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Faltou ônibus em Salvador no 2º turno, oito dias após Câmara dar título a Flávio Bolsonaro

Neste domingo de eleições, 25 de outubro, o transporte de ônibus de Salvador entrou no centro do debate eleitoral. Começou com moradores da capital, que denunciaram nas redes sociais dificuldades para ir votar devido ao atraso ou mesmo falta dos veículos nos pontos. Depois, a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) confirmou à imprensa que, ao menos, 75 ônibus foram impedidos de sair das garagens. O motivo seriam adesivos colados nos veículos com o número do candidato à Presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A situação escalou rapidamente: o presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), desembargador Mauricio Kertzman Szporer, determinou que a Polícia Federal (PF) prendesse em flagrante o secretário municipal de Mobilidade de Salvador, Pablo Souza, atualmente em Paris. A decisão, assinada às 13h15, atribui à secretaria a ordem para reduzir a frota de ônibus durante a votação e manda a prefeitura recolocar 100% dos veículos nas ruas em até uma hora, com tarifa zero, sob multa de R$ 1 milhão por hora.

Ônibus com adesivos com número do candidato Lula parados em garagem; TRE determinou que 100% da frota nas ruas e prisão do secretário de mobilidade de Salvador
Ônibus com adesivos com número do candidato Lula parados em garagem; TRE determinou que 100% da frota nas ruas e prisão do secretário de mobilidade de Salvador

O pedido partiu da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV). Às 10h30, a federação informou ao tribunal que o transporte coletivo da capital operava com redução superior a 50% em relação aos dias úteis. Entre 10h56 e 11h09, anexou vídeos e fotos de dezenas de ônibus parados em garagens durante o horário de votação, depois listou os endereços das concessionárias onde os veículos estariam retidos e pediu a prisão em flagrante dos responsáveis.

O ponto central da decisão é um termo de vistoria elaborado pelo juiz auxiliar Antônio Marcelo Oliveira Libonati na sede do BRT, na avenida Barros Reis. Segundo o documento, o magistrado encontrou “diversos veículos na garagem”, e o supervisor do local, Igor Cesar da Cruz Moraes, informou que a frota em atividade era inferior à dos dias de semana, “seguindo orientação da SEMOB”, a Secretaria Municipal de Mobilidade de Salvador. Avisado da obrigação de manter a frota de dia útil, o supervisor disse que mobilizaria motoristas, o que, segundo a decisão, não havia ocorrido até então.

“Considerando-se que a orientação para redução da frota partiu da Secretaria Municipal de Mobilidade de Salvador (SEMOB), diante das evidências da violação dos artigos 297, 304 e 347 do Código Eleitoral, determino que seja procedida a imediata prisão do seu titular”, escreveu o desembargador. Os artigos tratam de impedir ou embaraçar o exercício do voto, de sonegar meios de transporte no dia da eleição e de desobedecer a ordens da Justiça Eleitoral. O texto dá à própria decisão “força de mandado”.

O Procon-BA autuou a empresa OT Trans após encontrar 55 ônibus aptos a rodar parados no pátio. Segundo o secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos, Felipe Freitas, o órgão contou 252 veículos parados em três garagens da cidade.

A federação petista pretende pedir que a votação na Bahia seja estendida até as 19h — o prazo normal é às 17h. Até a publicação deste texto, não havia confirmação de que a prisão de Pablo Souza tivesse sido cumprida. A reportagem procurou o secretário, que não respondeu.

Também a Federação Brasil da Esperança (PT/PCdoB/PV) pediu ao TRE-BA, às 12h42, a prisão em flagrante do prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil). O pedido acusa prefeitura e concessionárias de descumprir uma decisão do próprio tribunal, tomada às 11h54, que mandava colocar toda a frota nas ruas, com gratuidade, para garantir o deslocamento dos eleitores. Para os advogados, a situação configura crime eleitoral por dificultar o voto e desobedecer à Justiça Eleitoral. Eles pedem também que a multa recaia pessoalmente sobre o prefeito. O Tribunal ainda não decidiu sobre o pedido.

