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Solidão “premium”: como redes sociais e consumo transformam estar só em desejo

29 October 2026 at 17:00

No Pauta Pública desta semana, Andrea Dip recebe Lucas Liedke e André Alves, psicanalistas, pesquisadores e fundadores da Float Vibes, instituto de estudos culturais e pesquisa comportamental. Apresentadores do podcast Vibes em Análise, eles discutem como as redes sociais transformam a noção de coletividade e de individualidade e como as empresas por trás dessas plataformas se beneficiam da solidão. Para Lucas, o consumidor solitário tende a ser mais rentável para o mercado. 

Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde, uma em cada seis pessoas no mundo se sente sozinha, com impactos significativos na saúde e no bem-estar. Para os entrevistados, as redes sociais prometem conexão e pertencimento, mas também podem intensificar o avanço da solidão entre as pessoas e transformar em espetáculo. “Quem filma a solidão […] no limite também está colocando a câmera como testemunha, ou a suposta audiência como testemunha… um artifício para não estar exatamente sozinho”, resume André Alves. Para Lucas Liedke, este é exatamente o ponto de atenção, já que as plataformas lucram com essa dinâmica. “O imaginário divertido e hipersocial das mídias sociais pode ser opressor”.

As redes sociais não só contribuem para este fenômeno como podem transformá-lo em uma espécie de espetáculo. 

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 239 A solidão “premium” – com Vibes em Análise

23 de outubro de 2026 · Psicanalistas do Vibes em Análise falam sobre o aumento da solidão e como as redes transformaram a ideia de coletividade

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Vocês escreveram esse texto, Solidão Premium, que é uma análise sobre muitos temas que se entrelaçam. Então pra começar, o que é a solidão premium?

Lucas Liedke: A discussão sobre solidão vem acontecendo enquanto sintoma global há algum tempo. Com certeza com mais força há uns cinco anos, a partir da pandemia, do trabalho remoto, do isolamento social. Alguns fenômenos que já eram uma realidade, mas que foram ganhando expansão, se tornando uma necessidade e nós sabemos que muitas pessoas nunca conseguiram voltar ao que era antes.

No Japão tem esse fenômeno do hikikomori, que são os indivíduos que não saem de casa, de forma alguma, e ficam nesse confinamento extremo. Na China, a gente viu o lançamento de um aplicativo, que tem um nome bastante macabro, que é Você Está Morto?, onde as pessoas são convidadas a fazer um check-in a cada dois dias para mostrar para as outras que elas ainda estão vivas.

Nesse contexto, a gente começou a perceber um movimento também de influenciadores de solidão. Pessoas que afirmam ter um um orgulho de não ter uma família próxima, de não ter muitos amigos, de passar um sábado à noite sozinho em casa, assistindo o que quiser no streaming, comendo o que quiser no delivery, sem ter que negociar os seus gostos, as suas escolhas com ninguém. E isso é um contraste curioso para as redes sociais, que sempre foi um lugar mais de expor o quanto você é sociável, o quanto você se diverte, as suas conexões, enquanto uma espécie de capital social. Essa contradição foi o que nos levou a escrever esse texto “Solidão Premium”.

André Alves: Tem o famoso relatório da OMS de 2025 sobre como uma em cada seis pessoas no mundo se sente afetada pela solidão. Sob à luz da psicanálise – que é o campo de onde a gente parte – a definição da solidão parte de uma espécie de déficit relacional. “Eu não tenho quantitativamente e ou qualitativamente relações suficientes na minha vida”. Claro que nunca a gente tem a suficiência na psicanálise, a gente está sempre trabalhando exatamente com ausências e faltas, mas no caso da epidemia de solidão, é algo que diz sobre faltar demais, sobre eu não ter relações profundas o suficiente, e/ou pessoas o suficiente na minha vida com quem eu possa trocar e que considerem a minha dor como algo importante.

A Solidão Premium, da qual a gente tem falado e esse texto que o Lucas escreveu, parte da ideia de que, no estado atual desse movimento, a gente tem observado muitos criadores de conteúdo, e não só, mas também outras áreas da cultura e da vida de uma forma geral, promovendo uma espécie de estetização da solidão. Um rebranding da solidão: a solidão passando a ser algo ou um estado não só difícil, vergonhoso, culposo, negativo, mas também como um estado aspiracional, algo que eu quero ter na minha vida, pertencer, e acho que dá para a gente falar, inclusive, um pouco sobre como o consumo afeta essa história.

Lucas Liedke: Porque essa solidão espetacularizada, o quanto ela é uma escolha? Ou o quanto que é tentar se contentar com o que tem, ou com o que não tem. Porque talvez o que a gente tenha perdido, muitos de nós, não seja só a proximidade com os outros, mas a capacidade e o desejo de se relacionar. Então, nesse espetáculo tem algo meio contraditório, que é você pode estar disposto a não ter mais o valor das relações interpessoais, mas, ao mesmo tempo, tem um gozo em possuir uma audiência e agradar uma audiência, que está validando ali a sua vida solitária, mas que está cheia de prazeres e que custa caro. Como o André falou, ela é aspiracional. Tem uma ostentação, tem um luxo de um certo consumo de que é: “eu estou sozinho, mas eu sou feliz aqui no meu castelo”.

Lucas Liedke e André Alves, psicanalistas, pesquisadores e fundadores da Float Vibes, instituto de estudos culturais e pesquisa comportamental
Lucas Liedke e André Alves, psicanalistas, pesquisadores e fundadores da Float Vibes, instituto de estudos culturais e pesquisa comportamental

Sobre essa ideia da solidão performada; de que solidão estamos falando, quando uma pessoa monta um esquema para se filmar curtindo estar sozinha, para depois apresentar para as pessoas e esperar delas curtidas e comentários? De que tipo de solidão estamos falando quando pensamos nessa solidão performática para o outro?

