❌

Normal view

Received — 28 October 2026 ⏭ Agência Pública

Flávio Bolsonaro pode assistir de camarote derrota de Trump nas eleições dos EUA

28 October 2026 at 20:00

Na terça-feira, 3 de novembro, até 200 milhões de eleitores registrados poderão ir às urnas nos Estados Unidos para votar em todos os 435 membros da Câmara dos Representantes, 33 senadores, 36 dos 50 governadores, além de integrantes de legislaturas estaduais e locais. As pesquisas indicam que Donald Trump e o Partido Republicano têm grandes chances de sofrer uma derrota acachapante, perdendo o controle da Câmara dos Representantes e, possivelmente, do Senado. O apoio ao presidente está em queda em todas as questões. Segundo a revista The Economist, apenas 34% dos entrevistados aprovam a presidência de Trump, enquanto 61% se opõem às suas políticas.

Analistas políticos estão divididos sobre se ocorrerá uma “onda azul” (cor associada aos Democratas pelos veículos de imprensa desde as eleições de 2000) ou um verdadeiro tsunami eleitoral, ainda mais poderoso. De qualquer forma, a possível perda do controle democrata da Câmara — e, talvez, do Senado — deixará Trump vulnerável a investigações parlamentares voltadas a limitar seu poder excessivo e a retomar atribuições e responsabilidades que o Congresso, sob controle republicano, havia cedido ao Poder Executivo.

Trump entra na última semana da temporada eleitoral deste ano em posição extremamente fragilizada. A insistente retórica do presidente dos EUA de que a economia vive seu melhor momento — e de que as dificuldades financeiras, em especial o acentuado aumento do custo de vida, não passam de uma farsa do Partido Democrata — não parece convencer os eleitores. Os preços da gasolina e do diesel permanecem altíssimos, e o custo dos alimentos e de itens de consumo básico exerce pressão real sobre o orçamento das famílias. Até mesmo muitos de seus apoiadores republicanos, que se opõem ao envolvimento dos EUA em “guerras sem fim”, estão perdendo a confiança nas promessas de Trump de que o fim do conflito com o Irã estaria próximo.

Fora isso, Trump parece apostar todas as cartas em interferir com as eleições brasileiras ao recepcionar Flávio Bolsonaro — candidato derrotado e fugido do Brasil, que um dia antes havia dito que não deixaria o país.

O Futuro das Relações entre Brasil e Estados Unidos

Uma das grandes mudanças que podem acontecer nos EUA, caso os republicanos percam as eleições de novembro, são os contrapontos em relação à postura dos Estados Unidos com o Brasil.

Trump, que recebe o candidato derrotado Flávio Bolsonaro, ainda não reconheceu oficialmente o resultado das eleições, e já discursou alegando fraude nas eleições brasileiras, sem provas, claro. Steve Bannon endossou o apelo de que o Brasil se tornou uma ditadura que merece sanções severas por parte dos Estados Unidos.

Do outro lado, membros do Congresso dos EUA enviaram prontamente mensagens de felicitações ao presidente Lula. Publicações nas redes sociais refletiram as opiniões de democratas de todo o espectro político — desde figuras social-democratas conhecidas, como o deputado estadual de Nova York Zohran Mamdani, o senador por Vermont Bernie Sanders e a deputada federal por Nova York Alexandria Ocasio-Cortez, até membros mais moderados do Congresso.

A derrota de Flávio Bolsonaro representou uma perda contundente para Trump, que implementou uma série de medidas fiscais, políticas e (provavelmente) clandestinas para ajudar seu aliado brasileiro a vencer. Em uma região atualmente dominada por governos de direita, o Brasil — ao lado do México e do Uruguai — continuará na linha de frente da resistência às tentativas de Trump de impor uma dominação neocolonial sobre a América Latina e o Caribe. A vitória de virada de Lula elevou o Brasil à condição de referência internacional na luta contra a extrema direita.

Caso os republicanos percam as próximas eleições legislativas e para governos estaduais, isso significará que os democratas no Congresso, que defenderam a democracia brasileira em 2022 e 2026, poderão desempenhar um papel importante ao garantir que aqueles que minaram a democracia não utilizem os Estados Unidos tão livremente como plataforma para atacar o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Rejeição às políticas de imigração

Na campanha presidencial de 2024, o discurso anti-imigrante e xenófobo de Trump — que incluiu alegações falsas de que refugiados haitianos estariam “comendo nossos gatos e cachorros” — foi um dos muitos fatores que levaram os republicanos à conquista da Casa Branca e ao controle do Congresso.

No entanto, uma pesquisa recente com 30 mil americanos em todos os cinquenta estados revelou que apenas 37% aprovam as políticas de imigração do presidente. Nessa amostra, 11% dos democratas apoiam as medidas da Casa Branca, enquanto entre os republicanos o apoio cai para 78%. Uma pesquisa de setembro, conduzida pela rede conservadora Fox, indicou que 53% dos eleitores registrados consideram que Trump “foi longe demais” nas operações em larga escala do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) para deter trabalhadores sem documentação — mão de obra que constitui a base dos setores de serviços e da agricultura.

As mortes, tanto de cidadãos quanto de imigrantes, causadas por agentes mascarados, provocaram indignação em todo o país, desencadeando protestos em massa contra o uso excessivo de força pelo governo na detenção de pessoas supostamente em situação irregular.

