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Habitação: a marca que Portugal pode deixar


A habitação tornou-se um dos maiores testes à capacidade de Portugal transformar crescimento em qualidade de vida. Mais do que discutir novamente o diagnóstico, chegou o momento de fazer desta necessidade uma ambição coletiva e urgente: construir um país onde viver, estudar, trabalhar e constituir uma família seja possível e compatível com os rendimentos e as expectativas de quem aqui escolhe ficar.

O problema é, antes de mais, de oferta. Portugal precisa de colocar mais casas no mercado, com maior rapidez e diversidade, respondendo também a uma sociedade que mudou. Há mais pessoas a viver sozinhas, novos agregados familiares e novas necessidades de mobilidade.

Na última década, os preços da habitação quase duplicaram e a rendas seguem a mesma curva ascendente, enquanto a produção permanece insuficiente para responder à procura.  Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), os dados oficiais mostram como a pressão sobre a habitação continua a intensificar-se: só em 2025, os preços aumentaram 17,6%, depois de uma subida de 9,1% em 2024. Também no arrendamento a tendência é clara: no primeiro trimestre de 2025, a renda mediana dos novos contratos aumentou 10% em termos homólogos.

Porém, aumentar a oferta não significa simplesmente construir mais. Significa construir melhor e executar mais depressa. Reabilitar onde faça sentido, disponibilizar solo urbanizado, criar novas centralidades junto dos transportes, escolas, hospitais e emprego. Mas também simplificar processos e aproveitar a construção industrializada ou modelar para ganhar produtividade e escala.

A necessidade de previsibilidade legal, a industrialização do setor e melhor gestão dos solos são também condições para acelerar, de uma vez por todas, a resposta.

Este grande desafio significa também mobilizar mais capital. Estado, municípios, banca, promotores, construtores e investidores não resolverão isoladamente um problema desta dimensão. Todos juntos, sim. A banca tem manifestado disponibilidade para financiar empresas e famílias, embora identifique, e bem, limitações prudenciais e a relevância de instrumentos públicos de partilha de risco.

É aqui que Portugal pode transformar uma fragilidade numa marca. Um país atrativo não é apenas aquele que consegue captar investimento, empresas ou talento. É aquele que consegue criar condições para que esse talento encontre casa, construa um projeto de vida e queira permanecer por cá, sem que carregue uma taxa de esforço insustentável até à velhice.

A próxima década pode deixar-nos muito mais do que novas casas. Pode deixar-nos cidades mais equilibradas, construção mais inovadora, investimento de longo prazo e uma nova capacidade de execução. Para isso é preciso arregaçar as mangas e fazer. No fundo, a verdadeira marca de Portugal será transformar o direito a habitar na possibilidade de construir aqui futuro.

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