Pedro Nuno Santos, o alegado salvador da TAP e a memória seletiva da política afinal, onde mora a verdade?

Meus caros leitores, hoje é muito fácil consultar informação. No passado, os documentos eram em papel e, por vezes, mudavam de gaveta. Agora, com a informação digitalizada, mais cedo ou mais tarde, muita coisa vem ao de cima, tal como o azeite.
Não ficaria de consciência tranquila se não desse a minha opinião sobre um artigo que li, escrito por um grande amigo, que elogiava Pedro Nuno Santos como o salvador da TAP. Respeito opiniões diferentes, pois essa é uma das riquezas da democracia. Mas resolvi pesquisar, porque a minha memória me dizia que nem tudo estava certo naquela análise.
Não pretendo ofender ninguém, muito menos o meu amigo. Quero apenas recordar factos e deixar uma pergunta, será que estamos a esquecer demasiado depressa as responsabilidades de quem nos governou?
Na política portuguesa, parece existir uma regra curiosa, quando as decisões correm mal, a culpa é de todos ou das circunstâncias, quando correm bem, o mérito pertence a um só. É por isso que Pedro Nuno Santos merece ser analisado sem ataques pessoais, mas também sem branqueamentos políticos.
A TAP, salvar a companhia não significa absolver quem a governou.
A história da TAP não começou com Pedro Nuno Santos. Em 2015, o Governo de Pedro Passos Coelho concluiu a privatização de 61% do capital, parcialmente revertida em 2016, já com António Costa. Em 2020, durante a pandemia, o Governo socialista avançou para a renacionalização, sob a tutela de Pedro Nuno Santos.
Já agora, a pandemia justificava uma intervenção pública? É uma questão discutível. Mas, em dezembro de 2021, foi anunciado um plano de reestruturação com cerca de 3,2 mil milhões de euros de auxílio público autorizado. Foram milhões de euros dos contribuintes.
É legítimo defender a importância estratégica da TAP para Portugal. O que também é legítimo é perguntar se o dinheiro foi bem aplicado e exigir responsabilidades pelas decisões tomadas.
O caso Alexandra Reis veio reforçar essas dúvidas. A Inspeção-Geral de Finanças considerou nulo o acordo de saída que envolvia uma compensação de 500 mil euros, com exceção das componentes relativas ao contrato de trabalho e à respetiva compensação. Pedro Nuno Santos acabou por se demitir em dezembro de 2022, na sequência da polémica.
A TAP pode ter sobrevivido a uma crise extraordinária. Mas isso não transforma automaticamente o responsável político num herói acima de qualquer crítica. Afinal, onde ficamos?
A habitação, uma crise que não nasceu ontem, meus amigos façam uma pesquisa sobre este assunto e vão ver a verdade.
A falta de casas resulta de vários fatores, entre eles a construção insuficiente ao longo dos anos, a escassez de oferta, a concentração da procura nas grandes cidades, o investimento imobiliário e as dificuldades de licenciamento. Os preços também não acompanharam os rendimentos de muitas famílias.
Os governos de António Costa tiveram anos para aumentar a oferta pública, facilitar a construção e criar condições para um mercado de arrendamento mais funcional. Em 2023, avançaram com o programa Mais Habitação, mas as medidas adotadas não resolveram o problema estrutural da falta de casas.
Não seria sério atribuir toda a responsabilidade a Pedro Nuno Santos ou a uma única lei. Mas também não é aceitável esquecer os anos de governação socialista quando avaliamos os resultados. A oposição de hoje não pode apagar as responsabilidades de ontem.
SNS e imigração, os problemas não desaparecem por decreto, e volto a pedir que façam uma pesquisa, vão perceber como se chegou a este caos que se vive.
No Serviço Nacional de Saúde, a falta de profissionais, as dificuldades de organização e os tempos de espera são problemas acumulados que exigem respostas concretas. Em 2023, cerca de 1,7 milhões de utentes não tinham médico de família, segundo os dados então divulgados pelo Conselho das Finanças Públicas.
Na imigração, a extinção do SEF foi aprovada em 2021, quem era o governo e o ministro???, com votos favoráveis do PS e do Bloco de Esquerda. A transição para a AIMA, em 2023, revelou graves dificuldades administrativas e operacionais.
Isto não significa que toda a imigração seja descontrolada. Significa, sim, que o Estado tem de ter capacidade para gerir processos, fronteiras e serviços públicos. Será que também já nos esquecemos de quem tomou estas decisões?
Meus amigos, a política não pode funcionar como um altar. Pedro Nuno Santos pode ter qualidades, pode ter defendido opções estratégicas legítimas e pode reivindicar méritos. O que não podemos aceitar é que seja apresentado como salvador sem recordar os custos, os erros e as decisões tomadas sob a sua responsabilidade.
O mesmo princípio se aplica a José Sócrates, António Costa ou qualquer outro dirigente. Não devemos condenar ninguém apenas por pertencer a um partido, mas também não podemos absolver governos por simpatia ideológica.
Portugal não precisa de santos políticos. Precisa de governantes que expliquem as suas decisões, assumam os seus erros e respondam pelos resultados.
Foi por isso que perdi algum do meu tempo a pesquisar. Não para atacar um amigo, nem para impor a minha ideologia, mas para recordar aos leitores que a memória política é fundamental. Podemos ter opiniões diferentes, mas não devemos confundir lealdade partidária com verdade.
Bom fim de semana!
Augusto Bandeira/MS