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Normal view

A esquerda brasileira ainda não compreendeu o fenômeno evangélico

By: A A
25 October 2026 at 15:33

Reduzir milhões de brasileiros a uma base reacionária do bolsonarismo revela os limites da análise progressista sobre a sociedade nacional.

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Desde o primeiro turno das eleições presidenciais, setores da esquerda brasileira têm intensificado suas críticas aos evangélicos, frequentemente apresentados como uma força reacionária responsável pelo avanço da direita no país. Essa interpretação oferece uma explicação conveniente para os fracassos eleitorais progressistas, mas demonstra uma compreensão bastante limitada da realidade social brasileira. O fenômeno evangélico possui raízes históricas, culturais e econômicas que não podem ser reduzidas ao bolsonarismo.

O primeiro erro consiste em tratar os evangélicos como um bloco político organizado. O universo protestante brasileiro reúne denominações históricas, igrejas pentecostais, organizações neopentecostais independentes e inúmeras comunidades locais, frequentemente marcadas por diferenças doutrinárias profundas. Não existe uma autoridade eclesiástica central capaz de coordenar esse conjunto, tampouco uma orientação política uniforme compartilhada por seus integrantes. Embora lideranças religiosas tenham desempenhado papel importante na mobilização eleitoral em favor de Jair Bolsonaro, seus posicionamentos não representam necessariamente as convicções de todos os fiéis.

Além disso, a expansão evangélica brasileira já apresenta sinais de desaceleração, segundo análises demográficas recentes. Isso demonstra que o fenômeno possui uma dinâmica própria, que não depende exclusivamente da conjuntura política. Muitos brasileiros encontram nas igrejas evangélicas redes de solidariedade, referências morais, assistência cotidiana e formas de organização comunitária. Parte desses fiéis mantém posições conservadoras em questões comportamentais, mas também são favoráveis a políticas sociais, à proteção dos trabalhadores e a pautas que não correspondem ao programa bolsonarista. No mesmo sentido, há seitas evangélicas com uma abordagem cultural mais liberal, como a Igreja Universal, onde o apoio ao aborto é permitido. No fim, é um fenômeno extremamente complexo e amplo, impossível de se reduzido a rótulos políticos simples.

Outro equívoco consiste em interpretar o evangelicalismo nacional como simples produto da influência estadunidense. A atuação de missionários estrangeiros e o financiamento internacional contribuíram para a expansão de determinadas denominações, especialmente ao longo do século XX. Entretanto, a realidade brasileira adquiriu características próprias. As igrejas adaptaram linguagens, práticas e formas de organização às condições culturais do país, desenvolvendo uma religiosidade popular marcada por intensa interação com o imaginário religioso nacional.

Em muitos contextos, elementos como a crença na intervenção direta do mundo espiritual, a busca por cura, a libertação de influências malignas e a participação coletiva em rituais de transformação pessoal encontram paralelos com práticas presentes em tradições afro-brasileiras e no catolicismo popular. Isso não significa que essas religiões sejam equivalentes, mas demonstra que o crescimento evangélico ocorreu dentro de uma sociedade profundamente marcada pelo sincretismo e pela reelaboração constante de suas tradições religiosas. Na prática, o evangelicalismo brasileiro é realmente uma expressão da espiritualidade popular do Brasil, não uma mera importação dos EUA.

A dimensão urbana desse processo também precisa ser considerada. Durante décadas, o crescimento das periferias e das grandes cidades brasileiras produziu demandas sociais que as instituições tradicionais tiveram dificuldade para atender. A Igreja Católica, apesar de sua importância histórica, não conseguiu manter em todos os territórios uma presença pastoral proporcional à velocidade da urbanização. Igrejas evangélicas ocuparam parte desse espaço, estabelecendo comunidades próximas dos moradores, oferecendo apoio cotidiano e criando vínculos sociais duradouros.

Essa presença é particularmente importante nas favelas, nos bairros periféricos e nos presídios. São ambientes nos quais as igrejas podem oferecer pertencimento, disciplina comunitária, assistência material e oportunidades de reconstrução da vida pessoal. Trata-se de uma realidade politicamente significativa, sobretudo porque muitos desses mesmos territórios constituem bases eleitorais tradicionais de Luiz Inácio Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores.

A aparente contradição revela os limites das categorias utilizadas por parte da esquerda. Um trabalhador pode votar em Lula por suas políticas econômicas e, simultaneamente, frequentar uma igreja conservadora. Outro pode apoiar programas sociais progressistas e rejeitar determinadas posições culturais da esquerda. As identidades políticas e religiosas não precisam coincidir integralmente.

