❌

Normal view

2050 começa agora: as escolhas que vão definir a mineração do futuro

30 October 2026 at 18:21

A mineração é um negócio cujos horizontes são medidos em décadas, mas cujas decisões fundamentais frequentemente sucumbem aos ciclos curtos das cotações de commodities, das trocas de governo e do ruído da opinião pública.

Esse descompasso entre a temporalidade do investimento e a volatilidade do momento presente é, hoje, o maior desafio estratégico do setor.

Uma mina que entrar em operação nos anos 2040 está sendo pensada, desenhada, financiada e submetida ao licenciamento exatamente agora. Trata-se de um setor em que o tempo de maturação se dilatou drasticamente: o prazo médio entre a descoberta de um jazimento e o início da lavra comercial triplicou em pouco mais de três décadas, saltando de seis para aproximadamente dezoito anos.

Em um cenário tão estendido, os executivos e formuladores de políticas públicas que optam por esperar a incerteza se resolver para tomar decisões já nascem atrasados.

O pano de fundo global dessa equação é amplamente conhecido, mas suas consequências operacionais ainda são subestimadas.

A demanda global por minerais críticos é impulsionada simultaneamente pelo avanço da urbanização nos países emergentes, pela expansão acelerada dos data centers e da inteligência artificial, pelo rearmamento global e pelas metas imperativas da transição energética. Apenas a demanda por cobre, metal central para a eletrificação, pode crescer cerca de 50% até 2040.

No entanto, enquanto a demanda exige volume e velocidade, a oferta enfrenta restrições estruturais severas. Em primeiro lugar, o teor médio de cobre nos minérios lavrados caiu cerca de 40% desde 1990.

Além disso, depósitos de classe mundial na superfície tornaram-se raridades, fazendo com que as novas reservas fiquem cada vez mais profundas e geograficamente complexas.

Para completar esse quadro de gargalos institucionais, cerca de 60% dos grandes projetos de mineração em desenvolvimento no mundo enfrentam atrasos crônicos, grande parte diretamente associada a entraves nos processos de licenciamento e conflitos socioambientais.

A consequência física disso é direta: para obter a mesma tonelada de metal refinado, a indústria é obrigada a movimentar volumes massivos de rocha.

Mais rocha movimentada traduz-se em maior consumo intensivo de energia, maior captação de água e volume exponencialmente superior de rejeitos gerados, a menos que a inovação tecnológica altere profundamente a lógica operacional.

Para organizar essa complexidade, um estudo recente conduzido pela Systemiq e ERM, com o apoio do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM) e da Fundação Moore, construiu três cenários estratégicos para 2050.

Não se trata de futurismo ou previsões determinísticas, mas de um exercício analítico que cruza o ritmo da inovação tecnológica com o modelo de governança dominante.

O primeiro cenário, denominado Fracture (Fratura), representa a fragmentação geopolítica em blocos rivais. Nele, os governos tratam os recursos minerais estritamente como ativos de segurança nacional e soberania, flexibilizando salvaguardas socioambientais para garantir suprimento rápido, enquanto a inovação tecnológica avança de forma tímida e incremental.

O resultado é um atendimento parcial das metas de oferta ao custo da degradação acelerada: estimativas indicam um aumento de 25% no número total de minas operacionais e elevações de 35% a 50% no desmatamento, na geração de rejeitos e nas emissões de gases de efeito estufa em relação às projeções de linha de base para 2050.

No extremo oposto está o cenário Flywheel (Impulso), focado na máxima eficiência e sustentabilidade. Nele, prevalecem governança equilibrada, regras internacionais transparentes, rastreabilidade rigorosa da cadeia de suprimentos e aceleração tecnológica disruptiva, desde o uso de Inteligência Artificial e sensores avançados na exploração até a mineração de alta precisão e a eletrificação total das frotas industriais.

Com processos mais eficientes, seriam necessárias menos minas abertas, os licenciamentos seriam ágeis por conta da clareza dos dados e registrar-se-ia um desmatamento até 25% menor, redução de até 35% no consumo de água e uma queda expressiva de aproximadamente 90% nas emissões operacionais de Escopos 1 e 2.

Por fim, o cenário Space Race (Corrida Espacial) desenha um mundo em que a intensa competição tecnológica entre potências impulsiona avanços rápidos, porém desprovidos de governança global unificada.

As regras tornam-se assimétricas, regiões que priorizam a conservação ambiental utilizam a tecnologia para mitigar e isolar impactos; já regiões focadas em receitas e urgência de suprimento aplicam técnicas avançadas para viabilizar extrações altamente agressivas, inclusive acelerando a exploração minerária no fundo dos oceanos.

Estes cenários não funcionam como um cardápio do qual se escolhe o preferido, mas sim como um teste de estresse. Para um conselho de administração ou para um ministério de Estado, a pergunta fundamental não é prever qual cenário prevalecerá, mas sim definir quais decisões estratégicas tomadas hoje se mantêm sólidas e viáveis em qualquer um deles.

Um aspecto frequentemente distorcido ou omitido no debate público é a premissa fundamental de que, mesmo no cenário ambientalmente mais virtuoso, será indispensável minerar muito mais. Projeções indicam que o mundo precisará de cerca de 50% a mais de cobre e astronômicos 180% a mais de lítio em relação aos níveis atuais, mesmo considerando cenários otimistas de economia circular, reciclagem em larga escala e substituição de materiais.

Sustentar que a transição energética pode ocorrer sem nova mineração é vender uma ilusão sem respaldo na realidade. Por outro lado, alegar que a urgência ambiental autoriza o avanço predatório é ignorar os imensos riscos socioambientais e operacionais que paralisam investimentos. A questão, portanto, não é se devemos minerar, mas de que maneira faremos isso.

A resposta para esse impasse exige responder de forma estruturada a três perguntas vitais: quanto minerar, onde minerar e como minerar.

A primeira questão, sobre o volume necessário, depende do uso de design industrial eficiente, substituição de materiais escassos e ampliação do reaproveitamento.

O setor da engenharia estrutural, por exemplo, já demonstra que a otimização de projetos por algoritmos generativos consegue reduzir em até 30% a quantidade de aço necessária em grandes infraestruturas.

A segunda pergunta trata da localização e exige direcionar o licenciamento para afastar a atividade de biomas críticos e de altíssima sensibilidade ecológica e social, como algumas áreas da Amazônia, a cordilheira dos Andes e as florestas tropicais centrais da África.

A terceira questão diz respeito aos métodos operacionais, que exigem da indústria a substituição da antiga lógica da volumetria bruta pela mineração de precisão. Isso significa extrair e beneficiar estritamente o mineral de interesse, explorar com alta eficiência salmouras e fluidos industriais, além de investir fortemente na remineração de resíduos.

