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Nova libertação de reservas de produtos petrolíferos põe segurança energética em risco

27 October 2026 at 06:37

A Agência Internacional de Energia (AIE), que coordenou a libertação de 400 milhões de barris de produtos petrolíferos em março, lançou o repto para o reforço desta ação, com particular foco no diesel, depois de ter sido dado um mote semelhante numa reunião das sete maiores economias mundiais (G7).

Os especialistas em mercados e energia consultados pelo ECO/Capital Verde apontam que a iniciativa de março teve efeitos positivos, mas algo limitados, pelo que concordam com nova libertação com foco no diesel. No entanto, ressalvam que é importante ter um plano para a reposição de reservas, ao mesmo tempo que alertam que esta ação representa riscos para a segurança energética.

A 2 de outubro de 2026, o G7 e os seus parceiros concordaram em libertar até 100 milhões de barris de gasóleo e crude dos stocks de emergência nos quatro meses seguintes, com um foco inicial explícito no gasóleo. Cerca de dez dias depois, o líder da AIE, Fatih Birol, apelou a que os membros da associação acelerassem a libertação das reservas com que se comprometeram em março — faltam ainda 100 milhões de barris — e lançou um novo desafio: que os países avaliassem um eventual reforço da libertação de barris de diesel.

O gasóleo tem sido particularmente castigado, com os respetivos preços a atingirem máximos históricos, tanto na Europa como nos EUA, depois de perdas no fornecimento motivadas quase em partes iguais pelo conflito no Médio Oriente e pela guerra entre Rússia e Ucrânia. O fornecimento recuou cerca de 0,7 milhões de barris por dia (mb/dia) no Golfo e cerca de 0,6 mb/d da Rússia.

Neste cenário, a libertação focada no gasóleo “é uma reação apropriada”, entende o gestor de Carteiras Sénior para Fundos de Multiativos e Matérias-Primas da Allianz Global Investors (AllianzGI), Frederick Fisher.

A intervenção deverá ser seletiva, coordenada internacionalmente e ajustada às necessidades efetivas do mercado.

Ricardo Evangelista

CEO da ActivTrades Europe

O CEO da ActivTrades Europe, Ricardo Evangelista, considera que pode justificar-se uma nova libertação, “sobretudo se persistirem as dificuldades de abastecimento de gasóleo”, já que se trata de um combustível essencial para transportes, logística, agricultura e indústria, pelo que uma escassez prolongada teria consequências significativas para a economia e inflação. No entanto, “a intervenção deverá ser seletiva, coordenada internacionalmente e ajustada às necessidades efetivas do mercado”.

O analista da Xtb Henrique Tomé afere que “pode fazer sentido como medida temporária”, mas estas medidas tendem a ter impacto “limitado” no médio e longo prazo. “Uma nova libertação de reservas poderá ajudar a atenuar estas pressões, mas não resolverá os constrangimentos estruturais da oferta enquanto persistir a incerteza geopolítica”, remata. Ainda assim, o economista sénior do Banco Carregosa, Paulo Rosa, afirma que avançar com o reforço “é sempre melhor do que não o fazer”.

Uma nova libertação de reservas poderá ajudar a atenuar estas pressões, mas não resolverá os constrangimentos estruturais da oferta enquanto persistir a incerteza geopolítica.

Henrique Tomé

Analista da Xtb

A líder de investigação em mercados globais de energia da Aurora Research, Anise Ganbold, entende que, caso exista nova libertação, esta deve servir para “comprar tempo” para o mercado se ajustar, em vez de substituir uma cadeia de fornecimento não funcional.

Nova libertação põe segurança energética em risco

Uma nova libertação representa riscos para a segurança energética? A resposta para a líder de Investigação, Mercados Energéticos Globais e Hidrogénio da Aurora Research é “sim”. “É o trade-off de qualquer libertação adicional”, defende Anise Ganbold, sublinhando que “cada barril libertado a partir de agora reduz a almofada de emergência para uma futura disrupção” e “stocks mais baixos significam menos capacidade para responder a outra crise”.

Cada barril libertado a partir de agora reduz a almofada de emergência para uma futura disrupção.

