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Israel: partidos árabes têm nas mãos o futuro de Israel

29 October 2026 at 07:00

Os analistas já tinham avisado: as iniciativas profundamente racistas levadas a cabo nos últimos anos pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, seriam o melhor combustível para acender a vontade dos árabes israelitas de comparecerem em força nas eleições da passada terça-feira, 27 de outubro. Aparentemente, foi exatamente isso que aconteceu: os partidos árabes (Ra’am e Lista Conjunta) asseguraram para já 19 lugares no Knesset, o parlamento israelita, e tornaram-se incontornáveis para a formação do próximo governo, seja ele de que cor for.

Ao final do dia de ontem, 28 de outubro, e com 85% dos votos apurados, o bloco de Netanyahu assegurava 53 lugares, o da oposição liderada por Gadi Eisenkot 48 e os partidos árabes somavam 19 (um recorde histórico e quase o dobro dos dez lugares que tinham até agora). Os partidos de extrema-direita Otzma Yehudit e os ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torah tinham sete lugares cada, assim como o Yisrael Beytenu, de Avigdor Liberman. O Sionismo Religioso, liderado pelo ministro das Finanças Bezalel Smotrich, conquistou seis lugares.

A divisão de lugares deixou o bloco liderado por Netanyahu, composto por Likud, Shas, Judaísmo Unido da Torah, Otzma Yehudit e Sionismo Religioso, com 53 lugares, oito a menos que a maioria de 61 e menos ainda que os 68 deputados do grupo no atual Knesset, o que representa uma queda significativa. O bloco de Eisenkot, composto por Yashar, B’Yachad, Democratas e Yisrael Beytenu, tinha um total de 48 lugares, menos 13 que o necessário para a maioria.

Segundo a imprensa israelita, era improvável que houvesse novas atualizações antes desta quinta-feira, visto que a Comissão Eleitoral Central está agora a concentrar os seus numa contagem que exige supervisão adicional. Os resultados finais e oficiais só deverão ser publicados a 4 de novembro.

O cenário que está em cima da mesa é muito diferente daquele que era apresentado pela maioria das sondagens realizadas nas semanas que antecederam as eleições: quase todas mostravam o bloco de Eisenkot à frente do de Netanyahu por margens variáveis, embora, nenhum dos partidos apresentasse um caminho claro para a formação de uma coligação. Falhou igualmente a sondagem à boca das urnas, que mostrava o bloco de Eisenkot à frente do de Netanyahu por dois ou três lugares.

Feitas as contas, os 19 lugares dos partidos árabes seriam mais do que suficientes para consolidar uma maioria confortável para o bloco anti-Netanyahu, caso todos os membros do bloco, com exceção dos Democratas, não tivessem descartado a possibilidade de cooperarem com o Ra’am ou com a Lista Conjunta. Do mesmo modo, os árabes poderiam fazer maioria com Netanyahu. O sentido dos dois partidos e inclusivamente a sua abstenção passam a ter um peso político que nunca antes aconteceu.

 

Netanyahu alega fraude

Perante estes resultados, o Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, apressou-se a afirmar que as eleições foram “roubadas” por partidos árabes, exigindo uma investigação da polícia e do Shin Bet (a ‘secreta’ interna). “As eleições em Israel foram roubadas por partidos árabes que apoiam o terrorismo e a eliminação do Estado judeu por meio de crimes graves como suborno, ameaças, violência, falsificação e uso de software ilegal para mobilizar eleitores”, insistiu o partido Likud em comunicado, horas depois de a Comissão Eleitoral Central (CEC) ter rejeitado as alegações de fraude.

Sendo difícil perceber-se como é que dois pequenos partidos, que concorrem regularmente às eleições, tiveram artes de enganar a poderosa máquina estatal israelita, o Likud planeava contestar os resultados das localidades árabes e alegar que a eleição foi fraudulenta. Em comunicado, o partido afirmou ter fornecido à polícia, ao Shin Bet e à Comissão Eleitoral Central (CEC) “centenas de depoimentos” e outras provas, incluindo “milhares de envelopes com dinheiro e comprovantes de votação, ameaças e violência contra membros da comissão eleitoral, vários eleitores atrás da cabine de votação, voto duplo, discrepâncias entre o número de envelopes e o número de eleitores, uso de software ilegal de mobilização de eleitores e muito mais”.

O Likud exige uma “investigação minuciosa” e uma resposta imediata da Comissão Eleitoral Central sobre a investigação, que confirmou estar a analisar as alegações. “O Comité Central de Eleições iniciou uma operação de monitorização da integridade eleitoral, como faz em todas as eleições, e, como parte dela, todas as denúncias dos partidos referentes à integridade das eleições ou a supostos erros nos resultados serão examinadas”, afirmou a CEC).

 

A alternativa ao centro

A única forma de os partidos hebraicos escaparem ao ascendente árabe é Netanyahu e Gadi Eisenkot acordarem fazer uma grande coligação ao centro. Ainda assim, o número de lugares dos dois partidos não chega: a coligação teria de abrir-se a outros participantes. E seria, evidentemente, um governo assente numa forte instabilidade e numa espécie de ódio político (pelo menos) entre os seus mais altos líderes.

De qualquer modo, esse é desde sempre o desejo do presidente do país, Isaac Herzog, que chegou mesmo a sugerir o regresso à rotatividade do lugar de primeiro-ministro – como já sucedeu no passado entre Naftali Bennett e Yair Lapid em 2021-22, com muito fracos resultados.

Uma outra alternativa, que Herzog quer evitar a todo o custo, é a repetição das eleições. Como também já aconteceu no passado recente. Herzog indicou que está empenhado em evitar uma repetição de 2019-2020, quando impasses persistentes levaram o país às urnas três vezes em 11 meses.

O risco de isso voltar a acontecer é grande. E o calendário apertado: o candidato a primeiro-ministro designado pelo presidente terá 28 dias para articular uma coligação, com uma possível prorrogação de 14 dias. Caso essas tentativas falhem, um segundo líder partidário poderá ter 28 dias (sem prorrogação) para tentar formar um governo, e se essa tentativa também não for bem-sucedida, uma maioria de 61 deputados poderá solicitar ao presidente que atribua a tarefa a um parlamentar específico dentro de um prazo adicional de 21 dias. Se nada disso acontecer, haverá novas eleições.

 

Juntos e ao vivo no Irão, outra vez

Entretanto, o presidente dos EUA, Donald Trump, atribuiu o sucesso de Benjamin Netanyahu ao seu apoio. “Quando o presidente Trump apoiou Bibi Netanyahu, a situação mudou completamente e, agora, em vez de uma derrota decisiva para um grande primeiro-ministro, parece um grande impasse, ou até mesmo uma VITÓRIA para Netanyahu. Tudo isso aconteceu DEPOIS do apoio do presidente Trump, que só quer o que é bom para o Oriente Médio, Israel e os Estados Unidos da América!”, escreveu Trump nas redes sociais.

Esta espécie de surto psicótico surge depois de Trump ter declarado formalmente o seu apoio a Netanyahu a 18 de outubro, nove dias antes das eleições, oferecendo o seu “apoio completo e total”, dias depois de ter dito que “nem sequer tinha pensado” em apoiar um candidato nas eleições em Israel.

Indiferente a isso, Netanyahu aceitou o apoio e disse algures (em vídeo) : “Donald, temos um trabalho a terminar [no Irão]… e vamos terminá-lo juntos. Vamos terminá-lo, e ninguém mais o fará”.

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