Normal view
- teleSUR Español
- «Nos falta Nancy»: paro nacional y marchas en Argentina tras feminicidio de maestra rural
Mulher é espancada por ex-companheiro durante três horas em Olinda
Uma mulher de 27 anos foi mantida sob a mira de um revólver e agredida durante cerca de três horas pelo ex-companheiro, de 33 anos, na madrugada desta quinta-feira (29), no bairro de Águas Compridas, em Olinda. A filha da vítima, uma criança de 2 anos, também foi agredida.
O homem morreu após ser baleado por policiais militares durante a ocorrência. À TV Jornal, a vítima conta que já tinha uma medida protetiva contra ele, mas mesmo assim continuava a procurá-la e a ameaçá-la.
Ameaças de morte e espancamento
De acordo com o relato da vítima, o ex-companheiro invadiu a residência durante a madrugada, aparentemente sob efeito de álcool e drogas, e começou a agredi-la. Ela contou que recebeu socos, chutes e diversas coronhadas na cabeça, no rosto e em outras partes do corpo. Em determinado momento, chegou a desmaiar.
O relacionamento durou quase dois anos e, segundo a mulher, foi marcado por episódios de violência. Ela afirmou que já havia procurado familiares do ex-companheiro para relatar as agressões e que tinha uma medida protetiva, mas ele não aceitava o fim da relação.
Durante o ataque, o homem mantinha um revólver calibre 32 apontado para ela e fazia ameaças de morte. A filha, de 2 anos, tentou se aproximar da mãe enquanto chorava, mas também foi agredida. "Minha filha foi para cima dele chorando, de 2 anos, ele deu um tapa no rosto dela que ela caiu sentada. E ela dizia 'não, mamãe, se levanta não, mamãe, ele vai matar a gente'", contou a vítima em entrevista à TV Jornal.
Pedido de ajuda durante distração
A mulher contou que ficou por horas sob ameaças e agressões, sem conseguir pedir socorro. Vizinhos teriam ouvido os gritos, mas, segundo ela, não foram até a residência por medo. Em um momento de distração do agressor, a vítima conseguiu ligar para uma irmã, que foi até a casa por volta das 6h. A mulher também acionou a polícia.
Uma equipe tática do 1º Batalhão da Polícia Militar foi enviada ao endereço. Conforme o relato da ocorrência, o homem estava alterado e passou a ameaçar a vítima e seus familiares. Ele também teria apontado a arma para os policiais, que reagiram com disparos. O homem foi socorrido para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Tabajara, mas não resistiu aos ferimentos.
A vítima também foi levada à UPA de Tabajara devido aos ferimentos. Após receber alta, ela seguiu para o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), no Recife, acompanhada da mãe, para prestar depoimento. Abalada, ela relatou que o ex-companheiro mantinha a arma em mãos durante todo o período e ameaçava matar tanto ela quanto a filha. A criança também ficou traumatizada com a violência, segundo a mãe.
O caso será investigado pela Polícia Civil, que deverá apurar as circunstâncias da ocorrência e da morte do homem.
Siga o Jornal do Commercio no Instagram e fique por dentro de tudo


© TV Jornal
Jovem fica em estado grave após namorado atear fogo nela na Bahia
Uma jovem de 21 anos sofreu uma tentativa de feminicídio após o namorado atear fogo nela na noite do último domingo (25), em Vitória da Conquista, no sudoeste da Bahia. Paloma da Silva Gomes está internada em estado grave, com queimaduras de segundo e terceiro graus.
Segundo a irmã da vítima, o autor do ataque, Saymon Santos Silva, teria jogado um líquido sobre ela e, em seguida, ateado fogo. A Polícia Civil investiga o caso como tentativa de feminicídio. O suspeito está foragido.
Segundo a irmã, Paloma contou à família que estava de costas quando o namorado jogou um líquido sobre ela. Ao se virar, ela teria sido atingida novamente.
