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36 milhões de votos latinos estão em jogo nas eleições de Meio de Mandato

31 October 2026 at 15:00
Cynthia vive em Nova Jersey há três anos. Ela se mudou do México para os Estados Unidos por uma oferta de trabalho e atualmente trabalha em uma organização da sociedade civil. Embora não possa votar por causa de sua situação migratória, está interessada nas próximas eleições de Meio de Mandato e sabe que o tema chama a atenção das pessoas com quem convive diariamente.

“Acho que o interesse pelas eleições aumentou. Pelo menos entre as pessoas que conheço, existe uma preocupação sobre como os resultados podem influenciar questões que afetam diretamente suas famílias e comunidades, como a política migratória”, afirma.

A imigração, de fato, é um dos assuntos que mais interessam aos eleitores latinos antes das eleições, segundo uma pesquisa publicada pelo Pew Research Center em 16 de outubro. Outros temas considerados ainda mais importantes são a economia, os cuidados com a saúde, a educação e o futuro da democracia.

À medida que se aproxima o dia 3 de novembro, intensifica-se a disputa pelo controle do Congresso. Uma pesquisa da CNN, publicada em 21 de outubro, indica que os democratas ampliaram para dez pontos percentuais a vantagem sobre os republicanos nas intenções de voto em nível nacional.

No entanto, o resultado final e a composição do Senado e da Câmara dos Representantes na segunda metade do mandato presidencial de Donald Trump dependerão de disputas específicas em alguns estados e distritos concorridos. Em vários deles, o eleitorado latino vem ganhando importância nos últimos anos.

“Acho que muitas pessoas esperam que as eleições possam gerar um maior equilíbrio e que as preocupações das diferentes comunidades sejam levadas em consideração”, afirma Cynthia.

Um grupo em crescimento e cada vez mais diverso

A população latina nos Estados Unidos é formada por cerca de 70 milhões de pessoas, segundo um relatório da organização não governamental Latino Donor Collaborative, publicado em outubro. De acordo com o documento, aproximadamente 80% delas têm cidadania americana, e os nascimentos vêm ganhando cada vez mais importância no crescimento desse grupo demográfico.

O relatório e diversos especialistas apontam que dados como esses refutam ideias equivocadas sobre os latinos, algumas delas promovidas pelo próprio Trump e seu governo. Entre elas estão a percepção de que a maioria dos latinos são imigrantes em situação irregular ou de que a imigração é o principal fator responsável pelo crescimento da comunidade.

Outra imprecisão é tratar a população latina como homogênea, quando, na realidade, ela é diversa em termos de países de origem, diferenças culturais e outros fatores.

O relatório da Latino Donor Collaborative aponta que a maioria dos latinos nos Estados Unidos é originária do México, representando 59% do total. Em seguida aparecem pessoas de Porto Rico (9,5%), Cuba (3,9%), El Salvador (3,9%) e República Dominicana (3,7%).

A lista é completada por pessoas originárias da Guatemala (3%), Colômbia (2,3%), Honduras (2%), Equador (1,8%), Venezuela (1,2%), Peru (1,2%), Nicarágua (0,8%), Argentina (0,5%), Panamá (0,4%), Chile (0,3%) e Costa Rica (0,3%).

“Continuamente tratamos os latinos como um grupo monolítico, com um conjunto semelhante de prioridades”, afirma Emiliano Aguilar, professor de História do Instituto de Estudos Latinos da Universidade de Notre Dame.

Segundo o acadêmico, ao longo do século XXI ocorreram duas grandes mudanças na população latina dos Estados Unidos: primeiro, sua diversificação; segundo, o fato de que, a cada ano, cerca de 1 milhão de latinos nascidos no país atingem a idade para votar. Isso aumenta a importância desse segmento em contextos como as próximas Eleições de Meio de Mandato.

Eleitores latinos: quantos são e o que querem em 2026

Antes das eleições de 3 de novembro, cerca de 36 milhões de latinos poderão votar. Algumas estimativas apontam que esse número pode chegar a 39 milhões.

A organização não governamental UnidosUS calcula que, nas eleições de 2024, havia aproximadamente 32,8 milhões de latinos com cidadania americana e condições de votar. Desse total, 20,1 milhões se registraram como eleitores e, entre eles, 16,6 milhões efetivamente votaram.

