O desafio de reconhecer um câncer que está à vista
Depois de quatro anos utilizando próteses sobre implantes, uma pequena lesão surgiu no assoalho da boca de Cecília*, próxima aos implantes. Parecia uma afta, dessas que costumam aparecer sem aviso e, em poucos dias, desaparecer. Mas aquela ferida tinha outros planos. Primeiro, formou uma pequena bolha. Depois, enquanto acompanhava o marido no hospital, Cecília foi ao banheiro e percebeu que havia sangue na língua. A bolha havia estourado.
A princípio, o machucado foi tratado como um problema passageiro. Na emergência, recebeu medicamentos para aliviar os sintomas. Mas os dias passaram e, em vez de melhorar, a lesão continuou ali. Cerca de seis dias depois, a região ardia e doía. Cecília procurou novamente atendimento emergencial em outra unidade hospitalar. Um exame de sangue descartou sinais de infecção, e a orientação foi procurar um especialista.
Foi assim que ela chegou à estomatologista Fabiana Motta, cirurgiã-dentista da área de estomatologia e coordenadora de odontologia do Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira (Imip). No plantão do hospital, a dentista examinou a lesão, realizou uma limpeza na boca e prescreveu antibióticos e outros cuidados. Cecília seguiu as recomendações, mas, ao retornar para a consulta, percebeu que o tratamento não havia surtido efeito. A ferida permanecia.
Diante da persistência do machucado, Fabiana decidiu aprofundar a investigação. Era preciso retirar a prótese para examinar melhor a região e entender o que estava acontecendo. A lesão foi removida cirurgicamente e encaminhada para biópsia.
O resultado confirmou aquilo que Cecília já começava a suspeitar. Não era uma afta. Era câncer de boca.
Uma doença de diagnóstico tardio
O câncer de cavidade oral e lábios, mais conhecido como câncer de boca, afeta diversas estruturas da área interna da boca e os lábios, como língua, gengiva, área interna das bochechas, palato (céu da boca), glândulas salivares e orofaringe (garganta, amígdalas e base da língua).
O tipo mais comum é o carcinoma de células escamosas, também chamado de carcinoma epidermóide. Ele se desenvolve nas células que revestem a parte interna da boca e da garganta e representa cerca de 95% dos casos de câncer nessas regiões, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO).
Por atingir regiões que podem ser examinadas durante uma consulta odontológica, o câncer de boca pode ter seus primeiros sinais identificados pelo cirurgião-dentista. É nesse processo que a estomatologia ganha importância; ela é responsável pelo diagnóstico clínico de alterações que atingem a mucosa bucal, incluindo lesões traumáticas, virais, fúngicas, bacterianas e, principalmente, aquelas com potencial de malignidade.
Diferentemente de outras especialidades, que concentram a atenção nos dentes e em procedimentos específicos, o estomatologista direciona o olhar para os tecidos e estruturas da boca, investigando alterações na mucosa bucal. Também realiza exames histopatológicos, por meio de biópsias, e, quando necessário, encaminha o paciente para avaliação oncológica.
O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima mais de 17 mil novos casos por ano no Brasil, no triênio 2026–2028, considerando o agrupamento de cânceres de lábios, cavidade oral, glândulas salivares e orofaringe. Ainda de acordo com pesquisa conduzida pelo Inca, 75% dos casos de câncer da cavidade oral monitorados entre o ano 2000 e 2017 foram diagnosticados em estágios avançados, III ou IV.
“As lesões de boca são de fácil visualização, ou seja, não precisamos de aparatos clínicos, grandes equipamentos para visualizar essas lesões, até na luz do dia, com o paciente de boca aberta, numa cadeira normal, conseguimos fazer uma inspeção da boca”, explica Fabiana Motta.
“Parece contraditório, mas essas lesões sempre chegam em estágios III ou IV, completamente avançados, onde a chance de cura diminui muito”, lamenta.
O diagnóstico tardio implica em tratamentos mais complexos: possibilidade de associação entre cirurgia, radioterapia e quimioterapia, maior risco de sequelas na fala, mastigação e deglutição, e impacto na qualidade de vida.
No caso de Cecília, o diagnóstico precoce resultou na retirada completa da lesão cancerosa e tratamento posterior com radioterapia e laser.
“As sequelas que fiquei foi a garganta um pouquinho apertada e lábios secos. Também estourou debaixo da língua, no assoalho da boca e nos lábios, mas além da radioterapia, fiz tratamento com laser até não ter mais nenhuma sequela. Mas a equipe médica disse que eu estou curada. Não dá para ninguém perceber que eu tive nada”, conta emocionada, oito meses depois da cirurgia.

A responsabilidade da odontologia
É curioso que, apesar de o câncer de boca ter boas chances de tratamento quando diagnosticado precocemente, muitos casos ainda sejam identificados em estágios avançados. Entre os fatores que contribuem para esse cenário estão a dificuldade de acesso aos serviços odontológicos e a falta de uma inspeção bucal criteriosa durante as consultas. Para Fabiana, são duas barreiras que comprometem a identificação precoce da doença.
