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Received — 27 October 2026 ⏭ Agência Pública

Filha de Flávio Bolsonaro falta à escola há 2 dias em meio à suspeita de fuga do senador

27 October 2026 at 17:53

A filha mais nova do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não foi à escola nesta segunda-feira (26) nem nesta terça (27), segundo relato de uma fonte familiarizada com a rotina de um colégio em Brasília, onde ela estuda, na capital federal. Até a semana passada, a frequência da adolescente de 12 anos era regular. Procurada pela Agência Pública, a unidade de ensino apenas respondeu: “Infelizmente não conseguimos confirmar a informação e, infelizmente, nenhum setor da instituição poderá confirmar”.

Segundo apurou a Pública, a filha mais velha do senador, de 14 anos, teria deixado a escola no primeiro semestre deste ano. O colégio não informou os motivos quando procurado pela reportagem.

A ausência das estudantes em escolas se dá em meio à rumores de que Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno das eleições presidenciais no último domingo (25), poderia ter deixado o país, apesar de o ministro Alexandre de Moraes, do STF, ter determinado que o candidato derrotado nas urnas entregasse seus passaportes à Polícia Federal (PF) e incluí-lo no sistema de monitoramento migratório, o Sonar.

O senador não cumpriu o prazo de entrega, que terminava nesta terça, e teve os passaportes emitidos em seu nome cancelados pela Polícia Federal (PF). Flávio é alvo de investigação no STF que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

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Durante a maior parte da terça, circulou na imprensa brasileira, argentina e dos Estados Unidos a versão de que o senador já estaria no ar, a caminho dos Estados Unidos, ou até mesmo em solo norte-americano. Mas eram apenas especulações e desinformações. 

Registro oficial divulgado pelo governo argentino na madrugada desta quarta-feira (28) desmente declarações feitas inclusive por aliados de Flávio. Segundo a Dirección Nacional de Migraciones, o senador só cruzou a fronteira às 22h50 de terça e decolou às 23h30 em um jato privado com destino a Miami, nos Estados Unidos, mas com escala em Gayaquil, no Equador. 

A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família
A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família

Segundo o órgão, que fez uma publicação do X às 2h01, o senador entrou na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Brasil, a Puerto Iguazú, na província de Misiones. Ele estava com a mulher, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas do casal. 

De acordo com a publicação, todos apresentaram documentação de viagem válida, sem impedimentos legais, e a entrada na Argentina foi registrada sem incidentes. 

O episódio repete um roteiro de tentativas de evitar consequências judiciais já conhecido na família. O irmão Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos, e o pai, Jair Bolsonaro, foi preso pela PF em novembro de 2025 depois de tentar remover a tornozeleira eletrônica.

A reportagem procurou a assessoria do senador, mas não obteve retorno até a publicação. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

*Informações que poderiam identificar as menores foram omitidas, em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

Atualização às 12h05 de 28/10/2026: Inserimos informações recentes sobre a fuga de Flávio Bolsonaro.

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

27 October 2026 at 12:23

Uma carta assinada por 13 parlamentares democratas dos Estados Unidos cobra explicações de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, sobre denúncias de tratamento desigual às campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nas plataformas da empresa durante as eleições presidenciais brasileiras de 2026. Enviada em 22 de outubro, a carta ocorre em meio a denúncias de restrições a conteúdos políticos, redução de alcance de publicações e diferenças no funcionamento de ferramentas de inteligência artificial, episódios que levantaram suspeitas sobre a atuação de empresas estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.

Entre os signatários estão o senador Bernie Sanders e os deputados Pramila Jayapal, Greg Casar, Maxwell Frost, Jesús G. (conhecido como Chuy García), Jonathan L. Jackson, Summer L. Lee, Mark Pocan, Mike Quigley, Delia C. Ramirez, Jan Schakowsky, Rashida Tlaib e Nydia M. Velázquez. 

Os parlamentares afirmam estar preocupados com os diversos relatos que surgiram ao longo das eleições brasileiras de que as plataformas da Meta estariam restringindo ou reduzindo a distribuição de conteúdos ligados à campanha de Lula, enquanto ampliavam ou recomendavam publicações associadas a Flávio Bolsonaro e seus aliados. Segundo os signatários, as diferenças de tratamento poderiam criar condições desiguais na disputa eleitoral.

Entre os episódios citados está a desativação, em 23 de setembro, da conta de anúncios da campanha de Lula no Facebook, 11 dias antes do primeiro turno. Embora a conta tenha sido restabelecida após 24 horas, os parlamentares afirmam que a Meta não apresentou uma justificativa detalhada para a medida. A carta também menciona restrições ao impulsionamento de anúncios da campanha no Instagram entre 9 e 10 de outubro, que, segundo uma estimativa da própria campanha, teriam impedido cerca de 1,3 milhão de pessoas de visualizar as publicações.

O documento cita ainda uma reportagem da Folha de S.Paulo sobre comunicações internas da Meta que indicariam que funcionários da empresa tinham conhecimento de recomendações algorítmicas que promoviam o perfil de Flávio Bolsonaro e um canal do WhatsApp associado à sua campanha, prática que é proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A carta também menciona um levantamento da organização Ctrl Z, divulgado pela Agência Pública, que documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas da Meta na primeira quinzena do mês. Entre os conteúdos cuja orientação política pôde ser identificada, nove em cada dez eram favoráveis a Lula ou progressistas. O levantamento registrou casos de perda de alcance, restrições às funcionalidades de contas e remoção de publicações.

Os parlamentares dos Estados Unidos pedem que Zuckerberg esclareça quais medidas foram adotadas, quais regras orientam a moderação de conteúdo político em eleições estrangeiras e se a empresa mantém comunicações com integrantes do governo Donald Trump sobre o Judiciário brasileiro, a regulamentação das plataformas e as eleições de 2026.

O documento também questiona como a Meta pretende garantir que restrições automatizadas às contas de anúncios dos candidatos sejam analisadas por pessoas em até duas horas. Por fim, os signatários perguntam se a empresa permitirá que um auditor independente examine dados internos de moderação e distribuição de conteúdo político relacionado às eleições brasileiras.

Os parlamentares estabeleceram o dia 4 de novembro como prazo para o envio das respostas por escrito, sem retorno até o momento de publicação dessa nota. 

Alertas da sociedade civil 

Para Luã Cruz, diretor de Litigância Estratégica da Ctrl+Z, os episódios reforçam os alertas sobre os riscos de concentrar o debate político nas plataformas controladas pelas Big Techs. “A sociedade civil brasileira de direitos digitais tem alertado há anos sobre o problema de deixar todo o sistema de discussão política pública dentro de ferramentas que são controladas por empresas estrangeiras. As eleições mostraram isso justamente por ser um momento delicado”, afirma.

Segundo Luã, as denúncias reuniram evidências de diferentes formas de interferência, desde anúncios com desinformação e pagamentos em moeda estrangeira até o descumprimento de regras eleitorais e a derrubada de conteúdos progressistas: “Isso reforça de maneira mais aguda que a gente não pode depender delas”, diz.

O diretor ressalta que as plataformas continuam sendo importantes para a comunicação política – “Não é à toa que o canal dos Janones ajudou incrivelmente a campanha do Lula” – mas defende que o país desenvolva alternativas para reduzir a dependência desses serviços.

Outro episódio destacado é o funcionamento da Meta AI, assistente de Inteligência Artificial da Meta no WhatsApp. O Núcleo Jornalismo reproduziu testes em que a ferramenta se recusava a criar imagens com referências a Lula, ao PT e ao número 13, mas atendia a comandos equivalentes relacionados a Flávio Bolsonaro, ao PL e ao número 22. A Meta reconheceu a falha e afirmou ter adotado medidas adicionais para impedir a geração de imagens de candidatos, inclusive quando os comandos usavam apenas o primeiro nome e o número eleitoral. A organização Ctrl+Z também apresentou uma denúncia formal à Corregedoria da Justiça Eleitoral sobre a diferença de tratamento. 

A carta dos parlamentares norte-americanos também menciona a ocorrência, com base em reportagem publicada por Mônica Bergamo em 14 de outubro, que apontou diferenças na geração de imagens favoráveis aos dois candidatos. As denúncias levaram o TSE a determinar que a Meta garantisse tratamento igualitário às candidaturas. 

Na decisão, porém, o ministro Marco Aurélio Bellizze afirmou que, embora houvesse indícios de falha na ferramenta, não havia elementos suficientes para concluir que ela decorreu de um critério deliberado ou que ocorreu de forma sistemática. 

São Paulo (SP), 19/10/2026 - Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira.
Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira

Ministério Público acionou a Justiça

As denúncias também motivaram medidas do Ministério Público Federal (MPF). A Agência Pública relatou que o órgão adotou iniciativas para tentar impedir bloqueios de contas e restrições de alcance considerados indevidos nas plataformas da Meta.

Na Justiça Federal do Rio Grande do Sul, o MPF ajuizou uma ação civil pública com pedido de urgência para impedir decisões de bloqueio de conteúdo baseadas exclusivamente em algoritmos e exigir que reavaliações e recursos sejam analisados por equipes humanas especializadas. O órgão também pediu a possibilidade de aplicação de multa diária de R$ 500 mil por conta afetada em caso de descumprimento.

Em outra frente, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) encaminhou uma recomendação extrajudicial à Meta, cobrando providências de transparência e proteção à liberdade de expressão durante o período eleitoral. A empresa recebeu prazo de 48 horas para informar se acataria as recomendações e de 30 dias para apresentar um relatório conclusivo.

As medidas foram motivadas por denúncias apresentadas pelas organizações Ctrl+Z, Artigo 19, Conectas e Sleeping Giants Brasil. Entre os casos relatados estão suspensões de contas e restrições a conteúdos políticos favoráveis a Lula e contrários a Flávio Bolsonaro. A apuração também identificou casos de perfis e publicações removidos sob acusações de terrorismo e nudez, sem que houvesse conteúdo que justificasse essas classificações.

O MPF considerou genéricas as respostas apresentadas pela Meta e apontou que a empresa não esclareceu individualmente os motivos das restrições nem detalhou todos os casos de suspensões e remoções questionados.

Na avaliação de Luã, a reparação dos usuários afetados deve ser uma das prioridades na responsabilização da empresa. O diretor também defende a abertura de dados sobre a moderação de conteúdo e a aplicação de multas proporcionais à dimensão das plataformas.

“Além de você reparar o dano para o consumidor como um todo, tem que ter a abertura dos dados para a gente entender o tamanho do estrago. E, a partir disso, ver o terceiro ponto que é a multa. Tem que multar pesado. Essas empresas são as mais ricas da história do capitalismo e elas precisam ser responsabilizadas à altura”, diz.

São Paulo (SP), 19/10/2026 - Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira
Big Techs interferem no debate político e reforçam a necessidade de reduzir a dependência de suas plataformas, segundo especialista

Comitê de Supervisão aponta falhas de moderação

O Comitê de Supervisão da Meta também apontou falhas na aplicação das regras de moderação durante as eleições brasileiras. O colegiado criticou as restrições técnicas impostas às contas de anúncios de Lula e considerou que houve aplicação excessivamente rigorosa das políticas antifraude da empresa.

O comitê avaliou que o caso deveria ter sido encaminhado a uma equipe interna de especialistas, além de destacar que erros de moderação durante períodos eleitorais podem ocorrer tanto pelo excesso de rigor, que restringe manifestações políticas legítimas, quanto pela aplicação insuficiente das regras, que pode comprometer a integridade eleitoral. E cobrou mais transparência e consistência nos procedimentos de moderação e recomendou a criação de indicadores públicos que permitam avaliar a eficácia das medidas adotadas pela empresa, incluindo suas principais falhas.

A manifestação retoma preocupações sobre a atuação da Meta em eleições anteriores em outros países, inclusive nos EUA, e a necessidade de mecanismos que permitam avaliar os resultados de suas políticas de moderação. Embora a empresa divulgue dados gerais sobre anúncios e contas removidas, o comitê apontou limitações nas métricas públicas disponíveis para medir a efetividade dessas políticas.

TSE cobrou tratamento igualitário

O TSE determinou, em 15 de outubro, que a Meta oferecesse tratamento igualitário aos dois candidatos. Em 19 de outubro, diante do que o tribunal considerou descumprimento da decisão, a multa aplicada à empresa foi dobrada.

No dia seguinte, a Meta declarou ter concluído a implementação de 17 iniciativas para cumprir a determinação, incluindo um mecanismo de revisão humana das contas de anúncios das campanhas presidenciais.

Os episódios também evidenciaram limitações na atuação das instituições brasileiras diante das plataformas, aponta Luã. “Não foi uma questão de falta de instrumento jurídico ou até mesmo falta de conhecimento, por exemplo, da sociedade civil ou da população brasileira sobre o que estava acontecendo. Faltou ao TSE atuar de maneira diligente”, afirma.

Segundo o diretor, a sociedade civil alertava para os problemas desde março, quando foram publicadas as resoluções eleitorais sobre tecnologias. 

As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

27 October 2026 at 07:00

No início de março deste ano, quase um mês depois de assumir a relatoria das investigações do caso Master, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça viajou a Frankfurt, na Alemanha, para participar de um autointitulado “debate de alto nível”. Ele havia acabado de cancelar sua participação em outro evento internacional, um congresso jurídico na Espanha, sob a alegação de preservar a imagem de imparcialidade do Supremo, já que lá estaria um integrante da defesa de Daniel Vorcaro.

Mas ele não deixou passar sua participação no seminário em terras germânicas porque o Instituto Iter, fundado pelo ministro em 2023 (e que contou com sua participação até setembro deste ano), foi um dos organizadores do evento. Lá, Mendonça esteve ao lado de pessoas relacionadas ao ex-banqueiro do Master, além de empresários ligados a grandes grupos empresariais cujos processos tramitam no STF – inclusive sob sua própria relatoria.

Um dos apoiadores do evento foi a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge). O seu presidente, Gustavo Ribeiro, marcou presença e chegou a mediar um painel sobre racionalização dos custos da saúde por meio da tecnologia. Ribeiro também é vice-presidente do Grupo Hapvida NotreDame Intermédica, a maior operadora de planos de saúde da América Latina, que comprou a rede Promed, da família de Vorcaro, por R$ 1,5 bilhão em 2021. A compra foi feita por meio da entidade jurídica Ultra Som Serviços Médicos S.A, da qual Ribeiro se tornou diretor. Ele esteve com Mendonça na Alemanha pelo menos uma outra vez neste ano, em julho, para assistir a um curso de verão dado pelo ministro.

Semanas depois do evento na Alemanha (e antes desse segundo encontro), chegaram à mesa de Mendonça no STF pelo menos dois casos de judicialização envolvendo a Hapvida. Em ambos, o ministro André Mendonça deu decisão que acabou favorecendo a empresa em detrimento do paciente segurado.

Gustavo Ribeiro (segundo da esq. para dir.) se encontrou duas vezes com Mendonça na Alemanha

Em um deles, a operadora questionava uma decisão do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) que a obrigava a custear em até 48 horas, um tratamento para um caso de linfoma. Mendonça decidiu parcialmente favorável à empresa e, em 12 de maio, um juiz do TJ-AM suspendeu a liminar que determinava o pagamento.

No outro caso levado ao STF, a seguradora questionava uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas (TJ-AL) referente a uma ação da Defensoria Pública sobre cobertura de tratamentos para pessoas com Transtorno do Espectro Autista. A defensoria alegava que operadoras estavam negando ou dificultando a cobertura integral dos tratamentos prescritos. Mendonça acolheu o pedido da Hapvida e determinou a revisão da decisão na primeira instância, de acordo com os critérios do STF para tratamentos fora do rol da Agência Nacional de Saúde (ANS).

Em setembro do ano passado, o STF fixou cinco critérios para que planos de saúde cubram tratamentos fora da lista da ANS: o tratamento deve ser prescrito por médico ou odontólogo assistente; não pode ter sido expressamente negado pela ANS nem estar pendente de análise para sua inclusão no rol; não deve haver alternativa terapêutica adequada no rol da ANS; deve ter comprovação científica de eficácia e segurança; e deve ser registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A partir de então, a Justiça só pode autorizar tratamento ou procedimento fora do rol da ANS se forem preenchidos esses critérios e se ficar provado que a operadora negou o tratamento ou que houve demora excessiva ou omissão no momento da autorização. Mendonça foi um dos ministros favoráveis à criação dessa norma.

A pauta da judicialização na saúde é uma na qual o executivo da Hapvida e da Abramge está implicado diretamente, como evidenciam suas postagens em redes sociais. Ribeiro defende que o futuro da saúde está atrelado à capacidade de prevenir conflitos antes que eles cheguem aos tribunais. Em abril deste ano, após o evento na Alemanha, a Abramge assinou um acordo de cooperação técnica com o STF para ampliar as taxas de conciliação e reduzir a judicialização.

A Abrange estima que os planos de saúde gastaram cerca de R$ 6,8 bilhões com judicialização apenas em 2024, aumento de mais de 22% com relação ao ano anterior, em litígios considerados “pretadórios” pela associação.  Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que, apenas em 2025, a Justiça recebeu 343 mil novas ações contra as operadoras de saúde e que, em março deste ano, pela primeira vez, o número de processos contra seguradoras superou os relacionados ao SUS.

‘Situações que enfraquecem a reputação da Corte’

Os encontros entre Mendonça e Ribeiro, bem como o apoio da Abramge a um evento organizado pelo instituto do ministro, ocorreram em meio a uma discussão no STF sobre a criação de um código de conduta para os integrantes da Corte. A participação de ministros em palestras e eventos internacionais, bem como a fundação de institutos ligados a eles, era um dos motivos por trás do debate, que segue em aberto. Na visão do presidente do STF, Edson Fachin, essas são situações que enfraquecem a reputação da Corte.

Mendonça é um dos que defendem a criação do código. O ministro anunciou a saída do Iter horas depois de a Revista Fórum revelar que o instituto possuía 55 contratos com órgãos públicos de 14 unidades federativas, dos quais 54 haviam sido firmados com dispensa de licitação. No começo de setembro, antes do anúncio, a newsletter Noites Húngaras havia revelado que Mendonça teve um encontro secreto com Vorcaro, dentro da sede do Iter, em março de 2025. 

O encontro na sede do Iter teria sido articulado pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), que também tinha interesses no próprio instituto. Ele  assinou um contrato de compra futura de 4% de participação no Iter. Madureira foi alvo de uma operação da Polícia Federal, em setembro, por suspeita de comercialização de influência junto a integrantes de tribunais superiores. Antes, em março, também havia mediado uma mesa no evento de Frankfurt.

Frankfurt sediou evento organizado por instituto fundado por André Mendonça

Procurado pela reportagem, André Mendonça afirmou que não mantém relação com dirigentes da Abramge ou do grupo Hapvida “além de eventuais encontros em ambientes públicos e acadêmicos”.

O ministro disse ainda que “as hipóteses de impedimento e de suspeição de magistrado são definidas em lei, de forma taxativa. Nenhuma delas se configura a partir da coincidência de presença em ambiente acadêmico internacional”. Sobre as decisões citadas, adicionou que estas “são públicas, fundamentadas e estão integralmente disponíveis para consulta, e falam por si”.

Procuradas, a Hapvida e a Abramge afirmaram, em nota, que “não houve, em nenhum momento, reuniões ou tratativas relacionadas a processos judiciais de interesse” das entidades durante os encontros entre Mendonça e Ribeiro.

Sobre os casos tramitados no STF entre os dois encontros, a seguradora e a associação esclareceram que, à época do evento, as ações mencionadas estavam em tramitação na Justiça na esfera estadual. “A reclamação constitucional referente a Alagoas foi autuada no STF em 18 de março, enquanto a referente ao Amazonas, teve decisão proferida em 29 de abril”.

Além disso, a Hapvida disse que “na Corte, a definição dos ministros relatores é feita por sorteio e segue critérios regimentais de distribuição. Diante dessa cronologia, não há fundamento para sugerir que o executivo pudesse antecipar a chegada dessas ações ao STF, muito menos a definição do ministro André Mendonça como relator”.

O Iter afirmou que sua atuação como apoiador acadêmico não se confunde com as atividades dos organizadores, dos apoiadores ou dos palestrantes, e que “o Instituto não possui qualquer ingerência sobre processos ou decisões judiciais, e as questões relativas à atuação jurisdicional do ministro André Mendonça escapam ao seu âmbito de competência”. Para o instituto, “a presença de representantes de diferentes setores em um evento acadêmico não constitui, por si só, conflito de interesses”.

Acesso facilitado de lobistas e empresários

O evento realizado em Frankfurt se vendeu como um “encontro internacional que conecta Brasil e Europa para debates qualificados sobre agendas estratégicas”, mas foi resumido por participantes ouvidos pela Pública como uma reunião de negócios para facilitar o acesso de lobistas a empresários e políticos do alto escalão brasileiro.

Mendonça esteve presente em quase todas as mesas. Quando possível, sentou nas primeiras fileiras de cadeira, de onde ouviu seu nome ser reverenciado em quase todas as sessões. A própria mesa da qual ele participou, sobre limites e funções das supremas cortes, foi mediada pelo advogado Marcus Vinicius Furtado Coêlho, que advoga para o Master e cujo escritório recebeu R$ 27,5 milhões do ex-banqueiro só em 2025.

O ministro André Mendonça participou de quase todas as sessões

A questão acadêmica estava mais presente no fato de a sede ser a Universidade Goethe do que na dinâmica do evento, alegam as fontes ouvidas pela Pública. “Pegaram a universidade para deixar com uma cara mais oficial, acadêmica, mas no fundo podia ter sido num resort”, comentou um dos participantes, cuja identidade será preservada.

Apesar de ter sido realizado na Alemanha e contar com tradução simultânea para o inglês, o idioma da maioria das mesas foi o português. Enquanto a participação brasileira costumava lotar a sala, as palestras de maioria alemã ficaram esvaziadas. “Eles queriam dar esse tom de fazer ponte, mas às vezes virava um certo palanque”, afirmou uma participante. “Inclusive tinha um ex-deputado europeu lá, que foi influente nos anos 2000, e dormiu enquanto tava na própria mesa dele”, acrescentou outro.

