O Vaticano confirmou esta segunda-feira que Leão XIV vai cumprir a viagem ao Uruguai, Argentina e Peru entre 6 e 17 de novembro. Os exames mais recentes afastaram contraindicações à deslocação
Uma fungada forte próxima ao microfone para não restarem dúvidas sobre o nível de emoção e uma caprichada na voz embargada: “Ô, Daniel, que o senhor te dê sabedoria, te cubra, te guarde, que ele nos guie e guie você nesse momento a voz de Deus, sempre”. Outra fungada. “É no mundo todo, Dani. É no mundo todo que tá acontecendo, é muito forte, irmão”. E outra fungada. A voz chorosa mineira é do pastor André Valadão, líder da Igreja Lagoinha Global. Essa emoção toda é uma resposta a uma felicitação de aniversário que também faria você chorar.
“Deus me incomodou para uma ação junto contigo. Vou colocar 100mm de reais de doação para abrir novas igrejas”, disse, sem rodeios, ninguém menos que Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master e de um sem número de empresas. “Queria que pensasse e orasse e depois me passasse um plano pra implementarmos”, instruiu naquele 16 de abril de 2024.
Depois das prisões de Vorcaro em novembro de 2025 e março de 2026, quando o escândalo Master-BRB já estava em todas as manchetes, Valadão reconheceu que os dois se conhecem há décadas, mas frisou que o relacionamento dos dois se restringia à igreja e não envolvia negócios. Conversas interceptadas pela Polícia Federal (PF) no âmbito da Operação Compliance Zero, às quais a Agência Pública teve acesso, contam outra história.
Em meio a orações, viagens em jatos executivos, convites para Fórmula 1 e declarações de amor (há pelo menos 44 “eu te amo”), os diálogos entre o banqueiro e o pastor revelam uma intrincada rede de influência e a proteção de Vorcaro em círculos de poder evangélicos. Os diálogos entre “Dede” e “Dan Dan”, ou “Dani”, como se chamavam mostram que a relação passava longe de se restringir a doações, mas envolvia também conselhos sobre a gestão dos ativos da Igreja Lagoinha e formas inteligentes de aproveitar o potencial de operações financeiras e imobiliárias na própria rede de igrejas, com especial preocupação em continuar evitando impostos no ecossistema que, segundo Valadão, deve movimentar R$ 1 bilhão até 2030.
As mensagens do WhatsApp do ex-banqueiro mostram uma intensa troca de aconselhamento – espiritual, no caso de Valadão, e financeiro, do lado de Vorcaro. Com muitas citações a Deus e a Jesus, eles faziam articulações com lideranças da direita para viabilizar negócios de interesse comum e contornar crises de imagem – como no episódio em que Vorcaro pediu a intervenção de Valadão para falar com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) após uma postagem que enfureceu o banqueiro. É a pedido de Valadão que Nikolas busca “Dani” para se desculpar e diz que nem teria falado se soubesse que o negócio era dele.
A troca de favores tem duas vias. Em pelo menos dois episódios, Valadão pede ajudas, condicionando o atendimento a se “Deus tocasse no coração” do amigo. Apenas nos eventos de virada de ano da Lagoinha, o toque divino solicitado foi de US$ 350 mil e US$ 450 mil, em 2023 e 2024. Não há registros na mensagens se os gloriosos depósitos chegaram a abençoar as referidas celebrações.
Vende-se e aluga-se
No site vinculado à Igreja da Lagoinha, há 14 imóveis à venda em três municípios mineiros. A avaliação apresentada ao público é de R$ 38,2 milhões no conjunto de prédios comerciais e até fazendas para hospedagem com lazer. O que quem visita o catálogo da Lagoinha desconhece é que a ideia de vender os bens da rede de igrejas partiu do ex-dono do Banco Master.
Imóvel de hospedagem com lazer da Lagoinha em Belo Horizonte, avaliado por R$ 7 milhões
“Uma das coisas que eu estou pensando é de internacionalizar os bens da Lagoinha toda, sabe? Porque o dinheiro nos EUA, o crédito é muito fácil, né, muito menos juros, né. O juros tá alto hoje, mas ainda assim é baixo. Então seria um ministério sem fins lucrativos, non for profit americano, que detém bens no mundo todo, Europa, África, Brasil, Estados Unidos também, Canadá. Tô fazendo essa mudança, sabe”, conta animadamente André Valadão, em áudio enviado a Vorcaro, que responde: “Acho excelente ideia”.
“Como você me aconselhou, eu coloquei vários bens nossos à venda”, continua o pastor. “Tem um pessoal que me procurou também pra gente, tipo, criar um fundo com a quantidade de bens que a gente tem da Lagoinha, sabe? Mas eu acho que, como a maioria deles a gente nem paga imposto, acho que fazer um fundo, coisa assim, podia acabar sendo pior, né? Não sei o que você me aconselha a respeito”, indaga. “Fundo não é vantagem pra você. Legal é fazer base USA e virar global mesmo”, recomenda o empresário, enquanto falam do interesse de acionar advogados “de fora”.
A imunidade tributária das igrejas no Brasil bebe na fonte da Inglaterra moderna, que visava proteger os templos dado seu trabalho de acolhimento de doentes e desempregados, como explica o jurista Francisco Tenório, autor do livro “Direito das Igrejas”: “No Brasil, o artigo 150, inciso VI alínea b, prevê que é proibido instituir imposto sobre ‘entidades religiosas e templos de qualquer culto, inclusive suas organizações assistenciais e beneficentes’. […] Basta a igreja ter um CNPJ regular, e a fiscalização sobre as igrejas, na prática, é inexistente. Além do que, esse benefício constitucional não exige nenhuma contrapartida da igreja, como deveria ser devido a história de origem da imunidade como contrapartida pelo labor social.”
