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Críticas do público fizeram imprensa dar nome a golpismo de Bolsonaro, diz Fabiana Moraes

Assim que foi divulgada a carta golpista na qual o candidato derrotado Flávio Bolsonaro se autoproclamou “presidente” do Brasil, muitos jornais brasileiros divulgaram a fala como se fosse mais uma notícia, em tom declaratório, sem evidenciar seu teor golpista.

“Em carta divulgada por aliados, Flávio Bolsonaro se diz presidente eleito do Brasil após chegar aos EUA fugido”, noticiou a Folha de S.Paulo. “Nos EUA, Flávio se autodeclara ‘verdadeiro presidente eleito’ e agradece a Trump e a Milei”, manchetou o Estadão. Outros veículos também fizeram títulos similares.

Depois de alguns minutos no ar, a maioria dos portais corrigiu o tom. “Flávio Bolsonaro se diz presidente eleito do Brasil em carta golpista divulgada por aliados”, reformulou a Folha. O Estadão também mudou: “Após fuga, Flávio se autodeclara ‘presidente eleito em carta golpista e agradece a Trump e a Milei”. Mais tarde, o próprio candidato derrotado postou uma nova carta, na qual se chama “líder do Brasil”.

Carta de Flávio Bolsonaro com duas versões sobre seu 'cargo' após eleições
Duas versões da mesma “carta” golpista apresentada por Flávio Bolsonaro no dia de hoje

A Agência Pública conversou com Fabiana Moraes, professora e pesquisadora do Núcleo de Design e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), para quem a mudança de postura dos grandes veículos nesta ocasião pode ter sido fruto de um maior “letramento midiático” do público depois das últimas eleições, que atua de forma mais crítica ao trabalho da imprensa.

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A professora, que pesquisa a objetividade jornalística — isto é, a crença de que o jornalismo consegue ser isento de ideologias e vieses — relembra como a mídia foi alvo de muitas críticas nesta cobertura eleitoral. “Flávio almoçar com a Globo antes da entrevista no Jornal Nacional foi um escândalo”, disse, sobre a reunião do ex-senador com executivos da emissora no dia em que seria sabatinado. “Acho que essas eleições ensinaram para uma população maior algumas questões que geralmente ficariam uma conversa entre jornalistas.”

A pesquisadora aponta que parte dos veículos que, em um primeiro momento, normalizaram o discurso golpista “queriam Flávio presidente, ou sempre tiveram uma enorme antipatia por Lula”. “Eu não diria que há uma nova postura [deles], mas uma correção nesse caso específico porque rapidamente as pessoas questionaram as manchetes.”

A pesquisadora relembra que ficou evidente que os algoritmos das redes sociais não são puramente técnicos e, por isso, podem ser questionados. Do mesmo modo, o jornalismo também não é puramente técnico, no entendimento de Moraes. “Acho que há uma questão de mostrar para onde a imprensa estava indo”, aponta, citando como exemplo as relações da imprensa com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que atuava quase como um ‘editor-chefe’ de algumas redações. A Pública mostrou a interferência editorial de Vorcaro no alto escalão do grupo Globo.

Moraes também aponta que, nessas eleições, ficou mais claro o peso do jornalismo independente, além do peso de estratégias diferentes da cobertura tradicional, como o uso de humor, ficção e de influenciadores digitais.

Um dos livros de Moraes é “A pauta é uma arma de combate”, em que trata sobre como os jornalistas definem o que vai ser ou não notícia, muitas vezes reproduzindo preconceitos e hierarquias de gênero, classe social e raça.

Moraes acredita que essa eleição será importante para “riscar o chão com a faca” para pactuar novas posturas. “Por exemplo, que precisamos promover de fato o jornalismo independente e financiá-lo. Porque é isso: Lula se torna presidente em uma eleição mais do que histórica, e, no dia seguinte, os jornais estão falando sobre a Bolsa de Valores – algo que sempre acontece –, mas minimizam o tamanho dessa vitória. Quando você olha para a imprensa internacional no dia seguinte, a cobertura e o peso que se dá a essa vitória do Lula são bem diferentes”, afirma.

“A imprensa vai continuar seguindo suas apostas, como a Globo com Flávio – apostas mesmo, né? Mas acho que há uma coisa boa, que é o reconhecimento do jornalismo que olha para a democracia não como negócio, mas como um ambiente necessário para respirar.”

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Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

Uma única sala comercial em Águas Claras, no Distrito Federal, reúne no papel o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, seu advogado e amigo, Willer Tomaz, e parte da rede investigada pelo desvio de dinheiro de aposentados do INSS, que inclui Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”. A Agência Pública levantou os registros das 90 empresas que já tiveram sede na sala 2601 do Edifício Connect Towers e achou 25 citadas nas investigações sobre as fraudes no INSS, ligadas a Antunes, além de outras seis pessoas indiciadas pela CPMI.

Um elo entre essas empresas é a Voga, um escritório de contabilidade instalado no prédio desde 2009, cujos e-mail e endereço se repetem nos cadastros obtidos pela Pública. O ICL Notícias revelou a ligação da sala com uma empresa de Flávio, a Bravo Grafeno (que já teve Jair Bolsonaro como sócio), e 16 outras ligadas ao escândalo do INSS, em setembro deste ano.

A Voga é comandada pela família dos Reis. Alexandre Caetano dos Reis, sócio do “careca”, está preso desde dezembro, apontado pela Polícia Federal (PF) como contador no esquema de lavagem de dinheiro. A irmã dele, Letícia Reis, administra o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, como revelou a Pública em 2022.

A Pública também descobriu que Willer Tomaz, investigado junto ao senador no STF por lavagem de dinheiro com bets, defende a Voga num processo trabalhista. Ele também tem uma empresa em nome da irmã na mesma sala.

Senador Flávio Bolsonaro
Na mesma sala onde foi registrada a empresa de Flávio Bolsonaro, existem outras 25 citadas no escândalo do INSS

Uma contabilidade, muitas empresas

A principal conexão entre as muitas empresas registradas na sala 2601 é a Voga, uma empresa de contabilidade. O primeiro documento que a Pública encontrou é de 2009, quando a empresa foi registrada no Edifício Connect Towers, em salas ao lado da 2601, segundo a Receita Federal.

Fachada do Connect Towers
Na mesma sala do edifício comercial, estão registradas 90 empresas, incluindo a que tem Flávio Bolsonaro como sócio

Um dos sócios da empresa é Alexandre Caetano dos Reis, preso desde dezembro do ano passado por decisão do ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a PF, Caetano atuou como contador de diversas empresas do “careca” em atividades de lavagem de dinheiro no esquema de fraudes do INSS.

A Voga tem uma empresa “filha”, chamada Voga Serviços, essa sim com sede na sala 2601 e aberta em 2021. O termo filha não é ao acaso: essa segunda Voga tem no registro Paula Batista dos Reis, a filha de Alessandra Batista Perdigão dos Reis, esposa de Alexandre. O email de Paula é usado tanto no cadastro da Voga Serviços, quanto da Voga Contabilidade aberta em 2009.

É neste endereço da sala 2601, além dos emails de Paula e da própria Voga que se conectam um emaranhado de 90 empresas nas quais os membros da família dos Reis se revezam nas sociedades.

É importante lembrar que a família dos Reis está ligada diretamente a Flávio Bolsonaro: é a irmã de Alexandre, Letícia Caetano dos Reis, que administra o escritório de advocacia de Flávio — o mesmo escritório registrado na mansão milionária do senador, cuja compra foi financiada pelo Banco de Brasília (BRB) e que teve o empréstimo quitado em tempo recorde.

Advogado Willer Tomaz
Amigo de Flávio, Willer atua como advogado para empresa de contabilidade que liga empresas registradas na sala 2601

Willer Tomaz defende Voga em processo contra família dos Reis

A Pública tentou visitar a sala da Voga na manhã desta sexta-feira, 23 de outubro. O acesso, contudo, foi barrado. A circulação no edifício foi limitada após a imprensa ter revelado o local.

Os 90 empreendimentos registrados na sala 2601 têm atividades variadas. A maioria é de consultoria e serviços administrativos (26), seguido por construção civil e incorporação imobiliária (19), comércio (16) e holdings (13).

Recepção da Connect Towers
Entrada da sala foi limitada após revelação de que Flávio Bolsonaro e careca do INSS têm escritório no mesmo local

A Pública teve acesso a um processo trabalhista que reforça os laços entre as empresas da sala. É o mesmo processo noticiado pelo Uol neste sábado, 24 de outubro. Na ação, um profissional afirma que trabalhou mais de dez anos para a Voga, até 2025. A pessoa afirma que a jornada de trabalho era extenuante e não remunerada. E ainda que foi obrigada pela chefia a apagar dados que poderiam comprometer a empresa junto ao escândalo do INSS. Alexandre atuaria diretamente como “chefe”, dando ordens de destruição dos arquivos.

Na peça, o profissional acusa os sócios de usarem “CPFs de terceiros, comumente denominados “laranjas”, para frustrar o cumprimento de obrigações legais e dificultar a satisfação de créditos trabalhistas”. A acusação contra a Voga é direcionada à família dos Reis: Alexandre; Alessandra, sua esposa; e Paula.

Quem defende a Voga e os membros da família dos Reis nesse processo é Willer Tomaz.

A reportagem procurou a assessoria do advogado para esclarecer qual a relação dele com a Voga e as demais empresas registradas na sala 2601, além de um posicionamento sobre a acusação trabalhista, mas ainda não tivemos resposta até a publicação. O espaço segue aberto à manifestação.

Outra ligação também aproxima Willer das empresas registradas na sala 2601. É a Bonsucesso, consultoria criada em setembro de 2025 na sala da Voga. A Pública apurou que, no mesmo dia em que foi constituída, ela foi transferida para um endereço em São Paulo.

A empresa foi registrada em nome de Lídia Mazelli, apontada como suposta laranja de Tomaz por assinar os papéis de 14 empreendimentos ligados a ele. Depois, em julho de 2026, a Bonsucesso foi transferida para Flavia Oliveira Correa Tomaz, esposa de Willer.

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A família Bolsonaro e a sala 2601

A ligação mais direta entre a família Bolsonaro e as empresas da sala 2601 é a Bravo Grafeno, loja online que vende capacetes estilizados com as cores da bandeira do Brasil, como mostrou o ICL. A grafeno foi aberta em junho de 2024.

A sociedade reúne Flávio, seu irmão Carlos Bolsonaro, recém-eleito senador por Santa Catarina, e outras três pessoas. O ex-presidente Jair Bolsonaro também já fez parte do quadro societário.

A Bravo Grafeno também tem como sócio Pedro Luiz Dias Leite, ex-sócio de Marcello de Oliveira Lopes, marqueteiro de Flávio que deixou a pré-campanha em maio. A saída ocorreu após a crise envolvendo a revelação pelo Intercept Brasil de que o senador pediu R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, sobre seu pai. A PF também identificou um repasse de Lopes para a produtora do filme.

Os outros sócios da empresa de capacetes são o ex-assessor do senador, Fernando Nascimento Pessoa, que chegou a ser investigado no caso da rachadinha no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e o personal trainer Paulo Giordano Bernardi.

