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Reorganização da direita abre espaço para nova liderança da oposição, diz especialista

A reorganização das forças políticas no Brasil após a eleição, a disputa pela liderança da oposição e a dificuldade de construir sucessores para as principais lideranças nacionais estão entre os desafios que devem marcar os próximos anos. Em entrevista à Rádio Jornal nesta quinta-feira (29), o cientista político Ernani Carvalho analisou os caminhos da direita após a saída de Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, e o futuro da esquerda sem Lula (PT) como principal referência.

Na análise do especialista, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), reúne condições para assumir a liderança da oposição ao presidente, mas ainda precisa definir o espaço que pretende ocupar na direita brasileira.

Para o analista, o governador tem a vantagem de comandar o estado mais rico do país e contar com projeção nacional, mais ainda é cedo para afirmar se ele buscará uma posição mais próxima do centro político ou se concentrará na articulação da direita que permanecerá na oposição ao governo federal.

“Que ele é uma liderança liderança direita, mais moderada e mais mais estruturada do que o Bolsonarismo, não há dúvida. O problema de ser uma liderança de centro é que nosso centro ele é extremamente fisiológico e não tem barreiras ideológicas que lhe lhe finquem na oposição.”

A saída de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos, por sua vez, provocou incertezas entre aliados e pode afetar a articulação política da oposição. Na avaliação de Carvalho, parte dos eleitores que apoiaram o senador o fez principalmente para impedir a permanência de Lula no poder, e não necessariamente por identificação com sua figura política.

Nesse cenário, o cientista político considera que a direita poderá adotar um modelo de liderança mais compartilhado, com diferentes nomes participando das decisões, em vez de concentrar a condução política em uma única pessoa. Ele também avalia que o campo conservador avançou na organização eleitoral, com a atuação coordenada de lideranças nacionais e regionais.

“Você tinha o Nikolas [Ferreira], você tinha o Tarcísio [de Freitas], você tinha o [Lucas] Pavanato, você tinha como é o nome do braço direito dele, Rogério Marinho. Então, há uma diversidade de lideranças que estavam junto com Flávio tomando as decisões e ele ouvia essas pessoas”.

Apesar desse avanço organizacional, Carvalho aponta que a saída de Flávio pode gerar desconfiança entre eleitores que apoiaram sua candidatura como alternativa ao PT. Para ele, o episódio reforça a necessidade de o campo conservador construir uma liderança capaz de manter essa base eleitoral e dar continuidade à articulação política da direita.

Esquerda enfrenta desafio para encontrar sucessor de Lula

Na avaliação do cientista político, a sucessão de Lula também representa um problema para o campo progressista. Carvalho considera que o presidente concentra uma força política que dificultou a consolidação de outros nomes do PT com projeção nacional. Entre os possíveis quadros para ocupar esse espaço, Carvalho cita Fernando Haddad, João Campos e Camilo Santana.

O analista ressalta, porém, que uma parcela expressiva dos eleitores de Lula não se identifica necessariamente com o PT ou com a esquerda. Por isso, a escolha de um sucessor exigirá mais do que a indicação de um nome dentro do partido: será necessário encontrar uma liderança capaz de atrair eleitores que apoiam pessoalmente o presidente.

“Lula é aquela árvore frondosa que nada nasce ao qualquer lugar, e agora é uma preocupação. Eu acho que é um desafio para a esquerda, até porque uma parte significativa dos votos que elegeram o Lula agora na reta final, não são de esquerda também.”

Carvalho atribuiu parte do resultado eleitoral à capacidade da campanha petista de conquistar eleitores durante o segundo turno. Ele citou mudanças nas propostas apresentadas nesse período e a estratégia de comunicação da campanha, que, segundo sua análise, ajudaram a ampliar o apoio ao presidente para além de sua base mais fiel.

Próximo governo terá de negociar com o Congresso

A relação com o Legislativo será outro desafio para o presidente Lula. Carvalho explica que o presidencialismo de coalizão exige negociações para ampliar a base parlamentar do governo, o que pode envolver acordos sobre a distribuição de cargos e a participação de partidos na administração federal.

O cientista político também destaca que a polarização política deve dificultar a construção de consensos. Na avaliação dele, a resistência de parcelas expressivas do eleitorado aos dois principais campos políticos poderá se refletir nas decisões de deputados e senadores e aumentar o custo das negociações para o Executivo.