Em seguida, Saymon acendeu um isqueiro e ateou fogo na jovem. Paloma teria tentado apagar as chamas sozinha, usando baldes de água. Depois, o pai do suspeito levou a jovem ao hospital.
Polícia investiga tentativa de feminicídio
A Polícia Civil da Bahia informou que a Deam (Delegacia Especial de Atendimento à Mulher) de Vitória da Conquista instaurou um inquérito para investigar a tentativa de feminicídio.
Segundo a corporação, a jovem deu entrada em uma unidade hospitalar com queimaduras pelo corpo. Diligências estão em andamento para esclarecer as circunstâncias, a autoria e a motivação do crime.
Após as informações preliminares, o caso foi encaminhado à DH (Delegacia de Homicídios) de Vitória da Conquista, que dará continuidade às investigações.
Jovem deve passar por tratamento prolongado
Paloma passou por uma cirurgia na segunda-feira (26) e, nesta quinta-feira (29), foi transferida para o HGE (Hospital Geral do Estado), em Salvador, para continuar o tratamento.
De acordo com a irmã, Paloma continua sentindo dores intensas, mesmo com o uso de medicamentos. A família afirma que o tratamento deve durar meses.
Família relata dificuldades para registrar ocorrência
A irmã afirmou que procurou a delegacia na segunda-feira para registrar a ocorrência, mas enfrentou dificuldades para ser atendida. Segundo ela, agentes teriam dito que a própria vítima precisaria comparecer à unidade, apesar de estar internada em estado grave.
A irmã informou que a família conseguiu registrar a queixa posteriormente e repassou à polícia as informações relatadas por Paloma. Outros familiares também devem prestar depoimento.
Feminicídio: projeto monitora agressores com tornozeleira eletrônica
*Sob supervisão de Carolina Figueiredo
Vídeo mostra suspeita de feminicídio separando soda cáustica em loja de MG
A PCMG (Polícia Civil de Minas Gerais) segue investigando a morte de Beatriz Vitória Aparecida Neves Mota, de 27 anos, que estava desaparecida desde 9 de outubro e foi encontrada enterrada em uma cova em Jaboticatubas, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, no dia 21.
A investigação apura se Beatriz teria sido atraída para uma emboscada pelo ex-namorado, Samuel Castro Melo, e a atual namorada dele, Carla Luiza da Silva.
Uma adolescente de 15 anos, também suspeita de participação no crime, prestou depoimento e descreveu aos policiais uma sequência de agressões que foram praticadas contra a vítima e uma tentativa de fuga antes da morte.
Segundo as informações reunidas durante a investigação, a vítima teve os braços amarrados com arames e foi atingida por soda cáustica ainda viva. Exames também identificaram a presença da substância na garganta dela.
Um vídeo obtido pela Itatiaia mostra Carla Luiza da Silva em uma loja separando vários recipientes de soda cáustica. Fontes ligadas à investigação afirmam que os produtos teriam sido furtados.
Segundo a polícia, a substância teria sido utilizada para acelerar a decomposição do corpo.
Ainda segundo o depoimento da adolescente, ela estava no banco traseiro de um Volkswagen Up branco junto com Carla e Samuel, ex-namorado de Beatriz e suspeito do crime, que dirigia o veículo. De acordo com ele, após ser atraída para a emboscada, Beatriz entrou no carro achando que iria se encontrar com Samuel, mas teve os braços amarrados e um pano foi colocado sobre sua a cabeça.
O grupo seguiu pela MG-020 e cerca de 20 minutos depois, Samuel acessou uma estrada de terra na direção da região conhecida como Cachoeira Palmeiras em Jaboticatubas, região metropolitana de Belo Horizonte. Após percorrer aproximadamente cinco quilômetros, o veículo chegou a uma área de lotes vagos chamada Terra dos Portugueses.
No local, Samuel estacionou o carro e abriu o porta-malas, de onde retirou objetos que a adolescente não conseguiu identificar. Ainda de acordo com o relato, Carla, Beatriz e Samuel seguiram para um ponto mais afastado, fora do campo de visão da adolescente.