Segundo nota da Prefeitura de Salvador: “A Secretaria de Mobilidade (Semob) determinou que todos os ônibus fossem liberados das garagens, com a frota máxima, ainda que estivessem com adesivação considerada como propaganda irregular, facilitando a locomoção dos eleitores neste domingo (25), segundo turno das eleições. A prioridade segue sendo a circulação de veículos e o deslocamento da população. A operação já está sendo normalizada através do diálogo entre as equipes da Secretaria e representantes sindicais”.

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75 ônibus foram impedidos de sair das garagens de Salvador, o que gerou atraso aos eleitores

Lula venceu em Salvador no primeiro turno com 65,26%

O prefeito de Salvador é Bruno Reis (União Brasil), reeleito em 2024 para o mandato de 2025 a 2028 e alinhado à chapa de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Lula, do PT, obteve 944.358 votos (65,26%), enquanto Flávio obteve 391.188 votos (27,03%). A vitória de Lula em Salvador foi a maior porcentagem dentre todas as capitais brasileiras, sendo que a cidade é a quinta do país com maior número de eleitores.

O desembargador ampara a ordem no julgamento da ADPF 1013, em que o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a omissão do poder público em oferecer, nos dias de eleição, transporte gratuito com frequência igual à dos dias úteis. A regra foi incorporada pela Resolução TSE n.º 23.751/2026, cujo artigo 23 prevê responsabilização penal eleitoral em caso de redução do serviço. Para o magistrado, a retenção da frota “frustra a participação eleitoral dos cidadãos soteropolitanos” e cria risco de “dano irreparável à soberania popular”.

A multa recai solidariamente sobre o município, o secretário e as empresas concessionárias. A decisão também determina que a PF fiscalize as garagens, garanta a saída imediata dos ônibus e prenda em flagrante quem impedir o cumprimento da ordem. Cópia do processo foi enviada à Procuradoria Regional Eleitoral para investigação criminal. A gratuidade e a frota completa devem ser mantidas até o fim da votação e pelo tempo necessário para que os eleitores voltem para casa.

Após disputa na Justiça e manobra de vereadores, Flávio Bolsonaro ganhou neste mês título de cidadão de Salvador

Câmara de Salvador disputou na Justiça para homenagear Flávio em meio a campanha eleitoral

A história começou em 13 de abril deste ano, quando a Mesa Diretora da Câmara Municipal de Salvador publicou o projeto de número 28, que concedia o título de “Cidadão da Cidade de Salvador” a Flávio Bolsonaro (PL). O documento original, ao qual a Pública teve acesso, foi assinado pelo presidente da Câmara, Carlos Muniz, do PSDB.

Na justificativa do projeto, o texto afirma que a homenagem reconhece os “relevantes serviços prestados à sociedade brasileira e à sua contribuição para o fortalecimento dos valores democráticos, institucionais e sociais que refletem diretamente o desenvolvimento da cidade de Salvador”.

O projeto também traz que “ainda que sua atuação se dê em âmbito nacional, suas iniciativas legislativas e posicionamentos reverberam em todo o território brasileiro, alcançando também os cidadãos de Salvador, contribuindo para o aprimoramento de políticas públicas que impactam diretamente a capital baiana”.

No dia 28 de abril, a proposta avançou, e foi aprovada pela Comissão de Justiça da Câmara. Em 6 de maio ela foi aprovada pela Câmara. Já em 10 de junho, foi publicada no Diário Oficial.

A entrega da homenagem a Flávio Bolsonaro seria marcada mais para frente, para o dia 17 de outubro — já dentro do calendário eleitoral — o que foi denunciado por políticos da oposição como ato de campanha. Além disso, a Câmara aprovou uma transferência temporária da sede para o Farol da Barra, para que a homenagem pudesse acontecer no local junto a um comício de Flávio.

“Deslocar a cerimônia para um palanque converte a mais alta honraria da cidade em peça de propaganda de uma candidatura, em afronta aos princípios da impessoalidade e da moralidade que regem a Administração Pública”, escreveu o vereador Hamilton Assis, do PSOL, em 14 de outubro, num projeto que pediu a suspensão da homenagem.

Quem articulou a transferência de local foi o vereador Cezar Leite (PL), que inclusive se colocou como o responsável para entregar a honraria a Flávio. “Foi um pedido do vereador Cezar Leite, que só se deu após ser aprovado pelos pares em plenário. Agora é possível dizer que já está tudo certo para que aconteça. Nós aqui somos democráticos; o que a maioria decidir está decidido”, disse o presidente da Câmara.

