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Investigação da UAlg revela que a pedra foi decisiva para a sobrevivência dos primeiros humanos nos desertos da Arábia

29 October 2026 at 15:29

Uma equipa internacional de investigadores, liderada por Jeffrey Rose, do Centro Interdisciplinar em Arqueologia e Evolução do Comportamento Humano (ICArEHB) da Universidade do Algarve (UAlg), concluiu que a disponibilidade de pedra adequada ao fabrico de ferramentas foi determinante para a instalação dos primeiros humanos nos desertos da Península Arábica, contrariando a ideia de que a existência de água doce seria suficiente para determinar os locais de fixação das populações pré-históricas.

O estudo, publicado na revista científica Nature com o título “Stone and water governed early human settlement of the desert”, demonstra que a ocupação humana estava condicionada pela presença simultânea de água e de rochas que pudessem ser utilizadas na produção de instrumentos.

A investigação resulta de trabalhos arqueológicos e geológicos realizados na Península Arábica, incluindo uma expedição de cerca de 1.500 quilómetros pelo Rub’ al Khali, considerado o maior deserto de areia do mundo.

Expedição identificou 55 antigos lagos, mas nenhuma ferramenta de pedra

Durante vários períodos da pré-história, as chuvas de monção transformaram extensas áreas da Península Arábica em paisagens com lagos e pradarias, dando origem ao que os investigadores designam por “Arábia Verde”.

Até agora, os modelos científicos sobre a dispersão do Homo sapiens a partir de África atribuíam à disponibilidade de água o papel principal na escolha dos locais de ocupação humana.

No entanto, esta hipótese ainda não tinha sido testada diretamente no terreno.

Antigo leito de lago no Rub’ al Khali (em cima); superfície coberta de sílex com ferramentas de pedra, Dhofar, Omã (em baixo). Créditos: Rudolf W. Dellmour (em cima); Jeffrey I. Rose (em baixo)

No final de 2023, uma equipa de investigadores percorreu cerca de 1.500 quilómetros pelo deserto de Rub’ al Khali, no sul da Península Arábica, para procurar vestígios de antigos ambientes de água doce e sinais de presença humana.

O geólogo Rudolf Dellmour, da Universidade de Viena e primeiro autor do estudo, examinou 125 locais, tendo identificado vestígios de antigos lagos em 55 deles.

Estes ambientes aquáticos existiram há aproximadamente 122 mil a 67 mil anos, num período em que havia populações humanas instaladas nas margens do deserto.

Apesar da presença de água no passado, os investigadores não encontraram qualquer ferramenta de pedra no interior do território, nem rochas adequadas ao seu fabrico.

A explicação, segundo a equipa científica, está nas características geológicas da região. As rochas que podiam ser trabalhadas para produzir ferramentas encontravam-se à superfície apenas nas margens do deserto, permanecendo enterradas a grande profundidade sob areia e salinas nas restantes áreas.

Mesmo quando os lagos voltaram a formar-se após a última Idade do Gelo, o interior do deserto continuou sem apresentar vestígios de ocupação humana.

Rudolf Dellmour destacou a diversidade de vestígios naturais encontrados durante os trabalhos de campo, contrastando com a ausência de instrumentos produzidos pelos primeiros humanos.

“Onde existiram os antigos lagos, encontrámos conchas de caracóis e de amêijoas de água doce, fragmentos de casca de ovo de avestruz e as galerias de animais que viveram outrora na lama do lago. Se conseguíamos avistar uma concha de caracol do tamanho de uma unha, também teríamos avistado uma ferramenta de pedra. Mas não havia nenhuma”, explicou o investigador.

Modelo científico revela que a água não era suficiente para garantir ocupação humana

Perante os resultados da expedição, a equipa decidiu alargar a investigação a outras regiões da Península Arábica, desenvolvendo um modelo que cruza a disponibilidade de água com a existência de rochas adequadas à produção de ferramentas.

Para isso, os cientistas recorreram a mais de duas décadas de prospeções arqueológicas realizadas em Omã, que permitiram identificar os locais onde existiam matérias-primas utilizáveis.

Os resultados demonstraram que os sítios arqueológicos conhecidos se concentram nas zonas onde os dois recursos estavam disponíveis em simultâneo.

