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O BODE EXPIATÓRIO

29 October 2026 at 20:30
DR

O bode carregará todos os pecados do povo para uma terra onde ninguém vive; o homem deixá-lo-á livre lá no deserto.

Levítico 16:20-22

A expressão “bode expiatório” tem origem em rituais religiosos descritos na Bíblia, Antigo Testamento, que provém de um antigo ritual judaico (Dia do Perdão), em que um bode era sacrificado e outro recebia os pecados de todo o povo e, por isso, o soltavam no deserto. O bode expiatório tem funcionado como uma metáfora para a culpa coletiva, sempre que um grupo inocente é escolhido para arcar com a responsabilidade de um fracasso ou crise por que passa toda uma comunidade.

Gil Vicente, já no século XVI, no seu Auto da Barca do Inferno (1517) nos apresenta um conjunto de figuras representativas da sociedade da época – o fidalgo, o frade, o sapateiro, o corregedor, o judeu – apontando os vícios de cada um deles para fazer sátira social. O judeu representava o forte antissemitismo que se vivia, refletindo, assim, sobre um conjunto de preconceitos religiosos e culturais bastante presentes na sociedade portuguesa. Quando entra em cena, o judeu carrega um bode, um símbolo pejorativo para o povo judaico que defende as suas práticas. Nem o Anjo, que comanda a Barca do Paraíso, nem o Diabo, que comanda a Barca do Inferno, aceitam o judeu nas suas embarcações. O Diabo argumenta que não tem espaço para o bode, acabando por o levar a reboque atrelado à barca, simbolizando, desta forma, a marginalização que este grupo sofria em Portugal. Ou seja, Gil Vicente tira partido desta personagem não só para ridicularizar a hipocrisia da sociedade cristã, como para criticar os estereótipos associados aos judeus, como a teimosia e o amor ao dinheiro.

Esta expressão, datada de há mais de 2500 anos, foi-se consolidando ao longo dos séculos na nossa linguagem e, por isso, acabei de dar o exemplo de Gil Vicente. Os bodes expiatórios, porém, têm variado ao longo dos anos e de diferentes épocas. Nos dias que correm, por exemplo, em Portugal temos um novo bode expiatório – o imigrante. Agora os imigrantes são os responsáveis por todos os males de natureza social que existem na nossa sociedade. Quando se discutem os problemas da educação – os resultados do PISA, a falta de professores, a falta de pessoal auxiliar de ação educativa, a falta de creches, as más condições de certas escolas – ouvimos amiúde a voz de muitos representantes políticos invocar constantemente a política das portas escancaradas que permitiu a entrada de demasiados imigrantes. Discutem-se questões ligadas à saúde – fecho de maternidades, horas de espera nas urgências, cancelamento de cirurgias – e lá vem novamente a alegação do aumento dos utilizadores do SNS por via do aumento da população imigrante. Temos assistido a manifestações e acampadas em Lisboa, Porto e outras cidades do país relacionadas com o problema da habitação e, pasme-se, novamente quem tem responsabilidades governativas agita o fantasma da imigração como causa do problema.

Sem entrar em considerações sobre as manifestações, gostaria de lembrar que, segundo dados oficiais, Portugal é o país da União Europeia onde os preços da habitação mais subiram entre 2020 e 2025 e os residentes destinam uma maior fatia do salário para cobrir os custos da casa. Sabemos que o problema da habitação não é apenas um problema português, mas transversal a toda a Europa. Contudo, e porque é em Portugal que vivo, considero que, em vez de se arranjarem bodes expiatórios – que no passado só acrescentaram mais violência ao discurso político -, impere o bom senso e se procurem soluções para minimizar a crise que não tenham de passar por cargas policiais de má memória. Invoco, a propósito, uma voz feminina, a de Natália Correia, quando afirmou “Quando a crise não é geradora de grandes audácias, mais indicado é dar-lhe o nome de agonia.”

Hoje, os tempos exigem audácia!

Aida Batistas/MS

NO PRINCÍPIO ERA O VERBO

23 October 2026 at 18:05
DR

A oralidade é meu culto.

As mães embalam os filhos cantando 

ou dizendo palavras nas nossas línguas todas.

Ana Paula Tavares, entrevista à revista Buala, 2010.

No passado sábado, dia 17, realizou-se na Universidade Autónoma de Lisboa, o VI Encontro EscritAfricando, um projeto da Associação Ser Mais Valia (SMV), que tem como objetivo satisfazer o anseio de jovens africanos que querem iniciar-se na escrita de textos em língua portuguesa e vê-los publicados. Habitualmente, a parte da manhã deste encontro tem um programa de caráter mais prático em que se trabalha uma oficina temática. Depois de, em anos anteriores terem sido tratados o texto literário e não literário, a poesia, o conto, a crónica, desta vez coube à escritora guineense, autora de literatura infantojuvenil, Kátia Casimiro, orientar uma oficina sobre a oralidade.

Sabemos que a voz antecede a escrita e é pelas diferentes vozes que nos chega a perceção do mundo que nos cerca. É pela voz do colo que nos embala, das canções de ninar que nos adormecem, do chamamento a que de imediato reagimos, das lengalengas rimadas, de todos os que habitam o mesmo espaço das nossas memórias (a que chamamos casa) numa diversidade de entoações, que aprendemos a descodificar a palavra a partir dos primeiros dias da nossa existência.