A Pública descobriu que outra pessoa ligada à família Bolsonaro tem um negócio na sala 2601: o fisioterapeuta Kleber Caiado, que atende Jair desde agosto de 2025, quando o ex-presidente passou a cumprir prisão domiciliar. Quando ele foi condenado, a defesa do ex-mandatário pediu autorização para que as sessões de fisioterapia com Caiado tivessem continuidade na cela da PF.

Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como o "Careca do INSS"
Acusados de envolvimento com o “careca do INSS” também têm empresas no endereço

Mais empresas ligadas ao escândalo do INSS na sala 2601

Era 23 de setembro de 2025, a Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados foi acionada para prender o economista e empresário Rubens Oliveira Costa, por falso testemunho e ocultação de documentos na Comissão Parlamentar de Inquéritos (CPMI) do INSS. O pedido foi feito tanto pelo presidente da comissão, o deputado Carlos Viana (Podemos-MG), quanto pelo relator Alfredo Gaspar (PL-AL), após mais de sete horas de reunião.

Costa foi ouvido na condição de testemunha, amparado por um habeas corpus, concedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux. Ele não respondeu à maioria das perguntas feitas pelos parlamentares sobre a sua relação com o “careca” e teria apresentado contradições em suas falas, o que levantou a suspeita dos interrogadores.

A suspeita de relação com a fraude do INSS se estende também às três empresas em seu nome: a Fronteira Consultoria e Gestão Financeira, a Silva e Rodrigues Consultoria e Assessoria Empresarial (Brain Consultoria) e a Capify Gestão e Consultoria Financeira. A Pública apurou que essas três empresas dividem a mesma sala 2601 com a Voga.

Procurada, a defesa do empresário afirmou que “Rubens Oliveira Costa jamais foi proprietário de qualquer empresa, tendo atuado exclusivamente como administrador financeiro contratado”, afirmou o advogado Bernardo Simões Coelho. Ele acrescentou ainda que o seu cliente não mantinha negócios com políticos ou integrantes da administração pública. Leia a nota na íntegra.

Já o técnico em contabilidade e empresário Milton Salvador de Almeida Júnior aparece como sócio ou diretor de pelo menos 11 empresas de ramos variados, e em oito delas, ele divide a sociedade com o “careca”. Em 19 de setembro de 2025, ele foi convocado para depor na CPMI do INSS, após nove requerimentos, sendo um deles do próprio relator da comissão, o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) – hoje vice na chapa com Flávio Bolsonaro.

Quatro empresas ligadas a Almeida Júnior estão na sala 2601 do Contect Tower: a Prospect Consultoria Empresarial,  Plural Intermediações de Negócios, RPLD Construtora e Incorporadora e a DRPL Comercialização e Locação de Veículos.

A Prospect Consultoria é citada no relatório da Polícia Federal como uma das empresas utilizadas para executar o esquema fraudulento. A empresa foi fundada em janeiro de 2022, está em atividade e tem capital social de R$ 30 mil. Procurada, a defesa de Almeida Junior não respondeu aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

Romeu Carvalho Antunes, filho de Antunes, também aparece na sala 2601, em sociedade com Almeida Junior na Plural Intermediações de Negócios.

Romeu foi preso na manhã de 18 de dezembro de 2024 na Operação Sem Descontos. Além da relação com as empresas do pai, a PF identificou um aumento abrupto nos rendimentos do filho do “careca”, cujo crescimento seria incompatível com o seu histórico profissional.

Procurada pela reportagem, a defesa de Romeu disse que ele tem apenas 1% de participação na Plural, e que suas empresas estão baixadas há um ano, não mantendo “relação comercial com absolutamente ninguém mais”. Além disso, a defesa alega que ele nunca teve qualquer relação com a família Bolsonaro e Willer Tomaz. Os advogados também informaram que não tiveram acesso à informação de que o patrimônio era incompatível. 

Já Cristiana Alcântara Alves Zago é sócia de oito empresas na sala 2601. Segundo o relatório final da CPMI do INSS, ela figuraria como “suporte” contratada pelo “careca” para, inicialmente, realizar serviços de consultoria relacionados à estruturação de negócios no setor de cannabis medicinal”, e teria recebido créditos bancários de investigados no esquema de fraudes envolvendo o INSS. Ela teria recebido ao menos R$ 610 mil dos investigados, de acordo com o relatório.

Procurada, a defesa de Zago não respondeu.

Já a defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, afirmou que ele não tem nenhum elo com as empresas de Willer Tomaz e nem da família Bolsonaro.

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Vorcaro orquestrou venda de bens da Igreja Lagoinha e prometeu expansão de R$ 100 milhões

Uma fungada forte próxima ao microfone para não restarem dúvidas sobre o nível de emoção e uma caprichada na voz embargada: “Ô, Daniel, que o senhor te dê sabedoria, te cubra, te guarde, que ele nos guie e guie você nesse momento a voz de Deus, sempre”. Outra fungada. “É no mundo todo, Dani. É no mundo todo que tá acontecendo, é muito forte, irmão”. E outra fungada. A voz chorosa mineira é do pastor André Valadão, líder da Igreja Lagoinha Global. Essa emoção toda é uma resposta a uma felicitação de aniversário que também faria você chorar.

“Deus me incomodou para uma ação junto contigo. Vou colocar 100mm de reais de doação para abrir novas igrejas”, disse, sem rodeios, ninguém menos que Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master e de um sem número de empresas. “Queria que pensasse e orasse e depois me passasse um plano pra implementarmos”, instruiu naquele 16 de abril de 2024.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

Depois das prisões de Vorcaro em novembro de 2025 e março de 2026, quando o escândalo Master-BRB já estava em todas as manchetes, Valadão reconheceu que os dois se conhecem há décadas, mas frisou que o relacionamento dos dois se restringia à igreja e não envolvia negócios. Conversas interceptadas pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Compliance Zero, às quais a Agência Pública teve acesso, contam outra história.

Em meio a orações, viagens em jatos executivos, convites para Fórmula 1 e declarações de amor (há pelo menos 44 “eu te amo”), os diálogos entre o banqueiro e o pastor revelam uma intrincada rede de influência e a proteção de Vorcaro em círculos de poder evangélicos. Os diálogos entre “Dede” e “Dan Dan”, ou “Dani”, como se chamavam mostram que a relação passava longe de se restringir a doações, mas envolvia também conselhos sobre a gestão dos ativos da Igreja Lagoinha e formas inteligentes de aproveitar o potencial de operações financeiras e imobiliárias na própria rede de igrejas, com especial preocupação em continuar evitando impostos no ecossistema que, segundo Valadão, deve movimentar R$ 1 bilhão até 2030.

As mensagens do WhatsApp do ex-banqueiro mostram uma intensa troca de aconselhamento – espiritual, no caso de Valadão, e financeiro, do lado de Vorcaro. Com muitas citações a Deus e a Jesus, eles faziam articulações com lideranças da direita para viabilizar negócios de interesse comum e contornar crises de imagem – como no episódio em que Vorcaro pediu a intervenção de Valadão para falar com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) após uma postagem que enfureceu o banqueiro. É a pedido de Valadão que Nikolas busca “Dani” para se desculpar e diz que nem teria falado se soubesse que o negócio era dele.

A troca de favores tem duas vias. Em pelo menos dois episódios, Valadão pede ajudas, condicionando o atendimento a se “Deus tocasse no coração” do amigo. Apenas nos eventos de virada de ano da Lagoinha, o toque divino solicitado foi de US$ 350 mil e US$ 450 mil, em 2023 e 2024. Não há registros na mensagens se os gloriosos depósitos chegaram a abençoar as referidas celebrações.

Vende-se e aluga-se

No site vinculado à Igreja da Lagoinha, há 14 imóveis à venda em três municípios mineiros. A avaliação apresentada ao público é de R$ 38,2 milhões no conjunto de prédios comerciais e até fazendas para hospedagem com lazer. O que quem visita o catálogo da Lagoinha desconhece é que a ideia de vender os bens da rede de igrejas partiu do ex-dono do Banco Master.

Imóvel de hospedagem com lazer da Lagoinha em Belo Horizonte, avaliado por R$ 7 milhões

“Uma das coisas que eu estou pensando é de internacionalizar os bens da Lagoinha toda, sabe? Porque o dinheiro nos EUA, o crédito é muito fácil, né, muito menos juros, né. O juros tá alto hoje, mas ainda assim é baixo. Então seria um ministério sem fins lucrativos, non for profit americano, que detém bens no mundo todo, Europa, África, Brasil, Estados Unidos também, Canadá. Tô fazendo essa mudança, sabe”, conta animadamente André Valadão, em áudio enviado a Vorcaro, que responde:  “Acho excelente ideia”.

 “Como você me aconselhou, eu coloquei vários bens nossos à venda”, continua o pastor. “Tem um pessoal que me procurou também pra gente, tipo, criar um fundo com a quantidade de bens que a gente tem da Lagoinha, sabe? Mas eu acho que, como a maioria deles a gente nem paga imposto, acho que fazer um fundo, coisa assim, podia acabar sendo pior, né? Não sei o que você me aconselha a respeito”, indaga. “Fundo não é vantagem pra você. Legal é fazer base USA e virar global mesmo”, recomenda o empresário, enquanto falam do interesse de acionar advogados “de fora”.

A imunidade tributária das igrejas no Brasil bebe na fonte da Inglaterra moderna, que visava proteger os templos dado seu trabalho de acolhimento de doentes e desempregados, como explica o jurista Francisco Tenório, autor do livro “Direito das Igrejas”: “No Brasil, o artigo 150, inciso VI alínea b, prevê que é proibido instituir imposto sobre ‘entidades religiosas e templos de qualquer culto, inclusive suas organizações assistenciais e beneficentes’. […] Basta a igreja ter um CNPJ regular, e a fiscalização sobre as igrejas, na prática, é inexistente. Além do que, esse benefício constitucional não exige nenhuma contrapartida da igreja, como deveria ser devido a história de origem da imunidade como contrapartida pelo labor social.”

A ideia do fundo referente aos bens da Lagoinha continuou sendo uma grande questão nas conversas entre Valadão e Vorcaro. O pastor diz ao amigo que está levantando quanto as igrejas de sua rede pagam de aluguel, na intenção de negociar imóveis com as próprias afiliadas. A ideia era criar um fundo imobiliário voltado para a aquisição e construção de imóveis próprios, convertendo o custo do aluguel pago pelas igrejas em amortização de patrimônio.

“Acho que deve ser um valor relevante e certo todo mês, às vezes dá pra acessar possibilidade de compra de imóveis e as igrejas pagarem direto, mas em compra do imóvel semelhante ao invés de aluguel”, disse Valadão. “O valor que pagamos talvez conseguiríamos de alguma formar um fundo para até construir prédio próprio e alugar para as igrejas. Ou comprar algo semelhante… ?” Vorcaro rebate que no Brasil não haveria fundo “com apetite pra isso.”