É sabido que muitos desses eleitores latinos apoiaram Trump e os republicanos, apesar de esse segmento tradicionalmente demonstrar maior inclinação pelos democratas. No entanto, nos últimos meses, muitos deles se afastaram do presidente e disseram considerar votar contra seu partido neste ano.

A pesquisa da CNN, publicada em 21 de outubro, mostra que os latinos favorecem os democratas em relação aos republicanos por uma margem de 40 pontos percentuais.

De maneira semelhante, a pesquisa do Pew Research Center divulgada dias antes aponta que 55% dos eleitores latinos veem as Eleições de Meio de Mandato como uma oportunidade para votar contra Trump. Apenas 14% afirmam que votarão para apoiar o presidente, enquanto 30% dizem que ele não será um fator determinante em sua decisão.

E quais assuntos mais interessam a esse segmento do eleitorado?

A mesma pesquisa do Pew Research Center mostra que a economia é a principal preocupação, com 86% das menções. Em seguida aparecem os cuidados com a saúde (80%), a educação (75%), o futuro da democracia (69%) e a imigração (64%).

Outros temas que preocupam os eleitores latinos, mas com menor grau de importância, são a criminalidade violenta (58%), as investigações sobre Trump e seu governo (56%), a política externa (54%), o meio ambiente e a política climática (54%), a política de controle de armas (51%), a política energética (51%), o tamanho do governo federal (50%), a inteligência artificial (49%), o aborto (49%), questões relacionadas à etnia (48%) e, por último, as políticas voltadas às pessoas LGBT (25%).

Emiliano Aguilar, professor da Universidade de Notre Dame, afirma que, com exceção da imigração, muitos desses temas coincidem com as preocupações de outros grupos demográficos dos Estados Unidos. Isso indica que serão decisivos nos resultados da noite de 3 de novembro.

“Os eleitores latinos compartilham muitas das preocupações da classe trabalhadora. Há uma sobreposição direta entre os interesses da classe trabalhadora e dos eleitores latinos, em questões como a economia”, afirma.

Um eleitorado decisivo para o novo equilíbrio no Congresso

Víctor é mexicano e mora no Texas desde 2019. Em 2023, obteve residência permanente e, embora não possa votar, sabe que muitos latinos estão atentos às eleições e que dois temas estão entre suas prioridades: a economia e a imigração.

Ele trabalha em uma empresa de compra e venda de automóveis e afirma que, em todos os anos em que vive nos Estados Unidos, nunca viu um cenário econômico tão complicado quanto o atual, talvez comparável apenas ao período da pandemia de covid-19.

Ele conta que a situação se agravou em 2025, quando o governo Trump começou a realizar operações de grande escala para prender imigrantes em situação irregular. Isso fez com que muitos latinos passassem a ter medo de sair para trabalhar ou preferissem não gastar dinheiro.

“Muita gente começou a entrar em pânico. No mercado de vendas de automóveis, das concessionárias, como aquele em que trabalho, as vendas caíram 40%. Era um mercado formado por latinos. Estou falando do ano passado até agora, porque as pessoas que podiam comprar já não conseguem mais”, explica.

A isso se soma o aumento nacional dos preços de diversos produtos, da gasolina à carne, o que provavelmente fará com que os eleitores considerem o impacto no próprio bolso na hora de votar.

A pesquisa de outubro do Pew Research Center, que aponta a economia como a principal preocupação dos eleitores latinos, detalha quais são os temas mais relevantes dentro desse assunto. Os preços dos combustíveis e da moradia aparecem empatados, com 80% das menções, seguidos pelos preços dos alimentos e de outros bens de consumo (78%), desemprego (59%) e desempenho dos mercados financeiros (26%).

Emiliano Aguilar, professor da Universidade de Notre Dame, considera que dados como esses e as políticas migratórias do governo Trump — como as operações de fiscalização e a suspensão do Status de Proteção Temporária para diversas nacionalidades — farão com que os eleitores latinos cobrem os republicanos nas urnas.

Aguilar afirma que isso pode ser decisivo em estados como Texas e Flórida, onde os republicanos enfrentam disputas acirradas, mas também em outros locais onde a presença latina cresceu nos últimos anos, como Colorado, Nevada e Missouri.