Se a voz é importante para todos nós, ela ganha particular destaque nas comunidades africanas para a preservação da história, da cultura e dos valores éticos que contribuem para a afirmação de uma identidade coletiva. É nestas sociedades que a oralidade ganha o estatuto de oratura, ou seja, em que o saber é transmitido de geração em geração sem o suporte físico da escrita.  A Ilíada e a Odisseia de Homero, inicialmente transmitidas de forma puramente oral durante séculos, chegaram até nós graças à perenidade da palavra escrita.

Em determinado momento da sessão de trabalho, Kátia Casimiro lembrou um episódio passado na Guiné, quando aí se deslocou a convite de uma escola onde teve a oportunidade de dar a conhecer a sua obra. Exímia contadora de histórias, interagia com as crianças quando, a propósito de uma das personagens dos seus contos, perguntou ao grupo o que queriam ser quando fossem grandes. Estamos habituados a que a maioria se sinta atraída por um conjunto de referências e modelos a que os meios de comunicação e as redes sociais se encarregam de dar maior visibilidade (jogadores de futebol e outros desportistas), cantores, atores ou outras profissões que conferem um determinado estatuto profissional. Um dos miúdos, porém, fugiu a esta corrente dominante e disse que queria ser “avô”. A Kátia, espantada com a resposta, e pensando que tinha ouvido mal, insistiu para desfazer a dúvida: “Queres ser o quê?” E a resposta veio novamente pronta: “Quero ser avô.” Segura agora do que ouvira, perguntou: “E queres ser avô, porquê?” A criança não hesitou: “Porque o meu avô conta muitas histórias.” E é porque somos feitos de histórias que vale a pena ouvi-las, enquanto palavra falada tiver a força criadora para despertar o nosso imaginário e nos ligar aos nossos ancestrais. Os avôs são, por isso, os guardiões das linhagens familiares que preservam comportamentos traduzidos numa sabedoria prática e filosófica acumulada ao longo de séculos.

Durante o longo período da colonização, foi prática corrente impedir que as populações se exprimissem nas línguas maternas. Foram, portanto, as narrativas orais, as músicas e os cantos que conseguiram manter viva as línguas locais como resistência à interdição de quem as usava. Ora, os avôs mais não são do que os velhos guardiões dessa memória, que faz jus ao que afirmou o escritor e historiador maliano Amadou Hampâté Bâ: “Quando um velho morre, é uma biblioteca que se queima.”

Aida Batista/MS

WE ARE ALL “MARICARMEN”

30 September 2026 at 21:24

I am a human being: I consider nothing human alien to me. — Publius Terentius Afer, 195 BC

Advances in medicine and widespread access to healthcare have led to an increase in longevity in recent years. On the other hand, birth control and the individual choice not to have children have resulted in declining birth rates. As a consequence, we are now faced with increasingly aging population pyramids. We are, therefore, confronting a reality in which the disparity between the number of elderly people and children is striking.

However, growing old—despite representing an achievement and reflecting a long journey in combating certain diseases—is not always synonymous with quality of life. Recently, journalist Luís Osório dedicated one of his daily columns to aging: “To be sure, reaching old age means unexpected aches, joints on strike, and bone spurs, but it is also the possibility of being in less of a hurry, of seeking depth, of rediscovering slowness.” It is above all this slowness that is least understood by younger generations, who lack the patience to deal with the pace of lost youth, because—and to continue with Luís Osório—“Aging is muscles emptying, acquiring the fear of crossing the street, of falling in the bathtub, of being hospitalized, but it is also arguing less, sacrificing the madness of ambition for well-being.”

The crux of the matter lies in the kind of well-being each person desires, especially when we are so often confronted with the number of care homes shutting down due to degrading conditions, and the terrifying number of elderly people living in vulnerable situations without any support. Some are denied their most basic rights when unscrupulous entities, under the cover of the law, evict them without pity or mercy from the homes where they spent their entire lives.

In recent days, we watched live what happened in neighboring Spain with Maria del Carmen, who mobilized an entire population in a protest against the glaring injustice committed through the insensitivity of those who still view old age as a distant milestone. Maria del Carmen Abascal, better known as Maricarmen, is 87 years old and had lived in a rented house since 1956 in the Retiro neighborhood of Madrid. In other words, for 70 years, she knew no other place than the one where she grew up and grew old. The lease agreement had been signed by her father; after his death, it passed directly to her mother, and in 2005, to the daughter, subject to rent adjustments. Meanwhile, the property was acquired by an investment fund, Urbagestion, which legally contested this final transfer. The Supreme Court ruled in favor of the company, thereby allowing it to exercise its right to evict her. The United Nations Committee on Economic, Social and Cultural Rights had asked the Spanish state last June to guarantee Maricarmen a housing solution tailored to her situation. She was offered an emergency spot in a care home, which Maricarmen declined. Consequently, the company felt entitled to proceed with the court-ordered eviction. On the day it took place, we could see her, lucid, being carried out on a stretcher, while hundreds of people gathered in a protest outside the building to try to prevent it, seeing their efforts completely thwarted.

Some might argue that the company acted with the backing of a judicial ruling. True! However, the question we must ask ourselves is: to what extent is such a decision just? Because a home is not made of walls, but of the people, the objects, the environments that embrace us, and, above all, the memories we lived in them, where every corner reminds us of moments from our lives.

Forcing someone to turn their back on 70 years of a life is an act of atrocious violence. And it does not dignify us as human beings.

Aida Batista/MS

The content on the Milénio Stadium website is automatically translated using Google Translate.

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