A transformação de rejeitos e estéreis em novos produtos, a exemplo de agregados para a construção civil, remineralizadores de solo e recuperação de coprodutos valiosos, muda a natureza do negócio, de modo que cada tonelada de mineral reaproveitada a partir de um passivo existente é uma tonelada a menos a ser extraída de uma nova cava.

Neste cenário de reconfiguração global, o Brasil possui um conjunto único de vantagens comparativas. O país detém reservas expressivas de minerais estratégicos como cobre, níquel, lítio, grafita, nióbio e terras raras, aliadas a uma das matrizes elétricas mais limpas e renováveis do planeta e a um corpo técnico-científico altamente qualificado.

Em um mercado global que caminha para premiar a rastreabilidade e o desempenho socioambiental comprovado, esses ativos valem muito mais do que num modelo que disputa apenas volume de commodity bruta.

Exigências rigorosas de rastreabilidade, pegada de carbono reduzida e previsibilidade institucional deixam de ser custos regulatórios para se tornarem a principal vantagem competitiva do país, traduzindo-se em atração de investimentos de longo prazo, menor custo de capital e maior liquidez para as empresas operando em território nacional.

O risco do caminho inverso é alarmante.

Apostar no afrouxamento das regras ou no desmonte dos órgãos de controle em busca de ganhos imediatos de velocidade resulta, inevitavelmente, em custos futuros devastadores, como perda de reputação internacional, judicialização de projetos, conflitos territoriais e aumento expressivo do custo de capital.

Segurança de suprimento mineral e salvaguardas socioambientais não são forças antagônicas; elas só parecem opostas quando a burocracia é morosa, imprevisível e ineficiente.

Quando o Estado atua com regras claras, governança sólida e inteligência técnica para oferecer processos ágeis e rigorosos, a segurança de suprimento e a sustentabilidade passam a se reforçar mutuamente.

Para o setor empresarial, o momento exige o desenvolvimento de três competências essenciais: flexibilidade estratégica para gerir ativos com ciclos de vida de várias décadas em meio a mudanças céleres; capacidade de absorção tecnológica, buscando inovações dentro e fora da cadeia tradicional da mineração; e a capacidade de construir relacionamentos transparentes e horizontais com governos, comunidades locais e a sociedade civil.

Para o Estado brasileiro, a lição direta é que a licença social para operar e a governança socioambiental e climática não são meros requisitos formais, mas verdadeiros ativos de segurança nacional e competitividade econômica.

A janela de oportunidade para moldar o perfil da mineração global em 2050 está aberta, mas não permanecerá assim por muito tempo.

O Brasil pode continuar sendo um fornecedor passivo que tenta se adaptar às exigências dos mercados compradores, ou assumir a liderança e tornar-se o protagonista global que define o padrão da mineração responsável. A escolha precisa ser feita agora.

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.

Vale não prevê dividendos extraordinários em 2026, diz CFO

30 October 2026 at 16:24

A Vale não prevê o pagamento de dividendos extraordinários em 2026, diante das incertezas geopolíticas esperadas para o próximo ano. A informação foi dada nesta sexta-feira (30) pelo vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores da companhia, Marcelo Bacci, durante teleconferência sobre os resultados do terceiro trimestre.

Segundo o executivo, a companhia prefere manter uma postura conservadora na administração de seus recursos para enfrentar eventuais turbulências no cenário internacional.

“Preferimos ficar do lado conservador para lidarmos com as medidas incertas”, afirmou Bacci.

O executivo acrescentou que a possibilidade de uma distribuição adicional de recursos aos acionistas poderá voltar a ser discutida futuramente, mas considera prematuro avançar nessa decisão neste momento.

Por outro lado, a mineradora identifica oportunidades para ampliar a recompra de suas próprias ações diante da recente desvalorização observada no setor de mineração.

A Vale mantém em aberto um programa de recompra de até 100 milhões de ações, aprovado pelo Conselho de Administração em julho deste ano. A operação permite que a companhia adquira seus próprios papéis no mercado, conforme as condições estabelecidas no programa.

“Temos um programa de recompra em aberto, para recomprar até 100 milhões de ações. Nesse momento, tivemos uma queda no setor como um todo. Isso dá oportunidade para recomprar”, disse.

De acordo com Bacci, a companhia continuará monitorando o desempenho dos papéis e poderá aproveitar eventuais condições favoráveis para novas aquisições.

“Vamos continuar monitorando o mercado. Achamos que vamos ter oportunidades nos próximos meses de fazer recompras”, concluiu.

Vale vê na política de minerais críticos chance de ampliar investimentos

30 October 2026 at 16:18

A Vale avalia que a regulamentação da política nacional de minerais críticos e estratégicos poderá abrir novas oportunidades de investimento e crescimento para a companhia no Brasil. A avaliação foi feita nesta sexta-feira (30) pelo vice-presidente executivo de Finanças e Relações com Investidores da mineradora, Marcelo Bacci, durante entrevista sobre os resultados do terceiro trimestre.

Segundo o executivo, a expectativa é de que as novas regras funcionem como um estímulo adicional à expansão dos negócios da empresa. Ele ponderou, no entanto, que será necessário conhecer o texto final da regulamentação para avaliar o potencial efetivo de novos investimentos.

“Isso pode abrir oportunidades de investimentos e crescimento adicional. Precisamos ver o que vem no final da regulamentação para entender qual será o upside”, afirmou Bacci.

As declarações ocorrem em meio aos preparativos do governo federal para regulamentar a nova política de minerais críticos e estratégicos, que prevê mecanismos voltados à atração de investimentos e ao desenvolvimento da cadeia produtiva mineral no país.

Questionado sobre a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Bacci afirmou que a Vale havia se preparado para diferentes cenários eleitorais e desenvolvido estratégias para ambos os resultados possíveis.

“Como qualquer companhia do tamanho da Vale, nos preparamos para todos os cenários. Tínhamos estratégias diferentes para os dois”, disse.

O executivo avaliou positivamente a continuidade do relacionamento com o governo federal, que classificou como construtivo, e manifestou expectativa de que a mineração se torne um dos principais motores do crescimento econômico brasileiro nos próximos anos.

“Temos um relacionamento muito construtivo com esse governo. Temos uma expectativa grande de que a mineração possa ser o grande motor de crescimento do Brasil nos próximos anos”, afirmou.

Bacci também mencionou a expectativa de publicação de um decreto sobre cavidades naturais subterrâneas, como cavernas e grutas, cuja presença pode impor restrições ao desenvolvimento de projetos de mineração. A medida foi anunciada em junho pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, e busca atualizar os critérios técnicos utilizados na classificação dessas formações, com o objetivo de reduzir a insegurança jurídica e dar maior previsibilidade aos processos de licenciamento ambiental.

A regulamentação é acompanhada de perto pela Vale, que enfrenta limitações para expandir operações em áreas com cavidades naturais, especialmente na região de Carajás, no Pará. O governo avalia que a atualização das regras poderá destravar empreendimentos atualmente sujeitos a restrições ambientais, sem afastar a necessidade de proteção das formações de maior relevância.