“Era um encontro de políticos brasileiros com alguns lobistas europeus. Tinham vários lobistas lá. E muita gente que só estava lá por causa de Mendonça”, contou outra fonte.

O evento teria começado a ser organizado em novembro do ano passado. É dessa época que data a primeira das quatro programações às quais a Pública teve acesso. Nela ainda não estavam confirmadas a presença de André Mendonça nem a do presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta (Republicanos-PB), mas havia outros nomes que depois deixaram a programação, como o do ex-ministro da Economia Paulo Guedes. 

O advogado do Master Marcus Vinicius Furtado Coêlho, por exemplo, já constava na programação desde o começo de fevereiro, antes de Mendonça assumir a relatoria das investigações sobre o banco e também antes de desistir do evento na Espanha. O nome de Mendonça passou a constar na agenda a partir de 3 de fevereiro, quando também estava na lista de participantes o ministro do STF Luiz Fux, substituído ainda naquele mês por Motta. A viagem do presidente da Câmara para o evento custou R$ 21 mil aos cofres públicos.

O encontro teve uma lista de 18 apoiadores. Além do próprio Iter e da Abramge, estava também o Not Journal, que teria integrado uma lista de veículos de comunicação e influencers contratados, a pedido de Daniel Vorcaro, para fazer ataques coordenados ao Banco Central, segundo a Folha de S. Paulo. Vorcaro tentou, inclusive, comprar 50% do Not Journal por R$ 5 milhões. Na época, executivos do veículo confirmaram o contrato, mas negaram a combinação prévia de conteúdo. Eles também informaram ter recusado a proposta de compra.

Foi enquanto estava na Alemanha que Mendonça autorizou a prisão de Vorcaro, investigado por fraude bilionária aos cofres públicos.

Alguns participantes foram selecionados a dedo, como foi o caso de Tallis Gomes, o fundador e presidente do Grupo G4 recentemente associado à tentativa de trazer a rede trumpista Rockbridge ao Brasil.

Evento ostentação

O perfil dos convidados deu a tônica do investimento no evento. A Pública conversou com pelo menos três pessoas que estiveram lá e todas foram categóricas em classificar tudo como luxuoso. “Foi um evento caro. Tinha uma uma pompa, sabe? Uma certa ostentação”, conta um participante.

Restaurante 23 Nord, onde aconteceram os jantares do evento

As cerca de 150 pessoas que passaram por lá nos quatro dias tiveram acesso a almoço e café fornecidos pela autodenominada “principal empresa de catering premium da Alemanha”. Boa parte dos convidados ficou hospedada no hotel cinco estrelas Steigenberger Icon Frankfurter Hof, cujas diárias vão de 245 euros (R$ 1,3 mil, na cotação atual), para um quarto simples, a 13 mil euros (R$ 72 mil, na cotação atual), para uma suíte real. De lá, os convidados tinham todos os dias transporte gratuito para a Universidade Goethe.

Além da programação de palestras, havia uma agenda exclusiva de quatro jantares de gala destinada a um grupo menor de 30 a 40 vips e na qual estavam vetados os jornalistas que cobriram o evento. Segundo as fontes entrevistadas pela Pública, nesses jantares foram feitas apresentações do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Hugo Motta e também do próprio Mendonça. Em uma das programações, o nome de Motta aparece vinculado a um jantar com apresentação sobre o cenário político-eleitoral brasileiro em 2026.

Os jantares foram realizados no próprio hotel Steigenberger; no restaurante 23 Nord, localizado no 23º andar da Torre Westhafen e cujo menu de quatro pratos custa 99 euros (R$ 545); no restaurante Opera, localizado no edifício da Alte Oper, a antiga casa de ópera de Frankfurt, cujo prato pode chegar a 56 euros (R$ 300); e no Schlosshotel Kronberg, um hotel de luxo instalado em um antigo palácio imperial alemão nos arredores de Frankfurt, cujo valor de um jantar oscila entre 99 e 175 euros por pessoa (R$ 545 a R$ 968).

A empresa que não existia, mas organizou o evento

Quem assina as peças publicitárias do evento é a Dinter, mas a empresa não existia em março – ela foi criada depois da realização do ciclo de debates em Frankfurt, como revela a Pública. Uma empresa com esse nome foi registrada na Receita Federal em 23 de junho deste ano. Segundo documentos da Junta Comercial do Distrito Federal, a Dinter S.A. foi constituída em 10 de abril, ou seja, depois do seminário. Não há registros na Alemanha de empresa com este nome.

O presidente da Dinter é Ricardo Campos, docente da Faculdade de Direito da Universidade Goethe. É ele o nome por trás das sequenciadas idas do ministro André Mendonça à Alemanha no último ano. No Brasil, Campos possui um think tank, o Legal Fronts, que foi o organizador do evento em parceria com o Iter, segundo nota enviada pelas duas organizações à Pública.

Campos também é ligado ao Iter. Ele é o coordenador acadêmico de um MBA do instituto que motivou um contrato sem licitação do Iter  com o Tribunal de Justiça do Amazonas no valor de R$ 1,6 milhão. Em nota, o Iter confirmou essa ligação e disse que Campos mantém colaboração acadêmica com o instituto na coordenação de alguns cursos.

Em nota, André Mendonça afirmou que sua relação com o professor Ricardo Campos é de natureza acadêmica, decorrente da docência compartilhada na Universidade Goethe. O ministro afirmou não possuir “qualquer participação societária, direta ou indireta, nem vínculo de qualquer natureza com a sociedade empresária Dinter S.A”.

Campos também tem proximidade com juristas que advogaram para Daniel Vorcaro. Ele foi sócio do advogado Walfrido Warde, que atuou na defesa de Vorcaro entre 2017 e janeiro deste ano e tentou articular um encontro do ex-banqueiro com o presidente Lula, segundo o Estadão.

A sociedade durou cerca de um ano, em num período em que Warde já advogava para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e recebia dele quantias milionárias.

A Dinter também tem entre seus membros o advogado Marcelo Doval Mendes, no cargo de diretor acadêmico. Ele é aparece como docente e coordenador acadêmico de pelo menos quatro cursos do Iter. Além disso, já foi superintendente do Sistema de Água, Esgoto e Saneamento Ambiental (Saesa) de São Caetano, em São Paulo, cargo que ocupou por apenas quatro meses. Tanto a saída quanto a chegada de Doval ao cargo teriam sido motivadas pela sua proximidade com o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP). Ambos integraram a programação do evento de Frankfurt.

Procurado, o Legal Fronts afirmou que prestou apoio organizacional ao Regulation & Investment ’26 e que coube ao instituto, com apoio acadêmico do Iter, “a gestão do fluxo de trabalho contratualmente estabelecido, a revisão acadêmica dos conteúdos e o controle administrativo das entregas”. Segundo o Legal Fronts, a curadoria dos palestrantes foi conduzida por Campos.

O think tank confirmou a sociedade entre o Warde Advogados e Campos, mas esclareceu que “o professor jamais atuou, formal ou informalmente, na representação, no assessoramento ou na condução de quaisquer assuntos relacionados ao Banco Master, a Daniel Vorcaro ou aos negócios de sua família”. A informação foi confirmada pela Warde Advogados.

Já o Iter afirmou não possuir “nenhuma relação societária com o Legal Fronts ou com o Dinter SA.”, mas confirmou que o evento Regulation & Investment ’26, realizado em março de 2026, em Frankfurt, “foi promovido por meio de uma parceria entre os dois institutos, Legal Fronts e Iter. Nessa parceria, coube ao Instituto Iter prestar apoio acadêmico, enquanto a responsabilidade pela organização geral do evento, incluindo a definição dos temas e mesas, a seleção e o convite aos participantes e a contratação de fornecedores, ficou a cargo do Legal Fronts”.

A participação do Iter na organização do evento também fica evidente nos metadados de um edital de contratação de pesquisadores para sistematização e difusão dos conteúdos debatidos em Frankfurt. Apesar de levar apenas os logos do Dinter e da Universidade Goethe, o arquivo não foi criado por nenhuma dessas entidades ou seus representantes. A autoria do documento é de Mauro Rabelo, diretor acadêmico do Iter desde julho do ano passado. Rabelo foi secretário de Educação Básica do Ministério da Educação durante o governo de Jair Bolsonaro, na mesma época em que o atual CEO do Iter, Victor Godoy, era ministro da Educação.

A organização não respondeu o fato de a Dinter não existir juridicamente à época da realização do encontro.

Depois da realização do evento em março, o advogado Ricardo Campos fez questão de agradecer publicamente ao ministro “por ter dedicado seu precioso tempo e, acima de tudo, representar o Brasil no diálogo de alto nível sobre os padrões desejáveis do sistema de justiça”.

Received — 26 October 2026 ⏭ Agência Pública

A democracia tem que ser defendida na unha

26 October 2026 at 18:02

O resultado do segundo turno neste domingo, uma virada inédita do presidente Luíz Inácio Lula da Silva, demonstra que a política, como a conhecíamos, acabou de vez.

O resultado foi fruto de uma mobilização cidadã como nunca se viu desde que as redes sociais se tornaram onipresentes na vida dos brasileiros. A campanha digital, mobilizada especialmente por meio de um canal no WhatsApp que concentrou 5% da população — 1 em cada 10 eleitores de Lula — demonstrou que, na era digital, a política se faz com mobilização e participação. Este engajamento conseguiu dominar a conversa digital, saiu das redes e foi para as conversas no bar, em filas de supermercado. Conseguiu superar o boicote descarado da Meta, Big Tech que tem maior controle sobre a esfera de debate público no Brasil — são 110 milhões de usuários no Facebook, 130 milhões no Instagram e 160 milhões no WhatsApp. Foi também a mobilização da sociedade civil que levou essa empresa a ser questionada pela ONU, intimada pelo TSE e investigada pelo Ministério Público Federal.

Os jornalistas investigativos — em especial os de veículos independentes — trabalharam obstinadamente, incansavelmente. Do caso Dark Horse às ligações de Flávio com o Careca do INSS, foi graças ao trabalho de nossos colegas que o público foi informado sobre o passado do candidato do PL, fatos de interesse público fundamentais para o cidadão decidir seu voto.

Aqui na Agência Pública, revelamos as suspeitas de corrupção e omissão nos hospitais federais do Rio que eram o “feudo” de Flávio Bolsonaro durante o governo do seu pai; detalhamos laços do amigo de Flávio, Willer Tomaz, com o Careca do INSS; levantamos o estilo de vida de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nos EUA, descobrimos uma empresa que Eduardo abriu com o passaporte Italiano no Bahrein, apuramos as medidas da Meta para prejudicar postagens da campanha de Lula. Mostramos como o assunto que mais afeta os brasileiros — a segurança pública — impacta nossas vidas. Revelamos mensagens inéditas que evidenciam como Daniel Vorcaro, do Banco Master, mantém uma relação umbilical com figuras da direita brasileira, e também da imprensa. Foi nosso jornalismo que revelou ao Brasil a história da professora Vânia de Souza Borges, que perdeu seu filho, Rafael Borges, para o vício em Bets, no especial Jogo Perigoso: o Brasil das Bets. No meio da campanha eleitoral, Vânia foi pessoalmente pedir ao presidente Lula a proibição das Bets – e foi atendida.

Nosso trabalho resultou em ataques, intimidação e assédio digitais. Também enfrentamos o boicote da Meta — tanto pela redução do alcance do Instagram quanto pela censura descarada de pelo menos um post que denunciamos na véspera do segundo turno. Mesmo assim, as revelações que apuramos voaram: foram amplamente republicadas, embasaram episódios da série documental do Youtube Revelando, viraram postagens de influenciadores e memes.

André Janones transformou uma de nossas matérias em uma “missão” do Canal Exército do Lula, comandando a tropa a pesquisar a frase “FLÁVIO BOLSONARO ESQUEMA PANDEMIA”. O primeiro resultado a aparecer foi a investigação da Agência Pública. No último domingo, antes da votação, no debate da TV Bandeirantes, o caso virou um questionamento ao candidato do PL em rede nacional. ⁠

Neste momento, a recusa de Flávio Bolsonaro em aceitar a derrota e as denúncias de “golpe” por parte de nomes importantes da extrema direita vão fortalecer a narrativa de perseguição, de fraudes nas urnas e de uma suposta “ditadura”. Figuras como Nikolas Ferreira, Pablo Marçal e Eduardo Bolsonaro já começaram a dizer que a ampliação do período de votação constitui “roubo”. Os contra-ataques à eleição popular serão fortalecidos, ainda, pelo controle do Senado e da Câmara Federal, onde o partido PL obteve a maior bancada desde 1990. É uma bancada empenhada em desconstruir avanços como a proibição das bets, o fim da escala 6 x 1, a proteção do meio ambiente e dos direitos dos indígenas e a regulação das Big Techs.

O contexto pós-eleitoral se complica ainda mais porque o repuxo bolsonarista insere-se em um movimento global de forças antidemocráticas que querem matar justamente o tipo de mobilização cidadã que se viu no Brasil. Os EUA e seus aliados mais próximos no continente — como a Argentina de Milei — não reconheceram, até o momento, a eleição de Lula.

Neste contexto, nosso jornalismo será ainda mais necessário. Nosso compromisso é seguir investindo no jornalismo investigativo, ampliar nossa presença no Youtube para participar cada vez mais do debate que ocorre em vídeos nas telas de todos os brasileiros, além de fortalecer as redes de colaboração internacionais que distribuem nossos conteúdos e ampliam a vigilância sobre a democracia brasileira. Sabemos que o jornalismo cada vez mais faz parte de uma disputa que não se esgota na votação. Defender a democracia é, neste novo contexto, uma tarefa cotidiana que continuará a impulsionar nosso trabalho ao lado da sociedade civil e de movimentos organizados.

Há muito trabalho a ser feito. Vamos a ele.

A direção

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Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

26 October 2026 at 01:29

Nunca antes na história deste país, um candidato à presidência havia chegado ao segundo turno em desvantagem e revertido a posição. Aconteceu. Com 51,79% dos votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está reeleito presidente do Brasil e vai exercer seu quarto mandato.

A virada improvável, que envolveu uma redução inédita na abstenção entre um turno e o outro (de 21,08% para 19,22%), tem relação direta com uma mobilização sem precedentes nas redes sociais – justamente o terreno em que a extrema direita deitou e rolou nos últimos anos.

A tomada das redes pelo campo progressista – que transbordou para as ruas, com as maiores manifestações da esquerda em décadas em todo o país – envolveu vários jovens parlamentares que subiram ao palanque do petista, como Ana Elisa, deputada federal eleita pelo PT em Minas Gerais aos 21 anos e Érika Hilton, reeleita pelo PSOL em São Paulo. Mas nenhuma figura se destacou tanto quanto a do deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) e seu canal do WhatsApp “Exército do Lula”, que soma quase 11 milhões de participantes.

Para os especialistas em comunicação e política ouvidos pela Agência Pública, é consenso que a estratégia digital capitaneada por Janones foi central na histórica virada de Lula.

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“O Janones entendeu a lógica das plataformas [digitais], no sentido de que não adianta só fazer conteúdo impulsionado e ou divulgado por influenciadores. O trabalho de formiguinha das pessoas para os seus grupos, das pessoas para as suas redes, é muito importante”, aponta Raquel Recuero, coordenadora do Laboratório de pesquisa MIDIARS (Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais) da Universidade Federal de Pelotas (UfPel).

A pesquisadora destaca que a estratégia conduzida por Janones também acertou ao gerar rejeição a Flávio – algo que a extrema direita vinha fazendo desde o início do terceiro mandato de Lula. “O que mobilizou foi a emoção, o medo de uma vitória de Flávio Bolsonaro [PL]. Não existe comparação com a campanha do primeiro turno. Foi uma campanha muito mais abrangente, digital, que chegou muito mais nas pessoas, já que, querendo ou não, o espaço do debate hoje é o digital”, diz.

Recuero destaca ainda a relevância da campanha digital em um cenário adverso para Lula no Congresso. “A mobilização é importante porque mostra que o presidente eleito tem força de mobilização, ou seja, tem apoio popular, isso pressiona o Congresso, pressiona as instituições. Mas vai ser um governo difícil”, afirma.

A pesquisadora Maria Paula Almada, codiretora executiva do Aláfia Lab e doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), destaca as circunstâncias em que a virada histórica ocorreu, com denúncias de interferência por parte da Meta e, de acordo com a pesquisadora, com “o ministro Kassio Nunes Marques agindo de maneira dúbia, muitas vezes juridicamente equivocada, favorecendo claramente um dos lados”.

“A gente viveu, pela primeira vez na história do Brasil, uma eleição das bolhas, em que a gente não tinha acesso ao que o outro lado estava consumindo e tomando como percepção da realidade”, diz Almada. “A gente sempre soube da importância das redes e sempre soube que a direita domina essa lógica, mas o papel dos algoritmos, das plataformas e o não acesso ao conteúdo que está sendo disseminado do outro lado é um fenômeno novo”.

Para a pesquisadora, o fato de Lula ter ficado em segundo lugar em um primeiro turno morno, com uma esquerda desengajada, fez com que as pessoas começassem a se mobilizar, encarando um papel de “protagonistas”, com as missões desenvolvidas por Janones no canal de WhatsApp, o que foi central para reduzir a abstenção.

Tatiana Dourado, pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-Rio (PPGCOM PUC-Rio), destaca a importância da identificação na campanha vitoriosa de Lula. “O que vimos foi uma mobilização em larga escala, com milhões de pessoas acompanhando canais de WhatsApp e produzindo e compartilhando conteúdos virais que geravam identificação, ampliavam o alcance dessa onda e contribuíam para consolidar convicções de voto, que vão se reproduzindo por contágio”, descreve.

Ela aponta que essa identificação, para além do conteúdo racional, tem uma expressão emocional, que mobiliza afetos – e por isso é bem sucedida. “O canal de Janones, que chegou a superar 10 milhões de inscritos, foi a grande expressão desse fenômeno. Mais do que criar um canal, Janones conseguiu estabelecer pontes com públicos, com uso de uma linguagem bastante direta, emocional e popular, mobilizando afetos, estimulando o compartilhamento de mensagens e investindo com muita autenticidade na manutenção dessa onda”, diz.

Dourado aponta que ainda é cedo para entender o quanto essa transformação da estratégia digital progressista irá se manter, mas destaca como a mobilização soube contrapor táticas que já eram usadas pelo campo bolsonarista nas redes. “Não vejo isso como uma transformação restrita à esquerda, mas como a articulação de diferentes atores em torno de uma oposição ao bolsonarismo, que se expressou tanto nas redes sociais quanto nas urnas. Ainda é difícil afirmar que essa capacidade de mobilização se tornou permanente, porque também depende de conjunturas políticas, redes de participação e condições específicas de engajamento”, pontua.

Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

26 October 2026 at 00:10

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente do Brasil neste domingo, dia 25 de outubro de 2026. O resultado acontece em um dia de votação extremamente conturbado pela falta de ônibus para eleitores e a ampliação tardia do horário de votação.

A vitória de Lula é histórica: é a primeira vez no período democrático atual que um presidente é reeleito para um quarto mandato. Também é a primeira vez no período recente que um candidato à presidência que estava em segundo lugar no primeiro turno consegue virar o jogo e terminar em primeiro.

Outro fato histórico — e problemático — desde domingo foi a ampliação do horário de votação em duas horas. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, tomou a decisão nos minutos finais da votação, após pedidos das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro para que a votação fosse ampliada. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Kassio Nunes Marques não ampliou o horário, apesar do Tribunal ter sido acionado muitas horas antes do fim das votações.

O pedido da campanha de Lula se baseou nas inúmeras denúncias de falta de transporte público para que a população votasse em várias cidades do Brasil. Ao longo do domingo, a Agência Pública mostrou como a redução da oferta de ônibus dificultou o deslocamento dos eleitores.

Em São Paulo, a Pública encontrou pontos de ônibus lotados e eleitores enfrentando trajetos muito mais longos que o habitual. Um eleitor, ouvido pela reportagem, levou mais de duas horas para percorrer um trajeto que normalmente faria em cerca de 40 minutos e chegou a temer não conseguir votar antes do encerramento previsto para as 17h.

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A situação ocorreu apesar de uma determinação para que a cidade mantivesse 100% da frota equivalente à de um dia útil. A denúncia do PT apontou que os ônibus circulavam com cerca de 70% da frota total. A redução do transporte também afetou eleitores que conseguiram votar, mas enfrentavam dificuldades para retornar para casa.

Em Salvador, o problema foi ainda mais explícito. A Secretaria Municipal de Mobilidade confirmou que pelo menos 75 ônibus foram impedidos de sair das garagens depois que foram encontrados adesivos com o número de Lula nos veículos. A apuração do governo estadual chegou a identificar 252 ônibus parados em três garagens.

A redução da frota provocou a reação do TRE-BA. O presidente do tribunal determinou a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, que está em Paris. O tribunal também determinou a retomada de 100% dos ônibus, sob pena de multa de R$ 1 milhão por hora.

O prefeito Bruno Reis, responsável pela administração municipal, é aliado da candidatura de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Lula obteve 65,26% dos votos em Salvador, contra 27,03% de Flávio.

A situação em São Paulo tem paralelo com a de Salvador: Lula também foi o candidato que mais teve votos no 1º turno na cidade. O petista teve quase 300 mil votos a mais que Flávio Bolsonaro na capital paulista, que é o maior colegiado eleitoral do país. Lula se saiu melhor, além do centro da cidade, em bairros da periferia, em especial os mais distantes do centro.

“Não vi um único ônibus passar”: o dia em que Salvador votou de carona com estranhos

25 October 2026 at 21:15

Investigamos o que importa para os brasileiros além do que passa na campanha eleitoral. Leia mais reportagens como essa clicando aqui.