André Alves: Eu vou trazer três autores para pensarmos a solidão. O Winnicott, psicanalista britânico, tem um texto muito importante, do final dos anos 50, em que ele fala sobre a capacidade de estar só, sobre como a solidão ou a solitude é um estado conquistado. A criança aprende a estar só. Primeiro com os cuidadores observando a criança brincar sozinha, e depois a criança vai integrando essa capacidade de estar feliz em sua própria companhia, ou satisfeita minimamente na sua própria companhia.

Vamos guardar essa informação. Tem uma outra autora que é pouco falada quando se discute solidão – pelo menos nas minhas andanças por aí – que é a Melanie Klein. Já no final de sua obra, tem um texto em que ela descreve a solidão muito ligada a uma nostalgia de um estado perfeito de compreensão total, que nunca existiu mas é a fantasia da relação sem palavras com o objeto primário. A fantasia de que há um outro que me entende completamente, totalmente e me suporta integralmente.

Eu trouxe esses dois autores porque os dois estão falando, de alguma forma, desse ambiente perfeito. E a gente não anda muito bom de desidealizar as coisas. Pelo contrário, a gente anda muito bom de ideais saturados. É o que o consumo especialmente nos promove ou nos promete, né. É exatamente o ambiente perfeito. A casa que ela tem é maravilhosa a ponto de você não querer sair mais dela. Ela faz total sentido, ela reflete todos os seus gostos, né. Esse ambiente de conveniência máxima como se fosse um ambiente perfeito. Que a gente sabe, não existe, mas ao mesmo tempo parece que o consumo tem ficado especialmente bom em nos convencer do contrário.

E aí entra a viralidade e o conteúdo promovendo essa repetição em loop. Eu falei que eram três autores, e acho que tem um terceiro autor importante também da psicanálise britânica, que é o Christopher Bollas, que tem uma grande obra também no século XXI, de como o que a gente busca no consumo é o que o bebê geralmente busca na mãe. Não só um objeto, mas uma experiência de transformação. É isso que o consumo nos promete. “Use isso, tenha isso, viva isso, e você sairá dessa muito melhor, transformado, muito mais aspiracional, inclusive”. É como se a conveniência entrasse também como uma suplantação da carência e de uma constante presença.

Por que a gente tem visto tantos creators ou criadores de conteúdo falando sobre solidão? Exatamente para remontar esse ambiente perfeito e idealizado, colocar nos objetos e nessa casa perfeita cheia de coisas incríveis a ideia de experiência de transformação ou de preservação, e três, uma fala constante e ininterrupta sobre solidão exatamente para não ter que experimentar a solidão. Porque quem filma a solidão ou transforma a solidão em espetáculo – como o Lucas estava dizendo – também está colocando a câmera como testemunha, ou a suposta audiência como testemunha como também um artifício para não estar exatamente sozinho.

Lucas Liedke: Existem dados científicos de como o sentimento de solidão atua como um fator de risco para a nossa saúde, tanto quanto ser sedentário, quanto obesidade, ou tabagismo. Tem até essa ideia de que a solidão é considerada tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia. Mas a solidão é bem subjetiva, você pode estar cercado de muita gente, ainda assim se sentir só, ou o contrário. Então, é claro que não é tanto sobre estar sozinho apenas por opção, mas ter a opção de sair do isolamento quando você quer ou precisa.

Então vale a gente problematizar um pouco que o imaginário divertido e hipersocial das mídias sociais pode ser opressor. Mas a gente também pode demonizar uma vida solitária, assim como romantizar um sentimento de solidão. A gente enxerga que são dois becos sem saída porque tem um empuxo muito do nosso tempo hoje do hiper indivíduo de um grande projeto de se auto-otimizar. E aí as relações nem sempre ajudam nisso, porque você tem que abrir mão de alguma coisa. Precisa se adaptar, quebrar sua rotina, sacrificar alguma coisa. E aí o outro produz um tipo de diferença, ou de atrito, ou de imprevisibilidade nos seus planos. E aí quem entrega essa vida “social” sem fricção é a economia da companhia artificial. A inteligência artificial enquanto essa solução para um problema que foi criado pelas próprias tecnologias.

Não podemos deixar de lado como essa solidão serve ao capitalismo neoliberal, a individualização extrema. Por um lado, a libido tem que estar totalmente investida no trabalho, porque estamos sendo esmagados o tempo inteiro por demandas e não tem mais separação do trabalho para casa, nem fisicamente, nem na nossa cabeça. E aí quais os impactos dessa ideia que os vínculos interpessoais podem oferecer risco para o grande projeto de auto-otimização do super indivíduo?

Lucas Liedke: Tem um tratado do jornalista Derek Thompson que ele chama de século antissocial. Ele fala por esse viés mais do consumo, de a quem que interessa a gente ficar mais e mais sozinhos. Porque mesmo os aplicativos de relacionamento são projetados de forma que você continue lá. Eles não querem perder esses clientes e consumidores. 

O consumidor solitário tende a ser mais rentável para o mercado. São as porções menores e mais caras, é mais embalagem, tem mais transações individuais. A gente tem hoje uma análise de dados também, de algoritmo, que funciona de um jeito muito menos genérico, – como era a visão demográfica do consumidor – hoje, é muito singular, muito específico. E a gente vai sendo suprido com muita conveniência, como se isso desse conta da complexidade do nosso afeto e das nossas carências.

André Alves: O Bumble lançou esse ano o concierge de IA. Você não precisa mais conversar com 10, 50, 100 pessoas até achar uma pessoa que seria “perfeita”. Porque a gente sabe que o trabalho relacional começa exatamente depois do encontro, e não necessariamente no encontro perfeito, do objeto perfeito que vai satisfazer todas as suas necessidades. E aí o concierge de IA, na verdade, filtra quem são as três pessoas perfeitas. Depois, os concierges de IA vão conversar entre si para encontrar a sua probabilidade perfeita.

