Acidente de trem fatal na Espanha é desafio para reeleição de Pedro Sánchez
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, esperava aproveitar uma onda de indignação popular — desencadeada pelo despejo de uma idosa de mais de 80 anos de sua casa, que veio a falecer posteriormente — para conquistar a reeleição em um pleito antecipado.
No entanto, o acidente ferroviário ocorrido na quarta-feira (28) desferiu um duro golpe em sua campanha.
O acidente, na província de Toledo, resultou na morte de 69 pessoas. O episódio ocorreu apenas nove meses após outro acidente fatal na mesma linha, provocando críticas de especialistas e da população sobre a falta de investimento na infraestrutura ferroviária durante o governo de Sánchez, após anos de rápida expansão da rede.
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“Se já tínhamos medo de andar de trem antes, agora temos ainda mais… Justo quando pensamos que nada mais pode dar errado, acontece algo novo. É preciso uma mudança profunda”, disse Oscar, um jovem de 24 anos que preferiu não revelar seu sobrenome, na estação de Atocha, em Madri, na quarta-feira.
Ao visitar o local do acidente na quarta-feira, Sánchez afirmou que a “terrível tragédia” seria investigada e prometeu corrigir quaisquer falhas que viessem a ser identificadas.
“Se precisarmos reforçar ainda mais a segurança para restaurar a confiança em nosso sistema ferroviário de alta velocidade, nós o faremos; é inaceitável que um país como a Espanha sofra dois acidentes ferroviários de alta velocidade no mesmo ano“, declarou.
Sánchez, que aparecia atrás na maioria das pesquisas de opinião, parecia estar ganhando fôlego; uma sondagem de outubro, realizada pelo instituto estatal CIS, mostrava seu partido à frente, a poucas semanas das eleições marcadas para 29 de novembro.
A morte de Maricarmen Abascal — despejada da casa onde viveu por mais de 70 anos — provocou protestos por toda a Espanha, voltando as atenções políticas para a crise habitacional, apontada em pesquisas como a principal preocupação da maioria dos espanhóis.
A comoção em torno do caso de Abascal, que levou Sánchez a convocar eleições antecipadas no dia 5 de outubro, serviu também para desviar a atenção da mídia sobre a gestão, por parte de seu governo, da crise migratória ocorrida neste verão em Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Partidos de direita e forças de segurança acusaram os socialistas de negligenciar o investimento na infraestrutura de fronteira, apesar de alertas recorrentes feitos pelas equipes que atuam no local.
Não há espaço para “retórica triunfalista”
Sanchez, de 54 anos, apresentou-se como o candidato do progresso.
Até o momento, ele tem conduzido uma campanha positiva e otimista, participando de entrevistas em programas de entretenimento e podcasts, enquanto seu partido tenta mobilizar milhões de eleitores indecisos de inclinação esquerdista para comparecerem às urnas.
“Não creio que a retórica triunfalista… tenha qualquer lugar neste momento; suspeito que levará muito tempo até que voltemos a ver esse tipo de atitude”, afirmou Paco Camas, diretor de assuntos públicos do instituto de pesquisa Ipsos.
O acidente ocorrido esta semana forçará uma mudança para um tom mais sóbrio, avaliou Camas.
Os opositores de Sanchez exigiram imediatamente que responsabilidades sejam apuradas, declarando que não se deixarão silenciar pelo luto.
“A dor não nos obriga a ficar calados. Serenidade não é silêncio… Os espanhóis farão perguntas urgentes que merecem respostas”, disse Alberto Núñez Feijóo, presidente do conservador Partido Popular, prometendo uma revisão completa da rede ferroviária caso chegue ao poder.
Manifestantes reúnem-se em Madri
Na noite de quarta-feira, centenas de manifestantes — em sua maioria ligados à direita — reuniram-se em frente ao Ministério dos Transportes da Espanha para exigir a renúncia de Sanchez. Um deles carregava uma faixa com os dizeres: “A Espanha não aguenta mais”.
“Este governo destruiu absolutamente tudo, inclusive a infraestrutura”, afirmou Santiago Abascal, líder do partido de direita Vox, durante um comício na quarta-feira. “Não permitiremos que usem o luto que compartilhamos — a raiva, a dor e a indignação — para silenciar, nem por um segundo sequer, a condenação do que está acontecendo na Espanha.”
O ministro dos Transportes, Óscar Puente, refutou, em uma coletiva de imprensa na quarta-feira, as alegações de que o sistema ferroviário espanhol seria perigoso. Ele afirmou que o sistema é “confiável e seguro… respeitando os limites do próprio material e da ação humana, como ocorre em qualquer meio de transporte”.
Falta de confiança nos serviços ferroviários
Sánchez chegou a promover o sistema ferroviário de alta velocidade do país — que conta com 4 mil quilômetros de extensão e é o segundo maior do mundo, atrás apenas do da China — como um trunfo político; contudo, agora, ele pode acabar se tornando um ônus.
Pesquisas divulgadas pela mídia espanhola em janeiro, após o último acidente fatal, revelaram que 57% dos entrevistados perceberam uma piora nos serviços ferroviários desde que Sánchez assumiu o cargo, e quase 60% afirmaram ter pouca ou nenhuma confiança no sistema ferroviário da Espanha.
Segundo o Ministério dos Transportes da Espanha, a investigação sobre as causas desse acidente ainda está em andamento. Um relatório preliminar identificou uma fratura no trilho que, ao que tudo indica, ocorreu antes do descarrilamento.
A utilização dos trens de alta velocidade — que havia batido recordes em 2024 e 2025 — registrou uma queda de 15% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano anterior, conforme dados da autoridade de concorrência da Espanha.
Na quarta-feira, Puente evitou dizer se renunciaria ao cargo, afirmando que “não é o momento” para falar sobre si mesmo.