Temendo uma derrota eleitoral iminente na próxima semana, Trump insiste que seus oponentes venceram eleições especiais recentes porque o Partido Democrata permitiu que imigrantes não cidadãos participassem do processo eleitoral. O Departamento de Justiça afirma ter compilado listas de pessoas em diferentes estados que estão registradas ilegalmente para votar e exige uma intervenção federal para evitar fraudes eleitorais.

Porém, autoridades locais responsáveis pela condução das eleições nos cinquenta estados constataram que um número extremamente reduzido de eleitores inelegíveis chegou a votar. Por exemplo, este ano, o governo dos EUA alegou que 16 mil não cidadãos estavam registrados para votar em Nevada, mas enviou apenas 185 nomes às autoridades eleitorais estaduais. Após revisarem os registros de eleitores do estado, verificaram que todos os 185 eram, na verdade, cidadãos americanos elegíveis.

O secretário de Estado da Geórgia, que supervisiona o processo eleitoral, informou que, nos últimos 30 anos, seu órgão identificou apenas 432 possíveis não cidadãos. Caso algum deles tenha votado, tratar-se-ia de um número infinitesimalmente pequeno, se comparado às centenas de milhões de votos computados nas últimas três décadas.

Ainda assim, Trump continua a propagar essa inverdade para semear, na mente de seus apoiadores, dúvidas sobre a legitimidade de qualquer eleição que ele — ou seus aliados — venha a perder.

Oposição a uma guerra sem fim contra o Irã

Historicamente, os cidadãos americanos tendem a se unir em torno do presidente nas fases iniciais de conflitos no exterior, à medida que o patriotismo cresce, acompanhado do apoio às tropas americanas enviadas ao combate. Durante a Guerra do Vietnã, foram necessários anos para que uma oposição de massa influenciasse a opinião pública. Da mesma forma, no início, a maioria dos americanos apoiou a invasão do Afeganistão — após os ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York — bem como as duas guerras no Iraque. Com o tempo, o sentimento público mudou, passando a se opor a essas incursões militares.

Esse não é o caso em relação à guerra contra o Irã. A ausência de objetivos claramente definidos para o conflito, somada à disparada descontrolada dos preços dos combustíveis, fez com que a opinião pública se voltasse contra o conflito desde o início. Uma pesquisa da CNN, realizada em setembro, revelou que o apoio à guerra entre os eleitores republicanos caiu de 73% para 60%. Em todo o país, os agricultores — que, nos últimos anos, têm tido a tendência de votar no Partido Republicano — estão sofrendo com os preços elevados do diesel, que afetam o plantio, a colheita e o transporte de produtos agrícolas; isso, por sua vez, tem provocado um aumento significativo nos preços dos alimentos.

As tarifas de Trump abalam a economia dos EUA

As políticas tarifárias erráticas da Casa Branca também desestabilizaram a economia. O conflito de Trump com o Canadá — um dos parceiros comerciais mais importantes dos Estados Unidos — gerou caos em estados que dependem do comércio entre os dois países, afetando, em particular, empresas e mercados localizados ao longo da fronteira. Trump descartou o acordo comercial negociado com o México e o Canadá durante seu primeiro mandato, provocando graves transtornos para empresas do setor manufatureiro que fornecem componentes para a produção de bens.

Alguns mercados de exportação de alimentos foram encerrados, e muitos importadores de produtos estrangeiros viram-se obrigados a aumentar os preços para arcar com as tarifas de importação.

Paralelamente, Trump mente recorrentemente ao público ao afirmar que é o país exportador que paga as tarifas, quando, na realidade, é o importador ou o consumidor final que arca com esses custos adicionais.

Disputas-chave no Senado para acompanhar

Nas eleições presidenciais de 2024, especialistas observaram que homens negros, latinos e pessoas com menos de 30 anos migraram para o Partido Republicano. Com base nessa suposta tendência, legislaturas estaduais controladas pelos republicanos começaram a redesenhar os distritos eleitorais para favorecer seu partido, garantindo cerca de uma dúzia de distritos adicionais considerados “seguros” para seus candidatos.

Contudo, a estratégia saiu pela culatra. Pesquisas recentes indicam que esses três grupos demográficos, desiludidos com as políticas de Trump, abandonaram os republicanos e, provavelmente, ajudarão a eleger mais democratas para o Congresso, contribuindo para que o partido conquiste o controle da Câmara dos Representantes.

Nesse contexto — e diante da provável derrota dos republicanos na Câmara —, as disputas pelo Senado tornaram-se o foco da campanha de Trump na reta final das eleições. Para assumir o controle do Senado, os democratas precisam garantir a reeleição de senadores em estados com eleitorado dividido e, simultaneamente, conquistar vitórias em estados atualmente representados por republicanos.

As disputas na Geórgia e na Carolina do Norte parecem estar claramente inclinadas a favor do Partido Democrata. Em Michigan, o candidato democrata Abdul El-Sayed — médico de saúde pública e muçulmano, filho de pais egípcios — também protagoniza uma disputa acirrada. Seu oponente republicano tem proferido insultos racistas e antimuçulmanos contra ele, além de acusações de que ele seria um “socialista radical”, na tentativa de desacreditar sua candidatura. El-Sayed, que lidera as pesquisas com 6% de vantagem — assim como quase todos os candidatos democratas —, manteve-se fiel ao seu discurso, denunciando o alto custo de vida e a guerra no Irã.

