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Israel: partidos árabes têm nas mãos o futuro de Israel
Os analistas já tinham avisado: as iniciativas profundamente racistas levadas a cabo nos últimos anos pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, seriam o melhor combustível para acender a vontade dos árabes israelitas de comparecerem em força nas eleições da passada terça-feira, 27 de outubro. Aparentemente, foi exatamente isso que aconteceu: os partidos árabes (Ra’am e Lista Conjunta) asseguraram para já 19 lugares no Knesset, o parlamento israelita, e tornaram-se incontornáveis para a formação do próximo governo, seja ele de que cor for.
Ao final do dia de ontem, 28 de outubro, e com 85% dos votos apurados, o bloco de Netanyahu assegurava 53 lugares, o da oposição liderada por Gadi Eisenkot 48 e os partidos árabes somavam 19 (um recorde histórico e quase o dobro dos dez lugares que tinham até agora). Os partidos de extrema-direita Otzma Yehudit e os ultraortodoxos Shas e Judaísmo Unido da Torah tinham sete lugares cada, assim como o Yisrael Beytenu, de Avigdor Liberman. O Sionismo Religioso, liderado pelo ministro das Finanças Bezalel Smotrich, conquistou seis lugares.
A divisão de lugares deixou o bloco liderado por Netanyahu, composto por Likud, Shas, Judaísmo Unido da Torah, Otzma Yehudit e Sionismo Religioso, com 53 lugares, oito a menos que a maioria de 61 e menos ainda que os 68 deputados do grupo no atual Knesset, o que representa uma queda significativa. O bloco de Eisenkot, composto por Yashar, B’Yachad, Democratas e Yisrael Beytenu, tinha um total de 48 lugares, menos 13 que o necessário para a maioria.
Segundo a imprensa israelita, era improvável que houvesse novas atualizações antes desta quinta-feira, visto que a Comissão Eleitoral Central está agora a concentrar os seus numa contagem que exige supervisão adicional. Os resultados finais e oficiais só deverão ser publicados a 4 de novembro.
O cenário que está em cima da mesa é muito diferente daquele que era apresentado pela maioria das sondagens realizadas nas semanas que antecederam as eleições: quase todas mostravam o bloco de Eisenkot à frente do de Netanyahu por margens variáveis, embora, nenhum dos partidos apresentasse um caminho claro para a formação de uma coligação. Falhou igualmente a sondagem à boca das urnas, que mostrava o bloco de Eisenkot à frente do de Netanyahu por dois ou três lugares.
Feitas as contas, os 19 lugares dos partidos árabes seriam mais do que suficientes para consolidar uma maioria confortável para o bloco anti-Netanyahu, caso todos os membros do bloco, com exceção dos Democratas, não tivessem descartado a possibilidade de cooperarem com o Ra’am ou com a Lista Conjunta. Do mesmo modo, os árabes poderiam fazer maioria com Netanyahu. O sentido dos dois partidos e inclusivamente a sua abstenção passam a ter um peso político que nunca antes aconteceu.
Netanyahu alega fraude
Perante estes resultados, o Likud, partido do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, apressou-se a afirmar que as eleições foram “roubadas” por partidos árabes, exigindo uma investigação da polícia e do Shin Bet (a ‘secreta’ interna). “As eleições em Israel foram roubadas por partidos árabes que apoiam o terrorismo e a eliminação do Estado judeu por meio de crimes graves como suborno, ameaças, violência, falsificação e uso de software ilegal para mobilizar eleitores”, insistiu o partido Likud em comunicado, horas depois de a Comissão Eleitoral Central (CEC) ter rejeitado as alegações de fraude.
Sendo difícil perceber-se como é que dois pequenos partidos, que concorrem regularmente às eleições, tiveram artes de enganar a poderosa máquina estatal israelita, o Likud planeava contestar os resultados das localidades árabes e alegar que a eleição foi fraudulenta. Em comunicado, o partido afirmou ter fornecido à polícia, ao Shin Bet e à Comissão Eleitoral Central (CEC) “centenas de depoimentos” e outras provas, incluindo “milhares de envelopes com dinheiro e comprovantes de votação, ameaças e violência contra membros da comissão eleitoral, vários eleitores atrás da cabine de votação, voto duplo, discrepâncias entre o número de envelopes e o número de eleitores, uso de software ilegal de mobilização de eleitores e muito mais”.