“Precisamos olhar para dois aspectos importantes: a dificuldade de acesso do paciente ao cirurgião-dentista. Essa falta de acesso é um dos pontos-chave, um dos principais, eu acho. O outro ponto-chave é o próprio dentista, que não faz a inspeção bucal de forma criteriosa. Então, o paciente vai ao dentista com dor de dente e ele vai tratar aquele elemento dentário específico, mas não faz uma inspeção da boca para verificar se existe alguma anormalidade que possa indicar uma lesão de câncer de boca. Então, a gente perde nesses dois aspectos”, detalha.
Fabiana Motta explica que, embora o estomatologista seja o profissional especializado no diagnóstico de lesões bucais, a identificação dessas alterações começa, muitas vezes, no atendimento odontológico convencional.
Por isso, todo cirurgião-dentista, independentemente da área de atuação, deve estar preparado para examinar a mucosa bucal, reconhecer sinais suspeitos e encaminhar o paciente para avaliação especializada.
Retratos de vulnerabilidades
O câncer de boca também é atravessado por desigualdades sociais, condições de vida, acesso à informação e exposição a fatores de risco. Uma pesquisa inédita do Inca sobre o panorama do câncer de cabeça e pescoço no Brasil aponta que pacientes sem o ensino básico completo têm 17% mais chances de receber o diagnóstico em estágio avançado (III ou IV) do que aqueles com ensino superior.
Ou seja, esse dado evidencia como a escolaridade está diretamente relacionada às condições socioeconômicas e de vida da população, que influenciam o acesso aos serviços de saúde, à informação e ao diagnóstico precoce.
Entre os fatores de risco estão o tabagismo, o consumo de bebidas alcoólicas, especialmente quando associados, a infecção persistente pelo HPV, sobretudo em casos de câncer de orofaringe, e a exposição solar sem proteção, relacionada ao câncer de lábio. Fabiana Motta ressalta que a doença é multifatorial e pode atingir pessoas que não apresentam os fatores de risco mais conhecidos, como no caso de Cecília, que não fumava nem consumia bebidas alcoólicas.
HPV, vacinas, homens e mulheres
A relação entre o vírus HPV e o câncer não se restringe ao colo do útero. A infecção persistente do vírus também está associada a tumores da orofaringe, especialmente em regiões mais posteriores da boca, próximas às amígdalas, ao palato mole e à úvula.
Segundo a estomatologista, essa localização dificulta a identificação das lesões durante a inspeção bucal, o que reforça a importância de uma avaliação criteriosa e de uma anamnese completa.
A especialista destaca que ainda existe desinformação sobre a capacidade do HPV de provocar lesões e até câncer nessa região, sobretudo entre os homens, cuja atenção historicamente se voltou menos para o vírus, apesar de o câncer de cavidade oral ser mais frequente no sexo masculino. Dados da pesquisa do Inca sobre o panorama do câncer de cabeça e pescoço no Brasil apontam que 80% dos pacientes analisados eram homens, além de indicarem maior probabilidade de diagnóstico avançado entre pessoas mais jovens.
Ao relatar sua experiência no Imip, com pacientes transplantados, Fabiana também chama a atenção para pacientes imunossuprimidos, que podem apresentar múltiplos papilomas em decorrência da dificuldade do organismo de controlar a proliferação viral. Nesse contexto, além da inspeção e do diagnóstico precoce, a vacinação contra o HPV é uma medida importante de prevenção: embora não seja específica para o câncer de boca, ela protege contra tipos do vírus associados a diferentes tumores, incluindo os de orofaringe.
Quando acender o sinal de alerta
O câncer de boca pode apresentar sinais que, muitas vezes, passam despercebidos ou são confundidos com problemas simples. Entre as principais alterações que merecem atenção e avaliação profissional, Fabiana Motta destaca:
- Feridas ou úlceras na boca que não cicatrizam em até 15 dias;
- Manchas brancas ou avermelhadas na língua, gengiva ou outras regiões da mucosa bucal;
- Caroços ou alterações persistentes nos tecidos da boca;
- Rouquidão ou mudanças na voz que não desaparecem;
- Dificuldade para engolir ou sensação de algo preso na garganta.
Um dos aspectos mais preocupantes é que as lesões iniciais geralmente não provocam dor. Segundo Fabiana, o desconforto tende a aparecer quando o tumor cresce e atinge estruturas mais profundas, podendo indicar um estágio avançado da doença. Por isso, a orientação é não esperar o aparecimento de dor para procurar atendimento. Diante de qualquer alteração suspeita, o paciente deve buscar avaliação profissional, sem necessariamente aguardar os 15 dias.
“Nunca deixe para amanhã o que se pode fazer hoje. Se você ver qualquer coisinha, não fique esperando. Se cuide e procure investigar o que é. Quem cuida cedo, cura”, aconselha Cecília.
*Nome fictício


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