❌

Reading view

Fuga de Flávio abre caminho para bolsonarismo abraçar políticos para além do sobrenome

A derrota de Flávio Bolsonaro (PL) para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais e sua fuga para os Estados Unidos abriram uma disputa pela liderança da extrema direita brasileira que pode resultar em um bolsonarismo cada vez menos dependente dos membros da família do ex-presidente.

Para três pesquisadores que estudam a extrema direita, ouvidos pela Agência Pública, o episódio pode representar o início de uma mudança mais profunda: a separação entre o capital político acumulado pelo bolsonarismo na última década e a família que deu nome ao movimento. A crise dos herdeiros de Jair Bolsonaro, entretanto, não significa necessariamente uma perda de influência da extrema direita, que poderá manter sua agenda política, sua capacidade de mobilização e sua atuação nas instituições mesmo sob novas lideranças.

Michelle Bolsonaro, o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) estão entre os nomes citados pelos acadêmicos que podem ganhar espaço na reorganização do movimento, que perdeu a disputa pelo Palácio do Planalto, mas ampliou sua presença no Congresso Nacional.

“Acho que todo mundo, de uma certa forma, respira aliviado com a fuga do Flávio. Porque isso significa que há espaço dentro do bolsonarismo para além da família Bolsonaro”, afirma a antropóloga Isabela Kalil, pesquisadora especializada na extrema direita brasileira. Segundo ela, o senador não dispõe de capital político próprio suficiente para exercer, a partir do exterior, a liderança que seu pai construiu no país.

Pesquisadora da extrema direita no Brasil, Isabela Kalil enxergar espaço no bolsonarismo sem os Bolsonaros

A avaliação é compartilhada pelo filósofo Rodrigo Nunes, professor da PUC-Rio e professor visitante da University of Essex, no Reino Unido. Para ele, a disputa pela sucessão já alcança o interior da própria família. “Parece que a briga pela sucessão está se abrindo dentro da própria família Bolsonaro, porque todo mundo percebe que o grande nome dentro da família agora é claramente a Michelle.”

A historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), aponta uma transformação ainda mais ampla. “Talvez a gente veja a morte do bolsonarismo como identidade, mas uma manutenção dele como estratégia”, afirma. Na avaliação da pesquisadora, o movimento pode abandonar gradualmente a dependência da figura de Jair Bolsonaro sem abrir mão das práticas políticas, eleitorais e de mobilização desenvolvidas nos últimos dez anos.

A reorganização foi necessária após a vitória do presidente Lula no segundo turno, com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. O senador recebeu quase 60 milhões de votos, mas deixou o país dois dias depois, apesar de uma determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, para que entregasse seus passaportes à Polícia Federal.

Flávio chegou a Miami na quarta-feira (28), acompanhado da mulher e das duas filhas, após passar pela Argentina onde pegou um vôo particular com escala no Equador. Já nos Estados Unidos, divulgou uma carta em que se apresentou inicialmente como o verdadeiro presidente do Brasil, apesar da derrota nas urnas. Posteriormente, alterou o documento para se autodeclarar líder do país, mantendo acusações de fraude eleitoral sem apresentar provas.

Entre aliados, as decisões de Flávio provocaram reações que evidenciaram o seu isolamento. desde Tarcísio de Freitas defendeu o reconhecimento do resultado das urnas, enquanto Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha presidencial do PL, afirmou que não havia elementos para sustentar as acusações de fraude. O distanciamento reforça as dificuldades de Flávio para se apresentar como líder da oposição a partir do exterior.

Michelle e Tarcísio despontam na disputa pela sucessão

Como senadora, Michelle Bolsonaro pode consolidar a sua liderança no bolsonarismo

Lideranças do campo conversador não demoraram a enxergar o espaço construído pela fuga de Flávio Bolsonaro. Para os pesquisadores, Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas são os nomes com maior destaque nessa reorganização até o momento, embora a disputa também envolva políticos mais jovens e movimentos que não se identificam integralmente com o bolsonarismo.

Rodrigo Nunes considera improvável que os filhos 01 e 03 de Jair Bolsonaro, dos Estados Unidos, consigam manter Flávio como sucessor político do pai. O filósofo observa que o enfraquecimento de ambos pode atingir também o poder de influência de Jair Bolsonaro, caso o ex-presidente deixe de exercer um papel decisivo na escolha de quem comandará o movimento. “Cada vez mais me pergunto se o Jair ainda é um personagem relevante nessa história”, afirma Nunes.

Na avaliação do professor, Michelle e Tarcísio surgem como os dois principais nomes da sucessão. A ex-primeira-dama, eleita senadora pelo Distrito Federal, mantém vínculos com a base conservadora e religiosa que apoiou o marido, mas também construiu uma trajetória política própria, inclusive em meio a divergências com os enteados.

Tatiana Vargas-Maia chama atenção para a atuação de Michelle à frente do PL Mulher e para sua capacidade de interlocução com setores evangélicos, como a Pública já mostrou. A pesquisadora considera que a ex-primeira-dama já vinha demonstrando independência em relação a Flávio e pode utilizar essa posição para ampliar sua influência no partido.

Tarcísio, por sua vez, chega à disputa fortalecido pela reeleição ao governo de São Paulo. Embora tenha mantido alinhamento com o bolsonarismo durante a campanha, o governador se distanciou da contestação eleitoral promovida por Flávio. Para Tatiana, essa diferença é politicamente relevante: Freitas pode reivindicar parte do eleitorado bolsonarista sem carregar o sobrenome da família.

Nikolas Ferreira, que mantém forte presença nas redes sociais e mobiliza um público mais jovem, é apontado pelos especialistas como uma liderança com potencial de crescimento. Tatiana acrescenta Renan Santos, ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL) e ao partido Missão, como representante de uma corrente da extrema direita que busca construir identidade própria, sem depender diretamente dos Bolsonaro.

A multiplicação de lideranças, entretanto, não garante unidade política. Kalil considera provável que o campo se fragmente em diferentes grupos da direita radical e da extrema direita, sem que uma única figura consiga reproduzir o papel exercido por Jair Bolsonaro.

Sobrenome Bolsonaro já não garante liderança

A antropóloga Isabela Kalil diferencia a capacidade de herdar votos da construção de uma liderança reconhecida pelos próprios apoiadores, no caso do senador derrotado nas eleições. “O capital que o Flávio conseguiu, e mesmo a votação bastante expressiva, foi por herdar o capital político do pai, e não por ter um capital político próprio”, afirma.

Kalil recupera pesquisas de campo realizadas no início do governo Jair Bolsonaro, quando o então presidente tentou indicar Eduardo Bolsonaro para a embaixada brasileira nos Estados Unidos. Na ocasião, a pesquisadora identificou desconfiança em relação aos filhos mesmo entre apoiadores fiéis do ex-presidente.

Segundo ela, havia eleitores que consideravam Jair Bolsonaro honesto e comprometido com uma agenda conservadora, mas não atribuíam as mesmas qualidades a Eduardo e Carlos Bolsonaro. Alguns questionavam a preparação dos filhos para o exercício de funções públicas.

Tatiana Vargas-Maia, da UFRGS, ressalta que o “patrimônio eleitoral” de Flávio estava muito ligado ao legado do pai e ao sobrenome

Para a antropóloga, essa diferença ajuda a explicar a dificuldade de Flávio em sustentar uma liderança autônoma. Jair Bolsonaro construiu uma relação carismática com sua base, enquanto o filho foi alçado à condição de candidato presidencial principalmente pela indicação do pai.