Vale tem queda de 53% no lucro líquido do 3º tri; Ebitda recua 24%

29 October 2026 at 22:49

A mineradora Vale teve lucro líquido de US$ 1,255 bilhão no terceiro trimestre, queda de 53% em relação ao mesmo período do ano anterior, informou a companhia nesta quinta-feira (29).

O lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) ajustado somou US$ 3,327 bilhões entre julho e setembro, recuo de 24% ante o mesmo intervalo de 2025.

A receita líquida de vendas totalizou US$ 10,599 bilhões, alta de 2% na mesma comparação.

A Vale informou ainda que manteve inalterados todos os seus guidances de produção para 2026, destacando que cobre e níquel seguem caminhando para a metade superior das faixas previstas para o ano.

Minerais críticos podem elevar PIB do país em R$ 243 bi até 2050

 

Thiago Toscano trocará Itaminas por “supersecretaria” no governo Cleitinho

29 October 2026 at 19:54

O economista Thiago Toscano aceitou o convite do governador eleito de Minas Gerais Cleitinho Azevedo (Republicanos) e vai fazer parte do secretariado do futuro governo.

O martelo foi batido nesta quinta-feira (29), após reunião do futuro secretario, que atualmente comanda a Itaminas, com Cleitinho e com o vice-governador eleito, Luís Eduardo Falcão.

Toscano é ex-presidente da Codemig (Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais) e Codemge (Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais).

Formado em Economia e Ciência Contábeis, com pós graduação em Finanças e Gestão Pública, Toscano atua há mais de 20 anos atua na modelagem e implementação de projetos de concessões, infraestrutura e privatizações, nos setores de energia, saneamento básico, mobilidade e mineração.

Desde 2011, ele atua também como professor na Fundação Dom Cabral, especialista nas áreas de Planejamento Estratégico, Gestão Pública, Microeconomia e Balance Scorecard.

 A partir de janeiro, ele ficará responsável pela área econômica, de gestão, de novos negócios e de atrações de investimentos do governo mineiro.

À Itatiaia, Toscano destacou que tem muito a contribuir com a gestão pública.

“Recebo com muito orgulho o convite do governador eleito Cleitinho. Todos sabem que tenho uma vocação para o setor público e acredito que posso contribuir com a experiência em gestão pública e desenvolvimento econômico. É uma grande oportunidade de voltar a trabalhar por Minas e melhorar a vida das pessoas”, afirmou.

Atuação no governo mineiro

A frente da Codemig e Codemge, o economista participou da atração de grandes empresas como a Amazon, Mercado Livre e a Heineken para Minas Gerais.

Antes de assumir o comando da estatal mineira, entre 2019 e 2021, Toscano atuou como Secretário Executivo de Desestatização em Minas Gerais, na Agência de Promoção de Investimento e Comércio Exterior.

Governo nomeia secretário-executivo do conselho de minerais críticos

28 October 2026 at 16:50

O governo federal nomeou Carlos Leonardo Teófilo Durans para o cargo de secretário-executivo do CIMCE (Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos), órgão criado para coordenar a nova política brasileira para o setor mineral.

A nomeação consta de portaria assinada pela ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, publicada nesta quarta-feira (28) no DOU (Diário Oficial da União).

Durans ficará responsável por comandar a estrutura técnica e administrativa do conselho, instalada no MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços), que terá participação direta na análise de projetos, investimentos e operações empresariais envolvendo minerais críticos e estratégicos.

O novo secretário-executivo é servidor de carreira e analista de Comércio Exterior desde 2013. Até então, ocupava o cargo de diretor do Departamento de Desenvolvimento da Indústria de Insumos e Materiais Intermediários do MDIC.

Formado em Ciência da Computação pela Universidade Federal do Maranhão, Durans possui experiência na formulação de políticas industriais e já atuou em áreas relacionadas à inovação, produtividade e desenvolvimento de cadeias produtivas, incluindo os setores de petróleo e gás, defesa e indústria aeroespacial.

A nomeação representa mais uma etapa na implementação do CIMCE, instituído em setembro pela nova Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que busca ampliar a produção mineral brasileira e estimular o desenvolvimento das etapas de beneficiamento, processamento e transformação industrial dentro do país.

O conselho terá atribuições que vão além da formulação de políticas públicas. A legislação também estabelece um mecanismo de análise e homologação de determinadas operações envolvendo ativos minerais, incluindo mudanças de controle societário, transferências de direitos minerários e contratos internacionais de fornecimento que possam afetar a segurança econômica ou geopolítica do Brasil.

Na prática, o mecanismo permitirá ao governo, nos casos sujeitos à triagem, aprovar operações, estabelecer condições para sua realização ou negar a homologação, funcionando como uma espécie de poder de veto sobre determinados negócios do setor mineral.

A estrutura do CIMCE divide as atribuições entre diferentes ministérios. A Casa Civil preside o Pleno, responsável pelas diretrizes estratégicas, enquanto o MDIC coordena o Comitê Executivo e abriga a Secretaria-Executiva. O MME (Ministério de Minas e Energia), por sua vez, participa das decisões e deverá emitir manifestação técnica nos processos previstos na regulamentação.

Estrutura terá três subsecretarias

Um decreto publicado em 19 de outubro estabeleceu a criação de três subsecretarias vinculadas à Secretaria-Executiva, que ficará sob o comando de Durans.

A primeira, de Gestão e Assessoramento ao Pleno, será responsável pela organização administrativa do colegiado, pela preparação de reuniões e pelo apoio técnico à elaboração do Plano Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos.

A Subsecretaria de Projetos terá a função de receber e analisar requerimentos de empreendimentos minerais, organizar o cadastro dos projetos submetidos ao conselho e elaborar relatórios técnicos com propostas de deliberação.

Já a Subsecretaria de Análise de Operações ficará encarregada de instruir os processos relacionados ao mecanismo de triagem de investimentos, incluindo operações societárias e contratos internacionais abrangidos pela legislação.

Essa última estrutura também poderá preparar propostas de medidas cautelares e analisar o cumprimento das condições estabelecidas pelo conselho em suas decisões.

A escolha do secretário-executivo ocorre em meio à preparação das regras que definirão como o novo mecanismo de triagem será aplicado às empresas do setor mineral.

Entre os pontos que ainda dependem de regulamentação estão os critérios para identificar quais operações precisarão passar pela homologação do governo e os procedimentos que deverão ser observados pelas empresas.

A definição dessas regras é considerada especialmente relevante para operações de fusões e aquisições e contratos de fornecimento de longo prazo, frequentemente utilizados por mineradoras para garantir financiamento e viabilizar novos empreendimentos.

A nomeação de Durans, contudo, não representa o início automático das análises de operações. O funcionamento efetivo do mecanismo dependerá da conclusão das etapas regulatórias e da estruturação administrativa do conselho.

