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Costumes antigos que se perderam na voragem da actual sociedade de consumo (1)

25 October 2026 at 18:04

Os mais velhos recordar-se-ão de que, até meados do século passado, havia, entre os Portugueses, modos de vida, costumes e rituais, vindos das brumas do tempo, que a vida moderna foi apagando, imperceptivelmente, ao longo dos anos, e se perderam para sempre. Alguns deles eram mais relativos à labuta corrente de todos os dias, outros, porém, mais específicos, diziam, sobretudo, respeito ao decoro, à ética e à moral públicos. Sem pretender ser exaustivo, irei procurar fazer de apenas alguns deles, um breve escorço.

– Por ocasião do falecimento de um ente querido, usava-se, como uma das expressões para fazer o luto, o chamado “fumo” (uma tira de tecido preto), à volta da manga ou na lapela do casaco ou, no caso do luto “mais carregado”, vestuário de cor preta, luto que poderia ir até um ano ou mesmo para toda a vida, dependendo do sentimento de perda sofrido pelo desaparecimento desse familiar. Era usual, nestas ocasiões, após o funeral, serem feitas visitas de condolências à casa da família enlutada. Música ou quaisquer eventos festivos deviam ser evitados, durante um determinado período, como sinal de recolhimento emocional.

– Quem não se recorda da Escola Primária e da entrada num mundo novo, um mundo que alterou, radicalmente, todo o ritmo aleatório dos nossos dias de crianças, apenas “preocupadas”, até aí, com os jogos e brincadeiras, e nos introduziu, pela primeira vez, no cumprimento sistematizado de regras, de horários a cumprir e do saber organizado?

No primeiro ano da Primária, escrevíamos sobre uma pedra de ardósia com um lápis de xisto macio, que íamos apagando com o nosso próprio cuspo e limpando com a manga… Nos anos seguintes, numa fase um pouco mais avançada, já se escrevia em cadernos de 2 linhas, próprios para aperfeiçoar a caligrafia, com uma pena de metal, fixa na extremidade de um fino cabo de madeira, que íamos molhando num tinteiro, regularmente cheio com tinta de um enorme frasco, pela “contínua”, funcionária actualmente “promovida” com a designação de “técnica auxiliar”…

– Como parte das idas à minha terra, cumpro, sempre que posso, uma romagem a lugares mágicos que marcaram o imaginário dos melhores tempos da nossa vida, a infância descuidada, em que, livres como pardais, brincar livremente era a nossa principal ocupação. Nesse propósito, os meus passos encaminham-se, quase automatamente, para o adro da igreja, dantes, um terreiro. Cerro os olhos e “vejo-me” em correrias sem fim, com os companheiros de brincadeira a jogar o pião, o berlinde, ao trapinho queimado, à apanhada, ao jogo das escondidas, ao jogo da mensagem, ao jogo do eixo, ao jogo da marca (com todos os botões velhos que podíamos arrebanhar em casa), à cabra-cega, ao jogo das caricas ou o jogo da bola (com uma bola de trapos)… e ali fico, sentado, tempos sem fim, cabeça entre as mãos, alheado de tudo, absorto em pensamentos longínquos, em silêncio, um silêncio duro, feito de nostalgia… Nesses momentos, medito no mundo de diferença entre o nosso antigo universo lúdico, em que nos “viciávamos” no doce aroma da liberdade, e o dos tempos contados ao minuto dos meninos dos dias de hoje, que nunca chegam verdadeiramente a ser crianças…

– Seria inconcebível não seguir a autoridade dos professores, dentro das aulas, a qual era escrupulosamente acatada, quer por alunos, quer por pais.

O mesmo se diga, no respeitante às instruções das forças públicas de segurança, que eram, ordeira e pacificamente, obedecidas.

– Sempre que uma casa estava disponível para ser arrendada, era usual serem colocados nas janelas os chamados “vistos” (pequenos quadrados de papel).

– Aos domingos, era costume vestir a melhor fatiota, diferente da vestimenta trivial dos dias da semana, fosse para assistir à missa ou simplesmente para parecer bem. Similarmente, era hábito estrear roupa ou sapatos novos, mas apenas em ocasiões mais festivas ou especiais – as apertadas disponibilidades financeiras a isso obrigavam –, fosse pelo aniversário, no Dia de Ano Novo ou no do padroeiro da terra.