A ideia do fundo referente aos bens da Lagoinha continuou sendo uma grande questão nas conversas entre Valadão e Vorcaro. O pastor diz ao amigo que está levantando quanto as igrejas de sua rede pagam de aluguel, na intenção de negociar imóveis com as próprias afiliadas. A ideia era criar um fundo imobiliário voltado para a aquisição e construção de imóveis próprios, convertendo o custo do aluguel pago pelas igrejas em amortização de patrimônio.
“Acho que deve ser um valor relevante e certo todo mês, às vezes dá pra acessar possibilidade de compra de imóveis e as igrejas pagarem direto, mas em compra do imóvel semelhante ao invés de aluguel”, disse Valadão. “O valor que pagamos talvez conseguiríamos de alguma formar um fundo para até construir prédio próprio e alugar para as igrejas. Ou comprar algo semelhante… ?” Vorcaro rebate que no Brasil não haveria fundo “com apetite pra isso.”
O jurista Francisco Tenório explica que, mesmo em imóvel alugado, igrejas não pagam IPTU, por exemplo, e que bens de luxo de líderes religiosos, se ocultados em nome da igreja, seriam um caminho para a sonegação. Quanto aos fundos imobiliários envolvendo templos, o advogado desconhece planos semelhantes no Brasil, mas explica que esta seria uma forma de transformar um ativo imobiliário em capital com liquidez imediata e classifica a ideia de “escandalosa”. “Condenaria perpetuamente a membresia a ser inquilina e pagar aluguel dos templos que foram adquiridos com seus dízimos e ofertas. Moralmente essa conduta é absurda e inaceitável”, opina.
A igreja ter imóveis alugados gerando renda que é revertida para os fins da própria igreja não tem problema algum. Agora, criar FII com templos é outra questão. […] Seria um atestado de que a igreja deixou o conceito bíblico de comunidade de salvos, lavados e remidos pelo sangue de Jesus para se tornar uma corporação capitalista cuja finalidade é dinheiro e poder para seus ‘donos’.”
Francisco Tenório
jurista e autor de “Direito das Igrejas”
Clava Forte Bank, a fintech cristã que caiu quando Vorcaro foi preso
A inadimplência de instituições religiosas e o controle sobre sua própria rede de afiliadas fez André Valadão investir, contra a recomendação de Vorcaro, na primeira fintech cristão do país. Entre a primeira conversa entre os dois sobre o assunto e a inauguração do Clava Forte Bank se passaram menos de oito meses até a inauguração da iniciativa, em 31 de julho de 2024. A fintech se definia como “um banco para impulsionar os projetos do Reino de Deus”. O site da iniciativa ofertava serviços de contas digitais, cartões, maquininhas, financiamentos, seguros, marketplace e programas de cashback.
Fazia tempo que Valadão tinha interesse em seguir os passos do amigo em negócios bancários e meios de pagamento. Em 2019, ele usou um culto para promover um cartão de crédito consignado com a marca “Fé”, voltado a pensionistas e aposentados. Na época, chamou o cartão “uma coisa de Deus”. Pegou tão mal que o projeto foi engavetado.
A ideia do Clava Forte Bank – o nome vem do trecho do hino nacional – foi mencionada na conversa com Vorcaro pela primeira vez em 9 de dezembro de 2023, quando Valadão convidou o amigo a patrocinar um show na virada daquele ano na Lagoinha de Orlando. “Ano que vem eu quero lançar um banco interno também da Lagoinha, principalmente para os pastores e para a igreja, não pro público diretamente primeiro”, disse em áudio.
Meses depois, em abril de 2024, o pastor pede orientação jurídica do amigo sobre um sistema para unir o sistema financeiro das igrejas do seu grupo, que estimava movimentar R$ 300 a 350 milhões internamente. Em vários momentos, Valadão diz temer “perder o foco” da igreja frente às possibilidades financeiras, ao mesmo tempo em que se mostra deslumbrado com a chance de aumentar as posses da Lagoinha. “Ano que vem vamos dobrar, se Deus quiser”, complementou. “Até 2030 fato só brasil vms passar de 1B ano. em ano de jesus.” Segundo Valadão, o negócio do banco era um negócio dele e da esposa, e “não da igreja”.
Dias antes da inauguração do Clava Forte, em 23 de julho de 2024, ele anunciou ao amigo o “sistema ‘pay’ próprio Lagoinha Global” junto com a empresa de pagamentos Dock. O público estimado era de 2 a 4 mil clientes. Mas, em seguida, demonstra como o projeto poderia crescer: “só no ecossistema da Lagoinha hoje tem : igrejas, pastores, funcionários, livrarias, seminário (só hoje, 12 mil alunos ativos), fundação oasis filantrópica que recebe recursos federais… tipo tudo que envolve o mundo da Lagoinha pra dentro do CLAVA.”
Meses depois, Valadão pede ajuda a Vorcaro sobre pacotes de serviços para acoplar no sistema e de FIDC – tipo de investimento em renda fixa que compra dívidas de empresas que têm a receber no futuro. “Depois me explica o que precisa”, responde o ex-banqueiro. Em 17 de setembro, ele pede para falar com o amigo sobre alguns assuntos, entre eles “a fintech, que por sinal tá indo super bem e sem dúvida é algo que pode ficar grande demais”. Os dois fazem duas ligações que duram 15 minutos.
O sistema do Clava Forte Bank saiu do ar logo após a primeira prisão de Daniel Vorcaro no âmbito da operação Compliance Zero, no Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), enquanto se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Dubai, em 18 novembro de 2025. Com o sistema da fintech fora do ar desde o dia 21, Valadão justificou a indisponibilidade como uma manutenção temporária para evitar ataques hackers.