Glencore e chinesa compram 5 anos de produção de mina de níquel no Pará

28 October 2026 at 15:16

A gigante de commodities Glencore e a chinesa CNGR fecharam acordos para comprar toda a produção prevista de concentrado de níquel do projeto Jaguar, localizado em São Félix do Xingu, no Pará, durante os primeiros cinco anos de operação da futura mina. O empreendimento pertence à australiana Centaurus Metals e é considerado um dos principais projetos de níquel sulfetado em desenvolvimento no Brasil.

Os contratos, anunciados nesta quarta-feira (28), também incluem compromissos de investimento de US$ 40 milhões na mineradora australiana. Segundo a Centaurus, os dois novos acordos representam aproximadamente US$ 900 milhões em vendas estimadas ao longo de cinco anos, considerando os preços atuais do níquel.

Cada um dos novos contratos prevê o fornecimento mínimo de 100 mil toneladas de concentrado de níquel de alto teor durante cinco anos, o equivalente a 20 mil toneladas anuais por empresa. As entregas deverão começar no primeiro semestre de 2029, quando está previsto o início da produção do Jaguar.

Os volumes se somam a um contrato anterior, assinado com a Glencore em março deste ano, que já havia comprometido outras 20 mil toneladas anuais. Dessa forma, a Centaurus passa a ter compradores para 100% da produção prevista de concentrado de níquel nos primeiros cinco anos de funcionamento da mina.

A produção contratada corresponde a aproximadamente 22,5 mil toneladas anuais de níquel contido no concentrado, segundo as estimativas da companhia. O produto terá teor de aproximadamente 30% de níquel e ainda precisará passar por etapas industriais adicionais para a obtenção do metal refinado.

Os contratos estabelecem que a produção excedente aos volumes mínimos também será adquirida pelas duas empresas, com os lotes adicionais distribuídos alternadamente entre Glencore e CNGR. A mineradora estima que esse volume complementar poderá alcançar 60 mil toneladas de concentrado ao longo dos cinco anos.

Os preços serão vinculados às cotações internacionais do níquel na LME (Bolsa de Metais de Londres), com mecanismos de ajuste conforme o valor do metal. Os acordos também preveem remuneração pela presença de cobre e cobalto no concentrado.

Por isso, os US$ 900 milhões anunciados representam uma estimativa de vendas dos dois novos contratos, e não uma receita garantida ou um pagamento antecipado à mineradora. O valor efetivamente recebido dependerá das cotações internacionais e dos volumes fornecidos.

A Glencore é uma das maiores empresas globais de mineração e comercialização de commodities, com atuação em diferentes etapas da cadeia produtiva do níquel. Já a CNGR é uma das principais fabricantes chinesas de materiais utilizados na produção de baterias, especialmente precursores empregados na fabricação de componentes das baterias de íons de lítio para veículos elétricos.

A entrada da companhia chinesa amplia a conexão do projeto brasileiro com a cadeia internacional de baterias, em um contexto de crescente importância estratégica do níquel para a indústria e de busca por novas fontes de fornecimento fora da Indonésia, que concentra parcela expressiva da produção mundial.

No contrato original firmado em março, a Centaurus informou que o concentrado adquirido pela Glencore teria como destino-base uma unidade metalúrgica da companhia em Sudbury, no Canadá. Os novos acordos, entretanto, não detalham o destino industrial dos volumes adicionais contratados.

Investimentos e financiamento

Além da compra futura da produção, a Glencore e a CNGR assumiram compromissos de investir US$ 20 milhões cada na Centaurus, por meio da aquisição de ações da mineradora australiana.

Os aportes serão divididos em duas etapas. A primeira prevê US$ 25 milhões, sendo US$ 12,5 milhões de cada empresa. A segunda, de US$ 15 milhões, dependerá da aprovação dos acionistas da Centaurus e da decisão final de investimento necessária para autorizar a construção do Jaguar.

No caso da CNGR, os investimentos também estão sujeitos à autorização das autoridades chinesas para operações de investimento no exterior. As condições da segunda etapa deverão ser cumpridas até 31 de janeiro de 2027.

Segundo o diretor-geral da Centaurus, Darren Gordon, os acordos representam um avanço na estruturação financeira e comercial do empreendimento.

“Com 100% da produção prevista do Jaguar para os primeiros cinco anos agora contratada e US$ 40 milhões em novos investimentos estratégicos comprometidos, avançamos significativamente nas bases comerciais e financeiras para desenvolver o projeto”, afirmou Gordon, em comunicado ao mercado.

Os novos compromissos também deverão contribuir para a conclusão das negociações de financiamento da mina. A Centaurus informou que as tratativas para obtenção de crédito estão em estágio avançado, mas ainda não anunciou a conclusão do pacote financeiro necessário para autorizar a construção.

Em março, a companhia anunciou ter recebido uma carta de intenção do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) para um possível financiamento de R$ 1 bilhão.

A manifestação, entretanto, não representa uma aprovação definitiva de crédito. A liberação dos recursos depende da conclusão das análises técnicas, financeiras e jurídicas, além das aprovações internas do banco.

Projeto Jaguar

Localizado na região mineral de Carajás, o Jaguar foi adquirido pela Centaurus da Vale em 2020 e reúne alguns dos principais depósitos de níquel sulfetado ainda não desenvolvidos no país.

A mineradora estima recursos minerais de 138,2 milhões de toneladas de minério, com teor médio de 0,87% de níquel, o equivalente a aproximadamente 1,2 milhão de toneladas do metal contidas nos depósitos identificados.

Desse total, a empresa delimitou reservas economicamente lavráveis de 52 milhões de toneladas de minério, com aproximadamente 406 mil toneladas de níquel contido, considerando as condições estabelecidas nos estudos de engenharia.

O planejamento inicial prevê uma mina a céu aberto com vida útil de 15 anos e produção média de 18,7 mil toneladas anuais de níquel contido no concentrado ao longo desse período. O investimento necessário para colocar o empreendimento em operação foi estimado em US$ 380 milhões, segundo o estudo de otimização divulgado pela companhia em 2025.

O níquel é utilizado principalmente na produção de aço inoxidável, mas também desempenha papel importante na fabricação de determinadas baterias de veículos elétricos e em outras aplicações industriais. O desenvolvimento de novos projetos de níquel sulfetado ganhou importância para a diversificação das cadeias internacionais de fornecimento do mineral.

No Brasil, o Jaguar integra uma carteira de projetos voltados à ampliação da oferta de minerais considerados estratégicos para a indústria e para a transição energética. Embora o empreendimento preveja o beneficiamento mineral no Pará, os contratos de fornecimento reforçam sua conexão com instalações industriais e compradores internacionais.

