Cerca de 500 mil pessoas foram às ruas em protestos na França nos últimos dias, em atos que começaram pedindo reformas no sistema educacional e evoluíram para reivindicações sociais mais amplas, que já influenciam outros países da Europa.
Os protestos começaram em setembro, quando estudantes bloquearam o acesso a uma escola na região de Paris para exigir mais recursos para a educação. Rapidamente, alunos de outras escolas aderiram, e as manifestações se espalharam pelo país, reivindicando mais professores, mais recursos e a melhora da estrutura dos prédios. A demanda escalou, e se transformou na manifestação de uma insatisfação generalizada com o alto custo de vida, a queda na qualidade dos serviços públicos e com o governo.
O governo tem falado em atos de violência, depredação de patrimônio e incêndios. As autoridades francesas detiveram mais de 6,8 mil pessoas – mais de 5 mil menores de idade.
As manifestações inspiraram levantes na Itália, Albânia e Portugal.
Na Grécia, os estudantes reclamam do custo de vida e do aumento de mensalidades e taxas. Na Espanha, professores exigem melhores salários. Na Albânia, estudantes protestam contra as condições nas universidades, os custos do ensino superior e a falta de apoio financeiro. Em Portugal, a demanda é também por custos mais baixos de taxas nas universidades.
Na Argentina, milhares de estudantes e professores foram às ruas na última quinta-feira, 15 de outubro, em protesto contra o governo de Javier Milei.
Essa onda de protestos também tem sua contrapartida no Brasil. “Estamos na rua contra a extrema direita e, sobretudo, contra o que ela representa de retrocesso no nosso país” me disse em entrevista no último Pauta Pública o vice-presidente da União Nacional dos Estudantes, Gutemberg Rodrigues, sobre os atos e assembleias que têm sido organizados de forma espontânea por todo o país desde o dia 5 de outubro, sobretudo em apoio à reeleição de Lula, e que têm levado milhares de pessoas às ruas.
É sempre muito bonito ver os estudantes ocuparem os espaços públicos, e o Brasil tem momentos históricos importantes nesse sentido – seja na época da ditadura militar, com a Passeata dos Cem Mil em 1968, o movimento pelo Passe Livre em 2013, ou quando os secundaristas ocuparam as escolas de São Paulo em 2015.
Neste momento, em que tanto está em jogo no futuro do país dependendo do resultado das eleições que acontecem em poucos dias, e que ouvimos apenas que a juventude tem se radicalizado à direita, que há uma apatia na GenZ, que o elo de rebeldia com a esquerda se desfez e que não há mais pensamento crítico ou pautas coletivas, esse levante jovem no mundo é um alívio para nossos corações cansados.
Que esse levante dos estudantes, no Brasil e pelo mundo, nos sirva de inspiração e nos dê energia nestes poucos dias que faltam para o segundo turno, em que nossas cabeças estão cheias, nossos corações estão pesados e parece que a energia vai acabar a qualquer momento.
Mas que nos inspire também para além destas eleições, porque a luta não acaba com a apuração de votos, seja qual for o resultado.
Tem aquela frase bonita que o artista mexicano Enrique Cedillo criou para o Partido Comunista Mexicano e que eu gosto de lembrar sempre: “Que a injustiça não te entristeça, que te radicalize”.
Desde o dia 5 de outubro, universitários têm organizado assembleias e manifestações em apoio à reeleição de Lula em diferentes cidades brasileiras. Uma das entidades que organiza e articula esses atos públicos, com a chamada “brigada de vira-voto”, é a União Nacional dos Estudantes (UNE), principal entidade dos estudantes brasileiros que representa cerca de seis milhões de universitários de todos os 26 Estados e do Distrito Federal.
No Pauta Pública desta semana, Andrea Dip recebe Gutemberg Rodrigues, estudante de História da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ) e vice-presidente da UNE. Ele analisa as manifestações que mobilizam a juventude dentro e fora das universidades e relembra o papel histórico do movimento estudantil na resistência a retrocessos, na defesa da educação pública e na formação de novas lideranças políticas.
“O movimento estudantil provoca e ajuda a formar novas lideranças, mas, acima de tudo, ajuda a mobilizar e organizar a luta no nosso país. […] Por isso, o grande grito de ordem dessas manifestações é: ‘ô trabalhador, olha para cá, estou na rua para o seu filho estudar’, destaca.
Em relação aos protestos de jovens em outras partes do mundo, como na França, que começou em meados de setembro deste ano e continuam ativos, incluindo pais e professores, ele reforça que para discutir o futuro é preciso buscar as raízes dos atuais problemas. “É importante que [as manifestações] estejam sempre norteadas e muito bem organizadas para apontar, de fato, quem são os verdadeiros culpados por essa crise mundial que vivemos”, avalia Rodrigues.
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 238
Por que os estudantes voltaram às ruas? – com Gutemberg Rodrigues
16 de outubro de 2026
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Vice-presidente da UNE analisa as manifestações que tem mobilizado a juventude e os desafios para além das universidades
Na semana passada, enquanto os estudantes estavam falando sobre proteger a atual democracia, o Flávio Bolsonaro falou sobre querer mudar a Constituição. O que significa para o movimento estudantil, nos próximos anos, uma possível vitória de Flávio Bolsonaro nessas eleições? Como o movimento estudantil e a UNE pretendem atuar e que desafios vão encontrar pela frente caso esse seja o cenário?
É um total descompromisso do Flávio Bolsonaro com a nossa Constituição, com a nossa democracia, e a resposta para ele já está dada. Primeiro, acreditamos que essas mobilizações são capazes de vencer as eleições, reverter o cenário e reeleger o presidente Lula. Mas o Flávio Bolsonaro que nos escute aqui, não vai ter vida fácil se ele for eleito. No dia seguinte, já vamos organizar manifestações em defesa da nossa Constituição, do nosso Estado Democrático, e das nossas instituições de ensino. E não vai ser fácil, porque ele já está falando em usar, se possível e se necessário, a força para passar por cima, por exemplo, do STF [Supremo Tribunal Federal]. É com esse cenário que a gente está lidando.
Assim como o movimento estudantil resistiu e lutou contra a ditadura militar, seguiremos e a resistência vai ser firme. Os atos já mostram nossa capacidade de mobilização nas ruas e nós vamos lutar para que não tenhamos nenhum retrocesso em tudo aquilo que se conquistou [de] avanços e em tudo aquilo que ainda precisamos conquistar para garantir o direito pleno à educação pública para todos os jovens, o direito de ter acesso à cidade. Para que os jovens de [cidades do] interior também, tenham acesso a uma educação de qualidade, que tenham acesso ao mercado de trabalho.
A gente vai estar na rua para lutar por isso. Não vai ter moleza. Sabemos que é muito mais difícil lutar quando se tem no poder um presidente que não tem apreço pela democracia, mas já tivemos em outros momentos da nossa história, e os estudantes resistiram. Infelizmente, durante a ditadura militar, tivemos a perda de diversas figuras históricas, como, por exemplo, o Honestino, que foi morto pela ditadura militar, e o Edson Luís, aqui no Rio de Janeiro. Mas sabemos que, sem a luta e sem a resistência do movimento estudantil, não será possível, se por um acaso o Flávio Bolsonaro ganhar as eleições, a gente manter o nosso Estado, a nossa democracia e os nossos direitos. Então, ao Flávio Bolsonaro: terá muita luta se você for eleito para que a gente não tenha nenhum retrocesso na nossa educação e, para a juventude no nosso país.
Em São Paulo, as deputadas federais Erika Hilton e Sâmia Bomfim, do PSOL, foram reeleitas com as maiores votações entre as mulheres para o cargo no estado. Assim como outras figuras da nova geração da esquerda, elas começaram e se encontraram na política a partir da participação em movimentos estudantis e universitários. Qual é o papel das organizações estudantis na formação política dos jovens?
São só elas, eu acho que elas são quadros hoje nacionais. A Erika é um fenômeno no país inteiro, tem uma representatividade, é uma figura que tem ajudado, e muito, na disputa das redes sociais a favor da democracia, dos direitos da população, com uma representatividade absurda, em especial entre os jovens, que vieram do movimento estudantil. Hoje são diversos parlamentares oriundos, assim como os que já foram eleitos há muitos anos, que foram de outra quadra histórica do movimento estudantil, como, por exemplo, o [deputado federal reeleito] Lindbergh Farias [PT-RJ], que liderou o movimento de caras pintadas.