A pesquisadora avalia que o destino político de Flávio pode se aproximar do de Eduardo, que vive nos Estados Unidos e mantém interlocução com grupos conservadores e com a extrema direita norte-americana, mas tem dificuldades para exercer uma liderança significativa no Brasil.

As críticas aos filhos de Bolsonaro seguem vindo de apoiadores de primeira hora do pai. Em comentário a aliados obtido pelo jornal O Globo, o pastor Silas Malafaia, um dos principais líderes evangélicos do país, ao comentar o episódio da carta golpista, se refere a eles como “jumentos”. Esses filhos de Bolsonaro são uns jumentos. Só se aconselham com gente errada! Faz carta, fala bobagem, depois corrige“, afirmou, completando: “um bando de amadores babacas”.

Para a pesquisadora Tatiana Vargas-Maia, existe uma diferença fundamental entre reivindicar a condição de herdeiro de um patrimônio eleitoral e conseguir exercer liderança efetiva sobre o campo político que produziu esses votos. A saída do país, segundo a historiadora, acelerou a erosão de uma autoridade que Flávio havia conseguido construir ao longo da campanha.

Extrema direita mantém força no Congresso e pode mudar de estratégia

Apesar da derrota presidencial, a extrema direita chega ao próximo governo Lula com representação expressiva no Legislativo. O PL elegeu 121 deputados federais, tornando-se a maior bancada da Câmara a partir de 2027, além de ampliar sua presença no Senado. O resultado cria condições para que o movimento continue exercendo influência sobre a agenda nacional, independentemente de quem ocupe a Presidência da República.

Concentrar a análise apenas na derrota de Flávio é subestimar a presença da extrema direita nas instituições na avaliação de Tatiana Vargas-Maia. Ela ressalta que o movimento também possui representantes em governos estaduais, assembleias legislativas e administrações municipais. “A nossa extrema direita contemporânea, no Brasil principalmente, não precisa conquistar o Executivo Federal para exercer influência política e para avançar o seu projeto”, afirma.

Isabela Kalil considera possível que o bolsonarismo presente no Congresso se fortaleça em torno de uma agenda própria, menos subordinada às decisões da família Bolsonaro. Já Tatiana identifica um possível movimento de moderação na apresentação pública de determinadas lideranças, especialmente entre aquelas que reconheceram o resultado eleitoral e passaram a defender uma atuação institucional da oposição. “Uma reorganização da extrema-direita, que vai se tornar menos bolsonarista, talvez desenvolva uma maior capacidade de atuação e interlocução institucional, mas que não significa necessariamente que ela vai se tornar menos radical”, afirma.

A historiadora considera possível que lideranças nacionais adotem uma postura pública mais moderada, enquanto grupos políticos nos estados e municípios mantenham ou aprofundem pautas ideológicas mais radicalizadas.Nesse cenário, o bolsonarismo poderia deixar de funcionar como uma identidade política unificadora, mas conservar estratégias de ocupação institucional, articulação partidária, comunicação digital e mobilização eleitoral.

Rodrigo Nunes acrescenta outro elemento à reorganização da direita: o papel do Centrão. Segundo o filósofo, o avanço da extrema direita nas eleições legislativas reduziu o espaço ocupado por partidos tradicionais, mas a capacidade de mobilização demonstrada pelo PT no segundo turno pode alterar essa relação.

Na avaliação do professor, o Centrão pode voltar a ocupar uma posição de equilíbrio entre o governo Lula e a extrema direita, em vez de continuar perdendo protagonismo para os setores mais radicalizados. “Se o PT mantém essa capacidade de mobilização, isso tem condições de mudar o jogo”, afirma Nunes.

Rodrigo Nunes, autor do livro “Do Transe à Vertigem: Ensaios sobre Bolsonarismo e um Mundo em Transição”, destaca a importância das mobilizações sociais para equilibrar o jogo no Congresso Nacional

O fator Trump

A tentativa de Flávio Bolsonaro de estabelecer uma liderança política a partir dos Estados Unidos também depende das relações da família com Donald Trump e com organizações da direita internacional.

Para Isabela Kalil, Eduardo e Flávio apostam na proteção do presidente norte-americano, especialmente por meio de articulações com grupos conservadores ligados à Conferência de Ação Política Conservadora (CPAC). Essas conexões integram uma rede internacional que também aproxima lideranças, como o presidente de El Salvador, Nayib Bukele.

A antropóloga, entretanto, considera que Trump não teria dificuldades para retirar o apoio à família Bolsonaro caso essa aliança deixasse de atender aos seus interesses políticos ou diplomáticos.“O Trump não precisa da família Bolsonaro e a família Bolsonaro não acrescenta nada para o próprio projeto trumpista”, afirma.

Segundo ela, a relação dependerá também das negociações entre os governos brasileiro e norte-americano, especialmente diante dos interesses econômicos e diplomáticos envolvidos.

Rodrigo Nunes apresenta avaliação semelhante. Para o filósofo, um eventual afastamento de Trump, combinado à ausência de uma manifestação decisiva de Jair Bolsonaro em favor dos filhos, pode acelerar a perda de relevância política de Flávio e Eduardo. A situação abriria ainda mais espaço para a disputa entre Michelle Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e outras lideranças da direita.

Derrota nas urnas não encerra os riscos para a democracia

A reorganização da extrema direita também coloca em discussão os riscos de novas mobilizações contra as instituições democráticas, especialmente depois de Flávio Bolsonaro contestar o resultado eleitoral.

Isabela Kalil não descarta a possibilidade de ações extremistas isoladas, mas considera improvável, neste momento, uma mobilização semelhante à que culminou nos ataques de 8 de janeiro de 2023.

A antropóloga destaca que a mobilização anterior contou com tolerância e apoio de setores militares e que, desde então, as Forças Armadas têm procurado se afastar publicamente do bolsonarismo. Ela também avalia que os órgãos de segurança e inteligência brasileiros ampliaram sua capacidade de monitoramento de ameaças extremistas.

Tatiana Vargas-Maia, por outro lado, chama atenção para um risco político de longo prazo: a normalização de pautas autoritárias no debate público e nas instituições, mesmo sem uma ruptura democrática aberta.

A pesquisadora considera que a mobilização que levou à vitória de Lula no segundo turno demonstra a capacidade de reação democrática de setores da sociedade brasileira. Mas ressalta que a extrema direita permanece organizada, com representação eleitoral e capacidade de influenciar decisões políticas.

Para ela, o desafio não se encerra com a derrota de Flávio nem com o enfraquecimento dos herdeiros de Jair Bolsonaro. O movimento pode assumir outras identidades, construir novas lideranças e conservar parte de seu projeto político.

É o que Tatiana define como um possível processo de “despersonalização do bolsonarismo”: o afastamento progressivo da figura de Jair Bolsonaro e de sua família, sem o desaparecimento do capital político e ideológico construído em torno deles.

Assim, a disputa aberta pela fuga de Flávio pode determinar não apenas quem herdará os votos da família, mas de que maneira a extrema direita brasileira buscará exercer poder nos próximos anos.

  •  

‘Primavera Brasileira’: como ato de estudantes virou onda global contra extrema direita

Na noite de 4 de outubro, quando Flávio Bolsonaro (PL) terminou à frente de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no 1.º turno das eleições, a seguinte mensagem chegou num grupo de WhatsApp de alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF): “O momento pede ação”. Na noite seguinte, 5 de outubro, o Brasil assistiu ao primeiro ato dos jovens.