Vorcaro foi preso numa investigação a respeito de suspeita de fraudes bancárias, emissões irregulares de Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e títulos de crédito falsos pelo Banco Master, que chegou a ser comprado pelo Banco de Brasília (BRB). Paralelamente, uma outra polêmica passou a ligar o Clava Forte Bank, Valadão e Vorcaro. Durante os trabalhos da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS, o deputado federal Rogério Correia (PT-MG) apontou o ecossistema da Lagoinha e a fintech cristã como possíveis envolvidas no escândalo dos descontos indevidos nas contas de aposentados.
“Eu tenho comprovações de que tanto o Vorcaro como o Pastor [Fabiano] Zettel [cunhado de Vorcaro], André Valadão e a Clava Forte Bank também receberam recursos que vieram de pessoas aposentadas. Nós precisamos investigar isso, fazer a quebra [de sigilo], para ver se isso era dízimo ou se era lavagem de dinheiro”, sintetizou Correia.
O Congresso acabou apontando ainda a proximidade entre André Valadão e Felipe Machado Gomes, presidente de uma das associações suspeitas da fraude no INSS e já investigado no STF por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Conhecido por sua vida de luxo, Gomes é amigo de Valadão e foi um dos patrocinadores do réveillon da Lagoinha de 2024 – o mesmo em que o pastor pediu para Vorcaro ajudar com o que Deus tocasse o seu coração.
O sonho de US$ 20 milhões em Orlando
Em 14 de julho de 2024, Vorcaro avisa Valadão que iria fazer um bate e volta para jantar em Miami e chamou o amigo para ir junto no avião e dormir na casa dele. Os dois fazem uma breve ligação de voz. Em seguida, o pastor envia fotos de um terreno à venda em Orlando, que descreve como “inacreditável”. Ele passa uma foto de anúncio com a oferta de US$ 10,8 milhões e diz que o lugar fica “no miolo” da cidade, em uma região comparável aos bairros nobres Savassi ou Lourdes, em Belo Horizonte – os dois são mineiros.
“Dede, vamos pra cima.” O pastor diz que estaria disposto a vender um terreno que tinha na capital mineira para comprarem o terreno juntos. “Aquele valor que te falei tá comprometido”, responde o banqueiro, mencionando os R$ 100 milhões que prometeu doar à igreja, e esclarece os cálculos: “Você tem que ver como melhor usar. São 20mm usd [US$ 20 milhões]”.
“Faria a sede aqui com esses 20 com certeza. A compra e a construção”, responde Valadão. “Então vamos fazer”, resume Vorcaro. O pastor responde com 38 emojis de “aos prantos”, com um de “mãos em prece” no meio. “Se for isso que Deus colocar no seu coração, pra gente montar proposta aqui, você me fala que proposta que eu faço. Dani, você não tá entendendo”, ele continua com mais emojis “aos prantos”, antes de encaminhar mensagens do corretor do terreno e fotos feitas com inteligência artificial para simular o uso do terreno.
Dois dias depois, o ex-banqueiro tranquiliza o amigo: “Pode seguir com a aquisição. Eu tô já movimentando. Pra te mandar o recurso”. Ao que o pastor responde com um textão de gratidão sem limites e doses de “Amém Dani” e “Tô aqui Dani”.
O assunto voltou em 31 de julho. Valadão relata que, se assinar o contrato, teria que depositar US$ 200 mil [cerca de R$ 1 milhão] em cinco dias. Vorcaro não respondeu. Segue-se mais uma leva de mensagens melosas de Valadão, enfatizando que o amigo é um “escolhido de Deus” que “nada nem ninguém vai derrubar”. E continua pedindo por um telefonema: “Tô sempre à disposição com telefone na mão.” Vorcaro só respondeu quando Valadão anunciou que um processo que respondia por homofobia havia sido arquivado. “Que showwwwwww. Parabéns!!!”, disse.
Em 15 de agosto, Valadão cobra uma resposta. “Dani sobre o terreno estamos finalizando e precisamos de 200k de dólares pra amarrar a proposta … e prosseguir com due diligence de até 80 dias para ter toda liberação da prefeitura para o projeto ou não”, escreveu. Até o dia 17 de setembro, os dois trocam dados de contas e instruções, como um modelo de “proof of funds”, que Vorcaro se compromete a preencher com os dados de suas empresas para viabilizar a compra do terreno para a igreja do amigo. O valor indicado é de US$ 11,8 milhões, o que, considerando o sinal de US$ 200 mil, sugere um compromisso de compra de US$ 12 milhões – aproximadamente R$ 60 milhões.
Dois meses após os últimos pontos discutidos sobre a aquisição, Daniel Vorcaro foi preso pela primeira vez, em novembro de 2025. Quase um ano depois, o anúncio do terreno na S Apopka Vineland Road, em Orlando, na Flórida, segue no ar, ainda sem dono.
O próspero caso da Lagoinha Belvedere
André Valadão e Daniel Vorcaro não discutiram aquisições apenas no exterior e nem todos os negócios discutidos deixaram de sair do papel. Em um dos contatos entre os amigos, eles discutiram sobre um imóvel em frente ao BH Shopping, em Belo Horizonte (MG). O espaço seria destinado à instalação de uma igreja ligada a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. “Segunda feira vou em BH com Zettel ver o imóvel da Jorlan, em frente o BH shopping para ser a igreja dele. Será lindo. 4 mil lugares”, escreveu Valadão. Mais tarde, a unidade seria transformada na Lagoinha Belvedere, liderada por Zettel, e na mira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).
