Quando trabalhar já não chega, quem deve assumir as responsabilidades?
Meus caros leitores, vivemos tempos de desilusão com as políticas e as promessas de muitos governantes. Esta é a minha opinião, e não tenho de pedir desculpa a ninguém por pensar assim. Custa-me ver pessoas que contribuíram para determinados problemas aparecerem agora a apoiar protestos contra aquilo que ajudaram a criar. Custa-me ainda mais ver a política transformar-se, tantas vezes, numa corrida aos cargos, aos favores e aos tachos, em vez de ser um espaço de competência, responsabilidade e serviço ao cidadão.
Não preciso de aparecer nas páginas dos jornais, nem de procurar protagonismo, para dar a minha opinião. Sou feliz por poder dizer o que penso, sem andar atrás de cargos ou de ser o menino bonito de ninguém. Preocupa-me ver escolhas feitas por amizade, conveniência ou interesses que pouco têm a ver com a capacidade de quem é escolhido. Que exemplo estamos a deixar aos futuros governantes e líderes?
Meus caros amigos, o meu desabafo está feito. Mas há uma realidade que merece a nossa reflexão, em Portugal e um pouco por toda a Europa. Há uma pergunta que cada vez mais portugueses fazem, muitas vezes em silêncio, como é possível trabalhar, cumprir obrigações, pagar impostos e, mesmo assim, não conseguir comprar casa, pagar uma renda ou viver com alguma tranquilidade?
Não estamos a falar de luxos, férias no estrangeiro ou carros novos. Estamos a falar do essencial, ter um teto, constituir família e olhar para o futuro sem sentir que estamos permanentemente a lutar para chegar ao fim do mês.
Perante esta realidade, importa perguntar, chegámos aqui por acaso ou houve decisões políticas que contribuíram para esta situação?
Não acredito que tudo seja culpa de um único governo, nem que todos os problemas tenham origem na política nacional. Mas também não aceito que ninguém assuma responsabilidades. Os governos existem para tomar decisões, definir prioridades e resolver problemas. Devem, por isso, ser avaliados pelos resultados que deixam, e não apenas pelas promessas que fazem.
A crise da habitação não nasceu de um dia para o outro. Durante anos, diferentes governos tiveram oportunidades para agir. Os governos socialistas que estiveram no poder durante grande parte do período entre 2015 e 2024 não são responsáveis por tudo, mas também não podem ficar de fora deste balanço. Houve tempo para identificar problemas, corrigir políticas e criar condições para aumentar a oferta de habitação a preços acessíveis.
Quando se anunciam apoios, mas a construção continua insuficiente, podemos ajudar algumas famílias no imediato sem resolver o problema de fundo. Quando a burocracia, os impostos e a incerteza dificultam o investimento, quem procura uma casa a um preço razoável acaba por sentir as consequências.
Não defendo que o Estado abandone os mais vulneráveis, nem acredito que o mercado resolva tudo sozinho. Defendo, sim, que a solidariedade deve ser acompanhada de políticas eficazes, contas bem feitas e resultados concretos. Proteger as pessoas não pode servir de desculpa para adiar indefinidamente as reformas necessárias.
E há outra questão que não podemos ignorar, em Portugal, já vimos governos chegarem ao poder sem terem vencido as eleições, através de acordos parlamentares que juntaram forças políticas com visões muito diferentes. É legítimo questionar as consequências dessas escolhas e avaliar o que trouxeram ao país. Governar não é distribuir promessas para garantir votos; é tomar decisões, mesmo quando são difíceis, e assumir as suas consequências.
Olhemos também para outros países europeus que foram governados por forças socialistas ou por coligações de esquerda. Não podemos atribuir todos os seus problemas à mesma ideologia, porque cada país tem a sua realidade. Mas também não devemos ignorar os resultados das políticas seguidas. Afinal, é para isso que serve olhar para o passado, aprender com os erros, em vez de insistir neles.
Portugal precisa de menos anúncios e mais execução, de licenças mais rápidas, condições para construir, melhor aproveitamento dos imóveis disponíveis e investimento sustentado em habitação pública. Precisa também de regras estáveis, que conciliem os direitos dos inquilinos com a necessidade de aumentar a oferta.
Não se trata de desrespeitar quem pensa de maneira diferente. Trata-se de exigir responsabilidade a quem governa. Um país não pode viver eternamente à espera de que o próximo governo resolva aquilo que o anterior deixou por resolver.
A verdadeira solidariedade não consiste em prometer tudo a todos. Consiste em criar condições para que as pessoas possam trabalhar, progredir e viver com dignidade. O esforço individual importa, sim, mas também é necessário que exista um país onde esse esforço tenha uma oportunidade real de dar frutos.
Quando uma geração começa a duvidar de que trabalhar e poupar lhe permitirá comprar uma casa e construir o seu futuro, não estamos apenas perante uma crise imobiliária. Estamos perante um sinal de alerta para toda a sociedade.
Meus caros leitores, não sou do contra por sistema. Sou contra as promessas impossíveis, a falta de competência e os políticos que parecem fazer tudo para chegar ao poder, mas depois se esquecem de quem lhes confiou o voto. Não podemos continuar a aplaudir quem promete o impossível para entrar no galinheiro, quando é preciso começar por reparar aquilo que ajudou a destruir.
Desculpem o desabafo, mas abram os olhos e olhem para o passado. O presente também é consequência das decisões de ontem. Quem governa tem a obrigação de apresentar resultados e assumir responsabilidades.
Bom fim de semana.
Augusto Bandeira/MS