“Nós vimos a vitória do Flávio de uma forma muito acachapante. Ninguém estava esperando. Aquilo gerou um sentimento de descrença muito forte no campo progressista. Mas na Faculdade de Direito da UFF, pela nossa história, enxergamos de forma contrária: com esperança e com vontade de ir à luta”, diz Kayky Moraes, aluno do curso de direito da UFF que participou do primeiro levante.

Realizada em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro, a marcha dos estudantes saiu do prédio da Faculdade de Direito rumo à reitoria da universidade. As imagens tomaram as redes e iniciaram um efeito dominó que impulsionou mobilizações estudantis nos cinco cantos do país. “Ali a gente sentiu que dava para brigar.”

Neste momento manifestação contra Bolsonaro pelos estudantes nas ruas Niterói pic.twitter.com/7sqGGEq7TV

— Fã do Rei Pelé e da Rainha Marta 🇧🇷 🇵🇸 ✊🏾🚩 (@silvaS1963) October 5, 2026

O resultado desse “efeito borboleta” veio no dia 25 de outubro, três semanas depois. Um feito histórico: Lula virou o jogo e venceu as eleições por uma vantagem de 4,4 milhões de votos, algo que nenhum candidato a presidente que terminou como segundo colocado no 1º turno havia conseguido fazer antes. Os eleitores de Lula e os estrategistas de campanha do PT tiveram apenas três semanas para mudar a rota. “Essa foi a campanha menos organizada que participei desde 1989”, chegou a dizer o presidente Lula em uma reunião com parlamentares em Brasília.

“Os jovens tomaram as ruas de forma orgânica e organizada para defender um projeto de país, mas também um projeto de ser humano. Quando Lula disse aquela frase para a gente ser ele amanhã, porque ele já foi a gente ontem e para a juventude botar a cara a tapa, acho que é isso mesmo”, diz Kayky, em referência a um trecho da entrevista de Lula para o podcast Flow. “Estamos fadados a viver o futuro e a gente tem que construir o futuro que a gente quer.”

A “primavera brasileira”, como começou a ser apelidada a vitória eleitoral frente à extrema direita, também pode ser vista por como uma posição do Brasil como símbolo de resistência aos interesses dos Estados Unidos, defende Mayra Goulart, doutora em ciência política pela UERJ.

“O Brasil será um pólo da resistência à relação imperial que os Estados Unidos tentam restabelecer. Na última assembleia geral da ONU, Lula disse que o Brasil não iria ser o quintal de ninguém. O presidente Lula recupera a tradição de não alinhamento automático da diplomacia brasileira a potências estrangeiras e a adoção de um caminho próprio e soberanista. Isso é entendido muitas vezes como um caminho que vem a liderar outros países periféricos”, diz.

A “Primavera Brasileira” vista do exterior

No México e na Espanha, a virada eleitoral brasileira foi recebida não apenas com alívio geopolítico, mas como um estudo de caso sobre como conter a ascensão da extrema direita.

Para Homero Galán, cientista político e professor da Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), a manutenção do governo progressista no Brasil evita o isolamento regional no continente. “Brasil e México representam 55% da população da América Latina e 60% da economia da região. O resultado no Brasil foi vital para o governo mexicano, pois evita o isolamento diante da onda de vitórias da direita na região nos últimos meses”, analisa Campa, destacando que a comunicação entre a presidenta mexicana Claudia Sheinbaum e Lula é direta e estratégica.

O impacto também ressoa na Europa. “Se o Brasil conseguiu, a Espanha também consegue”, disse o primeiro-ministro da Espanha Pedro Sánchez, em um comício em Gijón, na região de Astúrias, realizado na segunda-feira, 26 de outubro. “Vamos fazer o mesmo que Lula fez no Brasil. O mundo está olhando para nós”, completou.

Com eleições gerais agendadas para o próximo mês na Espanha, onde as pesquisas têm indicado a predileção do eleitorado à direita, o desfecho brasileiro renovou o ânimo das forças de esquerda. “Certamente, no México e na Espanha, percebe-se um enorme interesse no modelo de mobilização social promovido por meio das redes sociais, coordenado pelo deputado André Janones. Entende-se que a estratégia de comunicação digital foi um fator fundamental no resultado”, diz o professor da UNAM.

A Agência Pública identificou que ao menos três grupos de WhatsApp internacionais reproduzem as táticas de engajamento de Janones para mobilizar apoiadores. É do caso do “Frenteamplistas” (37 mil seguidores), da Espanha, “L’équipe de Mélenchon” (152 mil seguidores), da França, e do “Ejército del Peronismo” (61 mil seguidores), da Argentina.

Canais de Whatsapp internacionais reproduzem estratégia digital de André Janones

“A mobilização nas redes sociais é uma tendência global. O Brasil adere a isso de uma maneira muito acelerada e acredito que essa tendência seja muito similar em outros países. Ao mesmo tempo, isso não desconsidera a importância dos atores tradicionais, como o movimento estudantil e sindicatos, que foram acionados a partir das redes, mas permitiram um engajamento muito grande no mundo real. Se é que podemos dizer em uma fórmula, ela deve ser buscada na sinergia entre o mundo físico e as redes sociais”, pontua Goulart.

Ainda nesta semana, viralizou um vídeo compartilhado por Ada Colau, ex-prefeita de Barcelona e candidata à presidência da Espanha pela Frente Ampla, no qual ela pede para que os apoiadores ergam as mãos em “L” — um aceno ao presidente brasileiro. “Vamos todos levantar o braço com o ‘L’ de Lula”, disse ela, durante ato no município de Móstoles na quarta-feira (28).

“Eu me lembro desse momento. O gesto de Acolau foi bastante simbólico e foi num dia próximo ao da notícia da vitória de Lula. Acho que foi uma surpresa para todo mundo. Acho que a maioria das pessoas dava como certo que a probabilidade do filho do [Jair] Bolsonaro ganhar era muito alta. O gesto reafirma a vitória de Lula e diz que nós, por aqui, também temos plena capacidade de fazer o mesmo”, conta Euge, 22, morador da cidade de Madrid que esteve no comício organizado pela Frente Ampla.

“Acredito que Lula tem sido um vislumbre de esperança para as pessoas de esquerda e para os trabalhadores da Espanha e do mundo todo. Estamos vivendo um momento em que temos governos de extrema direita como nunca antes. Lula conseguiu vencer com a maioria das pesquisas dizendo o contrário. A mensagem que chegou aqui na Espanha foi de que, ainda que pareça que tudo está contra, é possível vencer. Se conseguirmos mobilizar todas as pessoas progressistas, nós venceremos”, continua ele.

Também fizeram o “L” de Lula, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, o senador do México Gerardo Fernández e parlamentares do Congresso Nacional do Chile. Já utilizado como chacota, especialmente entre bolsonaristas, o “L” agora ganha espaço no cenário político mundial como símbolo da mobilização contra o avanço da direita.

“O Brasil desponta como liderança da resistência à extrema direita em termos globais. A extrema direita é globalizada, sistêmica e se reúne em fóruns, como a CPAC [Conservative Political Action Conference]. A esquerda começa a se articular e essa articulação pode ter como centro a liderança do presidente Lula”, diz Goulart.