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

O jurista Francisco Tenório explica que, mesmo em imóvel alugado, igrejas não pagam IPTU, por exemplo, e que bens de luxo de líderes religiosos, se ocultados em nome da igreja, seriam um caminho para a sonegação. Quanto aos fundos imobiliários envolvendo templos, o advogado desconhece planos semelhantes no Brasil, mas explica que esta seria uma forma de transformar um ativo imobiliário em capital com liquidez imediata e classifica a ideia de “escandalosa”. “Condenaria perpetuamente a membresia a ser inquilina e pagar aluguel dos templos que foram adquiridos com seus dízimos e ofertas. Moralmente essa conduta é absurda e inaceitável”, opina.

A igreja ter imóveis alugados gerando renda que é revertida para os fins da própria igreja não tem problema algum. Agora, criar FII com templos é outra questão. […] Seria um atestado de que a igreja deixou o conceito bíblico de comunidade de salvos, lavados e remidos pelo sangue de Jesus para se tornar uma corporação capitalista cuja finalidade é dinheiro e poder para seus ‘donos’.”
Francisco Tenório
jurista e autor de “Direito das Igrejas”

Clava Forte Bank, a fintech cristã que caiu quando Vorcaro foi preso

A inadimplência de instituições religiosas e o controle sobre sua própria rede de afiliadas fez André Valadão investir, contra a recomendação de Vorcaro, na primeira fintech cristão do país. Entre a primeira conversa entre os dois sobre o assunto e a inauguração do Clava Forte Bank se passaram menos de oito meses até a inauguração da iniciativa, em 31 de julho de 2024. A fintech se definia como “um banco para impulsionar os projetos do Reino de Deus”. O site da iniciativa ofertava serviços de contas digitais, cartões, maquininhas, financiamentos, seguros, marketplace e programas de cashback.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

Fazia tempo que Valadão tinha interesse em seguir os passos do amigo em negócios bancários e meios de pagamento. Em 2019, ele usou um culto para promover um cartão de crédito consignado com a marca “Fé”, voltado a pensionistas e aposentados. Na época, chamou o cartão “uma coisa de Deus”. Pegou tão mal que o projeto foi engavetado.

A ideia do Clava Forte Bank – o nome vem do trecho do hino nacional – foi mencionada na conversa com Vorcaro pela primeira vez em 9 de dezembro de 2023, quando Valadão convidou o amigo a patrocinar um show na virada daquele ano na Lagoinha de Orlando. “Ano que vem eu quero lançar um banco interno também da Lagoinha, principalmente para os pastores e para a igreja, não pro público diretamente primeiro”, disse em áudio.

Meses depois, em abril de 2024, o pastor pede orientação jurídica do amigo sobre um sistema para unir o sistema financeiro das igrejas do seu grupo, que estimava movimentar R$ 300 a 350 milhões internamente. Em vários momentos, Valadão diz temer “perder o foco” da igreja frente às possibilidades financeiras, ao mesmo tempo em que se mostra deslumbrado com a chance de aumentar as posses da Lagoinha. “Ano que vem vamos dobrar, se Deus quiser”, complementou. “Até 2030 fato só brasil vms passar de 1B ano. em ano de jesus.” Segundo Valadão, o negócio do banco era um negócio dele e da esposa, e “não da igreja”.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

Dias antes da inauguração do Clava Forte, em 23 de julho de 2024, ele anunciou ao amigo o “sistema ‘pay’ próprio Lagoinha Global” junto com a empresa de pagamentos Dock. O público estimado era de 2 a 4 mil clientes. Mas, em seguida, demonstra como o projeto poderia crescer: “só no ecossistema da Lagoinha hoje tem : igrejas, pastores, funcionários, livrarias, seminário (só hoje, 12 mil alunos ativos), fundação oasis filantrópica que recebe recursos federais… tipo tudo que envolve o mundo da Lagoinha pra dentro do CLAVA.”

Meses depois, Valadão pede ajuda a Vorcaro sobre pacotes de serviços para acoplar no sistema e de FIDC – tipo de investimento em renda fixa que compra dívidas de empresas que têm a receber no futuro. “Depois me explica o que precisa”, responde o ex-banqueiro. Em 17 de setembro, ele pede para falar com o amigo sobre alguns assuntos, entre eles “a fintech, que por sinal tá indo super bem e sem dúvida é algo que pode ficar grande demais”. Os dois fazem duas ligações que duram 15 minutos.

O sistema do Clava Forte Bank saiu do ar logo após a primeira prisão de Daniel Vorcaro no âmbito da operação Compliance Zero, no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), enquanto se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Dubai, em 18 novembro de 2025. Com o sistema da fintech fora do ar desde o dia 21, Valadão justificou a indisponibilidade como uma manutenção temporária para evitar ataques hackers.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

Vorcaro foi preso numa investigação a respeito de suspeita de fraudes bancárias, emissões irregulares de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e títulos de crédito falsos pelo Banco Master, que chegou a ser comprado pelo Banco de Brasília (BRB). Paralelamente, uma outra polêmica passou a ligar o Clava Forte Bank, Valadão e Vorcaro. Durante os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) apontou o ecossistema da Lagoinha e a fintech cristã como possíveis envolvidas no escândalo dos descontos indevidos nas contas de aposentados.

“Eu tenho comprovações de que tanto o Vorcaro como o Pastor [Fabiano] Zettel [cunhado de Vorcaro], André Valadão e a Clava Forte Bank também receberam recursos que vieram de pessoas aposentadas. Nós precisamos investigar isso, fazer a quebra [de sigilo], para ver se isso era dízimo ou se era lavagem de dinheiro”, sintetizou Correia.

O Congresso acabou apontando ainda a proximidade entre André Valadão e Felipe Machado Gomes, presidente de uma das associações suspeitas da fraude no INSS e já investigado no STF por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Conhecido por sua vida de luxo, Gomes é amigo de Valadão e foi um dos patrocinadores do réveillon da Lagoinha de 2024 – o mesmo em que o pastor pediu para Vorcaro ajudar com o que Deus tocasse o seu coração.

O sonho de US$ 20 milhões em Orlando

Em 14 de julho de 2024, Vorcaro avisa Valadão que iria fazer um bate e volta para jantar em Miami e chamou o amigo para ir junto no avião e dormir na casa dele. Os dois fazem uma breve ligação de voz. Em seguida, o pastor envia fotos de um terreno à venda em Orlando, que descreve como “inacreditável”. Ele passa uma foto de anúncio com a oferta de US$ 10,8 milhões e diz que o lugar fica “no miolo” da cidade, em uma região comparável aos bairros nobres Savassi ou Lourdes, em Belo Horizonte – os dois são mineiros.

“Dede, vamos pra cima.” O pastor diz que estaria disposto a vender um terreno que tinha na capital mineira para comprarem o terreno juntos. “Aquele valor que te falei tá comprometido”, responde o banqueiro, mencionando os R$ 100 milhões que prometeu doar à igreja, e esclarece os cálculos: “Você tem que ver como melhor usar. São 20mm usd [US$ 20 milhões]”.

“Faria a sede aqui com esses 20 com certeza. A compra e a construção”, responde Valadão. “Então vamos fazer”, resume Vorcaro. O pastor responde com 38 emojis de “aos prantos”, com um de “mãos em prece” no meio. “Se for isso que Deus colocar no seu coração, pra gente montar proposta aqui, você me fala que proposta que eu faço. Dani, você não tá entendendo”, ele continua com mais emojis “aos prantos”, antes de encaminhar mensagens do corretor do terreno e fotos feitas com inteligência artificial para simular o uso do terreno.

Dois dias depois, o ex-banqueiro tranquiliza o amigo: “Pode seguir com a aquisição. Eu tô já movimentando. Pra te mandar o recurso”. Ao que o pastor responde com um textão de gratidão sem limites e doses de “Amém Dani” e “Tô aqui Dani”.

O assunto voltou em 31 de julho. Valadão relata que, se assinar o contrato, teria que depositar US$ 200 mil [cerca de R$ 1 milhão] em cinco dias. Vorcaro não respondeu. Segue-se mais uma leva de mensagens melosas de Valadão, enfatizando que o amigo é um “escolhido de Deus” que “nada nem ninguém vai derrubar”. E continua pedindo por um telefonema: “Tô sempre à disposição com telefone na mão.” Vorcaro só respondeu quando Valadão anunciou que um processo que respondia por homofobia havia sido arquivado. “Que showwwwwww. Parabéns!!!”, disse.

Em 15 de agosto, Valadão cobra uma resposta. “Dani sobre o terreno estamos finalizando e precisamos de 200k de dólares pra amarrar a proposta … e prosseguir com due diligence de até 80 dias para ter toda liberação da prefeitura para o projeto ou não”, escreveu. Até o dia 17 de setembro, os dois trocam dados de contas e instruções, como um modelo de “proof of funds”, que Vorcaro se compromete a preencher com os dados de suas empresas para viabilizar a compra do terreno para a igreja do amigo. O valor indicado é de US$ 11,8 milhões, o que, considerando o sinal de US$ 200 mil, sugere um compromisso de compra de US$ 12 milhões – aproximadamente R$ 60 milhões.

Mensagem enviada por André Valadão, da Igreja Lagoinha

Dois meses após os últimos pontos discutidos sobre a aquisição, Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez, em novembro de 2025. Quase um ano depois, o anúncio do terreno na S Apopka Vineland Road, em Orlando, na Flórida, segue no ar, ainda sem dono.

O próspero caso da Lagoinha Belvedere

André Valadão e Daniel Vorcaro não discutiram aquisições apenas no exterior e nem todos os negócios discutidos deixaram de sair do papel. Em um dos contatos entre os amigos, eles discutiram sobre um imóvel em frente ao BH Shopping, em Belo Horizonte (MG). O espaço seria destinado à instalação de uma igreja ligada a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. “Segunda feira vou em BH com Zettel ver o imóvel da Jorlan, em frente o BH shopping para ser a igreja dele. Será lindo. 4 mil lugares”, escreveu Valadão. Mais tarde, a unidade seria transformada na Lagoinha Belvedere, liderada por Zettel, e na mira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Unidade da Lagoinha Belvedere em Belo Horizonte foi construída no espaço onde antes funcionava uma concessionária de veículos
Unidade da Lagoinha Belvedere em Belo Horizonte foi construída no espaço onde antes funcionava uma concessionária de veículos

Zettel é apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores financeiros de Vorcaro. De acordo com as investigações, ele intermediava pagamentos, organizava transferências e participava da estruturação de contratos que teriam sido utilizados para justificar repasses financeiros.

Conversas às quais a Pública teve acesso mostram que Zettel recebia ordens de Vorcaro para movimentar grandes quantias, além de lembrar o cunhado de despesas que iam desde IPTU a dívidas milionárias. Embora os diálogos entre os dois tratassem predominantemente de questões financeiras, as mensagens analisadas não mostram solicitações de Vorcaro para que Zettel realizasse repasses especificamente a Valadão — apesar das doações expressivas que o empresário teria feito ao líder religioso.

Em 2018, Valadão celebrou o casamento de Fabiano Zettel com Natália Vorcaro, irmã do ex-controlador do Banco Master. A relação entre os dois pastores e Vorcaro, no entanto, envolvia outros familiares e projetos, como mostra o Relatório de Informações Financeiras 140.515, do Coaf, ao qual a Pública teve acesso.