“Estou feliz. A gente acabou de aprovar o requerimento que fiz para a mudança de sede para a entrega do título de cidadão soteropolitano a Flávio Bolsonaro, o nosso futuro presidente da República. Então, vai ser entregue no Farol da Barra, em um grande encontro com o povo. Nada melhor do que entregar um título de cidadão soteropolitano no meio do povo, que hoje está aclamando Flávio Bolsonaro como presidente da República”, disse Leite à época.

No dia 16, a Vara da Fazenda Pública de Salvador suspendeu a cerimônia, entendendo que o movimento poderia “comprometer a imparcialidade da atuação institucional do Legislativo municipal no período eleitoral”. No dia seguinte, após Cezar Leite recorrer, o Tribunal de Justiça do Estado voltou a autorizar a entrega da condecoração, que aconteceu no Farol da Barra na mesma data.

Flávio recebeu o título de cidadão de Salvador no dia 17 de outubro, ao lado do atual prefeito, Bruno Reis (União Brasil), do deputado federal Nikolas Ferreira de Minas Gerais (PL), do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fora outros políticos. O título foi entregue pelo vereador César Leite. Um dia após receber a homenagem, Flávio errou o nome da avenida onde foi agraciado, confundindo a Avenida Oceânica, em Salvador, com a Atlântica, no Rio de Janeiro.

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Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

Uma única sala comercial em Águas Claras, no Distrito Federal, reúne no papel o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, seu advogado e amigo, Willer Tomaz, e parte da rede investigada pelo desvio de dinheiro de aposentados do INSS, que inclui Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”. A Agência Pública levantou os registros das 90 empresas que já tiveram sede na sala 2601 do Edifício Connect Towers e achou 25 citadas nas investigações sobre as fraudes no INSS, ligadas a Antunes, além de outras seis pessoas indiciadas pela CPMI.

Um elo entre essas empresas é a Voga, um escritório de contabilidade instalado no prédio desde 2009, cujos e-mail e endereço se repetem nos cadastros obtidos pela Pública. O ICL Notícias revelou a ligação da sala com uma empresa de Flávio, a Bravo Grafeno (que já teve Jair Bolsonaro como sócio), e 16 outras ligadas ao escândalo do INSS, em setembro deste ano.

A Voga é comandada pela família dos Reis. Alexandre Caetano dos Reis, sócio do “careca”, está preso desde dezembro, apontado pela Polícia Federal (PF) como contador no esquema de lavagem de dinheiro. A irmã dele, Letícia Reis, administra o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, como revelou a Pública em 2022.

A Pública também descobriu que Willer Tomaz, investigado junto ao senador no STF por lavagem de dinheiro com bets, defende a Voga num processo trabalhista. Ele também tem uma empresa em nome da irmã na mesma sala.

Senador Flávio Bolsonaro
Na mesma sala onde foi registrada a empresa de Flávio Bolsonaro, existem outras 25 citadas no escândalo do INSS

Uma contabilidade, muitas empresas

A principal conexão entre as muitas empresas registradas na sala 2601 é a Voga, uma empresa de contabilidade. O primeiro documento que a Pública encontrou é de 2009, quando a empresa foi registrada no Edifício Connect Towers, em salas ao lado da 2601, segundo a Receita Federal.

Fachada do Connect Towers
Na mesma sala do edifício comercial, estão registradas 90 empresas, incluindo a que tem Flávio Bolsonaro como sócio

Um dos sócios da empresa é Alexandre Caetano dos Reis, preso desde dezembro do ano passado por decisão do ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a PF, Caetano atuou como contador de diversas empresas do “careca” em atividades de lavagem de dinheiro no esquema de fraudes do INSS.

A Voga tem uma empresa “filha”, chamada Voga Serviços, essa sim com sede na sala 2601 e aberta em 2021. O termo filha não é ao acaso: essa segunda Voga tem no registro Paula Batista dos Reis, a filha de Alessandra Batista Perdigão dos Reis, esposa de Alexandre. O email de Paula é usado tanto no cadastro da Voga Serviços, quanto da Voga Contabilidade aberta em 2009.