Nascido na cidade de Getafe, ao sul da região de Madri, Euge se interessou por política ainda na adolescência. Em 2019, aos 15 anos, decidiu participar do Más Madrid, um partido de esquerda com atuação a nível municipal em Madri. Para Euge, a participação de jovens na política é importante, mas não se distingue do papel das outras faixas etárias. “Sempre falam aos jovens: ‘vocês são o futuro!’ Bom, não é que a gente seja o futuro, somos o presente de um país. Temos que estar em igualdade tanto de reconhecimento quanto de possibilidade de participar da vida pública e da vida política. As decisões que os governos tomam nos afetam da mesma forma, e muitas delas ainda mais do que ao resto das pessoas.”

Sobre o recado que deseja que as próximas eleições da Espanha passem ao mundo, Euge diz esperar que seja o mesmo que o do Brasil: “Uma mensagem de que não baixamos os braços, que demos de tudo e conseguimos mobilizar a população com temas essenciais para sua vida, como moradia, pensão e serviços públicos.”

A mobilização da juventude

Além do protesto organizado pelos estudantes da UFF logo após o resultado do primeiro turno, outra engrenagem importante passou a se movimentar: os fandoms (comunidade de fãs) brasileiros. Longe de se restringirem ao entretenimento, esses grupos já vinham consolidando uma ponte direta com a política institucional.

No final de agosto deste ano, o Palácio do Planalto recebeu representantes desses grupos em uma cerimônia oficial, na qual o presidente Lula assinou um decreto com novas regras para a venda de ingressos de shows e eventos culturais no país. A medida, voltada ao combate do cambismo digital e à falta de transparência nas plataformas, foi fruto das demandas levadas pelos próprios fãs ao governo federal.

E esse pode ter sido um grande efeito borboleta da campanha: a mesma capacidade de mobilização que esses jovens utilizam para apoiar seus ídolos foi redirecionada no momento mais decisivo da disputa eleitoral, sendo uma das principais apostas da chapa Lula-Alckmin para furar bolhas e alcançar a virada. Para o leitor que ainda busca entender como esse movimento funciona, os fandoms são comunidades hiperconectadas e altamente disciplinadas, capazes de organizar mutirões de votação e subir hashtags mundiais.

Assim, as páginas passaram a publicar conteúdos de conscientização política, convocando mutirões de engajamento, dialogando com seguidores indecisos e pedindo o posicionamento de artistas sobre a defesa da democracia no Brasil.

A relevância do movimento foi tamanha que o candidato à reeleição abriu sua fala reconhecendo a força dessa articulação num dos discursos proferidos na Avenida Paulista após o 1º turno.

“Eu não sei se eu começo a minha fala dizendo ‘companheiros e companheiras’ ou se eu começo dizendo: fandoms do Brasil, obrigado pela iniciativa de vocês!”

O presidente Lula agradecendo à juventude organizada em fandoms por puxar o ato de hoje na Paulista 💗#FandomsComLula pic.twitter.com/dWPL8ISHS6

— ERIKA HILTON (@ErikakHilton) October 11, 2026

Janonismo cultural e a urgência de regulamentação das Big Techs

Ao longo desta primeira semana pós 2º turno, o livro Janonismo Cultural: O uso das redes sociais e a batalha pela democracia no Brasil, de André Janones, figurou entre os 10 títulos mais vendidos da Amazon no nicho de Política e Ciências Sociais. Exitoso ao encabeçar a estratégia digital de Lula, Janones foi destacado no primeiro discurso do presidente reeleito.

Apesar do otimismo com a capacidade da sociedade brasileira de reverter os algoritmos, Campa faz um alerta sobre a vulnerabilidade desse modelo: “a falta de regulamentação das grandes empresas de tecnologia constitui um perigo para a vida pública no mundo inteiro. O que ocorreu no Brasil foi muito positivo: uma reação social massiva e bem organizada para reverter o algoritmo. No entanto, receio que essas empresas estejam tomando nota do que aconteceu no Brasil para introduzir controles maiores e evitar que se repita”, pontua Homero Galán.

A Pública mostrou em reportagens como a moderação da Meta atingiu de forma desproporcional as candidaturas, beneficiando em vários casos a de Flávio em detrimento da de Lula.

Nesse cenário, a regulamentação das plataformas surge como uma demanda democrática, observa Goulart. “No discurso de vitória, Lula disse que um dos objetivos do governo seria regulamentar as plataformas para que elas aumentem a isonomia das entregas entre diferentes grupos. É importantíssimo que isso seja feito. Caso contrário, a valorização desproporcional dos conteúdos da extrema direita quando comparados com outros conteúdos irá continuar, principalmente com o sistema de recomendação e hierarquização do feed.”

Para o analista mexicano, a esquerda global precisará acelerar sua adaptação aos novos modelos de comunicação, ao mesmo tempo em que pressiona por regras claras contra a interferência de grandes corporações de tecnologia nas democracias. “A mensagem que fica do Brasil é de otimismo e confiança na sociedade diante dos grandes grupos tecnológicos e da ultradireita. O Brasil demonstrou uma liderança inegável para todo o Sul Global” conclui.

Na visão de Kayky, da UFF, a mobilização não se encerra com o resultado das urnas. “Acho que daqui nasce a esperança de um futuro melhor. O recado de um levante que começou aqui em Niterói está se espalhando pelo mundo. Dá para ver o jardim da primavera florescendo pelo mundo todo. Mas é sempre importante manter a vigilância e continuar nas ruas para defender essa visão de mundo.”

  •  

É o momento de aprofundar a democracia e agir pelo país que queremos

Quer receber os textos desta coluna em primeira mão no seu e-mail? Assine a Newsletter da Pública, enviada sempre às sextas-feiras, 8h. Para receber as próximas edições, inscreva-se aqui.

Não sei se todos vocês sabem, mas a Pública tem um podcast sobre a emergência climática que chama “Bom Dia, Fim do Mundo”. Somos três em volta da mesa — o escritor Ricardo Terto, a jornalista Isabel Seta e eu — dirigidos por Sofia Amaral, nossa coordenadora de audiovisual, e com uma coluna em áudio de uma economista do NoVe — Novas Vozes Econômicas, um grupo que busca abrir e qualificar o debate sobre o tema na imprensa.

Conversamos durante 30 minutos, todas as semanas, com realismo e bom humor, sobre os fatos relevantes para o futuro do país e do mundo, em momento em que a própria existência da humanidade depende da possibilidade de criar uma nova maneira de viver. Como disse o sociólogo Miguel Lago na Piauí: “o clima tornou-se a condição a partir da qual todas as demais questões devem ser pensadas”.

Por isso a gravação do último episódio foi tão emocionante. Depois de alertas e denúncias durante toda a campanha, celebramos a democracia, o diálogo, o debate e o engajamento público que decolaram na reta final da campanha e afastaram a extrema direita do poder. Comemoramos o resgate de nossa identidade e soberania, ameaçadas por gente que ostenta a bandeira — e o míssil — dos Estados Unidos e de Israel em manifestação de rua.

Não há como engajar os governos e as sociedades para cumprir uma tarefa global, a luta pela emergência climática, sem respeito à autodeterminação dos povos e à soberania das nações, sem espaço para o diálogo e o debate, atravancados pela guerra, pela miséria, por governos autoritários, e atravessados por pensamentos mórbidos de quem considera o fim do mundo inevitável (o que está por trás do negacionismo propositalmente fomentado por aqueles que pensam estar acima do sofrimento global).

Por isso, o mundo comemorou a vitória brasileira contra a extrema direita, forjada por gente que aprendeu a força que detém valores como a vida, a liberdade, a fraternidade, a luta para que todos vivam melhor. Sem ingenuidade, mas com sinceridade, fé no diálogo, e na capacidade de persuasão ancorada em fatos e inspirada por afetos.

