IPSS empregam cerca de 250 mil pessoas e prestam apoio diário a pelo menos 500 mil cidadãos
A comunicação estratégica continua a ter um papel secundário em grande parte das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), comprometendo a visibilidade do trabalho desenvolvido e a capacidade de captar financiamento. A conclusão resulta de um estudo realizado junto de 254 instituições e serve de base ao livro IPSS – Instituições Particulares de Solidariedade Social em Portugal, da autoria de Agostinho Branquinho, apresentado esta terça-feira no Porto.
A obra resulta de uma investigação desenvolvida no âmbito de um doutoramento aprovado com distinção e louvor e traça um retrato abrangente do setor social português, analisando modelos de governação, a relação das instituições com o Estado e os desafios de sustentabilidade financeira. Entre as principais conclusões está a reduzida utilização da comunicação estratégica como ferramenta de reforço da notoriedade pública e de mobilização de recursos.
Durante a apresentação, Agostinho Branquinho, atual primeiro-secretário da Área Metropolitana do Porto e antigo secretário de Estado da Solidariedade e da Segurança Social, defendeu que as instituições sociais desempenham um papel essencial no funcionamento da sociedade. “Estas instituições são o principal garante da democracia”, afirmou.
O autor apontou ainda a invisibilidade pública das IPSS como um dos principais obstáculos enfrentados pelo setor. “Raramente aparecem nos media e, quando aparecem, é por questões negativas. É contra isso que temos de lutar”, sublinhou.
De acordo com os dados divulgados na sessão, referentes a 2025, as instituições de solidariedade social empregam cerca de 250 mil pessoas e prestam apoio diário a pelo menos 500 mil cidadãos. Para Agostinho Branquinho, uma comunicação mais profissionalizada e estruturada pode contribuir para reforçar a confiança pública, atrair mecenato e diversificar as fontes de receita.
O livro apresenta dez recomendações destinadas a fortalecer a comunicação das IPSS, aumentar a sua visibilidade e promover maior autonomia financeira. Entre as soluções defendidas pelo autor estão a partilha de serviços e recursos entre organizações, através de centrais de compras e de seguros, bem como a possibilidade de fusão entre instituições para ganhar escala e eficiência.
A sustentabilidade financeira foi outro dos temas centrais da sessão. O presidente da Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS), padre Lino Maia, alertou para a pressão crescente sobre as instituições, numa altura em que o envelhecimento da população coloca novos desafios às respostas sociais. O dirigente defendeu a inovação nos serviços prestados, a valorização dos trabalhadores do setor e a procura de fontes alternativas de financiamento.
Segundo os números apresentados, o Estado suporta cerca de 40% das despesas das instituições, enquanto os utentes contribuem com aproximadamente 33%, persistindo um défice de financiamento que obriga as organizações a procurar receitas complementares.
Também António Tavares, provedor da Santa Casa da Misericórdia do Porto, destacou a importância de demonstrar o impacto concreto da intervenção social. “O mérito deste livro é dar rosto aos números”, afirmou, acrescentando que a capacidade de adaptação aos novos desafios será determinante para o futuro das instituições.
A apresentação decorreu na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, no Porto, e reuniu diversas personalidades do setor social e político, entre as quais Pedro Duarte, presidente da Câmara Municipal do Porto e do Conselho Metropolitano do Porto, os antigos autarcas Rui Rio e Ricardo Rio, bem como representantes de vários municípios da Área Metropolitana do Porto.
Além do trabalho de investigação de Agostinho Branquinho, a publicação integra textos de Pedro Passos Coelho, padre Lino Maia, António Tavares e Pedro Duarte.