Outra disputa importante para o Senado que merece atenção ocorre no Texas, onde o seminarista protestante progressista James Tallarico — capaz de debater com brilhantismo interpretações da Bíblia diante de oponentes republicanos conservadores — mantém uma leve vantagem. Há décadas, o estado não elege um democrata para o Senado.

Com eleitores ansiosos para votar contra Trump, os democratas também encontraram novas oportunidades de vencer eleições senatoriais em estados tradicionalmente conservadores: Alasca, Iowa, Kansas, Nebraska e Ohio. Em 2024, Trump venceu nesses estados por uma margem de dois dígitos. O foco dele nesses estados, que são redutos republicanos sólidos, revela o quanto o partido está na defensiva. New Hampshire e Maine são outros dois estados em que os candidatos democratas estão empatados com seus oponentes republicanos ou apresentam uma leve vantagem.

Em suma, se os democratas tiverem sorte — ou se ocorrer uma “tsunami azul” —, Trump poderá enfrentar uma maioria hostil no Congresso no próximo ano.

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

28 October 2026 at 16:00

A Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, amanheceu mais alegre do que de costume. Era 12 de outubro deste ano, Dia de Nossa Senhora Aparecida e também das Crianças. A rua foi tomada por balões, brinquedos infláveis, pula-pulas e até show de mágica.

No meio dela, acontecia uma batalha de barbeiros, uma competição para ver quem fazia os cortes de cabelo mais perfeitos e o melhor “loiro pivete”, estilo descolorido popular entre os jovens das favelas cariocas. A criançada fazia fila para ganhar bolo, pipoca, cachorro-quente e refrigerante. Por toda parte, gritos de alegria e clima de festa.

Rio de Janeiro, 12 de Outubro. 
Comemoração do Dia das crianças, Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, favela do Complexo da Penha. Um ano antes, a comunidade foi acometida pela pela Operação Contenção, que deixou 122 pessoas mortas. No local, os moradores enfileiraram os corpos recolhidos por eles numa área de mata usada como rota de fuga, no dia seguinte ao massacre.
Rio de Janeiro, 12 de Outubro. 
Comemoração do Dia das crianças, Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, favela do Complexo da Penha. Um ano antes, a comunidade foi acometida pela pela Operação Contenção, que deixou 122 pessoas mortas. No local, os moradores enfileiraram os corpos recolhidos por eles numa área de mata usada como rota de fuga, no dia seguinte ao massacre.
Comemoração do Dia das Crianças, na Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha

Em outubro do ano passado, o cenário na mesma praça era bem diferente. “Fazia um ano que eu não pisava aqui”, disse Tauã Brito, de 37 anos, com os olhos cheios de lágrimas. “Quando pintaram a praça na Copa do Mundo, eu queria muito ter vindo, porque foi um amigo meu que fez as pinturas. Mas não consegui. Toda vez que eu via as filmagens do drone, eu dizia: ‘Está lindo o chão, mas eu só consigo olhar e ver o corpo do meu filho estirado nele.’”

Seu filho, Wellington Brito, de 20 anos, foi uma das vítimas da chacina da Penha, chamada oficialmente de “Operação Contenção” pela Polícia Civil. A megaoperação contra o Comando Vermelho foi realizada há um ano, em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio. Ação do então governador Cláudio Castro (PL), executada pelas polícias Civil e Militar, tornou-se a operação policial mais letal da história do Brasil: 122 mortos, entre eles cinco policiais.

Foi ali, na Praça São Lucas, que os próprios moradores enfileiraram os corpos recolhidos por eles numa área de mata usada como rota de fuga, no dia seguinte ao massacre. Caminhonetes não paravam de chegar com as vítimas empilhadas, mutiladas e com sinais claros de execução. O cheiro de morte impregnava o ar. O silêncio sepulcral só era cortado pelo choro desesperado de mães, esposas e irmãs das vítimas. As imagens dos corpos estendidos no chão rodaram o mundo.

Tauã Brito, de 37 anos, mãe de uma das vítimas da chacina da Penha
Tauã Brito, de 37 anos, segura foto do filho, Wellington Brito, de 20, uma das vítimas da chacina da Penha
Tauã Brito, de 37 anos, segura foto do filho, Wellington Brito, de 20, uma das vítimas da chacina do ano passado

Desde então, os moradores da Penha se mobilizam para tentar superar a tragédia. “Estar aqui hoje é quebrar um tabu, tentar mudar na minha mente um cenário de muita dor. Você não vai ver quase nenhuma mãe das vítimas aqui, porque esse local ficou marcado por muita tristeza”, afirma Brito.

A escolha da Praça São Lucas para o evento do Dia das Crianças, organizada pela associação de moradores, não foi por acaso. Nascida e criada no bairro, Brito precisou deixar a Vila Cruzeiro depois de receber ameaças de policiais nos meses que se seguiram ao massacre. Mesmo assim, fez questão de participar como voluntária naquele dia, e até fez um bolo para colaborar com a festa.