Anise Ganbold

Head of Research, Global Energy Markets and Hydrogen na Aurora Energy Research

Fisher alerta: neste momento, as reservas existentes são menores do que em qualquer outro momento das últimas quatro décadas, pelo que espera que as eleições intercalares nos Estados Unidos, a 3 de novembro, não pressionem — e acabem assim por determinar — uma maior libertação.

Na ótica de Henrique Tomé, embora uma libertação adicional não deva comprometer “por si só” e “no imediato” a segurança energética, “o risco não deve ser desvalorizado”, sobretudo se as perturbações nos derivados se prolongarem. O principal risco está na utilização prolongada destas reservas sem uma recuperação sustentada da oferta, indica.

Uma libertação adicional pode aliviar temporariamente o mercado dos combustíveis fósseis, mas também aumenta a vulnerabilidade energética dos países.

Paulo Rosa

Economista sénior do Banco Carregosa

Na mesma linha, Paulo Rosa afirma que “uma libertação adicional pode aliviar temporariamente o mercado dos combustíveis fósseis, mas também aumenta a vulnerabilidade energética dos países caso o conflito se prolongue ou surjam novas perturbações”. Neste sentido, Ricardo Evangelista apela a que seja encontrado um equilíbrio entre responder às necessidades imediatas do mercado e preservar capacidade de intervenção para o futuro, defendendo uma estratégia de reposição das reservas.

Além disso, acrescenta o economista sénior, a reposição das reservas poderá ser mais demorada e com maiores custos se os preços continuarem elevados.

Olhando à libertação que foi sendo feita desde março, para Anise Ganbold, esta “reforçou a segurança energética”, na medida em que demonstrou a capacidade dos membros da AIE se coordenarem numa resposta de larga escala. “Demonstrou que o sistema de emergência funciona mesmo no cenário mais extremo”, aplaude Fisher.

Para Paulo Rosa, a palavra-chave é “temporariamente”. Sim, considera que a libertação das reservas estratégicas permitiu reforçar a segurança energética, mas apenas num período de tempo limitado – a eficácia, num conflito prolongado, diminui.

Acordo ajudou a aliviar preços, mas tem efeito limitado

O acordo para libertar 400 milhões de barris de produtos petrolíferos alcançou objetivos importantes, na visão da maioria dos especialistas consultados pelo ECO/Capital Verde. “A intervenção atingiu o seu principal objetivo”, considera Frederick Fisher, da AllianzGI. Foi para colmatar situações como uma disrupção no Estreito de Ormuz que as reservas estratégicas da AIE foram concebidas, entende.

“Uma medida necessária” e “de um modo geral, positiva”, é como Ricardo Evangelista vê, por seu turno, a libertação de reservas que foi feita desde março, embora reconheça que esta não resolve os problemas estruturais de oferta provocados pelo conflito no Médio Oriente.

A libertação gradual de 400 milhões de barris “evitou um choque de preços descontrolado durante um período de máxima incerteza”, indica o gestor de carteiras da Allianz GI, apontando que o crude Brent estava a cotar nos 119 dólares no início da semana do acordo e, após o anúncio, passou a ser negociado acima dos 90 dólares. Isto também porque a libertação permitiu evitar o custo acrescido dos fretes marítimos.

Os preços teriam “muito provavelmente” chegado a níveis mais elevados caso não existisse esta libertação, atesta Ganbold. Evangelista concorda que esta ação terá contribuído para moderar a subida dos preços do petróleo. Contudo, no caso dos derivados, em particular o gasóleo, “o efeito foi menos uniforme”.

[A libertação gradual de barris] evitou um choque de preços descontrolado durante um período de máxima incerteza.

Frederick Fisher

Gestor de Carteiras Sénior para Fundos de Multiativos e Matérias-Primas da AllianzGI

O economista sénior do Banco Carregosa concede que a medida “atenuou um pouco a subida dos preços”, mas recorda que a duração do conflito e as dificuldades no abastecimento através do Estreito de Ormuz continuam a sustentar os preços dos combustíveis fósseis. Paulo Rosa coloca a situação em perspetiva: se a oferta diminuir dez milhões de barris por dia, estas reservas seriam suficientes para compensar essa quebra durante 40 dias.