– Era impensável não respeitar os mais velhos, fossem ou não da família. A velhice era considerada pela ponderação, lucidez e experiência, ao longo de uma vida.

Quando os jovens deixam de ouvir os mais velhos, perdem memória e saber vivido.

Uma civilização revela muito do seu carácter pela forma como trata aqueles que já percorreram o caminho antes dela.

– Era comum afixar recados escritos, em locais sociais de passagem, como mercearias, tabernas ou no mercado municipal, para avisar de eventos, pedidos de ajuda ou outros fins. Nas localidades costeiras algarvias, como Lagos, Portimão ou Armação de Pêra, entre outras, aquela prática era corrente, durante a incipiente época balnear de então, a informar de quartos disponíveis para alugar aos veraneantes, ainda portugueses, por esses tempos.

– A rara ida à praia (de Armação), era um acontecimento nimbado por uma auréola de magia para os mais novos, em que eu próprio me incluia, visto que cheguei a integrar esses alegres grupos de “veraneantes”. A partida tinha lugar bem cedo, ainda a aurora mal tinha despontado, devido a que se tinha de contar com quase três horas de viagem… Tudo, por norma, ficara pronto na véspera, desde a comida até ao garrafão. Ao veículo, um comum carro de bestas, puxado por uma muar, eram adaptados dois bancos corridos, um frente ao outro. O ambiente de festa e boa disposição fazia-nos esquecer a duração do tempo de viagem. Chegados a Armação, era altura de desatrelar o animal, colocar-lhe a cevadeira ao pescoço com aveia para ir comendo e pôr o carro a uma sombra. Finalmente, no areal, quase vazio de gente, naqueles tempos –, à excepção dos pescadores que, sentadas na areia, amanhavam as redes, esticando-as, curiosamente, para o efeito, com o dedo grande de um dos pés –, espargia-se, no ar, um perfumado cheiro a maresia. Era chegada a vez de atacar o primeiro banho de mar. Como apetrechos para enfrentas as ondas, eles, de chapéu, fato e gravata, tinham apenas de descalçar-se e arregaçar os canos das calças. Elas, com a melhor saia, faziam, por sua vez, a entrada triunfal na água, com aquela a fazer balão, cena merecedora de uma gloriosa aguarela do mestre Roque Gameiro. Por volta do meio-dia, tinha lugar o repasto, sob a sombra acolhedora de alguma rocha. À tarde, cansados, mas felizes, era o regresso ao lar. Para o ano seguinte, haveria mais …

– Num tempo em que os meios de comunicação social eram muito mais reduzidos, era costume as autoridades públicas afixarem editais, nas portarias da Câmara Municipal, da Junta de Freguesia ou da Regedoria, para conhecimento dos munícipes ou fregueses, ainda à semelhança do que se fazia no antigo “Forum” romano, centro cívico da capital do império.

– A iluminação doméstica comum, em meados do século, nas casas mais humildes, como a minha, era ainda feita, por norma, com o recurso ao candeeiro a petróleo, embora muitas estivessem já electrificadas.

A maior riqueza: a família não como casa, mas como lar…

25 October 2026 at 16:04

…Antony Matheus dos Santos, futebolista, de 26 anos, ponta direita, sendo canhoto, 1,72 m, a representar o Betis de Sevilha, protagonizou um bonito episódio, ao evidenciar a relação que tem com a família, ao ponto de o podermos classificar como jogando como poucos e amando – a família – como os melhores.

A sua casa foi assaltada no decorrer do jogo que opôs a sua equipa ao FCPorto, com uma difícil mas saborosa vitória da sua equipa por 3-2 para a Liga dos Campeões, como ele nos retrata: “A minha casa foi roubada numa noite que tinha tudo para ser brilhante. O que mais me revolta não é apenas a perda de material, mas a sensação de insegurança dentro do lugar onde deveríamos sentir-nos mais protegidos”, não sem que antes não deixasse uma mensagem de esperança perante o sucedido: “Tudo aquilo que perdemos [uma grande perda material, confessou], podemos conquistar novamente. Os sonhos permanecem e a vontade de vencer segue intacta”, frisou com veemência o brasileiro, que se estreou como profissional em 2018, foi campeão e craque da Copinha em 2019, tendo sido contratado pelo Manchester United com a transferência bombástica de 95M+5M€ de bónus em Agosto de 2022.