“Muitas vezes essa ampliação, ela significa, de certa forma, alteração no, no projeto de governo. Na, na forma como governar. Na divisão é, é, dos cargos públicos.”

Entre os pontos que podem gerar disputas, Carvalho menciona as indicações para tribunais superiores e as negociações políticas no Senado. O cientista político avalia que a articulação entre Executivo e Legislativo será determinante para a estabilidade da próxima gestão.

Disputa no Senado pode ampliar tensão com o STF

A eleição para a presidência do Senado também deverá influenciar a relação entre os Poderes. Carvalho citou as discussões sobre a abertura de processos de impeachment contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) como um dos temas que permanecerão no centro da disputa política.

Para o analista, a necessidade de negociar apoio parlamentar, somada às divergências sobre a atuação do Judiciário, pode criar dificuldades adicionais para o governo. Ele apontou a relação com o Supremo como uma das primeiras questões institucionais que Lula terá de enfrentar.

“No Senado tem a ver também com a eleição para a Mesa Diretora, a gente se colocando entre as propostas ali para presidir o Senado é dizer se vai ou se não vai dar andamento ao impeachment de ministros do STF.”

© Joédson Alves/Agência Brasil

O candidato à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL), fala com jornalistas após ser derrotado no segundo turno das eleições pelo candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
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O Lado Invisível do SNS: Quando uma Cama Vazia Decide Quem Vive e Quem Espera

Um problema ético

RUI LEAL
Aluno do Mestrado Executivo em Administração Hospitalar
Faculdade de Economia da Universidade do Porto

Nos hospitais portugueses, a escassez de camas deixou de ser uma exceção. Tornou-se estrutural. E, como em qualquer sistema sob pressão constante, essa escassez não se limita a criar ineficiências — cria desigualdades.

Nas especialidades cirúrgicas, o problema é particularmente evidente. A capacidade de internamento passou a ser o verdadeiro fator limitativo da atividade. Quando alegadamente, não faltam equipas, nem blocos operatórios, nem competência clínica, falta, muitas vezes, uma cama.

O resultado é conhecido — e cada vez mais frequente: cirurgias canceladas à última hora. Não por decisão médica, mas por incapacidade organizacional. O doente está preparado, a equipa está pronta, os recursos estão mobilizados. E, ainda assim, a cirurgia não acontece.

Para quem espera, o impacto é real: mais ansiedade, mais tempo, mais risco. Para o hospital, é um desperdício evidente de recursos altamente diferenciados. Mas há uma dimensão mais profunda que raramente entra no debate público. Estamos, na prática, perante um problema de justiça distributiva.

Num sistema público como o Serviço Nacional de Saúde, a escassez não pode ser evitada — mas a forma como é gerida pode, e deve, ser questionada. Quando o acesso aos cuidados deixa de depender exclusivamente da necessidade clínica e passa a ser condicionado por limitações operacionais, a equidade fica comprometida. E isso não é um detalhe técnico. É uma escolha implícita sobre quem é tratado — e quem espera.

A duração do internamento pós-operatório é um dos principais determinantes desta pressão. Bastam alguns casos acima do esperado para desestabilizar todo o sistema. Há, porém, um fator frequentemente subestimado neste contexto: os casos sociais. Quando a alta clínica existe, mas a saída do hospital não ocorre por ausência de resposta social adequada, o internamento deixa de refletir apenas necessidade assistencial e passa a incorporar uma incerteza estrutural. Nos modelos preditivos de gestão de camas, estes casos funcionam como uma fonte relevante de entropia operacional — aumentam a variabilidade, reduzem a precisão das previsões e fragilizam o planeamento cirúrgico. Ignorá-los não é apenas uma limitação técnica; é aceitar modelos incompletos e, consequentemente, decisões potencialmente menos equitativas. A sua incorporação explícita nos modelos, através de variáveis sociais e de contexto, é essencial para aumentar a validade preditiva e evitar decisões sistematicamente enviesadas.

Ainda assim, muitos hospitais continuam a planear a sua atividade com base sobretudo na experiência, e não em análise estruturada de dados. É aqui que a mudança se impõe.

Hoje, existe informação suficiente para prever padrões de internamento, antecipar riscos e ajustar o planeamento cirúrgico. Ignorar essa capacidade analítica já não é uma limitação — é uma decisão. Mas antecipar não chega.

