O BODE EXPIATÓRIO

O bode carregará todos os pecados do povo para uma terra onde ninguém vive; o homem deixá-lo-á livre lá no deserto.
Levítico 16:20-22
A expressão “bode expiatório” tem origem em rituais religiosos descritos na Bíblia, Antigo Testamento, que provém de um antigo ritual judaico (Dia do Perdão), em que um bode era sacrificado e outro recebia os pecados de todo o povo e, por isso, o soltavam no deserto. O bode expiatório tem funcionado como uma metáfora para a culpa coletiva, sempre que um grupo inocente é escolhido para arcar com a responsabilidade de um fracasso ou crise por que passa toda uma comunidade.
Gil Vicente, já no século XVI, no seu Auto da Barca do Inferno (1517) nos apresenta um conjunto de figuras representativas da sociedade da época – o fidalgo, o frade, o sapateiro, o corregedor, o judeu – apontando os vícios de cada um deles para fazer sátira social. O judeu representava o forte antissemitismo que se vivia, refletindo, assim, sobre um conjunto de preconceitos religiosos e culturais bastante presentes na sociedade portuguesa. Quando entra em cena, o judeu carrega um bode, um símbolo pejorativo para o povo judaico que defende as suas práticas. Nem o Anjo, que comanda a Barca do Paraíso, nem o Diabo, que comanda a Barca do Inferno, aceitam o judeu nas suas embarcações. O Diabo argumenta que não tem espaço para o bode, acabando por o levar a reboque atrelado à barca, simbolizando, desta forma, a marginalização que este grupo sofria em Portugal. Ou seja, Gil Vicente tira partido desta personagem não só para ridicularizar a hipocrisia da sociedade cristã, como para criticar os estereótipos associados aos judeus, como a teimosia e o amor ao dinheiro.
Esta expressão, datada de há mais de 2500 anos, foi-se consolidando ao longo dos séculos na nossa linguagem e, por isso, acabei de dar o exemplo de Gil Vicente. Os bodes expiatórios, porém, têm variado ao longo dos anos e de diferentes épocas. Nos dias que correm, por exemplo, em Portugal temos um novo bode expiatório – o imigrante. Agora os imigrantes são os responsáveis por todos os males de natureza social que existem na nossa sociedade. Quando se discutem os problemas da educação – os resultados do PISA, a falta de professores, a falta de pessoal auxiliar de ação educativa, a falta de creches, as más condições de certas escolas – ouvimos amiúde a voz de muitos representantes políticos invocar constantemente a política das portas escancaradas que permitiu a entrada de demasiados imigrantes. Discutem-se questões ligadas à saúde – fecho de maternidades, horas de espera nas urgências, cancelamento de cirurgias – e lá vem novamente a alegação do aumento dos utilizadores do SNS por via do aumento da população imigrante. Temos assistido a manifestações e acampadas em Lisboa, Porto e outras cidades do país relacionadas com o problema da habitação e, pasme-se, novamente quem tem responsabilidades governativas agita o fantasma da imigração como causa do problema.
Sem entrar em considerações sobre as manifestações, gostaria de lembrar que, segundo dados oficiais, Portugal é o país da União Europeia onde os preços da habitação mais subiram entre 2020 e 2025 e os residentes destinam uma maior fatia do salário para cobrir os custos da casa. Sabemos que o problema da habitação não é apenas um problema português, mas transversal a toda a Europa. Contudo, e porque é em Portugal que vivo, considero que, em vez de se arranjarem bodes expiatórios – que no passado só acrescentaram mais violência ao discurso político -, impere o bom senso e se procurem soluções para minimizar a crise que não tenham de passar por cargas policiais de má memória. Invoco, a propósito, uma voz feminina, a de Natália Correia, quando afirmou “Quando a crise não é geradora de grandes audácias, mais indicado é dar-lhe o nome de agonia.”
Hoje, os tempos exigem audácia!
Aida Batistas/MS