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2050 começa agora: as escolhas que vão definir a mineração do futuro

30 October 2026 at 18:21

A mineração é um negócio cujos horizontes são medidos em décadas, mas cujas decisões fundamentais frequentemente sucumbem aos ciclos curtos das cotações de commodities, das trocas de governo e do ruído da opinião pública.

Esse descompasso entre a temporalidade do investimento e a volatilidade do momento presente é, hoje, o maior desafio estratégico do setor.

Uma mina que entrar em operação nos anos 2040 está sendo pensada, desenhada, financiada e submetida ao licenciamento exatamente agora. Trata-se de um setor em que o tempo de maturação se dilatou drasticamente: o prazo médio entre a descoberta de um jazimento e o início da lavra comercial triplicou em pouco mais de três décadas, saltando de seis para aproximadamente dezoito anos.

Em um cenário tão estendido, os executivos e formuladores de políticas públicas que optam por esperar a incerteza se resolver para tomar decisões já nascem atrasados.

O pano de fundo global dessa equação é amplamente conhecido, mas suas consequências operacionais ainda são subestimadas.

A demanda global por minerais críticos é impulsionada simultaneamente pelo avanço da urbanização nos países emergentes, pela expansão acelerada dos data centers e da inteligência artificial, pelo rearmamento global e pelas metas imperativas da transição energética. Apenas a demanda por cobre, metal central para a eletrificação, pode crescer cerca de 50% até 2040.

No entanto, enquanto a demanda exige volume e velocidade, a oferta enfrenta restrições estruturais severas. Em primeiro lugar, o teor médio de cobre nos minérios lavrados caiu cerca de 40% desde 1990.

Além disso, depósitos de classe mundial na superfície tornaram-se raridades, fazendo com que as novas reservas fiquem cada vez mais profundas e geograficamente complexas.

Para completar esse quadro de gargalos institucionais, cerca de 60% dos grandes projetos de mineração em desenvolvimento no mundo enfrentam atrasos crônicos, grande parte diretamente associada a entraves nos processos de licenciamento e conflitos socioambientais.

A consequência física disso é direta: para obter a mesma tonelada de metal refinado, a indústria é obrigada a movimentar volumes massivos de rocha.

Mais rocha movimentada traduz-se em maior consumo intensivo de energia, maior captação de água e volume exponencialmente superior de rejeitos gerados, a menos que a inovação tecnológica altere profundamente a lógica operacional.

Para organizar essa complexidade, um estudo recente conduzido pela Systemiq e ERM, com o apoio do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM) e da Fundação Moore, construiu três cenários estratégicos para 2050.

Não se trata de futurismo ou previsões determinísticas, mas de um exercício analítico que cruza o ritmo da inovação tecnológica com o modelo de governança dominante.

O primeiro cenário, denominado Fracture (Fratura), representa a fragmentação geopolítica em blocos rivais. Nele, os governos tratam os recursos minerais estritamente como ativos de segurança nacional e soberania, flexibilizando salvaguardas socioambientais para garantir suprimento rápido, enquanto a inovação tecnológica avança de forma tímida e incremental.

O resultado é um atendimento parcial das metas de oferta ao custo da degradação acelerada: estimativas indicam um aumento de 25% no número total de minas operacionais e elevações de 35% a 50% no desmatamento, na geração de rejeitos e nas emissões de gases de efeito estufa em relação às projeções de linha de base para 2050.

No extremo oposto está o cenário Flywheel (Impulso), focado na máxima eficiência e sustentabilidade. Nele, prevalecem governança equilibrada, regras internacionais transparentes, rastreabilidade rigorosa da cadeia de suprimentos e aceleração tecnológica disruptiva, desde o uso de Inteligência Artificial e sensores avançados na exploração até a mineração de alta precisão e a eletrificação total das frotas industriais.

Com processos mais eficientes, seriam necessárias menos minas abertas, os licenciamentos seriam ágeis por conta da clareza dos dados e registrar-se-ia um desmatamento até 25% menor, redução de até 35% no consumo de água e uma queda expressiva de aproximadamente 90% nas emissões operacionais de Escopos 1 e 2.