Fabiano Zetel e a esposa, que também é irmã de Vorcaro. André Valadão e a esposa. A imagem foi encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro
Fabiano Zetel e a esposa, que também é irmã de Vorcaro. André Valadão e a esposa. A imagem foi encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro

Segundo o documento, a unidade Belvedere tinha um faturamento presumido de R$ 950 mil por ano. No entanto, a igreja recebeu, entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, um total de R$ 57,1 milhões, em movimentações classificadas com atípicas pelo órgão regulador de finanças.

Chama a atenção que o pastor líder da Lagoinha Belvedere, Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, por exemplo, tenha feito 26 operações, totalizando R$ 19,2 milhões para a unidade, fechada após a prisão de Zettel, em março deste ano, na mesma operação Compliance Zero que prendeu o ex-dono do Banco Master.

A igreja também recebeu doações da ordem de R$ 101,6 mil de Fabíola Vorcaro, ex-esposa do banqueiro, em sete operações; de R$ 120 mil, em quatro operações de Henrique Vorcaro, pai de Daniel; e outros R$ 22 mil, em 11 operações de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, ninguém menos que o “Sicário” de Vorcaro, seu braço operacional nas operações do Master, que morreu no hospital enquanto estava custodiado.

Além das movimentações envolvendo a Lagoinha Belvedere, Zettel também aparece ligado a movimentações consideradas atípicas quanto à empresa Super Empreendimentos e Participações, que já foi dirigida pelo cunhado de Vorcaro e tem movimentações imobiliárias e financeiras investigadas pela PF. Segundo o Coaf, R$ 19,693 milhões foram movimentados em operações suspeitas no mês de junho de 2022.

A Pública procurou André Valadão, Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e a Igreja Lagoinha para esclarecer os questionamentos apontados na reportagem. Até o momento da publicação, apenas a defesa de Vorcaro respondeu, informando que não iria comentar o assunto. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master

Conexões onipresentes

Com bateria social quase ilimitada, acesso que vai de pequenos empresários a jogadores de futebol e ministros do STF, Daniel Vorcaro passou a alimentar fantasias de vários gêneros no imaginário popular do brasileiro. Mas pouca gente lembra que antes de ser preso investigado por fraude, e antes disso um rico banqueiro, Vorcaro era apresentador de um programa de música gospel na Rede Super, o Supersônica, da emissora de TV que pertence à Lagoinha – logo, ligada ao amigo André Valadão.

Em 2022, Bolsonaro visitou a Lagoinha em Orlando, onde Valadão prega. O pastor fez uma oração pelo ex-presidente. Naquele ano, a emissora havia recebido R$ 217 mil do governo federal. Ao longo do mandato do ex-presidente, a emissora recebeu R$ 756 mil pagos por campanhas de comunicação. O pastor já disse não ser bolsonarista, mas já compartilhou posicionamentos ideológicos com o ex-presidente. Valadão também tem laços estreitos com bolsonaristas expoentes, como Nikolas Ferreira e Fábio Faria, e até já foi cicerone para o blogueiro Allan dos Santos, foragido nos Estados Unidos. Já Vorcaro, já disse explicitamente apoiar a direita, como revelou a Pública.

A Rede Super é um ativo da Lagoinha obtido por meio de uma parceria antiga com a família Vorcaro. O pai de Daniel, Henrique Vorcaro, frequentava os cultos de Márcio Valadão, pai de André Valadão. Segundo a revista piauí, os conselhos do pastor foram tão importantes para o empresário que, ao obter sucesso com a corretagem de imóveis, passou a dar gordas doações para a igreja – que usou a verba para comprar a emissora em 1997.

Lagoinha ontem e hoje

A igreja “da parede preta” ou “que tem área VIP”. As opções de organização e a estética reformada da Igreja Batista da Lagoinha, que bebe na fonte da australiana Hillsong Church, podem fazer parecer que a organização é uma espécie de novidade que vem ganhando projeção, mas ela foi fundada em 1957, em Belo Horizonte.

A força da organização levou, ainda nos anos 1990, Ana Paula Valadão, irmã de André, a lançar a banda gospel Diante do Trono – que se tornou um sucesso de vendas e projetou a Lagoinha de uma igreja regional para uma potência nacional.

Imagem do interior da Igreja Batista da Lagoinha. As imagens foram encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro
Imagem do interior da Igreja Batista da Lagoinha. As imagens foram encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro
Imagem do interior da Igreja Batista da Lagoinha. As imagens foram encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro

A expansão para o resto do país e até unidades internacionais veio também com a adoção das paredes escuras, que buscava priorizar a visibilidade de paredes de LED e projeções de luz para conquistar um público mais jovem com a estética de espetáculo. Já a segregação de celebridades, políticos e convidados dos pastores, que geram polêmica na unidade Alphaville – onde também há estacionamentos privativos, entradas exclusivas e camarim com bufê – sempre foi negada pelos pastores.

O próprio André Valadão, aliás, diz não ser adepto de área VIP, mas de eventuais “assentos reservados, 20, 30, sei lá” para seus convidados. “Nada além do normal”.

A nova geração de Valadões e Vorcaros parece seguir o mesmo caminho da amizade que, de tempos em tempos, impulsionou os negócios ligados à Lagoinha. Stella, filha de Daniel, estuda com um filho de André. Os dois dançaram juntos a valsa na festa de 15 anos da menina, que não contou com Diante do Trono como atração musical, mas com um show exclusivo do DJ Alok.

A relevância da Lagoinha é inegável, com uma influência que chega ao Supremo Tribunal Federal: foi Fábio Faria, hoje casado com Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, quem apresentou Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. Além disso, a reunião que o dono do Master participou com o ministro André Mendonça também foi organizado por membros da igreja. Uma história de poder, fé e fraternidade de uma congregação que nos próximos meses completa 70 anos.

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Homens praticam tiro contra imagem de Lula em clube de São Paulo

Em um clube de tiro, uma dupla de homens armados pratica contra um alvo com o desenho do rosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Entre risos, eles dizem “Faz o L” e “esse não vai participar da próxima eleição”. A câmera foca no rosto do boneco de Lula, mostrando furos de bala na parte superior da imagem. “Olha a carinha dele. Só na testa.” A legenda do vídeo é “toma essa picanha”.

No vídeo, os homens dizem:
– “Esse não vai participar da próxima eleição.”
– “Faz o L.”
– “Olha a carinha dele. Só na testa.”
Na legenda da publicação, escreveram: “Toma essa picanha”.
No vídeo, os homens dizem:
– “Esse não vai participar da próxima eleição.”
– “Faz o L.”
– “Olha a carinha dele. Só na testa.”
Na legenda da publicação, escreveram: “Toma essa picanha”.

O homem que postou o vídeo em seu perfil no WhatsApp foi identificado como Maurício Archangelo, dono de empresas na Zona Leste de São Paulo. Ao ser contatado, ele disse não se lembrar do vídeo. A reportagem explicou que ele estava, naquele momento, no dia 21 de outubro, publicado em seu status. Ele disse que ia ver e desligou. Neste intervalo, o vídeo foi apagado.

Em uma nova ligação, Archangelo disse que não sabia do que se tratava, desligou de novo e bloqueou o contato. A reportagem insistiu com outro número de telefone. Desta vez, Archangelo não respondeu às perguntas e se limitou à perguntar como foi feito o acesso ao seu status do WhatsApp.

No perfil do empresário no Instagram, que é aberto, há outra foto de Archangelo em um clube de tiro. Ele também já postou uma imagem de um bebê de poucos meses com uma arma na parte de trás da fralda. 

Bruno Langeani, consultor sênior do Instituto Sou da Paz, avalia que a conduta de atirar na foto de um presidente pode ser enquadrada como crime de ameaça, que é prevista como “Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave”. 

“Vindo de pessoas que têm acesso a arma de fogo e se tratando de políticos como Lula, que já tiveram a caravana em 2018 atingida por tiros e que na época da tentativa de golpe, em 2023, foi demonstrado que havia um plano para matá-lo também a tiros, isso é algo bastante grave e que deve ter providências sérias das autoridades”, afirma. Para ele, a investigação deve ser não só contra as pessoas que atiraram, mas também sobre o clube de tiro por permitir o uso dessas silhuetas em alvos de tiro”, complementa.

Em 2021, um vereador de Fortaleza foi condenado a pagar indenização por danos morais após atirar numa foto de Lula. No ano seguinte, quando o petista foi eleito para o seu terceiro mandato, o PT denunciou que clubes de tiro estariam usando a imagem do político em alvos e acionou a justiça.

Para o cientista político da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) o episódio da imagem de Lula ser usada como alvo por bolsonaristas é simbólico do processo de normalização da violência deste grupo. “Passa a ser normal tratar adversários como inimigos a quem se deve eliminar”, aponta.

Clube de tiro já foi alvo de ação policial no passado

Publicação de Maurício Archangelo na rede social Instagram
Publicação de Maurício Archangelo em rede social

A gravação ocorreu no Clube e Escola de Tiro 556, localizado na zona leste de São Paulo. O proprietário, Vinicius Monteiro Pires Inácio, afirmou estar viajando e desconhecer o episódio. Ele afirmou que os clientes “podem levar o alvo que quiserem”, desde que sejam caricaturas, e não fotos de pessoas reais. Também enfatizou que não incentiva e nem compactua com atos de incitação ao ódio.

Segundo ele, é comum que usuários do clube levem imagens como demônios ou o coringa, mas os funcionários não autorizam o uso de fotos de familiares e pessoas, famosas ou não.

Logo após ser procurado pela Agência Pública, o clube de tiro fez um post no Instagram dizendo que é “expressamente proibida a impressão e utilização de imagens de pessoas reais como alvos em nossas instalações.” O post cita os artigos do Código Civil e do Código Penal que atribuem a conduta como criminosa. A empresa também diz que o descumprimento “poderá resultar em medidas administrativas e, conforme o caso, responsabilização civil e criminal”.

Inácio, que é influenciador ligado a pautas conservadoras conhecido como Magnata, afirma que a empresa exige que os usuários tenham as permissões regulares para utilizar o recinto, porém “não é possível observar o que os clientes fazem o tempo todo”. 

Em sua página pessoal, ele postou um vídeo na semana anterior ao primeiro turno mostrando pessoas com camisetas do Bolsonaro atirando, com a legenda “Domingo vai ser assim de novo”. O clube de tiro fez um evento para exibir a contagem de votos, com cerveja e petiscos.

O proprietário do clube afirma que é de direita, mas não compactua com o episódio. “A minha opinião política e partidária nunca teve sigilo. Tanto que eu perdi uma conta com mais de 800 mil seguidores no Instagram por expor o que eu penso. Mas uma coisa é o Vinícius, pessoa física. Outra coisa é o Magnata, proprietário do clube de tiro 556. Eu não deixo que opiniões políticas interfiram na minha empresa. Todo mundo é bem vindo lá”, disse.

Em 2023, o clube de tiro foi alvo de uma operação policial que apreendeu 38 armas. Segundo o SBT News, o estabelecimento estaria fazendo rifas de armas de fogo com números vendidos a partir de R$ 1 o número, o que é proibido. Também, segundo a reportagem, deixava pessoas sem treinamento usar qualquer tipo de arma.