Tássia Novaes saiu de carro com a filha neste domingo, 25 de outubro, dia do segundo turno. Entre 13h30 e 16h, rodou por três dos principais corredores de ônibus de Salvador, entre eles a região do Acesso Norte, estação de transbordo, e a Avenida Bonocô. “Nesse período eu não vi um único ônibus passar”, conta. Ela parava de ponto em ponto, baixava o vidro e perguntava quem ainda não tinha votado. “Tinha gente que falava assim: eu tô aqui há duas horas e não passou ônibus.”

Levou cerca de dez pessoas até os locais de votação. Um casal, uma senhora com o filho, outros grupos pequenos. “Em ponto de transbordo, que é onde geralmente tem mais ônibus circulando, não tinha ônibus. É surreal”, reclama. “Pela primeira vez eu tô vendo isso, de não ter ônibus em Salvador para as pessoas irem votar.”

Ao longo do dia, a Secretaria de Mobilidade de Salvador (Semob) confirmou que pelo menos 75 ônibus foram impedidos de sair das garagens. A justificativa foi a presença de adesivos com o número do candidato Lula (PT) nos veículos, como mostrou a Agência Pública. O secretário da Justiça da Bahia, Felipe Freitas, contou 252 veículos parados em três garagens. O Procon-BA autuou a empresa OT Trans depois de encontrar 55 ônibus estacionados no pátio.

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Às 13h15, o presidente do TRE-BA, desembargador Mauricio Kertzman Szporer, mandou a Polícia Federal prender em flagrante o secretário de Mobilidade, Pablo Souza, que estava em Paris. A decisão também obrigou a prefeitura a colocar 100% da frota nas ruas em uma hora, com tarifa zero, sob multa de R$ 1 milhão por hora. Para o magistrado, a retenção “frustra a participação eleitoral dos cidadãos soteropolitanos”. Pouco depois das 17h, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), prorrogou a votação até as 19h em todo o país.

O prefeito Bruno Reis (União Brasil), aliado da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), negou ter dado ordem para “reduzir ou impedir a circulação dos ônibus”. Disse que a saída atrasou porque foi preciso retirar propaganda irregular dos veículos, que a operação foi normalizada por volta das 10h30 e criticou a “politização” do episódio. Os relatos colhidos pela Pública contam outra história. Oito dias antes, a Câmara Municipal havia entregado a Flávio o título de cidadão soteropolitano, em cerimônia no Farol da Barra, ao lado de um comício do candidato. No primeiro turno, Lula teve 65,26% dos votos válidos na cidade, a maior votação dele entre as capitais.

“Não, deixa tudo aí, vai”

Clara Matos não deu carona porque estava com a filha pequena no carro. Mas cruzou cerca de 20 quilômetros da cidade entre o meio-dia e o fim da tarde. “Contando, vimos dois ônibus em cinco avenidas grandes”, diz. Perto do meio-dia, segundo ela, ainda havia “ônibus zero” e pontos cheios.

Por volta das 15h, numa loja de material de construção, o funcionário que carregava o carro da família comentou que ainda não tinha votado. Estava no trabalho desde cedo e só seria liberado depois das três. “Já soube que não tem ônibus, e não sei se eu vou conseguir chegar a tempo para votar”, contou ele. Clara dispensou o serviço: “Não, deixa tudo aí, vai”. Ela não sabe se ele conseguiu chegar a tempo.

Mais tarde, numa lanchonete perto de casa, a atendente do caixa de McDonald disse que só sairia às 16h15 e que sua seção ficava longe. “De ônibus, ela levaria no mínimo uma hora para chegar, se conseguisse ônibus”, diz Clara. O marido dela se ofereceu para pagar um Uber, “muito discretamente”, porque o gerente acompanhava a conversa. A moça aceitou.

“Os ônibus foram sequestrados”, resume Maíra

Maíra Rocha já tinha levado de manhã uma pessoa que votava no mesmo colégio que ela e outra pessoa até São Caetano, no Subúrbio Ferroviário. “Notei que no Subúrbio tava muito cheio”, conta. Quando os grupos de mensagens começaram a convocar caronas, depois do almoço, ela hesitou. “Fiquei receosa de sair sozinha e de cadastrar meu telefone”, diz. Chamou um amigo do Rio Vermelho para acompanhá-la.

Às 15h, a caminho de Periperi, também no Subúrbio, ela já via muitos carros oferecendo carona e os primeiros ônibus de volta às ruas, depois da ordem judicial. Na Federação, embarcou um grupo que ia votar na Faculdade de Arquitetura. Ao todo, levou cerca de seis pessoas aos seus locais de votação. Quem ela pegou no ponto contou que, pela manhã, até viu ônibus passar, mas vazios e com o letreiro “Garagem”.

Com menos ônibus em São Paulo, eleitores demoram mais de 2 horas para votar

25 October 2026 at 20:44

O trabalhador autônomo, Alexandre Mendes, 44 anos, olhava para o celular repetidamente enquanto aguardava o ônibus Jardim das Rosas, linha 6820, no ponto próximo à estação Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo. Às 16h12, ele recebeu uma mensagem da filha o alertando que existia a possibilidade do horário de votação se estender até às 19h. “Tomara, se não eu não vou conseguir chegar”.

Mendes havia saído da região de Interlagos, por volta de 14h para atravessar a Zona Sul e votar no Jardim das Rosas, mas mesmo após 2h10 de trajeto ele ainda não havia chegado ao destino. “Eu me programei para chegar em 40 minutos. O ônibus que eu estava esperando lá não passava. Tive que ir andando até o metrô. Fui para Santo Amaro, desci na estação Capão e estou aqui há quase meia hora. Acho que não vou conseguir votar ”.

Era 16h33 quando a linha que Mendes aguardava chegou no ponto. “Acho que vai dar tempo de votar, deixa eu correr lá”, disse enquanto dava sinal para o motorista.

A parada de ônibus em que Mendes aguardava não era a única lotada naquela região da Zona Sul. A reportagem circulou pelas estradas do Campo Limpo, Itapecerica e Avenida Carlos Caldeira Filho e presenciou diversos pontos cheios.

Levantamento do G1 mostrou que a frota de ônibus em São Paulo estava circulando com cerca de 70% da capacidade, apesar da decisão da Justiça Eleitoral de que a frota deveria manter 100% do equivalente a dias úteis.

A extensão do horário para a votação que a filha de Mendes alertou veio, mas veio muito tarde. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, demorou horas para avaliar os pedidos das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro. Enfim, comunicou à imprensa que não haveria extensão. A poucos minutos do fim da votação, prevista para as 17h, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cristiano Zanin, decidiu que a votação se estenderia por mais duas horas.

Agora, a situação é inédita na história do país — e extremamente confusa. A divulgação dos resultados, que havia sido iniciada, foi paralisada. A Agência Pública vai seguir com a apuração e irá atualizar a reportagem com mais informações.

  • Neste domingo de 2º turno, eleitores lotam paradas de ônibus no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo
  • Neste domingo de 2º turno, eleitores lotam paradas de ônibus no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo
  • Neste domingo de 2º turno, eleitores lotam paradas de ônibus no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo
  • Neste domingo de 2º turno, eleitores lotam paradas de ônibus no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo
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PT pede prisão de prefeito de São Paulo

Enquanto se protegia da chuva, a atendente de cafeteria Priscila Mourão, 28 anos, disse à reportagem que estava aliviada por ter conseguido ter ido votar pela manhã. “Sou CLT, né moço. Tive que votar antes de ir trabalhar”, contou.

Mourão, no entanto, estava preocupada com a volta para casa devido ao transporte público. “Hoje parece que tem menos ônibus, está demorando muito. Pode ser por causa da chuva, mas acho que não. Todo domingo eu faço este mesmo trajeto, mas hoje demorou muito mais”, relata.

A Pública mostrou no 1º turno que trabalhadores têm dificuldade para irem votar. Os problemas vão desde quem não tem liberação dos patrões a pessoas que são liberadas, mas que não têm tempo suficiente para chegar às seções, ou até quem opta por fazer horas extras para conseguir mais dinheiro no fim do mês.

Assim como ocorreu em Salvador — onde restrições na frota de ônibus também prejudicaram eleitores e isso levou a um pedido de prisão contra o prefeito Bruno Reis (União Brasil) — foi pedida a prisão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes. Na capital paulista, o pedido veio do PT, que pediu também a detenção do secretário de Mobilidade Urbana e Transportes da cidade, Celso Jorge Caldeira. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência de Lula, Guilherme Boulos, afirmou que já há precedente para que isso aconteça, a exemplo do pedido de Salvador.

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Assim como Salvador, Lula também ganhou em São Paulo no primeiro turno

A situação de São Paulo tem paralelo com o que ocorreu em Salvador: em ambas as cidades, Lula foi o candidato que mais teve votos no 1º turno. O petista teve quase 300 mil votos a mais que Flávio Bolsonaro na capital paulista, que é o maior colegiado eleitoral do país.

A votação em São Paulo, como em várias grandes cidades, também varia pela região. Como mostrou levantamento do Globo, Lula se saiu melhor, além do centro da cidade, em bairros da periferia, em especial os mais distantes do centro.

Received — 25 October 2026 ⏭ Agência Pública

Faltou ônibus em Salvador no 2º turno, oito dias após Câmara dar título a Flávio Bolsonaro

25 October 2026 at 18:03

Neste domingo de eleições, 25 de outubro, o transporte de ônibus de Salvador entrou no centro do debate eleitoral. Começou com moradores da capital, que denunciaram nas redes sociais dificuldades para ir votar devido ao atraso ou mesmo falta dos veículos nos pontos. Depois, a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) confirmou à imprensa que, ao menos, 75 ônibus foram impedidos de sair das garagens. O motivo seriam adesivos colados nos veículos com o número do candidato à Presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A situação escalou rapidamente: o presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), desembargador Mauricio Kertzman Szporer, determinou que a Polícia Federal (PF) prendesse em flagrante o secretário municipal de Mobilidade de Salvador, Pablo Souza, atualmente em Paris. A decisão, assinada às 13h15, atribui à secretaria a ordem para reduzir a frota de ônibus durante a votação e manda a prefeitura recolocar 100% dos veículos nas ruas em até uma hora, com tarifa zero, sob multa de R$ 1 milhão por hora.

Ônibus com adesivos com número do candidato Lula parados em garagem; TRE determinou que 100% da frota nas ruas e prisão do secretário de mobilidade de Salvador
Ônibus com adesivos com número do candidato Lula parados em garagem; TRE determinou que 100% da frota nas ruas e prisão do secretário de mobilidade de Salvador

O pedido partiu da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV). Às 10h30, a federação informou ao tribunal que o transporte coletivo da capital operava com redução superior a 50% em relação aos dias úteis. Entre 10h56 e 11h09, anexou vídeos e fotos de dezenas de ônibus parados em garagens durante o horário de votação, depois listou os endereços das concessionárias onde os veículos estariam retidos e pediu a prisão em flagrante dos responsáveis.

O ponto central da decisão é um termo de vistoria elaborado pelo juiz auxiliar Antônio Marcelo Oliveira Libonati na sede do BRT, na avenida Barros Reis. Segundo o documento, o magistrado encontrou “diversos veículos na garagem”, e o supervisor do local, Igor Cesar da Cruz Moraes, informou que a frota em atividade era inferior à dos dias de semana, “seguindo orientação da SEMOB”, a Secretaria Municipal de Mobilidade de Salvador. Avisado da obrigação de manter a frota de dia útil, o supervisor disse que mobilizaria motoristas, o que, segundo a decisão, não havia ocorrido até então.

“Considerando-se que a orientação para redução da frota partiu da Secretaria Municipal de Mobilidade de Salvador (SEMOB), diante das evidências da violação dos artigos 297, 304 e 347 do Código Eleitoral, determino que seja procedida a imediata prisão do seu titular”, escreveu o desembargador. Os artigos tratam de impedir ou embaraçar o exercício do voto, de sonegar meios de transporte no dia da eleição e de desobedecer a ordens da Justiça Eleitoral. O texto dá à própria decisão “força de mandado”.

O Procon-BA autuou a empresa OT Trans após encontrar 55 ônibus aptos a rodar parados no pátio. Segundo o secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos, Felipe Freitas, o órgão contou 252 veículos parados em três garagens da cidade.

A federação petista pretende pedir que a votação na Bahia seja estendida até as 19h — o prazo normal é às 17h. Até a publicação deste texto, não havia confirmação de que a prisão de Pablo Souza tivesse sido cumprida. A reportagem procurou o secretário, que não respondeu.

Também a Federação Brasil da Esperança (PT/PCdoB/PV) pediu ao TRE-BA, às 12h42, a prisão em flagrante do prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil). O pedido acusa prefeitura e concessionárias de descumprir uma decisão do próprio tribunal, tomada às 11h54, que mandava colocar toda a frota nas ruas, com gratuidade, para garantir o deslocamento dos eleitores. Para os advogados, a situação configura crime eleitoral por dificultar o voto e desobedecer à Justiça Eleitoral. Eles pedem também que a multa recaia pessoalmente sobre o prefeito. O Tribunal ainda não decidiu sobre o pedido.

Segundo nota da Prefeitura de Salvador: “A Secretaria de Mobilidade (Semob) determinou que todos os ônibus fossem liberados das garagens, com a frota máxima, ainda que estivessem com adesivação considerada como propaganda irregular, facilitando a locomoção dos eleitores neste domingo (25), segundo turno das eleições. A prioridade segue sendo a circulação de veículos e o deslocamento da população. A operação já está sendo normalizada através do diálogo entre as equipes da Secretaria e representantes sindicais”.

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75 ônibus foram impedidos de sair das garagens de Salvador, o que gerou atraso aos eleitores

Lula venceu em Salvador no primeiro turno com 65,26%

O prefeito de Salvador é Bruno Reis (União Brasil), reeleito em 2024 para o mandato de 2025 a 2028 e alinhado à chapa de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Lula, do PT, obteve 944.358 votos (65,26%), enquanto Flávio obteve 391.188 votos (27,03%). A vitória de Lula em Salvador foi a maior porcentagem dentre todas as capitais brasileiras, sendo que a cidade é a quinta do país com maior número de eleitores.

O desembargador ampara a ordem no julgamento da ADPF 1013, em que o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a omissão do poder público em oferecer, nos dias de eleição, transporte gratuito com frequência igual à dos dias úteis. A regra foi incorporada pela Resolução TSE n.º 23.751/2026, cujo artigo 23 prevê responsabilização penal eleitoral em caso de redução do serviço. Para o magistrado, a retenção da frota “frustra a participação eleitoral dos cidadãos soteropolitanos” e cria risco de “dano irreparável à soberania popular”.

A multa recai solidariamente sobre o município, o secretário e as empresas concessionárias. A decisão também determina que a PF fiscalize as garagens, garanta a saída imediata dos ônibus e prenda em flagrante quem impedir o cumprimento da ordem. Cópia do processo foi enviada à Procuradoria Regional Eleitoral para investigação criminal. A gratuidade e a frota completa devem ser mantidas até o fim da votação e pelo tempo necessário para que os eleitores voltem para casa.

Após disputa na Justiça e manobra de vereadores, Flávio Bolsonaro ganhou neste mês título de cidadão de Salvador

Câmara de Salvador disputou na Justiça para homenagear Flávio em meio a campanha eleitoral

A história começou em 13 de abril deste ano, quando a Mesa Diretora da Câmara Municipal de Salvador publicou o projeto de número 28, que concedia o título de “Cidadão da Cidade de Salvador” a Flávio Bolsonaro (PL). O documento original, ao qual a Pública teve acesso, foi assinado pelo presidente da Câmara, Carlos Muniz, do PSDB.

Na justificativa do projeto, o texto afirma que a homenagem reconhece os “relevantes serviços prestados à sociedade brasileira e à sua contribuição para o fortalecimento dos valores democráticos, institucionais e sociais que refletem diretamente o desenvolvimento da cidade de Salvador”.

O projeto também traz que “ainda que sua atuação se dê em âmbito nacional, suas iniciativas legislativas e posicionamentos reverberam em todo o território brasileiro, alcançando também os cidadãos de Salvador, contribuindo para o aprimoramento de políticas públicas que impactam diretamente a capital baiana”.

No dia 28 de abril, a proposta avançou, e foi aprovada pela Comissão de Justiça da Câmara. Em 6 de maio ela foi aprovada pela Câmara. Já em 10 de junho, foi publicada no Diário Oficial.

A entrega da homenagem a Flávio Bolsonaro seria marcada mais para frente, para o dia 17 de outubro — já dentro do calendário eleitoral — o que foi denunciado por políticos da oposição como ato de campanha. Além disso, a Câmara aprovou uma transferência temporária da sede para o Farol da Barra, para que a homenagem pudesse acontecer no local junto a um comício de Flávio.

“Deslocar a cerimônia para um palanque converte a mais alta honraria da cidade em peça de propaganda de uma candidatura, em afronta aos princípios da impessoalidade e da moralidade que regem a Administração Pública”, escreveu o vereador Hamilton Assis, do PSOL, em 14 de outubro, num projeto que pediu a suspensão da homenagem.

Quem articulou a transferência de local foi o vereador Cezar Leite (PL), que inclusive se colocou como o responsável para entregar a honraria a Flávio. “Foi um pedido do vereador Cezar Leite, que só se deu após ser aprovado pelos pares em plenário. Agora é possível dizer que já está tudo certo para que aconteça. Nós aqui somos democráticos; o que a maioria decidir está decidido”, disse o presidente da Câmara.

“Estou feliz. A gente acabou de aprovar o requerimento que fiz para a mudança de sede para a entrega do título de cidadão soteropolitano a Flávio Bolsonaro, o nosso futuro presidente da República. Então, vai ser entregue no Farol da Barra, em um grande encontro com o povo. Nada melhor do que entregar um título de cidadão soteropolitano no meio do povo, que hoje está aclamando Flávio Bolsonaro como presidente da República”, disse Leite à época.

No dia 16, a Vara da Fazenda Pública de Salvador suspendeu a cerimônia, entendendo que o movimento poderia “comprometer a imparcialidade da atuação institucional do Legislativo municipal no período eleitoral”. No dia seguinte, após Cezar Leite recorrer, o Tribunal de Justiça do Estado voltou a autorizar a entrega da condecoração, que aconteceu no Farol da Barra na mesma data.

Flávio recebeu o título de cidadão de Salvador no dia 17 de outubro, ao lado do atual prefeito, Bruno Reis (União Brasil), do deputado federal Nikolas Ferreira de Minas Gerais (PL), do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fora outros políticos. O título foi entregue pelo vereador César Leite. Um dia após receber a homenagem, Flávio errou o nome da avenida onde foi agraciado, confundindo a Avenida Oceânica, em Salvador, com a Atlântica, no Rio de Janeiro.

Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

24 October 2026 at 22:32

Uma única sala comercial em Águas Claras, no Distrito Federal, reúne no papel o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, seu advogado e amigo, Willer Tomaz, e parte da rede investigada pelo desvio de dinheiro de aposentados do INSS, que inclui Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”. A Agência Pública levantou os registros das 90 empresas que já tiveram sede na sala 2601 do Edifício Connect Towers e achou 25 citadas nas investigações sobre as fraudes no INSS, ligadas a Antunes, além de outras seis pessoas indiciadas pela CPMI.

Um elo entre essas empresas é a Voga, um escritório de contabilidade instalado no prédio desde 2009, cujos e-mail e endereço se repetem nos cadastros obtidos pela Pública. O ICL Notícias revelou a ligação da sala com uma empresa de Flávio, a Bravo Grafeno (que já teve Jair Bolsonaro como sócio), e 16 outras ligadas ao escândalo do INSS, em setembro deste ano.

A Voga é comandada pela família dos Reis. Alexandre Caetano dos Reis, sócio do “careca”, está preso desde dezembro, apontado pela Polícia Federal (PF) como contador no esquema de lavagem de dinheiro. A irmã dele, Letícia Reis, administra o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, como revelou a Pública em 2022.

A Pública também descobriu que Willer Tomaz, investigado junto ao senador no STF por lavagem de dinheiro com bets, defende a Voga num processo trabalhista. Ele também tem uma empresa em nome da irmã na mesma sala.

Senador Flávio Bolsonaro
Na mesma sala onde foi registrada a empresa de Flávio Bolsonaro, existem outras 25 citadas no escândalo do INSS

Uma contabilidade, muitas empresas

A principal conexão entre as muitas empresas registradas na sala 2601 é a Voga, uma empresa de contabilidade. O primeiro documento que a Pública encontrou é de 2009, quando a empresa foi registrada no Edifício Connect Towers, em salas ao lado da 2601, segundo a Receita Federal.

Fachada do Connect Towers
Na mesma sala do edifício comercial, estão registradas 90 empresas, incluindo a que tem Flávio Bolsonaro como sócio

Um dos sócios da empresa é Alexandre Caetano dos Reis, preso desde dezembro do ano passado por decisão do ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a PF, Caetano atuou como contador de diversas empresas do “careca” em atividades de lavagem de dinheiro no esquema de fraudes do INSS.

A Voga tem uma empresa “filha”, chamada Voga Serviços, essa sim com sede na sala 2601 e aberta em 2021. O termo filha não é ao acaso: essa segunda Voga tem no registro Paula Batista dos Reis, a filha de Alessandra Batista Perdigão dos Reis, esposa de Alexandre. O email de Paula é usado tanto no cadastro da Voga Serviços, quanto da Voga Contabilidade aberta em 2009.

É neste endereço da sala 2601, além dos emails de Paula e da própria Voga que se conectam um emaranhado de 90 empresas nas quais os membros da família dos Reis se revezam nas sociedades.

É importante lembrar que a família dos Reis está ligada diretamente a Flávio Bolsonaro: é a irmã de Alexandre, Letícia Caetano dos Reis, que administra o escritório de advocacia de Flávio — o mesmo escritório registrado na mansão milionária do senador, cuja compra foi financiada pelo Banco de Brasília (BRB) e que teve o empréstimo quitado em tempo recorde.