Por fim, o cenário Space Race (Corrida Espacial) desenha um mundo em que a intensa competição tecnológica entre potências impulsiona avanços rápidos, porém desprovidos de governança global unificada.

As regras tornam-se assimétricas, regiões que priorizam a conservação ambiental utilizam a tecnologia para mitigar e isolar impactos; já regiões focadas em receitas e urgência de suprimento aplicam técnicas avançadas para viabilizar extrações altamente agressivas, inclusive acelerando a exploração minerária no fundo dos oceanos.

Estes cenários não funcionam como um cardápio do qual se escolhe o preferido, mas sim como um teste de estresse. Para um conselho de administração ou para um ministério de Estado, a pergunta fundamental não é prever qual cenário prevalecerá, mas sim definir quais decisões estratégicas tomadas hoje se mantêm sólidas e viáveis em qualquer um deles.

Um aspecto frequentemente distorcido ou omitido no debate público é a premissa fundamental de que, mesmo no cenário ambientalmente mais virtuoso, será indispensável minerar muito mais. Projeções indicam que o mundo precisará de cerca de 50% a mais de cobre e astronômicos 180% a mais de lítio em relação aos níveis atuais, mesmo considerando cenários otimistas de economia circular, reciclagem em larga escala e substituição de materiais.

Sustentar que a transição energética pode ocorrer sem nova mineração é vender uma ilusão sem respaldo na realidade. Por outro lado, alegar que a urgência ambiental autoriza o avanço predatório é ignorar os imensos riscos socioambientais e operacionais que paralisam investimentos. A questão, portanto, não é se devemos minerar, mas de que maneira faremos isso.

A resposta para esse impasse exige responder de forma estruturada a três perguntas vitais: quanto minerar, onde minerar e como minerar.

A primeira questão, sobre o volume necessário, depende do uso de design industrial eficiente, substituição de materiais escassos e ampliação do reaproveitamento.

O setor da engenharia estrutural, por exemplo, já demonstra que a otimização de projetos por algoritmos generativos consegue reduzir em até 30% a quantidade de aço necessária em grandes infraestruturas.

A segunda pergunta trata da localização e exige direcionar o licenciamento para afastar a atividade de biomas críticos e de altíssima sensibilidade ecológica e social, como algumas áreas da Amazônia, a cordilheira dos Andes e as florestas tropicais centrais da África.

A terceira questão diz respeito aos métodos operacionais, que exigem da indústria a substituição da antiga lógica da volumetria bruta pela mineração de precisão. Isso significa extrair e beneficiar estritamente o mineral de interesse, explorar com alta eficiência salmouras e fluidos industriais, além de investir fortemente na remineração de resíduos.

A transformação de rejeitos e estéreis em novos produtos, a exemplo de agregados para a construção civil, remineralizadores de solo e recuperação de coprodutos valiosos, muda a natureza do negócio, de modo que cada tonelada de mineral reaproveitada a partir de um passivo existente é uma tonelada a menos a ser extraída de uma nova cava.

Neste cenário de reconfiguração global, o Brasil possui um conjunto único de vantagens comparativas. O país detém reservas expressivas de minerais estratégicos como cobre, níquel, lítio, grafita, nióbio e terras raras, aliadas a uma das matrizes elétricas mais limpas e renováveis do planeta e a um corpo técnico-científico altamente qualificado.

Em um mercado global que caminha para premiar a rastreabilidade e o desempenho socioambiental comprovado, esses ativos valem muito mais do que num modelo que disputa apenas volume de commodity bruta.

Exigências rigorosas de rastreabilidade, pegada de carbono reduzida e previsibilidade institucional deixam de ser custos regulatórios para se tornarem a principal vantagem competitiva do país, traduzindo-se em atração de investimentos de longo prazo, menor custo de capital e maior liquidez para as empresas operando em território nacional.

O risco do caminho inverso é alarmante.

Apostar no afrouxamento das regras ou no desmonte dos órgãos de controle em busca de ganhos imediatos de velocidade resulta, inevitavelmente, em custos futuros devastadores, como perda de reputação internacional, judicialização de projetos, conflitos territoriais e aumento expressivo do custo de capital.

