Geração Z é discreta mas chega com estrondo ao mercado da arte

O que nos diz o relatório ‘The Art Basel and UBS Survey of Global Collecting 2026’? Que a Geração Z destronou os boomers na compra de arte, mas também pinta o seu retrato: discretos e mais interessados em manter as suas coleções privadas. Afinando as conclusões, o que o relatório revela é que, em 2025 e no primeiro semestre de 2026, os colecionadores da Geração Z de elevado património (High Net Worth Individual, em inglês, HNWI) gastaram, em média, mais do dobro do que qualquer geração precedente. O universo de inquiridos incidiu sobre 3.100 colecionadores ativos em 10 países e regiões, incluindo China continental, Hong Kong, Japão e Singapura — cada um com um património superior a um milhão de dólares em 2026 —, sendo que a Geração Z representou 9% do universo total.
Quem sai aos seus…
Um aspeto que o relatório saliente é que 72% dos inquiridos já tinham recebido obras por herança ou testamento. Entre os colecionadores inquiridos, a proporção média do património dedicada à arte caiu de 24%, em 2022, para 15%, em 2026. Mas entre os indivíduos com mais de 50 milhões de dólares de património, a afetação média chegou a 23%. Ou seja, a família é a influência mais comum para iniciar uma coleção, de acordo com 28% dos inquiridos. Dentro deste universo, esse motivo cresce para 40% quando se trata da Geração Z. Com 22% surgem as pessoas HNWI, cuja exposição cultural e interesse em comprar arte começou através de visitas a museus, galerias e feiras.
Outro aspeto a realçar: hoje, arriscar é menos apetecível. Por outras palavras, o número de colecionadores que comprou obras de artistas que acabava de descobrir caiu de 66%, em 2025, para 45%, em 2026. É o valor mais baixo em cinco anos. A ilação a retirar, segundo o relatório, é que os colecionadores privilegiam a prudência e a preferência por artistas com nome firmado no mercado. Neste caso, as diferenças geracionais também se fazem notar. A Geração Z (ou Gen Z) está mais aberta às mudanças do que os chamados boomers: 56% compraram obras de artistas que não conheciam contra 36% entre os mais velhos.
Noah Horowitz, CEO da Art Basel, salienta, no site oficial da Art Basel, que estes números “apontam para uma base de colecionadores cada vez mais informada, digitalmente envolvida e ativa em várias categorias e canais”. Horowitz salienta ainda outro aspeto. “Os limites do colecionismo estão a expandir-se, moldados por mudanças intergeracionais significativas, à medida que os colecionadores da Gen Z emergem como a geração que mais gasta em arte no universo de inquiridos.” O seu comportamento, conclui, “irá influenciar a forma como os colecionadores do futuro se vão envolver com o mercado da arte.”
… não tem de ser analógico
Outra conclusão: as compras são mais informadas. 72% dos inquiridos realizaram pesquisas moderadas ou significativas por conta própria, face aos 62% do inquérito do ano passado. Entre a Geração Z, este número subiu para 80%, embora especialistas em leilões, consultores e artistas continuassem a ser fontes relevantes de orientação. A maioria, 58%, usa recursos online para obter aconselhamento e a inteligência artificial (IA) está presente em 22% dos casos. Um dado curioso: em 2024, apenas 4% dos inquiridos disseram ter recorrido a ferramentas de IA.
A Geração Z constitui também o grupo que apresentou a média de despesa declarada mais alta em 2025, 347.460 dólares, um aumento de 19% face a 2024, e muito acima da média de 124.265 dólares em 2025, mais 13% do que no ano anterior. O relatório refere, porém, que estes valores médios foram influenciados por um pequeno número de colecionadores com despesas muito elevadas. Entre os inquiridos que responderam, 77% gastaram menos de 50.000 dólares (cerca de 43,9 mil euros) em arte durante o primeiro semestre de 2026.
A pintura foi a escolha de 76% dos compradores contra 67% no inquérito anterior. Ao todo, a pintura representa 31% da despesa total em arte entre os inquiridos do relatório. Em segundo lugar está a escultura (15%). Em terceiro na lista de colecionáveis figuram as antiguidades, seguidas da joalharia e pedras preciosas, e relógios.
As coleções dos inquiridos tinham, em média, 56 obras. Na sua maioria, pretendem manter a coleção privada. Apenas 10% querem ser amplamente reconhecidos como colecionadores. Os mais reservados são os colecionadores da Geração Z, que consideram a privacidade como algo “central para a sua identidade pessoal e cultural”, sublinha o relatório.













