Economia, saúde e segurança pública desafiam próximo mandato de Lula, avaliam especialistas
Transformar as propostas apresentadas durante a campanha eleitoral em melhorias concretas para a população será um dos principais desafios do próximo mandato do presidente Lula, segundo especialistas ouvidos pela Rádio Jornal durante debate nesta quinta-feira (29). As dificuldades envolvem desde a condução das contas públicas e a ampliação do acesso à saúde até a articulação entre os governos no combate à violência.
Participaram do programa o economista e especialista em Gestão Pública Werson Kaval; a médica sanitarista Bernadete Perez, professora do Centro de Ciências Médicas e coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); e Amando Nascimento, consultor e pesquisador especializado em governança, estratégias e sistemas de segurança pública, vinculado a laboratórios e núcleos de pesquisa da UFPE.
Ao longo da discussão, os convidados abordaram as dificuldades para conciliar as prioridades do governo com a responsabilidade fiscal, a necessidade de fortalecer o Sistema Único de Saúde (SUS) e os limites de propostas legislativas para enfrentar a criminalidade. Também destacaram a importância de acompanhar a execução das políticas públicas e cobrar resultados dos representantes eleitos.
Economia: ajuste fiscal e qualidade dos gastos públicos
Na avaliação de Werson Kaval, o controle das contas públicas será determinante para o desempenho econômico do governo. O economista afirmou que, embora indicadores como desemprego e inflação tenham apresentado resultados favoráveis em comparação com períodos anteriores, parte da população não percebe essa melhora no cotidiano, especialmente ao fazer compras.
Kaval também questionou a forma como os recursos públicos são distribuídos e defendeu que a discussão sobre responsabilidade fiscal considere os gastos dos diferentes Poderes, incluindo as emendas parlamentares e benefícios pagos a agentes públicos.
O economista também defendeu que as políticas sociais sejam acompanhadas de investimentos capazes de ampliar a geração de empregos e a produtividade. Para ele, o desafio não está em eliminar programas de transferência de renda, mas em construir condições para que a população tenha mais oportunidades de trabalho.
“As pessoas não precisam ser dependente de Bolsa Família, elas precisam ter emprego em alta, para poder trabalhar, para produzir, porque a nossa produtividade é baixíssima. Então é um caminho longo que precisa e com a continuidade do governo, que não é mudança, eu não vejo muito horizonte em relação a isso, nesse agachamento. Não vejo.”
Outro ponto levantado no debate foi o impacto das expectativas do mercado financeiro sobre o custo de vida. Kaval relacionou a reação dos investidores após o resultado eleitoral à incerteza sobre as decisões econômicas que serão adotadas pelo governo, sobretudo em relação às despesas públicas e à futura equipe econômica.
Segundo ele, mudanças nos preços dos combustíveis podem repercutir sobre outros setores, já que o transporte rodoviário tem papel central na economia brasileira. A definição das medidas fiscais e da equipe responsável pela área econômica, afirmou, será importante para avaliar os próximos movimentos do mercado.
Saúde: financiamento do SUS e redução das filas
Na área da saúde, Bernadete Perez defendeu que o fortalecimento do SUS passe pela garantia de financiamento regular, reorganização da rede de atendimento e ampliação da capacidade de resolver problemas desde a atenção primária. Para a médica sanitarista, aumentar os recursos é necessário, mas não suficiente se a gestão continuar fragmentada e o acesso aos serviços depender de iniciativas pontuais.
A especialista também criticou a ideia de que a contratação de serviços privados, por si só, seja capaz de resolver as dificuldades do sistema público. Segundo ela, o atendimento precisa ser organizado de maneira integrada, com equipes que acompanhem os pacientes e tenham acesso a exames, especialistas e tratamentos.
“Tem que ter investimento orçamentário, financeiro, tem que, eu diria é dobrar o que a gente investe do PIB para saúde, mais R$40 bi ao ano, para saúde, mas se a gente não associar isso a uma desprivatização da saúde, uma outra lógica que não é do mercado, porque veja, o UTIs e hospitais inteligentes, como o presidente Lula também falou não dão conta disso.”
