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Em realidade paralela

Todo cidadão brasileiro tem o direito de reclamar da atuação do Judiciário. Aliás, deve reclamar, em especial do Supremo Tribunal Federal (STF), transformado em palco de disputas políticas rasteiras com fortes indícios de corrupção, da parte de um ou mais de seus poucos integrantes. O que é bem diferente de um senador e candidato derrotado à presidência da República, ele mesmo enrolado em diversas denúncias por todos os cargos que passou, sair do país às escondidas num jato, e declarar na chegada que o resultado eleitoral foi forjado por uma decisão do STF.
Sim, a decisão de prolongar o horário de votação foi estapafúrdia, mas em nada influenciou na diferença de mais de 4 milhões de votos com que Lula conquistou a reeleição. Antes de se declarar “presidente de fato” numa carta mal redigida, repleta de palavras de ordem tão distantes da verdade quanto ele do Brasil, Flávio Bolsonaro poderia ter consultado seus aliados, ou pelo menos o próprio partido. A reação não tardou: em poucas horas, a expressão foi substituída numa nova versão, em que o filho de Jair Bolsonaro se denominou, ao invés de presidente – o que soava ridículo – apenas líder da oposição fora do país. Assim seria menor o vexame, caso a primeira versão não tivesse sido divulgada após nomes de expressão do PL e de partidos do Centrão, como o governador reeleito em São Paulo, Tarcísio de Freitas, terem reconhecido a vitória legítima do PT nas urnas.
Se Flávio permanecesse no Brasil, talvez viesse a ser preso nos próximos meses? Talvez. Mas não por perseguição política, e sim, por investigações em curso, cujo andamento estava travado devido à imunidade parlamentar. Aliás, uma vez seguro ao lado de Donald Trump, o filho de Jair tem as condições para pensar e propor uma reforma para as instituições brasileiras, que incluam, por exemplo, a redução da imunidade para os políticos no exercício do cargo, quando as suspeitas não tiverem nada a ver com a política, mas com roubalheira e outros crimes.
Um dos problemas da retirada para os costados de Trump é o distanciamento da realidade nacional. Na carta em que se disse vítima de um regime de exceção, Flávio Bolsonaro mostra o grau da realidade paralela em que prefere estar, enquanto a população espera por um líder, ou líderes, que demonstrem ser mais convincentes na oposição ao governo do PT. Por sorte, as eleições do primeiro turno encheram o Congresso de novos nomes, e deram protagonismo, nos estados, a personagens que podem despontar, galvanizando uma oposição necessária ao petismo que se defronta com o último mandato de Lula.
E não faltarão razões firmes para o estabelecimento de lideranças oposicionistas, quem sabe até ancoradas num centro perdido desde que o bolsonarismo foi aceso e acolhido pelo PT. O quarto mandato do atual presidente já conta com obstáculos certos adiante, como o equilíbrio de contas públicas menosprezadas, a insegurança jurídica em função de um STF politizado e desacreditado, e a perspectiva de baixo crescimento da economia num cenário de endividamento contínuo das famílias. Com Jair preso e Flávio autoexilado, a oposição ganha oportunidade de reorganização.

© Thiago Lucas

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Asilo começou no STF

A politização da justiça no Brasil tem sido percebida há muitos anos, mas foi turbinada pela polarização que ocupa o Supremo Tribunal Federal (STF) com nomes radicalmente ligados aos expoentes dos dois polos, que se dizem extremos mas se confundem no método de tentar se manter no poder. De tal maneira que as eleições deste ano contaram com uma guerra descarada na suprema corte nacional, entre as alas petista e bolsonarista, como se os integrantes da cúpula do Judiciário fossem representantes declarados dos líderes e dos partidos a que são relacionados.
A votação no segundo turno da eleição presidencial corria, como de praxe, sem maiores problemas em quase todo o país, quando solicitações do PT e do PL, endossadas por entrevista relâmpago de Lula, levaram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e demanda por prolongamento em duas horas do tempo para os eleitores votarem, por dificuldades no transporte ou devido às condições climáticas. O presidente do TSE, Kassio Nunes, resolveu não resolver nada, e o caso foi parar no STF. Quando o ministro Cristiano Zanin atuou para atender as duas partes em disputa, a maioria das urnas já havia sido digitalmente lacrada, e não poderiam ser reabertas. Poucas foram alcançadas pela decisão, o que se traduziu em 35 mil votos digitados entre as 17h e as 19h.
Na primeira declaração pública após saber da derrota por mais de 4 milhões de votos de diferença para Lula, Flávio Bolsonaro aproveitou a patinada das supremas cortes para dizer que pediria a anulação da eleição. Depois mudou de ideia, cogitando a impugnação da chapa vencedora, não se sabe sob quais alegações. A vitória de Lula foi reconhecida pelo partido de Flávio, o PL, por aliados como o governador Tarcisio de Freitas, de São Paulo, pelos presidentes da maioria dos países do mundo, inclusive da direita na América do Sul, à exceção de Milei da Argentina.
Mas a legitimidade do processo democrático brasileiro voltou a ser alvejada pela justiça metida na política: minutos depois da oficialização do resultado, o ministro do STF Alexandre de Moraes, responsabilizado pela prisão do pai de Flávio, Jair Bolsonaro, emitiu ordem de apreensão dos passaportes do candidato que poderia ter sido eleito presidente da República, pouco antes. Mesmo que a medida fosse justificável, pelas suspeitas e provas levantadas, o timing não poderia ser mais desastroso.
Enrolado na investigação do Banco Master, com ligações suspeitas com Daniel Vorcaro, Moraes pode ter conseguido, numa canetada só, manchar a vitória de Lula, inflamar a divisão radical no país, definir de vez o grau irremediável de politização do STF, aprofundar a crise institucional no Judiciário e, claro, entregar como um presente a narrativa que Flávio Bolsonaro queria para sair do Brasil e se mudar para os Estados Unidos como asilado por Donald Trump, que já deu sinais para pôr em dúvida a democracia brasileira apesar de “gostar de Lula”, como disse.
A debandada de Flávio e sua família do país suscita muitas perguntas e abre diversas possibilidades na política. Do ponto de vista institucional, no entanto, deixa uma certeza: a reforma no Judiciário, começando pelo STF, torna-se claramente inadiável, para salvar a democracia de um poder fora de controle.

© Thiago Lucas

Flavio Bolsonaro foge para os EUA de Trump
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