Das redes às ruas, as lições do Exército de Lula são agora armas para resistir, junto com o governo democraticamente eleito pelo povo de um país soberano, mas também para ir além, exigindo transparência e urgência em ações e decisões e cobrando a abertura de canais para a participação política. Não há como imaginar possibilidades e agir na direção da mudança, sem entender o significado, a forma e a intensidade que tomou a mobilização eleitoral que levou à vitória da democracia em condições inéditas.

A imagem de Lula com a Constituição de 1988 nas mãos, cercado da multidão com o verde-amarelo da nação e o vermelho da resistência, é para mim um símbolo dessas eleições, e um guia para a construção coletiva desse futuro. Começando pelo presente, com ações eficazes para cumprir o que está determinado na Constituição Cidadã, o que tem sido tarefa sobretudo de organizações e movimentos sociais, indígenas, negros, pessoas trans e mulheres que frequentemente são alvo da violação de direitos fundamentais.

O “povo da luta” pode contar agora também com a mobilização de todos que se aliaram pela democracia, pela soberania e pela defesa das conquistas sociais nas eleições e forçar a implementação dos princípios e garantias determinados pela Constituição, incluindo o direito à informação e à participação política, para construir um futuro mais justo e inovador.

Neste episódio do Bom Dia, Fim do Mundo, em que também falamos dos desafios internos e externos que temos pela frente, lembramos de um artigo da Constituição, pouco utilizado, que traz grandes possibilidades para os que desejam uma nova forma de governar, como disse o presidente Lula no discurso da vitória.

“A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos, e, nos termos da lei, mediante: I- plebiscito, II – referendo; III – iniciativa popular”, enuncia o artigo 14. Até hoje tivemos um único plebiscito (em 1993, para decidir sobre sistema e forma de governo) e um referendo (em 2005, para decidir se a comercialização de armas continuaria a ser permitida).

O terceiro instrumento, a iniciativa popular, é ainda menos lembrado, embora crucial para o aprofundamento da democracia. Ele permite a proposição direta feita pelo cidadão de um projeto de lei ao Congresso, desde que subscrito por 1% do eleitorado, o que favorece a mobilização da sociedade perante o parlamento, assim como outros instrumentos permitem a representação popular na Justiça. Foi assim que foi criada a Lei da Ficha Limpa, em 2010, com a assinatura de 1,6 milhão de eleitores.

Imagine as possibilidades que temos pela frente para utilizar esses mecanismos da democracia direta com todas as lições que aprendemos nessa campanha que uniu sociedade e imprensa independente para qualificar o debate público. Também é a oportunidade de renovar instrumentos como os conselhos populares, as audiências públicas e intervenções de movimentos sociais junto ao STF para cobrar a aplicação das leis, o que é especialmente importante para manter o Senado dentro do campo delimitado por elas.

Com a Constituição nas mãos e as informações na cabeça, podemos ampliar as vozes e a intensidade da participação política no governo nestes quatro anos decisivos para o planeta e para o futuro da democracia. O ano-marco de 2030, que vai definir se conseguimos ou não conter o aquecimento global a 1,5 grau, está logo ali e “a gente combinamos de não morrer”, lembram? O jornalismo independente está à disposição da sociedade.

PS. Estarei em férias pós-eleitorais na próxima semana, volto a encontrá-los no dia 13 de novembro.

  •  

Colômbia e o recrutamento de combatentes para guerras estrangeiras

O envio de cidadãos colombianos para conflitos no exterior expõe a vulnerabilidade de antigos militares, a atuação de redes de recrutamento e a incapacidade das autoridades de oferecer respostas adequadas às famílias dos desaparecidos.

Únete a nosotros en Telegram , X y VK .

Escríbenos: info@strategic-culture.su

A participação de colombianos na guerra entre Rússia e Ucrânia vem despertando crescente preocupação na sociedade do país. Reportagens da imprensa sul-americana relatam casos de homens que viajaram ao exterior após receberem propostas de trabalho, treinamento ou serviço militar. Em diversas situações, familiares afirmam que seus parentes desconheciam as condições reais do recrutamento ou perderam contato com eles pouco depois da chegada à zona de conflito.

O jornalista investigativo venezuelano David Fonseca se dedica à investigação desse fenômeno. Ele revela que o recrutamento de ibero-americanos para guerras estrangeiras envolve questões que ultrapassam a segurança individual dos combatentes: inclui a atuação de intermediários, a transparência dos contratos, a possível exploração de pessoas em situação vulnerável e a responsabilidade dos governos perante seus cidadãos. A documentação desse processo é fundamental para compreender quem organiza o recrutamento, quais promessas são oferecidas e como os interessados acabam incorporados às estruturas militares.

A Colômbia reúne condições particulares para a expansão desse mercado. Décadas de conflito armado produziram uma população numerosa de ex-militares, ex-policiais e veteranos familiarizados com o uso de armas e com operações de combate. Muitos possuem experiência profissional relevante, mas enfrentam dificuldades para encontrar emprego estável depois de deixar as instituições de segurança. Para aqueles que vivem em regiões economicamente desfavorecidas, uma oferta de remuneração elevada no exterior pode representar uma oportunidade difícil de recusar.

As redes de recrutamento exploram essas circunstâncias por meio de diferentes canais. Anúncios nas redes sociais, contatos pessoais e intermediários especializados podem apresentar o serviço como uma atividade de segurança privada, treinamento ou proteção de instalações. Em alguns casos, surgem denúncias de que as condições efetivas de trabalho foram ocultadas, que os contratos não foram devidamente explicados ou que os recrutados descobriram a natureza militar de suas obrigações somente depois de chegar ao destino. A atuação de intermediários e as denúncias de irregularidades tornam indispensável investigar cada caso individualmente.

As famílias enfrentam as consequências mais dolorosas dessa situação. Quando um combatente deixa de responder às mensagens, seus parentes passam a procurar informações junto às autoridades colombianas, às representações diplomáticas e às instituições dos países envolvidos. Fotografias são compartilhadas nas redes sociais, grupos de familiares são organizados e campanhas públicas tentam localizar desaparecidos. A ausência de informações verificáveis prolonga o sofrimento e dificulta decisões sobre assistência jurídica, repatriação e reconhecimento de mortes.

O problema também divide a opinião pública colombiana. Setores da esquerda e movimentos antimilitaristas denunciam a participação de cidadãos em guerras que consideram alheias aos interesses nacionais. Outros defendem a liberdade individual de quem decide servir no exterior. As famílias, por sua vez, concentram suas reivindicações na localização dos desaparecidos e na responsabilização de eventuais recrutadores fraudulentos. Organizações de defesa dos direitos humanos chamam a atenção para a possibilidade de tráfico de pessoas e exploração laboral quando o consentimento é obtido por meio de fraude ou de informações deliberadamente omitidas.

A dimensão internacional do fenômeno exige ainda maior cooperação entre os países envolvidos. A circulação de recrutadores, contratos e pagamentos por diferentes jurisdições dificulta a fiscalização e favorece a impunidade quando não há troca de informações entre as autoridades. A Colômbia precisa, portanto, combinar medidas preventivas internas com mecanismos de investigação e cooperação diplomática. E a única forma de fazer isso é buscando diálogo com os países interessados em bloquear o acesso de mercenários colombianos ao mercado da guerra privada – como a Rússia, que diariamente enfrenta colombianos no campo de batalha ucraniano.