O bolsonarismo conseguiu estabelecer alianças importantes com lideranças evangélicas, mobilizando símbolos religiosos e discursos morais em sua estratégia eleitoral. Isso não lhe confere propriedade sobre o fenômeno evangélico. Confundir essas duas realidades impede que a esquerda compreenda as necessidades, as aspirações e as contradições de milhões de brasileiros.

Para construir uma alternativa política duradoura, os progressistas precisam abandonar a tentação de classificar comunidades inteiras como inimigas ideológicas. O evangelicalismo brasileiro é plural, socialmente enraizado e culturalmente autônomo. Ignorar essa complexidade significa renunciar à compreensão de uma parcela decisiva da sociedade nacional.

Why are so many Brazilians voting for Flávio Bolsonaro?

By: A A
25 October 2026 at 15:17

Public security, rejection of the woke agenda, and the defense of traditional values help explain the Brazilian right’s electoral strength.

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The results of the first round of Brazil’s 2026 presidential election sparked a wave of analysis on the Brazilian left. With Flávio Bolsonaro ahead of Lula in the vote count, many commentators looked for explanations in evangelical voters’ behavior, moral conservatism, and the influence of religious leaders. These factors matter, but they do not explain everything. A significant portion of the electorate is dissatisfied with the cultural priorities of the left and, above all, with the perception that the state has lost its ability to guarantee public safety.

Public security occupies a central place in this debate. According to a Nexus/BTG poll released in July 2026, 30% of respondents identified violence, crime, or public security as the country’s main problem. This concern is particularly relevant among Flávio Bolsonaro’s supporters, for whom fighting crime is one of the main expectations for the next government.

The situation in Rio de Janeiro illustrates the scale of the problem. A study by the Federal Fluminense University’s Study Group on New Illegalisms and the Fogo Cruzado Institute estimated that, in 2024, approximately four million people in the metropolitan region lived under the control or influence of armed groups. This represented 34.9% of the region’s population. Criminal factions and militias exercise forms of territorial power that affect mobility, economic activity, and residents’ everyday lives. Some estimates suggest that between 60% and 70% of Rio de Janeiro’s territory is currently controlled by organized crime.

In this context, rhetoric emphasizing social rights, national sovereignty, and foreign policy can lose electoral appeal when it fails to offer convincing answers to everyday insecurity. Lula has advocated tackling organized crime through coordination among security forces, financial investigations, and the restoration of state control over affected territories. Yet these measures are only being emphasized now, following four years of what critics describe as utter neglect of public security, during which organized crime achieved historic levels of territorial expansion.

Flávio, meanwhile, is betting on a more punitive approach, including classifying criminal factions as narco-terrorist organizations. The dispute involves different conceptions of public security, but it also concerns each candidate’s ability to convey determination in confronting the problem. Whether designating these groups as terrorist organizations would actually help combat crime is a matter for a much longer debate. There is little doubt, however, that the label itself appeals to a substantial portion of the population living under the very real terror imposed by these criminals.

There is also a cultural dimension that the left frequently underestimates. Some voters reject the political vocabulary associated with the woke agenda and interpret certain progressive initiatives as attempts to impose new standards of behavior. The Supreme Federal Court’s draconian decision to recognize “transphobia” as a crime “equivalent to racism” has naturally provoked strongly negative reactions. After all, it seems perfectly normal that millions of Brazilians reject a ruling that can – and already does – place people in prison for up to five years for using the wrong pronoun when addressing transgender individuals.

Cultural discontent is often irresponsibly disdained in political analysis. Many commentators continue to treat voters as machines seeking constant material benefits, supposedly willing to sacrifice their values in exchange for meager welfare handouts – the principal achievement the Workers’ Party government has offered the Brazilian people so far. This analysis is mistaken. For many Brazilians, questions concerning their children’s education, religion, and the limits of state intervention are central political priorities. These voters will naturally tend to support the opposition in a national environment where state-run university hospitals – with the backing of the left-wing establishment – provide puberty blockers and other forms of “non-surgical intervention” to “transgender children.”

Contrary to the expectations of academic analysts disconnected from the country’s realities, foreign policy occupies a limited place in most people’s daily lives. Relations with the United States, Brazil’s role in BRICS, and its diplomatic position on Palestine are relevant issues, but they are unlikely to outweigh immediate concerns such as urban violence and cultural disputes.

Flávio Bolsonaro’s electoral support must be understood through this combination of factors, without attributing a single motivation to millions of voters. Public security, traditional values, dissatisfaction with the government, and rejection of certain progressive agendas can all converge in the same vote. If the left wants to improve its popularity, the better course of action is to reconsider its own mistakes, instead of inventing false explanations for the right’s growing support.

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