Segundo a portaria Nº 20.749, de setembro de 2020, “armas e munições, explosivos, fogos de artifício ou de estampido” não poderão ser objeto de operação filantrópica, mediante distribuição de prêmios. A portaria também estabelece que “a distribuição de prêmios mediante sorteio, vale-brinde, concurso ou operação assemelhada realizada por organizações da sociedade civil, com o intuito de arrecadar recursos adicionais destinados à sua manutenção ou custeio, depende de prévia autorização do Ministério da Economia”.

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‘Dark Horse da Shopee’: 2º filme sobre Bolsonaro teve convite a Vorcaro e é alvo da Ancine

Um segundo filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro guarda muitas semelhanças com Dark Horse, produção que ficou famosa por ter recebido pelo menos R$ 62 milhões do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e por ter colocado o candidato à presidência Flávio Bolsonaro sob investigação da Polícia Federal. Entidades ligadas ao documentário A Colisão dos Destinos, que estreou em maio nos cinemas com salas vazias, também receberam emendas parlamentares de deputados bolsonaristas — entre eles Mario Frias (PL-SP). Assim como Dark Horse, o documentário está mencionado em mensagens do celular de Vorcaro, que foi convidado a ver a obra em uma sessão particular junto com Flávio e Jair. A diferença, no entanto, é o valor da produção.

Enquanto a produção internacional teve custo declarado de R$ 75,1 milhões – valor maior que grandes produções como Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto -, A Colisão dos Destinos teria gasto apenas R$ 4,5 mil, conforme declarou a produtora à Agência Nacional de Cinema (Ancine).

Por conta deste valor, considerado baixo pela agência para um longa-metragem, a Ancine abriu uma diligência contra a produtora Dori Filmes, responsável pelo documentário. O filme foi lançado simultaneamente em 17 estados, em maio deste ano, e tem participações do ex-presidente e seus filhos, além de políticos bolsonaristas.

Em um documento obtido pela Agência Pública, a Ancine solicita que a Dori Filmes confirme o valor do financiamento. “O valor informado não condiz com os custos de uma obra audiovisual”, justificou a diligência. Em resposta, a produtora alegou que não houve gastos com produção e finalização porque “todos os técnicos trabalharam de forma voluntária, como parceiros da obra”, tratando-se de um projeto “inteiramente sem dinheiro”.

Peça de divulgação de documentário sobre Jair Bolsonaro, que estreou em maio

Apesar da alegação, a Dori Filmes e outra entidade audiovisual também ligada ao diretor Doriel Francisco receberam R$ 860 mil em emendas parlamentares dos deputados federais Mario Frias, Marcos Pollon (PL-MS) e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, além de R$ 22 mil da cota parlamentar de Frias. Além disso, também houve pagamentos de R$ 600 mil por meio do diretório do Partido Liberal e R$ 84 mil da ONG Academia Nacional de Cultura, comandada por Karina Gama, a produtora de Dark Horse. O montante total recebido pelas entidades ligadas ao documentário foi de R$ 1,5 milhão.

Os recursos entraram no caixa das entidades ligadas ao documentário A Colisão dos Destinos no período em que estava sendo produzido. Somente a Dori Filmes, de propriedade de Francisco, ficou com R$ 106,4 mil desse total.

O relatório da Ancine também aponta que o deputado federal Mário Frias ocupou a função de produtor executivo do filme, cargo que é responsável pela gestão financeira da produção. O documento cita ainda que o argumento do documentário foi escrito por Frias em parceria com o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que foi cassado em 2025 e que atualmente vive nos Estados Unidos.

A Pública foi ao endereço oficial da Dori Filmes, na zona rural de Sobradinho, no Distrito Federal. Em vez de uma sede empresarial, a reportagem encontrou casas simples e sem muro em um terreno de difícil acesso por estrada de terra. Não há indícios físicos da produtora no local, e um vizinho afirmou desconhecer a existência da empresa. Disse também nunca ter ouvido falar de Doriel Francisco.

Endereço que consta como sendo da produtora Dori Filmes

Além da diligência sobre o valor da obra, a Ancine também abriu uma investigação para apurar os dados de exibição do documentário nos cinemas. A agência informou, em resposta à Pública via Lei de Acesso à Informação, que a distribuidora de A Colisão dos Destinos (função que foi exercida pela própria Dori Filmes) não reportou quantas salas exibiram a obra e qual foi o tamanho do público. O envio destas informações é obrigatório. A empresa foi notificada e está correndo o prazo para enviar os dados de forma voluntária.

A Colisão dos Destinos estreou em 14 de maio, em 56 salas de cinema que permaneceram esvaziadas. O lançamento ocorreu um dia depois de O Intercept Brasil revelar que o senador Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para produzir Dark Horse. Este valor, no entanto, é superior aos R$ 75,1 milhões declarados pela produtora de Karina Gama à Ancine. Por conta disso, o candidato à presidência é investigado por suspeita de corrupção, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. 

Nos bastidores da Ancine, A Colisão dos Destinos foi apelidada de “Dark Horse da Shopee” por remeter a uma versão de baixo orçamento do longa de produção internacional.

Frias queria exibir filme a Vorcaro junto com Flávio e Jair Bolsonaro

A Colisão dos Destinos também aparece nas conversas vazadas do celular de Vorcaro, às quais a Pública teve acesso. Em 21 de março de 2025, Mario Frias procurou o banqueiro às 7h25 da manhã. “Bom dia, irmão”, ele disse. Em seguida, enviou um arquivo de vídeo com o trailer do documentário.

O deputado disparou várias mensagens em sequência para Vorcaro:

“Quando você quer assistir ao documentário? Aí no dia sala? Só me fala dia e hora convida o Ciro kkkk [sic]. E bora assistir ‘A Colisão dos Destinos’. O único documentário do mundo feito sobre o homem. Tmj”, escreveu. Vinte minutos depois, Vorcaro respondeu apenas “Bom dia”.

Frias continuou: “Só marcar. Tá pronto. Chama quem você quiser e me fala dia e hora, irmão. Vc vai adorar o filme.” O banqueiro sinalizou que poderia “na outra semana”, “pois a que vem não irei a bsb”, continuou. O deputado respondeu: “Fechado”.

Em outra conversa, de 27 de março de 2025, o empresário e lobista Thiago Miranda diz a Vorcaro que Flávio Bolsonaro e Frias pediram para levar Jair Bolsonaro para assistir ao documentário na casa de Vorcaro. “Flavio e Mario me pediram isso. Querem levar o presidente na sua casa para assistirem juntos com vc o documentário”, disse.

O banqueiro mais uma vez foi sucinto: “Vamos marcar sim”. Miranda insistiu: “Me passa duas opções de data que fica melhor pra você semana que vem?” Não fica claro, pelas mensagens, se o encontro aconteceu. Na época, a assessoria de Flávio negou que tenha ocorrido.

Na pré-estreia do filme, o deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL na Câmara, disse à CNN que o filme iria reforçar a campanha de Flávio à presidência da República. “Eu vou fazer campanha com este documentário nos municípios do meu estado para todos verem a história de um homem que admiramos.” O filho de Bolsonaro teve 47% dos votos válidos no primeiro turno das eleições.

Nós procuramos Doriel Francisco, Dori Filmes, Mario Frias, Marcos Pollon e Eduardo Bolsonaro, mas não obtivemos resposta até a sua publicação. O espaço permanece aberto.

Dinheiro de ONG ligada a Dark Horse

A Colisão dos Destinos também tem relação com a ONG Academia Nacional de Cultura, comandada por Karina Gama, a produtora de Dark Horse. A ONG fez um repasse de R$ 84 mil para a Dori Filmes entre 2025 e 2026. A informação consta de um relatório da Polícia Federal, revelado pela Folha de S.Paulo, no contexto das investigações sobre o Dark Horse. Até o momento, a produtora não se manifestou sobre o motivo do pagamento.

Em 2024, ano em que A Colisão dos Destinos foi rodado, Mário Frias repassou R$ 22,4 mil de sua cota parlamentar à Dori Filmes por serviços de divulgação do mandato, como revelado pelo Metrópoles. Segundo as notas fiscais apresentadas à Câmara, com valores entre R$ 3,5 mil e R$ 7 mil, a produtora teria confeccionado folders e vídeos sobre a atuação do deputado.

Ainda naquele ano, Frias também destinou uma emenda parlamentar de R$ 180 mil, via Ministério da Cultura, para a ONG Passos da Liberdade. O diretor Doriel Francisco integra a presidência da entidade como primeiro secretário e é coautor de outras obras audiovisuais da organização.

A Passos da Liberdade ainda recebeu verbas de emendas de Eduardo Bolsonaro, enquanto ainda tinha mandato, e do deputado Marcos Pollon, nos valores de R$ 500 mil e R$ 180,9 mil, respectivamente. Na época, os deputados disseram que o dinheiro seria para o financiamento do documentário Nós (anteriormente chamado de Genocidas), sobre regimes autoritários comunistas. Doriel Francisco é creditado como co-roteirista do filme. As emendas passaram a ser descritas no site da ONG depois de reportagem do UOL.

O diretório do PL também enviou R$ 600 mil do fundo partidário para a Passos da Liberdade sob a justificativa de “prestação de serviços de assessoria de comunicação e de produção audiovisual” em Minas Gerais. À Folha, a organização confirmou o contrato com o PL para “prestação de serviços de comunicação institucional”.

Com sede em Porto Alegre, a ONG é presidida por Rodrigo Cassol Lima, que foi o número dois da Secretaria Nacional de Desenvolvimento Cultural durante o governo Bolsonaro. Na época, o órgão era subordinado à Secretaria Especial de Cultura, chefiada por Mário Frias. O filme Nós é dirigido por outro ex-membro do governo Bolsonaro: Gustavo Lopes, que foi secretário nacional de Audiovisual.

Em resposta à Pública, a Passos da Liberdade disse que não teve participação financeira e nem envolvimento com a produção de A Colisão dos Destinos. A organização também disse que o documentário Nós deve ser lançado em streaming em novembro e que o contrato com o PL é de natureza institucional. Leia a íntegra.

Prestação de serviços em campanhas bolsonaristas

Após a estreia de A Colisão dos Destinos, a Dori Filmes foi contratada por duas campanhas bolsonaristas nas eleições deste ano para produção de vídeos. A vereadora de São Luís, Flávia Bethier (PL-MA), que se autointitula “a bolsonarista do Maranhão” e é presidente do PL Mulher no estado, pagou R$ 30 mil pelos serviços da Dori e mais R$ 19.700 para a Star City, empresa da qual Doriel se tornou sócio em junho deste ano. Ela concorreu a uma vaga como deputada federal e passou como suplente.

Cena do documentário mostra Jair jovem com os três filhos mais velhos

Entre junho e julho, Berthier patrocinou uma caravana que levou exibições gratuitas do filme a São Luís e mais de 20 cidades do interior do Maranhão. Flávio Bolsonaro gravou um vídeo agradecendo a política pela iniciativa. “Bora resgatar o Brasil começando pelo Maranhão”, diz ele. Também houve apresentações em cidades de Pernambuco.