Bernadete destacou que a demora para conseguir consultas, exames e procedimentos compromete a integralidade do atendimento, um dos princípios do SUS. Na avaliação dela, o governo precisa priorizar linhas de cuidado para doenças como câncer e problemas cardiovasculares, além de garantir que o diagnóstico seja acompanhado pelo acesso ao tratamento necessário.
A médica também chamou atenção para a necessidade de ampliar a cobertura da atenção primária, sobretudo nas periferias urbanas, e de garantir continuidade no acompanhamento dos pacientes. Para ela, uma equipe de referência deve conhecer as necessidades das famílias atendidas e atuar em articulação com os demais níveis da rede de saúde.
“É preciso de uma política de pessoal capaz de funcionar um sistema público onde eu conheço o paciente pelo nome, sobrenome, sabe onde ela mora, sabe quem é a família, se tem dificuldade de amamentar, se tá gestante quando o bebê nasceu, eu tenho que fazer a visita, a primeira visita do recém-nascido com a mesma equipe”.
Ao discutir a organização dos serviços no Recife, Bernadete questionou os efeitos da parceria público-privada adotada na atenção primária. Ela afirmou que, apesar de os dados oficiais apontarem cobertura de aproximadamente 80%, a organização do atendimento teria reduzido a disponibilidade de algumas equipes ao longo da semana.
A especialista também criticou a comparação direta entre hospitais públicos e privados, por considerar que eles atendem demandas diferentes. Segundo ela, unidades privadas podem ter acesso regulado e não receber o mesmo volume de urgências e emergências enfrentado pelos hospitais públicos.
Segurança pública: execução das leis e atuação dos municípios
Na avaliação de Amando Nascimento, o enfrentamento da violência não depende necessariamente da criação de novas leis, mas da aplicação efetiva dos instrumentos legais e da organização do sistema de segurança pública. O pesquisador questionou a centralidade dada à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública durante a campanha e afirmou que boa parte das medidas previstas já encontra respaldo na legislação.
Nascimento também avalia que a cooperação internacional pode contribuir para o enfrentamento do crime organizado, mas não substitui ações dentro do território brasileiro. Para ele, classificar facções criminosas como organizações terroristas não resolve, por si só, os problemas de coordenação e eficiência das instituições responsáveis pela segurança.
“Não adianta pensar na proposta de Trump sem que você resolva logo o problema interno. A proposta de Trump é importante para o muro para a parte de fora da jurisdição do Brasil, mas não vai resolver o combate interno. Essa questão de classificar a organização é terrorista não tem nada a ver com a eficiência que doutora Bernadete fala do sistema e com a eficácia do sistema.”
O pesquisador defendeu a implementação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), previsto em lei, e apontou a necessidade de melhorar a integração entre as instituições. Na avaliação dele, a existência de normas e estruturas formais não garante resultados se os mecanismos não forem colocados em prática.
Nascimento também defendeu a participação mais ativa dos municípios, principalmente em ações de prevenção e na construção de uma relação mais próxima entre os agentes públicos e a população. Segundo ele, cidades com menos recursos podem recorrer a consórcios intermunicipais para organizar serviços e compartilhar estruturas de segurança.
O especialista acrescentou que medidas locais, como iluminação pública, manutenção dos espaços urbanos e presença de serviços municipais, também integram uma estratégia de prevenção. Para ele, a atuação contra facções e crimes violentos precisa caminhar junto com iniciativas que melhorem as condições de vida e a sensação de segurança nos bairros.
Ao tratar da PEC da Segurança Pública, Nascimento afirmou que a proposta pode trazer mudanças, mas não deve ser apresentada como solução automática para os índices de violência. Ele citou, entre os pontos positivos, a previsão de constitucionalização de fundos e o reforço do papel das guardas municipais, mas sustentou que a prioridade deve ser executar o que já está previsto em lei.
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© ANDRÉ PERA/PERA PHOTO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