“A gente está fazendo isso para tentar olhar a praça com outros olhos. A favela é vida, é alegria, e a gente quer mostrar isso para o mundo”, disse. “Muitas das nossas crianças viram aquelas cenas de morte. Nós, mães das vítimas, vamos carregar essa dor dentro de nós para sempre. Mas a comunidade precisa seguir a vida aqui dentro de forma mais leve.”

Andressa Ignácio, de 29 anos, moradora da Vila Cruzeiro, também voltava à Praça São Lucas naquele dia pela primeira vez desde a chacina. Veio à festa acompanhada dos dois filhos. “Fico muito feliz, porque as crianças hoje estão vendo um lugar colorido e animado, e não aquela cena de corpo jogado no chão”, disse. Até então, Ignácio evitava passar pelo local. “Para gente que mora aqui, a lembrança ainda é muito recente e dolorosa. O brilho da comunidade se apagou por causa do que aconteceu.”

Um ano depois, moradores dizem que pouco mudou na presença do Estado no bairro. “Não chegou nada de importante na área social, na saúde, na educação”, afirma Gilberto Santiago, advogado criminalista e morador da Vila Cruzeiro. “Quando o Estado entra, só entra pra matar.”

Foto da operação nos complexos da Penha e do Alemão, realizada tanto pela Polícia Militar quanto pela Civil, que resultou em 121 mortos.
No ano passado, fotos de corpos empilhados e enfileirados após a chacina chocaram o mundo

Chacina é usada eleitoralmente por Flávio Bolsonaro e apoiadores

Logo após a chacina, em 2025, a operação foi fortemente aplaudida por políticos de direita e de extrema direita. Castro a definiu como “um sucesso” e afirmou que as únicas vítimas eram os policiais mortos. Dois dias depois, recebeu no Palácio Guanabara governadores de oposição ao presidente Lula e anunciou a criação de um “Consórcio da Paz” para ações conjuntas contra o crime organizado.

Na época, a Agência Pública mostrou como a maioria dos governadores que integram o consórcio teve um aumento nas mortes causadas por policiais nos respectivos estados durante a sua gestão.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que a ação havia sido realizada “com muita excelência”. A operação também teve respaldo da maioria da população: segundo o Datafolha, 57% dos moradores da capital e da região metropolitana do Rio a avaliaram como um sucesso.

Para a pesquisadora Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF), a operação teve um efeito político imediato, mudando os termos do debate sobre segurança pública no Brasil. Na época, o Planalto defendia a PEC da Segurança Pública e apostava em investigações para asfixiar financeiramente as facções. “O governo federal vinha com propostas de ataque inteligente, de desmantelamento de redes, de seguir o dinheiro”, diz Grillo. “E, naquele momento, a partir do Rio de Janeiro, conseguiu-se deslocar a discussão para ser contra ou a favor do massacre.”

O senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado nas eleições de 2026, já falava em guerra às facções antes mesmo da operação. Cinco dias antes da chacina, ao compartilhar uma publicação do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, sobre o ataque a uma embarcação no Pacífico, escreveu em inglês, no X: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”. No dia seguinte, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, protocolou no Supremo Tribunal Federal (STF) uma representação criminal contra o senador por afronta à soberania nacional.

Print da conta do ex-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, que diz, em inglês e português: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?" em referência à chacina na Penha e Alemão
Print da conta de Flávio Bolsonaro em que ele sugere ação contra barcos na Baía de Guanabara, em referência à chacina na Penha e no Alemão

Em maio deste ano, depois de um encontro com Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca, Flávio disse ter pedido ao presidente norte-americano que o Comando Vermelho e o PCC fossem classificados como organizações terroristas. Disse que, enquanto Lula pedia a Trump que não adotasse a medida, ele fazia “o contrário”. No início daquele mês, Lula havia se reunido com Trump e apresentado argumentos contra a designação: o governo temia que ela abrisse caminho para sanções ou até para uma ação militar dos Estados Unidos em território brasileiro.

Dois dias após o encontro com Flávio, o Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, designou as duas facções como “terroristas globais especialmente designados” e anunciou sua inclusão na lista de organizações terroristas estrangeiras a partir de 5 de junho. Nos bastidores, aliados da oposição viram a decisão como uma vitória política do senador.

Para Grillo, a classificação foi política, não técnica. “Os Estados Unidos não se basearam na realidade, mas usaram um artifício político”, afirma. Segundo ela, as facções brasileiras não têm projeto ideológico, religioso ou de mudança de regime, características que definem o terrorismo. “São grupos do crime organizado que, como cartéis e máfias, buscam apenas o lucro. É simples assim.”

A pesquisadora não vê risco de intervenção militar norte-americana no curto ou no médio prazo, embora reconheça que a medida cria “uma abertura jurídica” para isso. O impacto mais imediato, diz, seria econômico. “Os Estados Unidos se autorizam a confiscar todos os ativos de qualquer empresa que tenha alguma forma de vínculo com organizações terroristas, mesmo que a empresa não saiba disso. Isso cria insegurança jurídica para todas as empresas que atuam aqui.”

Santiago, que mora no Complexo da Penha há 45 anos, inverte o argumento. “Terrorismo é o que o Estado pratica nas comunidades”, afirma o advogado. “Praticar terrorismo é fechar escolas, creches, aterrorizar crianças, mulheres grávidas, moradores, matar pessoas inocentes, executar pessoas rendidas. Isso é terrorismo.”