Eu acho que o movimento estudantil cumpriu e cumpre, durante toda a história do nosso país, um papel fundamental de resistência, de vanguarda contra os retrocessos e na luta por melhores condições para a educação, para a juventude, por menores igualdades sociais no nosso país. Com denúncias sobre a influência e interferência do capital externo, em especial dos Estados Unidos, em nossos processos democráticos. Então, cumpre esse papel de mobilizador, de organizador das lutas, mas também cumpre o papel de formar novos quadros políticos, e isso tem ficado cada vez mais nítido nos processos eleitorais.
Nisso, a frase do presidente Lula é muito assertiva, [quando ele diz]: ‘Jovem, você que é rebelde, que acha que ninguém na política presta, você é o próximo político honesto. É o próximo político que vai mudar esse país’. Acho que esse sentimento também tem tomado conta das pessoas que estão indo para as ruas e temos muito claro o que nos leva às ruas. Todo mundo hoje pega o celular, grava um vídeo, faz uma fala num ato, chama uma mobilização. Tem muitas mobilizações que estão sendo convocadas de forma espontânea. O movimento estudantil provoca e ajuda a formar novas lideranças, mas, acima de tudo, ajuda a mobilizar e organizar a luta no nosso país.
E existe um respeito muito grande dessa juventude que está indo às ruas com relação a quem está conduzindo as mobilizações com o entendimento de que a gente não pode cair em qualquer armadilha da extrema direita. A gente não representa o que eles querem nos impor, [nos taxando] como baderneiros ou algo do tipo. Nós estamos ali para defender nossos direitos e, por isso, o grande grito de ordem dessas manifestações é: “ô trabalhador, olha para cá, eu estou na rua para o seu filho estudar”. Isso vai ficar marcado na nossa história como o grande grito de ordem dessas mobilizações em defesa da reeleição do presidente Lula.
Há mais de três semanas estão acontecendo manifestações estudantis na França. Começam nos subúrbios de Paris e se espalham por todo o país, e também já inspiraram manifestações em outros países. Existem contatos entre Brasil e França, ou entre movimento estudantil em outros países, e há possibilidade dos movimentos estudantis crescerem mesmo por todo o mundo? Também em resposta às múltiplas crises que temos vivido hoje.
Nós temos acompanhado muito as manifestações que têm acontecido na França, assim como a UNE tem um arco de relação com organizações dos estudantes em diversas regiões do mundo, com foco nos países ibero-americanos e maior ainda na América Latina, por meio da [Organização Continental Latino-Americana e Caribenha de Estudantes] OCLAE, que é uma organização que corresponde aos estudantes da América Latina. A nossa avaliação é que essas manifestações dos estudantes, dos jovens, são fruto de um momento histórico que estamos vivendo, em que a crise do capitalismo está cada vez mais severa e mais impactante no nosso cotidiano.
Isso reflete, seja em relação à infraestrutura da educação pública, mas também e, principalmente, nas questões climáticas. São os jovens que são os mais atingidos em relação às questões climáticas, em especial os jovens que são oriundos das periferias e dos territórios, onde a política pública não chega com tanta eficácia. Então, é importante que essas mobilizações aconteçam. Agora, é importante que elas estejam sempre norteadas e muito bem organizadas para apontar, de fato, quem são os verdadeiros culpados por essa crise mundial que vivemos.
Seja a crise do capitalismo, seja a crise climática, que é fruto do capitalismo feroz, que se torna ainda mais devastador quando entra em crise. Ou, principalmente, as guerras que são fruto de uma falta de orientação no mundo, em que um presidente [Donald Trump] se acha imperador do mundo, que influencia no processo eleitoral de diversos países e fica por isso mesmo. Então, o que tem acontecido nas eleições do Brasil, a nítida influência dos Estados Unidos no nosso processo de eleição, seja por meio da Meta ou até mesmo pelo dinheiro que possivelmente o Trump está investindo na campanha do Flávio Bolsonaro, é uma eleição que vai ditar também um pouco dos rumos da democracia no mundo.
Se o Lula for reeleito, o Lula representa uma figura unânime, uma figura que representa a luta dos países do Sul global para que a gente tenha um mundo multipolar, que a gente não tenha um mundo centrado nas desigualdades, que a gente não tenha um mundo onde poucos podem mandar sobre diversas nações, que é o que tem acontecido com os Estados Unidos, que sequestra o presidente de outro país e julga a partir das leis do seu país. Essas pessoas não escutam o processo democrático. As eleições do Brasil não estão deslocadas desse processo, que tem acontecido no mundo inteiro, de avanço do imperialismo americano, e a influência, principalmente hoje, das redes sociais que elas têm sobre o nosso cotidiano. O Brasil é uma ponta de resistência no mundo para que esses países do Sul Global possam ter a sua soberania e a democracia preservadas.
Nos dias 06, 07 e 08 de outubro, a cidade de Jerusalém sediou a “National Conservatism Conference”, ou “NatCon” (algo como Conferência sobre Conservadorismo Nacional), evento que reúne algumas vezes ao ano políticos conservadores nacionalistas de extrema direita da Europa, Estados Unidos, Israel, Reino Unido e, algumas vezes, da América Latina.
Mas digamos que nossa região não é tão importante para eles, a não ser quando se fala contra a imigração de “países pobres” – nestes casos, os discursos nos colocam como quintal dos Estados Unidos, ou interessam a alianças que podem servir às suas causas. Sei disso porque já participei de outra NatCon em Bruxelas em 2024 e tenho me infiltrado nesses eventos transnacionais da extrema direita europeia desde 2022.
A NatCon é financiada pela Fundação estadunidense Edmund Burke, que tem entre seus principais doadores a Heritage Foundation. A Heritage Foundation, por sua vez, é uma das principais geradoras de diretrizes políticas para a atual administração Trump. Seu presidente, Kevin Roberts, descreve explicitamente a missão moderna da Heritage Foundation como a de “institucionalizar o Trumpismo” em uma entrevista para o New York Times. Roberts foi um dos palestrantes da conferência em Jerusalém. E a Heritage está de olho no Brasil: em março deste ano, Paulo Figueiredo e Alexandre Ramagem participaram de um evento da fundação em Miami, como revelou a Pública.
Eu estava lá nesta edição da NatCon, que reuniu políticos israelenses de extrema-direita, figuras europeias que enfrentaram medidas disciplinares por suposto antissemitismo e figuras nacionalistas cristãs e de extrema-direita dos Estados Unidos, como bem definiu o jornal britânico The Guardian.
O foco principal estava no apoio às políticas e medidas de Benjamin Netanyahu contra os palestinos, a defesa do Estado de Israel, da conquista de territórios na Cisjordânia e na celebração e endosso de ações dos colonos israelenses que agem como uma milícia na região, cometendo todo tipo de barbaridades, como contei um pouco na minha última coluna. Também foram defendidas ações “anti-terrorismo” e anti-imigração na Europa e Estados Unidos e o combate ao que foi chamado de “red green alliance” (aliança verde e vermelha), que é como a extrema direita tem se referido à parte da esquerda progressista que protesta contra o genocídio do povo palestino. Uma das principais referências dessa aliança seria, na visão destes radicais, o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani. Alguns palestrantes também atacaram ferrenhamente a comunidade LGBTQIA+, sobretudo as pessoas trans, e falaram da importância de criar grandes famílias, ter muitos filhos, mas sem se misturar com pessoas de diferentes culturas.
Um dos discursos mais violentos veio de Sebastian Gorka, subchefe de gabinete do presidente e diretor sênior de contraterrorismo no Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos, que participou ao vivo e online da Casa Branca. Gorka é um dos aliados de Eduardo Bolsonaro nos EUA, a quem foi apresentado por Steve Bannon.
Ele defendeu que existe hoje uma nova religião: “a religião da esquerda”.
“Seja ela preenchida por ambientalistas adoradores de Gaia como Greta Thunberg, seja pelo altar do DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão, em inglês)”, disse. Seu discurso misturou a Irmandade Muçulmana com marxismo, se estendeu para ligações entre o Hamas, e a “mã do Irã”. “A Aliança Vermelho-Verde é real. Os islamistas trabalhando com os marxistas é real”. E finalizou parafraseando Trump: “Se você planeja machucar americanos ou matar inocentes, nós vamos encontrar você e nós vamos matar você”.
Foi neste clima de Conferência que o nome de Flávio Bolsonaro foi citado e aplaudido pelos presentes – cerca de 300 pessoas.