É neste endereço da sala 2601, além dos emails de Paula e da própria Voga que se conectam um emaranhado de 90 empresas nas quais os membros da família dos Reis se revezam nas sociedades.

É importante lembrar que a família dos Reis está ligada diretamente a Flávio Bolsonaro: é a irmã de Alexandre, Letícia Caetano dos Reis, que administra o escritório de advocacia de Flávio — o mesmo escritório registrado na mansão milionária do senador, cuja compra foi financiada pelo Banco de Brasília (BRB) e que teve o empréstimo quitado em tempo recorde.

Advogado Willer Tomaz
Amigo de Flávio, Willer atua como advogado para empresa de contabilidade que liga empresas registradas na sala 2601

Willer Tomaz defende Voga em processo contra família dos Reis

A Pública tentou visitar a sala da Voga na manhã desta sexta-feira, 23 de outubro. O acesso, contudo, foi barrado. A circulação no edifício foi limitada após a imprensa ter revelado o local.

Os 90 empreendimentos registrados na sala 2601 têm atividades variadas. A maioria é de consultoria e serviços administrativos (26), seguido por construção civil e incorporação imobiliária (19), comércio (16) e holdings (13).

Recepção da Connect Towers
Entrada da sala foi limitada após revelação de que Flávio Bolsonaro e careca do INSS têm escritório no mesmo local

A Pública teve acesso a um processo trabalhista que reforça os laços entre as empresas da sala. É o mesmo processo noticiado pelo Uol neste sábado, 24 de outubro. Na ação, um profissional afirma que trabalhou mais de dez anos para a Voga, até 2025. A pessoa afirma que a jornada de trabalho era extenuante e não remunerada. E ainda que foi obrigada pela chefia a apagar dados que poderiam comprometer a empresa junto ao escândalo do INSS. Alexandre atuaria diretamente como “chefe”, dando ordens de destruição dos arquivos.

Na peça, o profissional acusa os sócios de usarem “CPFs de terceiros, comumente denominados “laranjas”, para frustrar o cumprimento de obrigações legais e dificultar a satisfação de créditos trabalhistas”. A acusação contra a Voga é direcionada à família dos Reis: Alexandre; Alessandra, sua esposa; e Paula.

Quem defende a Voga e os membros da família dos Reis nesse processo é Willer Tomaz.

A reportagem procurou a assessoria do advogado para esclarecer qual a relação dele com a Voga e as demais empresas registradas na sala 2601, além de um posicionamento sobre a acusação trabalhista, mas ainda não tivemos resposta até a publicação. O espaço segue aberto à manifestação.

Outra ligação também aproxima Willer das empresas registradas na sala 2601. É a Bonsucesso, consultoria criada em setembro de 2025 na sala da Voga. A Pública apurou que, no mesmo dia em que foi constituída, ela foi transferida para um endereço em São Paulo.

A empresa foi registrada em nome de Lídia Mazelli, apontada como suposta laranja de Tomaz por assinar os papéis de 14 empreendimentos ligados a ele. Depois, em julho de 2026, a Bonsucesso foi transferida para Flavia Oliveira Correa Tomaz, esposa de Willer.

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A família Bolsonaro e a sala 2601

A ligação mais direta entre a família Bolsonaro e as empresas da sala 2601 é a Bravo Grafeno, loja online que vende capacetes estilizados com as cores da bandeira do Brasil, como mostrou o ICL. A grafeno foi aberta em junho de 2024.

A sociedade reúne Flávio, seu irmão Carlos Bolsonaro, recém-eleito senador por Santa Catarina, e outras três pessoas. O ex-presidente Jair Bolsonaro também já fez parte do quadro societário.

A Bravo Grafeno também tem como sócio Pedro Luiz Dias Leite, ex-sócio de Marcello de Oliveira Lopes, marqueteiro de Flávio que deixou a pré-campanha em maio. A saída ocorreu após a crise envolvendo a revelação pelo Intercept Brasil de que o senador pediu R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, sobre seu pai. A PF também identificou um repasse de Lopes para a produtora do filme.

Os outros sócios da empresa de capacetes são o ex-assessor do senador, Fernando Nascimento Pessoa, que chegou a ser investigado no caso da rachadinha no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e o personal trainer Paulo Giordano Bernardi.