Então, é um sintoma social, da mediação relacional e também da comunicação assíncrona, de uma quantidade muito grande de ansiedades sociais, da evitação do conflito e principalmente – do que a gente no Instituto Float Vibes, que eu e o Lucas temos – chamamos de era das intimidades sintéticas. A gente fica acostumado demais não com as relações, mas com aquilo que é “sabor-relação”, que me dá o simulacro de relação o simulacro de comunidade, pegando um termo do Zygmunt Bauman.

Outra coisa que eu acho interessante pensar, bem fisheriano, é como essa relação é um golpe de mestre do capitalismo tardio. Primeiro, ele degrada a coletividade e depois nos vende ela de volta, só que com mensalidades, com grupos, com clubes. E aí nós vamos tentando reintegrar a nossa necessidade de fazer pontes e de pertencer através de serviços pagos. Só que, junto com isso, há uma tese em curso que ganha força – especialmente no final dos anos 80 e nos anos 90 –, de que o sucesso é uma questão de disciplina e especialmente de dedicação. Thompson, citado por Lucas, escreveu bastante sobre como o trabalho suplanta a ausência de religiosidade e espiritualidade desse período, consequentemente, o trabalho vira um sistema de devoção. 

Porque se o sujeito contemporâneo, do hiper desempenho, acredita que o sucesso é uma questão de disciplina, as relações vão se transformando em distrações. A relação tem um risco especialmente para os homens, como temos acompanhado em alguns estudos que temos feito e publicado. As relações vão sendo encaradas não mais como algo que você tem que fazer para pertencer ao meio social, mas sim, algo que você pode evitar para continuar comprometido com o seu projeto de sucesso e ascensão.

Comissão liquidatária do BPP avança com primeiro pagamento a credores comuns

29 October 2026 at 17:26

A comissão liquidatária do Banco Privado Português (BPP) avançou esta semana com o primeiro pagamento parcial a credores comuns, disse à Lusa o presidente, acrescentando que na terça-feira deu uma ordem para pagar quatro milhões de euros.

Em entrevista à Lusa, o presidente da comissão liquidatária do BPP, Manuel Mendes Paulo, disse que deu na terça-feira ordem aos serviços para pagamento a 200 credores comuns, no total de cerca de quatro milhões de euros, e que ainda esta semana será dada nova ordem de pagamento a mais 200 credores, no total de sete milhões de euros.

Recentemente, a comissão liquidatária do BPP anunciou que ia avançar com o pagamento de cerca de 80 milhões de euros aos credores comuns, correspondendo a cerca de 8,4% do total dos créditos reconhecidos a quase 5.600 credores (pessoas ou entidades) do banco que faliu há 16 anos.

Contudo, havia uma pendência em tribunal que fez atrasar o pagamento mas que ficou resolvida, permitindo que sejam efetuados os pagamentos.

Apesar dos 5.600 credores comuns reconhecidos, Mendes Paulo explicou que, por ordem do tribunal, só são pagos valores acima de 50 euros. Como o valor a pagar agora é de apenas 8,4% do crédito reconhecido, só têm direito a receber credores com crédito reconhecido mínimo de 600 euros. Nestas condições estão cerca de 4.000 credores.

Para proceder aos pagamentos, a comissão liquidatária enviou cartas a todos esses credores comuns a pedir para remeterem a documentação devida para poder ser validada. Dessas cartas, foram recebidas quase 3.000 respostas.

Segundo afirmou Mendes Paulo, atualmente há mais de 2.000 credores cujos processos estão completos ou a ser completados e cujo primeiro pagamento está já a acontecer ou vai acontecer nas próximas semanas.

“Processos completos são 2.200 ou 2.300. À medida que os processamento decorrer e estiver tudo ‘ok’ vão ser pagos em função da data em que foi completado o processo documental. Quem completa primeiro, recebe primeiro”, disse em entrevista à Lusa.

Questionado sobre o que acontece a quem não tiver respondido ou não tenha recebido a carta (houve centenas de devoluções por morada desatualizada, o que pode estar relacionado com processos de herança), Mendes Paulo afirmou que a qualquer momento o credor comum pode entregar a documentação junto da comissão liquidatária e assim que tiver validada receber o dinheiro que lhe é devido, sem prazos até ao fim do processo de liquidação.

Os credores comuns do BPP têm, no total, a receber 944 milhões de euros. Contudo, é sabido que o valor a receber ficará muito abaixo uma vez que o património do BPP não é suficiente (o ‘buraco’ do BPP era perto de 1.000 milhões de euros) e há credores que passam à frente (garantidos e privilegiados).

Aliás, os credores comuns estão agora a ser pagos pois já foi integralmente devolvido ao Estado português os 450 milhões de euros referente ao crédito garantido.

Os principais credores comuns do BPP são quatro: o Fundo de Garantia de Depósitos (teria a receber no total 100 milhões de euros), o Sistema de Indemnização aos Investidores (85 milhões de euros), a Liminorke (o maior credor privado, 53 milhões de euros a haver) e o Estado português (23 milhões de euros).

Estes credores, como os restantes com documentação validada (até agora mais de 2.000), receberão neste primeiro pagamento parcial 8,4% do crédito reconhecido.

O colapso do BPP, banco vocacionado para a gestão de fortunas, começou com a crise financeira de 2008 e culminou em 2010.

Apesar da pequena dimensão do banco, a falência do BPP lesou milhares de clientes e o Estado, tendo ainda tido importantes repercussões devido a potenciais efeitos de contágio ao restante sistema quando se vivia uma crise financeira.