Segurança de suprimento mineral e salvaguardas socioambientais não são forças antagônicas; elas só parecem opostas quando a burocracia é morosa, imprevisível e ineficiente.

Quando o Estado atua com regras claras, governança sólida e inteligência técnica para oferecer processos ágeis e rigorosos, a segurança de suprimento e a sustentabilidade passam a se reforçar mutuamente.

Para o setor empresarial, o momento exige o desenvolvimento de três competências essenciais: flexibilidade estratégica para gerir ativos com ciclos de vida de várias décadas em meio a mudanças céleres; capacidade de absorção tecnológica, buscando inovações dentro e fora da cadeia tradicional da mineração; e a capacidade de construir relacionamentos transparentes e horizontais com governos, comunidades locais e a sociedade civil.

Para o Estado brasileiro, a lição direta é que a licença social para operar e a governança socioambiental e climática não são meros requisitos formais, mas verdadeiros ativos de segurança nacional e competitividade econômica.

A janela de oportunidade para moldar o perfil da mineração global em 2050 está aberta, mas não permanecerá assim por muito tempo.

O Brasil pode continuar sendo um fornecedor passivo que tenta se adaptar às exigências dos mercados compradores, ou assumir a liderança e tornar-se o protagonista global que define o padrão da mineração responsável. A escolha precisa ser feita agora.

Os artigos publicados pelo CNN Infra buscam estimular o debate, a reflexão e dar luz a visões sobre os principais desafios, problemas e soluções enfrentados pelo Brasil e por outros países do mundo. Os textos publicados neste espaço não refletem, necessariamente, a opinião da CNN Brasil.

Australiana amplia em 29% depósito de terras raras de alto teor na Bahia

27 October 2026 at 19:21

A mineradora australiana Brazilian Rare Earths anunciou uma ampliação de 41% nos recursos minerais indicados de alto teor do projeto Monte Alto, localizado no interior da Bahia. A atualização elevou de 2,51 milhões para 3,54 milhões de toneladas a quantidade de material classificado nessa categoria, considerada de maior confiança geológica.

O resultado foi divulgado pela companhia na segunda-feira (26) e faz parte de uma nova estimativa dos recursos minerais do empreendimento, situado entre os municípios de Jiquiriçá e Ubaíra, aproximadamente 270 quilômetros a sudoeste de Salvador.

Considerando também os recursos classificados como inferidos, que apresentam menor grau de conhecimento geológico, o volume total de material de altíssimo teor passou de 3,4 milhões para 4,4 milhões de toneladas, um crescimento de 29%.

O teor médio de óxidos de terras raras desse conjunto ficou em 9,87%, ante 11,26% na estimativa anterior. Já os recursos indicados apresentam concentração média de 10,71%, segundo os dados divulgados à bolsa australiana.

A ampliação foi impulsionada principalmente pela identificação de novas zonas mineralizadas na porção sul de Monte Alto. Nessa área, os recursos indicados cresceram aproximadamente 200%, alcançando 1,9 milhão de toneladas.

Ao todo, a nova estimativa incorpora 8,1 mil metros adicionais de sondagens, distribuídos por 33 furos. O banco de dados utilizado pela companhia reúne mais de 43 mil metros de perfurações diamantadas, realizadas em 255 furos.

Apesar do avanço, os volumes divulgados representam estimativas de recursos minerais, e não reservas com viabilidade econômica demonstrada. A transformação desses recursos em reservas depende de estudos adicionais sobre as condições técnicas e econômicas de exploração.

O projeto Monte Alto integra o complexo Rocha da Rocha, que também inclui o depósito Sulista, e é considerado o empreendimento mais avançado da Brazilian Rare Earths no Brasil.

Além de neodímio e praseodímio, elementos utilizados principalmente na fabricação de ímãs permanentes, o depósito apresenta concentrações relevantes de terras raras pesadas, como disprósio e térbio.

Esses minerais possuem aplicações estratégicas na fabricação de equipamentos industriais, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa, especialmente em tecnologias que utilizam ímãs capazes de operar sob temperaturas elevadas.

A companhia identificou ainda a presença de outros minerais considerados estratégicos, incluindo nióbio, escândio, tântalo e urânio, cujo potencial de aproveitamento comercial dependerá de avaliações adicionais.

