
A retirada de moradores de Oleshki, cidade ucraniana ocupada pela Rússia desde 2022 e devastada pelos combates, começou nesta sexta-feira, após um cessar-fogo humanitário mediado pela primeira-dama dos Estados Unidos, Melania Trump. A trégua, iniciada na terça-feira e prevista para terminar no domingo, permitiu a abertura de um corredor de deslocamento para a população, que enfrenta há meses a escassez de alimentos, água e medicamentos.
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Localizada na região de Kherson, na linha de frente da guerra, Oleshki tinha cerca de 24 mil habitantes antes da invasão russa em larga escala, em fevereiro de 2022. Atualmente, a população é estimada em apenas 2 mil pessoas. Além da falta de comida e remédios, os moradores enfrentam a ausência de gás, eletricidade e água encanada.
O cessar-fogo anunciado por Melania na semana passada permitiu a retirada de minas terrestres da estrada utilizada para deixar a cidade. Os moradores interessados em deixar a região tiveram uma janela de quatro horas para a retirada, e um comboio de 25 ônibus foi mobilizado para transportar até 750 pessoas. Ambulâncias também foram usadas para ajudar no deslocamento de moradores com mobilidade reduzida.
Um pequeno grupo de jornalistas estrangeiros foi convidado a acompanhar a retirada, que Moscou deverá apresentar como uma missão humanitária. Muitos ucranianos, no entanto, suspeitam que a verdadeira intenção da Rússia seja conquistar reconhecimento junto à Casa Branca e proporcionar um impulso político ao presidente americano, Donald Trump, às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato nos EUA, marcadas para a próxima semana.
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Autoridades de ambos os lados do conflito chegaram à cidade nesta sexta para supervisionar a operação. Entre elas estavam o comissário de Direitos Humanos da Ucrânia, Dmitro Lubinets, e sua homóloga russa, Yana Lantratova, que viajaram juntos a Oleshki a partir de Armiansk, na península da Crimeia, também ocupada por Moscou. A visita de Lubinets marcou a primeira vez, desde o início da guerra, que uma autoridade ucraniana entrou em uma área do país sob ocupação russa.
“A retirada e a distribuição de ajuda humanitária começaram”, anunciou o negociador ucraniano David Arakhamia nas redes sociais.
Longo caminho
Lantratova publicou um vídeo mostrando grupos de moradores aguardando para embarcar nos ônibus. Segundo a representante russa, os habitantes tiveram a oportunidade de escolher entre seguir para territórios controlados por Moscou ou para regiões da Ucrânia sob controle de Kiev. Lubinets também divulgou imagens da operação, nas quais aparece conversando com moradores emocionados, alguns deles chorando e enxugando as lágrimas enquanto lhe agradeciam.
Oleshki fica a apenas cinco quilômetros de distância do território controlado pela Ucrânia, mas os moradores que optarem por retornar às áreas administradas por Kiev terão de seguir um longo trajeto. Primeiro, eles serão transportados por territórios ocupados pela Rússia até a cidade de Anapa, no sul do país. Depois, embarcarão em um avião do governo russo com destino a Gomel, na Bielorrússia, antes de atravessar a fronteira por terra até a região ucraniana de Chernihiv.
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Lubinets deverá acompanhar os deslocados durante o retorno à Ucrânia, previsto para sábado, tornando-se também a primeira autoridade ucraniana a visitar a Rússia desde o início da guerra. A operação exigiu uma estreita cooperação com Lantratova, que o representante ucraniano afirmou ter conduzido com o objetivo de “salvar vidas”.
A aproximação, no entanto, provocou críticas entre ucranianos, que reagiram à imagem de Lubinets ao lado de uma representante do país responsável pela ocupação da cidade.
Moradores decidem ficar
Embora a operação tenha permitido a saída de parte da população, estima-se que várias centenas de moradores tenham decidido permanecer em Oleshki, apesar das condições precárias e da possibilidade de retomada dos combates. Autoridades dos dois países reconheceram que algumas pessoas não desejam abandonar suas casas, mesmo diante da devastação e da ausência de serviços básicos.
— Todos os que desejarem deixar Oleshki terão a oportunidade de fazê-lo em segurança. Ao mesmo tempo, aqueles que decidirem permanecer poderão ficar e receberão toda a assistência humanitária necessária — afirmou Lubinets.
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Em um dos vídeos publicados nas redes sociais, o representante ucraniano aparece conversando com moradores que decidiram permanecer na cidade. Ele manifestou preocupação com a quantidade de pessoas que não pretendem partir e afirmou que as autoridades trabalhariam para garantir o fornecimento de ajuda humanitária.
— O problema é que muitas pessoas estão ficando. Disseram que foi uma escolha delas. Faremos todo o possível para garantir a chegada da ajuda humanitária — declarou.
Na quinta-feira, a Rússia informou que havia preparado “dezenas de toneladas” de suprimentos para os habitantes que não desejassem deixar Oleshki. A assistência inclui alimentos, medicamentos, produtos de higiene e combustível para geradores de energia, em uma tentativa de atender às necessidades básicas da população.
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Uma moradora de Oleshki disse à BBC que decidiu não participar da retirada porque não poderia levar seus animais. Outra ucraniana, identificada como Olena, que atualmente vive em Kiev, contou que sua avó e outros familiares também optaram por permanecer na cidade. A resistência à retirada, disse, é particularmente forte entre os mais velhos.
— A geração mais velha não quer ir embora. Mal consegui convencer meu pai, e apenas porque acabei de ter um bebê, que ele nunca conheceria se não saísse de lá — disse.
Trégua localizada
Em seu quarto dia, o cessar-fogo representa a mais longa interrupção dos combates em qualquer ponto da linha de frente desde o início da guerra. Outras tentativas de estabelecer tréguas parciais, incluindo acordos durante a Páscoa ortodoxa, foram marcadas por acusações de violações entre os dois lados. Moradores de Kherson disseram estar “radiantes”, mas manifestaram preocupação de que a pausa tenha permitido à Rússia reforçar sua presença militar às margens do rio Dnipro.
Apesar da suspensão temporária das hostilidades na região de Kherson, os ataques russos continuaram em outras partes da Ucrânia. Na cidade de Dnipro, no sudeste do país, cerca de 200 mil casas ficaram sem energia elétrica nesta sexta-feira após bombardeios realizados durante a madrugada, segundo autoridades locais.
Na quinta-feira, um ataque com drone contra uma estação ferroviária de Dnipro matou pelo menos 14 pessoas. Outro ataque, desta vez contra a cidade de Chernihiv, no norte da Ucrânia, provocou a morte de duas adolescentes. O Kremlin, por sua vez, deixou claro que o sucesso da operação em Oleshki não deveria ser interpretado como uma disposição de Moscou para estender o cessar-fogo ao restante do território ucraniano.
(Com AFP)