A Centaurus ainda precisa concluir a estrutura de financiamento e tomar a decisão final de investimento antes de avançar para a construção da mina. Os novos contratos preveem a possibilidade de encerramento pelas compradoras caso a primeira remessa de concentrado não seja enviada até o final de 2029.

Australiana amplia em 29% depósito de terras raras de alto teor na Bahia

27 October 2026 at 19:21

A mineradora australiana Brazilian Rare Earths anunciou uma ampliação de 41% nos recursos minerais indicados de alto teor do projeto Monte Alto, localizado no interior da Bahia. A atualização elevou de 2,51 milhões para 3,54 milhões de toneladas a quantidade de material classificado nessa categoria, considerada de maior confiança geológica.

O resultado foi divulgado pela companhia na segunda-feira (26) e faz parte de uma nova estimativa dos recursos minerais do empreendimento, situado entre os municípios de Jiquiriçá e Ubaíra, aproximadamente 270 quilômetros a sudoeste de Salvador.

Considerando também os recursos classificados como inferidos, que apresentam menor grau de conhecimento geológico, o volume total de material de altíssimo teor passou de 3,4 milhões para 4,4 milhões de toneladas, um crescimento de 29%.

O teor médio de óxidos de terras raras desse conjunto ficou em 9,87%, ante 11,26% na estimativa anterior. Já os recursos indicados apresentam concentração média de 10,71%, segundo os dados divulgados à bolsa australiana.

A ampliação foi impulsionada principalmente pela identificação de novas zonas mineralizadas na porção sul de Monte Alto. Nessa área, os recursos indicados cresceram aproximadamente 200%, alcançando 1,9 milhão de toneladas.

Ao todo, a nova estimativa incorpora 8,1 mil metros adicionais de sondagens, distribuídos por 33 furos. O banco de dados utilizado pela companhia reúne mais de 43 mil metros de perfurações diamantadas, realizadas em 255 furos.

Apesar do avanço, os volumes divulgados representam estimativas de recursos minerais, e não reservas com viabilidade econômica demonstrada. A transformação desses recursos em reservas depende de estudos adicionais sobre as condições técnicas e econômicas de exploração.

O projeto Monte Alto integra o complexo Rocha da Rocha, que também inclui o depósito Sulista, e é considerado o empreendimento mais avançado da Brazilian Rare Earths no Brasil.

Além de neodímio e praseodímio, elementos utilizados principalmente na fabricação de ímãs permanentes, o depósito apresenta concentrações relevantes de terras raras pesadas, como disprósio e térbio.

Esses minerais possuem aplicações estratégicas na fabricação de equipamentos industriais, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa, especialmente em tecnologias que utilizam ímãs capazes de operar sob temperaturas elevadas.

A companhia identificou ainda a presença de outros minerais considerados estratégicos, incluindo nióbio, escândio, tântalo e urânio, cujo potencial de aproveitamento comercial dependerá de avaliações adicionais.

Exportações antes da refinaria

A ampliação dos recursos ocorre enquanto a Brazilian Rare Earths avalia uma estratégia para antecipar o início das operações comerciais de Monte Alto, sem depender inicialmente da construção de uma refinaria de terras raras.

O plano prevê a implantação de uma estrutura de mineração e beneficiamento relativamente simples, utilizando processos convencionais de extração e separação física do minério para produzir concentrado de alto teor destinado ao mercado internacional.

A intenção é iniciar a comercialização desse produto antes da entrada em operação da unidade de processamento hidrometalúrgico e separação de terras raras que a companhia pretende construir no Polo Industrial de Camaçari, também na Bahia.

A refinaria planejada faz parte da estratégia de industrialização da empresa no Brasil e deverá receber concentrados minerais para etapas posteriores de processamento, permitindo a obtenção de produtos de maior valor agregado.

Segundo a mineradora, o modelo de desenvolvimento em etapas poderia reduzir a necessidade inicial de investimentos e permitir a geração antecipada de receitas, que seriam utilizadas para ajudar a financiar a implantação da estrutura industrial.

“Ao estabelecer essa operação antes da refinaria de Camaçari, pretendemos gerar receitas antecipadas para financiar o desenvolvimento das etapas posteriores e reduzir nossa dependência de capital externo”, afirmou Bernardo da Veiga, diretor-presidente da Brazilian Rare Earths.

A estratégia representa uma alternativa ao desenvolvimento simultâneo de toda a cadeia produtiva, que exige investimentos elevados em mineração, beneficiamento e processamento químico antes da obtenção das primeiras receitas.

A empresa ressalta, entretanto, que o projeto de exportação de concentrado ainda está em fase de estudos e depende de novas avaliações técnicas, econômicas e das autorizações necessárias.

A Brazilian Rare Earths pretende concluir até dezembro deste ano o estudo de viabilidade da primeira etapa de Monte Alto, voltada à comercialização de concentrado mineral.

O documento deverá utilizar a nova estimativa de recursos para avaliar as condições de exploração, os investimentos necessários e a viabilidade da operação.

A companhia ainda não estabeleceu uma data definitiva para o início das exportações, tampouco informou quando pretende começar a construção da refinaria em Camaçari.

Paralelamente, a mineradora continuará os trabalhos de exploração para avaliar novas extensões do depósito. O programa inclui mais de 5 mil metros de sondagens direcionadas a áreas que ainda apresentam potencial de mineralização.

 

Cotado à Fazenda, Fonteles apostou em terras raras e hidrogênio verde no PI

27 October 2026 at 14:35

Cotado para assumir o Ministério da Fazenda no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), tem apostado na atração de investimentos privados para desenvolver setores estratégicos da economia estadual, com destaque para a pesquisa de terras raras, a produção de hidrogênio verde e a infraestrutura.

A estratégia econômica adotada pelo petista combina a ampliação do conhecimento geológico do estado, incentivos à instalação de novas indústrias e concessões de serviços públicos à iniciativa privada. O movimento ocorre em meio à corrida internacional por minerais críticos e à busca por fontes de energia capazes de reduzir as emissões de carbono na produção industrial.

Fonteles é apontado como um dos nomes considerados para comandar a equipe econômica de Lula a partir de 2027. Conforme mostrou a CNN, o governador sinalizou a aliados disposição para assumir um cargo no governo federal caso seja convidado pelo presidente.

Reeleito no primeiro turno com 70,90% dos votos válidos, o governador ganhou projeção nacional após integrar o núcleo da campanha de Lula no segundo turno. Antes de assumir o governo do Piauí, em 2023, Fonteles comandou a Secretaria da Fazenda estadual e presidiu o Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal). O petista é formado em matemática e possui mestrado em economia matemática.

À frente do Executivo piauiense, Fonteles passou a promover o estado como destino de investimentos ligados à transição energética e à industrialização. Uma das frentes mais recentes envolve as terras raras, grupo de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de alta tecnologia.

O Piauí começou a atrair a atenção de empresas estrangeiras diante de novos levantamentos geológicos que indicam potencial para a ocorrência desses elementos em diferentes regiões do território estadual.