O Likud exige uma “investigação minuciosa” e uma resposta imediata da Comissão Eleitoral Central sobre a investigação, que confirmou estar a analisar as alegações. “O Comité Central de Eleições iniciou uma operação de monitorização da integridade eleitoral, como faz em todas as eleições, e, como parte dela, todas as denúncias dos partidos referentes à integridade das eleições ou a supostos erros nos resultados serão examinadas”, afirmou a CEC).
A alternativa ao centro
A única forma de os partidos hebraicos escaparem ao ascendente árabe é Netanyahu e Gadi Eisenkot acordarem fazer uma grande coligação ao centro. Ainda assim, o número de lugares dos dois partidos não chega: a coligação teria de abrir-se a outros participantes. E seria, evidentemente, um governo assente numa forte instabilidade e numa espécie de ódio político (pelo menos) entre os seus mais altos líderes.
De qualquer modo, esse é desde sempre o desejo do presidente do país, Isaac Herzog, que chegou mesmo a sugerir o regresso à rotatividade do lugar de primeiro-ministro – como já sucedeu no passado entre Naftali Bennett e Yair Lapid em 2021-22, com muito fracos resultados.
Uma outra alternativa, que Herzog quer evitar a todo o custo, é a repetição das eleições. Como também já aconteceu no passado recente. Herzog indicou que está empenhado em evitar uma repetição de 2019-2020, quando impasses persistentes levaram o país às urnas três vezes em 11 meses.
O risco de isso voltar a acontecer é grande. E o calendário apertado: o candidato a primeiro-ministro designado pelo presidente terá 28 dias para articular uma coligação, com uma possível prorrogação de 14 dias. Caso essas tentativas falhem, um segundo líder partidário poderá ter 28 dias (sem prorrogação) para tentar formar um governo, e se essa tentativa também não for bem-sucedida, uma maioria de 61 deputados poderá solicitar ao presidente que atribua a tarefa a um parlamentar específico dentro de um prazo adicional de 21 dias. Se nada disso acontecer, haverá novas eleições.
Juntos e ao vivo no Irão, outra vez
Entretanto, o presidente dos EUA, Donald Trump, atribuiu o sucesso de Benjamin Netanyahu ao seu apoio. “Quando o presidente Trump apoiou Bibi Netanyahu, a situação mudou completamente e, agora, em vez de uma derrota decisiva para um grande primeiro-ministro, parece um grande impasse, ou até mesmo uma VITÓRIA para Netanyahu. Tudo isso aconteceu DEPOIS do apoio do presidente Trump, que só quer o que é bom para o Oriente Médio, Israel e os Estados Unidos da América!”, escreveu Trump nas redes sociais.
Esta espécie de surto psicótico surge depois de Trump ter declarado formalmente o seu apoio a Netanyahu a 18 de outubro, nove dias antes das eleições, oferecendo o seu “apoio completo e total”, dias depois de ter dito que “nem sequer tinha pensado” em apoiar um candidato nas eleições em Israel.
Indiferente a isso, Netanyahu aceitou o apoio e disse algures (em vídeo) : “Donald, temos um trabalho a terminar [no Irão]… e vamos terminá-lo juntos. Vamos terminá-lo, e ninguém mais o fará”.
Israel: sondagem à boca das urnas dá vitória a Netanyahu
Uma sondagem à boca das urnas realizada para a estação televisiva Canal 12 confere ao Likud, de Benjamin Netanyahu, a obtenção de 24 lugares do parlamento, o Knesset – muiro aquém dos 61 lugares que determinam a maioria absoluta, mas dois lugares à frente do Yashar, de Gadi Eisenkot, ex-chefe do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel. A confirmar-se, este resultado vai contra a maioria das sondagens pré-eleições, que sistematicamente davam a vitória a a Eisenkot.
Mas, paralelamente, o grupo de partidos assumidamente na oposição a Netanyahu, tem uma maioria de 52 lugares – aos 22 do Yashar, somam-se os 12 do B’Yashar, dez dos Democratas e oito do Beytenu. Do outro lado, com Netanyahu, estão o Shas (oito lugares), Religious Zionism, United Torah Judaism e OtzmaYehudit (com seis cada um), num total de 50.