“A medida pode ser eficaz num conflito de curta duração, mas terá certamente um impacto bastante limitado num conflito prolongado, como está a acontecer”, observa. Os preços ainda elevados do petróleo e refinados, na ótica deste especialista, evidencia que a medida não tem sido suficiente para normalizar o mercado.

Henrique Tomé, analista da Xtb, considera que a medida tem um impacto “limitado” quando aplicada isoladamente, já que os custos de transporte continuam elevados e as margens de refinação permanecem em níveis recorde, dois fatores que pressionam os preços dos combustíveis, assim como o prémio pelo risco geopolítico.

Galp considera diferentes parceiros para retalho e refinação

26 October 2026 at 19:05

O acordo para uma fusão parcial entre Galp e Moeve caiu por terra, mas a petrolífera rapidamente informou que estaria interessada em explorar novas parcerias para as áreas de retalho e refinação. Em declarações ao ECO/Capital Verde, os co-CEO da cotada indicam que está em cima da mesa a hipótese de fazer alianças com parceiros diferentes para cada uma das áreas.

O co-CEO da Galp indica que o importante para a Galp é que “o mérito estratégico” de uma futura transação, no sentido da consolidação, se mantenha inalterado. A empresa portuguesa quer, por um lado, um parceiro que, na área do retalho, esteja “claramente focado na Península Ibérica e no cliente”. Em paralelo, procura um parceiro que, no negócio industrial, traga “escala, competitividade, complementaridade e alguma aceleração na transição energética”.

Estas “são duas componentes perfeitamente segregáveis e não necessariamente com o mesmo parceiro”, indica João Diogo Silva. Por seu lado, Maria João Carioca frisa que “seria muito estranho” já ter uma lista de potenciais parceiros, pronta a ativar, no dia em que dá por terminada uma negociação com uma elevada “intensidade” e “compromisso” com a Moeve.

[Retalho e indústria] são duas componentes perfeitamente segregáveis e não necessariamente com o mesmo parceiro.

João Diogo da Silva

Co-CEO da Galp

Sobre as razões que determinaram que a Galp não firmasse um acordo com a concorrente espanhola, o mesmo gestor indica apenas que os termos finais, do ponto de vista comercial, não permitiram atingir o racional de investimento e a disciplina de alocação de capital da Galp, sem querer detalhar os fatores específicos que influenciaram a decisão.

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, afirmou esta segunda-feira que, perante o salto de 68% nos lucros da Galp relativos ao terceiro trimestre, a iniciativa do Governo de avançar com uma taxa sobre os lucros extraordinários das petrolíferas foi “a decisão correta”.

Confrontada com estas declarações, a co-CEO salienta que a empresa que gere pagou, neste mesmo trimestre, uma taxa de imposto efetiva de 43%. “Naturalmente que nós respeitamos as opções de política fiscal do governo, isso não é tema. Mas temos tido sempre um diálogo no sentido de se salientar que qualquer medida desta natureza tem impacto”, indica, explicando que o negócio tem ciclos de investimento muito longos e que ativos como a refinaria de Sines “estão permanentemente a ser confrontados com ativos semelhantes”. Ativos estes que recebem incentivos, “muitas vezes mais significativos” do que aqueles que a Galp tem recebido em Portugal, afere.

Temos tido sempre um diálogo no sentido de se salientar que qualquer medida desta natureza tem impacto.

Maria João Carioca

Co-CEO da Galp

João Diogo da Silva recorda que a Galp investiu uma média de 340 milhões ao ano na atividade da empresa em Sines e que, em 11 dos últimos 20 anos, esta unidade industrial registou um free cash flow negativo. “É muito fácil nos anos em que as coisas correm bem taxarmos Sines, mas temos memória relativamente curta acerca dos anos em que investimos e perdemos dinheiro em Sines”, conclui.

Governo “atento” a futuras parcerias da Galp

26 October 2026 at 16:16

O Governo diz que vai continuar atento às intenções, declaradas pela Galp, de formar parcerias no negócio de refinação e retalho. Depois de a petrolífera ter apresentado um aumento dos lucros de 68% no terceiro trimestre, a ministra do Ambiente e Energia considera que a decisão de aplicar uma taxa sobre os lucros excessivos sai reforçada como “correta”.