Advogado Willer Tomaz
Amigo de Flávio, Willer atua como advogado para empresa de contabilidade que liga empresas registradas na sala 2601

Willer Tomaz defende Voga em processo contra família dos Reis

A Pública tentou visitar a sala da Voga na manhã desta sexta-feira, 23 de outubro. O acesso, contudo, foi barrado. A circulação no edifício foi limitada após a imprensa ter revelado o local.

Os 90 empreendimentos registrados na sala 2601 têm atividades variadas. A maioria é de consultoria e serviços administrativos (26), seguido por construção civil e incorporação imobiliária (19), comércio (16) e holdings (13).

Recepção da Connect Towers
Entrada da sala foi limitada após revelação de que Flávio Bolsonaro e careca do INSS têm escritório no mesmo local

A Pública teve acesso a um processo trabalhista que reforça os laços entre as empresas da sala. É o mesmo processo noticiado pelo Uol neste sábado, 24 de outubro. Na ação, um profissional afirma que trabalhou mais de dez anos para a Voga, até 2025. A pessoa afirma que a jornada de trabalho era extenuante e não remunerada. E ainda que foi obrigada pela chefia a apagar dados que poderiam comprometer a empresa junto ao escândalo do INSS. Alexandre atuaria diretamente como “chefe”, dando ordens de destruição dos arquivos.

Na peça, o profissional acusa os sócios de usarem “CPFs de terceiros, comumente denominados “laranjas”, para frustrar o cumprimento de obrigações legais e dificultar a satisfação de créditos trabalhistas”. A acusação contra a Voga é direcionada à família dos Reis: Alexandre; Alessandra, sua esposa; e Paula.

Quem defende a Voga e os membros da família dos Reis nesse processo é Willer Tomaz.

A reportagem procurou a assessoria do advogado para esclarecer qual a relação dele com a Voga e as demais empresas registradas na sala 2601, além de um posicionamento sobre a acusação trabalhista, mas ainda não tivemos resposta até a publicação. O espaço segue aberto à manifestação.

Outra ligação também aproxima Willer das empresas registradas na sala 2601. É a Bonsucesso, consultoria criada em setembro de 2025 na sala da Voga. A Pública apurou que, no mesmo dia em que foi constituída, ela foi transferida para um endereço em São Paulo.

A empresa foi registrada em nome de Lídia Mazelli, apontada como suposta laranja de Tomaz por assinar os papéis de 14 empreendimentos ligados a ele. Depois, em julho de 2026, a Bonsucesso foi transferida para Flavia Oliveira Correa Tomaz, esposa de Willer.

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A família Bolsonaro e a sala 2601

A ligação mais direta entre a família Bolsonaro e as empresas da sala 2601 é a Bravo Grafeno, loja online que vende capacetes estilizados com as cores da bandeira do Brasil, como mostrou o ICL. A grafeno foi aberta em junho de 2024.

A sociedade reúne Flávio, seu irmão Carlos Bolsonaro, recém-eleito senador por Santa Catarina, e outras três pessoas. O ex-presidente Jair Bolsonaro também já fez parte do quadro societário.

A Bravo Grafeno também tem como sócio Pedro Luiz Dias Leite, ex-sócio de Marcello de Oliveira Lopes, marqueteiro de Flávio que deixou a pré-campanha em maio. A saída ocorreu após a crise envolvendo a revelação pelo Intercept Brasil de que o senador pediu R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, sobre seu pai. A PF também identificou um repasse de Lopes para a produtora do filme.

Os outros sócios da empresa de capacetes são o ex-assessor do senador, Fernando Nascimento Pessoa, que chegou a ser investigado no caso da rachadinha no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e o personal trainer Paulo Giordano Bernardi.

A Pública descobriu que outra pessoa ligada à família Bolsonaro tem um negócio na sala 2601: o fisioterapeuta Kleber Caiado, que atende Jair desde agosto de 2025, quando o ex-presidente passou a cumprir prisão domiciliar. Quando ele foi condenado, a defesa do ex-mandatário pediu autorização para que as sessões de fisioterapia com Caiado tivessem continuidade na cela da PF.

Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como o "Careca do INSS"
Acusados de envolvimento com o “careca do INSS” também têm empresas no endereço

Mais empresas ligadas ao escândalo do INSS na sala 2601

Era 23 de setembro de 2025, a Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados foi acionada para prender o economista e empresário Rubens Oliveira Costa, por falso testemunho e ocultação de documentos na Comissão Parlamentar de Inquéritos (CPMI) do INSS. O pedido foi feito tanto pelo presidente da comissão, o deputado Carlos Viana (Podemos-MG), quanto pelo relator Alfredo Gaspar (PL-AL), após mais de sete horas de reunião.

Costa foi ouvido na condição de testemunha, amparado por um habeas corpus, concedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux. Ele não respondeu à maioria das perguntas feitas pelos parlamentares sobre a sua relação com o “careca” e teria apresentado contradições em suas falas, o que levantou a suspeita dos interrogadores.

A suspeita de relação com a fraude do INSS se estende também às três empresas em seu nome: a Fronteira Consultoria e Gestão Financeira, a Silva e Rodrigues Consultoria e Assessoria Empresarial (Brain Consultoria) e a Capify Gestão e Consultoria Financeira. A Pública apurou que essas três empresas dividem a mesma sala 2601 com a Voga.

Procurada, a defesa do empresário afirmou que “Rubens Oliveira Costa jamais foi proprietário de qualquer empresa, tendo atuado exclusivamente como administrador financeiro contratado”, afirmou o advogado Bernardo Simões Coelho. Ele acrescentou ainda que o seu cliente não mantinha negócios com políticos ou integrantes da administração pública. Leia a nota na íntegra.

Já o técnico em contabilidade e empresário Milton Salvador de Almeida Júnior aparece como sócio ou diretor de pelo menos 11 empresas de ramos variados, e em oito delas, ele divide a sociedade com o “careca”. Em 19 de setembro de 2025, ele foi convocado para depor na CPMI do INSS, após nove requerimentos, sendo um deles do próprio relator da comissão, o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) – hoje vice na chapa com Flávio Bolsonaro.

Quatro empresas ligadas a Almeida Júnior estão na sala 2601 do Contect Tower: a Prospect Consultoria Empresarial,  Plural Intermediações de Negócios, RPLD Construtora e Incorporadora e a DRPL Comercialização e Locação de Veículos.

A Prospect Consultoria é citada no relatório da Polícia Federal como uma das empresas utilizadas para executar o esquema fraudulento. A empresa foi fundada em janeiro de 2022, está em atividade e tem capital social de R$ 30 mil. Procurada, a defesa de Almeida Junior não respondeu aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

Romeu Carvalho Antunes, filho de Antunes, também aparece na sala 2601, em sociedade com Almeida Junior na Plural Intermediações de Negócios.

Romeu foi preso na manhã de 18 de dezembro de 2024 na Operação Sem Descontos. Além da relação com as empresas do pai, a PF identificou um aumento abrupto nos rendimentos do filho do “careca”, cujo crescimento seria incompatível com o seu histórico profissional.

Procurada pela reportagem, a defesa de Romeu disse que ele tem apenas 1% de participação na Plural, e que suas empresas estão baixadas há um ano, não mantendo “relação comercial com absolutamente ninguém mais”. Além disso, a defesa alega que ele nunca teve qualquer relação com a família Bolsonaro e Willer Tomaz. Os advogados também informaram que não tiveram acesso à informação de que o patrimônio era incompatível. 

Já Cristiana Alcântara Alves Zago é sócia de oito empresas na sala 2601. Segundo o relatório final da CPMI do INSS, ela figuraria como “suporte” contratada pelo “careca” para, inicialmente, realizar serviços de consultoria relacionados à estruturação de negócios no setor de cannabis medicinal”, e teria recebido créditos bancários de investigados no esquema de fraudes envolvendo o INSS. Ela teria recebido ao menos R$ 610 mil dos investigados, de acordo com o relatório.

Procurada, a defesa de Zago não respondeu.

Já a defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, afirmou que ele não tem nenhum elo com as empresas de Willer Tomaz e nem da família Bolsonaro.

Às vésperas do 2º turno, canais no Telegram espalham fake news sobre segurança de urnas

24 October 2026 at 21:33

Na sexta-feira, o irmão do candidato Flávio Bolsonaro (PL), Eduardo Bolsonaro, sugeriu em uma entrevista nos EUA que pode haver fraude nas urnas e o irmão pode ter que sair do país se perder. Embora pareça estar falando outra língua em relação à campanha oficial, Eduardo está reforçando uma narrativa mentirosa que segue circulando entre grupos de apoiadores do bolsonarismo. 

Um levantamento da Agência Pública identificou 418 publicações questionando a confiabilidade das urnas eletrônicas em uma rede de 60 canais do Telegram. Desses canais, 58 compartilham mensagens de apoio a Flávio Bolsonaro. Embora o levantamento tenha identificado publicações desde 2022, a maior parte dos registros (245) se concentrou entre maio e outubro de 2026. O maior volume de publicações (91) ocorreu nas semanas anteriores e posteriores ao primeiro turno.

Em abril de 2017, a jornalista Mariana Godoy viajou até a Suíça para entrevistar o ex-delegado da Polícia Federal (PF) e ex-deputado federal Protógenes Queiroz, que alegava estar em situação de asilo político em decorrência de uma condenação no Supremo Tribunal Federal (STF). Em um trecho da entrevista, Queiroz afirmou que houve fraude nas urnas durante as eleições de 2014, o que é uma mentira desbancada inúmeras vezes por checadores de fatos, autoridades e o TSE. Ainda assim, dois trechos desta entrevista voltaram a circular recentemente, em 32 publicações de 18 canais do Telegram, que, juntos, somam quase 286 mil inscritos.

No primeiro turno das eleições, dez canais do Telegram compartilharam, entre 20h11 e 20h46, a seguinte mensagem: “INTRA TSE: Estranhamente às 19:16 as urnas modelos UE2013 e UE2015 geram erro e a contagem ficou travada!🇧🇷”. Somados, esses canais têm mais de 279 mil inscritos.

A alegação de que erros nas urnas eletrônicas teriam travado a contagem dos votos já foi desmentida pela Justiça Eleitoral. Mesmo assim, o conteúdo continuou circulando no Telegram. Um exemplo é o canal “Eleições 2026 Memes”, que reproduziu a mensagem em 12 de outubro, seis dias depois da publicação do desmentido oficial. A antropóloga e pesquisadora Letícia Cesarino explica que o Telegram é uma plataforma avessa à regulação e que não tem uma tradição de moderação de conteúdo. “Esse plano de conformidade, na verdade, não significa nada. Não tem força de lei. É mais uma declaração de compromisso. Se a plataforma vai ser sancionada ou não, a Justiça Eleitoral não tem muitos meios para forçar a se adequar à legislação eleitoral”, completa.

Print de um dos grupos no telegram que postou conteúdo falso que indicava erro nas urnas eletrônicas
Print de um dos grupos no telegram que postou conteúdo falso que indicava erro nas urnas eletrônicas

Em setembro de 2026, o Telegram apresentou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um plano para combater a desinformação na plataforma. O item 2.1 das Medidas de conformidade, dedicado aos conteúdos político-eleitorais, estabelece que “A moderação aplica-se a conteúdos, contas, grupos, bots e canais, por meio das seguintes medidas de fiscalização: remoção de conteúdo, restrição ou remoção de contas e canais e aplicação de rótulos visíveis de advertência — os marcadores “SCAM” e “FAKE”, atribuídos proativamente em vermelho para alertar a comunidade sobre riscos.”

Apesar das medidas previstas no documento, entre as 418 publicações identificadas no levantamento, apenas uma apresentava um aviso indicando que o conteúdo poderia ser falso. A postagem foi feita em 10 de outubro de 2024, no canal “FreedomNews 🇺🇸🇧🇷”.

Print da única publicação com indicação de que pode ser conteúdo não confiável
Print da única publicação com indicação de que pode ser conteúdo não confiável

Por que se trata de uma rede?

Das 418 publicações identificadas, 176 apresentam texto idêntico a pelo menos mais  uma postagem. Mas, ao examinar todos os conteúdos dos canais, 3.189.642 mensagens, a Pública identificou 1.259 conexões entre os canais, estabelecidas por meio de 249.464 encaminhamentos internos de mensagens na rede.

A análise das publicações que questionam as urnas eletrônicas identificou três eixos discursivos principais: textos sobre possíveis falhas técnicas nos equipamentos, questionamentos sobre interferência externa no processo eleitoral e memes.

Grafo de conexão elaborado a partir das conexões entre os canais
Grafo de conexão elaborado a partir das conexões entre os canais
Número de publicações nos canais do Telegram por mês
Número de publicações nos canais do Telegram por mês

O vídeo de Protógenes Queiroz, mencionado no início da reportagem, circulou acompanhado de duas abordagens diferentes. Entre 2024 e abril de 2026, foram identificadas 14 publicações que começavam com as frases “Quem se lembra disso?” ou “Você se lembra disso?”.

Após o início das investigações envolvendo Lulinha e Roberta Luchsinger, o vídeo passou a circular com uma nova apresentação: “Esse aqui é o ex da Roberta Luchsinger, amiga do Lulinha”. Apesar da mudança na abordagem, o restante do texto permaneceu o mesmo. A narrativa apresentada nas publicações afirma que Protógenes Queiroz fugiu do Brasil após receber ameaças de morte por ter investigado as urnas eletrônicas e descoberto que o Partido dos Trabalhadores (PT) nunca venceu uma eleição de forma legítima no país.

Cinco publicações no Telegram que compartilham o vídeo de Queiroz incluem, ao final das legendas, links para duas postagens distintas na rede social X (antigo Twitter), que também apresentam o mesmo vídeo. Em três delas, o link direciona para uma publicação de 5 de agosto de 2025, feita pelo perfil “Miguel Diniz – Pátria amada Brasil”, que acumula mais de 574 mil visualizações. As outras duas direcionam para uma postagem do perfil “Brasil Conservador 🇧🇷🇺🇸🇮🇱”, publicada em 23 de janeiro de 2026, também no X, que ultrapassa 62 mil visualizações. 

Outro grupo de publicações compartilha um recorte de vídeo em que aparece uma pessoa usando uma máscara alusiva ao personagem da HQ “V de Vingança”. O conteúdo circulou em seis canais do Telegram: “ ANTVXXX”, “Brasil e o gás a 100 real”, “Direita FTB”, “Mandaloriano Conspiracy”, “Pela Vida e Liberdade” e “Rasgando o Verbo”. Todas as publicações foram feitas em 17 de fevereiro de 2026, acompanhadas do mesmo texto:

“Quem diria, as urnas foram fraudadas. Não se esqueçam da última eleição para presidente em que uma mulher foi votar e já tinham votado no lugar dela. E em 2018, várias urnas davam pane ao apertar o botão do então candidato Bolsonaro. Em outras palavras, as eleições são fraudadas a muito tempo e na última não foi diferente.”

A análise dos encaminhamentos indica que, dentro da rede de canais, o recorte do vídeo foi publicado inicialmente em “Rasgando o Verbo” e “Mandaloriano Conspiracy”. Posteriormente, o conteúdo foi encaminhado para os outros quatro canais: “ ANTVXXX”, “Brasil e o gás a 100 real”, “Direita FTB” e “Pela Vida e Liberdade”.

Print da comparação dos posts entre os dois canais diferentes
Print da comparação dos posts entre os dois canais diferentes

Ao todo, foram identificadas 176 publicações com textos idênticos aos de pelo menos outra postagem, distribuídas em 53 grupos de conteúdos repetidos. Essas publicações formam 274 pares, o que indica que parte do conteúdo compartilhado pelos canais pode ter uma origem comum.

Cada par representa duas publicações com o mesmo texto. Assim, quando três postagens apresentam conteúdo idêntico, são formados três pares de comparação; quando quatro publicações compartilham o mesmo texto, são formados seis pares. Isso ocorre porque uma mesma publicação pode integrar diferentes pares.

Os 274 pares identificados no levantamento podem ser consultados abaixo:

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Publicações duvidam do funcionamento das urnas eletrônicas

Os canais rejeitam explicações técnicas sobre o funcionamento das urnas eletrônicas, antes mesmo de conhecerem o sistema utilizado. Durante a primeira edição da Semana Nacional do Sistema Eletrônico de Votação, realizada entre 3 e 9 de agosto, as publicações dos canais da rede se concentraram em contestar as demonstrações feitas pelos técnicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Uma das publicações replicadas pelos canais afirma que: “O hardware dessa bosta fabricada pela Positivo não influencia em absolutamente nada na falta de confiança nesse lixo de processo baseado “confie no estado”. Poderiam usar gabinete de acrílico com uns FANs RGB também, primeira urna gamer do mundo.”

A empresa brasileira de tecnologia Positivo não foi a única a ser alvo das críticas. Em outras publicações, os canais da rede comparam o procedimento de montagem e desmontagem das urnas eletrônicas, realizado pelos técnicos do TSE, ao de um Game Boy, videogame portátil lançado pela Nintendo em 1989.

Ao longo dos 30 anos de utilização das urnas eletrônicas no sistema eleitoral brasileiro, quatro empresas foram responsáveis pela fabricação dos equipamentos: Positivo Tecnologia, Diebold, Unisys Brasil e Procomp Indústria Eletrônica.

Publicação que acusam o processo eleitoral de interferência externa

Mesmo após a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno, publicações na rede afirmaram que Júlio Valente da Costa Júnior, secretário de Tecnologia da Informação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), seria “petista de carteirinha” e teria poderes para manipular os softwares das urnas eletrônicas e editar o código-fonte. A nomeação do secretário pelo ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luís Roberto Barroso, que ocupou o cargo entre 2013 e 2025, também foi alvo de ataques. A publicação termina depositando em Flávio Bolsonaro a esperança de eleições mais confiáveis.

O texto compartilhado pelos canais é o mesmo de uma publicação feita em 11 de outubro no X (antigo Twitter) pelo músico e militante bolsonarista Roger Moreira. A postagem também foi tema de um vídeo publicado em 12 de outubro no perfil da Revista Timeline, no Instagram, do influenciador Allan dos Santos. A legenda do vídeo começa com a frase: “Conheça Júlio Valente, o petista por trás da contagem de votos do TSE”. Tanto a publicação de Roger Moreira quanto o vídeo de Allan dos Santos não estão mais disponíveis no Brasil por determinação do Tribunal Superior Eleitoral.

Print de publicação de Roger Moreira
Print de publicação de Roger Moreira

As acusações contra os responsáveis pelo sistema eleitoral, no entanto, não seguem uma linha coerente. Em duas publicações, feitas nos dias 7 e 9 de outubro, os canais apontaram o coordenador de Logística do TSE como o responsável por uma suposta manipulação das urnas eletrônicas. Nessa versão, Júlio Valente e Giuseppe Janino, ex-secretário de Tecnologia da Informação do TSE e um dos criadores da urna eletrônica, seriam apenas marionetes.

Uma das publicações, feita em 8 de outubro, termina com a seguinte afirmação: “O corpo técnico do TSE responsável pela apuração dos votos das eleições deve todo ser impedido de trabalhar no 2⁰ turno. São incompetentes e suspeitos de manipular os dados das urnas eletrônicas.”

O mesmo canal, porém, havia acusado Júlio Valente de ser petista no dia anterior, utilizando exatamente o mesmo parágrafo final. Cesarino relembra que desde 2018, mesmo com a vitória de Jair Bolsonaro, apoiadores alegaram manipulação nas urnas. “O conteúdo desse tipo de conspiracionismo eleitoral vai variando ao longo dos anos. Porém,  para eles o importante é manter um nível de desestabilização global, com relação à possibilidade de estar contestando o resultado eleitoral”, afirma.

Para a antropóloga, a chance de Flávio Bolsonaro reconhecer uma eventual derrota para Lula é mínima. “A gente tem que pensar que caso o Lula vire haverá mais um ciclo de enfrentamento. E um ecossistema como o Telegram tem um papel central. Desde 2021, o Telegram é um espaço onde essa sensibilidade do negacionismo eleitoral, da conspiração sobre as urnas é gestada”, completa.

Received — 24 October 2026 ⏭ Agência Pública

Ameaças, perseguição e mortes: indígenas denunciam aumento da violência política

24 October 2026 at 19:19

Na manhã de 13 de outubro, um grupo de moradores da Terra Indígena Votouro, no Rio Grande do Sul, foi até a casa do cacique Darci Borges, do povo Kaingang. Eles procuravam entender por que cinco trabalhadores da aldeia haviam sido demitidos um dia depois do primeiro turno das eleições. O encontro terminou em briga, e o indígena Álvaro Ferreira, frentista em um posto de gasolina de Faxinalzinho, município vizinho à TI, foi morto. 

Rosa Kaingang*, que estava presente, diz ter visto o cacique – apoiador de Flávio Bolsonaro – atirar contra Ferreira. “Eu sou prova viva disso e nunca mais vou esquecer essa cena horrível.” Segundo vídeo enviado por moradores, a polícia da Brigada Militar estava presente no momento dos disparos.

Foi a primeira de três mortes naquele dia. As outras duas, também de indígenas, ocorreram horas depois, durante ação do Batalhão de Choque da Brigada Militar, chamado à TI após o primeiro crime. Segundo os indígenas, os militares desceram atirando – e mataram duas pessoas da comunidade. Já a corporação alegou à Rádio Gaúcha ter sido recebida a tiros no território indígena e atribuiu a violência a uma disputa interna pela liderança da comunidade. 

Entretanto, para os quatro indígenas ouvidos pela Agência Pública, a disputa tem outro nome: perseguição política. Eles relatam que o cacique Darci Borges, bolsonarista declarado, pune há anos os moradores que votam em candidatos do PT, e que a pressão aumenta a cada eleição. “Quem apoia a esquerda perde o emprego na aldeia”, explica Rosa*.