Deu-se então início ao processo de liquidação, que dura há 16 anos e ainda decorre.

 

Será que Lula 4 nos conduzirá ao futuro ancestral?

29 October 2026 at 15:00

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Em seu discurso de vitória na noite de 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prometeu, em seu quarto mandato, uma nova forma de governar. Com isso, quis dizer que buscaria uma comunicação mais ativa com as ruas, prolongando o sucesso da estratégia digital e de mobilização no segundo turno. Me pergunto se o novo mandato também poderia representar uma oportunidade de inovar na economia e no meio ambiente. Seria possível aprofundar um projeto socioambiental que proteja nossos biomas e favoreça os povos indígenas?

Na candidatura de Lula, a redução do desmatamento, o combate às mudanças climáticas e a proteção aos direitos indígenas estavam presentes. Bem ao contrário do projeto abertamente danoso do bolsonarismo, que negava o direito à demarcação dos territórios indígenas e prometia o desmonte da legislação ambiental. Os jornalistas e ativistas que analisaram os programas de governo dos candidatos do PT e do PL encontraram centenas de menções aos temas socioambientais no caso do petista e quase nenhuma nas propostas de Flávio Bolsonaro.

Por isso, julgo que, a partir de janeiro de 2027, há possibilidades de avanços nas políticas do poder executivo. A trajetória de redução do desmatamento coloca o Brasil como líder na transição ecológica. Tudo indica que será possível acabar com as derrubadas ilegais na Amazônia até 2030. O caminho pode ser um pouco mais longo no Cerrado, onde a agricultura industrial obtém maior lucro. Para estancar a destruição neste bioma, será preciso repensar incentivos financeiros, como os créditos agrícolas, ou mesmo sancionar as propriedades privadas que insistem em destruir para produzir.

Há, no entanto, um caminho mais profundo e de longo prazo. Uma articulação política e territorial que se inspira nos modelos comunitários e de manejo da natureza dos povos indígenas.

A frase “O futuro é ancestral” se popularizou a partir do pensador e escritor Ailton Krenak, o primeiro indígena a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em seu livro de mesmo nome, publicado em 2022, ele traz uma mensagem de esperança ao apontar que o futuro não precisa ser apocalíptico, já que a solução sobre como viver em harmonia neste planeta já está entre nós. Contrário à noção de um progresso ocidental, que transforma a natureza somente em recurso, o pensamento indígena enxerga a terra, as florestas e os rios como entes vivos, nossos parentes mais antigos neste mundo.

Krenak popularizou o conceito, mas o senso de comunidade e o respeito à mãe natureza são algo que observamos em muitas culturas indígenas. Quando escutamos que grandes lideranças como o xamã Yanomami Davi Kopenawa nos alertam dos riscos de liberar os espíritos maléficos quando destruímos a floresta, é fácil entender a violência das invasões garimpeiras em seu território.

Essa visão de mundo, tão distinta da economia capitalista, tem consequências concretas para todos nós. A demarcação de terras indígenas, direito garantido aos povos originários na Constituição de 1988, permitiu que uma vasta extensão de ecossistemas nativos na Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal fosse conservada até hoje. Existe uma centena de estudos científicos que demonstram que as áreas sob cuidado dos indígenas estão em melhor condição do que as terras não demarcadas.

Em complemento a estas evidências sobre a efetividade dos territórios indígenas nas estratégias de conservação, temos um estudo muito importante liderado pelos pesquisadores do grupo de ecologia tropical do Instituto Serrapilheira, que foi capaz de calcular a contribuição econômica que as terras indígenas geram ao agronegócio.

A conexão entre floresta, chuvas e lavouras

Essa conexão se dá exatamente pela relação entre a floresta e as chuvas: a umidade advinda dos chamados rios voadores alimenta as lavouras do Centro-Oeste e Sul do país. Segundo nota técnica publicada em dezembro de 2024, as chuvas vindas das terras indígenas da Amazônia abasteceram 80% da atividade agropecuária do país, o que gerou R$ 338 bilhões em 2021, ou 57% da receita total.

Estes mesmos pesquisadores, junto a outros nomes de peso, como José Marengo, atual diretor do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais, publicaram também em 2024 na revista Nature um artigo em que mostram que as terras indígenas são essenciais para evitar o colapso ambiental da Amazônia, o chamado ponto de não retorno. Neste estágio crítico, as florestas deixariam de absorver carbono em quantidade útil para o equilíbrio do clima. Tornando-se mais seca com tantas queimadas e calor, a maior floresta tropical úmida do mundo não mais seria a provedora de chuvas essenciais.

Por esta razão, políticas públicas que reconheçam a importância das terras indígenas para o bem-estar de toda a nação são cada vez mais urgentes. Lula, junto à ministra Marina Silva foram bem sucedidos em criar o Fundo Amazônia em 2008 e com isso atrair recursos de governos estrangeiros e investir na manutenção e proteção dos territórios indígenas.

Mas é preciso avançar mais nos mecanismos de pagamento por serviços ambientais, que ainda engatinham ou flertam com soluções mercadológicas como os créditos de carbono.

Reforço o que havia dito há algumas semanas, quando defendi que povos da floresta estão unidos contra a extrema direita. O senso comunitário que historicamente permitiu a mobilização política em defesa dos direitos à terra, contra a invasão de desmatadores, garimpeiros ilegais é o mesmo que se uniu contra a proposta de entregar o Brasil aos grileiros.

Para saber mais

Já que hoje estamos falando do saber indígena, gostaria de recomendar a leitura do especial “Manejo do Mundo” publicado na edição deste mês da revista piauí e reproduzido em uma super versão interativa no site da mesma.

