Associação Portuguesa do Sono esclarece mito: afinal lembrar-se dos sonhos não é sinal de que dormiu bem
Acordar de manhã com uma recordação clara dos sonhos da noite anterior pode parecer um sinal de que se dormiu bem. No entanto, esta associação nem sempre corresponde à realidade, uma vez que a capacidade de recordar aquilo com que sonhámos depende de vários mecanismos cerebrais e pode até estar relacionada com interrupções do sono.
A Associação Portuguesa do Sono clarifica que a maioria das pessoas sonha todas as noites, embora muitas não consigam recordar esses episódios ao despertar. A entidade esclarece que lembrar-se dos sonhos não significa necessariamente ter tido uma noite de descanso de qualidade, contrariando uma ideia relativamente comum sobre o funcionamento do sono.
Porque é que algumas pessoas se lembram dos sonhos?
Os sonhos acontecem sobretudo durante a fase REM do sono, caracterizada por movimentos rápidos dos olhos e por uma atividade cerebral intensa. Porém, as experiências vividas durante esta fase tendem a ser esquecidas pouco depois de acontecerem, o que explica por que motivo muitas pessoas acordam sem qualquer recordação daquilo com que sonharam.
Segundo a mesma fonte, a possibilidade de recordar um sonho é maior quando o despertar acontece durante ou pouco depois da fase REM. Nestas circunstâncias, a memória do episódio ainda pode estar disponível, permitindo recuperar imagens, acontecimentos ou emoções que fizeram parte do sonho. Contudo, isso não significa que o sono tenha sido mais reparador.
O cérebro pode contribuir para apagar as memórias dos sonhos
Um estudo publicado na revista científica Science, em 2019, identificou mecanismos cerebrais que poderão ajudar a explicar o esquecimento durante o sono. A investigação demonstrou, em experiências com animais, que determinados neurónios produtores da hormona concentradora de melanina, ativos durante o sono REM, participam em processos de esquecimento associados ao hipocampo.
Esta região do cérebro desempenha um papel importante na formação e consolidação de memórias. A Associação Portuguesa do Sono refere que a atividade daqueles neurónios poderá dificultar o armazenamento de determinadas informações, ajudando a explicar a rapidez com que os sonhos desaparecem da memória. No entanto, o estudo não demonstrou diretamente que este mecanismo seja responsável pelo esquecimento dos sonhos nos seres humanos.
Quem se lembra dos sonhos pode acordar mais vezes durante a noite
Outra investigação, publicada em 2013 na revista Frontiers in Psychology, analisou as diferenças entre pessoas que recordavam frequentemente os sonhos e outras que raramente conseguiam fazê-lo. Os investigadores acompanharam 36 participantes saudáveis e observaram diferenças nos padrões de atividade cerebral e nos períodos em que permaneciam acordados durante a noite.
Os resultados mostraram que os participantes que recordavam os sonhos com maior frequência passavam, em média, cerca de 30 minutos acordados durante o período de sono, enquanto os restantes registavam aproximadamente 14 minutos. Estes dados sugerem uma associação entre os despertares noturnos e a capacidade de recordar sonhos, embora não permitam concluir que todas as pessoas que se lembram deles dormem pior.
Lembrar-se dos sonhos significa que dormimos mal?
Apesar da relação identificada entre os despertares e a memória dos sonhos, recordar o que aconteceu durante a noite não constitui um sinal de problemas de sono. A frequência com que uma pessoa se lembra dos sonhos pode variar e não é suficiente para determinar se o descanso foi adequado ou se existe alguma perturbação.
A Associação Portuguesa do Sono sublinha que “o facto de uma pessoa se lembrar de um sonho não é indicativo de um sono de qualidade”. Assim, tanto quem acorda com memórias detalhadas como quem raramente recorda os sonhos pode ter dormido adequadamente. A investigação disponível aponta para diferentes fatores envolvidos neste fenómeno, sem estabelecer uma relação direta entre a quantidade de sonhos recordados e a qualidade do descanso.
O que se pode concluir sobre a memória dos sonhos?
As investigações ajudam a compreender por que razão algumas pessoas conseguem descrever os sonhos com bastante detalhe, enquanto outras praticamente nunca se lembram deles. O momento do despertar, a atividade de determinadas regiões cerebrais e a existência de interrupções durante a noite estão entre os fatores que podem influenciar essa capacidade.
Por isso, a recordação dos sonhos não deve ser utilizada isoladamente para avaliar a qualidade do sono. O estudo publicado na Frontiers in Psychology identificou uma associação entre maior frequência de recordação e mais tempo acordado durante a noite, mas os próprios resultados não permitem determinar se essa característica corresponde necessariamente a um descanso insuficiente.
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