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Acidente de trem fatal na Espanha é desafio para reeleição de Pedro Sánchez

31 October 2026 at 13:00

O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, esperava aproveitar uma onda de indignação popular — desencadeada pelo despejo de uma idosa de mais de 80 anos de sua casa, que veio a falecer posteriormente — para conquistar a reeleição em um pleito antecipado.

No entanto, o acidente ferroviário ocorrido na quarta-feira (28) desferiu um duro golpe em sua campanha.

O acidente, na província de Toledo, resultou na morte de 69 pessoas. O episódio ocorreu apenas nove meses após outro acidente fatal na mesma linha, provocando críticas de especialistas e da população sobre a falta de investimento na infraestrutura ferroviária durante o governo de Sánchez, após anos de rápida expansão da rede.

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“Se já tínhamos medo de andar de trem antes, agora temos ainda mais… Justo quando pensamos que nada mais pode dar errado, acontece algo novo. É preciso uma mudança profunda”, disse Oscar, um jovem de 24 anos que preferiu não revelar seu sobrenome, na estação de Atocha, em Madri, na quarta-feira.

Ao visitar o local do acidente na quarta-feira, Sánchez afirmou que a “terrível tragédia” seria investigada e prometeu corrigir quaisquer falhas que viessem a ser identificadas.

“Se precisarmos reforçar ainda mais a segurança para restaurar a confiança em nosso sistema ferroviário de alta velocidade, nós o faremos; é inaceitável que um país como a Espanha sofra dois acidentes ferroviários de alta velocidade no mesmo ano“, declarou.

Sánchez, que aparecia atrás na maioria das pesquisas de opinião, parecia estar ganhando fôlego; uma sondagem de outubro, realizada pelo instituto estatal CIS, mostrava seu partido à frente, a poucas semanas das eleições marcadas para 29 de novembro.

A morte de Maricarmen Abascal — despejada da casa onde viveu por mais de 70 anos — provocou protestos por toda a Espanha, voltando as atenções políticas para a crise habitacional, apontada em pesquisas como a principal preocupação da maioria dos espanhóis.

A comoção em torno do caso de Abascal, que levou Sánchez a convocar eleições antecipadas no dia 5 de outubro, serviu também para desviar a atenção da mídia sobre a gestão, por parte de seu governo, da crise migratória ocorrida neste verão em Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Partidos de direita e forças de segurança acusaram os socialistas de negligenciar o investimento na infraestrutura de fronteira, apesar de alertas recorrentes feitos pelas equipes que atuam no local.

Não há espaço para “retórica triunfalista”

Sanchez, de 54 anos, apresentou-se como o candidato do progresso.

Até o momento, ele tem conduzido uma campanha positiva e otimista, participando de entrevistas em programas de entretenimento e podcasts, enquanto seu partido tenta mobilizar milhões de eleitores indecisos de inclinação esquerdista para comparecerem às urnas.

“Não creio que a retórica triunfalista… tenha qualquer lugar neste momento; suspeito que levará muito tempo até que voltemos a ver esse tipo de atitude”, afirmou Paco Camas, diretor de assuntos públicos do instituto de pesquisa Ipsos.

O acidente ocorrido esta semana forçará uma mudança para um tom mais sóbrio, avaliou Camas.

Os opositores de Sanchez exigiram imediatamente que responsabilidades sejam apuradas, declarando que não se deixarão silenciar pelo luto.

“A dor não nos obriga a ficar calados. Serenidade não é silêncio… Os espanhóis farão perguntas urgentes que merecem respostas”, disse Alberto Núñez Feijóo, presidente do conservador Partido Popular, prometendo uma revisão completa da rede ferroviária caso chegue ao poder.

Manifestantes reúnem-se em Madri

Na noite de quarta-feira, centenas de manifestantes — em sua maioria ligados à direita — reuniram-se em frente ao Ministério dos Transportes da Espanha para exigir a renúncia de Sanchez. Um deles carregava uma faixa com os dizeres: “A Espanha não aguenta mais”.

“Este governo destruiu absolutamente tudo, inclusive a infraestrutura”, afirmou Santiago Abascal, líder do partido de direita Vox, durante um comício na quarta-feira. “Não permitiremos que usem o luto que compartilhamos — a raiva, a dor e a indignação — para silenciar, nem por um segundo sequer, a condenação do que está acontecendo na Espanha.”

O ministro dos Transportes, Óscar Puente, refutou, em uma coletiva de imprensa na quarta-feira, as alegações de que o sistema ferroviário espanhol seria perigoso. Ele afirmou que o sistema é “confiável e seguro… respeitando os limites do próprio material e da ação humana, como ocorre em qualquer meio de transporte”.

Falta de confiança nos serviços ferroviários

Sánchez chegou a promover o sistema ferroviário de alta velocidade do país — que conta com 4 mil quilômetros de extensão e é o segundo maior do mundo, atrás apenas do da China — como um trunfo político; contudo, agora, ele pode acabar se tornando um ônus.

Pesquisas divulgadas pela mídia espanhola em janeiro, após o último acidente fatal, revelaram que 57% dos entrevistados perceberam uma piora nos serviços ferroviários desde que Sánchez assumiu o cargo, e quase 60% afirmaram ter pouca ou nenhuma confiança no sistema ferroviário da Espanha.