Unidade da Lagoinha Belvedere em Belo Horizonte foi construída no espaço onde antes funcionava uma concessionária de veículos
Zettel é apontado pela Polícia Federal como um dos principais operadores financeiros de Vorcaro. De acordo com as investigações, ele intermediava pagamentos, organizava transferências e participava da estruturação de contratos que teriam sido utilizados para justificar repasses financeiros.
Conversas às quais a Pública teve acesso mostram que Zettel recebia ordens de Vorcaro para movimentar grandes quantias, além de lembrar o cunhado de despesas que iam desde IPTU a dívidas milionárias. Embora os diálogos entre os dois tratassem predominantemente de questões financeiras, as mensagens analisadas não mostram solicitações de Vorcaro para que Zettel realizasse repasses especificamente a Valadão — apesar das doações expressivas que o empresário teria feito ao líder religioso.
Em 2018, Valadão celebrou o casamento de Fabiano Zettel com Natália Vorcaro, irmã do ex-controlador do Banco Master. A relação entre os dois pastores e Vorcaro, no entanto, envolvia outros familiares e projetos, como mostra o Relatório de Informações Financeiras 140.515, do Coaf, ao qual a Pública teve acesso.
Fabiano Zetel e a esposa, que também é irmã de Vorcaro. André Valadão e a esposa. A imagem foi encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro
Segundo o documento, a unidade Belvedere tinha um faturamento presumido de R$ 950 mil por ano. No entanto, a igreja recebeu, entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025, um total de R$ 57,1 milhões, em movimentações classificadas com atípicas pelo órgão regulador de finanças.
Chama a atenção que o pastor líder da Lagoinha Belvedere, Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro, por exemplo, tenha feito 26 operações, totalizando R$ 19,2 milhões para a unidade, fechada após a prisão de Zettel, em março deste ano, na mesma operação Compliance Zero que prendeu o ex-dono do Banco Master.
A igreja também recebeu doações da ordem de R$ 101,6 mil de Fabíola Vorcaro, ex-esposa do banqueiro, em sete operações; de R$ 120 mil, em quatro operações de Henrique Vorcaro, pai de Daniel; e outros R$ 22 mil, em 11 operações de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, ninguém menos que o “Sicário” de Vorcaro, seu braço operacional nas operações do Master, que morreu no hospital enquanto estava custodiado.
Além das movimentações envolvendo a Lagoinha Belvedere, Zettel também aparece ligado a movimentações consideradas atípicas quanto à empresa Super Empreendimentos e Participações, que já foi dirigida pelo cunhado de Vorcaro e tem movimentações imobiliárias e financeiras investigadas pela PF. Segundo o Coaf, R$ 19,693 milhões foram movimentados em operações suspeitas no mês de junho de 2022.
A Pública procurou André Valadão, Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e a Igreja Lagoinha para esclarecer os questionamentos apontados na reportagem. Até o momento da publicação, apenas a defesa de Vorcaro respondeu, informando que não iria comentar o assunto. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master
Conexões onipresentes
Com bateria social quase ilimitada, acesso que vai de pequenos empresários a jogadores de futebol e ministros do STF, Daniel Vorcaro passou a alimentar fantasias de vários gêneros no imaginário popular do brasileiro. Mas pouca gente lembra que antes de ser preso investigado por fraude, e antes disso um rico banqueiro, Vorcaro era apresentador de um programa de música gospel na Rede Super, o Supersônica, da emissora de TV que pertence à Lagoinha – logo, ligada ao amigo André Valadão.
Em 2022, Bolsonaro visitou a Lagoinha em Orlando, onde Valadão prega. O pastor fez uma oração pelo ex-presidente. Naquele ano, a emissora havia recebido R$ 217 mil do governo federal. Ao longo do mandato do ex-presidente, a emissora recebeu R$ 756 mil pagos por campanhas de comunicação. O pastor já disse não ser bolsonarista, mas já compartilhou posicionamentos ideológicos com o ex-presidente. Valadão também tem laços estreitos com bolsonaristas expoentes, como Nikolas Ferreira e Fábio Faria, e até já foi cicerone para o blogueiro Allan dos Santos, foragido nos Estados Unidos. Já Vorcaro, já disse explicitamente apoiar a direita, como revelou a Pública.
A Rede Super é um ativo da Lagoinha obtido por meio de uma parceria antiga com a família Vorcaro. O pai de Daniel, Henrique Vorcaro, frequentava os cultos de Márcio Valadão, pai de André Valadão. Segundo a revista piauí, os conselhos do pastor foram tão importantes para o empresário que, ao obter sucesso com a corretagem de imóveis, passou a dar gordas doações para a igreja – que usou a verba para comprar a emissora em 1997.
Lagoinha ontem e hoje
A igreja “da parede preta” ou “que tem área VIP”. As opções de organização e a estética reformada da Igreja Batista da Lagoinha, que bebe na fonte da australiana Hillsong Church, podem fazer parecer que a organização é uma espécie de novidade que vem ganhando projeção, mas ela foi fundada em 1957, em Belo Horizonte.
A força da organização levou, ainda nos anos 1990, Ana Paula Valadão, irmã de André, a lançar a banda gospel Diante do Trono – que se tornou um sucesso de vendas e projetou a Lagoinha de uma igreja regional para uma potência nacional.
Imagem do interior da Igreja Batista da Lagoinha. As imagens foram encaminhada por André Valadão a Daniel Vorcaro. A troca de mensagem foi obtida pela Polícia Federal após quebra de sigilo do celular de Vorcaro
A expansão para o resto do país e até unidades internacionais veio também com a adoção das paredes escuras, que buscava priorizar a visibilidade de paredes de LED e projeções de luz para conquistar um público mais jovem com a estética de espetáculo. Já a segregação de celebridades, políticos e convidados dos pastores, que geram polêmica na unidade Alphaville – onde também há estacionamentos privativos, entradas exclusivas e camarim com bufê – sempre foi negada pelos pastores.