Exportações antes da refinaria

A ampliação dos recursos ocorre enquanto a Brazilian Rare Earths avalia uma estratégia para antecipar o início das operações comerciais de Monte Alto, sem depender inicialmente da construção de uma refinaria de terras raras.

O plano prevê a implantação de uma estrutura de mineração e beneficiamento relativamente simples, utilizando processos convencionais de extração e separação física do minério para produzir concentrado de alto teor destinado ao mercado internacional.

A intenção é iniciar a comercialização desse produto antes da entrada em operação da unidade de processamento hidrometalúrgico e separação de terras raras que a companhia pretende construir no Polo Industrial de Camaçari, também na Bahia.

A refinaria planejada faz parte da estratégia de industrialização da empresa no Brasil e deverá receber concentrados minerais para etapas posteriores de processamento, permitindo a obtenção de produtos de maior valor agregado.

Segundo a mineradora, o modelo de desenvolvimento em etapas poderia reduzir a necessidade inicial de investimentos e permitir a geração antecipada de receitas, que seriam utilizadas para ajudar a financiar a implantação da estrutura industrial.

“Ao estabelecer essa operação antes da refinaria de Camaçari, pretendemos gerar receitas antecipadas para financiar o desenvolvimento das etapas posteriores e reduzir nossa dependência de capital externo”, afirmou Bernardo da Veiga, diretor-presidente da Brazilian Rare Earths.

A estratégia representa uma alternativa ao desenvolvimento simultâneo de toda a cadeia produtiva, que exige investimentos elevados em mineração, beneficiamento e processamento químico antes da obtenção das primeiras receitas.

A empresa ressalta, entretanto, que o projeto de exportação de concentrado ainda está em fase de estudos e depende de novas avaliações técnicas, econômicas e das autorizações necessárias.

A Brazilian Rare Earths pretende concluir até dezembro deste ano o estudo de viabilidade da primeira etapa de Monte Alto, voltada à comercialização de concentrado mineral.

O documento deverá utilizar a nova estimativa de recursos para avaliar as condições de exploração, os investimentos necessários e a viabilidade da operação.

A companhia ainda não estabeleceu uma data definitiva para o início das exportações, tampouco informou quando pretende começar a construção da refinaria em Camaçari.

Paralelamente, a mineradora continuará os trabalhos de exploração para avaliar novas extensões do depósito. O programa inclui mais de 5 mil metros de sondagens direcionadas a áreas que ainda apresentam potencial de mineralização.

 

Cotado à Fazenda, Fonteles apostou em terras raras e hidrogênio verde no PI

27 October 2026 at 14:35

Cotado para assumir o Ministério da Fazenda no quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), tem apostado na atração de investimentos privados para desenvolver setores estratégicos da economia estadual, com destaque para a pesquisa de terras raras, a produção de hidrogênio verde e a infraestrutura.

A estratégia econômica adotada pelo petista combina a ampliação do conhecimento geológico do estado, incentivos à instalação de novas indústrias e concessões de serviços públicos à iniciativa privada. O movimento ocorre em meio à corrida internacional por minerais críticos e à busca por fontes de energia capazes de reduzir as emissões de carbono na produção industrial.

Fonteles é apontado como um dos nomes considerados para comandar a equipe econômica de Lula a partir de 2027. Conforme mostrou a CNN, o governador sinalizou a aliados disposição para assumir um cargo no governo federal caso seja convidado pelo presidente.

Reeleito no primeiro turno com 70,90% dos votos válidos, o governador ganhou projeção nacional após integrar o núcleo da campanha de Lula no segundo turno. Antes de assumir o governo do Piauí, em 2023, Fonteles comandou a Secretaria da Fazenda estadual e presidiu o Comsefaz (Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal). O petista é formado em matemática e possui mestrado em economia matemática.

À frente do Executivo piauiense, Fonteles passou a promover o estado como destino de investimentos ligados à transição energética e à industrialização. Uma das frentes mais recentes envolve as terras raras, grupo de 17 elementos químicos utilizados na fabricação de ímãs permanentes, motores elétricos, turbinas eólicas e equipamentos de alta tecnologia.

