partam de condições distintas, essas iniciativas apontam para uma mesma direção, governos querem maior controle sobre a origem, a oferta e o custo das proteínas consumidas por suas populações e utilizadas por suas indústrias.
China mira autossuficiência e pode reduzir compras externas
O caso chinês concentra a principal ameaça potencial aos fornecedores tradicionais. Depois de se tornar a maior importadora mundial de carnes, laticínios e rações, a China procura reduzir sua exposição ao mercado internacional, aumentar a produtividade doméstica e desenvolver tecnologias que permitam substituir importações e, no longo prazo, conquistar mercados externos.
O 15º Plano Quinquenal chinês, para o período de 2026 a 2030, coloca a segurança alimentar entre as prioridades nacionais, próxima à defesa. A estratégia inclui o desenvolvimento de sementes geneticamente modificadas, a expansão das áreas cultivadas, o aumento da eficiência na produção de ração e o investimento em fermentação de precisão, agricultura celular, aminoácidos e biomanufatura.
O objetivo não é necessariamente eliminar as importações no curto prazo, mas diminuir a vulnerabilidade do país a fornecedores estrangeiros e às oscilações do comércio internacional. Em maio de 2026, uma análise da Reuters já apontava que os ganhos de produtividade e a redução da dependência de rações importadas poderiam provocar uma mudança estrutural na demanda chinesa por produtos agrícolas, com efeitos especialmente relevantes para Brasil e Estados Unidos.
Para o Brasil, a questão é particularmente sensível porque a China ocupa posição central nas exportações de soja e carne bovina. Se o país asiático conseguir produzir mais proteína animal com menor utilização de insumos importados, poderá reduzir a necessidade de comprar soja e farelo no exterior, mesmo que o consumo de carnes continue crescendo.
Há, porém, uma diferença entre reduzir a intensidade das importações e eliminá-las. A capacidade chinesa de substituir fornecedores dependerá da produtividade agrícola, da terra e água, dos custos de produção e da velocidade de adoção tecnológica. O relatório do Eurasia Group projeta queda nas compras chinesas de soja e rações a partir de 2027, mas não quantifica o impacto sobre os volumes exportados pelo Brasil.
A segunda frente de risco é a concorrência. Além de tentar produzir internamente o que hoje importa, a China pretende ampliar as exportações de carne de aves, laticínios, ovos e produtos aquáticos. Caso avance nessa estratégia, poderá disputar mercados com fornecedores tradicionais, apoiada por políticas industriais e investimentos estatais.
EUA protegem a pecuária, mas recorrem à importação para conter preços
Nos Estados Unidos, a soberania das proteínas aparece de outra forma: o governo procura recompor a produção doméstica de carne bovina, mas precisa considerar o efeito da oferta insuficiente sobre os preços pagos pelos consumidores.
O rebanho americano está em seu menor nível em 75 anos, segundo o relatório do Eurasia Group e o USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). Para estimular a produção, o governo adotou medidas de apoio aos pecuaristas, como garantias de empréstimos, ampliação do acesso a pastagens e maior fiscalização sobre grandes frigoríficos.
Ao mesmo tempo, Washington ampliou o acesso de fornecedores estrangeiros ao mercado de carne bovina para tentar aliviar os preços internos. Em setembro de 2026, segundo o relatório, o governo aumentou para 300 mil toneladas as cotas de importação com isenção tarifária destinadas a países selecionados, tendo o Brasil como principal beneficiário.
A aparente contradição revela o dilema das políticas de soberania alimentar. Ampliar a produção doméstica é um objetivo de longo prazo, mas não resolve imediatamente uma restrição de oferta. Enquanto a capacidade produtiva não reage, importações podem ser necessárias para conter a inflação e garantir o abastecimento.
O episódio também mostra que a política comercial pode ser utilizada simultaneamente para atender a interesses domésticos e fortalecer relações diplomáticas. O governo americano ampliou benefícios comerciais à Argentina, por exemplo, em uma estratégia que o Eurasia Group associa à aproximação política entre Donald Trump e Javier Milei.
Para os exportadores brasileiros, isso significa que o acesso a mercados pode depender não apenas de preços e competitividade, mas também de decisões políticas, negociações bilaterais e necessidades de abastecimento dos países compradores.
União Europeia quer diminuir a dependência de soja importada
A União Europeia também passou a tratar o abastecimento de proteínas como uma questão de autonomia estratégica. Em julho de 2026, a Comissão Europeia apresentou um plano para aumentar a resiliência e a autonomia do sistema europeu de proteínas, com foco na diversificação da produção e na redução de dependências externas.
O objetivo é ampliar a produção europeia de proteínas vegetais, utilizadas tanto na alimentação humana quanto na fabricação de rações. O plano prevê incentivos à diversificação das culturas, investimentos em pesquisa e inovação e fortalecimento das cadeias de processamento.
A dependência de insumos importados é considerada uma vulnerabilidade porque expõe a produção pecuária europeia a oscilações de preços, interrupções logísticas e tensões geopolíticas. O problema não se limita à soja, fertilizantes e energia também são insumos críticos para o funcionamento da cadeia.
A Europa dispõe de limitações naturais e econômicas para ampliar determinadas culturas na mesma escala dos grandes exportadores das Américas. Para o Eurásia Group, a redução da dependência, portanto, exigirá mudanças graduais na produção, incentivos aos agricultores e desenvolvimento de fontes alternativas de proteína.