O europarlamentar Harald Vilimsky, que lidera a delegação do Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ) no Parlamento Europeu e atua como vice-presidente do grupo “Patriotas pela Europa”, foi quem levantou a bola:
“Quero que a Europa fique ombro a ombro com Israel, com aqueles que, em termos de fé, são nossos irmãos mais velhos. Quero a parte conservadora dos Estados Unidos em nosso campo, não os Republicanos apenas no nome, mas os verdadeiros conservadores. Isso é algo que realmente poderia ser um divisor de águas no desenvolvimento internacional. Quero a Argentina com o presidente Javier Milei em nossas fileiras. Quero o Chile com o Presidente José Antonio Kast ao nosso lado. Quero Flávio Bolsonaro no Brasil.”
Foi quando a plateia explodiu em aplausos. Ele completou: “Brasil, Japão e tantos outros países apenas para se juntar a uma ideia, algo como ‘patriotas globais’. Um grupo forte, uma rede poderosa, uma força enorme pelo conservadorismo”.
O evento foi tratado como estratégico pelo governo de Netanyahu. Bezalel Smotrich, ministro das Finanças, autoproclamado “fascista homofóbico” e extremista sancionado internacionalmente, esteve presente.
Também marcou presença o rabino Shmuel Eliyahu, que em 2023 pediu o lançamento de uma bomba atômica sobre Gaza e que já havia sido intimado a responder a um processo disciplinar por incitação racista contra os palestinos. Da Europa, estiveram presentes o ex-chefe da agência de inteligência interna da Alemanha Hans-Georg Maaßen, para quem Angela Merkel “abrir as portas” do país para imigração em massa e Balázs Orbán, deputado do Parlamento húngaro e ex-diretor político do primeiro-ministro Viktor Orbán.
Essa foi uma das conferências mais violentas que já cobri. Os afetos movimentados nesses três dias foram o ódio, o ressentimento, o nacionalismo extremo, a xenofobia, o orgulho da crueldade. E são essas pessoas, que movem esses afetos, que querem estar “ombro a ombro”, “nas mesmas fileiras” com Flávio Bolsonaro. E você? De que lado quer o presidente do Brasil?
Quis o destino que eu estivesse na Cisjordânia neste 07 de outubro, e que essa coluna fosse publicada no exato dia em que, 3 anos atrás, o ataque terrorista do Hamas que resultou na morte de cerca 1000 pessoas entre civis e militares, deu início a um massacre cometido pelo Estado de Israel que, até agora, somente na Faixa de Gaza, já matou mais de 75 mil e feriu mais de 170 mil palestinos.
Eu sei que o Brasil pega fogo neste momento e é difícil falar em outra coisa ou pensar em um povo que está tão longe geograficamente. Mas talvez nós possamos aprender uma coisa ou duas sobre resistência e resiliência com um povo que vem sendo oprimido, colonizado e sofre tentativas reiteradas de apagamento há mais de 100 anos.
Meus avós são sobreviventes do Holocausto. Minha avó polonesa e meu avô romeno passaram por campos de concentração e tinham números tatuados neles. Ainda jovens migraram para o Brasil, onde se conheceram e formaram família. E é também por respeito a essa história que não posso me calar diante de um genocídio étnico que acontece live stream nos celulares na palma de nossas mãos.
Nos últimos dias estive rodando pela Cisjordânia, visitando comunidades palestinas que estão sendo despejadas, torturadas, roubadas e dizimadas por milícias israelenses formadas por colonos e por militares. A Cisjordânia é um território palestino que fica no Oriente Médio, situado na margem ocidental do rio Jordão, entre Israel e a Jordânia. É dividida em três zonas administrativas – zonas A, B e C – segundo os Acordos de Oslo, assinados na década de 1990, que previam transferir gradualmente o controle do território para a Autoridade Palestina. A área teoricamente estaria sob controle total da Palestina. A área B teria um controle misto entre Israel e Palestina e a área C, cerca de 60% da Cisjordânia, está sob controle israelense total, tanto para administração civil quanto para segurança.
Mas atualmente esses contornos estão cada vez mais borrados, com colonos israelenses tomando cada vez mais áreas.
Tudo isso ainda vai virar reportagem e indico o Pauta Pública desta sexta-feira (09/10) com o diretor geral do Centro de Assistência Jurídica e Direitos Humanos de Jerusalém (JLAC) e membro do Conselho de Comissários da Comissão Independente de Direitos Humanos da Palestina (ICHR), Issam Aruri, que traz uma verdadeira aula sobre o conflito na região.
Mas queria contar aqui na coluna umadas histórias que mais me marcou até agora: A de uma mulher de 67 anos, moradora de um vilarejo em Masafer Yatta, que fica nas colinas ao sul da cidade de Hebrom, cerca de 70km ao sul de Ramallah – capital administrativa da Cisjordânia. Não vou revelar seu nome por motivos óbvios. Mas sua vila está totalmente cercada porassentamentos israelenses, que tentam a custo de barbárie expulsar os palestinos que estão ali há dezenas de gerações, vivendo da colheita de azeitonas e do pastoreio de ovelhas e cabras.
Casa de palestinos na comunidade de Masafer Yatta, na Cisjordânia
Sua vila não tem água encanada nem luz. Se vê apenas pedras, areia, pequenas casas e barracões. Os cabos de energia passam por cima da comunidade, de um lado a outro, para os assentamentos israelenses, mas os palestinos não podem usar. Foi instalado um portão na estrada, que pode ser fechado pelos soldados a qualquer momento e por tempo indeterminado, impedindo os moradores de entrar ou sair, mesmo que em emergência médica. Essa é uma prática bastante comum na região. Até mesmo ruas dentro de comunidades são fechadas indiscriminadamente pelas forças israelenses.
“Foi aqui que um colono israelense matou meu filho”. A senhora aponta para um ponto do centro de convivência, que já foi destruído e reconstruído várias vezes e que abriga o único banheiro disponível para a comunidade. As casas tinham banheiro. Mas eles foram destruídos ou absurdamente declarados como zonas militares, tornando-se inacessíveis aos moradores. Sua filha mora em uma casa há poucos metros dali e não pode usar o próprio banheiro nem construir outro sem permissão. Mais: o celeiro, que fica no quintal da casa, foi declarado “zona militar” e trancado, então a família não pode levar os animais para o pasto ou mesmo chegar perto do pequeno barracão. O exército israelense passa por lá uma vez na semana (quando muito) para alimentar as ovelhas e cabras, que estão obviamente morrendo paulatinamente.
“Um colono entrou na comunidade e atirou na cabeça do meu filho. Meu neto, aquele ali – aponta para um gurizinho de uns 3 anos – estava no colo dele. Entrou e atirou. Assim. Na frente de todo mundo. Chamamos a polícia que veio, levou o corpo e não puniu o colono. Alguns dias depois ele estava caminhando por aqui normalmente e eu perguntei: ‘Por que você matou o meu filho’? Ele me empurrou ali, eu caí de cabeça em uma pedra e desmaiei. O portão estava fechado e só pude ser levada ao hospital dias depois. Sofri uma concussão e perdi a visão. Quebrei ossos do corpo. Mas nenhuma dor foi igual a de não poder enterrar meu filho. A polícia levou o corpo e não nos deixou velar ou enterrar”, contou. Ela enxugava os olhos no hijab preto, que contornava seu rosto e se fundia ao vestido também preto. Uma mãe em luto há três anos.
Não faltam provas. Todas as comunidades que visitei me mostraram dezenas de vídeos de colonos invadindo, cortando as oliveiras centenárias, subindo à noite nos telhados das casas batendo os pés e cantando músicas, ameaçando botar fogo, e todo o tipo de humilhações e torturas inimagináveis. Em todas as vilas, ouvi que os moradores fazem turnos durante a noite, para que não morram queimados enquanto dormem.
As violações também são amplamente registradas por organizações de direitos humanos na região. Eu vi as árvores cortadas. Eu vi os animais mortos. Eu fiquei do lado de fora dos portões e levei 4 horas para atravessar poucos quilômetros, porque no caminho havia pontos de checagem com soldados pesadamente armados que me fizeram descer do carro, mostrar meus documentos e passar minha bolsa em detectores. Eu visitei uma escola de crianças palestinas que era proibida de pôr o lixo pra fora e tinha que manter todo ele dentro das classes – não no pátio, dentro das salas – por semanas.
Enquanto caminhava por um mercado árabe a céu aberto em Hebrom e ouvia histórias de porque os corredores estreitos haviam sido cobertos por grades – para evitar que pedras fossem jogadas do alto, fui cercada, junto a colegas jornalistas e guias palestinos, por um grupo de soldados israelenses usando roupas camufladas e rosto coberto, mais novos que meu filho. Um deles apontou sua metralhadora para nós.