Segundo o Ministério dos Transportes da Espanha, a investigação sobre as causas desse acidente ainda está em andamento. Um relatório preliminar identificou uma fratura no trilho que, ao que tudo indica, ocorreu antes do descarrilamento.

A utilização dos trens de alta velocidade — que havia batido recordes em 2024 e 2025 — registrou uma queda de 15% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano anterior, conforme dados da autoridade de concorrência da Espanha.

Na quarta-feira, Puente evitou dizer se renunciaria ao cargo, afirmando que “não é o momento” para falar sobre si mesmo.

Espanha. Operadores e maquinistas querem baixar velocidade

31 October 2026 at 11:26
Depois do choque a 160 km/h em Urda (Toledo), a operadora italiana quer obrigar a mudança para sistema alternativo e redução da velocidade para cerca de 40 km/h.

© ISMAEL HERRERO/EPA

Acidente ferroviário em Toledo provocou pelo menos 69 mortos

Espanha/Eleições: Um acidente “não aceitável” a um mês das legislativas

31 October 2026 at 10:25

O acidente ferroviário desta semana em Espanha foi qualificado como inaceitável pelo próprio primeiro-ministro e deixou em choque um país que já estava em plena campanha para as eleições de 29 de novembro.

“Não é aceitável que um país como Espanha sofra dois acidentes ferroviários de alta velocidade no mesmo ano”, disse Pedro Sánchez por duas vezes esta semana, após o choque de comboios de quarta-feira em Urda, Toledo, em que morreram pelo menos 69 pessoas. Em janeiro, outras 46 pessoas morreram num acidente de comboios em Adamuz, Córdova.

Espanha decretou três dias de luto nacional e a generalidade dos partidos (à exceção do Vox, de extrema-direita) cancelaram a agenda pública até pelo menos este fim de semana, sobretudo, as ações de pré-campanha para as legislativas antecipadas de 29 de novembro.

As cúpulas dos maiores partidos nacionais, citadas pela imprensa espanhola, reconheciam que a par de respeitar o luto e o choque do país, é também agora necessário “recalcular estratégias e agendas” de campanha.

Até agora, a campanha tinha estado marcada por temas como a habitação, a imigração e a entrada ilegal de milhares de pessoas em Ceuta, a sustentabilidade das pensões, os pactos do Partido Popular (PP, direita) com o Vox ou os acordos e ruturas entre forças à esquerda dos socialistas.

As eleições foram convocadas em 05 de outubro pelo primeiro-ministro e líder do Partido Socialista (PSOE), Pedro Sánchez, no meio de protestos nas ruas pela crise da habitação e depois de forças de direita terem ‘chumbado’ no parlamento decretos do Governo com medidas para esta área.

Após dois meses em que a imigração e Ceuta centraram todas as atenções do debate público e mediático, no início do mês, os focos mudaram subitamente para a habitação e Pedro Sánchez antecipou as eleições.

A habitação “tem um quadro mais favorável para a esquerda”, nas palavras do politólogo e professor universitário Pablo Simón, autor do estudo “A habitação como fratura política”, da Universidade Carlos III, de Madrid, publicado no início de outubro.

Já a imigração, “mais favorável” à direita, além de ser atualmente um dos temas centrais dos partidos conservadores e de extrema-direita, em Espanha e no resto da Europa, tinha ganhado especial protagonismo desde finais de julho, por causa da entrada de mais de 70.000 pessoas de forma ilegal em 24 horas em Ceuta, um enclave espanhol no norte de África, com fronteiras com Marrocos.

Pedro Sánchez é primeiro-ministro desde 2018 e, desgastado internamente por vários casos confirmados e suspeitos de corrupção de pessoas que lhe são próximas, por uma paralisia legislativa por depender de uma geringonça de oito partidos no parlamento que lhe impediu de apresentar uma única proposta de Orçamento do Estado desde 2022 ou pela atuação em Ceuta, viu no tema da habitação “uma janela de oportunidade”, coincidiram as análises de politólogos, analistas e meios de comunicação.

“A campanha eleitoral seguia por caminhos frívolos, até que outra tragédia nos lembrou para que serve votar. Enquanto alguns se dedicavam à virtualização política, falando-nos de partidos úteis, de jogadas de mestre ou de como conseguir mais lugares fundindo-se numa mesma candidatura eleitoral, a realidade bateu à porta”, escreveu na sexta-feira a politóloga Estefania de Molina no jornal El Pais.

Apesar de (quase) não ter havido comícios ou entrevistas nos últimos dias, é já certo que o acidente de quarta-feira em Urda voltou a colocar Sánchez e o PSOE sob críticas e acusações generalizadas, após dois acidentes com comboios com mais de cem mortos num ano e notícias regulares de ocorrências e avarias nas infraestruturas ferroviárias e outras, como as da rede elétrica, com o apagão de 2025.

Entre as várias forças que já pediram esta semana que sejam assumidas “responsabilidades políticas”, como a demissão do ministro dos Transportes, incluem-se até os parceiros do PSOE na coligação que está no Governo e outros da geringonça que reinvestiu Sánchez primeiro-ministro em 2023.

As sondagens mais recentes dão o PP como partido mais votado em 29 de novembro, mas sem maioria absoluta, que será possível com uma aliança com o Vox. O PSOE será o segundo mais votado, com uma diferença de seis pontos percentuais em relação ao PP, segundo a média das sondagens mais recentes.

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