Segundo a investigação, Beatriz tentou fugir, mas Samuel foi atrás dela e conseguiu alcançá-la. A vítima ainda tentou soltar os arames que prendiam seus braços, mas durante a tentativa de fuga ela foi atingida por água e soda cáustica. Cerca de três horas depois, o casal voltou pro carro sem a jovem.
A PCMG afirmou que foi a adolescente que prestou depoimento que indicou aos investigadores o local em que o corpo havia sido enterrado. Os agentes informaram ainda que as informações sobre a dinâmica do crime são baseadas no relato da adolescente e nos exames realizados durante a investigação.
Carla está presa preventivamente, assim como Samuel Castro de Melo. Os dois são investigados pela morte da jovem. PCMG investiga uma eventual motivação passional para o crime.
Justiça nega habeas corpus de tenente-coronel preso por feminicídio em SP
A Justiça de São Paulo negou, na última sexta-feira (23), um novo pedido de habeas corpus apresentado pela defesa do tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, réu pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana.
A CNN Brasil teve acesso à íntegra da decisão, relatada pelo desembargador César Augusto Andrade de Castro, da 9ª Câmara de Direito Criminal do TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo).
No pedido, a defesa solicitou a revogação da prisão preventiva ou a substituição por medidas cautelares, além da expedição de um alvará de soltura. Os advogados alegaram que a prisão não tem fundamentação adequada e representa constrangimento ilegal ao réu.
A defesa também argumentou que Neto tem endereço fixo, ocupação lícita e não representa risco à ordem pública ou à instrução processual. Segundo o requerimento, o tenente-coronel colaborou com as investigações, inclusive ao “participar espontaneamente da reprodução simulada dos fatos”.
Ao analisar o pedido liminar, o Tribunal não identificou ilegalidade evidente que justificasse a soltura imediata do réu. Na decisão, o desembargador afirmou que os argumentos apresentados pela defesa se confundem com o mérito do habeas corpus e, portanto, exigem uma análise mais aprofundada, que não cabe nos limites da apreciação liminar.
“Não sou assassino”
Durante interrogatório de mais de oito horas, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, réu pelo feminicídio da esposa, a soldado Gisele Alves Santana, declarou à Justiça que não é assassino e que segue preso injustamente há mais de 200 dias por um crime que não cometeu.
A CNN Brasil obteve acesso a íntegra do depoimento, prestado na última segunda-feira (5), no Fórum Criminal da Barra Funda, na zona oeste de São Paulo.
Ao longo do relato, Neto relembra o relacionamento com Gisele e afirma que, após o ocorrido, foi criada uma narrativa de que ele era um homem agressivo e violento com ela.
“Porque até o dia 18 de fevereiro de 2026 [dia da morte da soldado], se eu colocasse o meu nome no Google, tinha tantas coisas boas de mim, tantas ocorrências boas, 35 anos de serviço […] Eu não sou um assassino”, afirma.
Leia também: Em depoimento, tenente-coronel fala em armação da perícia para incriminá-lo
Réu por feminicídio e fraude processual
Geraldo Leite Rosa Neto responde pelos crimes de feminicídio e fraude processual. Segundo a investigação, o tenente-coronel interferiu na cena do crime e no curso do caso.
Para o Ministério Público, o homicídio foi praticado por motivo torpe, relacionado ao sentimento de posse e à recusa do acusado em aceitar o fim do relacionamento. A denúncia também afirma que Gisele foi surpreendida, sem possibilidade de defesa, circunstância que qualifica o crime.
Após o interrogatório de Neto, ocorrido no dia 5 de outubro, o oficial e a defesa da família de Gisele devem apresentar as alegações finais do caso. Finalizado esse processo, a juíza do caso avaliará os autos e decidirá se o caso será submetido ou não a júri popular.