O recrutamento de colombianos para guerras estrangeiras expõe tanto a vulnerabilidade dos combatentes quanto a incapacidade das autoridades de acompanhar adequadamente esse fenômeno. Enquanto redes de recrutamento continuarem a explorar a falta de oportunidades econômicas e a promessa de ganhos elevados, novos cidadãos estarão sujeitos à exploração, ao desaparecimento e à morte em conflitos dos quais pouco conhecem as consequências. Cabe ao Estado colombiano investigar essas redes, esclarecer o destino dos combatentes e prestar assistência às famílias afetadas. No longo prazo, porém, o combate ao mercenarismo também exige enfrentar as condições sociais e econômicas que levam tantos colombianos a enxergar a guerra no exterior como uma alternativa de sustento.

  •  

‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

O relógio se aproxima das onze da manhã quando Alcione senta na poltrona da sala de acolhimento. A mulher, cujo nome homenageia a sambista, está lá para contar sua história que, nos últimos anos, tem sido marcada por ciclos de violência e resistência. Um tormento que se agrava quando o ex-marido, em recusa ao fim do casamento, a ameaça de morte. Uma mulher que reflete milhares de outras Brasil afora, presas a uma espiral de violência enquanto lutam pelo direito de seguirem vivas.

A poucos metros dali, as ondas quebram ao chegarem na faixa de areia, vazia devido à baixa temporada. Estamos em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, o município brasileiro com mais de 100 mil habitantes que possui a maior taxa de mulheres atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) devido à violência física. A taxa média dos últimos dez anos é de 312 casos por 100 mil habitantes, o triplo do estado de São Paulo, segundo levantamento feito pela Agência Pública a partir de dados do DataSUS de 2016 a 2025.

Além de estar no topo do ranking das cidades com a maior taxa de violência física, Caraguatatuba também é o município paulista com mais de 50 mil habitantes com a maior taxa de tentativa de feminicídio: foram 24 entre 2021 e 2025, quase cinco por ano, segundo dados do Ministério da Justiça. Apesar disso, os feminicídios estão abaixo da média: foram seis no mesmo período. Um indício de que a cidade pode estar conseguindo acolher mulheres vítimas de violência, impedindo que cheguem a ser assassinadas.

“A institucionalidade na prevenção à violência contra as mulheres previne mortes. Quanto mais equipamentos você tem, menor a chance  do agravamento dessa violência intrafamiliar, que é o feminicídio”, analisa a demógrafa Jackeline Ferreira Romio, que pesquisou o cenário do feminicídio no Brasil a partir de dados do sistema de saúde.

Apesar de evitar mortes, os equipamentos públicos não têm sido eficientes na prevenção inicial da violência, atuando de forma reativa, quando a mulher já corre risco grave. Medidas protetivas seguem sendo negadas e, quando concedidas, violadas. Mesmo equipada com aparelhos públicos voltados para a proteção das mulheres que vão desde Conselhos, delegacia especializada, centros de acolhimento e aplicativos de denúncia, Caraguatatuba ainda não viu os números de agressões e tentativas de feminicídio caírem. Falta algo.

Alcione relata que o comportamento controlador do marido se agravou no segundo ano de casamento. Àquela altura, João*, retomou um antigo vício em álcool e outras drogas e, desempregado, começou a vender os móveis da casa para sustentar a dependência. Quando o marido quis vender a bicicleta que haviam comprado juntos, ela pediu para que ele saísse da casa, que era dela.

Ele saiu, mas pouco tempo depois, apareceu no portão de Alcione. Chorando, disse que estava dormindo na rua e pediu ajuda para se alimentar. Com pena, ela permitiu que ele entrasse, ofereceu banho e comida. O clima amigável mudou quando ela se recusou a reatar o relacionamento.

“Ele me aferiu um tapa na cara, um tapa muito forte. Eu fui até a cozinha chorando, ele foi me acompanhando e disse ‘Não chora, porque esse tapa não doeu. Vai doer agora, porque eu vou pegar uma faca e te matar’”.

A mulher correu até a casa da frente, onde mora sua mãe, e pediu ajuda aos familiares presentes. João conseguiu fugir. No dia seguinte, Alcione buscou atendimento na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Caraguatatuba. Mesmo sendo uma unidade especializada em violência contra mulheres, sentiu-se desrespeitada: foi atendida por uma funcionária da prefeitura que não demonstrou preparo em acolhê-la.

“Uma pessoa grossa. Fazia perguntas como se eu fosse a culpada. Saí de lá humilhada. Tive vontade de desistir.” Após a mobilização de Alcione e outras vítimas, a funcionária foi retirada da delegacia e uma assistente social a substituiu.

Alcione foi ameaçada de morte pelo ex-marido, mas conseguiu sair do ciclo de dor e violência.

Para Márcia Coelho, presidente do Conselho da Mulher de Caraguatatuba (CMDMC), as mudanças recentes na Delegacia de Defesa da Mulher melhoraram o acolhimento, mas ainda há dinâmicas sistêmicas que prejudicam a experiência de quem busca atendimento: “O sistema do Estado é horrível. É uma coisa fria. Na sala de espera há um balcão com vidro e você tem que falar ali na frente de todo mundo”, explica.

As caraguatatubenses que sofrem qualquer tipo de violência de gênero durante os finais de semana ou feriados precisam aguardar até o próximo dia útil para que possam buscar atendimento especializado. Isso porque a Delegacia de Defesa da Mulher do município, assim como 75,8% das DDMs do país, atende apenas de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h. A alternativa oferecida pelo Governo do Estado é uma Sala DDM 24h, que opera dentro de uma delegacia comum. O problema é que as agressões são mais frequentes quando o homem está em casa – à noite ou no final de semana.

Segundo a vereadora Cássia Gonçalves de Jesus (PT), a experiência nessas salas pode agravar o estado emocional da mulher, pois “o acolhimento é feito pelo mesmo delegado, o mesmo plantonista. Não são pessoas especializadas. Escutamos muitos relatos de mulheres que sofreram outra violência durante o atendimento”, explica.

Crime crescente no Brasil e em São Paulo

No estado, houve um aumento de 22,2% nos casos de feminicídio entre 2023 e 2025 (saindo de 221 mortes de mulheres para 270) – um aumento três vezes maior do que a média nacional (de 6,3% no período).

Em sua campanha eleitoral, o governador Tarcísio de Freitas, reeleito com 62,6% dos votos, trouxe a segurança da mulher como um de seus focos. Ele promete o “fortalecimento da rede”, aumentar em três vezes o número de Delegacias de Defesa da Mulher 24 horas, a expansão do aplicativo SP Mulher Segura e a continuidade da Patrulha SP Mulher Segura.

As promessas de campanha, no entanto, não condizem com o que foi feito nos primeiros quatro anos de governo. Tarcísio deixou de destinar R$ 35,7 milhões entre 2023 e 2025 para as Delegacias de Defesa da Mulher e para a Secretaria de Política para as Mulheres, segundo dados compilados pela Agência Pública.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deixou de destinar R$ 35,7 milhões entre 2023 e 2025 para programas de proteção às mulheres.

“No ano passado, por exemplo, menos de 30% do recurso destinado ao enfrentamento da violência contra a mulher foi aplicado no estado. Ou seja, mais de 70% do que estava disponível não foi investido”, critica a vereadora.