De notar que a sua casa foi assaltada, enquanto ele estava em campo no Estádio de la Cartuja, só tomando conhecimento do ocorrido no final do jogo. Vítima do mesmo ‘modus operandi’ que já tocou a outros craques, como Lamine Yamal, Benzema e outros, entram sabendo que os jogadores estão longe das residências.

E nesta referência a Antony: “Jogando como poucos e amando como os melhores”, importará sublinhar o estado de espírito revelado pelo ser humano: “Não existe bem material no Mundo que seja mais valioso do que a vida e o bem-estar da minha família (…). A nossa maior riqueza nunca esteve nos objetos dentro de casa, mas nas pessoas que fazem dela um lar”, para, em remate final, não com um, mas com os dois, talvez mesmo que de corpo e mente inteiros: “A minha maior conquista será sempre a minha família”.

Numa alusão final, a de que quanto é de saudar e aplaudir quando se descobre que a maior riqueza não é a de quando se ganha, é a que nos faz voltar a casa, ao lar!

Uma vez mais, as tais ‘coisas’ da ‘coisa desportiva’ e… não só!

*Embaixador para a Ética no Desporto, uma vez, Embaixador para sempre

Um hábito e uma reforma

25 October 2026 at 12:04

Lembro-me do que disse – salvo seja, que a cabeça já não é o que era, e não era grande coisa – Giovanni Agnelli sobre Rui Barros quando jogava em Itália. Agnelli era, na altura presidente da Juventus e terá afirmado, provavelmente num dia em que as coisas não tinham saído assim tão bem, que “não aprecio jogadores que não se vêem da bancada”, questão que não terá sido alheia à estatura do antigo internacional português, jogador da equipa. Não querendo comentar a justeza (nem a fineza da expressão), uso-a para me situar em relação ao hóquei-em-patins, modalidade praticada num país (Portugal), numa região (Catalunha); cidade (Milão) e bairro (Boca, Buenos Aires), tudo comentários dos espanhóis, sempre nossos amigos. Pois, pegando em Agnelli e nos espanhóis posso aqui deixar a seguinte ideia: não gosto de desportos, de bola, em que não se vê a bola. Posta, no papel, esta manifestação de intenções, posso dizer-vos que me aflige sempre a sina da selecção tuga nos campeonatos; dão não sei quantos a zero aos que não têm onde cair mortos, jornada após jornada. São dez a zero, doze a um e depois lá se apanha a Espanha e zás, perdemos um a zero, dois a um e assim sucessivamente. Nunca vi tantas vitórias morais como as conseguidas nos jogos contra a Espanha. Perdemos e foi a arbitragem, o piso, o calor ou da tempestade perfeita, considerando que em certas (e determinadas) condições podemos padecer (ao mesmo tempo) de má arbitragem, mau piso e calor. Desta vez, no mundial da modalidade, entrámos a perder com Espanha, o que é sempre uma variação em relação à norma. Vamos ver o que vai dar.

Escrevo na semana em que não se ouve nem vê outra coisa que não seja o orçamento de Estado. Devia ser uma ocasião de falar sobre o que está em causa, mas, na realidade, o que vejo são mais entrevistas dadas por André Ventura a tudo quanto é televisão e até a mais uma ocasião para se ouvir Pedro Passos Coelho, não sei bem para quê. E este não sei bem para quê não é retórica cá do Avarias, mas antes uma opinião alicerçada numa pergunta que eu faço: se o termo “reformas” (sempre na boca do homem do pin) é a maior muleta que qualquer oposição (e olhem que cá o rapaz, não mete prego nem estopa no governo de Montenegro) pode dirimir nos dias de hoje, por qual razão os avisados (hi,hi,hi) jornalistas não questionam quem enche a boca com as ditas. Afinal o que é que querem, por exemplo, com a reforma da educação, ou da saúde? Dizer que se quer reformar é fácil, o mais difícil é capaz de ser explicarem-nos, como se tivéssemos dez ou noventa anos (as idades unem-se como os extremos de uma linha) em que consistem tais reformas. É que – gato escaldado de água fria tem medo – já tive uma pequena amostra das tais proezas, marca de Pedro Passos Coelho, e digo-vos meus amigos, não sei se teríamos razões para contentamento. Como tal, convinha que certa malta abrisse o jogo e não papagueasse o que não passa de – aí sim – retórica, e podia ser que me convencessem. Mas conhecendo os proponentes como os conheço, penso que dali viria alguma coisa de bom, mas só para alguns.