A investigação revelou ainda que mais de metade do território da Arábia com acesso a água se encontra sobre formações geológicas que não disponibilizam pedra adequada ao fabrico de ferramentas.

Os autores comparam a antiga “Arábia Verde” a um arquipélago, no qual as áreas com água e pedra funcionavam como ilhas capazes de atrair populações humanas, separadas por extensões de território onde a água estava presente, mas faltavam materiais para produzir instrumentos.

Esta interpretação sugere que os modelos de ocupação humana baseados exclusivamente nas condições climáticas e na disponibilidade de água poderão sobrestimar as áreas efetivamente acessíveis às populações pré-históricas.

Os investigadores identificaram padrões semelhantes em regiões áridas de África, da Ásia e da América do Norte, admitindo que a dependência de matérias-primas para fabricar ferramentas poderá ter condicionado a expansão humana em diferentes continentes.

Investigador da Universidade do Algarve destaca importância das ferramentas de pedra

Jeffrey Rose, investigador do ICArEHB da Universidade do Algarve, dirige trabalhos de prospeção arqueológica em Omã desde 2002 e concebeu o estudo em colaboração com Rudolf Dellmour.

O investigador reconhece que os resultados obrigam a reconsiderar algumas das hipóteses anteriormente utilizadas para explicar a dispersão dos primeiros humanos pela Península Arábica.

“Todos os que trabalham sobre as primeiras dispersões humanas na Arábia, eu incluído, assumiram que, se encontrássemos a água, encontraríamos as pessoas. O que vinte e cinco anos em Omã acabaram por me ensinar é que as pessoas que dependem de ferramentas de pedra nunca se afastam muito de boa pedra”, esclareceu Jeffrey Rose.

A equipa científica reuniu especialistas de várias instituições internacionais, incluindo investigadores da Universidade do Algarve.

Emily Coco, do ICArEHB, foi responsável pela construção do modelo científico, enquanto Roman Garba, da Academia das Ciências da República Checa, contribuiu para alargar a sua aplicação aos desertos de diferentes regiões do mundo.

Metin Eren e Michelle Bebber, da Universidade Estadual de Kent, desenvolveram a explicação sobre os processos de povoamento de novos territórios pelas primeiras populações humanas.

Participaram também Osama Samawi, do ICArEHB; Mohammed Al Kindi, do Earth Sciences Consultancy Centre, em Mascate; Mathias Harzhauser, do Museu de História Natural de Viena; e Ali Al Mahrooqi, do Ministério do Património e do Turismo de Omã.

Trabalhos arqueológicos não envolveram escavações nem recolha de materiais

A investigação realizada no Rub’ al Khali baseou-se em métodos de observação não invasivos, sem recurso a escavações ou recolha de materiais arqueológicos.

Mapa da água e da pedra na Arábia, com o percurso da expedição (adaptado do artigo) – Adaptado de Dellmour et al., Nature (2026), CC BY 4.0

Os investigadores documentaram as observações através de fotografias e registos de GPS, não tendo recolhido artefactos, sedimentos ou espécimes.

Em Omã, os trabalhos de campo decorreram ao abrigo de licenças atribuídas pelo Ministério do Património e do Turismo.

O modelo desenvolvido pela equipa foi disponibilizado em código aberto, permitindo que outros investigadores o utilizem no estudo de regiões áridas em diferentes partes do mundo.

Investigação do Algarve contou com financiamento europeu

João Cascalheira, diretor do ICArEHB, destacou a importância da investigação para aprofundar o conhecimento sobre a evolução humana e demonstrar o contributo da colaboração entre diferentes áreas científicas.

“Este é o tipo de trabalho para o qual o ICArEHB existe, combinando trabalho de campo de longa duração, geologia e modelação computacional para responder às grandes questões da evolução humana. Dois projetos do Conselho Europeu de Investigação sediados no Centro apoiaram este estudo, e o modelo aberto que daqui resultou será útil a investigadores muito para além da Arábia”, afirmou.

O estudo foi financiado por dois projetos do Conselho Europeu de Investigação sediados no ICArEHB da Universidade do Algarve: o projeto DISPERSALS (101052761), coordenado por Nuno Bicho, através de uma Bolsa Avançada, e o FINISTERRA (101045506), coordenado por João Cascalheira, através de uma Bolsa Consolidator.