O próprio André Valadão, aliás, diz não ser adepto de área VIP, mas de eventuais “assentos reservados, 20, 30, sei lá” para seus convidados. “Nada além do normal”.
A nova geração de Valadões e Vorcaros parece seguir o mesmo caminho da amizade que, de tempos em tempos, impulsionou os negócios ligados à Lagoinha. Stella, filha de Daniel, estuda com um filho de André. Os dois dançaram juntos a valsa na festa de 15 anos da menina, que não contou com Diante do Trono como atração musical, mas com um show exclusivo do DJ Alok.
A relevância da Lagoinha é inegável, com uma influência que chega ao Supremo Tribunal Federal: foi Fábio Faria, hoje casado com Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos, quem apresentou Daniel Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. Além disso, a reunião que o dono do Master participou com o ministro André Mendonça também foi organizado por membros da igreja. Uma história de poder, fé e fraternidade de uma congregação que nos próximos meses completa 70 anos.
Exames realizados após a cirurgia confirmaram que o Papa não precisa de tratamentos adicionais. O cirurgião diz que o estado clínico é “absolutamente satisfatório” e não vê, para já, motivos que impeçam a viagem à América Latina
O Museu Municipal de Loulé organiza, no próximo dia 11 de outubro, às 10h00, mais uma edição do seu programa “Passeios de Outono”, intitulado “Uma Âncora da História e da Arte em Loulé”.
A atividade convida os participantes a descobrirem a história, o património e a arquitetura da Igreja Matriz de São Clemente, um dos mais emblemáticos monumentos nacionais da região.
Com ponto de encontro marcado na porta principal da igreja, a visita orientada terá a duração aproximada de 1h30 e dará a conhecer a herança histórica do templo, com especial foco nas artes da talha dourada e do azulejo. Durante o percurso, serão também abordadas as principais intervenções e restauros realizados ao longo do tempo, fundamentais para a preservação e para a imagem atual do edifício.
Destinada ao público adulto, a iniciativa será conduzida em língua portuguesa.
A participação é inteiramente gratuita, contudo requer inscrição prévia obrigatória, estando a lotação limitada a 25 participantes. Os interessados deverão garantir o seu lugar através do e-mail: atividades.museu@cm-loule.pt.
Desde bem zinho, como, por vezes, chamamos as crianças aqui no Pará, aprendi que nossa identidade se ergue sobre três colunas, não só de paraenses, mas de muitos amazônidas: a Cabanagem, os encantados e as festas de santo.
Dos cabanos, herdei a coragem e a resistência. Dos encantados, o sentimento de pertencimento à floresta; esse elo entre o vivido e o imaginado, onde mesmo duvidando, acredito: na Iara, no Ataíde, no Curupira.
Das festas de santo, trago mais do que fé e esperança, trago sons, cores, cheiros e sabores. Antônio, João, Benedito, Marias… todos cabem no nosso coração barulhento.
Quem já viveu uma festa de santo, como o Círio de Nazaré em Belém — ou melhor, a festa da Santa, da Nazica — sabe que, quando chega outubro, o peito se enche e alguém sempre diz, sorrindo: É Círio outra vez!
As ruas fervilham. Gente chega por todos os caminhos: pelo rio, em embarcações adornadas de redes; por terra, em carros e ônibus abarrotados; ou pelo céu, em aviões que se multiplicam no ar úmido da cidade. Devotos, promesseiros, romeiros e festeiros se misturam num só corpo. O Círio é o nosso Natal paraense — cantado, dançado, sentido.
Passagem da imagem de Nossa Senhora de Nazaré na Trasladação, na Estação das Docas em Belém, Pará
Quem viveu os anos 1970 talvez se lembre do samba-enredo da Unidos de São Carlos (hoje Estácio de Sá): “(…) No mês de outubro/Em Belém do Pará/São dias de alegria e muita fé/Começa com extensa romaria matinal/O Círio de Nazaré (…)”, versos que a Viradouro reavivou em 2004. E assim tem sido a Festa de Nazaré há mais de dois séculos.
O Círio é um encontro intenso, por vezes dramático, em que o sagrado e o profano se abraçam. É o colorido das fitas de cetim, o brilho do manto da Nazica, o cheiro verde da maniva que, ao escurecer no fogo, anuncia a Maniçoba fumegante. São dias em que o ar se enche de cheiro de tucupi, de pato, de aromas inconfundíveis e intermitentes — levando-nos ao mesmo destino: a mesa farta, o reencontro, o abraço.
Aprendi que as lembranças do Círio vão além dos sabores. Gosto dessa sensação de confraternizar, de carnavalizar — de viver essa força que mistura o divino e o popular, a devoção e a festa, a reza e os batuques do pavulagem, da Chiquita. Essa é a Amazônia pulsando em nós.
Identidade e fé que Marco Aurélio e Vital Lima cantam, lembrando-nos de renovar o olhar a cada outubro:
“Menino acorda e vem olhar, O sol não tarda em levantar, Vem ver Belém que começa a festejar. Outros outubros tu verás, (E outubros guardam histórias...) Ver-o-Peso”.
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Nove entre dez colunistas de política da grande imprensa lamentam que a gente esteja discutindo Nossa Senhora da Aparecida no final da campanha eleitoral. Enquanto isso, nunca o noticiário foi tão contaminado pela negação do subjetivo – a religiosidade do brasileiro -, e nunca soou tão parcial – por mais que se reafirme a “isenção” da imprensa. Além de críticas de diversos veículos a respeito da cobertura do episódio, a própria Globo, uma das protagonistas do caso, se tornou alvo de protestos de eleitores.