Outro candidato que contratou o diretor do documentário de Bolsonaro para prestar serviços para sua campanha, por R$ 20 mil, foi Vilmar Vigo, conhecido como “Bolsonaro da Shopee” por se parecer fisicamente com o ex-presidente. Vigo concorreu à Câmara Federal pelo Mato Grosso, mas não se elegeu.

Doriel Francisco entrou como sócio em duas empresas – a Star City Mídia e Capital Facilities Gestão Administrativa e Imobiliária – em junho deste ano, pouco antes do período eleitoral. Ele se tornou sócio de Deuselis Braga André Filho, lotado como assessor parlamentar do senador Izalci Lucas (PL).

Deuselis é dono de páginas nas redes sociais que reúnem influenciadores de direita e faz campanha para Flávio Bolsonaro. Ele também comanda páginas que agrupam atos conservadores pelo Brasil e organiza protestos de direita. Mais recentemente, organizou uma motocarreata em Brasília. O próprio candidato gravou um vídeo, ao lado de Deuselis, chamando para o ato.

A página de Deuselis nas redes sociais, chamada “Influenciadores de Direita”, é mencionada como “parceira” na produção de A Colisão dos Destinos, junto com uma agência de marketing político de Brasília de pequeno porte. Berthier e Deuselis não responderam ao pedido de entrevista.

O documentário A Colisão dos Destinos exibe a “história não contada” do ex-presidente preso por tentativa de golpe de Estado, retratado como uma figura simples que foi escolhida por Deus para comandar o país. As filmagens aconteceram antes de ele ser condenado por tentativa de golpe de Estado e proibido de dar entrevistas.

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Por que as pessoas estão votando em Flávio Bolsonaro?

Vários fatores ajudam a explicar a perda de votos de Lula e o crescimento de Flávio Bolsonaro nas urnas. A repórter Amanda Audi ouviu especialistas em política e explica os principais: a ausência de debates entre os dois candidatos, a apropriação do discurso antissistema pela extrema direita, o impacto dos escândalos, as dificuldades do governo Lula diante de um Congresso hostil, a força da direita nas redes e o voto útil já no primeiro turno.

Assista o vídeo e entenda por que Flávio Bolsonaro ganhou espaço entre os eleitores.

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Virada de Flávio no 1º turno: escândalos podem ter favorecido desejo antissistema

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Ao contrário do que apontavam a maioria das pesquisas eleitorais, o primeiro turno das eleições presidenciais terminou com vantagem do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por 47% a 45% – uma diferença de cerca de 2,3 milhões de votos. Especialistas ouvidos pela Agência Pública afirmam que o resultado se deve a uma oposição pragmática e organizada, que soube capitalizar o discurso antissistema. Além disso, o resultado pode revelar, ainda que de forma contraditória, um desejo do eleitorado por mudança e o cansaço da política – que passou a ser vista como um poço de escândalos, ainda que a maioria não atinja diretamente o governo.

Para eles, o Partido dos Trabalhadores e o lulismo passaram a ser percebidos por parte dos eleitores como o próprio “sistema”, enquanto a direita seria a “renovação” – apesar de Flávio ter sido deputado estadual por quatro mandatos, ser filho de um ex-presidente e representá-lo politicamente. É um processo parecido com o de 2018, quando Jair Bolsonaro se associou a uma candidatura supostamente “antissistema”, apesar de ter exercido cargos políticos nas três décadas anteriores.

“O PT se tornou dominante na presidência ao longo dos últimos 20 anos e, para as últimas gerações, especialmente para quem não presta tanta atenção à política, ele representa a ordem, a institucionalidade e o establishment”, afirma Alex Hochuli, analista político e mestre em sociologia e relações internacionais.

Essa visão explicaria por que os escândalos ligados majoritariamente à direita, como o caso do banco Master, impactaram pouco o resultado das urnas para esse espectro. Como os escândalos geralmente são vistos como falhas do sistema, eles acabam prejudicando o governo também, e de forma mais pesada.

Além disso, o excesso de escândalos também pode ter tirado sensibilidade do público. Em um período de manchetes escandalosas seguidas, as pessoas têm dificuldade para entender o que cada uma delas significa em termos de importância e tende a colocar todos no mesmo saco.

“São tantas novas notícias que ninguém entende o que está acontecendo de verdade. Isso acaba gerando a sensação de que todo mundo é corrupto do mesmo jeito. É uma sensação antissistema que favorece o bolsonarismo, que opera justamente com essa linguagem antissistêmica”, diz Daniela Costanzo, cientista política e pesquisadora do Núcleo Direito e Democracia do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Hochuli argumenta que o Brasil vive um contexto de “escandalização permanente” que é despolitizante e reforça o discurso conservador anti-Estado – e isso fere principalmente a esquerda. “Nos últimos 10 anos, o Brasil se tornou o país do escândalo”, afirma.

“Isso faz com que o brasileiro esteja de saco cheio desse tipo de forma de fazer política. A direita diz: ‘vamos esquecer a política, vamos deslegitimar o Estado, vamos diminuir o tamanho do Estado e torná-lo simplesmente uma força de segurança. Vamos apoiar as forças policiais e nada mais do que isso”, ele continua.

Sessão Eleitoral no Distrito Federal neste domingo, 4 de outubro
Sessão Eleitoral no Distrito Federal neste domingo, 4 de outubro

O fardo “PT vs oposição” e a estratégia digital da direita

Nos últimos anos também se consolidou a noção de que as eleições brasileiras são decididas entre o PT e um partido, ou grupo, de oposição a ele – por algum tempo foi o PSDB e, mais recentemente, o bolsonarismo. Com isso, o embate passou a ser visto não mais como de um partido contra o outro, mas sim o PT contra todo o resto. Isso faz com que o peso dos escândalos se torne assimétrico e o partido seja percebido como corresponsável por todos os problemas que afligem o dia a dia do brasileiro.

Soma-se a isso o fato de que o terceiro mandato de Lula foi diferente dos dois primeiros, entre 2002 e 2010. Naquele período, o petista inaugurou programas sociais que se tornaram as suas marcas, como o Bolsa Família e o Prouni. Desta vez, o governo aumentou os já existentes, mas não conseguiu criar outros tão marcantes. Medidas como o fim das bets e as canetas emagrecedoras no SUS teriam chegado atrasadas, e uma pauta que poderia favorecer sua candidatura – o fim da escala 6×1 – não foi aprovada a tempo.

“É evidente que Lula teve mais dificuldades para governar desta vez, com um Congresso mais hostil e num cenário completamente diferente dos anos anteriores”, diz Leandro Torelli, cientista político e coordenador da pós-graduação da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).

O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante pronunciamento após o 1º turno das eleições, São Paulo
O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante pronunciamento após o 1º turno das eleições, São Paulo

Costanzo também aponta que houve uma clara organização tática, institucional e digital da direita, especialmente pelas redes sociais. Para ela, a direita se organizou com alto grau de eficácia principalmente em torno da eleição para o Senado, pelo menos desde 2022, com a pauta de promover o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Na Casa, a direita conquistou 80% das vagas que foram renovadas – 43 das 54 cadeiras em disputa.

Por fim, Torelli cita que o resultado eleitoral também é reflexo do fenômeno do voto útil – quando eleitores que votariam em um candidato migram para outro com mais chance de ganhar. Ele avalia que houve uma migração dos votos de eleitores da direita já no primeiro turno – esse movimento costuma ser mais frequente no segundo. Nomes como Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD) chegaram a pontuar nas pesquisas, mas “desidrataram e parte de seus votos migraram para a candidatura de Flávio Bolsonaro”.

Também pode ter havido o fenômeno do “voto envergonhado” – quando a pessoa evita se posicionar publicamente ou responder pesquisas com o voto que efetivamente vai dar nas urnas. Porém, os analistas frisam que ainda é cedo para validar as hipóteses.

Crises engoliram debate sobre segurança pública nas urnas

Em uma campanha atípica, em que os candidatos que lideravam as pesquisas não debateram nenhuma vez em rede nacional, as grandes estrelas acabaram sendo as narrativas paralelas. Discutimos as festas e orgias que ajudaram um ex-banqueiro a montar uma pirâmide financeira sem precedentes. Tentamos acompanhar as decisões de um Supremo Tribunal Federal (STF) rachado e envolto em escândalos. Falamos até sobre a Nossa Senhora Aparecida. Mas não sobre propostas de governo.

E nem sobre os problemas do Brasil hoje, que costumavam ser a tônica das discussões eleitorais. Segundo uma pesquisa do Instituto Ipsos do último mês, 52% dos brasileiros colocam crime e violência como os maiores motivos de preocupação atualmente.

É um medo crescente e bem fundamentado. A violência como maior preocupação do país subiu nove pontos percentuais desde setembro de 2025. E 40% dos brasileiros sofreram algum tipo de violência nos últimos meses, de acordo com outra pesquisa, a do Datafolha, divulgada em maio. Os crimes mais frequentes, os golpes virtuais, atingiram 15% da população no período pesquisado, o que representa um contingente de mais de 26 milhões de pessoas.

O assunto da segurança ganhou tração no início da campanha com a adesão de candidaturas ao “modelo Bukele” – em referência à política de segurança do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, que levou à prisão um em cada 50 salvadorenhos. Aqui, quase todos os candidatos de direita defenderam o projeto linha-dura.

Flávio Bolsonaro chora na oficialização de sua candidatura em 25 de julho, ao lado da esposa.
Flávio Bolsonaro chora na oficialização de sua candidatura em 25 de julho, ao lado da esposa.

Lula e Flávio também focaram no tema da violência de gênero após a alta alarmante de números de feminicídio que chocaram o Brasil. Esta foi a aposta dos lançamentos das duas candidaturas. Flávio se cercou de mulheres e se emocionou às lágrimas algumas vezes, enquanto dizia ser mais “calmo e moderado” para se diferenciar do pai, Jair, dono de um grande histórico de atos machistas. Já Lula focou em programas voltados às mulheres. “O cara vai ter que escolher: ou ele vota em mim, ou ele bate na mulher. Se bater na mulher, não precisa votar em mim“, ele disse.

Mas os temas acabaram sendo relegados a um lugar lateral no debate público. “Talvez este tenha sido o processo eleitoral da Nova República [pós-redemocratização] em que menos se discutiu qualquer tema relevante para o país”, avalia Leandro Torelli. “A eleição foi esvaziada sobre temas fundamentais, como a forma como o país vai lidar com a nova política externa dos Estados Unidos, as Big Techs ou as mudanças no mundo do trabalho. O caso do Banco Master ofuscou qualquer debate relevante para o futuro”, continua.

O sumiço das propostas de governo é um reflexo de como as campanhas operam hoje, impulsionadas pelo esforço de produzir engajamento a partir de reações emocionais do público, em vez de debater ideias. Isso significa que as campanhas priorizam narrativas que reforçam o seu ponto de vista e têm potencial para viralizar nas redes sociais. Temas como saúde, educação ou segurança até podem engajar, mas provavelmente não tanto quanto um escândalo fresquinho.

Para especialistas ouvidos pela Agência Pública, esse é um processo que vem se enraizando nas últimas eleições e que reforça uma polarização já consolidada. Ao mesmo tempo em que os algoritmos reafirmam as crenças de eleitores convictos, seja à esquerda ou à direita, o espaço para discussões que poderiam fazer uma pessoa ter outras opiniões se torna cada vez menor.