Vídeo enviado por moradores da Terra Indígena Votouro mostra momento do confronto entre o cacique Darci Borges, o “cacique bolsonarista”, e lideranças apoiadoras do PT

A Polícia Federal informou que a investigação das mortes é conduzida pela unidade de Passo Fundo e que não divulga informações sobre inquéritos em andamento. O Ministério Público Federal abriu um procedimento de mediação e pediu reforço do policiamento no segundo turno. Sobre a apuração criminal, disse ainda não ter retorno.

A Brigada Militar, a Secretaria da Segurança Pública do estado e a Polícia Civil não responderam até a publicação deste texto. O espaço segue aberto. O cacique Darci Borges foi procurado por telefone e se recusou a dar entrevista.

O conflito na TI Votouro não é um caso isolado da tensão política que vem se instaurando nos territórios indígenas durante a eleição. Em Roraima, lideranças Yanomami ouvidas pela Pública relatam que garimpeiros têm telefonado para jovens da etnia avisando que vão “voltar com tudo” ao território se Flávio Bolsonaro for eleito. A maior terra indígena do país foi devastada, durante o governo Bolsonaro, pelo garimpo ilegal, que levou violência, estupro, fome e problemas de saúde aos Yanomami (leia mais abaixo). 

No Pará, áudios revelados pela Folha mostram fazendeiros marcando a invasão da Terra Indígena Apyterewa para 25 de outubro, dia do segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). 

Para a presidenta da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), Lucia Alberta Baré, as ameaças têm relação direta com a campanha. “As pessoas falam claramente, isso não é nem segredo: se o candidato X ganhar, no dia seguinte nós vamos entrar na terra indígena.” A própria Funai virou alvo. Quatro dias depois do primeiro turno, em 8 de outubro, a unidade do órgão na Terra Indígena São Jerônimo, no Paraná, foi atacada com artefatos explosivos.

A presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré, diz que as ameaças têm relação direta com a campanha
A presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré, diz que as ameaças têm relação direta com a campanha

Os relatos se somam a um período pré-eleitoral que foi o mais violento da década. As organizações Terra de Direitos e Justiça Global contaram 354 casos de violência política no país entre 28 de outubro de 2024 e 15 de agosto de 2026, um a cada 44 horas. Só na campanha deste ano, até o primeiro turno, foram mais 134, um a cada nove horas.

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TI Votouro: ‘Ou ele te manda embora ou ele te mata’

A Terra Indígena Votouro, onde vivem famílias Kaingang e Guarani, fica entre Benjamin Constant do Sul e Faxinalzinho, no norte do Rio Grande do Sul. Segundo moradores ouvidos pela reportagem, o cacique Darci Borges, no cargo há cerca de sete anos, faz campanha aberta para candidatos bolsonaristas desde 2018. “Campanha e ameaça ele sempre fez, mas neste ano ele foi ainda mais violento”, relata Rosa* Kaingang. 

A tensão política se acirrou na véspera do primeiro turno, quando uma carreata de apoiadores de Lula dentro da TI foi apedrejada por pessoas ligadas ao cacique, segundo relatos dos indígenas ouvidos. O grupo registrou boletim de ocorrência na Polícia Civil de São Valentim.

O santinho que o grupo ligado a Darci Borges distribuía, enviado à reportagem pelos moradores entrevistados, pedia votos não apenas para Flávio Bolsonaro e o governador eleito Luciano Zucco, mas também para os candidatos ao Senado Sanderson (PL) e Marcel van Hattem (Novo), para o candidato a deputado federal Maurício Dziedricki (Podemos) e para o deputado estadual Ronaldo Santini (Podemos).

Foto de uma colinha que teria sido distribuída pelo cacique Darci Borges e seus apoiadores, na TI Votouro (RS)
Foto de uma colinha que teria sido distribuída pelo cacique Darci Borges e seus apoiadores, na TI Votouro (RS)

No dia seguinte à eleição, segunda-feira, 5 de outubro, cinco trabalhadores indígenas que tinham participado da carreata petista foram dispensados de seus cargos na aldeia. A um deles, segundo Rosa*, o cacique teria dito: “Vai pedir dinheiro pro teu deputado agora”. Para ela, a regra na TI é clara: “Se tu mora na reserva, tu tem que apoiar o lado dele. Se tu não fizer o que ele diz, ou ele te manda embora ou ele te mata, como matou o Álvaro. Ele era um companheiro de militância muito querido”, lamenta. “Estava junto com nós no dia da carreata. Ele tava uma felicidade que só, sabe?”

Marta* Kaingang, outra moradora ouvida pela reportagem, diz que a prática é antiga. Depois da eleição municipal de 2024, segundo ela, pessoas de famílias que declararam voto em um vereador indígena do PT também perderam cargos na creche e na escola da aldeia. “Ele ficava na rua o dia inteiro, com um carro de som, tocando a música do Flávio Bolsonaro e ameaçando quem não votasse nos candidatos dele”, conta. 

Além da pressão política, Marta* relatou ameaças de expulsão e incêndio de casas. “Tu dorme com medo, acorda com medo. Tu não sabe se vai acordar e não vão estar cercando tua casa”, diz. “E se ele [o cacique] mata meu filho porque ele não quis apoiar o candidato dele?”

Um áudio enviado à reportagem pelos moradores de Votouro, que dizem ter sido gravado pelo cacique, mostra o tom das ameaças. Na gravação, uma voz masculina se dirige a uma funcionária da prefeitura de Benjamin Constant do Sul: “Tu tá exigindo demais. Eu posso pedir o desligamento total de você. Então, tu quer continuar trabalhando, aí fica bem quietinha no teu canto, tá? (…) E você sabe que eu posso fazer isso”.

O fatídico dia 13

Na manhã de 13 de outubro, dia em que o grupo foi à casa do cacique perguntar o motivo das demissões, não houve tempo para diálogo. De acordo com relatos dos indígenas ouvidos pela Pública, o cacique teria dado um tapa em Álvaro Ferreira, que revidou com um soco, e a briga foi escalando. “Ele entrou para dentro de casa, simplesmente pegou a arma de fogo e atirou contra ele”, afirma Rosa* Kaingang. 

Ainda segundo os moradores, o 3º Batalhão de Polícia de Choque da Brigada Militar chegou 3 horas mais tarde. Rosa* conta que os policiais “soltaram drones e desceram atirando”. “A polícia alegou confronto, mas não teve confronto nenhum”, explica. Dois homens morreram em decorrência do tiroteio, identificados pelos moradores da TI como Alexandro e Silvano, mas as autoridades não divulgaram a identidade das vítimas. Outras 15 pessoas ficaram feridas, e a Polícia Federal investiga o caso. A identidade das vítimas ou de onde partiram os tiros ainda não foi divulgada. 

Moradores  da TI Votouro relatam terem sido atacados com pedras, pedaços de pau e jatos spray de pimenta durante confronto com a polícia

“Até quando nós vamos viver assim? Se esse cacique continuar, ele vai matar mais quantas pessoas?”, pergunta Rosa*.

Questionada, a presidenta da Funai criticou a atuação policial. “A polícia tem que agir com humanidade. Não pode chegar atirando em todo mundo”, afirma. “Esse não é o primeiro nem será o último caso, infelizmente.” A Funai diz ter acionado a Força Nacional de Segurança Pública para atuar na TI. 

TI Yanomami: ‘estão dizendo que o filho do Bolsonaro ganhou’

Waihiri Hekurari Yanomami
Waihiri Hekurari Yanomami diz que o tráfico de aeronaves na TI voltou a aumentar após o 1º turno

Cerca de uma semana depois do primeiro turno, quatro jovens Yanomami relatam ter recebido ligações de garimpeiros dizendo que eles “estavam voltando” ao território, em Roraima. Em troca de dinheiro, pediam que os jovens limpassem pistas de pouso abandonadas na floresta, usadas por aviões e helicópteros do garimpo.

Estão dizendo que o filho do Bolsonaro ganhou, que já é presidente. Por isso eles estão invadindo nosso território novamente”
Waihiri Hekurari Yanomami
Presidente da Urihi Associação Yanomami

A liderança falou com os quatro jovens, mas, por segurança, preferiu não revelar suas identidades nem a região onde vivem.

As ligações foram destinadas a indígenas de regiões onde a floresta já voltou a ser derrubada. Um relatório preliminar de monitoramento da associação obtido pela Pública registra novos desmatamentos em duas áreas que estiveram no centro da última invasão. A primeira fica em Xitei. Ali, perto da Pista da Pupunha, pista clandestina do garimpo, a plataforma de monitoramento por satélite Guardião emitiu 14 alertas de desmatamento entre abril e 20 de outubro, somando cerca de 5 hectares.

Área perto da Pista da Pupunha, em Xitei, na Terra Indígena Yanomami, em 2 de agosto e em 16 de outubro de 2026. Os polígonos marcam alertas de desmatamento
Área perto da Pista da Pupunha, em Xitei, na Terra Indígena Yanomami, em 2 de agosto e em 16 de outubro de 2026. Os polígonos marcam alertas de desmatamento

A segunda área fica entre Homoxi e Maraxiu, no entorno de Surucucu. Homoxi foi uma das regiões mais devastadas na última invasão. Ali, foram três alertas entre agosto e setembro, cerca de 1,8 hectare.

Área entre Homoxi e Maraxiu, perto de Surucucu, em 2 de março e em 28 de setembro de 2026
Área entre Homoxi e Maraxiu, perto de Surucucu, em 2 de março e em 28 de setembro de 2026

Waihiri afirma que o tráfego de aeronaves voltou a aumentar desde o primeiro turno. A associação avisou a Casa de Governo, estrutura do governo federal que coordena a resposta à emergência Yanomami em Boa Vista, e vai enviar o relatório completo às autoridades.

Entre 2019 e 2022, estima-se que existiam cerca de 20 mil garimpeiros ilegais dentro do território indígena. Eles levaram violência, estupro, contaminação de rios e mortes aos Yanomami. Durante o governo de Bolsonaro, 570 crianças yanomami morreram por causas evitáveis, conforme revelou Sumaúma à época. Os garimpeiros foram expulsos pelo governo Lula em 2023. 

Mas as ameaças da volta do garimpo não se restringem aos Yanomami. Em 9 de outubro, a Aliança em Defesa dos Territórios, que reúne os povos Kayapó, Yanomami e Munduruku, divulgou uma carta relatando ameaças de garimpeiros em Roraima, no Pará e em Mato Grosso logo depois do primeiro turno. Waihiri ajudou a escrever o texto.

Nas redes sociais, garimpeiros fazem campanha aberta. Desde que Flávio Bolsonaro saiu na frente no primeiro turno, diz Waihiri, os garimpeiros “se sentiram com confiança e autoridade”. Em um vídeo publicado no TikTok sob a legenda “A nação garimpeira é Flávio Bolsonaro”, uma mulher grava de uma área de mata: “O tempo em que a gente conseguiu trabalhar melhor no garimpo foi no tempo em que o Bolsonaro foi presidente”.

Em Roraima, o garimpo esteve no centro da campanha eleitoral no primeiro turno. Durante um comício na capital Boa Vista, Flávio Bolsonaro prometeu: “Vocês vão ter segurança jurídica, vão poder plantar, vão poder criar gado, vão poder fazer mineração com responsabilidade, porque é um governo que vai respeitar o garimpeiro legal”.

Aliado de Flávio, o governador eleito de Roraima, Arthur Henrique (PL), que venceu no primeiro turno com cerca de 69% dos votos válidos, usou a defesa da mineração em terras indígenas como uma de suas principais bandeiras. A presidenta da Funai, Lucia Alberta Baré, lembra que a decisão não cabe ao governo estadual. “Ele só esqueceu que as terras indígenas não são de responsabilidade do estado de Roraima. Mas esse discurso é muito delicado durante o processo eleitoral, porque cria essa situação de insegurança para os indígenas e para os nossos servidores.”

‘Com Lula a gente podia dialogar, com Flávio não’

Alessandra Korap Munduruku conhece há anos o preço de enfrentar o garimpo no Tapajós. Ao longo da militância, recebeu ameaças de morte e teve a casa invadida e revirada. Neste ano, levou a disputa para as urnas: concorreu pela primeira vez a uma vaga na Câmara dos Deputados, pelo PT do Pará, e ficou como suplente, com 29.624 votos.

Alessandra Korap Munduruku
“Não esqueceremos jamais” dos estragos que Bolsonaro fez na Amazônia, diz Alessandra Korap Munduruku

Durante a campanha seu perfil no Instagram virou alvo de insultos, ataques e ameaças, a maioria em nome de Flávio Bolsonaro e do garimpo. “Deixa Flávio ganhar, até tu vai pro inferno”, escreveu um usuário. “Garimpeiro é trabalhador, não bandido, então vai te f[*]”, comentou outro.

O que preocupa Korap agora está fora das redes sociais. “A gente, que já viveu esse terror de 2019 a 2022, sabe o que é o garimpo”, diz. “A gente sabe que eles vão voltar tudinho se o Flávio ganhar.” Para a liderança, a disputa já não se resume a “esquerda ou direita”. “Agora, temos que enfrentar o bolsonarismo. Os bolsonaristas estão cheios de raiva, espumando. Eles têm armas, e são violentos.”

Comentários recebidos nas postagens de Alessandra Korap Munduruku durante sua campanha eleitoral
Comentários recebidos nas postagens de Alessandra Korap Munduruku durante sua campanha eleitoral

Para Korap, a questão indígena ficou à margem da campanha nacional deste ano, e foi justamente no intuito de romper esse silêncio que a Aliança em Defesa dos Territórios, da qual ela faz parte, escreveu a carta. “As mulheres estão com medo do cheiro da bala, dos venenos nos nossos rios, das armas dos garimpeiros. A gente precisava escrever essa carta pra alertar o mundo todo. A população brasileira pode até ter esquecido dos estragos que Bolsonaro fez na Amazônia e do que seu filho pode fazer, mas nós não esqueceremos jamais.”

Na TI Apyterewa, invasões marcadas para o dia do segundo turno

No Pará, o governador eleito, Dr. Daniel (Podemos), que venceu no primeiro turno com apoio de Flávio Bolsonaro e tem como vice a garimpeira Ellayne D’Almeida (PL), aparece também nos áudios revelados pela Folha de S.Paulo em 12 de outubro. Em oito mensagens de WhatsApp enviadas a indígenas Parakanã, moradores da região dizem que fazendeiros esperam o dia 25 para invadir a Terra Indígena Apyterewa, em São Félix do Xingu. 

A aposta, segundo os áudios, é que Flávio, se eleito, e Dr. Daniel entreguem o território aos pecuaristas. O Comitê de Desintrusão do governo federal reforçou o efetivo na região. Procurados, Dr. Daniel não quis comentar e a campanha de Flávio não respondeu.

Território de mais de mil indígenas Parakanã, povo de contato recente, a Apyterewa foi a terra indígena mais desmatada do país durante o governo Bolsonaro. Entre julho e setembro deste ano, período que coincide com o da pré-campanha e campanha eleitoral, os focos de incêndio no território passaram de 41 para 1.007, segundo dados do Inpe compilados pelo Programa Xingu.

A Funai, que integra o Comitê de Desintrusão, diz que as forças de segurança foram enviadas à região, mas reconhece o limite. “Nós não temos como proteger as 700 terras indígenas de uma vez. Então as ameaças vão continuar existindo”, lamenta Lucia Alberta Baré.

Ameaças também chegaram a terras onde a desintrusão de fazendeiros já foi realizada pelo governo federal. Nesta semana, servidores da Funai receberam de lideranças da TI Alto Rio Guamá, também no Pará, um vídeo que circula no TikTok em que um homem com boné escrito “Flávio Bolsonaro 2026” grava em frente uma placa da Funai demarcando a área como “terra protegida” e avisa: “Não acredite no discurso de um governo que arrancou o povo de uma terra supostamente indígena. Esse povo, Lula, não vai esquecer a forma desumana que vocês trataram eles. Agora, na urna, no próximo domingo, dia 25, vocês vão ter a resposta do povo paraense”.

Na Terra Yanomami, Waihiri Hekurari conta que, às vésperas do segundo turno, os mais velhos das aldeias têm feito pajelança todos os dias, apesar do receio do resultado no dia 25. “Estamos todos com medo, mas nossos pajés estão conversando com a floresta, conversando com o céu, para que nossa mensagem chegue para todos os brasileiros”, conta.

Alessandra Munduruku, mesmo sem a vaga no Congresso Nacional, parece manter a esperança. “Por mais que eu não tenha sido eleita, me sinto vitoriosa por furar essa bolha no meu estado. Eu espero que, nesse segundo turno, as pessoas possam continuar a ouvir minha voz, a voz do meu povo, a voz do rio, a voz da floresta. Independente das urnas, a luta dos povos indígenas continua”, conclui.

Nunes Marques faz TSE pender para Flávio Bolsonaro ao priorizar decisões e conduzir pautas

24 October 2026 at 14:00

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o comando do atual presidente, ministro Kassio Nunes Marques, tem garantido à campanha eleitoral de Flávio Bolsonaro tratamento diferenciado. Mas para isso, precisou abrir mão de sua isonomia, segundo quatro especialistas ouvidos pela Agência Pública: o advogado e professor de Direito Eleitoral da Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), Fernando Neisser, a professora de Direito Eleitoral na Universidade de Brasília (UnB), Caroline Lacerda, o constitucionalista e professor da PUC-SP Pedro Serrano e Aldo Fornazieri, coordenador do curso de pós-graduação em Estratégia e Liderança Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). 

O funcionamento da Corte apresenta “um desequilíbrio no tratamento [entre os candidatos]”, “assimetria [na comparação entre as campanhas]”, “uma postura claramente anti-isonômica” e “um viés em favor da candidatura de Flávio Bolsonaro evidente”, dizem os entrevistados, respectivamente.

O responsável pelo quadro, na visão tanto de Neisser como de Fornazieri, é o atual presidente do TSE. “Não tenho dúvida alguma que está havendo um desequilíbrio no tratamento, fundamentalmente por parte da Presidência [do TSE] e algumas vezes também por parte do ministro André Mendonça”, afirma Neisser.

“E mais grave, está havendo o uso estratégico da pauta por parte do presidente [Nunes Marques]. Decisões que beneficiariam o Lula, às vezes em plenário virtual, já com maioria formada, Ele apresenta destaque, retira de pauta”, complementa o professor da FGV.

Kassio Nunes Marques foi indicado ao Supremo Tribunal Federal (STF) pelo então presidente Jair Bolsonaro, em novembro de 2020. Já ministro, em março de 2025, votou contra O ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), votou contra recursos do ex-presidente e do general Braga Netto para impedir os ministros Alexandre de Moraes, Flávio Dino e Cristiano Zanin de atuarem em seus julgamentos por tentativa de golpe de Estado. O julgamento ocorreu e ambos foram condenados.

Atualmente, Nunes Marques está envolvido em várias denúncias de envolvimento com o caso Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Entre elas, a denúncia da revista piauí de mudar votos em processos no STF que beneficiaram negócios do Banco. Uma outra reportagem da revista piauí também indica que Vorcaro teria organizado uma festa em seu apartamento de luxo em São Paulo para receber o ministro.  

Outra forma de beneficiar a campanha de um candidato é segurar as decisões referentes a outra campanha. “As representações propostas pela campanha do Lula têm demorado a ser julgadas, independentemente do tema, mais do que as propostas pelo Flávio” diz Neisser. 

Uma pesquisa do professor de Direito Celso de Oliveira Santos, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), divulgada pelo Estadão, identificou que 25,7% das ações apresentadas por Flávio Bolsonaro receberam decisão em até três dias no segundo turno, contra 19,8% das movidas por Lula.

O gabinete de Nunes concentrou 43,3% das ações de Lula contra Flávio, mas apenas 16,8% das apresentadas pelo candidato do PL contra o petista. Entre as 38 ações de Lula que já haviam completado três dias de tramitação, nenhuma tinha recebido decisão nesse intervalo. Das 15 ações de Flávio nas mesmas condições, uma havia sido decidida.

A diferença ganha importância porque, numa eleição disputada nas redes sociais, uma decisão que chega tarde pode não ter qualquer efeito. Uma publicação retirada do ar durante os últimos dias da campanha pode perder seu alcance mesmo que a proibição seja revogada depois.

“A ação judicial virou ferramenta de comunicação”, explica Lacerda. Para a professora, durante uma campanha eleitoral, a demora ao analisar um caso “tem efeito prático de indeferimento. Se o pedido só é analisado depois que o conteúdo já circulou, ou depois da eleição, quem pediu perdeu, mesmo sem nenhuma decisão contrária”, explica. “Então a diferença de ritmo produz, sim, desequilíbrio entre as campanhas”, complementa.

Para ela, o resultado político de uma liminar pode ser mais importante do que a decisão definitiva: “Numa eleição apertada, deixar um vídeo forte fora do ar por alguns dias pode valer mais do que ganhar o processo depois”.

A dimensão dessa disputa aparece também nos números do Núcleo Jornalismo. Com base em dados abertos do TSE, o veículo identificou, até 20 de outubro, pelo menos 353 processos relacionados a reclamações digitais ou desinformação envolvendo os dois presidenciáveis. Desse total, 165 foram apresentados diretamente por uma campanha contra a outra: 92 pelo campo de Flávio Bolsonaro e 73 pelo de Lula.

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O canal que colocou em campos opostos o presidente e o corregedor do TSE 

Criado pelo deputado André Janones (Rede-MG) para mobilizar apoiadores da reeleição de Lula, o canal “Exército do Lula” virou alvo de uma ofensiva judicial da campanha de Flávio Bolsonaro. O PL acusou a ferramenta de disseminar desinformação e pediu sua suspensão. Em 10 de outubro, o corregedor-geral eleitoral, Ricardo Villas Bôas Cueva, responsável pelo processo, solicitou informações adicionais antes de decidir sobre a retirada do canal.