A ministra do Ambiente e Energia, Maria da Graça Carvalho, falava com os jornalistas à margem do lançamento do Passaporte Climático das Cidades, no âmbito do terceiro Encontro Nacional do Pacto de Autarcas para o Clima e Energia, em Torres Vedras.

Depois de o acordo para uma fusão parcial entre Galp e Moeve ter caído por terra, e de a petrolífera ter declarado que se mantém aberta a novas oportunidades de parcerias, a ministra da tutela diz que irá “acompanhar” os “desenvolvimentos futuros”. “Teremos de continuar atentos às futuras parcerias”, afirma.

A ministra indica, contudo, que lhe “agrada” que a Galp queira separar o negócio do retalho e refinação. “será útil porque assim permite focar as atenções da parte do Estado na refinaria”, defende, relembrando que existia o “receio” de que a única refinaria escapasse ao controle nacional. Vê ainda “com muito bons olhos” a intenção, declarada pela Galp, de continuar a investir em produtos verdes, nomeadamente o hidrogénio verde e os biocombustíveis avançados.

Confrontada com o salto de 68% nos lucros da Galp, e se este dá força à intenção do Governo de taxar os lucros extraordinários das petrolíferas, Maria da Graça Carvalho anui. “Sim, isso já tinha sido uma decisão, é um projeto de lei que está na Assembleia da República e mostra que foi a decisão correta do Governo”. “esperamos que passe em breve na Assembleia da República”, rematou.

Governo lança leilões com foco no armazenamento de energia

26 October 2026 at 15:12

O Governo lançou novos leilões de capacidade com foco no armazenamento, informa o Ministério do Ambiente e Energia, através de um comunicado. Estão a concurso um total de 1.050 MVA, na sua maioria destinados à ligação de projetos de armazenamento autónomos.

O pontapé de saída estava marcado para setembro, mas foi a 22 de outubro que, num despacho publicado em Diário da República e assinado pelo secretário de Estado da Energia, Jean Barroca (na foto), foram lançados os dois concursos anunciados pela ministra da tutela, Maria Graça Carvalho, no passado mês de maio, numa conferência do ECO/Capital Verde.

Estão agora a leilão 300 megavolt-ampére (MVA) para centros eletroprodutores que utilizem fontes de energia renovável, associados a instalações de armazenamento na mesma localização. Estas instalações de armazenamento devem ter uma potência mínima correspondente a 20% da capacidade de injeção atribuída e capacidade de armazenamento suficiente para assegurar uma duração mínima de quatro horas à potência máxima de injeção.

Em paralelo, abriu o concurso para atribuição de títulos de reserva de capacidade de injeção na rede destinados à instalação, construção, exploração e operação de instalações de armazenamento autónomo de eletricidade. O procedimento abrange uma capacidade máxima global de 750 MVA, distribuída por diferentes localizações. Estas instalações devem dispor de potência instalada correspondente a, pelo menos, 100% da capacidade de injeção e de carregamento atribuída, bem como assegurar uma duração mínima de armazenamento de quatro horas à potência máxima de injeção.

Ambos os procedimentos vão decorrer através de leilão eletrónico, aberto a todos os interessados que preencham os requisitos definidos nas respetivas peças, compreendendo as fases de qualificação, licitação e atribuição.

Estes procedimentos preveem que para os municípios fiquem reservadas 30% das receitas do leilão de armazenamento autónomo e 70% das receitas do leilão de capacidade sobrante, a que acrescem ainda as compensações anuais pagas pelos titulares dos projetos. “O claro reforço dos benefícios para as comunidades que acolhem estes projetos reconhece não só o seu contributo para o sucesso dos mesmos, como recompensa o seu apoio e envolvimento”, lê-se na mesma comunicação.

De acordo com o Governo, estes são os primeiros procedimentos concorrenciais para atribuição de capacidade de ligação à rede lançados desde 2021. “Estes leilões dão um novo impulso ao armazenamento em Portugal e a uma transição energética que combina eletricidade mais acessível com a valorização das comunidades e do uso do solo”, afirma a ministra do Ambiente e Energia, citada no comunicado.

A Estratégia Nacional de Armazenamento de Energia, recentemente submetida a consulta pública, aponta para que o país atinja três gigawatts de armazenamento em baterias até 2030.

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