A Pública descobriu que outra pessoa ligada à família Bolsonaro tem um negócio na sala 2601: o fisioterapeuta Kleber Caiado, que atende Jair desde agosto de 2025, quando o ex-presidente passou a cumprir prisão domiciliar. Quando ele foi condenado, a defesa do ex-mandatário pediu autorização para que as sessões de fisioterapia com Caiado tivessem continuidade na cela da PF.

Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como o "Careca do INSS"
Acusados de envolvimento com o “careca do INSS” também têm empresas no endereço

Mais empresas ligadas ao escândalo do INSS na sala 2601

Era 23 de setembro de 2025, a Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados foi acionada para prender o economista e empresário Rubens Oliveira Costa, por falso testemunho e ocultação de documentos na Comissão Parlamentar de Inquéritos (CPMI) do INSS. O pedido foi feito tanto pelo presidente da comissão, o deputado Carlos Viana (Podemos-MG), quanto pelo relator Alfredo Gaspar (PL-AL), após mais de sete horas de reunião.

Costa foi ouvido na condição de testemunha, amparado por um habeas corpus, concedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux. Ele não respondeu à maioria das perguntas feitas pelos parlamentares sobre a sua relação com o “careca” e teria apresentado contradições em suas falas, o que levantou a suspeita dos interrogadores.

A suspeita de relação com a fraude do INSS se estende também às três empresas em seu nome: a Fronteira Consultoria e Gestão Financeira, a Silva e Rodrigues Consultoria e Assessoria Empresarial (Brain Consultoria) e a Capify Gestão e Consultoria Financeira. A Pública apurou que essas três empresas dividem a mesma sala 2601 com a Voga.

Procurada, a defesa do empresário afirmou que “Rubens Oliveira Costa jamais foi proprietário de qualquer empresa, tendo atuado exclusivamente como administrador financeiro contratado”, afirmou o advogado Bernardo Simões Coelho. Ele acrescentou ainda que o seu cliente não mantinha negócios com políticos ou integrantes da administração pública. Leia a nota na íntegra.

Já o técnico em contabilidade e empresário Milton Salvador de Almeida Júnior aparece como sócio ou diretor de pelo menos 11 empresas de ramos variados, e em oito delas, ele divide a sociedade com o “careca”. Em 19 de setembro de 2025, ele foi convocado para depor na CPMI do INSS, após nove requerimentos, sendo um deles do próprio relator da comissão, o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) – hoje vice na chapa com Flávio Bolsonaro.

Quatro empresas ligadas a Almeida Júnior estão na sala 2601 do Contect Tower: a Prospect Consultoria Empresarial,  Plural Intermediações de Negócios, RPLD Construtora e Incorporadora e a DRPL Comercialização e Locação de Veículos.

A Prospect Consultoria é citada no relatório da Polícia Federal como uma das empresas utilizadas para executar o esquema fraudulento. A empresa foi fundada em janeiro de 2022, está em atividade e tem capital social de R$ 30 mil. Procurada, a defesa de Almeida Junior não respondeu aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

Romeu Carvalho Antunes, filho de Antunes, também aparece na sala 2601, em sociedade com Almeida Junior na Plural Intermediações de Negócios.

Romeu foi preso na manhã de 18 de dezembro de 2024 na Operação Sem Descontos. Além da relação com as empresas do pai, a PF identificou um aumento abrupto nos rendimentos do filho do “careca”, cujo crescimento seria incompatível com o seu histórico profissional.

Procurada pela reportagem, a defesa de Romeu disse que ele tem apenas 1% de participação na Plural, e que suas empresas estão baixadas há um ano, não mantendo “relação comercial com absolutamente ninguém mais”. Além disso, a defesa alega que ele nunca teve qualquer relação com a família Bolsonaro e Willer Tomaz. Os advogados também informaram que não tiveram acesso à informação de que o patrimônio era incompatível. 

Já Cristiana Alcântara Alves Zago é sócia de oito empresas na sala 2601. Segundo o relatório final da CPMI do INSS, ela figuraria como “suporte” contratada pelo “careca” para, inicialmente, realizar serviços de consultoria relacionados à estruturação de negócios no setor de cannabis medicinal”, e teria recebido créditos bancários de investigados no esquema de fraudes envolvendo o INSS. Ela teria recebido ao menos R$ 610 mil dos investigados, de acordo com o relatório.