Cássia explica que parte do alto índice de agressão à mulher em Caraguatatuba tem relação com o fato de a cidade ser muito desigual e violenta. O município também lidera o ranking da maior taxa de mortes violentas do estado, concentrando 17,6 mortes a cada 100 mil habitantes, conforme dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os altos índices refletem as fragilidades estruturais e a desigualdade socioeconômica do município, acentuadas pela escassez de investimentos estatais e por um déficit histórico de políticas habitacionais e de infraestrutura pública, como analisa a vereadora.

“Se você pegar o mapa da violência em Caraguatatuba, vai ver que ela se concentra na região sul, onde vive mais de 50% da população, majoritariamente a classe trabalhadora. É a área onde os equipamentos públicos são mais ausentes e onde falta o braço do Estado para garantir direitos básicos, como moradia. Isso também impacta a violência – que recai sobre as mulheres.”

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP) afirma que, assim como a Delegacia da Mulher, a Sala DDM permite registrar ocorrências, solicitar medidas protetivas e receber orientações, prezando por um atendimento em ambiente reservado, com sigilo e escuta qualificada. A instituição destaca o aumento das prisões em flagrante por violência doméstica e o crescimento dos investimentos em políticas para mulheres, mas não comenta porque quase R$ 36 milhões deixaram de ser investidos nos últimos quatro anos.

Em nota, a prefeitura de Caraguatatuba diz que o município segue os fluxos oficiais de notificação e conta com uma rede de proteção que integra serviços de assistência social, saúde e segurança pública, entre outros. Sobre a profissional mencionada por Alcione, informa que ela deixou de integrar a equipe da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) em julho de 2026. Por fim, reconhece que a existência de serviços não é suficiente para eliminar a violência e afirma que busca aprimorar os fluxos de atendimento, a integração entre os serviços e as ações de prevenção e proteção às mulheres.

Violência patrimonial

Na contramão da declaração de Cássia, Marília* teve uma experiência positiva quando buscou a delegacia de polícia do município para denunciar uma ameaça de feminicídio de seu marido.

Ainda jovem, se apaixonou por um homem mais velho vindo de uma família rica. Como prova de seu amor, na hora de assinarem os documentos oficializando o casamento, concordou com uma união com separação total de bens. O que ela viria a descobrir depois é que, junto da união, havia assinado também um acordo que eximia o parceiro de arcar com qualquer tipo de gasto relacionado a ela, nem mesmo gastos para alimentação.

Não demorou para se ver presa em um casamento pautado pelo dinheiro. Ao longo dos anos, dividida entre cuidar do filho e reformar os imóveis do marido sem qualquer remuneração, definhou em uma espiral depressiva. A situação se arrastou até o início do segundo semestre de 2026, quando ele se recusou a pagar um tratamento psicológico para Marília.

Para ajudá-la, o filho do casal, um adolescente de 17 anos, se prontificou a ir até o pai e convencê-lo a mudar de ideia. Depois desse encontro, Marília estranhou a insistência do menino para que a mãe não voltasse para casa. Inquieta, questionou o porquê até que o jovem falasse a verdade.

“Ele foi pra cima do meu filho, falando que, quando eu chegasse, ele daria uma facada em mim. Assim que ouvi aquilo decidi fazer o B.O [boletim de ocorrência]. Não tenho família para pedir ajuda, queria só que, caso ele me matasse, a polícia soubesse quem foi”.

Uma cidade de contrastes: de um lado, lindas praias, de outro, recorde em violência contra a mulher

Na delegacia, mãe e filho foram encaminhados para atendimento psicológico e psiquiátrico, serviços que acessam até hoje. As consultas ajudaram Marília a entender que estava vivendo violência psicológica e patrimonial.

Contempladas pela Lei Maria da Penha desde sua criação em 2006, a violência psicológica e a patrimonial são reconhecidas como formas de violência doméstica. A violência psicológica caracteriza-se por condutas que causem dano emocional, diminuam a autoestima ou busquem controlar, limitar ou perturbar as ações, comportamentos, crenças e decisões da vítima. Atualmente, determinadas condutas dessa natureza podem configurar o crime autônomo de violência psicológica contra a mulher, previsto no o Código Penal, cuja pena é de reclusão de 6 meses a 2 anos e multa, salvo se o fato constituir crime mais grave.

Já a violência patrimonial consiste na retenção, subtração, destruição parcial ou total ou apropriação de bens, valores, documentos pessoais, instrumentos de trabalho, direitos ou recursos econômicos da mulher. Diferentemente da violência psicológica, não existe um único crime denominado “violência patrimonial”, de modo que a conduta praticada poderá configurar crimes diversos, como furto, apropriação indébita, dano ou estelionato. Ambas violências podem ser sofridas simultaneamente e, mesmo que a agressão física não ocorra, devem ser denunciadas.

‘O ideal seria o agressor sair imediatamente’

Além do amparo para a saúde mental, mãe e filho foram encaminhados para a Casa de Acolhimento Provisório. O espaço, criado em 2023, é destinado a mulheres em situação de violência sem risco iminente de morte, acompanhadas ou não de filhos menores de 18 anos. O acesso ocorre mediante encaminhamento da delegacia ou do CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e o tempo de permanência é de 15 dias podendo ser estendido por mais 15 dias. Dentro desse prazo, a vítima precisa encontrar uma nova casa.

Sônia Cordeiro, diretora da Divisão de Proteção Especial da Secretaria de Assistência Social de Caraguatatuba, conta que a moradia é o principal desafio no rompimento do ciclo da violência doméstica. “Elas vão para a casa de acolhimento porque o agressor continua no domicílio, mas não é uma residência permanente e muitas não possuem renda própria para irem para outro lugar. Hoje o Governo do estado oferece uma ajuda de R$ 500, mas é um valor baixo, não dá pra custear um aluguel”.

Jackeline esclarece que esses mecanismos são importantes, mas ainda se limitam a soluções primárias: “Não são o melhor para a mulher, mas é o melhor que podemos oferecer hoje. O ideal seria o agressor sair da casa imediatamente, deixando ela para a mulher e o filho. O Estado ainda oferece apenas o básico. É triste pensar que, para manter mulheres vivas, estamos ofertando apenas estratégias mínimas”.

Marilia e o filho voltaram a morar em uma das casas reformadas por ela. Sem renda, a mulher começou a trabalhar como motorista de aplicativo, mas ainda não ganha o suficiente para sustentar os dois.

“Muitas vezes eu saio desesperada pra trabalhar, pra comprar comida pro mesmo dia. O que mais me dói é ver meu filho vender os brinquedos que ele coleciona pra me ajudar a comprar nossas coisas. Ele podia continuar com o pai e ter tudo, mas preferiu ficar comigo comendo pão com mortadela”, diz, emocionada.

A medida que falha em proteger

Com o apoio das assistentes sociais, Marília foi até o Ministério Público solicitar uma medida protetiva de urgência. O promotor negou o pedido sob a alegação de que se ela não estava fisicamente machucada, não havia justificativa para a proteção.

“Eu falei pra ele: ‘Olha, eu preferia que o meu marido me espancasse e eu parasse num hospital, do que eu passar esses 20 anos de abuso psicológico, tomando vários remédios. Até suicídio eu tentei, porque não achava saída’. O que mata o ser humano é essa comparação. Como eu vou mensurar o tamanho da dor que cada mulher está sentindo?” Marília desabafa.

Manifestação em São Paulo em comemoração dos 20 anos da lei Maria da Penha.