Como imigrante, Víctor concorda com essa avaliação.

“Agora que as eleições estão chegando, muitos latinos estão pedindo que o partido da oposição a Trump vença. Porque, se o outro partido ganhar, embora ele continue sendo presidente, o partido adversário não vai mais autorizar o que ele está fazendo”, afirma Víctor, enquanto se aproximam os dias 3 de novembro e a definição de um novo equilíbrio de forças para os próximos dois anos.

Eleições nos EUA: Qual é a diferença entre os red, blue e purple states?

Operações do ICE na Califórnia geram acusações de intimidação de eleitores

31 October 2026 at 13:47

Agentes federais de imigração espalharam-se pelo Vale Central da Califórnia nas últimas semanas, gerando medo nas comunidades latinas e dando origem a alegações de intimidação de eleitores em uma disputa acirrada que pode ajudar a definir o controle da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos.

O reforço planejado na Califórnia foi comunicado aos agentes no início de outubro, segundo um e-mail interno ao qual a agência de notícias Reuters teve acesso.

A operação foi orientada pela Casa Branca, de acordo com uma autoridade norte-americana que falou sob condição de anonimato, por não estar autorizada a conversar com a imprensa.

Diferentemente de operações anteriores em grandes cidades, como Minneapolis e Chicago — que levaram centenas de agentes armados e mascarados às ruas —, a ação atual tem se caracterizado pela presença de pequenos grupos de agentes que se deslocam de uma cidade a outra nessa região predominantemente agrícola.

O sindicato United Farm Workers informou ter conhecimento de centenas de trabalhadores rurais detidos na Califórnia nas últimas semanas.

Em Bakersfield, o número de prisões relacionadas à imigração saltou de uma por dia — média observada durante grande parte do ano — para quase 10 por dia em meados de outubro, segundo dados preliminares do DHS (Departamento de Segurança Interna).

Na vizinha Wasco, que conta com apenas 26 mil habitantes, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) prendeu pelo menos sete pessoas no intervalo de poucos dias, conforme indicam os dados.

As prisões causaram grande apreensão em áreas de maioria latina e podem ter repercussões nas eleições de meio de mandato desta terça-feira (3), nas quais os republicanos buscam manter o controle da Câmara e do Senado.

No 22º distrito congressional da Califórnia — que abrange Bakersfield e possui uma população 73% latina —, as pesquisas mostram o democrata progressista Randy Villegas com uma leve vantagem sobre o republicano David Valadao, que ocupa o cargo há seis mandatos.

Villegas disse a repórteres na semana passada que as prisões foram uma “tentativa muito clara de intimidar nossas comunidades antes desta eleição”.

Valadao afirmou, em um comunicado, que compreende “o medo e a incerteza que as ações de fiscalização imigratória geraram para as famílias em nossas comunidades”, e instou o governo Trump a “priorizar a remoção de indivíduos que representam uma ameaça à segurança pública”.

O DHS — órgão ao qual o ICE é subordinado — recusou-se a comentar as operações na Califórnia, alegando preocupações com a segurança dos agentes, e não respondeu às alegações de intimidação de eleitores.

“Sob qualquer critério, este deve ser um distrito eleitoral muito disputado”, disse Thad Kousser, codiretor do Centro para Eleições Transparentes e Confiáveis ​​da UC San Diego. “Qualquer fator que leve eleitores às urnas — ou os afaste delas — pode ser decisivo.”

O presidente Donald Trump obteve avanços significativos junto ao eleitorado hispânico na eleição de 2024; contudo, pesquisas indicam que a opinião pública se voltou fortemente contra suas operações de fiscalização imigratória e suas políticas econômicas.

Apenas 24% dos norte-americanos de origem hispânica aprovam o desempenho de Trump — o índice mais baixo registrado ao longo de seus mandatos presidenciais, segundo uma pesquisa da Reuters/Ipsos realizada no mês passado.

Em um comunicado, a porta-voz da Casa Branca, Lauren Bis, afirmou que a agenda de Trump tornou os norte-americanos de origem hispânica “mais prósperos e mais seguros”, e encaminhou ao DHS as perguntas sobre as operações do ICE na Califórnia.