Este trabalho mostra como atuam os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAS) das terras indígenas do Alto Rio Negro. Através de diários sobre as condições climáticas e observações da fauna e flora, estes pesquisadores indígenas trazem uma representação incrivelmente completa do meio ambiente e suas transformações.

https://piaui.uol.com.br/revista/241/o-manejo-do-mundo/

Devemos esperar alguma mudança na política externa no próximo governo de Lula?

By: A A
29 October 2026 at 11:59

Por motivos geográficos inevitáveis e por uma diminuição da autonomia psicossocial, a política brasileira é extremamente dependente dos câmbios políticos que ocorrem de tempos em tempos nos EUA.

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Estando confirmada a vitória eleitoral de Lula (e apesar das controvérsias e da crise que perduram) agora é o momento de refletir sobre a possibilidade de mudanças significativas na política externa do presidente do Brasil em seu 4º mandato, que durará até 2030.

Uma pequena revisão das posições assumidas ao longo deste mandato que começou em 2023 se faz necessária.

Numa lista que não deve ser considerada exaustiva, Lula: 1) Reativou a participação brasileira em vários organismos internacionais para os quais Bolsonaro havia dado pouca atenção; 2) Ensaiou uma aproximação com a China no início de seu governo e aumentou laços comerciais após tarifas dos EUA, mas paralisou e recusou a participação na Iniciativa Cinturão & Rota; 3) Reativou a Cúpula da Amazônia, a organização do Tratado de Cooperação Amazônica e realizou na Amazônia a COP30, demonstrando um enfoque na Agenda Verde e na internacionalização (mediada por ONGs ocidentais) da região amazônica; 4) Condenou a operação militar especial russa na Ucrânia, mas se opôs a sanções ocidentais à Rússia, atribuindo responsabilidade pelo conflito tanto à OTAN quanto à Rússia, além de recusar enviar armas e munições para os ucranianos, por outro lado defendendo a retirada das tropas russas e a devolução de todos os territórios libertados/integrados à Ucrânia (incluindo a Crimeia); 5) Condenou a Operação Dilúvio Al-Aqsa do 7 de outubro de 2023 como um ataque terrorista, criticando também a reação israelense como desproporcional e, depois, como genocídio, gerando tensões com o governo de Netanyahu; 6) Pressionou por “eleições livres” na Venezuela, se recusou a reconhecer a reeleição de Maduro, vetou a entrada da Venezuela nos BRICS; 7) Presidiu os BRICS no ano de 2025, sem muitos avanços; 8) Acordo de livre-comércio com a União Europeia; 8) Condenou a Nicarágua e Daniel Ortega na ONU e em organizações de direitos humanos; 9) Criticou o recrudescimento dos embargos contra Cuba e deu seguimento à ajuda humanitária ao país; 10) Levou o caso das tarifas de Trump à OMC; 11) Ampliou parcerias de defesa com Suécia, Itália, Turquia e outros países da OTAN para a produção de equipamentos militares (aviões, veículos, etc.); 12) Se aliou ao Canadá e União Europeia na iniciativa “Parceiros pelo Multilateralismo”, que visa fortalecer a ONU contra ameaças de revisão da velha ordem internacional; 13) Fez publicamente frente comum com os EUA (quando ele era governado por Joe Biden) contra a ameaça das “autocracias” e da “extrema-direita internacional”.

A partir dessas posturas assumidas pelo governo Lula entre 2023 e 2026 podemos deduzir alguns padrões e tendências bem específicos:

1) Defesa do fortalecimento da ONU, dos organismos multilaterais e da “ordem mundial baseada em regras” do pós-Guerra Fria, contra o unilateralismo dos EUA e o revisionismo multipolarista defendido por potências contra-hegemônicas; 2) Inclinação para a União Europeia, enquanto durar o domínio trumpista nos EUA; 3) Máxima diversificação das relações comerciais; 3) Enfoque temático na Agenda Verde, na defesa da democracia liberal e na defesa dos “direitos humanos”.

Ao ignorarmos aos discursos de Lula e atentarmos exclusivamente para uma desconstrução das posições concretas e das ações efetivas do Brasil durante seu atual governo, adquirimos uma imagem que é bastante diferente daquela que é vista por uma grande parte dos analistas estrangeiros, que não raro possuem uma imagem mais “chavista” de Lula.

Em tese, não há motivo para que a postura internacional do Brasil mude nos próximos anos. Ela tende a permanecer aproximadamente a mesma, com as tendências já indicadas.

O único fator disruptivo na previsibilidade do governo brasileiro são os EUA.

Por motivos geográficos inevitáveis e por uma diminuição da autonomia psicossocial, a política brasileira é extremamente dependente dos câmbios políticos que ocorrem de tempos em tempos nos EUA.

Nesse sentido, portanto, diante da atual crise política brasileira, se o governo dos EUA deixar de reconhecer o resultado eleitoral e partir para tentativas diretas de desestabilização do Brasil através de sanções, o reconhecimento de um “governo no exílio”, etc, isso de fato pode forçar o Brasil a uma postura mais contra-hegemônica.

Não obstante, se Trump ignorar o lóbi bolsonarista e buscar algum modus vivendi com Lula, existe a forte tendência à manutenção daquelas tendências que já indicamos.

E finalmente, se os Democratas retornarem à Casa Branca após as eleições de 2028, então o governo do Brasil fará uma virada mais pró-EUA, buscando a reaproximação com Washington, tal como vinha acontecendo quando Joe Biden era presidente dos EUA.

Os negros da casa de Soros

By: A A
29 October 2026 at 11:45

Coalizão Negra por Direitos, financiada por Soros, elege 16 deputados federais que aplicam a agenda identitária da Open Society no Congresso.