Procurada, a defesa de Zago não respondeu.

Já a defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, afirmou que ele não tem nenhum elo com as empresas de Willer Tomaz e nem da família Bolsonaro.

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Às vésperas do 2º turno, canais no Telegram espalham fake news sobre segurança de urnas

Na sexta-feira, o irmão do candidato Flávio Bolsonaro (PL), Eduardo Bolsonaro, sugeriu em uma entrevista nos EUA que pode haver fraude nas urnas e o irmão pode ter que sair do país se perder. Embora pareça estar falando outra língua em relação à campanha oficial, Eduardo está reforçando uma narrativa mentirosa que segue circulando entre grupos de apoiadores do bolsonarismo. 

Um levantamento da Agência Pública identificou 418 publicações questionando a confiabilidade das urnas eletrônicas em uma rede de 60 canais do Telegram. Desses canais, 58 compartilham mensagens de apoio a Flávio Bolsonaro. Embora o levantamento tenha identificado publicações desde 2022, a maior parte dos registros (245) se concentrou entre maio e outubro de 2026. O maior volume de publicações (91) ocorreu nas semanas anteriores e posteriores ao primeiro turno.

Em abril de 2017, a jornalista Mariana Godoy viajou até a Suíça para entrevistar o ex-delegado da Polícia Federal (PF) e ex-deputado federal Protógenes Queiroz, que alegava estar em situação de asilo político em decorrência de uma condenação no Supremo Tribunal Federal (STF). Em um trecho da entrevista, Queiroz afirmou que houve fraude nas urnas durante as eleições de 2014, o que é uma mentira desbancada inúmeras vezes por checadores de fatos, autoridades e o TSE. Ainda assim, dois trechos desta entrevista voltaram a circular recentemente, em 32 publicações de 18 canais do Telegram, que, juntos, somam quase 286 mil inscritos.

No primeiro turno das eleições, dez canais do Telegram compartilharam, entre 20h11 e 20h46, a seguinte mensagem: “INTRA TSE: Estranhamente às 19:16 as urnas modelos UE2013 e UE2015 geram erro e a contagem ficou travada!🇧🇷”. Somados, esses canais têm mais de 279 mil inscritos.

A alegação de que erros nas urnas eletrônicas teriam travado a contagem dos votos já foi desmentida pela Justiça Eleitoral. Mesmo assim, o conteúdo continuou circulando no Telegram. Um exemplo é o canal “Eleições 2026 Memes”, que reproduziu a mensagem em 12 de outubro, seis dias depois da publicação do desmentido oficial. A antropóloga e pesquisadora Letícia Cesarino explica que o Telegram é uma plataforma avessa à regulação e que não tem uma tradição de moderação de conteúdo. “Esse plano de conformidade, na verdade, não significa nada. Não tem força de lei. É mais uma declaração de compromisso. Se a plataforma vai ser sancionada ou não, a Justiça Eleitoral não tem muitos meios para forçar a se adequar à legislação eleitoral”, completa.

Print de um dos grupos no telegram que postou conteúdo falso que indicava erro nas urnas eletrônicas
Print de um dos grupos no telegram que postou conteúdo falso que indicava erro nas urnas eletrônicas

Em setembro de 2026, o Telegram apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um plano para combater a desinformação na plataforma. O item 2.1 das Medidas de conformidade, dedicado aos conteúdos político-eleitorais, estabelece que “A moderação aplica-se a conteúdos, contas, grupos, bots e canais, por meio das seguintes medidas de fiscalização: remoção de conteúdo, restrição ou remoção de contas e canais e aplicação de rótulos visíveis de advertência — os marcadores “SCAM” e “FAKE”, atribuídos proativamente em vermelho para alertar a comunidade sobre riscos.”

Apesar das medidas previstas no documento, entre as 418 publicações identificadas no levantamento, apenas uma apresentava um aviso indicando que o conteúdo poderia ser falso. A postagem foi feita em 10 de outubro de 2024, no canal “FreedomNews 🇺🇸🇧🇷”.

Print da única publicação com indicação de que pode ser conteúdo não confiável
Print da única publicação com indicação de que pode ser conteúdo não confiável

Por que se trata de uma rede?