Ouvi de moradores que a Cisjordânia está virando Gaza. Mas também ouvi que eles não pretendem ir a lugar nenhum, que ali é sua terra há dezenas de gerações, que eles têm resistido. Que uma hora esse massacre vai ter que acabar. “O que eles vão fazer? Matar 7 milhões de nós? Nós não temos para onde ir, aqui é nossa casa”, me disse um senhor, diante das suas oliveiras centenárias queimadas por colonos israelenses.
Bandeira de Israel colocada por colonos no quintal da casa de palestinos em Masafer Yatta, na Cisjordânia
Há três anos a Palestina é punida pelo 7 de outubro. Todos os dias. Mas teve uma frase que ouvi de uma mulher que conheci pelo caminho que acho que serve pra nós também, nesse momento da nossa história:
“O mais difícil é não se tornar um monstro. Não desejar a morte deles como eles desejam as nossas. Enquanto eles passam com tanques sobre bebês em Gaza, eu quero o bem das crianças deles. Esse é um desafio e um exercício diário. Que a indignação nos fortaleça em nossa resistência, mas que não nos torne monstros”.
No próximo domingo (4), os eleitores brasileiros irão votar em seus representantes para os cargos de presidente, governadores, senadores e deputados. Apesar da possibilidade da decisão para os cargos executivos ser definida apenas em um segundo turno e estender os prazos das campanhas eleitorais, a pauta política não deve se restringir apenas às vésperas de votação. Entender e acompanhar a atuação de cada cargo e partidos é fundamental para o desenvolvimento do país nos próximos anos.
Além do presidente e governadores de todas as unidades da federação, também serão definidas 513 cadeiras na Câmara e 54 das 81 do Senado. Para a cientista política Tathiana Chicarino, entrevistada no Pauta Pública desta semana, em um cenário de crescente personalização da política, os papéis dos partidos e do Legislativo muitas vezes ficam em segundo plano. Na conversa com Andrea Dip, ela também chama atenção para a forma como escândalos políticos e de corrupção ocupam o debate eleitoral, principalmente em período de campanha, e acabam transformando a política em espetáculo.
Coordenadora do curso de sociologia e política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp-SP) e pesquisadora do Observatório de Conflitos Online da Universidade Federal do ABC (UFABC), Chicarino afirma que “as eleições já têm um teor bastante personalizado e passa a ser consumida numa lógica entre bem e mal, com um enredo como se fosse uma novela ou um folhetim, e isso é muito despolitizante” e acrescenta que a política precisa ser trazida novamente para o debate público.
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 236
Eleições 2026 além da disputa presidencial – com Tathiana Chicarino
2 de outubro de 2026
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Cientista política explica o papel dos partidos, das redes sociais e do Congresso nas eleições de 2026
Às vésperas das eleições, sob as atuais denúncias e conflitos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF), os debates sobre as propostas políticas ficaram em segundo plano. Porém, a composição do Supremo depende diretamente de quem ocupa a presidência da República e o Senado Federal. Por que o Congresso Nacional é peça central na disputa de poder? E qual a importância de entendermos a atuação de cada cargo político e da relevância dessas eleições?
A gente costuma dizer que desde por volta de 2013, embora tenham eventos anteriores a isso, como a crise econômica de 2008, de 2010 em diante, inaugurou-se uma “década crítica” em que uma série de crises, de hegemonia e escândalos, vão perpassando nossa política institucional. Tivemos junho de 2013, Lava Jato; 2018, eleição do Bolsonaro, e agora mais uma eleição que, de novo, reforçamos sua importância, que se insere nessa conjuntura um pouco mais ampla.
Olhando para o STF, podemos até traçar um pouco antes, com o Mensalão. Em toda a dinâmica de espetacularização que o poder judiciário vem tendo no Brasil, a partir dos anos 2000, o Mensalão é um momento muito importante. Historicamente, a gente dá muito mais atenção às eleições dos cargos majoritários: presidência da república, governo de estado e prefeituras. As eleições já têm um teor bastante personalizado, então, quem é o candidato? O que aquele candidato representa em oposição a uma outra personalidade política?
No nosso período de construção de um sistema partidário no Brasil, por volta dos anos 1930, quando começamos a estruturar partidos políticos, temos um período de ditadura. Depois uma quadra democrática, a primeira com certa estabilidade – mas bem longe de ser Estado [Democrático de Direito]. Tem Juscelino Kubitschek quase não assumindo; Jânio Quadros renunciando; golpe [de 1964]… Quer dizer, os partidos, que estavam se estruturando, tendo alguma capacidade de articulação nacional e também de identificação, isso também é interrompido ali com a ditadura. Que depois vem a Arena e o MDB. Com a redemocratização, em 1979, abre-se uma lei orgânica de partidos e aí a possibilidade de criação de vários partidos.
O Partido dos Trabalhadores (PT), partido com a maior identificação partidária, é criado nesse contexto. De lá para cá, temos muitos partidos. É claro que, com algumas legislações de cláusula de desempenho – a chamada cláusula de barreira também –, se tenta diminuir o número de partidos políticos. Ainda assim, são muitos partidos e as pessoas mal conseguem identificar quais partidos são e qual a diferença entre um e outro. Vira tudo uma coisa grande, homogênea e disforme, chamada Centrão, e, do outro lado, o PT.
Mas, quando a gente fala de cargos do legislativo, é fundamental entendermos essa estrutura partidária. Porque, para deputados estaduais, federais e vereadores, nós votamos no partido, não votamos na pessoa em primeiro lugar. Nós votamos no partido e dizemos quem gostaríamos que ocupasse a cadeira que o partido porventura venha a ganhar.
O nosso trabalho é quase ranquear os candidatos. Assim, fica muito difícil para as pessoas entenderem as crises institucionais, que se estendem. Além das pessoas conseguirem pouco identificar o papel dos partidos no legislativo, essa eleição ainda foi completamente capturada por todo o discurso de escândalo político e de corrupção. É uma eleição bastante complexa desse ponto de vista.
Com as redes sociais, temos visto um crescimento justamente nessa personificação de quem ocupa os cargos políticos e menos destaque no peso institucional partidário, mesmo em projetos políticos, na composição do Congresso. Porque, na verdade, as campanhas políticas não acabam nunca, elas continuam online ininterruptamente e de uma maneira totalmente personificada. Então, quais são os efeitos e riscos dessa personalização e dessa espetacularização da política?
A espetacularização da política não é de agora, mas ela se intensifica. Então, o que seria essa espetacularização da política? É a gente consumir a política como uma mercadoria, e, sendo uma mercadoria: “eu vou escolher aquilo que mais me convém, se serve mais para mim, se tem mais status’. Enfim, ela passa a ser uma dinâmica bastante individualizante e muito pouco responsável, na qual as pessoas “se tornam muito pouco responsáveis por aquilo que consomem”. E política não é assim.
O político que está lá, eleito por nós, não é o nosso funcionário. Não é assim que funciona a política. A política tem como base interação e coletividade. Então, uma vez que votei, consumi, pronto, paguei, minha responsabilidade acabou. A espetacularização é exatamente isso: consumir a política a partir da mercadoria, da imagem do espetáculo, enquanto uma passividade. “Eu sou a plateia e o espetáculo está ali, e eu estou consumindo aquele espetáculo”.
Porque a lógica algorítmica das plataformas vai tracionar ainda mais esse tipo de conteúdo e adicionando a isso, uma camada de personalização, que tem relação com o histórico da construção da política no Brasil, especialmente em um sistema presidencialista.
Não importa o meu perfil – se eu estou em um coletivo ou partido político – as redes tracionam ainda muitos conteúdos que são individualizantes, de indivíduos personalizados. Então, esses dois elementos, a personalização e a espetacularização, ganham ainda mais fôlego, mais ênfase nesse contexto de plataformização, e aí coloca-se uma terceira: o escândalo.
A escandalização da política, que também temos passado em alguns momentos de lá para cá – e eu estou falando dessa década crítica de 2013 – tendo como marco importante esse processo de escandalização. A política passa a ser consumida numa lógica entre o “bem e o mal”, entre o “mocinho e o bandido”, tem um enredo que acompanha-se como se fosse uma novela, um folhetim. Isso é muito despolitizante, porque a política fica capturada nesse contexto pela moral. Então, “a moral diz o que é certo, o que é errado, o que é o bom, o que é o mal” e aí as pessoas ficam até um pouco confusas. “Nossa, mas ele era bonzinho, agora não é mais?”
