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De volta aos mesmos problemas

A declaração de Guilherme Boulos, secretário-geral da Presidência da República, de que a expectativa por um ajuste fiscal no quarto mandato de Lula só vale para quem “não entendeu nada do que foi essa eleição”, referindo-se à proposta derrotada do “tesouraço” de Flávio Bolsonaro. Talvez Boulos e o PT é que não tenham entendido a gravidade do quadro adiante, a partir do próximo ano. Sem mencionar que também não parecem querer saber de metade dos eleitores, com acréscimo do mercado financeiro, que preferiam a vitória do concorrente, apesar de todas as ressalvas implicadas nisso, entre outras coisas, exatamente por causa da teimosia de Lula em relação à necessidade urgente e inadiável da responsabilidade fiscal, ou seja, de redução de gastos enquanto é possível escolher o que se pode cortar.
É inescapável recordar que a eleição deste ano se vincula à liberação de bilhões de reais através de um pacote de benefícios cuja bondade terá consequências para as contas públicas. O próprio presidente deixou claro que seu modelo de desenvolvimento está atrelado à concessão de benefícios que permitam aumentar o poder de compra dos cidadãos para aquecer a economia, e assim, gerar um ciclo positivo de crescimento. Parece fácil, mas se assim fosse, os três mandatos anteriores teriam revelado o êxito do modelo – o que não aconteceu, do ponto de vista econômico e de saúde fiscal do Estado brasileiro.
A combinação de dívida pública nas alturas com endividamento da população será um dos desafios para o Lula 4, segundo especialistas entrevistados pelo programa Passando a Limpo, da Rádio Jornal. Para Werson Kaval, o economista e especialista em Gestão Pública, os recursos precisam ser gastos com mais eficiência. Kaval também falou sobre a baixa produtividade no país, e a insegurança no mercado financeiro diante das incertezas que pairam sobre os gastos do novo governo e a definição dos nomes da equipe econômica.
Na saúde, as deficiências do Sistema Único de Saúde (SUS) vieram mais uma vez à tona, na visão da médica sanitarista Bernadete Perez. A demora no atendimento, da marcação de consultas aos exames e procedimentos cirúrgicos, compromete o conceito de integralidade em que se baseia o SUS. Para ela, a comparação entre hospitais públicos e privados é indevida, porque dão conta de demandas diferente. Em um governo que deve ser pressionado por prioridades, o aumento do financiamento do SUS é crucial, segundo ela.
Outro tema no topo das preocupações da população é a segurança, abordada no debate por Amando Nascimento, consultor e pesquisador. De acordo com o especialista, a implementação do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), previsto em lei, é um dos principais caminhos a serem tomados para mudar a percepção de insegurança dos brasileiros. A integração entre as instituições que participam da gestão da segurança é igualmente necessária, e até consensual. Mas a mera existência de normas e estruturas formais não vai garantir os resultados, se o que está no papel não virar realidade.
São apenas alguns dos mesmos problemas que afligem a nação brasileira há muitos anos. O que se espera do novo governo, com o mesmo presidente, é menos discurso e mais responsabilidade.

© Thiago Lucas

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Com 51,78% dos votos, contra 48,27% de Flávio, Lula alcança 4º mandato e bate recorde de permanência no poder na democracia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ampliou a presença na história política brasileira ao derrotar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno deste domingo (25/10). Com 51,78% dos votos, contra 48,27% do adversário, segundo apuração com 99,9% das urnas, o petista conquistou um quarto mandato, marca inédita no país.

Lula também se tornou o primeiro candidato a conquistar a Presidência após terminar o primeiro turno atrás do adversário. A recuperação contrariou as expectativas de uma disputa que parecia favorável a Flávio Bolsonaro até os últimos dias da campanha.

Ao concluir o mandato em 2030, Lula terá acumulado 16 anos na Presidência, recorde entre governantes eleitos democraticamente no Brasil. Na história republicana, ficará atrás apenas de Getúlio Vargas, que governou por aproximadamente 18 anos e seis meses, em períodos que incluíram regimes autoritários.

Nascido em uma família pobre de Pernambuco, Lula trabalhou como engraxate, vendedor ambulante e metalúrgico antes de alcançar projeção nacional como líder sindical no ABC paulista. Primeiro operário eleito presidente, chegou ao Palácio do Planalto em 2003, após três derrotas eleitorais.

Lula venceu as eleições de 2002, 2006, 2022 e 2026. Em 2010, encerrou o segundo mandato com aprovação de 83%, segundo o Datafolha. Em 2022, tornou-se o primeiro candidato a derrotar um presidente em exercício que disputava a reeleição.

O presidente completará 81 anos na terça-feira (27/10) e chegará aos 85 ao final do mandato, em 2030. A nova vitória consolidou uma trajetória de sete disputas presidenciais, quatro triunfos e protagonismo político ao longo de mais de quatro décadas.

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