Para o Brasil, a consequência potencial é uma disputa mais intensa pelo mercado europeu de ingredientes para alimentação animal. Isso não significa que a União Europeia deixará de importar soja brasileira, mas que pretende ampliar as alternativas disponíveis e reduzir a exposição a um conjunto restrito de fornecedores.
Índia investe para substituir importações de leguminosas
A busca por autonomia também está presente na Índia, que lançou um programa de US$ 1,3 bilhão para alcançar a autossuficiência em leguminosas secas até dezembro de 2027. A iniciativa, prevista para o período de 2025 a 2030, procura reduzir a dependência de importações de países como Canadá e Austrália.
O exemplo mostra que a soberania das proteínas não se restringe à carne. Leguminosas, grãos ricos em proteínas e ingredientes utilizados na alimentação animal também são considerados estratégicos porque influenciam o custo das dietas, a segurança alimentar e a dependência comercial.
Em países populosos, a vulnerabilidade a preços internacionais elevados pode ter consequências econômicas e políticas importantes. Incentivar a produção doméstica torna-se, assim, uma forma de reduzir a exposição a choques externos, embora a substituição de importações dependa de produtividade, disponibilidade de terras, rentabilidade para os agricultores e condições climáticas.
A disputa tecnológica vai além da pecuária convencional
A corrida pela autonomia não se limita a produzir mais carne, leite ou ovos. Parte dos governos procura dominar tecnologias que possam alterar a estrutura futura do mercado de proteínas.
Países Baixos, Dinamarca, Reino Unido, Coreia do Sul e Singapura investem em pesquisa, desenvolvimento e produção de proteínas vegetais, ingredientes obtidos por fermentação e carne cultivada. A China também incorporou essas tecnologias à sua estratégia de segurança alimentar.
O interesse é econômico e geopolítico. O domínio de processos industriais, patentes, equipamentos e ingredientes pode criar novas fontes de receita e reduzir a dependência de cadeias tradicionais de produção animal.
O relatório, contudo, não prevê uma substituição rápida da pecuária convencional. Os custos de produção das proteínas alternativas continuam elevados, e o setor enfrenta obstáculos regulatórios e resistência de consumidores. Por isso, o Eurasia Group considera mais provável que as proteínas animais continuem predominantes até 2030.
A disputa tecnológica pode avançar mesmo sem uma transição acelerada do consumo. Países que desenvolverem capacidade industrial e regulatória poderão ocupar posições estratégicas no fornecimento de ingredientes e tecnologias, ainda que a carne convencional permaneça dominante.
Demanda crescente com canetas emagrecedoras
O nacionalismo das proteínas ganha força em um momento de aumento da demanda global. A popularização de dietas ricas em proteínas, o envelhecimento da população e a expansão das classes médias urbanas sustentam o consumo de carnes, laticínios, ovos e suplementos.
Nos Estados Unidos, as diretrizes alimentares publicadas em 2026 elevaram a recomendação diária de consumo de proteínas para uma faixa de 1,2 a 1,6 grama por quilo de peso corporal, ante 0,8 grama anteriormente. A mudança reforça a presença do nutriente nas políticas públicas e pode influenciar outros mercados.
A expansão do consumo, entretanto, não garante crescimento proporcional das exportações dos países que hoje dominam a oferta. Uma parcela maior da demanda pode ser atendida por produção doméstica, enquanto governos estimulam substitutos, impõem restrições comerciais ou favorecem produtores nacionais.
O descompasso entre a velocidade das mudanças de consumo e o tempo necessário para ampliar a oferta também pode gerar volatilidade. A produção agrícola depende de ciclos biológicos, disponibilidade de insumos, clima e investimentos realizados com antecedência. Quando a demanda muda mais rapidamente, os preços podem reagir antes que a oferta consiga responder.
O cenário descrito pelo Eurasia Group combina essas pressões com guerras comerciais, custos voláteis de fertilizantes e energia e riscos climáticos. O resultado pode ser maior intervenção governamental justamente em um mercado que, até aqui, se apoiou fortemente na especialização internacional da produção.
Para o Brasil, diversificação e valor agregado ganham importância
A posição brasileira como grande produtor e exportador de soja e carnes oferece vantagens relevantes em um mundo que continuará precisando de proteínas. Mas a dependência de grandes mercados compradores também expõe o país a mudanças de política comercial e a estratégias de autossuficiência de seus parceiros.
O desafio é distinguir duas tendências. Uma é o protecionismo de curto prazo, que se manifesta por tarifas, cotas e barreiras regulatórias. Outra é a transformação estrutural da capacidade produtiva dos países importadores, que pode reduzir a demanda externa ao longo de vários anos.
A primeira exige negociação comercial, defesa de acesso a mercados e adaptação às regras sanitárias e técnicas. A segunda demanda uma estratégia de competitividade de longo prazo, com ganhos de produtividade, diversificação de destinos e ampliação do processamento doméstico.
O Eurasia Group recomenda aos exportadores de proteínas diversificar mercados, investir em produtos de maior valor agregado e participar da definição dos padrões comerciais. Para o Brasil, isso significa não depender exclusivamente do crescimento das compras chinesas nem pressupor que a atual divisão internacional da produção permanecerá inalterada.