E por quê? Porque a política é tratada dessa maneira, a partir da moralização. Também temos outras questões, como o corte neoliberal nas nossas vidas como um todo, na nossa vida, no trabalho e também na política, que puxa para uma superindividualização. Tudo isso que estamos vivendo.
Agora, como sair disso? A política precisa ser trazida novamente para o debate, a política, política mesmo, a discordância, a busca por consensos, ainda que sejam consensos temporários. Porém, dentro dessa década tem sido complexo trabalhar isso. Em termos, como de Antonio Gramsci (1891-1937), estamos passando por uma crise de hegemonia. Nessa década crítica em que é muito difícil encontrarmos um sentido de direção política.
Por isso que a eleição é importante, mas ela é um momento. Se tratarmos a eleição como algo que vai resolver todos os nossos problemas, ano que vem, vamos voltar aqui e falar “nossa, e as instituições, hein?”
Inclusive vimos isso acontecer na passagem de Bolsonaro para Lula em 2023. Quando Lula é eleito, então pensa-se que “acabou a extrema direita no Brasil”; depois quando Bolsonaro é preso, pensa-se “acabou a extrema direita e o bolsonarismo no Brasil”. Mas estamos vendo que não é assim. Como se deu a movimentação da direita, nesse caso?
É interessante trazer essa questão do Bolsonaro, enquanto a vitória eleitoral em 2018. Eu falo muito isso: “ele não é como um raio de luz que apareceu no céu azul, de repente. Nossa, ninguém estava vendo e, de repente, um candidato de extrema direita é eleito”. A construção já vinha acontecendo nas redes, desde pelo menos 2010. Por uma rearticulação das chamadas “novas direitas”, articulando-se com uma direita mais tradicional, uma direita muito radical, uma direita das “viúvas da ditadura”.
Todos esses movimentos ajudaram a rearticular essa direita, que passa a não ter mais vergonha e encontra em Bolsonaro um projeto político viável, do ponto de vista eleitoral. E isso não aconteceu só no Brasil; também pode-se pensar isso nos Estados Unidos, em outros países em que a extrema direita também passa a ter essa viabilidade eleitoral. Mas não foi uma derrota em 2018. Eles elegeram uma série de senadores, deputados, governadores, e em 2022 também, com muita estratégia, com táticas muito claras.
Então, isso está acontecendo de forma sistemática desde 2010. Em 2018, tem esse momento importante da vitória à presidência da República. De fato, a cadeira de presidente importa, tem muito poder, tem capacidade de desarticular projetos políticos que estão em andamento, em disputa, tem um processo de desinstitucionalização muito grande, de rompimento de política pública. O retrocesso é muito grande; perder uma presidência da República é algo muito importante, mas não resolve todos os problemas. – Como eu estava falando – o Jair Bolsonaro perde em 2022, é preso, julgado e, ainda assim, existe uma força política e social bastante expressiva.
A inteligência artificial está no centro das discussões internacionais nos últimos dias. No encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, a tecnologia aparece como um dos principais temas da disputa entre Estados Unidos e China pelo domínio tecnológico. Na Assembleia Geral da ONU, Trump também defendeu o avanço da IA, reforçando que os EUA rejeitam qualquer tipo de controle sobre o desenvolvimento dessas tecnologias. Em seu discurso, chegou a propor que o termo “inteligência artificial” seja substituído por “superinteligência”.
Tudo isso após diversos alertas de pesquisadores do setor de tecnologia sobre possíveis riscos à humanidade se não frearmos os avanços dessas ferramentas digitais.
Mas, para além do debate sobre esses discursos que apresentam a IA como uma ameaça aos seres humanos ou como solução para todos os problemas sociais, o que está em jogo nessa corrida tecnológica? Quem controla essas ferramentas, quem define seus limites e quem se beneficia do seu desenvolvimento?
Para discutir essas questões, o Pauta Pública desta semana recebe Veronyka “Travahacker” Gimenes, programadora, artista, ativista e comunicadora. Eleita uma das 100 pessoas mais influentes em inteligência artificial do mundo em 2026 pela revista Time, e diretora da plataforma Código Não Binário, Veronyka fala sobre a disputa entre Estados Unidos e China, os desafios da regulamentação, a concentração de poder nas grandes empresas de tecnologia e o que está em jogo para o Brasil.
“Nesse ponto da superinteligência, apesar de ele [Trump] usar como marketing para esse projeto autoritário e tecno-autoritário também, eu acho que tem algum sentido usar isso ao nosso favor nas nossas discussões e nos nossos projetos de regulação e combate às Big Techs.” E acrescenta: “Se não regularmos, as coisas acabam chegando a limites inimagináveis”.
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 235
IAs no centro da nova disputa global: acelerar ou regulamentar? com Veronyka “Travahacker”
25 de setembro de 2026
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Veronyka “Travahacker” Gimenes fala sobre os riscos e os limites do avanço da tecnologia
Durante o discurso na Assembleia Geral da ONU, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que a corrida da IA é pela vitória, que ele não pensa em desacelerar. Além disso, propôs a mudança do termo “inteligência artificial”, que, segundo ele, soa falso, entre aspas, para “superinteligência”. O que você pensa sobre essa fala?
A gente está realmente passando por um momento singular, está passando por um momento que falar sobre regulação, pressionar da maneira que for possível por regulação, é ainda extremamente importante, ou talvez mais do que nunca. Nesse ponto da superinteligência, apesar de ele usar como marketing para esse projeto autoritário e tecno-autoritário também, eu acho que tem algum sentido usar isso ao nosso favor nas nossas discussões e nos nossos projetos de regulação e combate às Big Techs.
Para a gente, que vem trabalhando contra as Big Techs há muito tempo, que vem desenvolvendo software livre, a tecnologia aberta e pública parece um estágio final de todas essas discussões. Finalmente esses temas estão na boca de todo mundo, todo mundo tá sabendo falar sobre inteligência artificial, cada um em uma página, mas falando. Todo mundo está sabendo a diferença, por exemplo, do que é um projeto mais soberano, o que é um projeto que a gente acostumou a chamar de capitalismo de plataforma ou coronelismo digital.
Tem muito trabalho para avançar essa discussão, tornar isso mais claro para as pessoas, mais detalhado, mas está sendo muito gratificante ver essas pautas finalmente adquirindo relevância. Ser parte do debate público abre uma porta interessante para falarmos, finalmente, de soberania digital – de soberania nacional a partir da digital e tecnologia popular. É um momento de bastante contraste, mas muito interessante.
Recentemente um cientista que trabalha com inteligência artificial na Anthropic, criadora do Claude, disse que existe mais de 10% de risco da IA matar todos os seres humanos até o fim da próxima década. Como podemos entender esse apocalipse da IA? O que é realmente perigoso em tudo isso?
Olha, tem muita coisa. Se a gente for olhar simplesmente do lado da estrutura da internet, você já tem uma série de elementos autônomos garantindo o funcionamento da rede. Esses sistemas que fazem parte desse setor de internet artificial não necessariamente têm supervisão humana, já que têm uma autonomia integrada com sistemas autônomos. Agentes autônomos usados, por exemplo, por pessoas mal-intencionadas, ou mesmo esses escapes que acontecem de treinamentos, já teriam estrago considerável.
Essa estrutura não é assim tão protegida quanto se imagina. A gente tem uma fragilidade imensa, especialmente porque as defesas feitas para esse sistema foram defesas feitas pensando em uma ação humana e a escala que a gente tem hoje de ataques contra inteligência artificial é uma escala muito diferente. No caso mesmo do Hugging Face [empresa que mantém uma enorme comunidade de código aberto] ficou comprovado. Quando foram descobrir, já tinha acontecido milhares de tentativas de ataque ou de uso do medo de informação de uma plataforma em relação à outra.
Essas defesas não estão assim tão garantidas, não é tranquilizador achar que pode ter um botão de desligar os agentes ou pode ter um botão ali que controla a estrutura da internet, todo o balanceamento de tráfego, etc. É importante entender que o risco não é tanto a IA ganhando consciência, fazendo um tipo de desdobramento de consciência. A própria velocidade desses ataques, quando acontecem nesses sistemas de teste, já é um possível causador de catástrofe. Porque essa velocidade, como eu falei, não é uma velocidade de ataques humanos.
E aí a gente tem também essa característica do que falam sobre sandbox, que seria essa caixa de areia, esse espaço onde os modelos são treinados. A gente precisa imaginar isso mais como usina nuclear, como um tipo de organismo ali que a gente cria, que vai controlar por uma certa estabilidade, mas que não é algo totalmente seguro – assim como não foi com as usinas nucleares. Podem acontecer nesses treinamentos esses escapes, esses vazamentos, não é algo que ‘as pessoas falharam ali ao controlar’. Não necessariamente.