Em agosto deste ano, já candidato à Presidência, Flávio levou o tema para o centro da campanha. No lançamento da candidatura de Douglas Ruas (PL) ao governo do Rio, no Maracanãzinho, declarou “guerra aos narcoterroristas” e prometeu que, se eleito, também classificaria o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas no Brasil.

Mortes viram trampolim eleitoral no Rio de Janeiro

A chacina também serviu de trampolim eleitoral para quem a comandou. O ex-secretário da Polícia Civil Felipe Curi foi eleito deputado federal pelo Progressistas (PP), com mais de 133 mil votos. Ainda à frente da Polícia Civil, dias depois da chacina, Curi defendeu que as facções recebessem “tratamento à altura de terroristas”.

Segundo reportagens, aliados e integrantes da área de segurança associaram, durante a campanha, o número de urna de Curi, 1122, ao total de mortos na operação. O ex-secretário da Polícia Militar Marcelo de Menezes (PL) conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), com mais de 46 mil votos. O delegado Bernardo Leal, que também participou da ação, foi eleito deputado estadual com mais de 57 mil votos.

Para Grillo, o termo “narcoterrorismo” dá voto justamente por traduzir uma sensação cada vez mais presente entre os brasileiros: o medo. “É uma forma de mobilizar o medo da população por meio de uma categoria exagerada”, explica. A pesquisadora também afirma que megaoperações como a da Penha não reduzem o poder das facções. “No segundo em que a polícia saiu, aquele território continuou sob controle do Comando Vermelho”, diz.

“Todas as pessoas que foram mortas são insubstituíveis do ponto de vista dos seus familiares, mas perfeitamente substituíveis do ponto de vista das facções.” Operações como esta, segundo ela, não passam de “um método ineficaz e populista. E todo populismo, de alguma forma, mira as eleições”, conclui.

Curi e Menezes chegam ao Legislativo enquanto a operação que comandaram segue sob investigação. Familiares relataram ter sido impedidos de reconhecer os corpos das vítimas. A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) abriram investigações, e o MPRJ já denunciou 17 policiais por condutas como invasão de domicílios, apropriação de bens e armamentos, constrangimento de moradores e tentativas de impedir ou prejudicar o registro das câmeras corporais.

A ONG Human Rights Watch apontou que a Polícia Civil não preservou os locais das mortes, comprometendo as perícias. Em abril deste ano, a PF informou ao STF que ainda não havia recebido as imagens das câmeras corporais dos policiais militares que participaram da ação.

Castro tentou surfar a mesma onda. Após a operação, recebeu o aval da cúpula nacional do PL para disputar o Senado, e seu perfil no Instagram ganhou cerca de 1,5 milhão de seguidores. Mas, em março de 2026, um dia depois de renunciar ao governo para concorrer, foi declarado inelegível por oito anos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por abuso de poder político e econômico na eleição de 2022.

Coube a Ruas, seu aliado e ex-secretário estadual das Cidades, levar a bandeira adiante. Durante a campanha, Ruas buscou se afastar de Castro e do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, ambos investigados, mas não abandonou a defesa da Operação Contenção em suas falas públicas.

O discurso parece ter colado: em 10 de outubro, depois que o TSE anulou os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) e o Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) refez a totalização, Ruas foi declarado eleito em primeiro turno, com 50,88% dos votos válidos, contra 44,16% de Eduardo Paes (PSD).

Depois das eleições, o medo de operações ainda mais letais

Em sua primeira entrevista como governador eleito, à TV Globo, Ruas afirmou que a segurança pública será o foco central de sua gestão. Prometeu convocar logo no início do mandato os aprovados em concursos das forças de segurança e retomar territórios dominados pelo tráfico e pela milícia com operações planejadas, seguidas da ocupação permanente das áreas. Questionado sobre quais comunidades seriam as primeiras, respondeu: “Não vou fazer assessoria para bandidos”.

Na Penha, a promessa é recebida com desconfiança. “Vão entrar para matar mais”, afirma Tauã Brito. “Muita gente aplaudiu o que aconteceu aqui. Então eles entenderam que morte, de certa forma, dá voto.” Para Andressa Ignácio, a eleição de Ruas repete a de Castro. “As próprias pessoas elegeram um segundo Cláudio Castro. Eles são farinha do mesmo saco”, afirmou, antes do segundo turno.

O temor cresceu com a disputa eleitoral. Em 9 de outubro, ao lado de Ruas, na Barra da Tijuca, Flávio, que disputou o segundo turno contra Lula em 25 de outubro, disse que os dois estão alinhados para “declarar guerra” ao crime organizado e mandou um recado “aos narcoterroristas de Comando Vermelho, PCC e milícias”. Nas urnas, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, segundo o TSE. A designação das facções como terroristas pelos Estados Unidos, decidida em maio, não depende do resultado eleitoral brasileiro.

Nesta quarta-feira, 28 de outubro, dia em que a chacina completa um ano, os familiares das vítimas organizam um grande ato pacífico na Praça São Lucas. O evento acontece três dias depois do segundo turno, com Ruas eleito no estado e Lula reconduzido ao Planalto.