Sem mecanismos robustos de auditoria interna, o sistema permanece opaco. Não se compreende, com rigor, onde estão os desvios, por que razão se prolongam internamentos ou onde se perdem oportunidades de otimização. E sem essa compreensão, não há verdadeira melhoria.

A auditoria interna não deve ser vista como um instrumento de controlo burocrático, mas como uma ferramenta de gestão crítica. Permite tornar visível o que hoje é difuso, responsabilizar processos e alinhar a utilização dos recursos com os princípios que o sistema afirma defender. Eficiência e equidade não são objetivos concorrentes. São, neste contexto, inseparáveis.

Num sistema permanentemente pressionado, melhorar a utilização das camas não é apenas uma questão de gestão. É uma condição para garantir que o acesso aos cuidados não depende do acaso organizacional. E é aqui que recai uma das maiores responsabilidades dos administradores hospitalares. Gerir capacidade não é apenas otimizar fluxos. É tomar decisões que têm impacto direto sobre vidas concretas. Decidir quem espera. Decidir quem entra. Decidir quando.

Por isso, reduzir a gestão de camas a um problema operacional é um erro. Trata-se, na verdade, de um problema ético, organizacional e político. Porque, no limite, cada cama disponível representa mais do que um recurso. Representa uma escolha. E gerir escolhas, em contexto de escassez, é — inevitavelmente — gerir justiça. ■

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A alternativa nuclear

O destino, com o seu humor frequentemente ácido, decidiu que o ano de 2026 seria o ano do choque de realidade. Enquanto a retórica oficial continuava a vender a imagem de um Portugal líder mundial na “transição verde”, os mísseis sobre o Irão e a consequente escalada bélica no Médio Oriente vieram recordar-nos que a economia moderna não se move a boas intenções. O disparo dos preços do petróleo e do gás natural nas últimas semanas não é apenas um problema de inflação: é o sintoma de uma nação que abdicou da sua soberania energética em favor de uma liturgia ambiental que a física, teimosamente, se recusa a validar.
Há dias, no Conselho Europeu em Bruxelas, os líderes da União reuniram sob a sombra pesada dos mercados energéticos em polvorosa. À entrada da reunião, o presidente do Conselho Europeu, António Costa, declarou solenemente que a União Europeia enfrenta “tempos desafiantes” e que a soberania energética só é possível aumentando a “produção interna”. Para o ex-Primeiro-Ministro português, a melhor forma de ter um “horizonte preditivo e confiável” é ser autónomo e independente. “O conflito actual no Irão mostra-nos uma vez mais que a única maneira de sermos autónomos é tornar seguro o nosso sistema de energia”, afirmou.
Estas palavras, embora irrepreensíveis na forma, carregam o peso de uma herança que o orador não pode sacudir. António Costa não é um observador externo desta crise; ele foi o arquitecto-mor da política energética que deixou Portugal numa encruzilhada de vulnerabilidade. Durante os seus longos anos em São Bento, assistimos ao encerramento apressado das centrais a carvão de Sines e do Pego e à aposta quase messiânica em fontes intermitentes.
Agora, em Bruxelas, Costa admite que a diversidade dos Estados-membros exigirá “diferentes soluções”. É um reconhecimento tardio de que a receita única do “verde absoluto” pode ter prazos de validade que a realidade geopolítica se encarregou de abreviar.

O meio-dia de trevas: a lição de 28 de Abril
Falar em “horizonte preditivo” quando o sistema eléctrico ibérico colapsou há menos de um ano é, no mínimo, um exercício de optimismo audaz. O grande apagão ibérico de 2025 continua bem vivo na memória. Não aconteceu no pico de uma tempestade de Inverno, mas sim num dia que deveria ser de glória para as renováveis: 28 de Abril.
Naquele momento, perto do meio-dia, o sol brilhava intensamente e as turbinas eólicas giravam com vigor. A rede estava saturada de energia “limpa”. No entanto, foi precisamente essa abundância que traiu o sistema. A falta de “inércia rotativa” — aquela estabilidade fundamental que as grandes massas giratórias das centrais térmicas e nucleares garantem — impediu a rede de absorver uma variação súbita de frequência. Num piscar de olhos, o que era um dia radioso transformou-se num “apagão de luz solar”.(..)

Leia o artigo na integra na edição desta semana já nas bancas ou em formato digital aqui

 

Link – Estudo completo do Prof. João de Jesus Ferreira

 

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