- Diário da Manhã
- Polícia investiga suspeita de feminicídio após casal ser encontrado morto em Anápolis
Polícia investiga suspeita de feminicídio após casal ser encontrado morto em Anápolis
Um homem e uma mulher foram encontrados mortos dentro de uma residência na região Sul de Anápolis, nesta terça-feira (20/10). Os corpos apresentavam ferimentos provocados por disparos de arma de fogo. O neto das vítimas encontrou o casal sem vida e acionou as autoridades para comunicar a ocorrência.
A principal hipótese investigada pela polícia é de que o homem atirou contra a companheira e provocou a morte dela antes de tirar a própria vida. A dinâmica do caso ainda depende da apuração das circunstâncias e dos exames periciais. Até o momento, as autoridades não divulgaram os nomes das vítimas nem apresentaram informações adicionais sobre o que teria motivado o episódio.
A área onde o casal foi encontrado permaneceu isolada para o trabalho das equipes responsáveis pela perícia. Os procedimentos devem contribuir para esclarecer a sequência dos acontecimentos e reunir elementos que auxiliem a investigação. Por enquanto, a suspeita de que o homem matou a companheira antes de cometer suicídio é a principal linha considerada pelas autoridades.
O caso ampliou a sequência de mortes violentas registradas em Anápolis ao longo de outubro. Com as duas vítimas encontradas nesta terça-feira, o município chegou a oito homicídios em um intervalo de apenas 11 dias. A quantidade de ocorrências recentes colocou a violência na cidade em evidência, diante de episódios registrados em diferentes circunstâncias.
No fim de semana anterior, outro duplo homicídio teve como vítimas um casal em uma adega de Anápolis. Nesse episódio, dois suspeitos chegaram a ser detidos, mas acabaram soltos após uma decisão judicial. O caso integra a sequência recente de crimes violentos no município e reforça o cenário de preocupação com as ocorrências registradas neste mês.
The post Polícia investiga suspeita de feminicídio após casal ser encontrado morto em Anápolis appeared first on Diário da Manhã - O Jornal do leitor Inteligente.
- Agência Pública
- Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva
Na Amazônia Legal, 9 em cada 10 vítimas de feminicídio em 2025 não tinham medida protetiva
Cíntia Tatiele Pereira perdeu a prima, a servidora pública Priscila Pereira, vítima de feminicídio, em Porto Velho (RO). Priscila foi assassinada em 2020 com um tiro na cabeça pelo marido, o sargento da Polícia Militar Edmundo do Amaral, que tirou a própria vida em seguida.
Antes do crime, Priscila visitou Cintia, que, à época, morava em São Paulo. Durante sua estadia, chamou a sua atenção o comportamento “demasiadamente apegado à esposa” de Edmundo. Cíntia lembra ter tido poucas oportunidades de ficar a sós com a irmã. Em uma ida à escola para deixar a filha, as duas conseguiram conversar e Priscila revelou que, há meses, era agredida psicológica e fisicamente pelo marido. “Em uma briga, ele apontou a arma para ela, que o denunciou. Ele foi submetido a diligências internas, mas nunca ficou preso”, rememora.
Um dia, Priscila foi à casa de uma amiga cutilar as unhas e fazer um trabalho acadêmico. O sargento pediu a chave do carro dela para levar pizza para os filhos e ela se negou a entregar. Travou-se uma discussão, eles foram para o banheiro, quando dois disparos foram ouvidos. Para a prima, foi um assassinato premeditado: “Tanto que ele ligou para a ex-mulher pedindo que cuidasse dos filhos que ele iria fazer uma besteira”, afirma Cíntia, que também foi vitima de violência em um dos relacionamentos e se tornou diretora da Coordenadoria de Políticas para as Mulheres de Porto Velho.

Apesar de ter feito denúncia contra o marido, no momento da morte, Priscila não tinha nenhuma medida protetiva. Ela não é a única. Em 2025, oito dos nove estados da Amazônia Legal registraram 200 feminicídios – 90% das vítimas não tinham qualquer medida de proteção ativa na hora do óbito, segundo dados inéditos obtidos pela Agência Pública. Rondônia, estado de origem de Priscila, registrou 25 mortes, mas em todos os casos a mulher não possuía medida cautelar. No Brasil, foram 1.568 mulheres vítimas de feminicídio em 2025 – mais de quatro por dia –, aumento de 4,7% em relação a 2024.