Cancro colorretal: a importância do rastreio e do diagnóstico precoce | Por Joana Lemos Garcia e Joana Moleiro

25 October 2026 at 07:30

O cancro do cólon e recto (CCR) é o terceiro cancro mais frequente e a segunda causa de morte por cancro a nível mundial. Em Portugal, o é o tipo de cancro mais frequente em ambos os sexos, com mais de 10 000 novos casos por ano. Em média, todos os dias, 11 portugueses perdem a vida devido à doença. Embora ocorra maioritariamente em indivíduos com idade superior a 50 anos, tem-se registado um aumento da sua incidência em adultos jovens.

Como e quem rastrear?

Quando detetado atempadamente, este cancro é tratável, apresentando uma taxa de sobrevivência de 90% aos cinco anos após o diagnóstico. Em caso de diagnóstico mais tardio, a taxa de sobrevivência global aos cinco anos cai para cerca de 50%. A implementação de programas de rastreio contribui para a redução da sua incidência e mortalidade, uma vez que deteta um número superior de cancros em fase mais precoce e diminui a incidência da doença ao possibilitar a remoção de lesões precursoras.

O rastreio do CCR é realizado através de diferentes exames e estratégias, dependendo do perfil de risco do indivíduo e dos recursos disponíveis, sendo os mais utilizados a pesquisa de sangue oculto nas fezes e a colonoscopia. A colonoscopia é o método gold standard no rastreio do CCR, uma vez que combina diagnóstico e intervenção terapêutica, possibilitando a colheita de biópsias e a remoção imediata de lesões pré-cancerosas (pólipos).

Em Portugal, o programa de rastreio de base populacional destina-se a pessoas dos 50 aos 74 anos, sem critérios de risco acrescido. O método utilizado é um teste imunoquímico de pesquisa de sangue oculto nas fezes. Perante um resultado positivo o doente tem indicação para realização de colonoscopia.

Na última década, devido ao aumento de diagnósticos em idades mais jovens, as sociedades internacionais têm mudado a sua posição, recomendando que o rastreio seja iniciado aos 45 anos.

Em pessoas com risco aumentado de CCR (doença inflamatória intestinal, alterações genéticas que conferem risco acrescido de cancro, história pessoal ou familiar de pólipos ou CCR), o rastreio é habitualmente realizado por colonoscopia, com início e periodicidade individualizadas.

Quais os sintomas e sinais de alerta?

O CCR pode desenvolver-se durante anos sem provocar sintomas. Sintomas como dor abdominal, sangue nas fezes, perda de peso, alterações no trânsito intestinal, cansaço persistente, nomeadamente associado a anemia, devem motivar avaliação médica.

Como reduzir o risco de CCR?

Os fatores de risco para o desenvolvimento do CCR incluem fatores não modificáveis (sexo masculino, idade superior a 50 anos, doença inflamatória do intestino, antecedentes pessoais de CCR ou pólipos do cólon e história familiar) e fatores modificáveis, relacionados com os hábitos e estilo de vida, nomeadamente o consumo excessivo de carne vermelha e processada, uma dieta pobre em frutas e vegetais, o sedentarismo, a obesidade, os hábitos tabágicos e o consumo excessivo de álcool. O World Cancer Research Fund concluiu que 47% de todos os CCR poderiam ser prevenidos pela adoção de um melhor estilo de vida, nomeadamente com alimentação rica em hortícolas, fruta, leguminosas e cereais integrais, a prática regular de atividade física e a manutenção de um peso saudável.

Que desafios se enfrentam hoje na prevenção e acompanhamento da doença?

Apesar dos benefícios comprovados do rastreio, de acordo com dados da DGS de 2024, apenas cerca de metade da população aderiu ao rastreio proposto. É, por isso, importante reforçar a informação e a participação da população, assegurar o acesso atempado ao rastreio e garantir que os resultados positivos são seguidos da investigação necessária e, quando indicado, de tratamento.

O CCR representa um importante problema de saúde pública, mas existem medidas eficazes para reduzir o seu impacto. Participar no rastreio na idade recomendada, identificar pessoas com risco acrescido, reconhecer os sinais de alerta e adotar hábitos de vida saudáveis são passos fundamentais para a prevenção e diagnóstico precoce do CCR.

Leia também: A saúde mental também se constrói entre nós | Por Neusa Patuleia

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