Do ‘ghosting’ amoroso ao ‘ghosting’ profissional

Desaparecer de uma relação sem qualquer explicação, como se, de um momento para o outro deixasse simplesmente de existir. Esta é a definição de ghosting. Embora o termo esteja habitualmente associado às relações amorosas, a verdade é que este comportamento já ultrapassou a dimensão da vida pessoal e começa a manifestar-se, com cada vez mais frequência, também no mundo profissional, em particular nos processos de recrutamento.
Enquanto profissional desta área, assisto frequentemente a esta realidade. Existe um primeiro contacto entre candidato e recrutador, ambas as partes acordam avançar para uma entrevista e partilham informação relevante. No entanto, chega o dia marcado e o candidato simplesmente não aparece. Terá sido uma emergência familiar, um problema de saúde ou um contratempo de última hora? Geralmente, dou o benefício da dúvida e a entrevista é remarcada. Mas, surpreendentemente – ou talvez não –, a situação repete-se: o candidato volta a faltar e, mais uma vez, desaparece sem qualquer explicação. No fim, não é a falta a uma entrevista que define um candidato, mas a forma como escolhe comunicar – ou não comunicar – perante essa situação.
Constato igualmente que a maioria destas situações acontece com candidatos que estão, supostamente, à procura de emprego. No entanto, desperdiçam a primeira oportunidade de demonstrar aquilo que qualquer empresa procura: responsabilidade, compromisso e respeito pelo tempo dos outros.
Esta incoerência torna-se ainda mais evidente quando se fala de forma recorrente da dificuldade que muitas empresas enfrentam para preencher as suas vagas. Talvez nem sempre faltem candidatos. Falta, muitas vezes, disponibilidade, interesse genuíno ou, simplesmente, capacidade para assumir um compromisso. Numa era em que o profissionalismo já não é medido apenas pelas competências técnicas ou pela experiência, mas sobretudo pelas competências sociais, estas atitudes acabam por dizer muito sobre quem as adota.
Naturalmente podem existir razões legítimas para uma pessoa não estar disponível. Alguns candidatos encontram rapidamente outra oportunidade e deixam de responder. Outros mudam de ideias. Há quem decida adiar a entrada no mercado de trabalho porque está de férias, porque a sua situação financeira lhe permite esperar ou porque aguarda o pagamento do prémio anual. Todas estas decisões são legítimas. O que deixa de ser aceitável é desaparecer sem qualquer comunicação.
O problema é quando essa decisão é tomada em silêncio, ignorando que, do outro lado, há uma pessoa que investiu tempo, recursos, preparou uma entrevista, reorganizou a agenda e, muitas vezes, adiou outros processos para dar prioridade àquele candidato. Em vez de uma mensagem simples como “já não estou interessado”, “aceitei outra proposta” ou “não faz sentido para mim”, opta-se pelo silêncio como o caminho mais fácil. Mas esse silêncio tem consequências: consome tempo, desperdiça recursos e transmite uma imagem de falta de profissionalismo que dificilmente será esquecida. Recusar uma oportunidade de trabalho não é falta de profissionalismo. Desaparecer sem o dizer é.
É importante reconhecê-lo: esta falta de consideração é muitas vezes criticada quando parte das empresas. Durante anos, falou-se de processos de recrutamento em que os candidatos nunca recebiam qualquer resposta após uma entrevista. Essa crítica continua a ser legítima. As organizações têm o dever de comunicar, dar feedback sempre que possível e tratar os candidatos com respeito. Mas o inverso também deve acontecer.
O respeito não pode ser exigido apenas numa direção. Deve ser construído de forma recíproca entre empresas, recrutadores e candidatos. Porque, no fim, a forma como comunicamos continua a ser uma das expressões mais simples, mas também mais reveladoras do nosso compromisso. E essa capacidade de comunicar com transparência e respeito continua a ser uma das características que melhor define um bom profissional.