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MNAA: um museu centenário pronto a afirmar a sua relevância no século XXI

Entrar no Museu Nacional de Arte Antiga pela rua das Janelas Verdes é reencontrar as gigantescas lajes de pedra, a vastidão do pé direito, a escadaria que espreita e nos convida a subir, a porta de madeira tantas vezes empurrada para aceder a umas singelas escadas que nos levam ao jardim que tem o Tejo como pano de fundo. Assim, de um só fôlego. Memórias vívidas e vividas. Mas já seguimos por entre peças protegidas, umas. Embaladas, outras. Funcionários do museu numa coreografia de quem está em contagem decrescente para a reabertura ao público.

O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) encerrou em setembro de 2025 para curar algumas das suas feridas. O financiamento do PRR, 8,5 milhões de euros, permitiu a conservação da fachada norte e a reabilitação de coberturas. Permitiu modernizar equipamentos e espaços, atualizar a museografia, reformular o piso dedicado às artes decorativas e digitalizar milhares de peças que constituem o acervo do museu, cerca de 40.000 peças. E, cereja no topo do bolo, permitiu concluir o restauro da Capela das Albertas, nome popular dado à antiga Igreja do Convento de Santo Alberto, primeira casa da Ordem das Carmelitas Descalças em Portugal, fundada em 1585.

Como tudo começou

Recuamos no tempo para enquadrar o espaço fundacional do MNAA, instalado no palácio construído precisamente ao lado da Capela das Albertas, mandado erguer, em finais do século XVII, pelo 1º conde de Alvor, D. Francisco de Távora, após o seu regresso da Índia, onde foi vice-rei. Em 1744, o edifício ficou na posse de Matias Aires Ramos da Silva de Eça, Provedor da Moeda, que o arrendou ao embaixador da Alemanha e, mais tarde, em 1762, ao Contratador dos Diamantes e cônsul da Holanda. Daniel Gildemeester residiu neste palácio durante décadas, ao longo das quais efetuou obras de beneficiação dos interiores.

Com a morte de Matias de Aires, segue-se outro senhor nesta casa, Paulo de Carvalho, que em 1768 o arrematou em praça por intermédio de Gildemeester, e, por morte daquele, à do marquês de Pombal, seu irmão. Manteve-se nesta família até à sua compra pelo Estado, em 1883. Um ano depois, a 12 de junho de 1884, o Museu Nacional de Arte Antiga abre ao público, concretizando uma antiga aspiração surgida após a abolição das ordens religiosas, em 1834. A de dar destino às obras de arte que nessa altura passaram para a posse do Estado.

Reformado em 1911, adquirindo então o nome que atualmente tem: Museu Nacional de Arte Antiga. Guardião da mais completa coleção pública do país. Pintura, escultura e artes decorativas, desde a Idade Média até ao século XIX, incluindo o maior número de obras classificadas como “tesouros nacionais”. Entre eles, não podemos deixar de destacar os Painéis de São Vicente, de Nuno Gonçalves, obra-prima da pintura europeia do século XV, ou os Biombos Namban, de finais do século XVI, onde se regista a presença dos portugueses no Japão.

Acrescentamos aquela que será, porventura, a jóia da coroa, a Custódia de Belém, de Gil Vicente, mandada lavrar por D. Manuel I e datada de 1506. Sem esquecer, também, as “Tentações de Santo Antão”, de Hieronymus Bosch, exemplo máximo da pintura flamenga do início do século XVI, ou o “São Jerónimo”, de Dürer, para não fastidiar com mais tesouros do MNAA.

Eis-nos, então, no interior do museu, na companhia de Maria de Jesus Monge. A diretora do MNAA não poupa elogios ao trabalho da equipa que fez o restauro da Capela das Albertas e revela que este tesouro do Barroco Português está a ser preparado para funcionar como “uma introdução ao museu.” Não de uma “forma excessivamente clássica”, refere, antes introduzindo “algumas interrogações.”

Os desafios são imensos, a começar pela relevância. Esse será o principal repto a que um museu do século XXI tem de responder, mostrando “as nossas especificidades e aquilo que nos faz únicos num mundo em grande transformação, num mundo global, mas que precisa de âncoras”. E não só. “Cuidar” é o verbo que Maria de Jesus Monge escolhe para dizer que essa é a primeira função do MNAA. “Temos de garantir que aquilo que recebemos vai não só ser entregue aos que vêm a seguir, mas que vai ser entregue melhor, no sentido de maior conhecimento e, também, maior capacidade de diálogo com as novas gerações.”