Clima de medo

ICE tem realizado prisões em frente a residências, em cruzamentos movimentados, estacionamentos de centros comerciais, postos de gasolina e nas proximidades de escolas, segundo advogados, defensores dos direitos dos imigrantes, vídeos e registros judiciais.

“Os agentes receberam sinal verde para atuar nas ruas e realizar o maior número possível de prisões”, afirmou a autoridade americana.

Os agentes também estão auditando registros de empresas locais e utilizando informações sobre funcionários para efetuar prisões em suas casas ou durante o trajeto diário para o trabalho, acrescentou a autoridade.

Maribel Ramirez, uma trabalhadora rural da região, relatou que as prisões criaram um clima de medo que inibe a atividade política na área.

Ela contou que alguns jovens hispânicos, cidadãos americanos, disseram estar com receio de votar, temendo que isso possa revelar os endereços de familiares que não possuem status legal.

Embora as informações sobre os eleitores devam ser privadas, alguns daqueles “que podem votar não o farão, porque seus pais são imigrantes”, disse ela.

Ramirez tem incentivado todos os cidadãos americanos que conhece a votar, “mas não em ninguém ‘do lado vermelho'” — uma referência aos republicanos.

Ativistas da causa imigratória na região, que têm compartilhado alertas sobre a presença do ICE nas redes sociais, também estão, em alguns casos, divulgando informações sobre as eleições de meio de mandato.

Há menos pessoas nas ruas de Bakersfield, segundo Ana Valencia, proprietária de uma barbearia na cidade.

Alguns estabelecimentos locais estão oferecendo serviço de entrega gratuito para aqueles que têm medo de sair de casa.

Valencia conta que votou antecipadamente “porque não quero o ICE aqui — nem em lugar nenhum, na verdade”.

Villegas transformou a questão das prisões em um tema de campanha, criticando seu oponente por ter votado a favor de triplicar o orçamento do ICE e por não “defender as comunidades imigrantes”.

Valadao afirmou que o ICE tem como alvo criminosos dentro da comunidade.

Em uma entrevista ao jornal “Sacramento Bee”, publicada esta semana, ele reconheceu que, em alguns casos, a agência foi longe demais, mas não quis apresentar exemplos.

Jason Giannelli, de 41 anos — agricultor de quarta geração no Condado de Kern e apoiador de Valadao —, disse que o republicano adota uma postura “equilibrada” em relação à imigração e “entende que, provavelmente, o ICE está atrás dos piores entre os piores”.

Trabalhadores rurais na mira

A vice-presidente nacional do UFW, Elizabeth Strater, disse à agência de notícias Reuters que a grande maioria dos trabalhadores rurais detidos nas últimas semanas não tinha antecedentes criminais, e alguns possuíam autorização legal para trabalhar.

Um irmão e uma irmã, naturais do México, estavam descarregando suas compras em uma pequena cidade no Condado de Kern, no final de outubro, quando foram detidos por agentes de imigração, relatou um parente à Reuters, sob condição de anonimato.

Era o dia de folga deles do trabalho nos campos da região.

Os agentes estavam à procura de outra pessoa e não sabiam quem haviam abordado até que as algemas já estivessem colocadas, segundo uma petição apresentada pelos advogados dos trabalhadores rurais a um tribunal federal, contestando a detenção por considerá-la ilegal.

A irmã chegou aos EUA como menor desacompanhada há mais de uma década, de acordo com a petição.

O irmão chegou ainda bem pequeno. Nenhum dos dois possui antecedentes criminais, afirma o documento.

O DHS informou que não dispõe de informações suficientes para comentar o caso.

No dia da detenção, a filha de 3 anos da mulher estava na creche, e seu filho de 11 anos participava de uma excursão escolar com acampamento.

O pai das crianças faleceu repentinamente este ano, deixando a mãe como única responsável por elas.

O menino de 11 anos voltou para casa animado para ver a mãe, contou o parente.

Ao saber que ela havia sido detida, ele caiu em prantos e começou a chamá-la desesperadamente.

A criança de 3 anos se anima sempre que o telefone toca, relatou o parente, perguntando se é a mãe que está na linha.

ICE: Conheça a estrutura do serviço de imigração dos EUA

 

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