Entre as companhias interessadas está a canadense Origen Resources, que desenvolve trabalhos exploratórios no projeto Picos, no interior do estado.

Em setembro, a mineradora informou ter concluído o mapeamento geológico detalhado de uma área com indícios de mineralização e a primeira etapa de coleta de 328 amostras de solo. A companhia também avançou em levantamentos geofísicos aerotransportados, utilizados para identificar características das rochas e orientar futuras campanhas de exploração.

No mesmo mês, a Origen anunciou a decisão de avançar na aquisição de uma participação de 70% no projeto Campo de Cima, que abrange 33.075 hectares entre o Piauí e a Bahia.

Os estudos preliminares indicam potencial para depósitos de terras raras associados a argilas de adsorção iônica, modelo geológico especialmente relevante para a produção de elementos pesados, utilizados em tecnologias industriais e aplicações de defesa.

Apesar do interesse crescente, os projetos ainda estão em fase de pesquisa. As ocorrências identificadas precisam passar por novas etapas de investigação para determinar a extensão dos depósitos, a concentração dos minerais e a viabilidade econômica de uma eventual operação comercial.

O potencial mineral do Piauí também despertou a atenção do SGB (Serviço Geológico do Brasil). Em levantamento divulgado em 2025, pesquisadores identificaram 39 novas ocorrências de rochas associadas a fosfato, urânio e terras raras na borda oriental da Bacia do Parnaíba.

Em novembro do ano passado, Fonteles se reuniu em Brasília com a então diretora-presidente do SGB, Sabrina Góis, para discutir parcerias destinadas à ampliação do mapeamento geológico do estado. Na ocasião, o governador manifestou interesse em aprofundar o conhecimento sobre o potencial mineral piauiense e buscar apoio técnico da instituição.

A intenção é ampliar a disponibilidade de informações geológicas, consideradas fundamentais para reduzir os riscos das etapas iniciais da pesquisa mineral e estimular a entrada de novas empresas no setor.

Aposta no hidrogênio verde

Além da mineração, uma das principais vitrines da política econômica de Fonteles é a tentativa de transformar o Piauí em um polo de produção de hidrogênio verde, aproveitando a disponibilidade de energia solar e eólica no estado.

O combustível é produzido por meio da separação das moléculas de água, em um processo conhecido como eletrólise, utilizando eletricidade de fontes renováveis. O produto pode ser empregado na fabricação de fertilizantes e combustíveis industriais, além de substituir insumos de origem fóssil em determinadas etapas da siderurgia.

A estratégia do governo é utilizar a ZPE (Zona de Processamento de Exportação) de Parnaíba, no litoral piauiense, para atrair indústrias interessadas em produzir hidrogênio e seus derivados, como amônia verde, com foco tanto no mercado interno quanto na exportação.

A política ganhou respaldo institucional em 2024, quando Fonteles sancionou a Lei nº 8.459, que instituiu a Política Estadual do Hidrogênio Verde. A legislação prevê instrumentos de incentivo à cadeia produtiva, estímulo à pesquisa e atração de investimentos em infraestrutura energética.

Um dos maiores projetos anunciados foi o da espanhola Solatio, que apresentou um plano de R$ 27 bilhões para instalar uma unidade de produção de hidrogênio e amônia verdes em Parnaíba.

O empreendimento recebeu autorização para instalação em 2025 e chegou a iniciar obras preliminares. Entretanto, enfrentou entraves ambientais e de infraestrutura que comprometeram seu cronograma.

Mais recentemente, em outubro de 2026, o governo estadual anunciou avanços nos estudos para a implantação de uma planta-piloto de hidrogênio líquido em Parnaíba.

Apesar do interesse crescente, a viabilidade comercial do hidrogênio verde em larga escala ainda enfrenta questionamentos, principalmente devido aos elevados custos de produção, à necessidade de infraestrutura específica e à ausência de demanda consolidada.

Por isso, o combustível ainda é tratado como uma aposta de médio e longo prazo para a descarbonização da indústria, com a concretização dos investimentos dependendo de avanços tecnológicos, redução de custos e contratos de fornecimento capazes de garantir retorno financeiro aos projetos.

Infraestrutura e concessões

A estratégia econômica de Fonteles também passa pela ampliação da infraestrutura logística e pela participação do setor privado na prestação de serviços públicos.

Em junho de 2026, o Porto Piauí, localizado no município de Luís Correia, iniciou uma nova etapa operacional voltada à exportação de minério de ferro para a China.

A operação está associada à produção mineral da Lion Mining, instalada em Piripiri, e busca criar uma alternativa logística para o escoamento de commodities produzidas no estado, reduzindo a dependência de terminais localizados em outras unidades da Federação.

Em outra frente, Fonteles conduziu a concessão dos serviços de água e esgoto do estado à iniciativa privada.

Na área rodoviária, a gestão também ampliou uma PPP (parceria público-privada) no sul do Piauí, incorporando mais de 307 quilômetros de estradas ao contrato da concessionária CS Grãos do Piauí.

As intervenções estão concentradas em corredores utilizados para o transporte de produtos agrícolas, especialmente na região dos Cerrados, onde a expansão da produção exige investimentos em infraestrutura de escoamento.

Em balanço apresentado em fevereiro deste ano, o governo estadual informou que o Piauí havia atraído 120 empreendimentos desde 2023, entre projetos instalados e em fase de implantação, com investimentos associados de R$ 44,7 bilhões.

Deputadas de Minas pedem suspensão de decreto de Zema que beneficiou mineradora Cedro

23 September 2026 at 20:00

Duas deputadas estaduais de Minas Gerais apresentaram, na terça-feira, 22 de setembro, um projeto de resolução que pede a suspensão de um decreto de fevereiro do então governador e candidato à presidência, Romeu Zema (Novo), que beneficiou a Cedro Mineração Mariana. O pedido aconteceu três dias depois da publicação de reportagem pela Agência Pública.

O grupo Cedro é comandado por Lucas Prado Kallas, que tem conexões com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, envolvidos no escândalo do Master.

O projeto de resolução foi protocolado na Assembleia Legislativa de Minas Gerais pelas deputadas Bella Gonçalves e Beatriz Cerqueira, do PT, e precisa passar pela tramitação da Casa. A justificativa para o pedido fala em vícios de inconstitucionalidade e ilegalidade, inconsistências técnicas, divergência métrica e indícios de conflito de interesses sob investigação na própria Assembleia. “Além dos efeitos danosos da própria atividade de mineração na área, para as comunidades e para o meio ambiente, o decreto é viciado por inconstitucionalidades e ilegalidades que o impedem de produzir efeitos”, justificam as parlamentares no projeto.

O ato de Zema determinou que duas fazendas na cidade de Mariana podem ser usadas pela Cedro Mineração Mariana para atividades minerárias. O então governador cita nominalmente a empresa ao dizer que a medida é necessária “à expansão de atividades do empreendedor Cedro Mineração Mariana S.A”.