Além destes, pontificam ainda a Lista Conjunta, de esquerda (e favorável à solução dos dois Estados), com 11 lugares. Ou seja, se a Lista aceitar somar os seus lugares à oposição liderada por Gadi (o que não é uma evidência), o bloco teria mais que os 61 lugares necessários para formar governo. Oficialmente, a posição da Lista Conjunta em relação a uma aliança com Gadi Eisenkot prevê a possibilidade de um apoio condicional e externo (meramente parlamentar, portanto), recusando liminarmente integrar formalmente um governo liderado pelo militar. Há ainda a contar com os sete lugares do Ra’am, o partido da minoria árabe, que, ao contrário da Lista Conjunta, quer integrar formalmente um governo e fazer parte de uma coligação liderada por Gadi Eisenkot. O problema é que os seus sete lugares não são suficientes para atingir os necessários 61 deputados para a construir uma maioria.
De qualquer modo, se Netanyahu vencer, e mesmo que o seu bloco não seja à partida suficiente para atingir os 61 lugares, o presidente do país, Isaac Herzog, que assumiu o cargo em julho de 2021 e é originariamente do Likud, irá por certo convidar o ainda primeiro-ministro para tentar formar o próximo governo. Só se este não conseguir é que, em segunda escolha, irá ‘bater à porta’ de Gadi Eisenkot.
Após a contagem dos votos, Herzog consultará os líderes dos partidos eleitos antes de incumbir o parlamentar que, em sua opinião, tiver a melhor hipótese de formar um governo, o qual não precisa necessariamente ser o líder do maior partido ou bloco. Esse candidato terá 28 dias para articular uma coligação, com uma possível prorrogação de 14 dias. Caso essas tentativas falhem, um segundo líder partidário poderá ter 28 dias (sem prorrogação) para tentar formar um governo, e se essa tentativa também não for bem-sucedida, uma maioria de 61 deputados poderá solicitar ao presidente que atribua a tarefa a um parlamentar específico dentro de um prazo adicional de 21 dias. Se todas as tentativas falharem, Israel enfrentará outra eleição, com Netanyahu a permanecer como primeiro-ministro interino até que seja formado um novo governo.
Mas Herzog já disse que está empenhado em evitar uma repetição de 2019-2020, quando impasses persistentes levaram o país às urnas três vezes em 11 meses, incentivando os líderes a considerarem um governo de unidade ou de rotação envolvendo Netanyahu e Eisenkot, caso nenhum dos dois consiga formar um bloco sozinho.
Israelenses vão às urnas em eleição que pode tirar Netanyahu do poder
Nenhum dos três favoritos reconhece a possibilidade de criação de um Estado palestino e todos defendem a necessidade de desarmamento do Hamas. Por outro lado, há divergência entre eles sobre a expansão dos assentamentos na Cisjordânia. Como a votação é em cédula de papel, o resultado só deve ser conhecido no final desta quarta-feira (28).
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Eisenkot integrou o gabinete de guerra formado após o 7 de outubro, mas deixou o governo Netanyahu com críticas à condução da operação militar na Faixa de Gaza. Eisenkot acusa Netanyahu de negligenciar o resgate dos reféns e de não adotar medidas para evitar o ataque, mesmo tendo sido alertado da ação do Hamas com antecedência. O primeiro-ministro nega as acusações.
A outra força política que pode destronar o atual primeiro-ministro é formada por uma coalizão de partidos liderada por Naftali Bennett, do partido Juntos (Beyahad). O político tem perfil religioso e foi primeiro-ministro de Israel por um ano, de 2021 a 2022.
A professora de relações internacionais do Ibmec de São Paulo Karina Stange Calandrin explicou à Agência Brasil que os dois candidatos da oposição têm posição semelhante à de Netanyahu quando se trata de segurança e questão militar.
“Os três são de direita. Em termos de segurança, eles são bem parecidos. São partidos que a gente chama de falcões. Em Israel, os partidos são divididos entre falcões e pombas. Os falcões acreditam que se deve lidar com os inimigos de uma forma dura, que negociações e diplomacia não são o caminho para resolver os dilemas de Israel”, explicou.
Para o professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Michel Gherman, apesar de os três terem esse perfil linha-dura, Netanyahu se diferencia por representar uma extrema-direita com projeto autoritário para Israel.
“As diferenças fundamentais têm a ver com a posição em relação à democracia representativa. O Netanyahu é a favor de uma reforma que tiraria a autonomia completa do Judiciário e concentraria o poder na mão do Executivo”, disse.
Questão palestina
Os três partidos favoritos a assumir o poder em Tel Aviv rejeitam a criação de um Estado palestino, como determina o direito internacional.