Deputado federal André Janones (REDE-MG), ao lado do presidente Lula; Janones é o coordenador do canal “Exército do Lula” no WhatsApp
Deputado federal André Janones (REDE-MG), ao lado do presidente Lula; Janones é o coordenador do canal “Exército do Lula” no WhatsApp

No dia seguinte, apenas 41 minutos depois de uma manifestação do corregedor, a campanha de Flávio apresentou um pedido administrativo diretamente à presidência do TSE. Kassio Nunes Marques determinou então a suspensão do canal. Cueva derrubou a ordem e questionou a atuação da presidência em um assunto já submetido à análise judicial.  

A partir daí, o canal passou por sucessivas suspensões, reativações e exigências de regularização, enquanto os dois ministros divergiam sobre quem tinha competência para decidir. A disputa não terminou com a reativação da ferramenta. Na quinta-feira, 22 de outubro, três dias antes da eleição, Kassio voltou a atender a um pedido da campanha de Flávio. 

Determinou que a Meta, responsável pelo WhatsApp, apresentasse em 24 horas um relatório técnico sobre o funcionamento do canal. A empresa deveria esclarecer, entre outros pontos, se havia atividades coordenadas entre contas, amplificação artificial de mensagens, impulsionamento pago e eventuais falhas no cumprimento do plano de conformidade firmado com a Justiça Eleitoral.

O presidente do TSE também solicitou informações a outras plataformas sobre a circulação coordenada de conteúdos associados ao canal. A medida foi apresentada como fiscalização do cumprimento das obrigações assumidas pelas empresas, não como uma nova ordem de suspensão. 

Nesta sexta-feira, 23 de outubro, a controvérsia ganhou outro capítulo. Ao examinar um mandado de segurança apresentado pela coligação de Lula, o ministro Floriano de Azevedo Marques decidiu que a presidência do TSE não pode determinar administrativamente uma nova suspensão do canal. Eventuais restrições deverão ser analisadas judicialmente, com apreciação pelo colegiado.

Para Neisser, a sequência de decisões sobre o “Exército do Lula” expõe uma questão institucional grave: o uso das atribuições da presidência para interferir em controvérsias que já estão sob responsabilidade de outros ministros. O professor defende uma reação do próprio TSE ou, se necessário, do Supremo Tribunal Federal. Em sua avaliação, é preciso “colocar um freio em condutas que colocam em dúvida o equilíbrio das decisões da presidência do TSE”. Fornazieri também cita o episódio entre os exemplos que sustentam sua acusação de favorecimento à campanha de Flávio Bolsonaro. 

Kassio, por sua vez, sustenta que o canal “Exército do Lula” apresenta uma situação jurídica distinta da ferramenta de mobilização de apoiadores de Flávio Bolsonaro, denominada “Tropa do Flávio”. Segundo o presidente do TSE, as diferenças envolvem a vinculação formal dos canais às respectivas campanhas.

Risco para o resultado das eleições

O cientista político George Avelino vê no embate entre Kassio Nunes Marques e Ricardo Villas Bôas Cueva, no caso do “Exército do Lula”, um exemplo da capacidade da própria Justiça Eleitoral de reagir a possíveis excessos. “O que aconteceu naquele tribunal foi que a instituição desautorizou o próprio presidente”, afirma. Para ele, a atitude do corregedor demonstra que decisões questionáveis não passam necessariamente sem contestação dentro da Corte.

Avelino admite, no entanto, a possibilidade de equívocos e vieses em decisões individuais, mas considera precipitado concluir que a eleição esteja sendo manipulada. “Eu não vou dizer que estão roubando a eleição, seria um absurdo, uma leviandade minha”, ressalta.

Sua preocupação também se volta para os efeitos políticos das acusações contra o tribunal. O cientista político lembra que a confiança nas instituições é indispensável para que o resultado das urnas seja reconhecido, inclusive por quem perder a disputa. “Se você desconfiar do processo eleitoral, a democracia acaba no dia seguinte”, adverte.

A professora Caroline Lacerda também afirma que uma decisão judicial desfavorável a determinada campanha não significa, necessariamente, tratamento desigual. Ela ressalta que o pedido de destaque, utilizado pelo ministro André Mendonça no julgamento envolvendo o vídeo sobre os cortes de R$ 200 bilhões propostos por Flávio Bolsonaro, chamado de “tesouraço” pela campanha de Lula, é um instrumento previsto nas regras do tribunal. O problema, em sua avaliação, está nos efeitos práticos de sua utilização durante uma campanha que se aproxima do fim.

Neisser considera graves as controvérsias envolvendo a presidência do tribunal, mas não afirma que elas sejam suficientes para comprometer o resultado da votação. Para ele, eventuais distorções podem ser corrigidas pelo plenário do TSE ou, em determinadas circunstâncias, pelo Supremo Tribunal Federal.

Já Pedro Serrano admite que “se comprovado um tratamento desigual com potencial para interferir em uma disputa apertada, as consequências podem atingir a própria legitimidade do resultado”. O professor da PUC-SP, entretanto, também distingue a existência de decisões que considera desiguais, de uma demonstração de que tenham alterado a vontade dos eleitores. Uma eventual contestação da legitimidade do resultado exigiria, segundo Serrano, provas concretas da gravidade das condutas e de seus efeitos sobre a disputa.

Justiça caiu nas redes

Presidente do TSE, ministro Nunes Marques, se reúne com representantes da Meta na sexta-feira, 23 de outubro
Presidente do TSE, ministro Nunes Marques, se reúne com representantes da Meta na sexta-feira, 23 de outubro

Para Gustavo Roberto, pesquisador de pós-doutorado na USP e professor de Direito Eleitoral, a crise expõe um outro problema que ultrapassa os gabinetes dos ministros: a dificuldade de acompanhar uma campanha que se desenvolve em tempo real nas plataformas digitais. A combinação entre polarização, inteligência artificial, aplicativos de mensagens, influenciadores e multiplicação de ações judiciais “parece ter gerado um colapso da capacidade de funcionamento da Justiça Eleitoral”, avalia.

Segundo o professor, as campanhas perceberam as limitações do sistema e passaram a explorá-las. “As campanhas, sentindo a fragilidade também do Judiciário, estão jogando com e contra ele próprio”, afirma.

Roberto considera que tanto a circulação de notícias fraudulentas quanto o impulsionamento irregular exigem respostas rápidas. Mas faz uma ressalva importante: afirma que não dispõe de dados empíricos suficientes para afirmar que o tribunal esteja priorizando um tipo de infração em detrimento de outro.

A velocidade das redes também preocupa Avelino, embora o cientista político questione a tendência de atribuir à comunicação digital um peso determinante na escolha do presidente. Avelino lembra que televisão, debates e outras formas de comunicação continuam influenciando o eleitorado. 

Para ele, os tribunais enfrentam dificuldades permanentes para compreender tecnologias e estratégias que mudam rapidamente. “O que é novo ontem é velho amanhã. Às vezes, o que é novo hoje de manhã é velho hoje à tarde”, observa.

Pedro Serrano também considera que a tecnologia agravou uma crise mais antiga, com a transferência dos conflitos políticos para Poder Judiciário, que passa a decidir questões antes resolvidas no debate e na própria disputa política.

“A política tem resolvido de forma cada vez pior os seus próprios conflitos, terceirizando para o Poder Judiciário a solução de conflitos que deveriam ser solucionados no âmbito da política”, afirma. O resultado, segundo Serrano, é a crescente politização da Justiça, fenômeno que não começou em 2026, mas se tornou especialmente visível nesta eleição.

O que acontece com as ações depois da votação?

Corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva
Corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva tem questionado atitudes do presidente da Corte, ministro Nunes Marques no processo eleitoral de 2026

A proximidade do segundo turno faz com que parte das controvérsias possa perder sua finalidade prática quando a votação terminar. Caroline Lacerda explica que representações destinadas exclusivamente à retirada de propaganda ou à concessão de direito de resposta tendem a perder o objeto depois da eleição. Já processos que envolvem multas podem continuar, assim como ações de investigação judicial eleitoral destinadas a apurar abuso de poder ou uso indevido dos meios de comunicação.

Essa distinção é fundamental. Uma liminar que determina a remoção de conteúdo não equivale a uma condenação definitiva, e uma representação sobre propaganda não tem, por si só, o mesmo alcance de uma ação capaz de discutir a validade de um mandato.

Enquanto isso, o TSE continua recebendo demandas sobre a atuação das plataformas. Nesta quinta-feira, 22 de outubro, o corregedor Ricardo Villas Bôas Cueva determinou que Meta e a rede social X (antigo Twitter) prestassem esclarecimentos técnicos sobre distribuição de conteúdos, anúncios eleitorais, inteligência artificial e possíveis diferenças de tratamento entre candidaturas, em uma investigação apresentada pela coligação de Lula.

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Vorcaro orquestrou venda de bens da Igreja Lagoinha e prometeu expansão de R$ 100 milhões

24 October 2026 at 12:00

Uma fungada forte próxima ao microfone para não restarem dúvidas sobre o nível de emoção e uma caprichada na voz embargada: “Ô, Daniel, que o senhor te dê sabedoria, te cubra, te guarde, que ele nos guie e guie você nesse momento a voz de Deus, sempre”. Outra fungada. “É no mundo todo, Dani. É no mundo todo que tá acontecendo, é muito forte, irmão”. E outra fungada. A voz chorosa mineira é do pastor André Valadão, líder da Igreja Lagoinha Global. Essa emoção toda é uma resposta a uma felicitação de aniversário que também faria você chorar.

“Deus me incomodou para uma ação junto contigo. Vou colocar 100mm de reais de doação para abrir novas igrejas”, disse, sem rodeios, ninguém menos que Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master e de um sem número de empresas. “Queria que pensasse e orasse e depois me passasse um plano pra implementarmos”, instruiu naquele 16 de abril de 2024.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

Depois das prisões de Vorcaro em novembro de 2025 e março de 2026, quando o escândalo Master-BRB já estava em todas as manchetes, Valadão reconheceu que os dois se conhecem há décadas, mas frisou que o relacionamento dos dois se restringia à igreja e não envolvia negócios. Conversas interceptadas pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Compliance Zero, às quais a Agência Pública teve acesso, contam outra história.

Em meio a orações, viagens em jatos executivos, convites para Fórmula 1 e declarações de amor (há pelo menos 44 “eu te amo”), os diálogos entre o banqueiro e o pastor revelam uma intrincada rede de influência e a proteção de Vorcaro em círculos de poder evangélicos. Os diálogos entre “Dede” e “Dan Dan”, ou “Dani”, como se chamavam mostram que a relação passava longe de se restringir a doações, mas envolvia também conselhos sobre a gestão dos ativos da Igreja Lagoinha e formas inteligentes de aproveitar o potencial de operações financeiras e imobiliárias na própria rede de igrejas, com especial preocupação em continuar evitando impostos no ecossistema que, segundo Valadão, deve movimentar R$ 1 bilhão até 2030.

As mensagens do WhatsApp do ex-banqueiro mostram uma intensa troca de aconselhamento – espiritual, no caso de Valadão, e financeiro, do lado de Vorcaro. Com muitas citações a Deus e a Jesus, eles faziam articulações com lideranças da direita para viabilizar negócios de interesse comum e contornar crises de imagem – como no episódio em que Vorcaro pediu a intervenção de Valadão para falar com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) após uma postagem que enfureceu o banqueiro. É a pedido de Valadão que Nikolas busca “Dani” para se desculpar e diz que nem teria falado se soubesse que o negócio era dele.

A troca de favores tem duas vias. Em pelo menos dois episódios, Valadão pede ajudas, condicionando o atendimento a se “Deus tocasse no coração” do amigo. Apenas nos eventos de virada de ano da Lagoinha, o toque divino solicitado foi de US$ 350 mil e US$ 450 mil, em 2023 e 2024. Não há registros na mensagens se os gloriosos depósitos chegaram a abençoar as referidas celebrações.

Vende-se e aluga-se

No site vinculado à Igreja da Lagoinha, há 14 imóveis à venda em três municípios mineiros. A avaliação apresentada ao público é de R$ 38,2 milhões no conjunto de prédios comerciais e até fazendas para hospedagem com lazer. O que quem visita o catálogo da Lagoinha desconhece é que a ideia de vender os bens da rede de igrejas partiu do ex-dono do Banco Master.

Imóvel de hospedagem com lazer da Lagoinha em Belo Horizonte, avaliado por R$ 7 milhões

“Uma das coisas que eu estou pensando é de internacionalizar os bens da Lagoinha toda, sabe? Porque o dinheiro nos EUA, o crédito é muito fácil, né, muito menos juros, né. O juros tá alto hoje, mas ainda assim é baixo. Então seria um ministério sem fins lucrativos, non for profit americano, que detém bens no mundo todo, Europa, África, Brasil, Estados Unidos também, Canadá. Tô fazendo essa mudança, sabe”, conta animadamente André Valadão, em áudio enviado a Vorcaro, que responde:  “Acho excelente ideia”.

 “Como você me aconselhou, eu coloquei vários bens nossos à venda”, continua o pastor. “Tem um pessoal que me procurou também pra gente, tipo, criar um fundo com a quantidade de bens que a gente tem da Lagoinha, sabe? Mas eu acho que, como a maioria deles a gente nem paga imposto, acho que fazer um fundo, coisa assim, podia acabar sendo pior, né? Não sei o que você me aconselha a respeito”, indaga. “Fundo não é vantagem pra você. Legal é fazer base USA e virar global mesmo”, recomenda o empresário, enquanto falam do interesse de acionar advogados “de fora”.

A imunidade tributária das igrejas no Brasil bebe na fonte da Inglaterra moderna, que visava proteger os templos dado seu trabalho de acolhimento de doentes e desempregados, como explica o jurista Francisco Tenório, autor do livro “Direito das Igrejas”: “No Brasil, o artigo 150, inciso VI alínea b, prevê que é proibido instituir imposto sobre ‘entidades religiosas e templos de qualquer culto, inclusive suas organizações assistenciais e beneficentes’. […] Basta a igreja ter um CNPJ regular, e a fiscalização sobre as igrejas, na prática, é inexistente. Além do que, esse benefício constitucional não exige nenhuma contrapartida da igreja, como deveria ser devido a história de origem da imunidade como contrapartida pelo labor social.”

A ideia do fundo referente aos bens da Lagoinha continuou sendo uma grande questão nas conversas entre Valadão e Vorcaro. O pastor diz ao amigo que está levantando quanto as igrejas de sua rede pagam de aluguel, na intenção de negociar imóveis com as próprias afiliadas. A ideia era criar um fundo imobiliário voltado para a aquisição e construção de imóveis próprios, convertendo o custo do aluguel pago pelas igrejas em amortização de patrimônio.

“Acho que deve ser um valor relevante e certo todo mês, às vezes dá pra acessar possibilidade de compra de imóveis e as igrejas pagarem direto, mas em compra do imóvel semelhante ao invés de aluguel”, disse Valadão. “O valor que pagamos talvez conseguiríamos de alguma formar um fundo para até construir prédio próprio e alugar para as igrejas. Ou comprar algo semelhante… ?” Vorcaro rebate que no Brasil não haveria fundo “com apetite pra isso.”

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

O jurista Francisco Tenório explica que, mesmo em imóvel alugado, igrejas não pagam IPTU, por exemplo, e que bens de luxo de líderes religiosos, se ocultados em nome da igreja, seriam um caminho para a sonegação. Quanto aos fundos imobiliários envolvendo templos, o advogado desconhece planos semelhantes no Brasil, mas explica que esta seria uma forma de transformar um ativo imobiliário em capital com liquidez imediata e classifica a ideia de “escandalosa”. “Condenaria perpetuamente a membresia a ser inquilina e pagar aluguel dos templos que foram adquiridos com seus dízimos e ofertas. Moralmente essa conduta é absurda e inaceitável”, opina.

A igreja ter imóveis alugados gerando renda que é revertida para os fins da própria igreja não tem problema algum. Agora, criar FII com templos é outra questão. […] Seria um atestado de que a igreja deixou o conceito bíblico de comunidade de salvos, lavados e remidos pelo sangue de Jesus para se tornar uma corporação capitalista cuja finalidade é dinheiro e poder para seus ‘donos’.”
Francisco Tenório
jurista e autor de “Direito das Igrejas”

Clava Forte Bank, a fintech cristã que caiu quando Vorcaro foi preso

A inadimplência de instituições religiosas e o controle sobre sua própria rede de afiliadas fez André Valadão investir, contra a recomendação de Vorcaro, na primeira fintech cristão do país. Entre a primeira conversa entre os dois sobre o assunto e a inauguração do Clava Forte Bank se passaram menos de oito meses até a inauguração da iniciativa, em 31 de julho de 2024. A fintech se definia como “um banco para impulsionar os projetos do Reino de Deus”. O site da iniciativa ofertava serviços de contas digitais, cartões, maquininhas, financiamentos, seguros, marketplace e programas de cashback.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

Fazia tempo que Valadão tinha interesse em seguir os passos do amigo em negócios bancários e meios de pagamento. Em 2019, ele usou um culto para promover um cartão de crédito consignado com a marca “Fé”, voltado a pensionistas e aposentados. Na época, chamou o cartão “uma coisa de Deus”. Pegou tão mal que o projeto foi engavetado.

A ideia do Clava Forte Bank – o nome vem do trecho do hino nacional – foi mencionada na conversa com Vorcaro pela primeira vez em 9 de dezembro de 2023, quando Valadão convidou o amigo a patrocinar um show na virada daquele ano na Lagoinha de Orlando. “Ano que vem eu quero lançar um banco interno também da Lagoinha, principalmente para os pastores e para a igreja, não pro público diretamente primeiro”, disse em áudio.

Meses depois, em abril de 2024, o pastor pede orientação jurídica do amigo sobre um sistema para unir o sistema financeiro das igrejas do seu grupo, que estimava movimentar R$ 300 a 350 milhões internamente. Em vários momentos, Valadão diz temer “perder o foco” da igreja frente às possibilidades financeiras, ao mesmo tempo em que se mostra deslumbrado com a chance de aumentar as posses da Lagoinha. “Ano que vem vamos dobrar, se Deus quiser”, complementou. “Até 2030 fato só brasil vms passar de 1B ano. em ano de jesus.” Segundo Valadão, o negócio do banco era um negócio dele e da esposa, e “não da igreja”.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

Dias antes da inauguração do Clava Forte, em 23 de julho de 2024, ele anunciou ao amigo o “sistema ‘pay’ próprio Lagoinha Global” junto com a empresa de pagamentos Dock. O público estimado era de 2 a 4 mil clientes. Mas, em seguida, demonstra como o projeto poderia crescer: “só no ecossistema da Lagoinha hoje tem : igrejas, pastores, funcionários, livrarias, seminário (só hoje, 12 mil alunos ativos), fundação oasis filantrópica que recebe recursos federais… tipo tudo que envolve o mundo da Lagoinha pra dentro do CLAVA.”

Meses depois, Valadão pede ajuda a Vorcaro sobre pacotes de serviços para acoplar no sistema e de FIDC – tipo de investimento em renda fixa que compra dívidas de empresas que têm a receber no futuro. “Depois me explica o que precisa”, responde o ex-banqueiro. Em 17 de setembro, ele pede para falar com o amigo sobre alguns assuntos, entre eles “a fintech, que por sinal tá indo super bem e sem dúvida é algo que pode ficar grande demais”. Os dois fazem duas ligações que duram 15 minutos.

O sistema do Clava Forte Bank saiu do ar logo após a primeira prisão de Daniel Vorcaro no âmbito da operação Compliance Zero, no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), enquanto se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Dubai, em 18 novembro de 2025. Com o sistema da fintech fora do ar desde o dia 21, Valadão justificou a indisponibilidade como uma manutenção temporária para evitar ataques hackers.

Troca de mensagens entre Daniel Vorcaro do Banco Master e André Valadão, da Igreja Lagoinha

Vorcaro foi preso numa investigação a respeito de suspeita de fraudes bancárias, emissões irregulares de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e títulos de crédito falsos pelo Banco Master, que chegou a ser comprado pelo Banco de Brasília (BRB). Paralelamente, uma outra polêmica passou a ligar o Clava Forte Bank, Valadão e Vorcaro. Durante os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) apontou o ecossistema da Lagoinha e a fintech cristã como possíveis envolvidas no escândalo dos descontos indevidos nas contas de aposentados.

“Eu tenho comprovações de que tanto o Vorcaro como o Pastor [Fabiano] Zettel [cunhado de Vorcaro], André Valadão e a Clava Forte Bank também receberam recursos que vieram de pessoas aposentadas. Nós precisamos investigar isso, fazer a quebra [de sigilo], para ver se isso era dízimo ou se era lavagem de dinheiro”, sintetizou Correia.

O Congresso acabou apontando ainda a proximidade entre André Valadão e Felipe Machado Gomes, presidente de uma das associações suspeitas da fraude no INSS e já investigado no STF por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Conhecido por sua vida de luxo, Gomes é amigo de Valadão e foi um dos patrocinadores do réveillon da Lagoinha de 2024 – o mesmo em que o pastor pediu para Vorcaro ajudar com o que Deus tocasse o seu coração.

O sonho de US$ 20 milhões em Orlando

Em 14 de julho de 2024, Vorcaro avisa Valadão que iria fazer um bate e volta para jantar em Miami e chamou o amigo para ir junto no avião e dormir na casa dele. Os dois fazem uma breve ligação de voz. Em seguida, o pastor envia fotos de um terreno à venda em Orlando, que descreve como “inacreditável”. Ele passa uma foto de anúncio com a oferta de US$ 10,8 milhões e diz que o lugar fica “no miolo” da cidade, em uma região comparável aos bairros nobres Savassi ou Lourdes, em Belo Horizonte – os dois são mineiros.

“Dede, vamos pra cima.” O pastor diz que estaria disposto a vender um terreno que tinha na capital mineira para comprarem o terreno juntos. “Aquele valor que te falei tá comprometido”, responde o banqueiro, mencionando os R$ 100 milhões que prometeu doar à igreja, e esclarece os cálculos: “Você tem que ver como melhor usar. São 20mm usd [US$ 20 milhões]”.