Há alguns limites que a gente consegue chegar nesses bloqueios que quando você está desenvolvendo um tipo de superinteligência, um tipo de inteligência artificial muito potente, vai fatalmente ultrapassar esses bloqueios. Então tem uma concorrência de potência que acaba por gerar um risco de vazamentos, por isso que a gente vê essas figuras na frente das Big Techs reconhecendo o risco e falando, ‘não, realmente, gente, o negócio aqui está feio’. A gente vai ter cada vez mais vazamentos e pode acabar trazendo mais dano – seja para a própria empresa, seja para a reputação das pessoas liderando as empresas, seja para a internet. Acredito que por aí a gente já teria riscos consideráveis.
Mas não é só isso, a gente tem duas coisas também interessantes no horizonte. Uma foi essa criação de vírus artificiais, por sistema de inteligência artificial. Aqui você vê a inteligência artificial ou as inteligências artificiais – como eu prefiro chamar – conseguindo desenvolver soluções de biologia incríveis. Mas um modelo descontrolado, ou alguma pessoa, algum grupo, utilizando esses modelos, conseguindo fazer com que eles saiam das suas atribuições iniciais, dos seus controles iniciais, pode ser muito danoso para a humanidade.
Tem um caminho pela biologia também muito preocupante, já que as inteligências artificiais conseguem já desenvolver vírus artificiais, por exemplo. E ainda tem um outro cenário que é um pouco mais futurístico, mas não muito, que é o cenário dos robôs. Até agora, é preciso um treinamento para que o robô reproduza a ação. A partir da generalização, não mais. Isso vai aumentar essa presença de sistemas inteligentes no mundo físico. Já temos sinais suficientes para falar que o risco é grave e que a regulação precisa ser priorizada.
Pensando também nestas eleições, muitos candidatos vêm utilizando a retórica da IA salvadora, mágica, sanadora de problemas pelo mundo. A extrema direita principalmente tem sido boa em construir narrativas do tipo, mas sem explicar como vai fazer isso. Queria saber como você ouve essa retórica e como ela se aplica à nossa situação, o que a gente deveria estar discutindo agora no Brasil?
É o tecno-solucionismo, e a gente viu a extrema direita abraçar muitas dessas fronteiras tecnológicas por muito tempo, com blockchain, bitcoin, é bem comum. E tem bem a ver também com as identidades que estão por trás da extrema direita – a gente tá falando basicamente de homens cis, héteros, brancos – e a relação com a tecnologia é muito intrínseca para essas figuras, elas dominam esse setor. E o tecno-solucionismo acaba tendo algumas oscilações também.
Eu vi, por exemplo, em um discurso de um desses eventos em São Francisco, um dos CEOs – inclusive, da direção de algum governo do Oriente Médio, alguma potência de combustíveis fósseis – elogiando a IA para tudo. Mas ele disse que tem uma coisa que a IA não faz bem. A IA não faz bem previsão meteorológica. Previsão meteorológica, questões do clima, não acreditem em IA.
Por quê? Uma pessoa que é uma das principais fornecedoras de combustíveis fósseis do mundo, obviamente não vai confiar nas previsões da IA sobre crises climáticas, o que mostra que a IA não está tão errada assim sobre isso.
No geral, é isso, uma visão da inteligência artificial muito voltada à tal da valoração, essa história de ir aumentando o valor das soluções, das empresas. A gente tem um cenário muito estranho, onde o presidente dos Estados Unidos é também acionista de uma Big Tech, então é óbvio que ele vai fazer essa defesa das soluções. Inclusive quando a direção fala, ‘olha, está saindo do controle, melhor parar’, ele fala, ‘não, tem que continuar, estou achando ótimo’. Surreal o que está acontecendo, essas relações extremamente capitalistas que acontecem entre Bigs Techs e líderes políticos da extrema direita.
Ao mesmo tempo, eu provoco que a gente se empodere dessas tecnologias para que elas resolvam os nossos problemas, porque a gente pode cair, às vezes, num cenário que na recusa dessa tecnologia, vamos ficar sem sistemas. Por exemplo, a questão dos data centers. Se os data centers que servem às big techs acabam por trazer esses modelos extrativistas para o Brasil, a gente vai criar nossos data centers, para as nossas tecnologias, para os nossos sistemas. Agora, a gente está falando de nuvem soberana no governo, que é também uma grande conquista de décadas de insistência nossa de que não era para usar Microsoft, Big Tech, para os nossos dados, para o SUS, etc.
Então, finalmente, temos algum avanço na questão da nuvem soberana. A gente precisa se empoderar das tecnologias, entender como elas funcionam, fazer com que elas se tornem tão familiares para a gente quanto é para essas pessoas. Precisamos saber falar nos detalhes para conseguir montar saídas. No caso qual é o data center que podemos montar para as nossas soluções, comunitárias, públicas? Utilizamos de organizações que não sejam, simplesmente, fins lucrativos das Big Techs. Como eles podem fazer a refrigeração da maneira que não vai causar desperdício de água? A questão da poluição sonora, ambiental, tudo isso, a gente precisa criar a solução.
A gente tem que criar alternativas, tem que conseguir criar organizações que sejam semelhantes a essas que a gente tá consumindo os serviços, consumindo a infraestrutura. Esse é o único jeito. Eu sempre falei que a regulação é tapar o sol com a peneira. A gente tem que batalhar por ela, mas ainda é muito pouco perto do que a gente precisa como sociedade.
É sempre bom olhar para a China, ver o que eles estão fazendo, todo o projeto nacional de Data Centers, que leva parte do importante deles para os desertos, para aproveitar a energia dos ventos, energia solar. Tem todo esse planejamento estatal – claro, ali é um outro modelo de sociedade, de governança, mas é importante a gente olhar para lá e ver o que eles estão fazendo para tentar reproduzir de alguma maneira isso aqui nas características da nossa sociedade.
Raquel Lyra, governadora de Pernambuco e candidata à reeleição pelo PSD, aparece em um vídeo divulgado pelo portal Metrópoles no último domingo (20), sugerindo que uma mulher seja esterilizada sem seu conhecimento. O episódio aconteceu em 2025, quando Lyra visitava o Hospital Regional Dom Moura, em Garanhuns. No vídeo, uma mulher, provavelmente funcionária do hospital, gesticula com as mãos ao falar sobre a barriga de uma paciente que não aparece nas imagens. “Chega assim, ó, gestante, desse tamanho, com sete ‘menino’ na barriga”. Ao que a governadora responde: “Aí tem que fazer laqueadura, visse? A gente bota na fila da laqueadura”. Alguém diz algo ininteligível e ela acrescenta: “Mas faz sem ela saber”.
O vídeo viralizou, e a governadora assumiu a fala, pediu desculpas, mas em nota ao Metrópoles, terminou dizendo que a “eleição deve ser decidida na apresentação de propostas, não na fabricação de ataques” e quea divulgação do vídeo “trata-se de mais uma tentativa de desviar o foco do que realmente importa, que é Pernambuco”.
Esse “o que realmente importa”, pra mim, aponta o cerne da questão: a de que algumas mulheres não importam, ou umas importam mais do que outras. E alguns úteros podem ser mais tutelados – pelo Estado, pela religião, pela medicina, pela política, dentro de uma visão eugenista, racista e misógina. O Brasil tem uma longa história com isso.
A laqueadura é um procedimento cirúrgico de esterilização que tem como objetivo impedir a gravidez. Faz-se um corte na ligação entre os ovários e o útero, que é feita por meio das trompas. E fazer uma laqueadura sem informar ou ter o consentimento da mulher é crime no Brasil, com pena de até oito anos de prisão e multa.
Em 2018, a Agência Pública contou a história de Janaína, uma mulher de 35 anos do interior de São Paulo que, em situação de vulnerabilidade, teve uma laqueadura determinada pela Justiça. A reportagem conta que o Ministério Público determinou um prazo para que a prefeitura esterilizasse Janaina, sob a alegação de que ela era “pessoa hipossuficiente, apresenta grave quadro de dependência química, sendo usuária contumaz de substâncias entorpecentes, além de ser mãe de cinco filhos” e de que “não tem condições financeiras de arcar com os correspondentes custos”. Pouco antes de a decisão ser emitida, foi anexada ao processo uma certidão firmada em cartório, em que Janaina concordava com a realização da laqueadura. Mas em entrevista à Pública, ela disse não saber ler ou escrever e afirmou ter assinado o documento sem saber do que se tratava.