“Hoje, na sociedade israelense, o Estado palestino perdeu muito apoio desde o 7 de outubro. Qualquer candidato que tenha a bandeira do Estado palestino não vai ganhar muitos votos”, argumentou Karina Calandrin.
Por outro lado, a especialista em política israelense destaca que há diferença entre os candidatos em relação aos assentamentos na Cisjordânia, que vêm crescendo com o apoio de partidos de extrema-direita na coalizão liderada por Netanyahu.
“Os partidos de Ben-Gvir e Smotrich [ministros de Netanyahu] têm incentivado assentamentos na Área B da Cisjordânia, o que é proibido pela legislação israelense. Esse apoio tem alimentado a violência na Cisjordânia porque os colonos invadem as terras palestinas e expulsam as famílias com a vista grossa do governo Netanyahu”, lembrou Karina.
A professora de relações internacionais do Ibmec SP avalia que os adversários de Netanyahu devem frear essa política na Área B da Cisjordânia, o que deve contribuir para reduzir a violência nesses territórios.
“Outra mudança pode ser uma propensão maior a negociar com atores internacionais já que Netanyahu tem rejeitado negociar com Catar e Egito. Isso pode mudar”, acrescentou.
Enquanto ocorre a votação nesta terça-feira, a agência de notícias Wafa, da Cisjordânia, relata casos de ataques de colonos e de forças de segurança de Israel na Palestina ocupada.
O professor Michel Gherman, da UFRJ, destacou que, entre os candidatos da oposição, Bennet tem uma posição semelhante à de Netanyahu em relação aos palestinos, até por vir do mesmo partido Likud. Mas Gherman avalia que Eisenkot pode ter uma posição mais moderada.
“Netanyahu é a favor de um Estado beligerante completo. Eisenkot é a favor de acordos, não com os palestinos neste momento, mas com os países árabes ao redor”, comentou.
Formação de governo
Como o sistema de governo de Israel é o parlamentarismo, os partidos mais votados precisam formar maioria para criação do gabinete. O Legislativo do país, chamado de Knesset, tem 120 cadeiras. A depender do resultado da eleição, o vencedor deve procurar outras legendas para tentar formar uma coalizão capaz de governar o país.
A professora Karina Calandrin calcula que tanto o partido do militar Eisenkot quanto o do ex-primeiro-ministro Bennett devem precisar do apoio de legendas árabes para formar maioria.
“Todos eles já falaram que não vão fazer aliança com os árabes israelenses. Vai ser muito difícil formar a coalizão sem os árabes. A não ser que eles mudem de ideia e cedam pra tirar Netanyahu do poder. Minha previsão é que não vai ter coalizão”, avalia.
Para o especialista Michel Gherman, uma saída é os partidos árabes apoiarem a oposição para tirar Netanyahu do poder.
“Vai ter uma solução política em que os partidos árabes não vão apoiá-los, mas vão votar contra Netanyahu. E aí a formação vai ser uma coalizão de minoria”, disse.
Sete de outubro
Após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que causou a morte de 1,2 mil pessoas, além de terem sido feitos cerca de 200 reféns, Israel lançou uma operação militar de grandes proporções em Gaza que levou à destruição de quase toda a infraestrutura civil do território, levando à morte de mais de 75 mil pessoas.
A operação em Gaza vem sendo apontada por países e especialistas como um genocídio. Ministros do governo Netanyahu têm defendido a emigração dos palestinos da região e a colonização israelense do território.
Nos últimos três anos, o país ainda se envolveu em guerras no Líbano, ataques na Síria e uma agressão contra o Irã em parceria com os Estados Unidos (EUA). Na Cisjordânia, a política de assentamentos ilegais ganhou novo impulso nos últimos anos.
Eleições vão atirar Israel para o impasse político
A sondagem mais recente para as eleições em Israel, que acontecem esta terça-feira, 27 de outubro, continuam a apontar inequivocamente para um equívoco político: indica que o bloco de oposição liderado por Gadi Eisenkot, líder do partido Yashar, deverá eleger 56 deputados, enquanto a coligação governamental do atual primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, líder do Likud, se ficaria pelos 50 lugares. Em termos de partidos individuais, o Yashar obterá qualquer coisa em redor dos 23 deputados, o Likud 21, o B’Yachad 15 e o Shas 10.