Além do questionamento no Legislativo mineiro, o decreto também é alvo de ação na Justiça, segundo documentos obtidos pela Agência Pública, pois na área em disputa já existe alvará de pesquisa mineral em favor de outra empresa, a Rio Abaeté Minerais. Além disso, a ação judicial diz que a região “alcança ou tangencia outros 14 títulos minerários, todos submetidos ao regime federal da ANM [Agência Nacional de Mineração].”

A ação, impetrada pela Rio Abaeté Minerais, tem pedido de liminar – que foi aceito em 9 de julho deste ano por magistrado da Justiça Federal. O juiz estabeleceu multa de R$ 50 mil por dia em caso de descumprimento. Determinou ainda que o estado de Minas Gerais e a Cedro Mineração Mariana não tomem, nas áreas em disputa, nenhuma medida que impeça, limite ou atrapalhe o uso do alvará de pesquisa, “como entrar no terreno, instalar estruturas, desmatar, abrir acessos, registrar restrições no cartório ou limitar a circulação”. O juiz pede também que a ANM seja notificada.

A Cedro recorreu, pedindo segredo de Justiça no processo e também a suspensão da liminar. Ambos foram negados pelo juiz em 13 de agosto.

A empresa disse, por meio de sua assessoria de imprensa, que a declaração de utilidade pública pela administração estadual seguiu os ritos legais, regulatórios e ambientais. O grupo acrescentou que a companhia “respeita a Justiça e cumpre toda decisão transitada em julgado.” 

Quem é Lucas Kallas

O fundador da Cedro, Lucas Kallas, ganhou o noticiário nesta semana porque a empresa repassou, em 2024, mais de R$ 5 milhões ao instituto educacional ligado ao ministro do STF André Mendonça e contratou no início deste ano o escritório da mulher do também ministro Alexandre de Moraes. As informações foram confirmadas pela assessoria de imprensa do escritório Barci de Moraes à Pública e pelo CEO do instituto Iter à Folha.

Kallas também aparece mencionado em mensagens do grupo que atuava para proteger Vorcaro de investigações, o “A Turma”, segundo apuração do Metrópoles. Nas mensagens, Manoel Rodrigues, preso em maio por suspeita de ameaçar pessoas a mando de Vorcaro, chama Kallas de “sócio” do ex-banqueiro. A empresa nega que o empresário mineiro seja sócio de Vorcaro.

Exclusivo: Decreto de Romeu Zema beneficiou mineradora de Lucas Kallas, ligado a Vorcaro

19 September 2026 at 20:52

Um decreto publicado no início deste ano pelo então governador de Minas Gerais e candidato à presidência, Romeu Zema (Novo), beneficiou a Cedro Mineração Mariana, empresa que faz parte do grupo Cedro, fundado por Lucas Prado Kallas. O empresário da mineração tem conexões com ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, envolvidos no escândalo do Master.

O ato de Zema, publicado em de 6 de fevereiro, determinou que duas fazendas na cidade de Mariana podem ser usadas pela Cedro Mineração Mariana para atividades minerárias. O então governador cita nominalmente a empresa ao dizer que a medida é necessária “à expansão de atividades do empreendedor Cedro Mineração Mariana S.A”.

O decreto, porém, é alvo de ação na Justiça, segundo documentos obtidos pela Agência Pública, pois na área em disputa já existe alvará de pesquisa mineral em favor de outra empresa, a Rio Abaeté Minerais. Além disso, a ação judicial diz que a região “alcança ou tangencia outros 14 títulos minerários, todos submetidos ao regime federal da ANM [Agência Nacional de Mineração].”

O governador de Minas Gerais, Romeu Zema, durante cerimônia de assinatura do novo acordo de repactuação da reparação dos danos da tragédia de Mariana
A ampliação da área de atuação da Cedro em Mariana, respaldada por decreto de Zema, é alvo de ação na Justiça

As ligações com André Mendonça e Daniel Vorcaro

Lucas Kallas ganhou o noticiário nesta semana porque o grupo Cedro repassou, em 2024, mais de R$ 5 milhões ao instituto educacional ligado ao ministro do STF André Mendonça e contratou no início deste ano o escritório da mulher do também ministro Alexandre de Moraes. As informações foram confirmadas pela assessoria de imprensa do escritório Barci de Moraes à Pública e pelo CEO do instituto Iter à Folha.

Kallas também aparece mencionado em mensagens do grupo que atuava para proteger Vorcaro de investigações, o “A Turma”, segundo apuração do Metrópoles. Nas mensagens, Manoel Rodrigues, preso em maio por suspeita de ameaçar pessoas a mando de Vorcaro, chama Kallas de “sócio” do ex-banqueiro.

O megaempresário da mineração também tem conexões com Daniel Vorcaro. Em 2024, investimentos de Kallas e do ex-banqueiro foram para a farmacêutica Biomm, que disputa vender uma versão brasileira do Ozempic. Parte das ações da empresa estava nas mãos do Fundo Cartago ligado ao Master e que foi liquidado após a falência do banco. A Biomm admitiu, em comunicado no fim do ano passado, que o Cartago, do Master, passou a deter ações da farmacêutica em 2024, alcançando 25,9% de participação em dezembro de 2025.

Após o escalonamento das investigações sobre o Master e a rede de Vorcaro, o grupo Cedro vendeu sua participação na farmacêutica Biomm em abril deste ano. Três meses depois, Kallas também saiu da presidência do conselho de administração da Cedro Participações apesar de permanecer como acionista majoritário do grupo, que tem receita anual de R$ 2,5 bilhões. Ele anunciou sua mudança para os Estados Unidos para a expansão internacional de seus negócios depois de ter sido indiciado pela Polícia Federal por extração irregular de minério na Serra do Curral.

Antes dessas reviravoltas, no entanto, o empresário da mineração tinha bom trânsito entre autoridades e também no governo federal. Ele fez parte, por exemplo, do o chamado “Conselhão” (Conselho de Desenvolvimento Econômico Sustentável da Presidência da República) do governo Lula, e teve encontros com o presidente – que chegou a elogiá-lo publicamente em 2025.

Procurada, a Cedro disse que Lucas Kallas “não participou das negociações, não discutiu valores e não assinou o instrumento” com o Instituto Iter, do ministro Mendonça, e que o acordo foi celebrado entre duas pessoas jurídicas.

O grupo disse ainda que Kallas “jamais foi sócio de Daniel Vorcaro”, como vem sendo veiculado em algumas reportagens. “A aquisição de participações em companhias de capital aberto diretamente no mercado secundário — das quais diversos fundos e instituições, como BNDES e BDMG, também são acionistas – não configura sociedade comercial”, conclui a nota. Leia a nota na íntegra aqui.