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A política identitária dita “antirracista” tem recebido uma atenção crescente da Open Society. Em documento publicado em 2021, o diretor da divisão do Programa de Saúde Pública da organização, Kayum Ahmed, descreveu uma mudança na estratégia de financiamento para melhor incorporar a questão racial, de poder e de privilégios à política de financiamento da OSF.

“Estamos trabalhando para incorporar uma abordagem interseccional ao nosso financiamento; para mudar a distribuição do poder, precisamos mudar com quem trabalhamos, por meio do financiamento e da nossa capacidade de convocar atores”, escreveu.

O documento recomenda expressamente que as estratégias de financiamento incluam análises de poder e privilégio e objetivos para enfrentar estruturas de opressão e discriminação. Também orienta que a fundação seja específica ao falar de racismo, perguntando se está se referindo ao racismo antinegro e à supremacia branca. É uma orientação para modificar a seleção dos beneficiários, as relações institucionais e a distribuição de recursos segundo uma análise “interseccional” de poder.

No meu último artigo para a SCF, abordei os parlamentares eleitos em outubro com o apoio de ONGs que se passam por defensoras dos negros e que são financiadas pela Open Society. A organização guarda-chuva que reivindica a luta dos negros é a Coalizão Negra por Direitos, que promoveu candidaturas a partir do projeto Quilombo nos Parlamentos. São ao menos 16 novos deputados federais. Entre eles está Jones Manoel (PSOL).

Em agosto deste ano, Jones Manoel foi um dos destaques do lançamento do Quilombo nos Parlamentos em Pernambuco. Em seu discurso, ele afirmou: “acho que na atual conjuntura brasileira, há dentro da própria esquerda uma ofensiva contra o movimento negro, e não só, tachando-o, a partir de um debate equivocado, de identitarismo. Então há uma fala de que lutas antirracistas, antipatriarcais, antilgbtfóbicas, seriam lutas identitárias menores.”

O deputado eleito pelo PSOL também confirmou ter assinado a carta compromisso do Quilombo nos Parlamentos, aderindo oficialmente às diretrizes estabelecidas pela Coalizão Negra por Direitos. Isso significa que Jones se comprometeu a aplicar a política da Coalizão como deputado no Congresso Nacional.

A política da Coalizão Negra por Direitos segue exatamente a cartilha de sua financiadora, a Open Society. A organização guarda-chuva de George Soros financia o movimento Black Lives Matter nos EUA, que desmontou a revolta popular contra o assassinato de George Floyd e levou à eleição de Biden/Harris. No Brasil, copiou-se o movimento Vidas Negras Importam. No mesmo momento em que Soros impulsionava o BLM, a Coalizão publicou um manifesto de direitos humanos: “exigimos a garantida de direitos humanos a negras e negros. Queremos viver, não apenas sobreviver! Vidas negras importam. Basta de genocídio.”

Enquanto a OSF, ao anunciar as iniciativas em torno do legado de Marielle Franco, destacou sua intenção de “apoiar mulheres negras na política brasileira”, o manifesto de 2024 do Quilombo nos Parlamentos deixava claro que estava “impulsionando candidaturas, mandatas e bancadas negras”.

A teoria do racismo estrutural e do genocídio negro, propagada pela Coalizão Negra por Direitos e pelas organizações negras identitárias, tampouco é original. Anos atrás, Alexander Soros, filho, herdeiro e continuador do legado de George Soros na OSF, já utilizava exatamente o termo “racismo estrutural”. O relatório “Advancing Diversity, Equity and Inclusion in Grant Making”, publicado em 2021 pela OSF, também afirmava: “a maioria [das sociedades] também incorpora o racismo estrutural e a desvalorização sistêmica de pessoas com pele mais escura.”

Jones Manoel é conhecido por relativizar o papel do financiamento imperialista a organizações que se dizem representantes dos oprimidos. Para ele, fundações como as de George Soros realmente fazem filantropia e não seria um absurdo receber financiamento delas. Agora fica claro porque ele pensa dessa maneira: ele próprio acaba de ser impulsionado pelas entidades de Soros para se eleger deputado.

Erika Hilton é um caso de envolvimento profundo com a Open Society. Além de ser promovida pela Coalizão Negra por Direitos, a fundação de Soros impulsiona a deputada a partir da pauta transexual, como demonstrado em artigo recente. Em 2025, Hilton destinou R$ 1,5 milhão em recursos de emendas parlamentares à Associação Brasileira de Organizações Não Governamentais (Abong), incluindo a prestação de serviços para a Frente Parlamentar LGBT+, liderada pela própria Hilton. A Abong recebeu R$ 4,3 milhões de financiamento da OSF entre 2016 e 2024 e também integra a Coalizão Negra por Direitos, como mostrado no artigo anterior.

Além disso, tal como foi promovida pela Coalizão Negra por Direitos, Hilton também recebeu apoio da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA) nas eleições de 2026. A ANTRA recebeu 25,8 milhões da OSF, através do Fundo Brasil, entre 2016 e 2024. A deputada também chegou a indicar Bruna Benevides (presidente da ANTRA e integrante do conselho deliberativo da Conectas Direitos Humanos, que é financiada pela OSF e também faz parte da Coalizão) para receber a Medalha do Mérito Legislativo da Câmara Federal em 2024. Por fim, um documentário biográfico chamado House of Hilton foi produzido com o aporte de 25 mil dólares de um fundo da Firelight Media, uma organização sediada em Nova Iorque que tem entre seus apoiadores a Open Society Foundations.

Os atuais mandatos de Dandara Tontzin e Carol Dartora são responsáveis pela indicação de uma emenda parlamentar que permitiu um termo de fomento de R$ 2,4 milhões entre novembro de 2025 e fevereiro de 2027 ao Instituto de Referência Negra Peregum, uma das ONGs da Coalizão Negra por Direitos que é financiada pela Open Society.

