Subida pós-Covid ainda deixa poupança longe dos anos 80

Um país onde continua a faltar a literacia financeira, onde a poupança caiu a pique desde a crise financeira e fica sistematicamente abaixo da média europeia, mesmo depois do reforço dado pela pandemia: assim é o retrato da capacidade de poupar das famílias portuguesas, que, apesar das dificuldades em colocarem de parte rendimento, têm conseguido reduzir o rácio de endividamento dos três dígitos para abaixo de 80%.
O ano passado fechou com uma taxa de poupança de 12,13% do rendimento disponível das famílias em Portugal, um valor que continua a ficar abaixo dos 14,31% de média da UE no mesmo ano e ainda mais longe da média nacional entre 1974 e 1999, que se fixou em 20,72%, de acordo com os dados do Banco de Portugal (BdP) e Eurostat.
A comparação com a média europeia até melhorou consideravelmente nos últimos anos, sobretudo após a Covid-19 e depois da queda sustentada desde os anos 80 até à crise financeira, mas de forma insuficiente para fazer com que Portugal se situasse acima do indicador comunitário. Mais concretamente, a diferença para a média europeia desceu de cerca de 6 pontos percentuais (pp) entre 2014 e 2020 para pouco mais de 2pp em 2025, sendo que as taxas de poupança nacional na casa dos 12% em 2024 e 2025 foram máximos não vistos desde 2002.
Precisamente olhando para o início deste século, é notória a diferença entre a capacidade de poupar das famílias. Desde a chegada da democracia, em 1974, até 1990, apenas por uma vez a taxa de poupança ficou abaixo de 20%, em 1988; mas desde 1991 que não se voltaram a verificar observações desta magnitude, com o indicador a recuar consistentemente entre 1992 e 2008, à exceção de 1998 e 2001.
Entre 1974 e 1990, só por uma vez a taxa de poupança ficou abaixo de 20%, em 1988. Desde 1991 que não se voltaram a verificar observações desta ordem, com recuos entre 1992 e 2008
Foi uma queda que levou a taxa de poupança à casa das unidades, de onde não saiu até 2020, ano em que o consumo foi fortemente restringido à boleia da Covid-19. Desde a entrada em vigor da moeda única, em 2002, até ao ano da pandemia, as famílias conseguiram poupar em média 8,91% do seu rendimento disponível bruto — ou seja, menos de metade, em termos relativos, do que se registava na história democrática do país no século XX.
Aplicação da poupança em Portugal escasseia…
Apesar da recuperação recente da poupança nacional, o investimento continua a fraquejar. Apenas 28% dos portugueses afirmam ter produtos de poupança para a reforma e mais de metade, 55%, diz não ter capacidade para colocar de lado fundos, isto de acordo com os dados da ASF – Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões divulgados esta semana.
No caso dos jovens, esta realidade é ainda pior, com apenas 17% a reportar qualquer tipo de produto financeiro destinado à poupança para a reforma. Entre os reformados, 53% admitia ter sido benéfico poupar mais durante a vida ativa, ilustrando a dependência das gerações mais velhas do sistema público de pensões.
Precisamente nessa linha, 35% dos inquiridos aponta como principal motivo para constituir uma poupança a necessidade de complementar os rendimentos mais fracos associados à idade de reforma, atrás apenas de criar uma reserva financeira, opção que reuniu 38% das respostas.
Contudo, a aplicação das poupanças é fraca e pouco ambiciosa. Três quartos dos inquiridos diz conhecer produtos financeiros como os planos poupança reforma (PPR), certificados de aforro e do Tesouro ou ações e ETF, mas são os depósitos a prazo que continuam a dominar, com 42% das respostas favoráveis. Em segundo lugar, e a uma distância considerável, estão os PPR, com 31%.
… e o paradigma europeu não é muito diferente
Estas conclusões exacerbam o problema europeu com a aplicação das suas poupanças, algo que a própria Comissão Europeia e Ursula von der Leyen têm repetidamente salientado num esforço para promover uma União de Mercados de Capital.
“Os europeus são frequentemente vistos como super aforradores”, arranca uma nota do departamento de análise financeira do banco ING, mas esta realidade é mais evidente após a pandemia, quando a taxa média de poupança europeia subiu 2 pp. Mas esta “mudança tem consequências económicas reais”: por um lado, o consumo não contribuiu o que poderia para o crescimento; por outro, estas poupanças não estão a ser aplicadas e rentabilizadas — algo ainda mais gravoso numa altura de inflação elevada como agora se verifica.
“As famílias europeias perderam boas oportunidades de retornos assinaláveis das suas poupanças nas últimas duas décadas”, continua a análise do banco neerlandês que avança com números substanciais: caso um quarto da poupança canalizada para os depósitos entre 2002 e 2025 tivesse sido aplicada em fundos de investimento, a riqueza das famílias seria cerca de 7% do PIB conjunto da UE maior, ou seja, 1,17 biliões de euros.
Caso a aplicação desta poupança tivesse sido feita em ações, a diferença de riqueza das famílias poderia ascender a 18% do PIB do bloco europeu, ou seja, 2,79 biliões de euros.
Este é um dos fatores que explica a diferença do crescimento nos EUA e na UE, sendo que as famílias norte-americanas reduziram a sua poupança após a pandemia e, “beneficiando de fortes efeitos riqueza, […] apoiam a procura por bens e serviços nos EUA”.
Ainda assim, há uma boa notícia na evolução da dívida das famílias em função do seu rendimento: de 114,3% em 2014 este indicador caiu para 75% em 2024, o mínimo da última década, antes de voltar a subir em 2025 até 78,3%. Esta descida significa também que as famílias portuguesas conseguiram ficar abaixo da média europeia desde 2020, uma evolução assinalável dado o elevado endividamento da economia aquando do pedido de resgate à ‘troika’, em 2011, dos rendimentos significativamente abaixo da média e da subida do custo de vida no país neste período.