Janaína foi esterilizada à força, e apenas anos depois recebeu uma compensação do Estado por essa violência.
Mas dá pra ir além. Nos anos 1990, uma CPMI da laqueadura involuntária foi instaurada, presidida pela deputada Benedita da Silva, para investigar a incidência de esterilização em massa de mulheres no Brasil. Números do IBGE apontavam que 45% das mulheres em idade fértil estavam esterilizadas na época, índices muito superiores aos de outros países. E o relatório final da CPMI dizia: “É sintomático constatar que o maior percentual de esterilizadas encontra-se exatamente nos Estados e regiões que concentram os maiores índices de miséria e pobreza do nosso país e onde a composição populacional aponta para uma maioria negra, como por exemplo o Nordeste e o Centro-Oeste. Por outro lado, em Estados de maioria branca, como por exemplo o Rio Grande do Sul, o índice de mulheres esterilizadas fica abaixo da média nacional”. A CPMI concluiu que as mulheres passavam pelos procedimentos sem o devido conhecimento necessário, imediatamente após cesarianas, que laqueaduras eram oferecidas como escambo eleitoral ou como único método contraceptivo disponível. Apontava ainda que “havia um claro interesse internacional no controle demográfico no Brasil”.
Uma reportagem do Intercept, também de 2018, lembrou o que foi esse interesse estrangeiro: “Esses programas eram capitaneados por entidades que, segundo diversos depoimentos, seguiam orientações que constam no chamado Relatório Kissinger, documento norte-americano classificado como sigiloso (…). O Relatório Kissinger foi adotado como política oficial pelo presidente Gerald Ford em 1975 e defendia que o crescimento populacional dos países menos desenvolvidos era uma ameaça para a segurança nacional americana, pois geraria riscos de distúrbios civis e instabilidade política. Para conter o avanço demográfico, o relatório defendia a promoção da contracepção. Treze países estavam na mira desta política: Índia, Bangladesh, Paquistão, Indonésia, Tailândia, Filipinas, Turquia, Nigéria, Egito, Etiópia, México, Colômbia e Brasil”.
Vale lembrar também que até 2022, as mulheres precisavam da autorização do marido para fazer o procedimento por vontade própria. A Norma Federal Brasileira do Planejamento Familiar, Lei nº 9.263/1996, que garante acesso a métodos contraceptivos e estabelece as regras para a esterilização voluntária (como a laqueadura e a vasectomia) pelo SUS e na rede privada, exigia, entre outras coisas, idade mínima de 25 anos ou dois filhos vivos e a autorização do cônjuge para esterilização voluntária. Em 2022, a lei nº 14.443 alterou essa legislação – reduziu a idade mínima para 21 anos ou 2 filhos vivos, e determinou que não será exigido o consentimento expresso de ambos os cônjuges para que ocorra a esterilização.
Não tem como não associar tudo isso ao viés eugênico e racista que remonta ao projeto de embranquecimento de 1900, quando imigrantes europeus recebiam muitos benefícios para embranquecer a população, e o médico e antropólogo João Batista de Lacerda mostrou em um congresso em Londres, sua tese “sobre os mestiços do Brasil”, defendendo que a miscigenação faria a população negra e indígena desaparecerem por completo.
Também não há como não pensar no racismo estrutural histórico nos serviços de saúde, com um alto índice de violência obstétrica entre mulheres negras, ou que a taxa de mortalidade materna entre mulheres negras é o dobro ou mais do que o dobro da observada entre mulheres brancas, ou ainda que as mulheres negras formam a maioria das pessoas processadas, investigadas e com privação de liberdade por crime de aborto no Brasil.
Me lembro ainda de um deputado que em uma fala contra a descriminalização do aborto no Congresso Nacional em 2024, segurando um feto de borracha, disse que “o dia da mulher tinha que ser o dia do útero”. Porque nessa fala dele entram tantas camadas de misoginia.
Voltando ao que escrevi no início, todos os úteros estão sujeitos, pelo machismo estrutural, à tutela da medicina, da igreja, do Estado, seja na decisão de manter ou não uma gravidez, até a se deve ou não ser impedido de procriar. Mas uns são mais sujeitos que os outros.
Os acontecimentos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) foram destaques de notícias nos últimos dias, dentro e fora do Brasil. A sessão extraordinária da Corte, realizada na última terça-feira (15), deveria definir os rumos da investigação envolvendo o ministro Alexandre de Moraes no caso Banco Master, mas terminou com um pedido de vista, com prazo de até 90 dias para a retomada.
Para analisar o atual cenário e as perspectivas para o futuro da Corte, o Pauta Pública desta semana recebe Eloísa Machado de Almeida, coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta e professora de direito da Fundação Getúlio Vargas.
Para Eloísa, a crise chegou a um ponto em que não há saída rápida ou fácil para que o órgão recupere sua capacidade de tomar decisões e volte a ser respeitado no Brasil. “Essa crise já passou de um ponto de não retorno […] A fase que o Supremo está é de contenção de danos. E qualquer cenário que se olhe daqui para frente parece muito ruim”, afirma.
Almeida também reforça a importância do jornalismo para esclarecer os acontecimentos envolvendo os ministros, mas alerta para os impactos que a imprensa pode causar na democracia quando adota interesses partidários, principalmente em ano eleitoral.
Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.
EP 234
“STF em ponto de não retorno” – com Eloísa Machado de Almeida
18 de setembro de 2026
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Coordenadora do grupo de pesquisa Supremo em Pauta analisa a crise do STF e os desafios da recuperação de credibilidade
Na última terça (15), a esperada sessão do STF que decidiria se haveria investigação do ministro Alexandre de Moraes, acabou suspensa após pedido de vista do ministro Flávio Dino. Qual seu balanço sobre o que aconteceu nessa sessão e as possíveis consequências dessa nova decisão e os caminhos que essa crise pode tomar?
Dada a amplitude da crise no Supremo Tribunal Federal, que envolve vários ministros de uma só vez, era esperado que um dos pontos centrais fosse o debate sobre quem poderia votar e participar dessa sessão de julgamento. E ainda que a gente tenha Dias Toffoli e Nunes Marques como ministros que se declararam ali suspeitos para participar da sessão, me parece bastante inadequado Mendonça e Moraes deliberarem sobre um caso que é diretamente de seus interesses.
Acredito que teria sido melhor se a sessão tivesse dedicado um tempo para debater esse caso em razão das mensagens envolverem vários dos ministros diretamente ou indiretamente através dos seus familiares. Na minha avaliação, a sessão aprofundou a crise no STF, mostrou que não estão claros os caminhos que o tribunal vai adotar para lidar com essas denúncias – que envolvem supostos crimes e impropriedades de seus ministros –, bem como a instrumentalização política da investigação.
O que a gente viu foi uma sessão sem uma capacidade de resolver o problema e até mesmo de encaminhar quais seriam os próximos passos. E nós vimos um desgaste ali muito grande entre os ministros. Nesse sentido, o pedido de vista do ministro Flávio Dino me pareceu adequado, capaz de amenizar os ânimos e impedir que às vésperas do período eleitoral a gente tenha qualquer utilização indevida dessas informações.
O tema dessa temporada do Pauta é “diálogos para entender o que é real”. Eu acho que essa é uma boa pergunta nesse momento do Brasil: o que é real no meio disso tudo? No que o ouvinte precisa prestar mais atenção no meio da bagunça desse momento?
O fato de ainda estarmos numa fase muito inicial de investigação traz essa sensação também de que a gente tem documento sobre tudo, com essa dificuldade de selecionar o que importa ou não importa.
Acho que isso é bem o retrato do momento dessa investigação no Supremo Tribunal Federal, porque é só com o avanço das investigações, é só com os relatórios finais da Polícia Federal que vão promover indiciamentos e, eventualmente, com o oferecimento de denúncias pelo Ministério Público, que a gente consegue entender como é que essas esses documentos, essas mensagens, essas reuniões, essas festas, se articulam, eventualmente, em alguma prática criminosa.
Que é o que a gente chama de uma narrativa, né? De uma explicação, de uma historinha que vai contar o que aconteceu em relação ao Banco Master, se houve ou não participação de ministros e de outros poderosos, e como essas provas, às quais a gente teve acesso, agora de maneira bastante ampla e desenfreada, vão servir para corroborar essa história ou eventualmente para também derrubar algumas impressões que têm sido feitas.
Então, acho que a primeira coisa é: não é à toa que a gente está confuso. É porque essa informação bruta raramente é revelada para todo mundo. O que vem à tona é a maneira como os órgãos de acusação e de persecução penal, e de investigação, constroem uma narrativa. E essa narrativa ainda não foi construída em razão de um estágio muito inicial das investigações.