Sim, esse é um assunto relevante para a população e deve fazer parte do debate público em um momento em que a religião é explorada politicamente e invade até as decisões do TSE, como vimos acontecer mais uma vez.E a imprensa errou de cabo a rabo – do desmentido da Globo sobre uma afirmação correta de uma jornalista responsável, ao bombardeio de títulos e notícias sobre a “fake news”, criada e propagada pela própria imprensa a partir da “correção” e depois manipulada nas redes sociais.
Em vez de defender a jornalista, que jamais disse que Flávio pretendia destronar a santa, mas apenas comentou um fato que já viralizava nas redes – a existência de “um movimento da Igreja Católica de reação a uma parcela de evangélicos que está mobilizando um projeto de lei para tirar de Nossa Senhora da condição de padroeira” – que, segundo ela, poderia ter impacto entre “os eleitores católicos de Lula”, a imprensa embarcou no desmentido da Globo (com aquele comportamento de boiada que já comentei na coluna anterior). Até mesmo entidades como a Abraji e a Fenaj demoraram a manifestar solidariedade e não citaram o nome da empresa que cometeu o erro que gerou agressões à jornalista.
A imprensa também não questionou o fato gravíssimo que foi a censura de opinião do humorista Antônio Tabet, que apenas exerceu o direito à liberdade de expressão como reconheceu o próprio TSE na quarta-feira, após o ministro André Mendonça mudar o seu voto. A reação foi a de “proteger” Flávio de prejuízos eleitorais pela alegada falsa informação – logo ele, que usa a desinformação como ferramenta de campanha e conta com aliados que agridem pessoas nas redes – como fez o blogueiro foragido Allan dos Santos em reação violenta e repugnante ao protesto da CNBB. Nem quando o direito de expressão dos brasileiros foi massivamente cerceado pelas Big Techs depois da determinação de censura de Mendonça – um tema eminentemente jornalístico – reviu sua posição.
De lá para cá cometeu também o erro da arrogância elitista (ou seria constrangimento por seu papel?) ao desvalorizar o tema de um debate público que acontece e precisa acontecer no Brasil sob a desculpa cínica de que eleitores e candidatos deveriam estar discutindo propostas que podem mudar o Brasil (como se a imprensa estivesse fazendo isso, em vez de se embrenhar em vazamentos seletivos de escândalos de corrupção).
A separação de Igreja e Estado é condição necessária para a democracia, estabelecida no Brasil na Constituição de 1891 e reforçada no artigo 19 da Constituição de 1988, que inspirou a legislação eleitoral que proíbe a propaganda política em igrejas e a doação de recursos para campanhas, assim como a destinação de recursos públicos para igrejas – embora isso aconteça, como sugere a ligação da Igreja da Lagoinha com o banqueiro Daniel Vorcaro e seu cunhado Fabiano Zettel, maior doador das campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas nas eleições de 2022.
Mas a mesma Constituição cidadã, pilar da redemocratização brasileira, foi promulgada pela Assembleia Constituinte “sob a proteção de Deus”, o que não retira a laicidade do Estado, já que o impede de privilegiar uma religião determinada. Talvez seja apenas uma reafirmação da fé que ressoa na nossa alma brasileira, também formada por histórias milagrosas como a dos pescadores que no século 18 encontraram uma pequena imagem de uma santa negra, que fez jorrar peixes em suas redes, e depois se tornou a padroeira do Brasil.
Não se brinca com a fé, como sabe Fernando Henrique Cardoso que perdeu a primeira eleição para prefeito de São Paulo depois da ditadura, em 1985, para qual era francamente favorito, depois de se embananar para responder se acreditava em Deus, pergunta feita pelo jornalista Bóris Casoy, colunista e ex-editor-chefe da Folha de São Paulo, que sabia de antemão a resposta do sociólogo e o efeito negativo sobre sua candidatura.
É exatamente pela complexidade e subjetividade do assunto que a cobertura da imprensa deve ser duplamente cuidadosa, sem vestir a capa da neutralidade enquanto alimenta o discurso dos que valem de crenças religiosas para se eleger – como fez Flávio em aliança com Mendonça, ao transformar a disputa no STF em guerra santa e o ministro em ícone de campanha – e sem desprezar o impacto que esses temas têm para nós, brasileiros.
No Brasil, onde há tantos pais fujões, ausentes ou mesmo estupradores, não há referência afetiva maior do que a mãe, a mulher negra ancestral que criou e cria o povo brasileiro. Nossa Senhora, entre nós, responde por muitos nomes – da Conceição, da Praia, de Aparecida – e tem afinidade (sincretismo) com Oxum, a orixá da feminilidade e maternidade, assim como Nossa Senhora dos Navegantes com Iemanjá.
Nossas “nossas senhoras” nos abençoam dentro da complexa espiritualidade dos brasileiros, que ultrapassa o limite das igrejas e das religiões, como Eduardo Coutinho discute no documentário “Santo Forte” e confirmou recentemente pesquisa do Iser/Quaest.
Os evangélicos – ou os que pretendem agradá-los – têm o direito de discutir se Nossa Senhora da Aparecida do Brasil, declarada padroeira do país pelo Vaticano, em 1930, quando o poder da Igreja Católica era incontestável, deve permanecer como tal, como faz o projeto do pastor e ex-deputado Victor Galli (da ala mais direitista e mais enfurnada na política dos neopentecostais), desde que de forma transparente, com os candidatos assumindo suas convicções e não de maneira subliminar como apontou a CNBB. Também os católicos e outros simpatizantes de Nossa Senhora têm o direito de escolher candidatos de acordo com a sua fé.
