Crucifixo de papel

21 – O sorriso cínico do tirano
Afinal o planeta não se extinguiu na madrugada de 1 de janeiro de 2012 e o fim do mundo adiou-se para data incerta.
Assim sendo, na semana seguinte Lúcia e Luana partiram no autocarro das cinco da manhã rumo a Lisboa, ao Hospital Júlio de Matos, para a perícia psicológica forense a que o tribunal de menores as submetera a mando da Juíza que, por preguiça, negligência ou mero despotismo, se absteve de fazer o seu trabalho. Ou os pais se entendem, ou a criança será entregue a um orfanato, disse ainda.
Vestidas com quispos, cachecóis, luvas e gorros, viajaram na esperança de uma salvação – um relatório que testemunhasse as competências parentais e idoneidade da progenitora -, já que a meritíssima não dava mostras de aptidão para lidar com um processo tão extenso e confuso. Não havia semana que Miguel não anexasse novos requerimentos. Denúncias sem factos que as comprovassem, às quais Lúcia respondia – por uma questão de autodefesa – mal aconselhada pela advogada oficiosa.
Aonde é que vamos, mãe, hoje eu não vou à escola.
Não, hoje não, nós vamos a um sítio longe falar com uma senhora.
Qual senhora, porquê.
Vamos só responder a umas perguntas que ela nos vai fazer para se decidir quantos dias ficas com o pai e quantos dias ficas com a mãe.
E por que é que tem de ser essa senhora a escolher.
Não é essa senhora que escolhe, ela só quer saber se tu estás bem com o pai e com a mãe, hoje vais com a mãe, e depois noutro dia vais lá com o pai.
E por que é que não posso ser eu a escolher quando quero estar contigo e quando quero estar com o pai.
Porque as crianças ainda não sabem o que é melhor para elas.
Mas eu sei.
Uns dias antes da audiência a advogada de Lúcia caiu do cavalo e ficou temporariamente impossibilitada de trabalhar, passando o caso para um colega. O relatório forense havia chegado e vinha reforçar a esperança, clarificava a postura de ambos e a repercussão que tinham na vida da criança. A alínea mais flagrante dizia assim, Durante a consulta, quando o progenitor foi chamado para entrar na sala onde se encontrava a menor com a psicóloga, a menina proferiu a seguinte frase: “Pai, eu já disse à senhora aquilo que tu disseste para eu dizer, de a Paula me bater”; verificando-se o discurso colado ao de um adulto e por este manipulado.
Por esse episódio, Luana pagou caro. Miguel não se inibiu de a violentar com castigos, ofensas e agressões físicas durante o caminho de regresso a casa.
Lúcia olhava aquela mulher lapídea, envolvida pelo negro da veste talar como um morcego sedento, e tremia de medo na cadeira periférica que lhe fora destinada. O coração retumbante ecoava-lhe desde o peito até aos confins de si, a ponto de quase ensurdecer para o timbre que ditava a sentença. Só a muito custo pode ouvir, ao longe e já fora de pé, a voz que decretava guarda partilhada em sistema de residência alternada e exercício das responsabilidades parentais em comum. Pôde ainda decifrar a voz do advogado substituto a referir a avaliação psicológica, como contestação da decisão. E perante a resposta da morcega, que alegou despudorada que os psicólogos escrevem o que querem, desmoronou.
Incapaz de reagir, saiu com urgência daquela caverna sepulcral para desaguar o pranto lá fora, na berma da zona de engenho. Guete, que aguardava no átrio do tribunal, segurou-lhe os soluços com braços de irmã e, mesmo sem saber a causa daquele desespero, sussurrou-lhe ao ouvido uma promessa de luta.
Lúcia, amiga, eu te juro em nome de Jesus que não vou permitir que nada de mal aconteça com a minha afilhada, a Luana não vai ser injustiçada por esse bando de cafajestes, eu vou até onde for preciso, minha amiga, eu te juro, confia em mim.
Ao fundo do corredor, Miguel caminhava de cabeça erguida e fitou Margarete esboçando nos lábios o sorriso cínico dos tiranos.
No distrito a que pertence Baía dos Lobos, o advogado Lúcio Miguel Amarante era o mais conceituado em Direito de Família e Menores. E foi a ele que Lúcia recorreu, impulsionada por Guete – que o descobrira numa busca online – para expor o caso e pedir tutela.
Mas, Guete, e essa grana toda, cadê, onde é que eu vou conseguir os dois mil euros para pagar esse advogado, meu Deus.
Eu já te falei que você não está sozinha, não já, o salão está indo bem e eu vou ajudar você, falei com Cida também, João herdou a fortuna do Coronel, e a Paula já não te falou que vai ajudar, também, vamos s’embora, mulher, vamos brigar por justiça, sua filha não pode ficar nas mãos desse monstro, não.
Lúcia e Paula compareceram às reuniões com o doutor Lúcio Miguel Amarante com a mesma esperança que um arrastado que vislumbra ao ver, na margem da corrente, o último tronco ao qual se pode agarrar.
O advogado honrou os seus pergaminhos e três meses mais tarde o acórdão da Relação veio restituir Luana à dignidade que lhe era devida por direito.
(próximo capítulo: edição 12 de novembro)