Então,se eu puder dar um alerta aqui para as ouvintes e para os ouvintes, é de olhar sempre com bastante desconfiança para essas informações que têm aparecido, não por eventualmente elas terem algum tipo de viés, mas pelo fato de parte delas estar sendo usada para corroborar uma narrativa quando a avaliação toda ainda não foi feita.
Quais são os caminhos para a Corte retomar e ganhar a credibilidade da população como capaz de aplicar a lei com base na constituição e não em preferências partidárias? Como a Corte vai sair disso tudo?
Eu tenho dito e escrito que essa crise já passou de um ponto de não retorno, que não tem saída rápida, não tem saída fácil. Essa crise chegou, se instalou e ainda vai piorar. Me parece que os danos serão profundos e alguns deles talvez permanentes. E aí, nesse cenário, o que o tribunal pode fazer talvez seja conter danos. Para dentro do tribunal, em relação à sua capacidade de tomar decisões, de julgar, de ter sessões plenárias, de conseguir resolver os casos que são relevantes que estão lá, mas também da porta para fora, de que sejam decisões respeitadas e observadas pelos demais poderes.
A fase que o Supremo está na minha avaliação é de contenção de danos. E qualquer cenário que você olhar daqui para frente parece muito ruim. É, então, caso não aconteça nada em relação à sessão e à investigação de ministros, isso será um problema. Na hipótese de ser aberta uma investigação, isso também vai gerar um dano, vai ser um problema, na hipótese de ministros serem afastados, alguns ou todos, isso também vai gerar um problema.
Então nesse ponto de não retorno, me parece que o Supremo vai ter um caminho muito árduo para recuperar a sua capacidade de tomar decisões e de ser respeitado, e que talvez ele não recupere isso tão logo e que talvez, inclusive, ele sofra restrições e reformas vindas de outros poderes.
A minha sensação, desculpa dizer, é bem pessimista. Eu acho que um tribunal mais enfraquecido sai de tudo isso e não será bom ter um tribunal enfraquecido na atual conjuntura brasileira com tantas promessas constitucionais ainda a serem realizadas.
Nos meus 16 anos de igreja evangélica, fui ensinada a toda vez que o mundo estivesse um caos, que eu não soubesse que caminho tomar, que houvesse barulho demais, ideias demais, eu recorresse à Deus como norte e à igreja como refúgio. Me lembro que tinha até uma pulseirinha, vendida na lojinha da igreja, com as letras OQJF? “O que Jesus faria?”. É claro que o Jesus que chutou os mercadores do templo, mencionado no Novo Testamento, não era muito a referência para as igrejas neopentecostais. A gente aprendia que questionar o pastor, a congregação, e as ideias que eram apresentadas ali pelo representante de Deus na Terra era “falta de fé” e, em última instância, rebelar-se contra o próprio Deus.
Uma outra doutrina pregada reiteradamente era a de que as guerras, os conflitos, as crises políticas, econômicas – micro e macro – eram materializações de batalhas que estavam sendo travadas nos céus por anjos e demônios: batalhas espirituais.
Graças a Deus (?) os muros da igreja não foram capazes de conter minha rebeldia adolescente por muito tempo. Logo conheci o feminismo, o punk, os movimentos sociais, Marx, Foucault, Judith Butler, Simone de Beauvoir, a comunidade queer, a psicanálise.
Mas décadas depois, voltei a mergulhar nesse universo evangélico como jornalista e pesquisadora, primeiro para uma reportagem da AgênciaPública sobre a bancada evangélica no Congresso Nacional e a força política dessa fatia de uma fatia da população que crescia aceleradamente. Essa matéria levou a outras, a especiais transnacionais, a um livro que está sendo traduzido para seu terceiro idioma, e nunca mais larguei o assunto.
Aprendi então que essas “batalhas espirituais” tinham um nome: Teologia do Domínio. A teologia do domínio basicamente defende que os cristãos devem governar e influenciar todas as esferas da sociedade, a partir de uma visão maniqueísta, na qual o poder político é visto como um instrumento legítimo de conquista espiritual e social. Ela surgiu ali no meio calvinista norte-americano entre as décadas de 1960 e 1970 e foi amplamente abraçada pelos pentecostais nos anos 1980.
No meu livro, citei uma fala do pastor RR Soares, líder fundador da Igreja Internacional da Graça de Deus – que tem nada menos que cinco parentes concorrendo nestas eleições – que acho que ilustra bem: “não existe nada que esteja fora da ação demoníaca. No futebol, na política, nas artes e na religião, nada escapa ao cerco do Diabo […] Satanás tem milhares de agências no mundo […] Por trás da religião, do intelectualismo, da poesia, da arte, da música, da psicologia, do entendimento humano e de tudo com o que temos contato, Satanás se esconde”.
Nessa lógica, o crente está sempre sendo atacado por representantes do diabo que “vêm para matar, roubar e destruir” e no jogo político, quem não tem as bençãos do pastor, é parte do front inimigo.
A extrema direita, em especial o Bolsonarismo, foi espertamente se amalgamando a essas narrativas e colocando que a esquerda, o “comunismo”, as feministas, as universidades, os “professores doutrinadores”, a imprensa, a comunidade LGBT+, como inimigos a serem combatidos em nome de batalhas mais profundas, missionárias, messiânicas.
É daí que vem esse apoio crescente de grande parcela dos evangélicos à Flávio Bolsonaro e à André Mendonça, nesse momento de crise política em que ambos estão diretamente implicados e com os rabos mais presos que calango em boca de sapo no escândalo doBanco Master, por mais incoerente que pareça. Ele não surpreende quem cresceu dentro dessa doutrina.
Há alguns dias, o ministro André Mendonça, que é pastor evangélico, publicou um vídeo em suas redes sociais agradecendo as mensagens de “oração e carinho” de líderes religiosos e disse que essas “preces a Deus têm sido fundamentais” para o sustentar.Em seguida, Michelle Bolsonaro afirmou que Mendonça é “escolhido e ungido do Senhor” e que Mendonça permaneceu fiel aos princípios e se manteve forte e corajoso. “Você foi chamado para este tempo. A nossa maior alegria é saber que você é um grande e verdadeiro homem de Deus”, disse em suas redes sociais. Correntes de fiéis têm chamado às orações por Mendonça.
É a jornada do STF sendo transformada em cruzada, em missão, levada a cabo corajosamente por Mendonça, sobretudo contra Alexandre de Moraes, que encarna o mal.
Nessa cruzada, Flávio Bolsonaro, que tem rodado igrejas evangélicas pelo país e que não era exatamenteamado pelos evangélicosno início da campanha por conta da querela com Michelle, tem conseguido se inserir como opção divina pela proximidade a Mendonça, pela contraposição à figura de Alexandre de Moraes e pelos ataques ao STF. Arrisco dizer que é isso que tem levado a um crescimento nas pesquisas de intenção de votos dessa população.
A última pesquisa Quaest, por exemplo, mostra Flávio à frente de Lula no segundo turno, com 42% contra 40% do atual presidente.
Numa doutrina em que a política é entendida como batalha espiritual, nenhum escândalo vai pesar mais do que uma unção, porque duvidar do ungido segue sendo, para milhões de fiéis, duvidar do próprio Deus.
E como me disse uma vez o pastor presbiteriano Caio Fábio, que foi presidente e fundador da Associação Evangélica Brasileira (AEVB) e é alguém que conhece os bastidores da articulação política dos evangélicos: “enquanto o Diabo continuar a existir para os evangélicos da forma como existe, eles [os políticos que dizem representar a Deus] podem continuar roubando, porque o Diabo pagará a conta das acusações. Em nome de Deus, a canalhice é santificada.”
A plataforma Discord, popular entre jogadores e comunidades online, tem sido espaço de transmissão e incentivo a crimes e autoviolência em forma de desafios, atingindo principalmente crianças e adolescentes. O cientista político e jurista João Victor Ferreira, autor do livro “Radicalização Política e Juventude no Brasil”, mergulhou nas comunidades gamers brasileiras para revelar como jovens conectados buscam pertencimento e formação política a partir de discursos extremos e da violência incentivada nesses espaços virtuais.
Convidado para este episódio do Pauta Pública, João Victor chama a atenção para as falhas da atual legislação brasileira na responsabilização de plataformas como o Discord. Na conversa com Andrea Dip, ele também questiona se há interesse das empresas em combater a radicalização e o incentivo aos crimes, tendo em vista que a propagação desse tipo de conteúdo ainda gera muito lucro.