Perguntada sobre o que pediria a quem vencesse a corrida pela presidência, a mãe de Wellington respondeu: “Eu só peço que olhem para a Penha não como um cenário para tirar vidas, mas de uma forma mais humana. Que lembrem que existem pessoas aqui dentro que precisam ser respeitadas, crianças que precisam crescer num ambiente de paz. As crianças da favela precisam voltar a ser crianças”.

Um beijo em uma mulher trans

28 October 2026 at 11:00

A cena toda deve ter durado cerca de três segundos: A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) faz um vídeo comemorando a eleição de Lula após a contagem das urnas, no dia 25 de outubro. Ele passa por ela, pega seu rosto, tasca um beijo carinhoso em sua bochecha e sai do quadro. Um gesto simples, espontâneo, terno, um carinho. 

Eu não sei se Lula tem noção do tamanho da declaração que fez pro mundo. O presidente de um país, que acaba de ser reeleito em um processo histórico e inédito em tantos níveis – com participação popular e engajamento sociais sem igual, em uma virada épica que acontece apesar de todo tipo de sabotagem das Big Techs ao governo Trump, de tentativas de boicote ao transporte público para que as pessoas não chegassem às urnas a uma grande imprensa tacanha jogando contra – um homem de 81 anos, que tem os olhos do mundo virados para si, mostra publicamente afeto a uma mulher trans. 

Durante comemoração da vitória no segundo turno das eleições 2026, presidente Lula da beijo em bochecha da deputada federal Erika Hilton
Trecho de vídeo publicado por Erika Hilton

Essa cena me emociona por diferentes motivos. Tenho passado os últimos anos me infiltrando em eventos da extrema direita pelo mundo e entrevistando essas figuras. Posso afirmar que não houve um desses congressos sequer, nenhuma dessas conversas, que não passou por discursos ultraviolentos contra pessoas trans. 

Já escrevi bastante sobre isso, inclusive sobre como no governo Trump essa violência levou a resoluções e políticas públicas desde seu primeiro dia de mandato. Não vou me repetir aqui sobre a maneira como essas narrativas são construídas com base no pânico moral e na ideia da destruição da família e de valores sagrados. O que quero ressaltar é que a demonização de pessoas trans está hoje no epicentro político da extrema direita. É um tema de consenso entre eles, usado para mobilizar o medo, o ressentimento e o ódio e que tem efeitos concretos na vida de milhares de pessoas. 

E a mobilização desses afetos não é exclusiva da extrema direita, também é importante dizer. Não sei dizer quantas vezes eu mesma fui perseguida, ameaçada e exposta por mulheres que se dizem feministas radicais trans excludentes ou quantas vezes o Pauta Pública foi alvo de ódio quando apontamos nosso microfone para pessoas trans. Tudo bem. Como me disse Judith Butler, ser perseguida por essas pessoas é um distintivo de coragem. 

Um outro ponto importante é que o Brasil é um dos países que mais mata transexuais no mundo. Quando Lula faz esse gesto, que mensagem ele manda para o povo? E que mensagem ele manda para as pessoas trans?

A cena me lembrou o relato de Suzanne Hommel, uma alemã nascida em 1938 que falou no documentário “Encontro com Lacan” sobre o tempo em que foi paciente do psicanalista francês. Ela carregava traumas profundos de sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial, mas, em uma de suas sessões com Lacan, contou de um sonho recorrente que a acordava sob forte angústia todos os dias pontualmente às 5h da manhã. Acrescentou o contexto histórico de sua infância: “Era às 5h da manhã que a Gestapo vinha buscar os judeus em suas casas”. Ao ouvir a palavra “Gestapo” (polícia secreta oficial da Alemanha Nazista) o psicanalista levantou-se rapidamente da poltrona e fez um carinho suave em seu rosto. Quando ela conta isso no documentário, imediatamente leva a mão ao rosto imitando o gesto. 

Através desse ato físico e verbal, Lacan transformou a palavra “Gestapo” em “geste à peau”, que em francês significa “gesto na pele”, e introduziu ternura onde antes habitava apenas o horror e o trauma. No documentário, ela se emociona ao dizer que isso não apagou seu sofrimento mas o modificou de forma definitiva e que mesmo décadas depois, ela ainda sentia aquele toque que mudou a forma como olhava para a própria história e sua própria dor. 

O “geste à peau” de Lula em Erika Hilton neste momento da nossa história, me parece muito poderoso, simbólico, um marco de posição diante do mundo, que pode ressignificar um monte de afetos pra muita gente. E ao mesmo tempo é tão bonito precisamente porque foi um afago espontâneo em um país que está ressignificando sua relação com a política, que ainda sofre com o trauma dos quatro anos sob o governo genocida de Bolsonaro – e que escolheu neste domingo apostar na ternura ao invés do horror.

Aliás, que fique marcado aqui: Erika Hilton foi reeleita como a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados e, com 1,5 milhão de votos conquistados em São Paulo, é a segunda parlamentar no país a romper a barreira de 1 milhão de votos para o cargo. 

A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

28 October 2026 at 09:28

O candidato derrotado no último domingo, 25 de outubro, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou à Miami, nos Estados Unidos, na manhã desta quarta-feira, 28, depois de uma série de desinformações sobre o seu paradeiro. Durante a maior parte da terça-feira (27), circulou na imprensa brasileira, argentina e dos Estados Unidos a versão de que o senador já estaria no ar, a caminho dos Estados Unidos, e até mesmo em solo norte-americano.