O que os políticos evangélicos não podem é celebrar cultos no Congresso Nacional, exigir alinhamento político do Brasil a Israel (que consideram uma nação sagrada), impedir políticas públicas de igualdade de gêneros sob pretexto religioso, negar a autonomia da mulher inclusive em projetos de lei, utilizar templos como plataformas de campanha, destruir culturas indígenas, lançar fake news contra candidatos a ponto de identificar um deles com a figura do “diabo”, apoiar a destruição de terreiros e a agressão a pessoas de outras religiões, sobretudo de origem africana.
É nesse contexto que se trava a batalha por Nossa Senhora, embora nada disso tenha sido mencionado pela imprensa neste debate tão crucial em um país que ainda luta pela separação entre igrejas e Estado e não é capaz de garantir a todos os direitos constitucionais, inclusive a liberdade religiosa, afetada pelo racismo e instrumentalizada por políticos como o próprio Flávio Bolsonaro.
Boa votação a todos, que como sabemos, estarão rezando pela vitória do seu candidato.
Perfis no Instagram que promovem políticos bolsonaristas, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), passaram a atuar de forma articulada para impulsionar perfis dedicados ao ministro André Mendonça nas redes sociais em meio à crise no STF (Supremo Tribunal Federal) provocada pelo caso Master.
Um levantamento do Aos Fatos identificou na rede social da Meta ao menos 24 perfis dedicados ao magistrado e promovidos por meio de publicações colaborativas e convocações para que seguidores de contas políticas de extrema-direita passassem a acompanhá-los.
Há entre esses perfis aqueles que nem mesmo foram criados originalmente para enaltecer Mendonça: ao menos dois são contas preexistentes que trocaram de nome e passaram a se dedicar exclusivamente ao magistrado em setembro, após o estopim da crise.
Essa prática é conhecida como astroturfing, movimento que simula um apoio popular espontâneo, mas que é, na verdade, orquestrado por grupos de interesse.
Por que isso importa?
Redes bolsonaristas atuam de forma articulada para inflar apoio a Mendonça em meio à crise no STF
O maior perfil, com 1,9 milhão de seguidores, existe desde novembro de 2024, mudou de nome oito vezes desde então e recebeu o selo de verificação do Instagram em agosto. Antes de aderir de vez a Mendonça, o perfil já republicava posts religiosos, anti-LGBTQIA+ e sobre futebol.
Reposts do perfil @andremendoncas2 demonstram que página já existia e publicava conteúdo religioso
O segundo com maior engajamento, criado em abril, mudou de nome duas vezes e, assim como o primeiro, não exibe publicações anteriores a setembro. O Instagram não informa quais eram os nomes anteriores das contas.
A movimentação ocorre enquanto Mendonça é ungido como símbolo religioso nas redes. Entre 1º e 9 de setembro, 156 publicações analisadas pelo Aos Fatos que equiparam a atuação do ministro a uma jornada do herói evangélica, somaram 228 milhões de visualizações.
Em geral, esses conteúdos pedem orações pelo magistrado, o apresentam como um “servo de Deus” e retratam sua performance no STF como se fosse uma missão divina. No entanto, não é possível determinar em que medida esse engajamento é autêntico.
Cruzada nas redes
Desde que a crise transbordou no STF, no início de setembro, o Aos Fatos identificou ao menos 24 perfis dedicados a Mendonça no Instagram, que somavam 5,6 milhões de seguidores até quarta-feira (16). Destes, 12 já existiam antes da crise no STF e apenas trocaram de nome.
As contas @andremendoncas2 e @andremendoncas3, que, juntas, têm quase 3 milhões de seguidores, já existiam antes de setembro e passaram por mudanças de nome antes da identidade atual.
A @andremendoncas2, hoje com 1,9 milhão de seguidores, foi criada em novembro de 2024, mas não mantém nenhuma publicação anterior a setembro deste ano.
Apesar das mudanças, a plataforma não informa quais eram os nomes anteriores do perfil
O mesmo padrão aparece na @andremendoncas3. A conta foi criada em abril, mudou de nome duas vezes e também não exibe publicações anteriores a setembro.
Os primeiros posts atualmente disponíveis nesses perfis foram publicados em 5 e 7 de setembro. Desde então, os dois passaram a funcionar como perfis de apoio a Mendonça, compartilhando publicações quase idênticas, muitas das quais também distribuídas por outras contas identificadas no levantamento do Aos Fatos.
Diferentes contas publicam posts quase idênticos com o objetivo de angariar seguidores para os perfis de apoio a Mendonça
A identidade religiosa que impulsiona a mobilização aparece desde os primeiros posts disponíveis dos dois perfis. Ambos, inclusive, enganam ao associar uma pregação feita pelo ministro em fevereiro deste ano, durante uma conferência cristã de apoio a mães de pessoas atípicas, às discussões recentes no STF. Até esta quarta-feira (16), essas publicações acumulavam cerca de 2 milhões de visualizações.
Ministro é retratado em tom messiânico por perfis de apoio
As novas identidades das contas passaram a ser impulsionadas por perfis com audiências já consolidadas. O @nikolasferreiradms3, que usa o nome e a imagem do deputado federal mineiro, por exemplo, publicou uma chamada para que seu público seguisse a @andremendoncas2.
Contas pedem que audiência também siga perfil de apoio ao ministro
Aos Fatos identificou ainda um padrão que sinaliza a existência de uma articulação na rede social: o uso do recurso de collabs do Instagram entre esses perfis e outros dedicados a políticos bolsonaristas.
Em outros casos, diferentes perfis reproduziram imagens, vídeos e legendas idênticas e direcionaram seus seguidores para uma mesma página de apoio ao ministro.