A reportagem procurou a campanha de Zema e o governo de Minas Gerais para se posicionarem sobre o decreto que beneficiou a Cedro, mas não houve resposta. O espaço segue aberto.

Campo de mineração da Cedro, empresa de Lucas Kallas
Cedro Mineração afirma ter capacidade de produzir atualmente cerca de 7 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, mas quer chegar a 20

Mineradora quer triplicar capacidade de produção em Minas Gerais

Uma publicidade do grupo de Kallas publicada na Folha de S.Paulo em abril afirma que a Cedro Mineração tem capacidade de produzir atualmente cerca de 7 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, principalmente em Minas Gerais. Mas que, “sob a liderança de Kallas, a meta é ambiciosa: saltar para 12 milhões de toneladas em Nova Lima, atingir 3 milhões em Mariana e chegar a 20 milhões de toneladas anuais até 2030”. O cenário também é repetido em comunicado da própria empresa feito neste ano.

Dentro desta meta de crescimento, a ampliação da área de atuação em Mariana, respaldada por decreto de Zema, enfrenta questionamentos e sobreposições que estão sendo debatidas na Justiça.

Ação judicial com pedido de liminar ingressada pela Rio Abaeté Minerais, detentora de alvará de pesquisa mineral na região em disputa, processa a Cedro, o governo de Minas e a ANM. A advogada da empresa diz que “sem a preservação dessas áreas, o título federal [da ANM] permanece formalmente existente, mas perde utilidade prática”.

O processo destaca ainda que “é importante registrar a desproporção material do ato [de Zema]”. Isso porque, segundo o documento, a Cedro possui área de exploração estimada em 47 hectares em Mariana, “mas o decreto coloca ao seu alcance área mais de dez vezes maior, próxima de 300 hectares, sob a justificativa formal de disposição de detritos, apoio operacional ou expansão”.

Mapa mostra áreas de interesse de mineração da Cedro e de outras empresas

A história se complica porque servidores da ANM da gerência regional de Minas Gerais emitiram, em maio, um laudo que reconheceu a necessidade técnica de acesso à área para explorar a mina, conforme demanda da Cedro. Entretanto, os servidores inseriram a ressalva de que a utilização efetiva da área dependeria de acordo amigável ou judicial com os proprietários do solo e com os titulares dos direitos minerários – o que não teria sido cumprido, segundo a Rio Abaeté.

Por conta disso, a mineradora Rio Abaeté acionou a ouvidoria da agência em Brasília pedindo investigações de dois servidores da ANM em Minas Gerais. O Ministério Público Federal também foi acionado e pediu, em junho, explicações formais à ANM, bem como apurações sobre suposta ingerência indevida do estado de Minas Gerais em direitos minerários que são da União.

O pedido de liminar foi aceito, em 9 de julho deste ano, pelo juiz de primeira instância, que estabeleceu multa de R$ 50 mil por dia em caso de descumprimento. Determinou ainda que o estado de Minas Gerais e a Cedro Mineração Mariana não tomem, nas áreas em disputa, nenhuma medida que impeça, limite ou atrapalhe o uso do alvará de pesquisa, “como entrar no terreno, instalar estruturas, desmatar, abrir acessos, registrar restrições no cartório ou limitar a circulação”. O juiz pede também que a ANM seja notificada.

A Cedro recorreu, pedindo segredo de Justiça no processo e também a suspensão da liminar. Ambos foram negados pelo juiz em 13 de agosto.

Em nota, a Cedro Participações disse que “o decreto está em consonância com o posicionamento da ANM , que também concedeu a servidão minerária na mesma área.” E que a declaração de utilidade pública pela administração estadual seguiu “estritamente todos os ritos legais, regulatórios e ambientais, fundamentada no interesse público e na relevância socioeconômica do empreendimento para a região”. O grupo acrescentou que a companhia “respeita a Justiça e cumpre toda decisão transitada em julgado.”

Após a publicação da reportagem, a Agência Nacional de Mineração disse que “não concedeu à Cedro Mineração autorização de pesquisa ou de lavra sobre essa mesma área. O ato praticado pela Agência foi a aprovação de laudo técnico destinado a possibilitar eventual acordo, amigável ou judicial, para posterior constituição de servidão minerária”. A entidade afirmou ainda que o título minerário da Rio Abaeté permanece ativo.

A mineradora Rio Abaeté não foi encontrada.

Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável debate os impactos socioambientais do projeto de ferrovia para escoamento de minério de ferro do grupo Cedro Participações
Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais debate os impactos socioambientais do projeto de ferrovia para escoamento de minério de ferro do grupo Cedro Participações

As irregularidades na Serra do Curral

Neste ano, a Polícia Federal pediu indiciamento do empresário da mineração Lucas Kallas por irregularidades na extração de minério de ferro na Serra do Curral, patrimônio histórico de Belo Horizonte, conforme revelou a Pública em abril, informação depois confirmada por outros veículos. Deflagrada em março, a Operação Parcours apura irregularidades nas atividades da Empresa de Mineração Pau Branco (Empabra), ligada a Kallas.

À época, o empresário disse que sua inclusão no inquérito era “completamente descabida”. Ele ressaltou que a operação “tem como principais fundamentos fatos relacionados aos anos de 2023-2025”, oito anos após ter encerrado sua relação com o Grupo empresarial Green Metals/Empabra.

A PF relatou que a Empabra, sob o subterfúgio de recuperação ambiental, retirou minério da área sem autorização prévia, causando impactos irreversíveis ao meio ambiente, com prejuízo estimado de R$ 832 milhões. Além disso, a empresa deixou de arrecadar cerca de R$ 11 milhões em Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM). O caso é descrito no relatório pela PF como uma “distopia ambiental”.

Além do empresário, a PF investigou dois servidores da ANM em Minas Gerais – mesma superintendência envolvida no embate sobre a expansão da Cedro em Mariana. Ambos foram exonerados do cargo.

Desde que assumiu o governo de Minas em janeiro de 2019, Romeu Zema triplicou o uso de dois instrumentos, os termos de ajustamento de conduta (TACs) e os termos de compromisso (TCs), que permitem que mineradoras flagradas operando sem licença ambiental continuem funcionando mediante acordo com o estado, em vez de serem suspensas.

Conforme revelou a Pública em abril deste ano, esses acordos favoreceram diretamente as quatro mineradoras que atuavam irregularmente na Serra do Curral: Tamisa, Empabra, Fleurs e Gute Sicht (todas com TACs ou TCs assinados entre 2020 e 2022).

Kallas admitiu ter investido em empresas que fizeram negócios com a Empabra. Já a Tamisa tinha ligações com o Banco Master de Vorcaro. A mineradora tinha entre suas acionistas a WJ Consultoria, administrada pelo cunhado de Vorcaro, Fabiano Zettel. Além disso, o Victoria Falls Fundo de Investimento, controlado pelo Banco Master, é sócio majoritário da mineradora.

❌