Tontzin também apresentou, em abril de 2025, o requerimento para realizar, em conjunto com outra comissão, o seminário “Racismo Ambiental e Transição Energética Justa”. Entre os convidados estavam representantes do Peregum, do Geledés, do Instituto de Estudos Socioeconômicos (INESC) e da Terra de Direitos. O INESC e a Terra de Direitos também são receptores de fundos da Open Society (o primeiro recebeu R$ 8,6 milhões e o segundo R$ 4,6 milhões). O seminário ocorreu em 28 de maio de 2025. A página oficial da Câmara registra a participação de Carol Dartora e de Maíra Rodrigues da Silva, coordenadora da área de combate ao “racismo ambiental” do Peregum.

O funcionamento do esquema Soros, que é repetido mundo afora, fica muito claro. Primeiro, localiza indivíduos com ideias e objetivos compatíveis com os da Open Society. Depois, promove esses indivíduos através de suas ONGs. Quando eles se elegem deputados, passam a representar os interesses de Soros no Parlamento. E ainda por cima ajudam as ONGs que os promoveram, fortalecendo-as ainda mais para que continuem o seu trabalho de treinamento de novos agentes.

Todos esses deputados se apresentam como políticos de esquerda e até mesmo socialistas e anticapitalistas. Não passam de enganadores de um público ingênuo de esquerda, que gostaria de verdadeiras mudanças no País mas que estão capturados pelas ideias identitárias. Essa falsidade ideológica leva setores de direita a acreditarem que George Soros é um socialista, pois financia a esquerda. No entanto, ainda que acreditem ser de esquerda, esses deputados não podem ser considerados como verdadeiros esquerdistas, socialistas ou anticapitalistas. O socialismo é a antítese do capitalismo e, portanto, seu inimigo mortal. Se um dos maiores capitalistas do mundo os financia não é para instaurarem o socialismo, mas sim para aprimorarem o sistema de dominação capitalista sobre o povo brasileiro. Esses deputados “socialistas” são os negros da casa de Soros.

Críticas do público fizeram imprensa dar nome a golpismo de Bolsonaro, diz Fabiana Moraes

28 October 2026 at 23:31

Assim que foi divulgada a carta golpista na qual o candidato derrotado Flávio Bolsonaro se autoproclamou “presidente” do Brasil, muitos jornais brasileiros divulgaram a fala como se fosse mais uma notícia, em tom declaratório, sem evidenciar seu teor golpista.

“Em carta divulgada por aliados, Flávio Bolsonaro se diz presidente eleito do Brasil após chegar aos EUA fugido”, noticiou a Folha de S.Paulo. “Nos EUA, Flávio se autodeclara ‘verdadeiro presidente eleito’ e agradece a Trump e a Milei”, manchetou o Estadão. Outros veículos também fizeram títulos similares.

Depois de alguns minutos no ar, a maioria dos portais corrigiu o tom. “Flávio Bolsonaro se diz presidente eleito do Brasil em carta golpista divulgada por aliados”, reformulou a Folha. O Estadão também mudou: “Após fuga, Flávio se autodeclara ‘presidente eleito em carta golpista e agradece a Trump e a Milei”. Mais tarde, o próprio candidato derrotado postou uma nova carta, na qual se chama “líder do Brasil”.

Carta de Flávio Bolsonaro com duas versões sobre seu 'cargo' após eleições
Duas versões da mesma “carta” golpista apresentada por Flávio Bolsonaro no dia de hoje

A Agência Pública conversou com Fabiana Moraes, professora e pesquisadora do Núcleo de Design e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), para quem a mudança de postura dos grandes veículos nesta ocasião pode ter sido fruto de um maior “letramento midiático” do público depois das últimas eleições, que atua de forma mais crítica ao trabalho da imprensa.

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A professora, que pesquisa a objetividade jornalística — isto é, a crença de que o jornalismo consegue ser isento de ideologias e vieses — relembra como a mídia foi alvo de muitas críticas nesta cobertura eleitoral. “Flávio almoçar com a Globo antes da entrevista no Jornal Nacional foi um escândalo”, disse, sobre a reunião do ex-senador com executivos da emissora no dia em que seria sabatinado. “Acho que essas eleições ensinaram para uma população maior algumas questões que geralmente ficariam uma conversa entre jornalistas.”

A pesquisadora aponta que parte dos veículos que, em um primeiro momento, normalizaram o discurso golpista “queriam Flávio presidente, ou sempre tiveram uma enorme antipatia por Lula”. “Eu não diria que há uma nova postura [deles], mas uma correção nesse caso específico porque rapidamente as pessoas questionaram as manchetes.”

A pesquisadora relembra que ficou evidente que os algoritmos das redes sociais não são puramente técnicos e, por isso, podem ser questionados. Do mesmo modo, o jornalismo também não é puramente técnico, no entendimento de Moraes. “Acho que há uma questão de mostrar para onde a imprensa estava indo”, aponta, citando como exemplo as relações da imprensa com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que atuava quase como um ‘editor-chefe’ de algumas redações. A Pública mostrou a interferência editorial de Vorcaro no alto escalão do grupo Globo.

Moraes também aponta que, nessas eleições, ficou mais claro o peso do jornalismo independente, além do peso de estratégias diferentes da cobertura tradicional, como o uso de humor, ficção e de influenciadores digitais.

Um dos livros de Moraes é “A pauta é uma arma de combate”, em que trata sobre como os jornalistas definem o que vai ser ou não notícia, muitas vezes reproduzindo preconceitos e hierarquias de gênero, classe social e raça.

