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Reorganização da direita abre espaço para nova liderança da oposição, diz especialista

29 October 2026 at 21:00

A reorganização das forças políticas no Brasil após a eleição, a disputa pela liderança da oposição e a dificuldade de construir sucessores para as principais lideranças nacionais estão entre os desafios que devem marcar os próximos anos. Em entrevista à Rádio Jornal nesta quinta-feira (29), o cientista político Ernani Carvalho analisou os caminhos da direita após a saída de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, e o futuro da esquerda sem Lula (PT) como principal referência.

Na análise do especialista, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reúne condições para assumir a liderança da oposição ao presidente, mas ainda precisa definir o espaço que pretende ocupar na direita brasileira.

Para o analista, o governador tem a vantagem de comandar o estado mais rico do país e contar com projeção nacional, mais ainda é cedo para afirmar se ele buscará uma posição mais próxima do centro político ou se concentrará na articulação da direita que permanecerá na oposição ao governo federal.

“Que ele é uma liderança liderança direita, mais moderada e mais mais estruturada do que o Bolsonarismo, não há dúvida. O problema de ser uma liderança de centro é que nosso centro ele é extremamente fisiológico e não tem barreiras ideológicas que lhe lhe finquem na oposição.”

A saída de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, por sua vez, provocou incertezas entre aliados e pode afetar a articulação política da oposição. Na avaliação de Carvalho, parte dos eleitores que apoiaram o senador o fez principalmente para impedir a permanência de Lula no poder, e não necessariamente por identificação com sua figura política.

Nesse cenário, o cientista político considera que a direita poderá adotar um modelo de liderança mais compartilhado, com diferentes nomes participando das decisões, em vez de concentrar a condução política em uma única pessoa. Ele também avalia que o campo conservador avançou na organização eleitoral, com a atuação coordenada de lideranças nacionais e regionais.

“Você tinha o Nikolas [Ferreira], você tinha o Tarcísio [de Freitas], você tinha o [Lucas] Pavanato, você tinha como é o nome do braço direito dele, Rogério Marinho. Então, há uma diversidade de lideranças que estavam junto com Flávio tomando as decisões e ele ouvia essas pessoas”.

Apesar desse avanço organizacional, Carvalho aponta que a saída de Flávio pode gerar desconfiança entre eleitores que apoiaram sua candidatura como alternativa ao PT. Para ele, o episódio reforça a necessidade de o campo conservador construir uma liderança capaz de manter essa base eleitoral e dar continuidade à articulação política da direita.

Esquerda enfrenta desafio para encontrar sucessor de Lula

Na avaliação do cientista político, a sucessão de Lula também representa um problema para o campo progressista. Carvalho considera que o presidente concentra uma força política que dificultou a consolidação de outros nomes do PT com projeção nacional. Entre os possíveis quadros para ocupar esse espaço, Carvalho cita Fernando Haddad, João Campos e Camilo Santana.

O analista ressalta, porém, que uma parcela expressiva dos eleitores de Lula não se identifica necessariamente com o PT ou com a esquerda. Por isso, a escolha de um sucessor exigirá mais do que a indicação de um nome dentro do partido: será necessário encontrar uma liderança capaz de atrair eleitores que apoiam pessoalmente o presidente.

“Lula é aquela árvore frondosa que nada nasce ao qualquer lugar, e agora é uma preocupação. Eu acho que é um desafio para a esquerda, até porque uma parte significativa dos votos que elegeram o Lula agora na reta final, não são de esquerda também.”

Carvalho atribuiu parte do resultado eleitoral à capacidade da campanha petista de conquistar eleitores durante o segundo turno. Ele citou mudanças nas propostas apresentadas nesse período e a estratégia de comunicação da campanha, que, segundo sua análise, ajudaram a ampliar o apoio ao presidente para além de sua base mais fiel.

Próximo governo terá de negociar com o Congresso

A relação com o Legislativo será outro desafio para o presidente Lula. Carvalho explica que o presidencialismo de coalizão exige negociações para ampliar a base parlamentar do governo, o que pode envolver acordos sobre a distribuição de cargos e a participação de partidos na administração federal.

O cientista político também destaca que a polarização política deve dificultar a construção de consensos. Na avaliação dele, a resistência de parcelas expressivas do eleitorado aos dois principais campos políticos poderá se refletir nas decisões de deputados e senadores e aumentar o custo das negociações para o Executivo.

“Muitas vezes essa ampliação, ela significa, de certa forma, alteração no, no projeto de governo. Na, na forma como governar. Na divisão é, é, dos cargos públicos.”

Entre os pontos que podem gerar disputas, Carvalho menciona as indicações para tribunais superiores e as negociações políticas no Senado. O cientista político avalia que a articulação entre Executivo e Legislativo será determinante para a estabilidade da próxima gestão.

Disputa no Senado pode ampliar tensão com o STF

A eleição para a presidência do Senado também deverá influenciar a relação entre os Poderes. Carvalho citou as discussões sobre a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como um dos temas que permanecerão no centro da disputa política.

Para o analista, a necessidade de negociar apoio parlamentar, somada às divergências sobre a atuação do Judiciário, pode criar dificuldades adicionais para o governo. Ele apontou a relação com o Supremo como uma das primeiras questões institucionais que Lula terá de enfrentar.

“No Senado tem a ver também com a eleição para a Mesa Diretora, a gente se colocando entre as propostas ali para presidir o Senado é dizer se vai ou se não vai dar andamento ao impeachment de ministros do STF.”

© Joédson Alves/Agência Brasil

O candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), fala com jornalistas após ser derrotado no segundo turno das eleições pelo candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
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