O registro oficial divulgado pelo governo argentino na madrugada desta quarta-feira (28) desmente essa cronologia. Segundo a Dirección Nacional de Migraciones, o senador só cruzou a fronteira às 22h50 de terça, e o jato que o levou decolou com destino declarado para Guayaquil, no Equador. 

A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família
A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família

Em comunicado publicado no X, a Migraciones, que na terça de manhã havia afirmado não ter registro de entrada de Flávio na Argentina, divulgou a informação às 2h01. Segundo o órgão, o senador entrou pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú, na província de Misiones. Ele estava com a mulher, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas do casal, o que confirma a informação divulgada pela Agência Pública sobre a ausência das filhas na escola em Brasília. 

De acordo com a publicação, todos apresentaram documentação de viagem válida, sem impedimentos legais, e a entrada na Argentina foi registrada sem incidentes. Quarenta minutos depois, às 23h30, o grupo embarcou em um voo privado da empresa Baires Fly S.A. com destino a Guayaquil, conforme o plano de voo. Sites que monitoram voos registraram a aeronave sobrevoando a cidade equatoriana por volta das 5h40. Depois, por volta das 6h20, a aeronave decolou novamente com direção ao Norte. Segundo o jornal “Folha de S.Paulo”, o avião pousou nos Estados Unidos às 10h23, no horário de Brasília.  

A saída de Flávio ocorre depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que Flávio entregasse seus passaportes à Polícia Federal e que ele fosse incluído no Sonar, o sistema de monitoramento migratório. O senador não cumpriu o prazo, que se encerrou às 11h da terça-feira, e a PF cancelou os passaportes emitidos em seu nome. Ele é investigado no STF por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Entre os países do Mercosul, a carteira de identidade é aceita como documento de viagem, o que explica a menção da Migraciones a “documentação hábil”. Ainda não está esclarecido como o senador atravessou a Ponte Tancredo Neves sem ser detido do lado brasileiro, já que constava no Sonar.

A aeronave pertence à empresa usada por Javier Milei, presidente argentino, para ir aos EUA após sua eleição. Segundo a imprensa argentina, a empresa teria vínculos com o empresário Maurício Macri, e à época, em 2023, o custo do voo de Milei foi alvo de questionamento. A viagem teria custado entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,35 milhão. Milei, até o momento, não reconheceu a vitória de Lula nas eleições. 

Imagem de suposto jatinho utilizado por Flávio Bolsonaro em sua fuga do Brasil
Imagens do jato da empresa Baires Fly onde Flávio e família teriam embarcado rumo aos EUA

Notícia de que já estava nos EUA não se confirmou

O horário oficial contradiz o que vinha sendo noticiado pela imprensa, segundo pessoas próximas à família e o entorno político de Flávio, de que o senador já teria partido para os Estados Unidos e que o avião estaria em rota na terça-feira, 27 de outubro. O portal argentino Infobae relatou que ele teria cruzado a fronteira com a carteira de identidade rumo a Puerto Iguazú, de onde seguiria em voo privado para os EUA.

Pela cronologia oficial, quando essas versões circulavam, Flávio ainda não havia passado por nenhum posto de controle migratório argentino. O avião também não tinha decolado. O jato é um Gulfstream G400 de matrícula argentina LV-JQW. 

Aeronave onde estaria Flávio decolou de Gayaquil por volta de 6h20 rumo aos Estados Unidos

Segundo o jornal Clarín, a decolagem foi retida durante a tarde devido a pendências na documentação de um dos passageiros. O portal Misiones Online havia noticiado que a aeronave estava no aeroporto de Puerto Iguazú e que partiria para Guayaquil.

As negativas oficiais da terça-feira (27), que pareciam contradizer as notícias sobre a fuga, eram compatíveis com o registro divulgado depois. Pela manhã, a Migraciones disse que não tinha registro do ingresso do senador. Mais tarde, o porta-voz do presidente Javier Milei, Fabián Fernández, negou à Bloomberg que Flávio tivesse entrado no país. Pelo comunicado desta madrugada da Direção Nacional de Migrações da Argentina, ele de fato ainda não tinha entrado.

Jornalismo investigativo é antídoto contra a desinformação. Ajude a garantir informação acessível e gratuita para mais pessoas. Faça um Pix para contato@apublica.org ou doe em apoie.apublica.org.

Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

27 October 2026 at 22:58

Flávio Bolsonaro (PL) pode ser o mais novo integrante da lista de bolsonaristas que deixaram o Brasil. Caso confirmada a chegada aos Estados Unidos, o candidato derrotado nas eleições de 2026 se somará a parentes, influenciadores e ex-membros do governo de Jair Bolsonaro, que deixaram o país por condenações ou investigações. Sempre sob o argumento de perseguição política. 

A denúncia partiu do veículo argentino Infobae, que publicou hoje, 27 de outubro, que Flávio estaria na cidade de Puerto Iguazú, que faz fronteira com o Brasil, pronto para tomar um voo rumo aos EUA. Ainda não se sabe como o senador teria saído do Brasil para o país vizinho. Em 26 de outubro, dia seguinte à derrota nas urnas, o ministro Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse o passaporte à Justiça.