A publicação em acesso aberto contou com financiamento da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), através do projeto UID/04211/2025 do ICArEHB.

A investigação beneficiou ainda de financiamento da Academia das Ciências da República Checa, através do programa Praemium Academiae, da Universidade Estadual de Kent e da Adventure Lab Association, de Viena, além de apoio logístico da Nokian Tyres.

Os resultados publicados na Nature introduzem, assim, uma nova perspetiva sobre a ocupação humana dos territórios desérticos, demonstrando que a disponibilidade de água, embora essencial, não era suficiente para determinar os locais onde as primeiras populações conseguiam estabelecer-se.

O estudo pode ser consultado aqui.

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ANT GAMES reúnem mais de 5.000 pessoas em quatro dias de atividades em Albufeira

29 October 2026 at 08:40

A quarta edição dos ANT GAMES reuniu mais de 5.000 participantes em quatro dias de atividades educativas, desportivas e comunitárias, realizadas em Albufeira e na Guia, nos dias 15, 16, 17 e 21 de outubro. A iniciativa envolveu 36 entidades parceiras e cerca de 400 voluntários, mobilizando alunos de diferentes níveis de ensino, professores, famílias, clubes e associações.

Organizado pelo Agrupamento de Escolas de Albufeira Poente, pela Junta de Freguesia de Albufeira e Olhos de Água, pela Junta de Freguesia da Guia e pela Associação Albufeira Activa, o evento procurou aproximar a comunidade escolar das instituições locais, através de experiências ligadas ao desporto, à ciência, ao ambiente e à cidadania.

As atividades decorreram nos Campos Sintéticos do Estádio Municipal de Albufeira, no Parque de Vale de Faro e na Escola Básica da Guia, onde teve lugar o encerramento da quarta edição.

Desporto, ciência e cidadania mobilizaram alunos e famílias

Nos dias 15 e 16 de outubro, o Estádio Municipal de Albufeira recebeu alunos de vários níveis de ensino, distribuídos por diferentes períodos do dia.

As manhãs foram reservadas às crianças do 1.º ciclo, enquanto as tardes se destinaram aos alunos dos 2.º e 3.º ciclos e do ensino secundário.

Ao longo das sessões, os participantes percorreram estações temáticas dedicadas a modalidades desportivas individuais e coletivas, jogos de tabuleiro, experiências científicas, ambiente, proteção civil e cidadania.

O programa prosseguiu a 17 de outubro, no Parque de Vale de Faro, com uma jornada aberta à comunidade. Entre as iniciativas realizadas estiveram apresentações de cinotecnia, demonstrações de suporte básico de vida, aulas de hip hop e atividades desportivas, com a participação de várias instituições parceiras.

O encerramento decorreu a 21 de outubro, na Escola Básica da Guia, com uma manhã especialmente dirigida às crianças do pré-escolar, dos 1.º e 2.º ciclos da freguesia e da creche.

A programação incluiu ainda a apresentação da exposição “Move-te Por Valores”, do Instituto Português do Desporto e Juventude (IPDJ).

Dinis Nascimento, presidente da Junta de Freguesia da Guia, destacou a importância da colaboração entre as instituições envolvidas.

“O apoio ao movimento associativo é uma prioridade desta Junta e vai continuar a ser. Trabalhamos com estes parceiros ao longo de todo o ano, e é desse trabalho que nascem dias como este para as nossas crianças. Agradeço a quem se envolveu e renovo o compromisso: a Junta estará sempre disponível para apoiar projetos que acrescentem pedagogicamente à educação das nossas crianças”, afirmou.

Cerca de 150 alunos dos cursos profissionais participaram na organização

Além da vertente educativa e desportiva, os ANT GAMES proporcionaram uma experiência de formação prática a cerca de 150 alunos dos cursos profissionais da Escola Secundária de Albufeira.

Os estudantes das áreas de Desporto, Ação Educativa, Massagem e Estética, Restauração e Bar e Multimédia assumiram funções específicas durante o evento, com horários e responsabilidades definidos.