A arte é uma ponte que nos une

O que carateriza a coleção do MNAA é o intercâmbio que foi possível criar ao longo dos séculos, salienta a diretora. “São muito poucas as peças neste museu, se é que as há, que resultam de uma criação isolada. Não é possível criar isoladamente. Nós somos o resultado deste constante contacto. E isso trouxe-nos até ao sítio onde estamos hoje: um dos países mais seguros do mundo, um país que as pessoas gostam de visitar.” Não se pense que cai numa visão idílica.

“Somos uma sociedade que não é perfeita, mas somos uma sociedade que é estimada e estimável. É importante que os portugueses tenham orgulho naquilo que fizeram, mas também é importante – e aqui estamos a falar para o Jornal Económico – que percebam o valor do nosso património. O valor que a Cultura traz.” Económico, sim, mas que também funciona como cola, outra forma de dizer coesão nacional. “É importante polir a nossa autoestima”, realça Maria de Jesus Monge, da mesma forma que é importante estimular a curiosidade, que, “muito provavelmente, é um dos grandes bens que os museus têm para fomentar o conhecimento”.

“Quem entra aqui”, diz ao JE, “tem de ser curioso e, de preferência, sair daqui com muito mais interrogações do que respostas.” Para Maria de Jesus Monge, os museus são espaços de encontro. Com a arte, com o pensamento, com o conhecimento. Espaços que convidam a esquecer o telemóvel, o frenesi do quotidiano. Que estimulam, lá está, a curiosidade. E que nos devolvem, muitas vezes, o olhar do Outro. Caso dos biombos Namban ou das esculturas do Benim, para invocar apenas dois exemplos. Entretanto, a conversa deslizou até à China.

A diretora do MNAA entusiasma-se – ela que é uma grande apreciadora de porcelana chinesa azul e branca – quando refere que, na reabertura, haverá uma exposição temporária que conta a história da porcelana chinesa através de papéis pintados chineses. Encontram-se há muitos anos no museu, mas só agora foram restaurados. O mecenato institucional desempenha um papel extremamente relevante na área do restauro. A Fundação Millennium BCP tem sido um benfeitor estratégico, incluindo no restauro ainda em curso dos Painéis de São Vicente, que se estima estar concluído nos primeiros meses de 2027. Tal como o Grupo dos Amigos do Museu Nacional de Arte Antiga (GAMNAA), associação pioneira em Portugal e uma das mais antigas do mundo, reconhecida, em 2009, pelo Estado Português, como Utilidade Pública.

O objetivo, explica Maria de Jesus Monge, é continuar a apresentar exposições temporárias, “tendencialmente uma ou duas por ano, porque são grandes projetos e muito exigentes quer em termos de recursos humanos, quer financeiros.” Atualmente, a equipa no MNAA é composta por 60 pessoas. Elenca a crescente dificuldade de recrutar vigilantes ou assistentes técnicos, por exemplo. Mas o imenso desafio que lhe ocupa o pensamento para lá da reabertura é aquele que está diagnosticado há mais de 60 anos: a necessidade de o museu crescer. Ter espaço para dar a conhecer mais obras daquela que é a instituição museológica portuguesa com maior relevância internacional.

Um desígnio e uma vontade, diz Monge. Apesar de tudo, “queremos acreditar que está mais próximo. Porque já existem os edifícios na Av. 24 de Julho. Porque já existe uma vontade que foi reconhecida pelas sucessivas tutelas, mas também pelos lisboeta e pelo país inteiro. O Museu Nacional de Arte Antiga precisa de crescer não só para mostrar as suas imensas coleções, como para cumprir a sua missão. E aquilo que se pede a um museu hoje em dia não é o mesmo que se pedia em 1940”, data da última ampliação. Monge não abdica da sua convicção. A de que vale a pena persistir nesta demanda. Ou não fossem os museus “preciosos aliados no diálogo com as comunidades e na transformação das mentalidades e das sociedades.”

No fim de semana de 21 e 22 de novembro, o MNAA terá uma programação especial para assinalar a sua reabertura. A entrada é gratuita e o acesso livre irá manter-se até dia 1 de dezembro, inclusive.
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