Uma perícia contratada pela defesa de Daniel Vorcaro identificou a criação e a modificação de centenas de arquivos no celular do ex-banqueiro depois que o aparelho foi apreendido pela PF (Polícia Federal). O laudo, porém, não diz quem fez as alterações nem conclui que tenha havido “adulteração deliberada”.
Segundo o documento, 657 arquivos têm registro de modificação em 18 de novembro de 2025, horas depois da prisão de Vorcaro no Aeroporto Internacional de Guarulhos, quando o telefone já estava com a PF. Desses, 59 eram bancos de dados. No mesmo dia, foram criados outros 436 arquivos, entre eles 222 de preferências do sistema, 94 imagens HEIC (formato de imagem padrão dos iPhones) e cinco bancos de dados.
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Ao ampliar o período de análise, o perito chegou a 999 arquivos modificados depois da apreensão. Além dos 657 de 18 de novembro, são dois alterados no dia 23 e 340 com datas entre 13 e 14 de maio de 2026.
Um dos arquivos modificados é o “ChatStorage.sqlite”, principal banco de dados do WhatsApp em aparelhos iOS, que reúne histórico de conversas, chamadas, grupos e informações sobre mídias. O registro aponta alteração às 1h48min14s de 18 de novembro. Segundos antes, entre 1h48min01s e 1h48min08s, o celular registrou uma conexão pela porta USB, uma das três daquela madrugada.
O relatório lista ainda 207 eventos de tela, 33 ativações da câmera frontal ligadas ao reconhecimento facial e quatro registros de criação ou alteração de senhas durante a custódia da PF.
O que o laudo não afirma
O perito Marcos Monteiro, contratado pela defesa, faz ressalvas. Segundo ele, os registros não permitem saber quem operou o celular, se houve intervenção humana intencional nem qual foi a extensão das alterações. Uma conexão USB, por exemplo, pode ter servido apenas para carregar o aparelho e, sozinha, não comprova transferência de dados.
Mas Monteiro diz que, sem as informações sobre a origem dos eventos, não é possível classificá-los como automáticos do próprio aparelho. Segundo o laudo, faltam registros para reconstruir o que foi feito no celular enquanto ele estava sob custódia da PF.
A defesa também diz não ter recebido os dados brutos da extração forense. Os advogados tiveram acesso a um relatório em formato UFDR, ao visualizador Cellebrite Reader e a um processamento feito pelo IPED, mas não aos arquivos originais da coleta, conhecidos como UFD ou UFDX.
O laudo aponta ainda falhas na cadeia de custódia, como a falta de documentação completa sobre o rompimento e a troca dos lacres e sobre quem teve posse do celular entre a abordagem de Vorcaro e o envio do aparelho à perícia.
Defesa volta a pedir liberdade
Com base na perícia, a defesa pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) acesso aos dados brutos da extração, aos registros de coleta e à documentação completa da cadeia de custódia. Dizem que o material é necessário para verificar se os dados apresentados pela investigação correspondem ao que foi extraído do aparelho do Vorcaro.
Os advogados também voltaram a pedir que a prisão preventiva seja trocada por medidas cautelares. Argumentam que não seria razoável manter Vorcaro preso enquanto há dúvidas sobre a integridade do que chamam de “prova central” da Operação Compliance Zero.
Vorcaro está preso preventivamente desde 4 de março, quando foi alvo de nova fase da investigação sobre o Banco Master. A prisão foi decretada pelo ministro André Mendonça diante da suspeita de que ele tentava interferir nas investigações.
PF indiciou Vorcaro
A perícia da defesa foi apresentada dias depois de a PF indiciar Vorcaro no inquérito sobre fraudes nas operações entre o Banco Master e o BRB. Também foram indiciados o ex-presidente do banco público Paulo Henrique Costa e outras 13 pessoas.
No relatório parcial, de mais de 700 páginas, a PF atribui a Vorcaro os crimes de gestão fraudulenta, indução a erro, falsidade em informações ou documentos, organização criminosa e lavagem de dinheiro. Os investigadores o apontam como o “principal centro de comando, coordenação e decisão” do esquema investigado.
Segundo a PF, o BRB comprou cerca de R$ 17,5 bilhões em ativos e carteiras de crédito do Master entre julho de 2024 e outubro de 2025. Desse total, ao menos R$ 12,2 bilhões corresponderiam a créditos negociados sem comprovação de existência.
O relatório é parcial e não encerra a investigação. A PF pediu ao STF mais 60 dias para concluir perícias e outras diligências.
A Operação Compliance Zero apura a emissão de títulos de crédito falsos por instituições do SFN (Sistema Financeiro Nacional), além de suspeitas de gestão fraudulenta, gestão temerária e organização criminosa.