Entre as tarefas desempenhadas estiveram o acolhimento dos parceiros, o acompanhamento das turmas, o funcionamento do bar e da cafetaria, a realização de massagens às mãos dos participantes mais novos e a cobertura fotográfica e audiovisual das atividades.

Dulce Prata, diretora do Curso Profissional de Multimédia, fez um balanço positivo da participação dos estudantes.

“Capturar o movimento, a emoção e a energia do desporto foi um desafio superado com distinção”, salientou.

Parcerias reforçaram ligação entre escolas e comunidade

A quarta edição dos ANT GAMES contou com a colaboração de 36 entidades parceiras, incluindo associações desportivas, instituições de ensino, organismos públicos e organizações ligadas ao ambiente, à ciência e à intervenção social.

Entre as entidades envolvidas estiveram os Bombeiros Voluntários de Albufeira, a GNR, o Comité Olímpico de Portugal, o IPDJ, a Agência Portuguesa do Ambiente, a CPCJ de Albufeira, a Santa Casa da Misericórdia de Albufeira, o Zoomarine, a Águas do Algarve, o Europe Direct Algarve e o Centro Ciência Viva de Lagos.

Participaram também diversas associações e clubes desportivos, como o Atlético Clube de Albufeira, o Clube de Basquete de Albufeira, o Imortal Basket, o Imortal DC, o Karaté Clube de Albufeira, o CD Areias São João e o FC Ferreiras, entre outras entidades.

Marta Galego, da Decathlon, parceira desportiva oficial do evento, destacou o contributo das iniciativas para o desenvolvimento pessoal e social dos participantes.

“Estas atividades permitem às crianças desenvolver competências sociais, reforçar valores como o respeito, a cooperação e o trabalho em equipa, ao mesmo tempo que criam momentos de partilha e aproximação entre instituições e comunidade local”, referiu.

Também Filipa Duarte, do Atletismo do CD Areias São João, salientou a importância de incentivar a prática desportiva desde cedo.

“Os ANT GAMES são uma excelente oportunidade para aproximar crianças e jovens do desporto, promovendo o espírito de equipa e o gosto pela atividade física. Esta iniciativa reforça também a importância da colaboração entre escolas, instituições e comunidade na formação e desenvolvimento dos mais novos”, afirmou.

Ciência, inclusão e competências sociais também estiveram em destaque

A componente científica e a promoção de competências sociais ocuparam igualmente um lugar na programação.

Hélder Ferreira, do Centro Ciência Viva de Lagos, considerou que “eventos como os ANT GAMES desempenham um papel fundamental na democratização do conhecimento, provando que a ciência pode, e deve, chegar a todos de forma acessível, prática e inspiradora”.

Por sua vez, Filipa Almeida, da Águas do Algarve, classificou estas iniciativas como “um verdadeiro exercício de cidadania e uma oportunidade de aprendizagem muito real fora da sala de aula”.

A participação da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Albufeira procurou reforçar a proximidade com as famílias e sensibilizar para os direitos das crianças.

Tânia Baptista, presidente da CPCJ de Albufeira, destacou que a iniciativa permitiu às crianças brincar, aprender e participar na vida da comunidade, recordando que o direito à participação e à expressão deve ser assegurado a todas.

A Prime Skills dinamizou atividades orientadas para o desenvolvimento de competências como a comunicação, a empatia, o trabalho em equipa e a resolução de problemas.

Já o IPDJ marcou presença através dos programas Cuida-te e APPtiva, destinados à promoção do bem-estar físico e psicológico dos jovens.

Susana Fialho, do IPDJ Faro, salientou que esta participação permitiu aproximar jovens, famílias e comunidade de respostas dirigidas à promoção de uma juventude mais informada, ativa e saudável.

A edição de 2026 contou ainda com o apoio institucional do Comité Olímpico de Portugal, através do Programa de Educação Olímpica, e do IPDJ, tendo a Decathlon assumido o papel de parceira desportiva oficial.

Com mais de 5.000 participantes, 36 entidades parceiras e cerca de 400 voluntários, os ANT GAMES encerraram a quarta edição depois de quatro dias dedicados à aprendizagem, ao convívio e à participação comunitária no concelho de Albufeira.

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