Das 418 publicações identificadas, 176 apresentam texto idêntico a pelo menos mais  uma postagem. Mas, ao examinar todos os conteúdos dos canais, 3.189.642 mensagens, a Pública identificou 1.259 conexões entre os canais, estabelecidas por meio de 249.464 encaminhamentos internos de mensagens na rede.

A análise das publicações que questionam as urnas eletrônicas identificou três eixos discursivos principais: textos sobre possíveis falhas técnicas nos equipamentos, questionamentos sobre interferência externa no processo eleitoral e memes.

Grafo de conexão elaborado a partir das conexões entre os canais
Grafo de conexão elaborado a partir das conexões entre os canais
Número de publicações nos canais do Telegram por mês
Número de publicações nos canais do Telegram por mês

O vídeo de Protógenes Queiroz, mencionado no início da reportagem, circulou acompanhado de duas abordagens diferentes. Entre 2024 e abril de 2026, foram identificadas 14 publicações que começavam com as frases “Quem se lembra disso?” ou “Você se lembra disso?”.

Após o início das investigações envolvendo Lulinha e Roberta Luchsinger, o vídeo passou a circular com uma nova apresentação: “Esse aqui é o ex da Roberta Luchsinger, amiga do Lulinha”. Apesar da mudança na abordagem, o restante do texto permaneceu o mesmo. A narrativa apresentada nas publicações afirma que Protógenes Queiroz fugiu do Brasil após receber ameaças de morte por ter investigado as urnas eletrônicas e descoberto que o Partido dos Trabalhadores (PT) nunca venceu uma eleição de forma legítima no país.

Cinco publicações no Telegram que compartilham o vídeo de Queiroz incluem, ao final das legendas, links para duas postagens distintas na rede social X (antigo Twitter), que também apresentam o mesmo vídeo. Em três delas, o link direciona para uma publicação de 5 de agosto de 2025, feita pelo perfil “Miguel Diniz – Pátria amada Brasil”, que acumula mais de 574 mil visualizações. As outras duas direcionam para uma postagem do perfil “Brasil Conservador 🇧🇷🇺🇸🇮🇱”, publicada em 23 de janeiro de 2026, também no X, que ultrapassa 62 mil visualizações. 

Outro grupo de publicações compartilha um recorte de vídeo em que aparece uma pessoa usando uma máscara alusiva ao personagem da HQ “V de Vingança”. O conteúdo circulou em seis canais do Telegram: “ ANTVXXX”, “Brasil e o gás a 100 real”, “Direita FTB”, “Mandaloriano Conspiracy”, “Pela Vida e Liberdade” e “Rasgando o Verbo”. Todas as publicações foram feitas em 17 de fevereiro de 2026, acompanhadas do mesmo texto:

“Quem diria, as urnas foram fraudadas. Não se esqueçam da última eleição para presidente em que uma mulher foi votar e já tinham votado no lugar dela. E em 2018, várias urnas davam pane ao apertar o botão do então candidato Bolsonaro. Em outras palavras, as eleições são fraudadas a muito tempo e na última não foi diferente.”

A análise dos encaminhamentos indica que, dentro da rede de canais, o recorte do vídeo foi publicado inicialmente em “Rasgando o Verbo” e “Mandaloriano Conspiracy”. Posteriormente, o conteúdo foi encaminhado para os outros quatro canais: “ ANTVXXX”, “Brasil e o gás a 100 real”, “Direita FTB” e “Pela Vida e Liberdade”.

Print da comparação dos posts entre os dois canais diferentes
Print da comparação dos posts entre os dois canais diferentes

Ao todo, foram identificadas 176 publicações com textos idênticos aos de pelo menos outra postagem, distribuídas em 53 grupos de conteúdos repetidos. Essas publicações formam 274 pares, o que indica que parte do conteúdo compartilhado pelos canais pode ter uma origem comum.

Cada par representa duas publicações com o mesmo texto. Assim, quando três postagens apresentam conteúdo idêntico, são formados três pares de comparação; quando quatro publicações compartilham o mesmo texto, são formados seis pares. Isso ocorre porque uma mesma publicação pode integrar diferentes pares.