O Piauí começou a atrair a atenção de empresas estrangeiras diante de novos levantamentos geológicos que indicam potencial para a ocorrência desses elementos em diferentes regiões do território estadual.

Entre as companhias interessadas está a canadense Origen Resources, que desenvolve trabalhos exploratórios no projeto Picos, no interior do estado.

Em setembro, a mineradora informou ter concluído o mapeamento geológico detalhado de uma área com indícios de mineralização e a primeira etapa de coleta de 328 amostras de solo. A companhia também avançou em levantamentos geofísicos aerotransportados, utilizados para identificar características das rochas e orientar futuras campanhas de exploração.

No mesmo mês, a Origen anunciou a decisão de avançar na aquisição de uma participação de 70% no projeto Campo de Cima, que abrange 33.075 hectares entre o Piauí e a Bahia.

Os estudos preliminares indicam potencial para depósitos de terras raras associados a argilas de adsorção iônica, modelo geológico especialmente relevante para a produção de elementos pesados, utilizados em tecnologias industriais e aplicações de defesa.

Apesar do interesse crescente, os projetos ainda estão em fase de pesquisa. As ocorrências identificadas precisam passar por novas etapas de investigação para determinar a extensão dos depósitos, a concentração dos minerais e a viabilidade econômica de uma eventual operação comercial.

O potencial mineral do Piauí também despertou a atenção do SGB (Serviço Geológico do Brasil). Em levantamento divulgado em 2025, pesquisadores identificaram 39 novas ocorrências de rochas associadas a fosfato, urânio e terras raras na borda oriental da Bacia do Parnaíba.

Em novembro do ano passado, Fonteles se reuniu em Brasília com a então diretora-presidente do SGB, Sabrina Góis, para discutir parcerias destinadas à ampliação do mapeamento geológico do estado. Na ocasião, o governador manifestou interesse em aprofundar o conhecimento sobre o potencial mineral piauiense e buscar apoio técnico da instituição.

A intenção é ampliar a disponibilidade de informações geológicas, consideradas fundamentais para reduzir os riscos das etapas iniciais da pesquisa mineral e estimular a entrada de novas empresas no setor.

Aposta no hidrogênio verde

Além da mineração, uma das principais vitrines da política econômica de Fonteles é a tentativa de transformar o Piauí em um polo de produção de hidrogênio verde, aproveitando a disponibilidade de energia solar e eólica no estado.

O combustível é produzido por meio da separação das moléculas de água, em um processo conhecido como eletrólise, utilizando eletricidade de fontes renováveis. O produto pode ser empregado na fabricação de fertilizantes e combustíveis industriais, além de substituir insumos de origem fóssil em determinadas etapas da siderurgia.

A estratégia do governo é utilizar a ZPE (Zona de Processamento de Exportação) de Parnaíba, no litoral piauiense, para atrair indústrias interessadas em produzir hidrogênio e seus derivados, como amônia verde, com foco tanto no mercado interno quanto na exportação.

A política ganhou respaldo institucional em 2024, quando Fonteles sancionou a Lei nº 8.459, que instituiu a Política Estadual do Hidrogênio Verde. A legislação prevê instrumentos de incentivo à cadeia produtiva, estímulo à pesquisa e atração de investimentos em infraestrutura energética.

Um dos maiores projetos anunciados foi o da espanhola Solatio, que apresentou um plano de R$ 27 bilhões para instalar uma unidade de produção de hidrogênio e amônia verdes em Parnaíba.

O empreendimento recebeu autorização para instalação em 2025 e chegou a iniciar obras preliminares. Entretanto, enfrentou entraves ambientais e de infraestrutura que comprometeram seu cronograma.

Mais recentemente, em outubro de 2026, o governo estadual anunciou avanços nos estudos para a implantação de uma planta-piloto de hidrogênio líquido em Parnaíba.

Apesar do interesse crescente, a viabilidade comercial do hidrogênio verde em larga escala ainda enfrenta questionamentos, principalmente devido aos elevados custos de produção, à necessidade de infraestrutura específica e à ausência de demanda consolidada.