“Quem é de direita fica na bolha da direita, quem é de esquerda fica na bolha da esquerda”, resume o professor e pesquisador de segurança pública Bruno Konder Comparato, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). “Ninguém vai entrar em um site para olhar programa de governo, comparar propostas. As pessoas, inclusive as próprias equipes de campanha, concentram a propaganda em redes sociais, onde todo debate é fragmentado”, aponta.

Costanzo concorda que dificilmente as discussões saem das bolhas – a não ser para atacar o outro lado. Mas, para ela, mesmo que os métodos antigos de debate continuassem acontecendo, pouca coisa seria diferente na prática.

“Não mudou praticamente nada de 2022 para cá. Se acompanharmos as pesquisas ao longo do tempo, pouca gente que votou no Bolsonaro aprovou o governo Lula, e vice-versa. O eleitorado em disputa é muito pequeno, e isso foi se cristalizando ao longo do tempo. Começa em 2018 e chega em 2026 de um jeito muito definido”, afirma.

Além das posições políticas praticamente gravadas em pedra, há um outro fator que colabora com o quadro geral: a fragmentação da atenção. Em um período de escândalos seguidos, o público tem dificuldade para entender o que cada um deles significa em termos de importância, explica Costanzo.

Segurança: medidas de Flávio não funcionam, às de Lula, falta detalhamento

Quando a segurança pública furou a bolha das redes e apareceu nas campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, foi de maneira superficial ou ancorada no apelo punitivista, analisam os especialistas. Para eles, as medidas de modo geral carecem de dados qualificados e não apontam soluções claras aos problemas pelos quais os eleitores perdem o sono.

Para Gabriel Sampaio, diretor de Litigância e Incidência da Conectas, ONG de direitos humanos, Lula trouxe uma apresentação mais estratégica para o assunto, abordando a área de forma sistêmica e com foco em medidas preventivas e de cidadania, mais do que na punição do crime em si.

Ele ressalta, porém, que as iniciativas foram apresentadas sem aprofundamento. Ele cita como exemplo uma das principais propostas do candidato petista, de criação do Ministério da Segurança Pública. “Ele propõe uma estratégia de integração de dados com foco em inteligência que é muito interessante, mas não dá mais elementos para entender como essa estratégia se operacionaliza”.

Já no caso de Flávio, o tema foi tratado estritamente pela ótica da repressão: mais policiamento, endurecimento das leis e diminuição da maioridade penal, entre outras medidas alinhadas ao “modelo Bukele”, além de se aproximar dos Estados Unidos ao propor a classificação de PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas.

“O ponto central da política de segurança de Flávio é o retrocesso na garantia de direitos das pessoas acusadas ou condenadas”, afirma Sampaio. “São formulações punitivistas genéricas que já se comprovaram ineficazes. O Brasil tem uma trajetória de aumento de pena e de redução de direitos ascendentes, e mesmo assim as preocupações da sociedade não se alteraram.”

Flávio Bolsonaro em formatura do curso de formação de praças da Polícia Militar do Rio de Janeiro, em setembro deste ano
Flávio Bolsonaro em formatura do curso de formação de praças da Polícia Militar do Rio de Janeiro, em setembro deste ano

O Brasil já tem uma das maiores populações carcerárias do mundo. Desde 2000, o número de pessoas presas aumentou 314,5%, segundo o Fórum de Segurança Pública, e deve chegar a 1 milhão de detentos no ano que vem. No entanto, a ressocialização é falha – ao menos um em cada quatro ex-presidiários voltou a cometer crimes, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) – e há pouco investimento em investigações – apenas 36% dos homicídios no país esclarecidos, segundo o Instituto Sou da Paz.

Comparato aponta que liberar armas e aumentar o encarceramento também podem ter efeito rebote. A primeira abre espaço para mais homicídios e violência em geral, enquanto a segunda aumenta o número de pessoas em contato com facções criminosas, que dominam os presídios.

Torelli avalia que o tipo de discurso utilizado por Flávio, apesar de “ser bem visto pela população”, tampouco tem o poder de estrangular o crime organizado. “Ele não fala sobre as relações da polícia com o crime organizado, o financiamento e a lavagem de dinheiro, que são pontos fundamentais”, afirma.

Nas duas candidaturas, os especialistas alertam que ainda não foram endereçados de modo substancial problemas como o combate ao crime organizado dentro de estruturas institucionais e a alta da letalidade policial. “As mortes provocadas pelo Estado, por agentes públicos, estão num pico histórico. São mais de 6 mil no último ano. Nós estamos falando em 80% no fator racial contra pessoas negras”, diz Sampaio.

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Cemitérios de SP: concessionária tem ex-sócio de Vorcaro e elo com holding do Master

O Grupo Maya, uma das concessionárias que administram cemitérios da cidade de São Paulo e cujas relações financeiras com o extinto banco Master motivaram um pedido de investigação do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada, tem proximidade com o entorno empresarial de Daniel Vorcaro.

Apuração exclusiva da Agência Pública e da newsletter Noites Húngaras identificou, nos documentos da Junta Comercial do Estado de São Paulo, que o principal elo passa pelo Maya Plano Funeral, uma empresa registrada no mesmo endereço do Grupo Maya e gerida pelos mesmos grupos empresariais que controlam a concessão de cemitérios.

Uma das sócias do Maya Plano Funeral é a AFC Holding SP Ltda., subsidiária da AFC Holding, que faz parte da teia de CNPJs investigada no escândalo do Master. Elas são administradas pela mesma pessoa: o advogado Thiago Assumpção Henriques, que também controla outros negócios ligados à família do banqueiro preso pelo maior rombo bancário da história do país.

A AFC Holding já apareceu em investigações sobre aquisições de terrenos e imóveis de alto valor no Rio Grande do Sul e na Bahia relacionadas à família Vorcaro, sob suspeita de possível ocultação patrimonial. Henriques também figura como dirigente da Global Carbon, investigada por suspeita de integrar a cadeia de movimentação de recursos ligados ao Master.

Empresas “irmãs” têm mesmos dirigentes

Integrantes das empresas Conata Engenharia, Infracon Engenharia e RMG Construções e Empreendimentos, que fundaram a concessão paulista, constam tanto na estrutura da concessionária quanto na da empresa de planos funerários.

A sobreposição vai além dos sócios. A Maya Plano Funeral funciona no mesmo endereço do Grupo Maya, na Rua Fidêncio Ramos, na Vila Olímpia, e utiliza um endereço de e-mail com o mesmo domínio “grupomaya”. Seus administradores também ocupam ou ocuparam postos de comando na concessionária.

Renato Medrado Geo, sócio da RMG e presidente do Grupo Maya desde 2023, também administra a Maya Plano Funeral desde 2024, quando a empresa foi criada. Alexandre Humberto Caramatti Manata, sócio da Conata e ex-presidente da concessionária, também é administrador da empresa de planos funerários. Wesley Bambirra, CEO da Infracon, integra o conselho de administração do Grupo Maya.

Ex-sócio de Vorcaro

Há ainda uma conexão pessoal entre o comando das empresas funerárias e Daniel Vorcaro. Rodrigo Medrado Geo, irmão de Renato, sócio da RMG e também dirigente da concessionária de cemitérios, foi sócio do banqueiro na Itaminas, mineradora de Minas Gerais.

Rodrigo Medrado Geo, também dirigente da concessionária de cemitérios, foi sócio de Vorcaro

Vorcaro adquiriu 50% da Itaminas em 2014 e vendeu sua participação por R$ 700 milhões aos antigos sócios, entre eles integrantes da família Geo, poucos dias antes de ser preso pela primeira vez, em novembro de 2025.

Essas conexões se somam à relação financeira entre o Grupo Maya e o Banco Master revelada pelo jornalista Artur Rodrigues, do UOL. As três acionistas da concessionária — Conata, Infracon e RMG — deram ao banco a totalidade das ações que detinham na empresa como garantia de dois financiamentos no valor total de R$ 78 milhões.

Pelos contratos, o Master passou a deter a propriedade fiduciária das ações enquanto as dívidas permanecessem em aberto e a ganhar poderes sobre determinadas decisões societárias. As acionistas deveriam seguir a orientação do credor em votações que pudessem afetar seus interesses e não poderiam realizar determinadas operações com ativos sem autorização.

Os créditos passaram por operações internas do conglomerado, chegaram à Master Holding, sediada nas Ilhas Cayman, e foram incluídos em negociações realizadas pelo Master com o Banco de Brasília, o BRB.

Além de vender serviços funerários, de coroas de flores a caixões, o Grupo Maya administra cinco cemitérios paulistanos: Campo Grande, Lageado, Lapa, Parelheiros e Saudade. O grupo se autodenomina “a maior administradora de cemitérios públicos da cidade de São Paulo”.

  • O grupo Maya administra cinco cemitérios em São Paulo, entre eles o de Parelheiros
  • O grupo Maya administra cinco cemitérios em São Paulo, entre eles o de Parelheiros
  • O grupo Maya administra cinco cemitérios em São Paulo, entre eles o de Parelheiros
  • O grupo Maya administra cinco cemitérios em São Paulo, entre eles o de Parelheiros

Dino manda PF investigar Master em cemitérios de SP

Na última quinta-feira (17/9), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou a Polícia Federal investigar conexões entre as concessionárias de cemitérios de São Paulo e o banco Master. A decisão foi tomada após os financiamentos do Master ao Grupo Maya se tornarem públicos.

O ministro já havia solicitado esclarecimentos sobre a ligação entre o Master e a Cortel, outra concessionária de cemitérios paulistas. O cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel, que também está preso, atuou como conselheiro da Cortel entre 2022 e 2025 e teria usado e-mails institucionais do banco para assinar atas da empresa.

Uma denúncia do jornal O Globo, no início do ano, mostrava que o Grupo Maya e a Cortel teriam feito uma “fusão informal”, compartilhando serviços, funcionários e endereços. O caso passou a ser investigado pela prefeitura paulista e pelo Tribunal de Contas do Município.

Os cemitérios da capital paulista foram concedidos à iniciativa privada em 2023, durante a gestão de Ricardo Nunes (MDB). Além do STF, a concessão também é investigada pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP). A Agência Pública já mostrou que, após a privatização, os preços cobrados pelos cemitérios aumentaram em até 10 vezes. Em 2024, Flávio Dino determinou que os preços máximos fossem tabelados.

Vorcaro teve uma reunião com o ministro André Mendonça, do STF, no momento em que o plenário da Corte analisava a proposta de limitação de preços apresentada por Dino. O encontro entre o banqueiro e Mendonça ocorreu em 14 de março de 2025. No dia seguinte, o ministro pediu vista, suspendendo a análise. Ao devolver os autos, em abril de 2025, Mendonça votou contra o limite das tarifas, alinhando-se ao pleito das concessionárias privadas.

Um dos irmãos de Mendonça é servidor comissionado da SP Regula, agência da Prefeitura de São Paulo responsável, entre outras áreas, pela regulação dos serviços funerários da capital. Ele foi promovido de cargo após a posição do ministro favorável à administração municipal, segundo a newsletter Noites Húngaras e o ICL Notícias.