Os 274 pares identificados no levantamento podem ser consultados abaixo:

Jornalismo investigativo é antídoto contra a desinformação. Ajude a garantir informação acessível e gratuita para mais pessoas. Faça um Pix para contato@apublica.org ou doe em apoie.apublica.org.

Publicações duvidam do funcionamento das urnas eletrônicas

Os canais rejeitam explicações técnicas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas, antes mesmo de conhecerem o sistema utilizado. Durante a primeira edição da Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação, realizada entre 3 e 9 de agosto, as publicações dos canais da rede se concentraram em contestar as demonstrações feitas pelos técnicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Uma das publicações replicadas pelos canais afirma que: “O hardware dessa bosta fabricada pela Positivo não influencia em absolutamente nada na falta de confiança nesse lixo de processo baseado “confie no estado”. Poderiam usar gabinete de acrílico com uns FANs RGB também, primeira urna gamer do mundo.”

A empresa brasileira de tecnologia Positivo não foi a única a ser alvo das críticas. Em outras publicações, os canais da rede comparam o procedimento de montagem e desmontagem das urnas eletrônicas, realizado pelos técnicos do TSE, ao de um Game Boy, videogame portátil lançado pela Nintendo em 1989.

Ao longo dos 30 anos de utilização das urnas eletrônicas no sistema eleitoral brasileiro, quatro empresas foram responsáveis pela fabricação dos equipamentos: Positivo Tecnologia, Diebold, Unisys Brasil e Procomp Indústria Eletrônica.

Publicação que acusam o processo eleitoral de interferência externa

Mesmo após a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, publicações na rede afirmaram que Júlio Valente da Costa Júnior, secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), seria “petista de carteirinha” e teria poderes para manipular os softwares das urnas eletrônicas e editar o código-fonte. A nomeação do secretário pelo ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, que ocupou o cargo entre 2013 e 2025, também foi alvo de ataques. A publicação termina depositando em Flávio Bolsonaro a esperança de eleições mais confiáveis.

O texto compartilhado pelos canais é o mesmo de uma publicação feita em 11 de outubro no X (antigo Twitter) pelo músico e militante bolsonarista Roger Moreira. A postagem também foi tema de um vídeo publicado em 12 de outubro no perfil da Revista Timeline, no Instagram, do influenciador Allan dos Santos. A legenda do vídeo começa com a frase: “Conheça Júlio Valente, o petista por trás da contagem de votos do TSE”. Tanto a publicação de Roger Moreira quanto o vídeo de Allan dos Santos não estão mais disponíveis no Brasil por determinação do Tribunal Superior Eleitoral.

Print de publicação de Roger Moreira
Print de publicação de Roger Moreira

As acusações contra os responsáveis pelo sistema eleitoral, no entanto, não seguem uma linha coerente. Em duas publicações, feitas nos dias 7 e 9 de outubro, os canais apontaram o coordenador de Logística do TSE como o responsável por uma suposta manipulação das urnas eletrônicas. Nessa versão, Júlio Valente e Giuseppe Janino, ex-secretário de Tecnologia da Informação do TSE e um dos criadores da urna eletrônica, seriam apenas marionetes.

Uma das publicações, feita em 8 de outubro, termina com a seguinte afirmação: “O corpo técnico do TSE responsável pela apuração dos votos das eleições deve todo ser impedido de trabalhar no 2⁰ turno. São incompetentes e suspeitos de manipular os dados das urnas eletrônicas.”

O mesmo canal, porém, havia acusado Júlio Valente de ser petista no dia anterior, utilizando exatamente o mesmo parágrafo final. Cesarino relembra que desde 2018, mesmo com a vitória de Jair Bolsonaro, apoiadores alegaram manipulação nas urnas. “O conteúdo desse tipo de conspiracionismo eleitoral vai variando ao longo dos anos. Porém,  para eles o importante é manter um nível de desestabilização global, com relação à possibilidade de estar contestando o resultado eleitoral”, afirma.

Para a antropóloga, a chance de Flávio Bolsonaro reconhecer uma eventual derrota para Lula é mínima. “A gente tem que pensar que caso o Lula vire haverá mais um ciclo de enfrentamento. E um ecossistema como o Telegram tem um papel central. Desde 2021, o Telegram é um espaço onde essa sensibilidade do negacionismo eleitoral, da conspiração sobre as urnas é gestada”, completa.

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