Moraes acredita que essa eleição será importante para “riscar o chão com a faca” para pactuar novas posturas. “Por exemplo, que precisamos promover de fato o jornalismo independente e financiá-lo. Porque é isso: Lula se torna presidente em uma eleição mais do que histórica, e, no dia seguinte, os jornais estão falando sobre a Bolsa de Valores – algo que sempre acontece –, mas minimizam o tamanho dessa vitória. Quando você olha para a imprensa internacional no dia seguinte, a cobertura e o peso que se dá a essa vitória do Lula são bem diferentes”, afirma.

“A imprensa vai continuar seguindo suas apostas, como a Globo com Flávio – apostas mesmo, né? Mas acho que há uma coisa boa, que é o reconhecimento do jornalismo que olha para a democracia não como negócio, mas como um ambiente necessário para respirar.”

Lula vence em seções eleitorais com local alterado, apesar de abstenção maior

28 October 2026 at 21:04

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o segundo turno das eleições realizadas no último domingo, 25 de outubro, em 247 das 431 seções eleitorais cujo local de votação foi modificado pelos tribunais eleitorais.

Nessas sessões, Lula recebeu 34.053 votos (55,3%) contra 25.691 (41,7%) de Flávio Bolsonaro, apesar de a abstenção média dessas urnas, de 20,36%, ter superado o índice de eleitores faltosos registrado nacionalmente, que foi de 19,2% no segundo turno. No primeiro turno, a abstenção foi de 21,08%, a maior desde 1998, e o grande alvo da campanha de Lula para realizar a virada e alcançar a reeleição.

A Agência Pública comparou como foi a votação nas 247 seções eleitorais entre o primeiro e segundo turnos, checando os boletins de urna na plataforma Resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O levantamento considera os dados entre 20 de outubro, quando o sistema do TSE anunciava 453 alterações em 22 Estados, e a lista final de seções que mudaram de local de votação, publicada na manhã do dia em que houve o segundo turno, 25 de outubro. O número de urnas também foi utilizado na reportagem da Pública, que detectou que Lula havia vencido no total de votos nas seções cuja alteração estava prevista na lista do TSE de 20 de outubro.

O número de urnas cujo local foi anunciado que seria alterado, segundo a reportagem, chegou a 4.352, depois caiu para 2.033, até chegar ao número final de 431 em 25 de outubro, tudo isso anunciado no sistema de informações eleitorais do TSE, sujeito a até quatro anúncios diários com modificações. Ou seja, o número de seções eleitorais alteradas poderiam mudar até quatro vezes num só dia.

Abstenção maior e mais votos para Lula

Apesar de uma abstenção maior, as urnas que foram alteradas de local tiveram um comportamento semelhante às do restante da eleição pelo país.

As 247 urnas checadas pela Pública tinham um eleitorado total de 77.338 eleitores dos quais 61.586 compareceram no segundo turno, 1,4% a mais do que os 60.702 do primeiro turno. Essas seções eleitorais estavam distribuídas em 19 estados, nas cinco regiões do país.

Lula teve mais votos em relação ao primeiro turno em 233 das 247 seções, 94% do total, enquanto Flávio Bolsonaro perdeu votos em 70 das 247 seções ou apenas manteve a votação do primeiro turno.

Analisando essas 247 urnas, fica clara a mobilização dos eleitores de levar mais gente a procurar às urnas no segundo turno e como se distribuíram os votos.

Viradas em urnas de seis Estados

Em Minas Gerais, analisando as 37 seções do Estado que fizeram parte do levantamento, a mudança da orientação fica evidente no voto no Estado, no qual Lula ficou em segundo, no primeiro turno, com 43,3% dos votos, e venceu o segundo turno com 50,4% dos votos.

No estado, foram oito seções em que o presidente perdeu no primeiro turno e passou a ter mais votos que o adversário no segundo turno. As viradas pró-Lula foram registradas em seções nos municípios de Arinos, Carmo da Mata, Ubá e Unaí. Em seções localizadas no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraíba e Pará também foi identificado o movimento de virada de votos.

Bolsonaro venceu nos seus redutos, mas Lula recuperou terreno

Outro comportamento notado na votação foi que Lula teve muito mais votos adicionais no segundo turno em relação ao concorrente, mesmo em estados onde não teve a maioria dos votos, caso de São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Rondônia.

Lula virou em uma seção da zona norte de São Paulo, na capital paulista, que se tornou um reduto da direita, obtendo 139 votos, 37 a mais do que havia recebido no primeiro turno, e o suficiente para bater Bolsonaro por 2 votos.

No estado de São Paulo, Lula obteve 2,6 milhões de votos a mais no segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro teve 1,2 milhão a mais.

Em uma seção do município de Confresa, Mato Grosso, modificada devido a questões climáticas, 283 eleitores compareceram no segundo turno ante os 271 da primeira votação. Bolsonaro recebeu 205 votos, nove a mais que no primeiro turno, enquanto Lula recebeu 72 votos, 18 a mais que a votação que teve na primeira rodada.

No Mato Grosso, Lula teve 112 mil votos novos, enquanto Flávio Bolsonaro conseguiu apenas 52,5 mil votos adicionais.

Em Laranjeiras do Sul, no Paraná, em uma das seções alteradas, Lula recebeu 75 votos no primeiro turno e 102 no segundo, 27 a mais, enquanto Bolsonaro recebeu 164 votos, apenas 14 a mais que no primeiro turno. No Paraná, Lula teve 511,9 mil votos a mais no segundo turno contra 337 mil votos adicionais de Bolsonaro.

Em Rondônia, estado onde Flávio Bolsonaro venceu, com 69,6% dos votos, estavam 12 das 247 urnas do levantamento, oito delas registraram um comparecimento de eleitores menor que no primeiro turno. Ou seja, em estados que venceu, Flávio não teve uma melhora significativa em sua votação.

Em todo o Estado de Rondônia, enquanto Lula obteve 43.779 votos a mais no segundo turno, Bolsonaro obteve apenas 21.394 votos a mais.

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