Seis dos dez estados com as maiores taxas de feminicídio do país estão na Amazônia Legal. O Acre, por exemplo, é o campeão brasileiro com a maior taxa do crime em 2025, com 3,2 mortes por 100 mil mulheres, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O número é mais do que o dobro da taxa média brasileira de 1,4. Rondônia (com 2,9), Mato Grosso (2,7) e Tocantins (2,5) completam o ranking das maiores taxas de feminicídio do Brasil.
Os dados foram pedidos pela Agência Pública à Secretaria de Segurança Pública (SSP) de todos os estados da Amazônia Legal – só o Pará não respondeu. No entanto, o estado é o que teve a menor taxa de feminicídio por cem mil mulheres na Amazônia.
A medida protetiva no caso da violência de gênero é uma ordem judicial destinada à proteger a mulher, impedindo que o agressor se aproxime da vítima. Em alguns casos, o abusador pode ficar sob monitoramento eletrônico e a medida pode vir acompanhada de acolhimento para a mulher e os filhos, caso não tenha condições financeiras ou rede de apoio segura.
A violência contra a mulher possui etapas que escalam de agressões verbais à físicas. Quanto antes a denúncia for realizada, mais rápido esse ciclo pode ser interrompido. Todavia, em muitos casos as agressões avançam silenciosamente, incólumes aos olhos do Estado. Para se ter uma ideia, apenas 10 das 25 vítimas de feminicídio em Rondônia tinham registros de denúncias anteriores, de acordo com a SSP.
No segundo estado com a maior taxa de feminicídio do Brasil, o crime virou promessa de campanha dos principais candidatos ao governo. Marcos Rogério (PL), líder da intenção de voto em Rondônia, propõe que “os serviços de saúde estejam preparados para identificar situações de violência, que haja ampliação da Lei Maria da Penha e fortalecimento das delegacias da mulher”. Já o segundo nas intenções de voto, Adailton Furia (PSD), fala em “implantar unidades especializadas nas principais regiões do estado e ampliar a Patrulha Maria da Penha”.
Já no Acre, campeão no ranking de taxa de feminicídio, a candidata à reeleição Mailza Silva (PP), propõe “a interiorização dos serviços, ampliação dos canais de denúncia e maior rigor no monitoramento de agressores”. O candidato Alan Rick (Republicanos), segundo colocado nas pesquisas, defende o “reforço na corporação das delegacias da mulher e autonomia para reduzir a dependência econômica das mulheres de homens abusivos”.
A concentração de serviços nas capitais
As altas taxas de feminicídios em alguns estados da Amazônia Legal pode ser explicada, entre outros fatores, pela “concentração dos serviços nas capitais”, analisa a professora da faculdade de Direito da Universidade Federal do Pará (UFPA) e coordenadora da Clínica de Atenção à Mulher em Situação de Violência, Luanna Thomaz.

A pesquisadora observa que “o feminicídio não é algo homogêneo”, ou seja, “fatores culturais, religiosos e geográficos influenciam na forma como ele é registrado, processado e julgado”. No caso das cidades amazônidas, prossegue a especialista, os serviços de combate estão concentrados nas capitais, enquanto as cidades do interior não possuem infraestrutura adequada da rede de proteção.
Não é por acaso que a taxa de feminicídio é mais alta em cidades de até 50 mil habitantes do que em capitais ou municípios maiores, segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Outro desafio destacado por Thomaz é que “muitas mulheres têm dificuldade não só de buscar uma medida protetiva por não ter acesso a uma delegacia da mulher ou qualquer delegacia perto, mas também de fazer com que essa medida protetiva seja realidade a ponto de ela não ser morta”.