Por isso, o combustível ainda é tratado como uma aposta de médio e longo prazo para a descarbonização da indústria, com a concretização dos investimentos dependendo de avanços tecnológicos, redução de custos e contratos de fornecimento capazes de garantir retorno financeiro aos projetos.

Infraestrutura e concessões

A estratégia econômica de Fonteles também passa pela ampliação da infraestrutura logística e pela participação do setor privado na prestação de serviços públicos.

Em junho de 2026, o Porto Piauí, localizado no município de Luís Correia, iniciou uma nova etapa operacional voltada à exportação de minério de ferro para a China.

A operação está associada à produção mineral da Lion Mining, instalada em Piripiri, e busca criar uma alternativa logística para o escoamento de commodities produzidas no estado, reduzindo a dependência de terminais localizados em outras unidades da Federação.

Em outra frente, Fonteles conduziu a concessão dos serviços de água e esgoto do estado à iniciativa privada.

Na área rodoviária, a gestão também ampliou uma PPP (parceria público-privada) no sul do Piauí, incorporando mais de 307 quilômetros de estradas ao contrato da concessionária CS Grãos do Piauí.

As intervenções estão concentradas em corredores utilizados para o transporte de produtos agrícolas, especialmente na região dos Cerrados, onde a expansão da produção exige investimentos em infraestrutura de escoamento.

Em balanço apresentado em fevereiro deste ano, o governo estadual informou que o Piauí havia atraído 120 empreendimentos desde 2023, entre projetos instalados e em fase de implantação, com investimentos associados de R$ 44,7 bilhões.

Financiamento de grupo ligado a J. D. Vance pode ser maior escândalo da eleição

14 September 2026 at 19:00

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A denúncia vem de fonte suspeita: Renan Santos. O candidato do Missão está bradando aos quatro ventos que a campanha de Flávio Bolsonaro recebeu dinheiro do Rockbridge Network, uma rede de financiadores da extrema direita ligados ao Vale do Silício e que foi fundada pelo vice-presidente dos EUA, J. D. Vance. O principal interesse do grupo é organizar uma infraestrutura mundial para a evolução da IA, incluindo terras raras e data centers.  

Segundo Renan, dois empresários, chamados Tallis Gomes e Pedro Sang, são representantes da Rockbridge no Brasil e intermediariam os fundos. “Esses caras vieram para o Brasil e saíram oferecendo apoio a várias candidaturas: Flávio, antes tentaram o Tarcísio, e fecharam com o Flávio. Esses caras trabalham com muitas coisas, entre elas terras raras. Eles entraram na campanha do Flávio, naturalmente e ilegalmente”, afirmou Renan Santos.

Se fato, Renan está desesperado por atenção desde que viu a ascensão de Augusto Cury (Avante).

Mas graças ao site Amado Mundo, do jornalista Guilherme Amado, sabemos que pelo menos parte das acusações é verdade. E elas são graves, porque financiamento externo de campanha é proibido pela lei eleitoral. 

Segundo o site, o carioca Pedro Sang atua de fato dentro do comitê da campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo, em um casarão perto do parque Ibirapuera, na zona sul, onde despacha de uma sala no segundo andar. Pedro teria providenciado imóveis e infraestrutura ao local. A quem pergunta, ele se apresenta, segundo o Amado Mundo, como “Pedro da Rockbridge”. Pedro Sang reconheceu que é ligado ao Rockbridge, mas negou ser intermediador de fundos. 

Flávio mudou seu QG de campanha de Brasília para São Paulo no começo de julho. O objetivo propalado era facilitar viagens para Minas, Rio e Paraná e estar mais perto da Faria Lima.  

O especialista em direito eleitoral, advogado Fernando Neisser, afirma que “a entrada de recursos internacionais em campanha eleitoral no Brasil é absolutamente proibida, seja oriundos de pessoas físicas, cidadãos não brasileiros, seja por meio de empresas, de pessoas jurídicas”.

“É uma grave irregularidade, constitui abuso de poder econômico, que, se for comprovado, levaria à instauração de uma ação de investigação judicial eleitoral perante o TSE e, caso haja, como disse, prova suficiente, a condenação levaria à cassação do registro, do diploma ou do mandato, caso seja vencedor e isso aconteça depois das eleições, e a necessidade de convocação de novas eleições, além de acarretar a inelegibilidade de oito anos das pessoas consideradas responsáveis por esse ato de abuso de poder econômico”.

