Um hábito e uma reforma

Lembro-me do que disse – salvo seja, que a cabeça já não é o que era, e não era grande coisa – Giovanni Agnelli sobre Rui Barros quando jogava em Itália. Agnelli era, na altura presidente da Juventus e terá afirmado, provavelmente num dia em que as coisas não tinham saído assim tão bem, que “não aprecio jogadores que não se vêem da bancada”, questão que não terá sido alheia à estatura do antigo internacional português, jogador da equipa. Não querendo comentar a justeza (nem a fineza da expressão), uso-a para me situar em relação ao hóquei-em-patins, modalidade praticada num país (Portugal), numa região (Catalunha); cidade (Milão) e bairro (Boca, Buenos Aires), tudo comentários dos espanhóis, sempre nossos amigos. Pois, pegando em Agnelli e nos espanhóis posso aqui deixar a seguinte ideia: não gosto de desportos, de bola, em que não se vê a bola. Posta, no papel, esta manifestação de intenções, posso dizer-vos que me aflige sempre a sina da selecção tuga nos campeonatos; dão não sei quantos a zero aos que não têm onde cair mortos, jornada após jornada. São dez a zero, doze a um e depois lá se apanha a Espanha e zás, perdemos um a zero, dois a um e assim sucessivamente. Nunca vi tantas vitórias morais como as conseguidas nos jogos contra a Espanha. Perdemos e foi a arbitragem, o piso, o calor ou da tempestade perfeita, considerando que em certas (e determinadas) condições podemos padecer (ao mesmo tempo) de má arbitragem, mau piso e calor. Desta vez, no mundial da modalidade, entrámos a perder com Espanha, o que é sempre uma variação em relação à norma. Vamos ver o que vai dar.
Escrevo na semana em que não se ouve nem vê outra coisa que não seja o orçamento de Estado. Devia ser uma ocasião de falar sobre o que está em causa, mas, na realidade, o que vejo são mais entrevistas dadas por André Ventura a tudo quanto é televisão e até a mais uma ocasião para se ouvir Pedro Passos Coelho, não sei bem para quê. E este não sei bem para quê não é retórica cá do Avarias, mas antes uma opinião alicerçada numa pergunta que eu faço: se o termo “reformas” (sempre na boca do homem do pin) é a maior muleta que qualquer oposição (e olhem que cá o rapaz, não mete prego nem estopa no governo de Montenegro) pode dirimir nos dias de hoje, por qual razão os avisados (hi,hi,hi) jornalistas não questionam quem enche a boca com as ditas. Afinal o que é que querem, por exemplo, com a reforma da educação, ou da saúde? Dizer que se quer reformar é fácil, o mais difícil é capaz de ser explicarem-nos, como se tivéssemos dez ou noventa anos (as idades unem-se como os extremos de uma linha) em que consistem tais reformas. É que – gato escaldado de água fria tem medo – já tive uma pequena amostra das tais proezas, marca de Pedro Passos Coelho, e digo-vos meus amigos, não sei se teríamos razões para contentamento. Como tal, convinha que certa malta abrisse o jogo e não papagueasse o que não passa de – aí sim – retórica, e podia ser que me convencessem. Mas conhecendo os proponentes como os conheço, penso que dali viria alguma coisa de bom, mas só para alguns.