Em Rondônia, três mulheres assassinadas em 2025 tiveram medida protetiva em algum momento do ciclo de violência. “Uma medida foi revogada e duas foram extintas antes da ocorrência do feminicídio”, disse à Pública a Secretaria de Estado de Comunicação.
O relatório Sócio-Econômico da Mulher 2026, elaborado pelo Observatório da Igualdade de Gênero e o Ministério das Mulheres, retrata em números a insuficiência de equipamentos da rede de proteção às vítimas de violência. Os sete estados da região Norte representam 45% do território nacional e têm área superior à da Índia. Esses estados possuem 66 delegacias especializadas em violência contra a mulher, 19 juizados e varas especializadas, dez núcleos de Defesa nas Defensorias Públicas, 17 casas abrigo e só 13 Patrulhas Maria da Penha. Esta última iniciativa consiste em rondas por bairros onde há mulheres com medidas protetivas ativas para evitar o descumprimento.
A realidade no interior
Era mais um dia comum no interior do Amazonas. Na quarta-feira, 20 de agosto, Lene Tavares levou a irmã, Ana Tavares, 20 anos, de moto à escola onde ela trabalhava. Naquela mesma noite, o aplicativo de troca de mensagens sinalizou que Ana ficara online até às 19h45. No dia seguinte, como ela não foi trabalhar, colegas de trabalho foram à sua residência, um quarto na Pousada Flor da Mata, em Barcelos (400 km) de Manaus, após ligarem insistentemente para o celular sem que ela atendesse.

Chegando ao local, encontraram Ana Tavares morta, enrolada em um lençol, cheia de hematomas e cercada por cápsulas de medicamentos. A irmã, em choque, conta que não conseguia imaginar o que poderia ter acontecido. “Ela estava com a mesma farda que usava quando eu a deixei na escola”, lembra.
Lene explica que Ana namorava um policial que, na noite da sua morte, estava de plantão no quartel de Barcelos. Antes de morrer, a jovem relatou a outra irmã “que procurou um jovem chamado Alex para colocar um piercing e que teria sido assediada e passou a temê-lo”, relembra.
Ao lado de familiares, Lene pediu as imagens das câmeras de segurança da pousada. Os vídeos mostram um jovem de camisa vermelha entrar no quarto da vítima segurando uma sacola. Alguns minutos depois, ele sai da pousada e retorna sem a sacola nas mãos. A irmã levou as imagens à polícia. Quando a reportagem da Pública entrevistou Lene, em 15 de setembro, faltavam poucos dias para completar um mês da morte da irmã. Ela expressava angústia com a falta de respostas.
Entramos em contato com a Promotoria de Justiça de Barcelos, que disse que “a Polícia Civil concluiu as investigações do inquérito e que o Ministério Público do Estado do Amazonas já ofereceu denúncia formal contra o suspeito, que já evoluiu para Ação Penal e está em fase de citação do acusado”, diz a nota.
Ainda segundo o órgão, “os exames comprovaram que a vítima foi morta por asfixia” E que, além disso, a perícia apontou que a cena do crime foi alterada para simular um suicídio – com a alteração da posição do corpo e a inserção de medicamentos controlados ao lado da vítima. O acusado, ainda de acordo com o Ministério Público, “nutria um sentimento/interesse pela vítima, embora não tivesse formalmente estabelecido um relacionamento amoroso público entre eles”. Por fim, o órgão conta que “manifestou-se pela prisão preventiva do acusado”, porém, o Poder Judiciário “indeferiu aplicando medidas cautelares diversas da prisão”, concluiu.

Para mulheres como Ana Tavares, que vivem no interior, além de indígenas e ribeirinhas, que residem em territórios dentro da floresta, a violência de gênero ganha um aliado: o isolamento. Luanna Thomaz, da UFPA, frisa que os municípios amazônicos possuem distâncias de aldeias, comunidades e municípios que “não são calculadas por quilômetros, mas, sim, por horas de avião, barco e caminhadas”, destaca. “A região ainda têm dificuldade de atender mulheres ribeirinhas”, completa.