Para ele, “não faz diferença se esse pagamento é em dinheiro, se esse pagamento é em bens, como aluguéis, enfim, fornecimento de material, de insumos, ou no pagamento de serviços”. 

Ele alerta ainda para outra hipótese. Caso o trabalho de algum colaborador ou serviço seja pago por fora da campanha, isso poderia constituir Caixa 2.

Fundado em 2019 por J. D. Vance, vice-presidente dos Estados Unidos, e o empresário Chris Buskirk, o Rockbridge Network é tido como responsável pelo impulsionamento do vice para o círculo de Trump. O objetivo declarado de Buskirk é “transformar” o Partido Republicano. Editor do site American Greatness, ele diz ser a “voz da nova geração de conservadorismo americano” e que os conservadores dos EUA “perderam seu caminho”. Além dele, manteve durante anos um Podcast com as tais “novas vozes” do conservadorismo, entre elas Darren Beattie, que hoje é o principal aliado de Eduardo Bolsonaro no Departamento de Estado.  

Chris é um velho conhecido de Eduardo Bolsonaro. Em 17 de março de 2019, ambos estiveram presentes no jantar oferecido a Olavo de Carvalho e Jair Bolsonaro em Washington, às vésperas da primeira reunião do ex-presidente com Donald Trump. No jantar oferecido pelo embaixador Sérgio Amaral na residência oficial, Olavo de Carvalho, ainda vivo, foi o centro das atenções, recepcionado junto a estrelas hoje caídas do bolsonarismo, como general Heleno, o general Rego Barros e Filipe Martins. Mas, segundo relevou O Globo, Eduardo Bolsonaro deu atenção a Chris Buskirk e Steve Bannon, ao lado do ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. 

O Amado Mundo descobriu outras ligações diretas entre a turma do Rockbridge e a campanha de Flávio Bolsonaro. 

Um memorando chamado “Prosperity Partnership” elaborado por André Marinho, candidato do Partido Novo a governador do Rio de Janeiro e filho do suplente de Flávio Bolsonaro ao Senado, inclui diretrizes em inglês de como seria uma parceria do potencial governo de Flávio Bolsonaro com os Estados Unidos para exploração de minerais críticos e terras raras. Em suma, ele propõe o afastamento da China e um completo alinhamento com os EUA, notando que o tema destes minerais é considerado um tema de “segurança nacional” para os EUA. 

Os termos da apresentação são idênticos ao discurso feito por Flávio Bolsonaro no CPAC deste ano, que já tinham um tom de “pitch” de vendas para investidores, como apontei nesta coluna. O discurso aconteceu nove dias depois da elaboração do documento.     

André Marinho admitiu ser autor do documento mas nega que ele tenha sido apresentado a qualquer estrangeiro. Mas o Amado Mundo descobriu que, três semanas depois de elaborar o documento, Marinho esteve nos EUA com J. D. Vance. 

Marinho é irmão de Giulia Be, que é casada com Conor Kennedy, filho do secretário de Saúde do governo Donald Trump, Robert Kennedy Jr. O encontro com J. D. Vance teria sido articulado pelo cunhado. 

Procurado, Flávio não respondeu aos questionamentos do site Amado Mundo. 

Em meio a tantas revelações nas últimas semanas, todas elas tingidas de interferência nas eleições, é importante mantermos o foco no que de fato importa. Como já argumentei aqui nesta coluna algumas vezes, os EUA já interferiram de pelo menos 5 maneiras nas eleições brasileiras. Mas até agora nunca apareceu uma transferência de verbas ou bens diretamente para a campanha de Flávio Bolsonaro por grupos ou potências estrangeiras. 

Embora ainda não haja provas de que isso tenha de fato acontecido, a aliança com Rockbridge Network pode levar ao elo que falta para entendermos se o candidato do PL cometeu crime eleitoral na sanha de vencer a corrida para a presidência do país – e o que ele estava disposto a dar em troca.  

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