“Faria a sede aqui com esses 20 com certeza. A compra e a construção”, responde Valadão. “Então vamos fazer”, resume Vorcaro. O pastor responde com 38 emojis de “aos prantos”, com um de “mãos em prece” no meio. “Se for isso que Deus colocar no seu coração, pra gente montar proposta aqui, você me fala que proposta que eu faço. Dani, você não tá entendendo”, ele continua com mais emojis “aos prantos”, antes de encaminhar mensagens do corretor do terreno e fotos feitas com inteligência artificial para simular o uso do terreno.

Dois dias depois, o ex-banqueiro tranquiliza o amigo: “Pode seguir com a aquisição. Eu tô já movimentando. Pra te mandar o recurso”. Ao que o pastor responde com um textão de gratidão sem limites e doses de “Amém Dani” e “Tô aqui Dani”.

O assunto voltou em 31 de julho. Valadão relata que, se assinar o contrato, teria que depositar US$ 200 mil [cerca de R$ 1 milhão] em cinco dias. Vorcaro não respondeu. Segue-se mais uma leva de mensagens melosas de Valadão, enfatizando que o amigo é um “escolhido de Deus” que “nada nem ninguém vai derrubar”. E continua pedindo por um telefonema: “Tô sempre à disposição com telefone na mão.” Vorcaro só respondeu quando Valadão anunciou que um processo que respondia por homofobia havia sido arquivado. “Que showwwwwww. Parabéns!!!”, disse.

Em 15 de agosto, Valadão cobra uma resposta. “Dani sobre o terreno estamos finalizando e precisamos de 200k de dólares pra amarrar a proposta … e prosseguir com due diligence de até 80 dias para ter toda liberação da prefeitura para o projeto ou não”, escreveu. Até o dia 17 de setembro, os dois trocam dados de contas e instruções, como um modelo de “proof of funds”, que Vorcaro se compromete a preencher com os dados de suas empresas para viabilizar a compra do terreno para a igreja do amigo. O valor indicado é de US$ 11,8 milhões, o que, considerando o sinal de US$ 200 mil, sugere um compromisso de compra de US$ 12 milhões – aproximadamente R$ 60 milhões.

Mensagem enviada por André Valadão, da Igreja Lagoinha

Dois meses após os últimos pontos discutidos sobre a aquisição, Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez, em novembro de 2025. Quase um ano depois, o anúncio do terreno na S Apopka Vineland Road, em Orlando, na Flórida, segue no ar, ainda sem dono.

O próspero caso da Lagoinha Belvedere

André Valadão e Daniel Vorcaro não discutiram aquisições apenas no exterior e nem todos os negócios discutidos deixaram de sair do papel. Em um dos contatos entre os amigos, eles discutiram sobre um imóvel em frente ao BH Shopping, em Belo Horizonte (MG). O espaço seria destinado à instalação de uma igreja ligada a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. “Segunda feira vou em BH com Zettel ver o imóvel da Jorlan, em frente o BH shopping para ser a igreja dele. Será lindo. 4 mil lugares”, escreveu Valadão. Mais tarde, a unidade seria transformada na Lagoinha Belvedere, liderada por Zettel, e na mira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Unidade da Lagoinha Belvedere em Belo Horizonte foi construída no espaço onde antes funcionava uma concessionária de veículos
Unidade da Lagoinha Belvedere em Belo Horizonte foi construída no espaço onde antes funcionava uma concessionária de veículos

Zettel é apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores financeiros de Vorcaro. De acordo com as investigações, ele intermediava pagamentos, organizava transferências e participava da estruturação de contratos que teriam sido utilizados para justificar repasses financeiros.

Conversas às quais a Pública teve acesso mostram que Zettel recebia ordens de Vorcaro para movimentar grandes quantias, além de lembrar o cunhado de despesas que iam desde IPTU a dívidas milionárias. Embora os diálogos entre os dois tratassem predominantemente de questões financeiras, as mensagens analisadas não mostram solicitações de Vorcaro para que Zettel realizasse repasses especificamente a Valadão — apesar das doações expressivas que o empresário teria feito ao líder religioso.

Em 2018, Valadão celebrou o casamento de Fabiano Zettel com Natália Vorcaro, irmã do ex-controlador do Banco Master. A relação entre os dois pastores e Vorcaro, no entanto, envolvia outros familiares e projetos, como mostra o Relatório de Informações Financeiras 140.515, do Coaf, ao qual a Pública teve acesso.

Fabiano Zetel e a esposa, que também é irmã de Vorcaro. André Valadão e a esposa. A imagem foi encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro
Fabiano Zetel e a esposa, que também é irmã de Vorcaro. André Valadão e a esposa. A imagem foi encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro

Segundo o documento, a unidade Belvedere tinha um faturamento presumido de R$ 950 mil por ano. No entanto, a igreja recebeu, entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, um total de R$ 57,1 milhões, em movimentações classificadas com atípicas pelo órgão regulador de finanças.

Chama a atenção que o pastor líder da Lagoinha Belvedere, Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, por exemplo, tenha feito 26 operações, totalizando R$ 19,2 milhões para a unidade, fechada após a prisão de Zettel, em março deste ano, na mesma operação Compliance Zero que prendeu o ex-dono do Banco Master.

A igreja também recebeu doações da ordem de R$ 101,6 mil de Fabíola Vorcaro, ex-esposa do banqueiro, em sete operações; de R$ 120 mil, em quatro operações de Henrique Vorcaro, pai de Daniel; e outros R$ 22 mil, em 11 operações de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, ninguém menos que o “Sicário” de Vorcaro, seu braço operacional nas operações do Master, que morreu no hospital enquanto estava custodiado.

Além das movimentações envolvendo a Lagoinha Belvedere, Zettel também aparece ligado a movimentações consideradas atípicas quanto à empresa Super Empreendimentos e Participações, que já foi dirigida pelo cunhado de Vorcaro e tem movimentações imobiliárias e financeiras investigadas pela PF. Segundo o Coaf, R$ 19,693 milhões foram movimentados em operações suspeitas no mês de junho de 2022.

A Pública procurou André Valadão, Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e a Igreja Lagoinha para esclarecer os questionamentos apontados na reportagem. Até o momento da publicação, apenas a defesa de Vorcaro respondeu, informando que não iria comentar o assunto. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master

Conexões onipresentes

Com bateria social quase ilimitada, acesso que vai de pequenos empresários a jogadores de futebol e ministros do STF, Daniel Vorcaro passou a alimentar fantasias de vários gêneros no imaginário popular do brasileiro. Mas pouca gente lembra que antes de ser preso investigado por fraude, e antes disso um rico banqueiro, Vorcaro era apresentador de um programa de música gospel na Rede Super, o Supersônica, da emissora de TV que pertence à Lagoinha – logo, ligada ao amigo André Valadão.

Em 2022, Bolsonaro visitou a Lagoinha em Orlando, onde Valadão prega. O pastor fez uma oração pelo ex-presidente. Naquele ano, a emissora havia recebido R$ 217 mil do governo federal. Ao longo do mandato do ex-presidente, a emissora recebeu R$ 756 mil pagos por campanhas de comunicação. O pastor já disse não ser bolsonarista, mas já compartilhou posicionamentos ideológicos com o ex-presidente. Valadão também tem laços estreitos com bolsonaristas expoentes, como Nikolas Ferreira e Fábio Faria, e até já foi cicerone para o blogueiro Allan dos Santos, foragido nos Estados Unidos. Já Vorcaro, já disse explicitamente apoiar a direita, como revelou a Pública.

A Rede Super é um ativo da Lagoinha obtido por meio de uma parceria antiga com a família Vorcaro. O pai de Daniel, Henrique Vorcaro, frequentava os cultos de Márcio Valadão, pai de André Valadão. Segundo a revista piauí, os conselhos do pastor foram tão importantes para o empresário que, ao obter sucesso com a corretagem de imóveis, passou a dar gordas doações para a igreja – que usou a verba para comprar a emissora em 1997.

Lagoinha ontem e hoje

A igreja “da parede preta” ou “que tem área VIP”. As opções de organização e a estética reformada da Igreja Batista da Lagoinha, que bebe na fonte da australiana Hillsong Church, podem fazer parecer que a organização é uma espécie de novidade que vem ganhando projeção, mas ela foi fundada em 1957, em Belo Horizonte.

A força da organização levou, ainda nos anos 1990, Ana Paula Valadão, irmã de André, a lançar a banda gospel Diante do Trono – que se tornou um sucesso de vendas e projetou a Lagoinha de uma igreja regional para uma potência nacional.

Imagem do interior da Igreja Batista da Lagoinha. As imagens foram encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro
Imagem do interior da Igreja Batista da Lagoinha. As imagens foram encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro
Imagem do interior da Igreja Batista da Lagoinha. As imagens foram encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro

A expansão para o resto do país e até unidades internacionais veio também com a adoção das paredes escuras, que buscava priorizar a visibilidade de paredes de LED e projeções de luz para conquistar um público mais jovem com a estética de espetáculo. Já a segregação de celebridades, políticos e convidados dos pastores, que geram polêmica na unidade Alphaville – onde também há estacionamentos privativos, entradas exclusivas e camarim com bufê – sempre foi negada pelos pastores.

O próprio André Valadão, aliás, diz não ser adepto de área VIP, mas de eventuais “assentos reservados, 20, 30, sei lá” para seus convidados. “Nada além do normal”.

A nova geração de Valadões e Vorcaros parece seguir o mesmo caminho da amizade que, de tempos em tempos, impulsionou os negócios ligados à Lagoinha. Stella, filha de Daniel, estuda com um filho de André. Os dois dançaram juntos a valsa na festa de 15 anos da menina, que não contou com Diante do Trono como atração musical, mas com um show exclusivo do DJ Alok.

A relevância da Lagoinha é inegável, com uma influência que chega ao Supremo Tribunal Federal: foi Fábio Faria, hoje casado com Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, quem apresentou Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. Além disso, a reunião que o dono do Master participou com o ministro André Mendonça também foi organizado por membros da igreja. Uma história de poder, fé e fraternidade de uma congregação que nos próximos meses completa 70 anos.

A manha de virar figurinha

24 October 2026 at 08:00

Bafão, a arte de virar figurinhas, é o hit atual na escola dos meus filhos. Desde a Copa do Mundo, a prática se mantém forte. Ninguém mais pensa em álbum, o que importa é a brincadeira. O mais velho, que tem 8 anos, usa quase todo seu tempo em casa para treinar. Muitas vezes, eu disputo com ele. Não é moleza, mas é divertido.

Ele me dá dicas. O primeiro passo é observar as figurinhas que se pretende virar: estão gastas, carcomidas, já meio envergadas e engruvinhadas com outras? Ou estão novinhas em folha, repousando retamente neoliberais no chão, autônomas entre outras figurinhas? Ou, quem sabe, estão indecisas entre uma postura e outra. Depois, é necessária uma avaliação das condições do momento: estão úmidas ou secas? Tensas de tapas recentes ou relaxadas? A pesquisa tátil é pura aula de Física. 

Aí vem o cálculo decisivo sobre a abordagem, que exige autoconsciência: sou mais forte ou mais veloz? Minhas mãos são úmidas e quentes, o que gera maior adesão, ou mais secas, que exigem maior vedação? Será um tapão franco, vigoroso e vertical, com uma ou duas mãos em concha? Ou uma palma lateral, suave, mas precisa, veloz, cheia de energia vital, como um golpe de Bruce Lee?

Está em jogo todo um dinamismo aéreo de que são capazes as mãos no corpo a corpo com os papeizinhos desejados. O que vira mais: sopro brando ou vendaval? De um jeito ou de outro, imprescindível é o movimento. Sem movimento não se vira figurinha. Movimento modulado pela manha, que se desenvolve com a prática. 

Há os que jogam na fúria e se frustram intensamente: ganham bolos inteiros numa jogada e perdem tudo em seguida. Há os mais matreiros, que vão na maciota, de figurinha em figurinha, com palminhas para as quais, olhando de longe, não se dá nada. Mãozinhas pequenas podem se comportar como excelentes ventosas e, inesperadamente, virar um monte inteiro. De todo modo, é bonito ver um pátio cheio de crianças dedicadas à viração e figurinhas inertes descobrindo sonhos de voo. Pobres figurinhas coladas no álbum, prisioneiras de uma moda.

Os sons ritmados das mãos batendo somados aos saltos das figurinhas — como ideias e afetos se libertando da apatia — é bonito de ver, pura alegria pululante. Durante a Copa do Mundo, a ganância regia os encontros. O que importava para meu filho era rapelar o outro; o troféu era a quantidade. Neste momento, triunfo é produzir giro, é a beleza do gesto, criação de fluxos de vento eficientes. Os valores se modificaram. A graça está no vaivém, convívio animado que faz pendular o espírito dos participantes entre angústia e entusiasmo. 

O esteio para as fervorosas disputas é o cultivo do espaço comum. Qualquer lugar é lugar de inofensivos embates, pode ser calçada, pátio, quadra, mesa da cantina, sofá de casa, banco de trás do carro. A batalha pode ser a dois ou em grupos, cabem meninos, meninas, menines, mais velhos e mais novos — todos são iguais nas possibilidades de virar figurinha. Basta disponibilidade para se voltar ao chão e nele fazer história. Colocar a culpa no tipo de terreno é coisa de covarde. Lamber a mão é roubo grave, equivalente a Big Tech meter a mão na eleição. 

— Vamos embora, filho, já tá tarde. 

— Só mais uma, mãe, é rapidinho. 

Eu aguardo. Basta um último instante, um piscar de olhos, o gesto certeiro e um bolo de figurinhas é virado. 

PF acha nota de Willer Tomaz citando indiciado no caso Abin Paralela e “180 mil dólares”

23 October 2026 at 22:05

Uma anotação salva no aplicativo de notas usado pelo advogado Willer Tomaz de Souza, amigo do candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL), chamou a atenção dos investigadores da Polícia Federal (PF). A nota continha um valor de “180 mil dólares” (R$ 908 mil, na cotação atual) atrelado às palavras “Corregedoria”, “Agosto/21” e ao nome Paulo Maurício Fortunato.

Naquele mesmo mês, Paulo Fortunato havia deixado o comando do Departamento de Operações de Inteligência (DOINT) da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) do governo de Jair Bolsonaro, em um período de atividade da chamada “Abin Paralela”, como ficou conhecido o grupo que fazia uso, principalmente, do DOINT para comandar buscas contra adversários políticos, e até mesmo aliados, de Jair Bolsonaro (PL) por meio do software israelense de espionagem First Mile – o que a PF classificou como “organização criminosa”.

Ao resumir as acusações contra Paulo Fortunato, o relatório final da PF no caso “Abin Paralela” aponta que “o DOINT, sob sua direção [Fortunato], era a unidade central para a execução de buscas no sistema First Mile”, com “uso da estrutura para fins políticos e a perseguição de servidores”. A PF apontou que Fortunato teria sido “a autoridade demandante e o principal gestor da aquisição do sistema First Mile” em 26 de dezembro de 2018, nos últimos dias de governo Michel Temer (MDB) – imputação negada pela defesa de Fortunato, segundo apurado pela Agência Pública.

Para os investigadores, o ex-diretor da Abin “omitiu-se dolosamente no seu dever de implementar controles efetivos sobre o uso do First Mile e evitar a execução de ações clandestinas no DOINT. Sua omissão foi crucial para a continuidade das atividades clandestinas” e que “havia conhecimento, desde a origem, da ‘real natureza’ e das ‘características intrusivas’ da ferramenta, que permitiam a localização de dispositivos móveis sem autorização judicial por meio de interceptação de sinais, explorando vulnerabilidades do sistema de telefonia nacional”.

Segundo a PF, o DOINT “era o principal demandante e utilizador da ferramenta para monitorar alvos de interesse da ORCRIM [organização criminosa], incluindo políticos, jornalistas, advogados e servidores públicos, muitas vezes sem amparo em investigações formais ou finalidades institucionais legítimas”. Como já se sabe hoje, um dos alvos foi a então repórter da Agência Pública Alice Maciel.

Em agosto de 2021, o oficial de inteligência deixou a chefia do DOINT, oficialmente pedindo aposentadoria da Abin, mas retornou para o órgão de inteligência no atual governo Lula (PT), após a posse do atual diretor da agência, Luiz Fernando Corrêa. Fortunato passou a comandar a Secretaria de Planejamento e Gestão (SPG), setor responsável por aquisições de ferramentas e programas – como o First Mile – onde permaneceu até 20 de outubro de 2023. O oficial de carreira da Abin foi alvo de busca e apreensão da PF e foi afastado do cargo por suspeita de envolvimento nas atividades ilegais do órgão durante o governo Bolsonaro – como reportado pela Pública à época.

Em 2025, Fortunato foi indiciado pela PF por seu suposto envolvimento com a Abin Paralela, pelos crimes de organização criminosa, realizar interceptação de comunicações sem autorização judicial ou com objetivos não autorizados em lei, peculato, prevaricação de forma continuada e violação de sigilo funcional. Ele foi desligado oficialmente do governo somente em 9 de janeiro deste ano, com a conclusão do processo administrativo disciplinar contra ele por parte da Controladoria-Geral da União (CGU). 

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O que dizem Paulo Fortunato e Willer Tomaz

O advogado responsável pela defesa do ex-diretor da Abin, Oscar Luís de Morais, disse à Pública que a decisão da CGU foi “protocolar”, pois referia-se a um processo de exoneração de cargo em comissão na Abin. “O próprio senhor Paulo Maurício Fortunato pediu seu afastamento do órgão após a operação da Polícia Federal em outubro de 2023, e à época ele já estava aposentado, após 38 anos de serviço público sem qualquer registro de punição disciplinar durante sua carreira”, disse, acrescentando que ele é inocente no caso Abin Paralela e que seus atos à frente do DOINT se respaldam em um parecer técnico elaborado pelo próprio órgão de inteligência à época. 

“Não tem nenhum ato que implique ele a não ser os atos de ofício, determinados por seus superiores naquele período”, afirmou. Além disso, a defesa alega que o ex-diretor da Abin “não conhece, nem tem qualquer relação com os senhores Willer Tomaz e Flávio Bolsonaro” e desconhece qualquer contato do ex-diretor da Abin com o escritório de Willer Tomaz.

O advogado do ex-diretor da Abin nega o recebimento de quaisquer recursos de Willer Tomaz por seu cliente e informa que os US$ 171,8 mil [R$ 868 mil, em cotação da época] apreendidos pela PF durante as investigações do caso Abin Paralela, ainda em 2023, seriam fruto do trabalho do oficial de inteligência como adido militar na Argentina. “Foi o próprio senhor Paulo Maurício Fortunato quem mostrou aos investigadores o cofre onde os valores estavam guardados, tendo justificado a posse dos dólares e inclusive aberto, espontaneamente, seus sigilos bancário e fiscal para as autoridades”, afirmou o advogado Oscar Morais.

“A suspeita levantada pela Polícia Federal acerca de um suposto recebimento indevido de valores provenientes de Willer Tomaz exige uma análise particularmente criteriosa, sobretudo quanto à existência de provas concretas que demonstrem a origem, a natureza e a finalidade de eventual transferência de recursos. Não se pode transformar uma suspeita em afirmação de responsabilidade sem que existam elementos probatórios suficientes para sustentá-la”, afirmou.

Já Willer Tomaz respondeu à Pública por meio de nota enviada por sua assessoria. “A anotação foi feita em fevereiro de 2024, meses depois da busca realizada em 2023, e registra apenas o resumo de um caso apresentado ao escritório para avaliação: o histórico funcional do interessado e o procedimento de corregedoria a que ele respondia”.

“O advogado [Willer] não aceitou a causa, não conhece Paulo Maurício Fortunato. Não se trata de pagamento, recebimento, promessa ou transação de qualquer natureza. Willer Tomaz jamais pagou, recebeu ou intermediou qualquer valor a Paulo Maurício Fortunato ou a pessoas ou empresas ligadas a ele. Transformar o resumo de uma consulta não aceita em suspeita é desconhecer o exercício elementar da advocacia”, segundo a nota enviada pela assessoria do advogado.

‘Judicialização freestyle’ de Kassio mira Exército do Lula e ajuda Flávio, diz professor

23 October 2026 at 21:29

A dois dias do segundo turno, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atuou para impedir que fosse derrubado o principal canal de comunicação da campanha digital de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) — o Exército do Lula. O ministro Floriano de Azevedo Marques ordenou nesta sexta-feira, 23 de outubro, que Kassio Nunes Marques, que comanda a Corte, se abstenha de suspender por via administrativa o canal de WhatsApp, criado e administrado pelo deputado federal André Janones (Rede).

Floriano escreveu que a presidência do TSE não tem competência para tirar do ar canais de pessoas físicas e viu o risco de abuso de poder. A resposta veio após um pedido do presidente da Corte, na última quinta-feira, 22 de outubro, para que a Meta – dona do Instagram, Facebook e WhatsApp –, o Google e o X (antigo Twitter) entregassem um relatório sobre a atuação do canal Exército do Lula, que reúne quase 10 milhões de pessoas. O prazo vence no início da noite desta sexta-feira, 23 de outubro. 

A decisão de Nunes Marques foi avaliada como “desastrosa” pelo professor Afonso Albuquerque, do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF). “[O TSE] atribui a uma empresa privada estrangeira o poder de produzir diagnóstico capaz de orientar a vida pública no Brasil”, criticou. 

Professor Afonso Albuquerque, do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF)
Professor Afonso Albuquerque, do curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense (UFF)

O docente também descreveu como “judicialização freestyle” a forma como o principal órgão eleitoral do país tem atuado, por estabelecer um desequilíbrio na forma como analisa os movimentos das duas campanhas eleitorais e por favorecer a campanha de Flávio Bolsonaro (PL). 