O B’Yachad é uma coligação surgida em abril passado a partir da união de dois antigos primeiros-ministros e figuras de peso da oposição israelita: Naftali Bennett, primeiro-ministro em 2021–2022 e oriundo da direita nacionalista (e é o atua líder do partido), e Yair Lapid, um dos líderes da oposição a Netanyahu, ex-primeiro-ministro e líder do partido de centro Yesh Atid. O Shas é um dos partidos que representam os judeus ultraortodoxos.
Para alguns analistas, a chave do impasse que irá estabelecer-se a partir das eleições é uma possível aliança entre o Yashar e o B’Yashar – que em princípio conseguirão obter em conjunto cerca de 70 deputados, uma margem confortável em relação aos 61 lugares que qualquer governo terá interesse em assegurar num parlamento de 120 elementos. A outra hipótese, que será sempre a segunda se o Likud não for o partido mais votado, será a repetição do atual governo – com o Likud, o Shas e um terceiro pequeno partido a cumprirem a quota dos 61 deputados.
No final de 2022, Netanyahu demorou muito tempo a conseguir agregar em seu torno os partidos necessários e suficientes para formar governo. Para isso foi indigitado pelo presidente Isaac Herzog a 13 de novembro, num quadro em que a lei israelita concede um prazo inicial de 28 dias para fechar as negociações; a 9 de dezembro, e devido à complexidade das negociações com os partidos ultraortodoxos e da extrema-direita, Netanyahu solicitou e obteve uma extensão do prazo por mais dez dias – mas só já no final do novo prazo o líder do Likud anunciou formalmente ao presidente que tinha conseguido reunir a coligação maioritária de 64 deputados.
O resto é história: a partir daí Netanyahu ficou refém das agendas dos ortodoxos e dos extremistas, que conseguiram impor as suas vontades de forma geral, emaranhando o primeiro-ministro numa série de decisões que estão muito para lá das suas próprias escolhas. O ataque do Hamas a 7 de outubro de 2023 veio agravar ainda mais as vicissitudes vividas no interior do gabinete.
Refira-se que, segundo as sondagens, o partido Otzma Yehudit (Poder Judaico), liderado por Itamar Ben-Gvir, o inenarrável atual ministro da Segurança Nacional, não só ultrapassará facilmente a barreira eleitoral de 3,25% (o mínimo para poder entrar no parlamento), como caminha para um resultado histórico ao concorrer de forma independente.
Uma campanha ‘viciada’ pelo 7 de outubro
A campanha eleitoral para as legislativas tem sido descrita por vários analistas como a mais polarizada e tensa da história recente de Israel. Sendo o primeiro ato eleitoral desde o ataque do Hamas, o debate político foi profundamente moldado pelo trauma nacional, pela segurança e pelo futuro democrático do país.
General e ex-chefe do Estado-Maior, Gadi Eisenkot centrou a sua mensagem nas falhas de segurança que permitiram o massacre de 2023. E, se ganhar, prometeu a criação de uma comissão estatal de inquérito independente e o afastamento definitivo de Benjamin Netanyahu. Acusa o ainda primeiro-ministro de mentir sobre todo o assunto e de ter caído numa “disfunção profunda no processo de tomada de decisão”. “Os cidadãos de Israel vão decidir esta terça-feira qual será o futuro, que direção a história de Israel tomará a partir de agora”, disse, em jeito de apelo ao voto – que, segundo as sondagens, deverá atingir um recorde de participação.
Do seu lado, Benjamin Netanyahu adotou uma postura combativa, tentando mostrar que “não nos renderemos”, não houve qualquer hesitação na liderança militar, não houve nenhuma concessão às pressões internacionais e que o que começou tem de ser acabado – no que tem a ver com o Irão como a principal ameaça existencial (como o Egipto já foi no passado) a Israel. “Donald, temos um trabalho para terminar. Tu disseste-o e nós vamos terminá-lo juntos”, disse recentemente.
Netanyahu concentrou a sua campanha nas guerras que leva a cabo em Gaza e no Irão – que, como diz, estão intimamente ligadas. E apelidou outros temas – como a inexistência de serviço militar obrigatório para os ultraortodoxos ou o financiamento a grupos religiosos extremistas – de “tempestades encenadas e fabricadas” para desviar as atenções do verdadeiro perigo. “Se caírem duas bombas atómicas no centro do país, quem é que vai querer saber de todas estas falsas tempestades?”, disse, ficando por esclarecer qual dos oito países que as possuem (Israel é um deles, mas o Irão não) as poderiam lançar contra o Estado hebraico.