Na decisão mais recente de Flávio Dino sobre o assunto, e após a crise instaurada no STF, o ministro estipulou que Mendonça não deve ser investigado no caso envolvendo o Master e as concessionárias, pois a competência para isso caberia apenas ao presidente da Corte.

Procuramos as empresas e empresários citados nesta matéria, além do ministro André Mendonça e a defesa de Daniel Vorcaro, mas não recebemos retorno até a sua publicação. O espaço permanece aberto.

A Prefeitura de São Paulo disse que “eventuais relações societárias, financeiras ou bancárias das concessionárias também não configuram, por si só, irregularidade contratual. A capacidade econômico-financeira delas é acompanhada permanentemente pela Administração.”

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André Mendonça “furou a bolha” bolsonarista e se tornou “o colocado por Deus”, diz teólogo

No centro do embate no Supremo Tribunal Federal (STF), a figura do ministro André Mendonça “furou a bolha” da militância radical e alcançou uma fatia expressiva do eleitorado evangélico moderado.Com uma narrativa quase bíblica, o ministro teria encarnado o “servo de Deus” que luta contra um sistema corrompido – em uma leitura simplificada de guerra espiritual.

O teólogo Ronilso Pacheco, diretor-executivo do Instituto de Estudos da Religião (Iser), analisa a construção da imagem de Mendonça como um novo “herói do Judiciário”, porém, diferente de outros que já foram apontados para esta categoria, como Sergio Moro e Joaquim Barbosa. Em entrevista à Agência Pública, Pacheco alerta para o avanço global do nacionalismo cristão e defende que o combate à instrumentalização religiosa não passa por calar as comunidades de fé. Para ele, o caminho para proteger a democracia e o Estado laico exige lideranças religiosas corajosas, capazes de inspirar a defesa dos direitos humanos.

Ronilso Pacheco, mestre em teologia pela Universidade Columbia e diretor do Iser (Instituto de Estudos da Religião)
Ronilso Pacheco, mestre em teologia pela Universidade Columbia e diretor do Iser (Instituto de Estudos da Religião)

O que a figura de Mendonça simboliza hoje, em especial para o eleitorado evangélico?

Mendonça chegou devagar e conquistou o seu espaço. O roteiro é perfeito para a ideia do chamado bíblico. Um pastor presbiteriano, servidor de carreira, que foi alçado ao STF. Um homem de Deus, discreto, que de repente herda um caso que se tornaria um dos mais importantes da República. Hostilizado e zombado pelos que escarneceram de seu momento de oração após o resultado de sua sabatina, ele é agora o “colocado por Deus”, como alguns dizem, no centro do poder, batendo de frente com um dos ministros mais poderosos da corte. Qualquer pastor pega essa história e transforma em uma campanha de oração poderosa por Mendonça. As lideranças evangélicas bolsonaristas tinham pouco a oferecer para motivar as pessoas a engajar na pauta política, e ele criou essa deixa. As pessoas não fazem a menor ideia do que são limites jurídicos, procedimentos, protocolos, qual o papel do plenário. As pessoas em geral, incluindo evangélicas, assimilam mais facilmente que o pastor presbiteriano, irmão em Cristo, expôs a relação indecente de um juiz com um banqueiro corrupto e por isso está sendo perseguido. 

O apelo da figura de Mendonça consegue furar a bolha bolsonarista radical e engajar o eleitor evangélico moderado?

Sim, acho que isso já está acontecendo. Eu estou inserido nesse universo e já vejo em parentes, amigos, e até em pessoas aleatórias, que essa bolha foi furada. Saiu do circuito do bolsonarismo radical e chegou a uma ideia de indignação do campo evangélico. Já se criou uma espécie de capa de proteção para o Mendonça. O que a gente pode esperar ver nos próximos dias é uma saia-justa complicada, porque, a depender da decisão do plenário, se houver uma decisão que atinja o ministro, ela já está prontinha para ser vista como uma perseguição religiosa contra o único membro da corte que é um pastor.

O Brasil costuma ter “heróis do Judiciário” em diferentes momentos, como Joaquim Barbosa, Sergio Moro e Alexandre de Moraes. Mendonça agora pode ocupar esse papel? Qual é a diferença dele para os demais, considerando que é o mais associado a uma religião?

A manifestação de 7 de Setembro na Avenida Paulista, em São Paulo, com o boneco inflável do Mendonça, já mostrou que ele está sendo colocado nesse papel, sobretudo por bolsonaristas que querem inflar, com o perdão do trocadilho, a imagem dele como um contraponto ao Alexandre de Moraes. Ele está gradativamente ocupando esse lugar, mas com diferenciais significativos. Acho que Joaquim Barbosa e Sérgio Moro tiveram outro tipo de adesão, no sentido de ter sido uma movimentação ligada ao combate contra a corrupção. Moro tinha alguma proximidade com o universo evangélico, pela parceria dele com o [ex-procurador da Lava Jato] Deltan Dallagnol, que é evangélico, de uma igreja batista de Curitiba. O Dallagnol arregimentou o campo evangélico para a campanha contra a corrupção que tinha Moro à frente. Ele foi colocado nesse lugar heróico por uma parte da população, mas também por um campo evangélico significativo, que queria fazer parte de um momento de transformação do país. O Dallagnol fazia quase que turnê em igreja, já assisti a ele em pelo menos três para falar sobre corrupção e como a igreja pode se envolver. Agora é diferente, é mais uma disputa política. Uma das forças políticas quer tornar o André Mendonça uma espécie de herói. O Moro era herói de um movimento que queria passar o Brasil a limpo, e isso significava enfrentar a corrupção. O André Mendonça é o herói de uma disputa de forças políticas que querem decidir sobre o país.

  • Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)
    Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)
  • Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)
    Ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista reuniu milhares de pessoas. A manifestação foi convocada e liderada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL)

Qual pode ser o impacto de naturalizar trâmites jurídicos e disputas políticas como “batalhas do bem contra o mal”, ou de “Deus contra o diabo”?

O pior possível. O Estado laico vai embora. A gente sabe que a laicidade do Estado é muito limitada no Brasil, temos uma cultura religiosa que serve como background da formação da sociedade brasileira. E com as narrativas religiosas, de uma disputa do bem contra o mal, o impacto pode ser o pior possível. Esse não é um movimento isolado, não é uma coisa do Brasil. É algo proposital, sobretudo por forças ultraconservadoras que usam a narrativa religiosa cristã. Isso aparece em praticamente todos os partidos de extrema-direita que ascenderam na Europa nos últimos anos, e mesmo nos governos de direita que têm ascendido na América Latina, principalmente no discurso de segurança pública e de combate ao narcoterrorismo, como diz Donald Trump, com a linguagem religiosa. Não é à toa que o [Nayib] Bukele [presidente de El Salvador] fala de guerra espiritual, o [Abelardo de la] Espriella [da Colômbia] também. O uso dessa linguagem religiosa para descrever política e embates políticos está alinhado com um movimento global onde a religião tem se tornado uma linguagem preferencial para criar vínculos, conexões e mobilizar o engajamento a partir da base popular.

Qual você acredita que deve ser o papel da política dentro das igrejas? É preciso ter um afastamento total ou é possível conciliar de um modo saudável?

É preciso ter uma aproximação equilibrada, saudável e justa. Recentemente o mundo ficou impactado com a votação da AfD (partido de extrema direita alemão) na Saxônia, um partido com ideias que flertam com o neonazismo. Semanas antes das eleições, várias igrejas protestantes da Saxônia se juntaram e fizeram cultos para mobilizar a sua membresia a não votar na AfD. Não conseguiram, a AfD foi eleita, mas essas igrejas tentaram evitar o pior. Precisamos de lideranças religiosas que inspirem suas comunidades de fé a defenderem a democracia, o Estado laico, os direitos humanos, que respeitem as diferenças e defendam um país justo, que saibam entender os sinais dos riscos de um governo autoritário e as armadilhas da instrumentalização da extrema direita. Não acho que as comunidades de fé devem ser caladas politicamente. Acho que é um risco que precisamos aprender a correr. As pessoas não vão para a igreja para ter um curso de ativismo político, nem para a esquerda nem para a direita. Elas vão pelo culto, a devoção, a cultura. Mas também precisamos entender que a igreja não é um lugar solto no mundo. Assim que a pessoa sai da igreja, vai ser impactada pelas decisões políticas, pela política pública, pela crise institucional que se instala no país.

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Instituto de André Mendonça é alvo de representações para investigar irregularidades

Parlamentares do PSOL acionaram órgãos de controle para investigar possíveis irregularidades em contratos sem licitação entre o poder público e o Instituto Iter, entidade privada ligada ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. 

O Iter, do qual Mendonça fazia parte da sociedade, obteve ao menos 52 contratos sem licitação com órgãos públicos como prefeituras, governos estaduais e tribunais. O valor dos contratos chega a R$ 8,2 milhões em um intervalo de dois anos, como revelou apuração da Revista Fórum.

Ministro do STF André Mendonça durante evento do Iter
Políticos entraram com pedido para tribunais de conta e promotoria sobre contratos do Iter sem licitação

O maior acordo foi com o Tribunal de Justiça do Amazonas, no valor de R$ 1,6 milhão, por um curso de pós-graduação para servidores. O governo estadual paulista, de Tarcísio de Freitas (Republicanos) teve o segundo maior contrato, com um montante parecido, de R$ 1,6 milhão. A prefeitura de São Paulo, de Ricardo Nunes (MDB), e o governo do Rio de Janeiro, na gestão de Cláudio Castro (PL), também contrataram o instituto sem licitação – o primeiro por R$ 380 mil e o segundo por R$ 518 mil.

As representações, protocoladas em 3 de setembro pela deputada federal Luciene Cavalcante, o deputado estadual Carlos Giannazi e o vereador paulistano Celso Giannazi, foram direcionadas ao Tribunal de Contas do Município (TCM-SP), ao Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) e à Promotoria de Justiça do Patrimônio Público e Social de São Paulo.

Os parlamentares argumentam que a Lei de Licitações permite a inexigibilidade de concorrência apenas em situações excepcionais, em que se comprove que o serviço a ser contratado não poderia ser disponibilizado por outros fornecedores. Eles levantam a suspeita de que o prestígio de André Mendonça no STF pode ter sido usado como justificativa para driblar o processo licitatório e inflar preços.

A reportagem pediu resposta ao ministro André Mendonça através da assessoria de imprensa do STF. O espaço segue aberto.

O encontro do ministro com Vorcaro

O ministro usou a sede do Iter em São Paulo para se encontrar com o banqueiro Daniel Vorcaro em 14 de março de 2025, fora da agenda oficial, como revelou apuração do jornalista Paulo Motoryn. Mendonça disse que o motivo da reunião não foi a crise do banco Master, mas sim assuntos relacionados a precatórios. Ele deixou a sociedade no Iter um dia depois de o encontro vir à tona.

Imagem enviada pelo advogado Ciro Rocha Soares a Daniel Vorcaro
Imagem enviada pelo advogado Ciro Rocha Soares a Daniel Vorcaro

As representações pedem que os órgãos de controle requisitem a íntegra dos processos de contratação do Iter, verifiquem a compatibilidade dos valores pagos em relação ao mercado e impeçam novos acordos.

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