O canal de Janones entrou na mira de Nunes Marques após o fim do primeiro turno, depois que a campanha do candidato Flávio pediu a suspensão do grupo por suposta disseminação de desinformação – fato que não foi constatado por peritos do próprio TSE. A equipe do candidato do PL também foi responsável pelo pedido ao ministro para que as plataformas fornecessem um relatório completo sobre a atuação do Exército do Lula, que estaria promovendo ações coordenadas. 

Às 10h12 desta sexta-feira, 23 de outubro, Janones avisou aos seguidores do canal de que eles estavam prestes a perder o lugar que os reunia. No Exército do Lula, o parlamentar mineiro disse que a página “deverá sair do ar ainda hoje” e que seria perto do horário do último debate entre presidenciáveis, que será realizado nesta noite na TV Globo, e que o pedido teria vindo do TSE. 

Com o anúncio de uma suposta restrição, os integrantes do grupo começaram a se mobilizar nas redes sociais, por conta própria, e disparar hashtags que apontavam para uma possível censura administrada por Nunes Marques. 

Uma minuta de resolução – que proibiria canais com mais de 200 mil seguidores nas 48 horas anteriores à votação – chegou a circular entre os ministros, mas foi abandonada por falta de maioria. 

A reportagem procurou o TSE que “não determinou a retirada de nenhum canal de WhatsApp do ar. Os prazos dos processos de propaganda são sempre curtos. Ilações a partir desses despachos que pedem informação em tempo curto são absolutamente indevidos.” 

A nota acrescentou ainda que “na manhã de hoje, os ministros da propaganda do TSE se reuniram  com as plataformas Meta, X, Google, TikTok e Kwai. Em pauta, as providências para o atendimento da legislação eleitoral. O ministro Kassio Nunes Marques, pediu reforço de pessoal e atuação isonômica por parte das plataformas a fim de garantir o cumprimento do plano de conformidade assinado por todas as empresas.”

A Agência Pública entrevistou o professor Afonso Albuquerque, leia as principais respostas aqui.

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Como você avalia a decisão do ministro Nunes Marques em pedir um relatório para a Meta sobre o Exército do Lula e uma possível derrubada do canal ainda hoje?

Eu avalio como desastrosa. Porque atribui a uma empresa privada estrangeira o poder de produzir diagnóstico capaz de orientar a vida pública no Brasil. Isso é não apenas privatização da Justiça, porque você atribui poder público a um agente privado, mas também um ataque à soberania nacional, porque você atribui a um agente estrangeiro a capacidade de formar decisões que impactam na vida política brasileira, num momento extremamente delicado. 

A campanha de Flávio Bolsonaro acusa o Exército do Lula de coordenar ações nas redes, distribuindo “missões” de compartilhamento aos seus seguidores. Existe alguma regra que limite a forma como grupos da sociedade civil se organizam para fazer campanha? 

Para responder a essa questão, eu vou fazer referência à campanha do Pablo Marçal [quando concorreu à Prefeitura de São Paulo, em 2024]. A campanha dele estabelecia missões e premiava as pessoas que conseguiam ter o melhor desempenho em relação às missões.

Extraído o elemento financeiro, acusar alguém de fazer missões durante a campanha eleitoral, é acusar alguém de participar da campanha eleitoral. 

O que acontece é que no partido PL, muitos dos seus candidatos eleitos são influencers que aprenderam a usar um estilo de campanha que depende de apoio de plataformas e robôs, se queixando de uma organização que pratica campanha à moda antiga, adaptando a moda antiga ao novo meio. 

Então, isso é rigorosamente surreal. É o fake acusando o verdadeiro de fazer coisas verdadeiras. Não é apenas acusação sobre algo que é legal. É uma acusação sobre algo que é o que deveria ser feito numa campanha de verdade, por todos os envolvidos, inclusive na campanha do PL do Flávio Bolsonaro. 

Isso sugere que a campanha do PL não tem militância organizada, não tem a habilidade de construir militância organizada, sem que seja estruturada a partir de uma lógica externa de financiamento e apoio de plataforma. Isso oferecia um elemento financeiro e monetário ao que de outra forma seriam ações de base.

O ministro Nunes Marques solicitou à Meta, Google e X esclarecimentos sobre a eventual amplificação coordenada de conteúdos e hashtags relacionados à campanha eleitoral – que é exatamente como o grupo tem se articulado nas redes. Como você avalia, professor? 

É “judicialização do freestyle”, porque entra aquele desequilíbrio que a gente acompanha em todas as campanhas, em que existe uma regra para o PT e não existe essa regra para quem esteja se opondo ao PT. Então, você tem essa tradição estabelecida no Brasil desde o Mensalão, passando pela Lava Jato, de criminalização de um partido político. Essa lógica entrou na política brasileira e não saiu mais.

Existe aí um movimento judicial no sentido de criar condições para favorecer o candidato Flávio Bolsonaro. É isso desenhado, explícito, pulando na frente desse movimento. 

Existe alguma base legal para uma possível derrubada do canal, baseado nos apontamentos feitos por Nunes Marques às Big Techs, a pedido da campanha de Flávio Bolsonaro? 

Nenhuma, por isso que eu falei que é judicialização freestyle, porque é impedir o direito e é uma regra que só se aplica para um lado. 

O impulsionamento, por exemplo, feito por campanhas tem que ser declarado, mas nesse caso – que é uma coordenação orgânica em que as pessoas entram livremente nos grupos –, existe alguma determinação do TSE que diz que isso não pode acontecer? 

A organização coletiva de cidadãos em torno de agendas políticas é o coração da democracia. Não é ilegal ou contrária a nenhum princípio político, mas sim o princípio de organização [social] previsto na Constituição. É o que leva as organizações coletivas de defesa do direito individual.

Então não existe nada de ilegal na organização de indivíduos. A legislação, e esse é o ponto, ela se preocupa historicamente com a interferência do poder financeiro, porque é a democracia, não a aristocracia ou cleptocracia. 

É o uso da legislação como instrumento de poder político. E eu acho que é isso que o ministro Kassio está fazendo. Não vejo nenhuma razão jurídica que poderia justificar esse seu posicionamento. 

EXCLUSIVO: Eduardo Bolsonaro abriu empresa no Bahrein com passaporte italiano

23 October 2026 at 21:00

Em 30 de janeiro deste ano, Eduardo Bolsonaro postou uma foto com o Príncipe Herdeiro e Primeiro-Ministro do Reino do Bahrein, Sheik Salman bin Hamad Al Khalifa, ao lado do seu irmão, o candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL). Ambos apareciam vestidos nos trajes tradicionais do país. “No mundo árabe, a candora é o equivalente ao terno e gravata. Vestir a roupa tradicional é mais do que estilo, é respeito. Diplomacia se faz com gestos. E gestos constroem confiança, proximidade e resultados reais para Bahrein e Brasil”, escreveu Eduardo, que tem pretensões de assumir o Ministério de Relações Exteriores se seu irmão vencer as eleições no próximo domingo.

Eduardo participava da comitiva oficial do candidato ao lado de Paulo Figueiredo e dos deputados federais Paulo Bilynskyj (PL-SP) e Rodrigo Valadares (União Brasil-SE). A viagem incluiu uma visita ao palácio e um festival de corridas de cavalos promovido pela monarquia.

Mas o que Eduardo não mencionou no post do Instagram é que ele mantinha uma relação bem mais firme com o país.

Uma investigação da Agência Pública constatou que ele manteve uma empresa no Bahrein para realizar atividades de consultoria em gestão. Aberta em 19 de setembro de 2024, a The Next Level LLC funcionou oficialmente por pouco mais de um ano e teve suas atividades encerradas em setembro do ano passado por não ter renovado o registro de companhia limitada. O capital inicial era de cerca de R$ 130 mil.

Um detalhe chama a atenção: o irmão do candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL) registrou a empresa como cidadão italiano. Tanto Eduardo quanto seu irmão Carlos possuem passaporte italiano, fruto dos antepassados dos Bolsonaro na cidade de Anguillara Veneta, no norte do país.

A informação pode ampliar controvérsias em torno do lobby de Eduardo para gerir o Itamaraty e liderar a diplomacia brasileira. E abre dúvidas se ele não teria aberto empresas em outros países como cidadão italiano e não brasileiro.

Eduardo Nantes Bolsonaro, cujo nome, em árabe, aparece no Portal de Registro Comercial (SIJILAT) no Bahrein como ورانوسلوب ستنان ودراودإ, não respondeu aos questionamentos da Agência Pública sobre qual era a finalidade da empresa.

Mas ela foi aberta exatamente no mesmo período em que ele e o irmão Flávio buscavam fundos para viabilizar a realização do filme “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro, que recebeu aporte de US$ 13 milhões do banqueiro Daniel Vorcaro. Foi em dezembro de 2024 que Flávio conheceu Daniel Vorcaro em uma reunião online, e nos meses seguintes, até meados de 2025, Fabiano Zettel passou a coordenar o repasse dos valores em parcelas de cerca de US$ 2 milhões. Foi um período de grande mobilização para buscar apoio para o projeto familiar.

Em maio deste ano, o deputado federal Mário Frias Filho (PL-SP), produtor do filme e detentor dos direitos sobre a história de vida de Bolsonaro – como revelou a Pública – acompanhou Eduardo em uma nova viagem até o Bahrein. Realizada entre 12 e 18 de maio, segundo Mário Fias, a visita ocorreu a convite do Conselho de Desenvolvimento Econômico do país (EDB, na sigla em inglês).

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Segundo levantamento da jornalista Juliana Dal Piva na sua coluna no ICL Notícias, Eduardo Bolsonaro esteve ao menos nove vezes no Bahrein desde 2019. Quatro destas viagens ocorreram durante o governo de Jair Bolsonaro. Depois disso, outras três coincidiram com momentos de pressão judicial do STF contra o ex-deputado federal.

Foto mostra Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro e o Sheik Salman bin Hamad Al Khalifa usando turbantes e o tradicional thawb.

A mais recente ocorreu em 8 de outubro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições. Ele voltou a visitar o palácio e a se encontrar com o Sheikh Salman bin Hamad Al Khalifa, além do ministro de economia e finanças, para discutir cooperação econômica e comercial. 

As fotos foram feitas no mesmo dia em que o ministro do STF Alexandre de Moraes decretou sua prisão pelo crime de coação no curso do processo, devido ao lobby realizado junto ao governo Trump por retaliações contra o Brasil. Alexandre mandou ainda cancelar os passaportes de Eduardo. 

O ex-deputado, foragido da justiça brasileira, usou seu passaporte italiano para entrar no país e postou vídeos xingando o ministro do STF e passeando pelo aeroporto do Bahrein e dos EUA livremente.

Received — 23 October 2026 ⏭ Agência Pública

Flávio Bolsonaro turbina anúncios na Meta com suspeita de uso irregular de IA

23 October 2026 at 20:44

O candidato à presidência Flávio Bolsonaro (PL) aumentou — e muito — a quantidade de dinheiro gasto com impulsionamentos nas redes da Meta nessa reta final das eleições. A Agência Pública apurou que na última terça-feira, dia 20 de outubro, a campanha do bolsonarista veiculou mais de meio milhão de reais com anúncios nessas plataformas.

Nessa última cartada, a campanha também está apostando em anúncios micro direcionados para os eleitores — chegando a fazer vídeos direcionados para bairros específicos de quem mora na cidade de São Paulo.

Nessa outra leva de anúncios, todos veiculados em sequência entre ontem, 22 de outubro e hoje, 23 de outubro, o apresentador diz, ao lado de Flávio Bolsonaro, para:

“Você que mora em Higienópolis, é com você que que eu quero falar hoje”.

“Você que mora no Brooklin, é com você que que eu quero falar hoje”.

“Você que mora no Grajaú, é com você que que eu quero falar hoje”.

Ao todo, a reportagem contou ao menos 26 vídeos, cada um direcionado a um morador de bairro diferente de São Paulo. Em apenas um deles, o direcionado a moradores de Higienópolis, a campanha pagou mais de R$ 150 mil para impulsionar o conteúdo. O bairro, um dos mais caros da capital paulista, foi palco de uma manifestação pró-Flavio no último final de semana.

Os vídeos têm indícios de terem sido alterados por Inteligência Artificial, visto que o apresentador fala todas essas apresentações realizando o mesmo movimento — o que indicaria o uso desse tipo de ferramenta. A reportagem, contudo, não encontrou nenhum alerta feito pela campanha de que houve esse tipo de interferência, o que é previsto pelas regras do TSE.

Além disso, há um outro problema. As regras eleitorais proíbem impulsionamento de material eleitoral usando imagens de pessoas públicas ou candidatos alteradas por IA das 17h de quinta-feira, dia 22 de outubro, até o pós votação.

Como explica Cynthia Picolo, Diretora executiva do Laboratório de Políticas Públicas e Internet – LAPIN, “o TSE proíbe, nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores ao término da votação, a publicação, republicação ou impulsionamento de novos conteúdos produzidos ou alterados por IA que usem imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas, mesmo quando o uso de IA estiver devidamente identificado”. As regras podem ser consultadas aqui.

A reportagem teve acesso à veiculação dessa propaganda na noite de quinta, ou seja, depois do período. A biblioteca de anúncios da Meta também indica que a propaganda foi veiculada até hoje, dia 23.

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“O TSE permite determinados usos de IA na propaganda eleitoral. Desde que sejam respeitadas essas obrigações, essas restrições previstas nas próprias regulamentações do TSE. Já o deepfake na propaganda eleitoral é proibido, mesmo que haja identificação de conteúdo que foi gerado por IA. E essa decisão, inclusive, que proibiu o uso de deepfake é bem recente. O que a gente vê, de forma bem contraditória, é o uso massivo de conteúdo sintético, inclusive de imagem, voz, som”, complementa Picolo.

O TSE já havia se manifestado à Pública de que “não se manifesta sobre casos concretos, que podem vir a ser objeto de análise pela Justiça Eleitoral”.

Reportagem do Intercept mostrou que a campanha de Flávio pagou R$ 600 mil para a empresa Elytron, que tem sistema que usa inteligência artificial para manipulação política em eleições.

A reportagem procurou a assessoria do candidato para se posicionar. O espaço segue aberto. A assessoria do apresentador também foi procurada.

Flavio abre bolso para propagandas na Meta

O gasto recente de Flávio na Meta é surpreendente até para os padrões da própria campanha. Em comparação, quando se pega todo o período eleitoral, desde 4 de agosto, a Meta já veiculou R$ 8,5 milhões de anúncios da campanha do bolsonarista. Isso dá uma média de R$ 110 mil por dia. Nesta reta final, com o aumento dos gastos, a campanha do bolsonarista está pagando quase cinco vezes esse valor por dia.

Os dados sobre valores pagos para anúncios que a Meta divulga vão sendo atualizados diariamente. Eles são diferentes do que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) apresenta, que são atualizados de acordo com a prestação de contas de cada campanha. Esses dados também mostram um aumento de gastos recentes da campanha de Flávio. Apenas na última quarta-feira, dia 21 de outubro, foi informado ao TSE R$ 1 milhão gasto em impulsionamento de conteúdos nas redes da Meta. No dia anterior, a campanha do bolsonarista já havia declarado outro R$ 1 milhão.

O movimento de anúncios de Flávio é bem diferente da campanha de reeleição de Lula (PT). No total, o petista já veiculou ainda mais anúncios que Flávio na Meta, segundo os dados da plataforma, com R$ 13,4 milhões desde 4 de agosto. O movimento da campanha de Lula nesta reta final, contudo, é diferente, e tem gasto bem menos nos últimos dias.

No dia 20 de outubro, que é o último com dados disponíveis, a campanha de Lula veiculou cerca de um terço dos anúncios pagos pela de Flávio. Na última semana com dados disponibilizados, Lula gastou pouco mais da metade que o concorrente.

O aumento dos gastos da campanha de Flávio coincide com um período no qual a campanha de Lula tem conseguido mais engajamento nas redes sociais. Segundo o Estadão, Lula teve mais engajamento nas redes da Meta (Instagram, Facebook e Threads) durante todo o segundo turno, com três vezes mais que o concorrente bolsonarista. A situação é o inverso do primeiro turno.

Relatório do NetLab UFRJ levantou indícios de que os custos para alcançar eleitores na Meta variam entre concorrentes. A pesquisa estimou que PT pode estar pagando de 33% a 43% a mais para alcançar o mesmo número de pessoas que o PL.

Os públicos das duas campanhas também são diferentes. Enquanto Lula mira mais jovens, sendo que a maior faixa do público é a dos 30 anos, Flávio mira mais velhos — os 60+ são o maior público em porcentagem.

A campanha de Lula também mira mais as mulheres que a de Flávio. Enquanto o petista gastou um terço dos anúncios apenas para o público feminino, Flávio segmentou cerca de 9% dos anúncios para essa audiência.

Após a publicação, a assessoria da Elytron procurou a reportagem e afirmou que a empresa não está relacionada “à disseminação de informações falsas, ao uso de deepfakes ou à realização de operações clandestinas de manipulação da opinião pública”. Segundo a assessoria, “a empresa atua no segmento de segurança cibernética e da informação, com serviços de natureza exclusivamente defensiva, e não oferece, não executa nem autoriza esse tipo de prática para nenhum cliente, nacional ou internacional, incluindo a campanha do senador Flávio Bolsonaro.”. Leia a resposta completa aqui.

Justiça eleitoral muda até 4 vezes ao dia local de votação às vésperas do 2° turno

23 October 2026 at 20:14

Na última semana, o número de seções de votação alteradas pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) entre o primeiro e o segundo turno mudou drasticamente. No dia 17 de outubro, eram 4352 alterações de seção eleitoral. No dia 19, o número caiu para 2033 seções alteradas. No dia 20, um levantamento feito pela Agência Pública contou 453 alterações em 22 estados. 

Nesta quinta-feira, 22, às 11h27, eram 300 as seções alteradas e, às 15h25, passaram a 314 as modificações. Sim, as mudanças podem ocorrer de 4 em 4 horas e são anunciadas, em turnos, no sistema de informações eleitorais do site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).  

A Pública comparou nos últimos dois dias, as seções de votação cuja alteração estava prevista na tabela do TSE no dia 20 de outubro, com o número de votos obtidos, nessas urnas, pelos dois candidatos que avançaram para o segundo turno da eleição presidencial: Flávio Bolsonaro (PL) e Lula (PT). 

Nas 453 seções cuja alteração estava prevista, Lula venceu em 249, Bolsonaro em 202 e em duas houve empate. Em números absolutos, o presidente Lula recebeu 51.890 votos nessas seções e o adversário, 43.282. A abstenção foi semelhante à apurada nacionalmente, que chegou a 21,08%: 29.311 eleitores deixaram de comparecer às urnas (21,59% do total). 

As 453 seções, juntas, têm apenas 135.742 eleitores, 0,08% do total. Pouco diante dos 158,7 milhões de eleitores do país, mas pode ser muito em um cenário em que os dois candidatos estão em empate técnico na maior parte das pesquisas eleitorais. 

Na nota mais recente no site do TSE sobre o assunto, publicada na quinta-feira, a corte se exime do problema e diz que exigiu dos TREs o preenchimento de um formulário para informar as mudanças e que o TSE “não solicita” as alterações, definidas pelos TREs em virtude de questões climáticas, problemas na estrutura dos prédios e para garantir a segurança de eleitoras e eleitores. 

No início desta semana, o Colégio de Presidentes dos Tribunais Regionais Eleitorais divulgou um comunicado em que se comprometeu a manter o eleitorado informado sobre os locais de votação do 2º turno das Eleições 2026. 

De acordo com os dados da quinta-feira, 22 de outubro, , divulgados às 15h45, o TRE de Minas Gerais liderava as alterações, com 50 seções modificadas de local em diferentes partes do Estado (eram 119 no dia 20). Em segundo, estava o Pará, com 32, e em terceiro o Piauí, com 29 mudanças. O número de estados afetados caiu de 22 para 20 nos últimos dois dias. 

São Paulo é o quarto estado com mais mudanças. Na última terça-feira, dia 20,  eram 31 seções alteradas. Na pesquisa de quinta-feira à tarde, 22, eram 27 alterações, entretanto, três seções tinham sido trocadas. Elas estavam localizadas na EMEI Lourdes Heredia, e passaram para a CEI Indir Jabaquara, ambas localizadas na região do Jabaquara, na capital paulista.

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Más condições de escola e problema climático

Uma das principais mudanças em São Paulo foi a substituição da Escola Estadual Conselheiro Ruy Barbosa pelo Recanto Nossa Senhora de Lourdes, no Horto Florestal, com 12 seções no endereço. Em entrevista à CBN, alunos da escola contaram que o espaço alaga completamente em caso de chuva, o que pode danificar as urnas eletrônicas. 

Na cidade de Confresa, no Mato Grosso, por exemplo, fortes chuvas e ventos danificaram a cobertura de uma escola utilizada como local de votação. Após uma avaliação técnica, o imóvel foi interditado preventivamente, e as oito seções eleitorais que funcionavam no local precisaram ser transferidas.

Em Santa Catarina, circulou a informação que 65 locais de votação foram alterados. As mudanças ocorreram antes do primeiro turno devido a questões emergenciais, como problemas de estrutura e clima. A informação continuou circulando e, para o segundo turno, o TRE local teve que esclarecer que as mudanças do primeiro turno estavam mantidas para o segundo. 

Como saber se o local de votação mudou?

Para checar se o seu local de votação mudou, o TSE recomenda duas opções: consulta no aplicativo e-Título ou no menu Autoatendimento Eleitoral do Portal do TSE, na aba onde votar. Segundo o TSE, as alterações realizadas pelos TREs têm reflexo imediato nesses canais oficiais. 

Caso opte pelo autoatendimento eleitoral, você precisará estar com o título de eleitor nas mãos ou o CPF. O sistema pede ainda a data de nascimento e o nome da mãe, que deve ser inserido completo, conforme consta no título. 

Para descobrir as últimas atualizações sobre seções de votação alteradas, acesse o sistema: https://sig.tse.jus.br/, em seguida clique em Estatísticas da eleição > Eleitorado da eleição > Capilaridade > Seções alteradas. 

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