A diretora de Pesquisa do Instituto Igarapé, Melina Risso, diz que o órgão monitorou, entre os anos de 2017 e 2022, os casos de violência contra a mulher na Amazônia brasileira, colombiana e peruana. Com base nesse estudo, ela avalia que “o enfrentamento à violência nessa região ainda é muito inicial”. E que há fatores culturais e ambientais que intensificam o problema. “Há culturas indígenas que são bem patriarcais e percebemos também que defensoras ambientais passaram a sofrer violência de gênero com maior intensidade, à medida em que assumiram a liderança na defesa dos seus territórios”, explica.

Para pedir uma medida protetiva, as mulheres precisam se dirigir a uma delegacia especializada ou a uma delegacia comum e, caso não tenha acesso a nenhum desses equipamentos, pode ir direto à Justiça. Para uma mulher que vive na Terra Indígena Yanomami, por exemplo, o acesso físico a um desses equipamentos é uma operação de grande porte. E, ao chegar ao local, ainda há a barreira do idioma. “Em muitos desses locais, sequer há intérprete para auxiliar na comunicação entre a vítima e o delegado”, acrescenta.
Imagine que uma mulher indígena ou ribeirinha alvo de violência, que mora na Reserva Extrativista Riozinho do Anfrísio, na Terra do Meio, terá que andar três dias de barco até Altamira, no Pará, para realizar uma denúncia ou pedir uma medida protetiva. Nessas regiões, a morte pode chegar antes do Estado.

Cárcere privado, uma fuga, um descuido e a morte
“Nunca mais eu fui a mesma desde que ela foi embora”. É com essa frase que a diarista Ivonete Silva, 55 anos, que mora em Macapá, resume os últimos seis anos da vida sem a filha Ingridy Cordeiro. A jovem foi assinada pelo então namorado em 2020, enquanto dormia no apartamento dele.
A diarista soube que a filha se relacionava com o que viria a ser o seu algoz através de uma postagem nas redes sociais. Procurou as amigas de Ingridy e logo soube que Edigelson “tinha histórico de práticas de violência contra outras mulheres. “Certa vez, perguntei sobre ele à Ingridy e ela disse ‘não é nada importante, mãe, fique tranquila’”, explicou Ivanete.
O tempo passou e Ivonete percebeu a filha mudar de comportamento. “Ela passava dias sem vir em casa, sem ver as filhas. Mudou muito o jeito de agir com a família”. Novamente, a mãe se informa com as amigas e afirma ter descoberto que “ele batia nela, deixava ela em cárcere privado. Ela era muito simpática, muito alegre, se dava bem com todo mundo, o rapaz não gostava dessa simpatia e ficava batendo nela”, detalha.

Em outubro de 2020, Ingridy revelou à mãe tudo o que estava passando. Elas decidiram passar uma temporada em Belém, no Pará. No mês seguinte, Ingridy informa à mãe que iria retornar à Macapá para receber um dinheiro de uma colega. De volta à cidade, Ivonete conta que o rapaz, tão logo soube do seu retorno, a atraiu ao apartamento. “Só tive notícias dela quando ele deu um tiro na cabeça dela, sem chance de defesa”, explica.
Edigelson foi preso um ano depois do crime, em uma igreja, na Vila Cabanos, em Barcarena, interior do Pará, condenado à 27 anos de prisão. Durante o julgamento, o Ministério Público do Amapá descobriu que ele fora condenado anteriormente por furto e tráfico de drogas, com trânsito em julgado”.
Ivonete passou a cuidar das netas, filhas de um relacionamento anterior de Ingridy. Realiza faxina às segundas, quartas e sextas para garantir o sustento da família, pois a pensão do falecido marido e o Benefício de Prestação Continuada de uma das netas, diagnosticada com autismo, não são suficientes para manter a família. “A minha vida mudou muito depois que ela foi embora. Peço a Deus para me dar muita saúde”, explica. “Peço justiça para que punam essas pessoas. Elas acabam a vida da gente”.