Um dos fundamentos da decisão de Moraes foi uma entrevista do irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, dada dois dias antes do segundo turno, afirmando que o então candidato deveria deixar o país se perdesse o pleito. Também nesta terça, o blogueiro Paulo Figueiredo disse em sua live que, na noite de domingo, após confirmada a derrota, havia aconselhado o senador a ir para os EUA.

Flávio Bolsonaro é investigado em duas frentes pelo Supremo Tribunal Federal, mas, terminado seu mandato como senador, em 31 de janeiro de 2027, perderá o foro privilegiado. Sob relatoria do ministro André Mendonça, ele é investigado pela suspeita de evasão de divisas e de lavagem de dinheiro por conta do financiamento da produção do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. A investigação mira repasses de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, à produção do longa. 

Em outra frente, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, Flávio é investigado pela suspeita de lavagem de dinheiro por meio de uma casa de apostas. A Polícia Federal (PF) quebrou o sigilo telemático do advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, e encontrou e-mails que apontariam que o senador foi cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária da empresa Alcazar Holdings, de propriedade de Tomaz.

Segundo a PF, há indícios de “vínculo de controle ou propriedade de fato de Willer Tomaz sobre a Rede Loto”, a primeira a obter autorização estadual da Loterj, no Rio de Janeiro, para explorar bets no estado.

Publicação de Flávio Bolsonaro no Instagram
O senador Flávio Bolsonaro afirmou em seu Instagram ter sido intimado pela Polícia Federal (PF), nesta segunda-feira (26), a entregar seus passaportes

Bolsonaristas nos EUA de Trump

Eduardo Bolsonaro mora no Texas (EUA) desde março de 2025. Ele foi condenado pelo STF em junho de 2026 por sua atuação para obter sanções americanas contra autoridades brasileiras. O ex-deputado teve a prisão decretada em outubro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

Eduardo tem passaporte italiano e também conseguiu o green card, documento que garante a residência permanente nos EUA. Desde que fugiu do Brasil, ele fez diversas viagens ao Oriente Médio e chegou a abrir uma empresa no Bahrein, conforme a Pública revelou.

Seu braço direito nos EUA, Paulo Figueiredo, mora na Flórida há dez anos. Ele é investigado no Inquérito das fake news e foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023. Seu caso nunca foi julgado porque o neto do ex-ditador João Figueiredo nunca foi intimado, mas ele é considerado foragido.

Eduardo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem juntos, em 2026, em encontro nos EUA
Eduardo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem juntos, em 2026, em encontro nos EUA

Outro foragido que vive na Flórida é o blogueiro Allan dos Santos. Ele teve mandado de prisão preventiva decretado pelo STF em outubro de 2021 e reforçado em 2024, bem como o bloqueio de suas contas bancárias e perfis digitais no Brasil. O criador do extinto “Terça Livre” também é investigado no Inquérito das fake news e das milícias digitais por disseminação de conteúdo falso e ataques a autoridades.

Ainda na Flórida mora Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e ex-deputado federal pelo PL. Ele foi alvo de pedido de extradição após ser condenado pelo STF a 16 anos de prisão pela trama golpista.

A fuga, em setembro de 2025, contou com a ajuda de Rodrigo Cataratas, condenado por liderar o garimpo ilegal na Terra Yanomami, conforme revelou a Pública. O empresário do garimpo também está foragido por ter ajudado na fuga de Ramagem.

Em abril de 2026, Ramagem chegou a ser detido pelo serviço de imigração dos EUA (ICE), mas foi liberado dois dias depois. Hoje, ele é um imigrante ilegal no país, segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) e está sujeito a detenção e deportação, como a Pública também mostrou.

Bolsonaristas na Argentina, Itália e Espanha

Na Itália, a ex-deputada federal Carla Zambelli chegou a ser presa em junho de 2025. Em maio de 2026, ela foi solta pela Corte de Cassação de Roma, última instância da Justiça do país. Ela havia sido condenada pelo STF a dez anos de prisão por contratar um hacker para inserir um mandado de prisão falso contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, no sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Ainda na Europa, mas na Espanha, mora o blogueiro Oswaldo Eustáquio, considerado foragido da Justiça brasileira desde 2023. Em outubro de 2026, ele se tornou réu por associação criminosa no âmbito do inquérito que investiga a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Em junho de 2025, o governo espanhol rejeitou o pedido de extradição do governo brasileiro por considerar que houve motivação política.

Leonardo Rodrigues de Jesus, o Leo Índio, é primo de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Ele é investigado no inquérito do golpe de Estado em 2023 e teve a prisão decretada em 2025. Ele mora na cidade de Puerto Iguazú, do lado argentino da tríplice fronteira, por onde Flávio Bolsonaro teria passado para tomar um voo para os EUA. A Pública mostrou que Leo é um dos investigados por desinformação e tentativa de golpe que seguem ativos nas redes em 2026.

Também na Argentina, estão cinco brasileiros condenados pelos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, que foram extraditados em dezembro de 2025: Joelton Gusmão de Oliveira, Joel Borges Correa, Rodrigo de Freitas Moro, Wellington Firmino e Ana Paula de Souza, segundo apuração da BBC Brasil.

Jornalismo investigativo é antídoto contra a desinformação. Ajude a garantir informação acessível e gratuita para mais pessoas. Faça um Pix para contato@apublica.org ou doe em apoie.apublica.org.

❌