A segunda solicitação foi aceita. Agora, ela e o filho possuem uma medida protetiva provisória que vigora até novembro deste ano. Desde que foi concedida, o marido mudou-se para outra cidade. Com medo do que pode acontecer caso a medida não seja renovada, Marília vai semanalmente à Defensoria Pública pedindo uma atualização, mas voltava para casa com a mesma resposta.

“Toda vez é um estagiário diferente e eu tenho que contar a mesma história de novo e de novo. Isso já é violento. No fim, eles falam que eu tenho que esperar e que deveria voltar quando faltasse quinze dias pro prazo acabar. Eu e meu filho temos medo. Eu sei que ele tá esperando o prazo acabar pra vir atrás da gente”. Os únicos momentos em que Marília chora são ao falar do filho e do medo que tem do que o marido pode fazer contra os dois.

Em nota, a Defensoria Pública afirma que o atendimento a mulheres em situação de violência doméstica é considerado urgente e segue um protocolo que prevê o relato dos fatos uma única vez, para evitar a revitimização. As medidas protetivas são acompanhadas e, quando provisórias, é feito um agendamento do retorno antes que o prazo acabe, para reavaliar a situação de risco e adotar as providências necessárias à continuidade da proteção.

Em 2025, Alcione também conseguiu uma medida protetiva provisória que, na época, precisava ser renovada a cada dois meses. Assim que foi notificado sobre a proibição de aproximação, João passou a persegui-la. Em uma das vezes, entrou na casa de Alcione e tentou estuprá-la.

O agressor chegou a passar cinco meses preso, mas, assim que foi solto, retomou as tentativas de assédio. Cada invasão foi registrada pelas câmeras de segurança da casa e pelo acionamento do Botão do Pânico – aplicativo que aciona a Guarda Civil Municipal automaticamente. Nenhuma delas foi considerada no primeiro julgamento. Após duas audiências, João segue respondendo por seus crimes em liberdade.

“Eu estou revoltada, porque foi uma luta. Todas as vezes que ele ia lá, eu tinha que ir na delegacia, para mim também era humilhante. E hoje ele está solto sabendo que, provavelmente, não vai ter nada. Eu acredito que a justiça vai chegar”, Alcione diz, decidida.

Em 2025, para cada um dos 1.571 feminicídios no país, houve 2,7 tentativas de feminicídio e 84 descumprimentos de medidas protetivas de urgência foram registrados. Em números absolutos, o estado de São Paulo lidera as denúncias de tentativas de feminicídios – das 4.189 tentativas totais, 757 foram no estado – e fica em segundo lugar nos descumprimentos de medidas, com 22.820 casos, atrás apenas do Paraná, com 23.220 infrações.

Na visão de Jackeline, também falta, a nível nacional, um plano de reabilitação para os agressores: “A gente não tem um serviço de psicologia social voltado à readaptação desse homem violento para relações harmônicas e não patriarcais. Não basta esperar que a vítima saia da violência. A gente precisa responsabilizar o agressor para que novas violências não aconteçam”.

Caraguatatuba ainda enfrenta o problema estrutural de um governo que, há décadas, não volta seus olhos para as demandas da população feminina. É o que devende a vereadora: “São governos de direita que não enxergam esse tema como central na construção de uma sociedade. É a estrutura machista e patriarcal que se não conseguirmos romper, não vamos avançar. Temos que botar o pé na porta e falar: ‘É necessário olhar pra isso, porque precisamos seguir vivas”.

Onde buscar ajuda

Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher. Gratuito, 24 horas. Orienta sobre direitos, recebe denúncias e indica serviços de atendimento próximos. Também atende pelo WhatsApp: (61) 9610-0180. 

Ligue 190 — Em caso de emergência, risco imediato ou violência acontecendo naquele momento, acione a Polícia Militar. 

Delegacia da Mulher — Para registrar a ocorrência e solicitar medidas protetivas de urgência. Na ausência de uma delegacia especializada, busque uma delegacia de polícia. 

Casa da Mulher Brasileira e Centros de Referência (CRAM/CRAMS) — Oferecem acolhimento e podem reunir atendimento psicológico, social, jurídico e outros serviços da rede de proteção. 

Serviços de saúde — UBS, UPA e hospitais também podem acolher mulheres em situação de violência. Em casos de violência sexual, procure atendimento o quanto antes.

  •  

Escola de aldeia que esteve em risco de fechar lidera nas provas do 4.º ano

Numa escola de aldeia, que esteve em risco de fechar por falta de crianças, estudaram os alunos que obtiveram um dos melhores resultados nas provas nacionais do 4.º ano a Português, Matemática e Inglês em 2025.

A Escola Básica de Covão do Coelho, em Alcanena, esteve em risco de não abrir portas em setembro de 2019. Na altura, havia a hipótese de ser precisa uma “autorização especial” para manter aberta a escola rural, caso houvesse menos de 20 inscritos.

Agora, os seus alunos estão entre os que obtiveram melhores resultados nas provas de Monitorização da Aprendizagem (ModA) do 4.º ano, realizadas em 2025, segundo uma análise da Lusa a mais de 3.600 escolas primárias.

Todas as crianças daquela escola atingiram o nível “Avançado” nas provas, que é o patamar mais elevado dos vários níveis de competência, que vão desde o “Inicial”, passando pelo “Básico” e “Proficiente” até chegar ao “Avançado”.

Os dados do ministério não discrimina o número de alunos de cada escola.

Os alunos de nível “Avançado” conseguem resolver tarefas mais complexas do que as exigidas para o nível que é esperado e, naquela escola da aldeia da Serra de Aire, todos o conseguiram fazer.

Mas esta não é a única escola pública no top do ‘ranking’ que ordena os estabelecimentos de ensino pelos melhores resultados nas provas ModA.

Nas provas de Português, por exemplo, há muitas escolas públicas entre as melhores e várias estão fora dos grandes centros urbanos, segundo uma análise feita pela Lusa aos dados disponibilizados pelo Ministério da Educação.

Várias encontram-se longe das grandes cidades, como a escola primária junto à fronteira espanhola, a Escola Básica de Aldeia de Santo António, no Sabugal, ou a Escola Básica de Póvoa de Rio de Moinhos, em Castelo Branco, ou a Escola Básica de Viso, em Montemor-o-Velho.

Olhando para os resultados a Matemática, a escola rural de Alcanena surge em 2.º lugar, ultrapassada apenas pelo Colégio Place4All, que também aparece com bons resultados nas três provas.

Entre as 20 melhores classificadas a Matemática, os colégios já aparecem mais vezes, sendo as escolas públicas maioritariamente situadas em aldeias ou localidades menos populosas, como Unhais da Serra, Rebordãos ou Aldeia de Santo António.

Os melhores resultados a Matemática apresentam uma geografia bastante dispersa, com casos no interior rural da Beira Interior, Trás-os- Montes ou no Alentejo, que conseguem rivalizar com os colégios habitualmente destacados nos ‘rankings’.

Nas ModA, que vieram substituir as provas de aferição, os colégios destacam-se a Inglês: A escola de Alcanena continua a ser a melhor classificada, mas as seguintes 20 da lista são todas privadas e muitas na zona de Lisboa.

Neste grupo, destacam-se os colégios com ensino bilingue ou que privilegiam um contacto precoce com o inglês, como a St. Julian’s School ou a Queen Elisabeth’s School.

Um estudo recente divulgado pelo Ministério da Educação salientava a forte ligação entre compreensão de texto e os bons resultados a outras disciplinas, como Matemática e História e Geografia e reforçava a associação entre contexto socioeconómico e resultados escolares.

  •  
❌