Uma mesma postagem que anunciava que um perfil dedicado ao ministro havia superado 240 mil seguidores em 24 horas, por exemplo, foi distribuída por diferentes perfis bolsonaristas.
Ciclo de amplificação: perfis com audiências direcionam seguidores para contas de apoio a Mendonça e transformam crescimento em conteúdo
Servo de Deus
A escalada da disputa entre os ministros do Supremo foi acompanhada por uma explosão de conteúdos em defesa de Mendonça no Instagram em perfis religiosos, contas ditas noticiosas e políticos bolsonaristas.
A disputa institucional em torno das revelações do caso Master é apresentada como uma missão atribuída ao ministro por Deus ou como uma batalha entre o bem e o mal, formulação comumente utilizada pelo ex-presidente Bolsonaro ao longo de seu mandato.
Posts comparam ministros a figuras religiosas em busca por engajamento
A mobilização também foi incorporada ao discurso eleitoral. Das publicações analisadas, 20 foram feitas por candidatos ou políticos com mandato. Exemplo disso é o deputado federal Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), candidato a vice na chapa presidencial de Flávio, que associou a disputa envolvendo o magistrado à eleição de outubro.
Segundo ele, Moraes e o presidente Lula (PT) representariam um “sistema” que estaria tentando impedir Mendonça de avançar nas investigações sobre o Banco Master e as fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social): “que Deus abençoe o ministro André Mendonça”. Até esta quarta-feira (16), o vídeo acumulava 2,2 milhões de visualizações e 27 mil compartilhamentos.
Vice na chapa de Flávio Bolsonaro, Gaspar publicou vídeo relacionando Mendonça, Deus e as eleições
Segundo Marcos Jorge, coordenador jurídico do escritório Wilson Gomes Advogados e especialista em direito eleitoral, a legislação não proíbe que candidatos compartilhem declarações de autoridades, manifestem apoio ou utilizem falas de Mendonça durante a campanha.
A avaliação seria diferente caso as publicações atribuíssem ao ministro um apoio eleitoral inexistente, segundo o especialista. Gaspar, por exemplo, apesar de realizar uma associação explícita entre Mendonça e Flávio, não atribuiu ao ministro um apoio que ele não declarou.
Também haveria problema caso fosse demonstrada anuência ou articulação prévia de Mendonça para o uso eleitoral de suas manifestações, observa Jorge.
O advogado e mestre em Direito e Políticas Públicas Adriano Fonseca afirma que, neste caso, a conduta poderia suscitar questionamentos éticos e constitucionais. O Aos Fatos não encontrou evidências de que Mendonça autorizou ou participou da elaboração dessas publicações.
Outro lado
Aos Fatos entrou em contato com o gabinete de André Mendonça e com as assessorias de imprensa do deputado federal Nikolas Ferreira e do senador Flávio Bolsonaro para abrir espaço para comentários.
A reportagem tentou ligar para o gabinete de Alfredo Gaspar mas, como ninguém atendeu, enviou um e-mail com um resumo da citação feita no texto. Nenhum dos quatro citados havia respondido até a publicação desta reportagem.
Aos Fatos também enviou um pedido de posicionamento para a Meta questionando se a reutilização de uma conta com audiência preexistente, após sucessivas mudanças de nome e de temática, para promover uma figura pública, violaria regras da plataforma. A reportagem será atualizada em caso de resposta.
O caminho da apuração
Aos Fatos analisou 156 publicações no Instagram encontradas a partir dos termos “Mendonça” e “Deus”, classificando os conteúdos de acordo com os perfis responsáveis, o alcance e as principais narrativas utilizadas na defesa do magistrado.
A reportagem também mapeou 24 contas dedicadas a Mendonça e analisou informações disponibilizadas pela própria plataforma, como data de criação dos perfis e mudanças de nome, identificando uma rede de contas políticas que impulsionam perfis de apoio ao ministro.
Por fim, Aos Fatos entrevistou Guilherme Arduini, coordenador do LAR (Laboratório de Antropologia da Religião) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o especialista em direito eleitoral Marcos Jorge e o advogado e mestre em Direito e Políticas Públicas Adriano Fonseca sobre a mobilização religiosa em torno de Mendonça e os limites jurídicos dessa atuação.
A aldeia de Odeleite vai receber as tradicionais Festas em Honra de Nossa Senhora da Visitação no próximo fim de semana, entre os dias 4 e 6 de setembro, com um programa festivo repleto de música, tradições e iniciativas religiosas.
No primeiro dia, a feira abre portas pelas 18h00 com produtos regionais do concelho, seguindo-se um baile com Filipe Romão. À noite sobe ao palco o Rancho Folclórico do Azinhal, pelas 21h30, antecedendo o espetáculo do DJ Nuno Silva com a sua Tour Anos 80, pelas 22h30.
A 5 de setembro, o dia começa com a segunda edição do passeio de motorizadas, que parte de Odeleite pelas 09h00, com um percurso que vai percorrer os principais pontos daquela que é a maior freguesia do concelho.
Após a abertura da feira, o baile ficará a cargo dos Acordeanima, enquanto a atuação principal da noite será realizada pela artista portuguesa Joana D’Arc.
O grande destaque destas festas tradicionais vai decorrer no domingo, dia 6 de setembro, com a procissão em Honra de Nossa Senhora da Visitação pelas ruas da aldeia de Odeleite, pelas 19h00. A feira e o baile com Luís Godinho decorrem pelas 19h00, enquanto à noite haverá espetáculo com o grupo As Vozes, pelas 22h30.
As Festas em Honra de Nossa Senhora da Visitação contam com a organização da Junta de Freguesia local, do Município de Castro Marim, da Paróquia de Odeleite e da Associação Social da Freguesia de Odeleite.