
As famílias portuguesas pouparam 26,4 mil milhões de euros em 2025. É um valor superior ao do ano anterior, mas que esconde uma realidade menos positiva: descontando a inflação, a poupança diminuiu 1%. Entre as despesas essenciais, os encargos com a habitação e o pagamento de créditos, a margem financeira dos agregados continua condicionada. E nem todas as famílias têm a mesma capacidade para colocar dinheiro de lado.
O retrato consta do estudo “Poupança, despesas e dívidas: para onde vai o dinheiro das famílias?”, divulgado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos (FFMS), através da Pordata, por ocasião do Dia Mundial da Poupança, que se assinala a 31 de outubro. A análise cruza dados sobre poupança, rendimentos, património, despesas e endividamento, permitindo perceber como está organizada a vida financeira das famílias portuguesas e como se compara com a realidade europeia.
Em 2025, a poupança das famílias residentes em Portugal atingiu 26.413 milhões de euros, mais 302 milhões do que em 2024. O aumento foi de 1,2% em termos nominais, mas, em valor real, registou-se uma diminuição de 1%.
A taxa de poupança fixou-se em 12,3% do rendimento bruto, abaixo dos 12,5% registados em 2024, mas acima dos 12,1% observados em 2020, ano marcado pela pandemia. Portugal continua, ainda assim, abaixo da média da União Europeia, que se situou em 14,3% em 2025.
Portugal continua abaixo da média europeia
Na comparação entre os períodos de 2016–2020 e 2021–2025, os dois últimos períodos de cinco anos, a poupança média das famílias em Portugal aumentou 53% em termos reais, o 5.º maior crescimento entre os 27 países da União Europeia. No conjunto da UE, 21 países registaram um aumento, com Chipre, Malta e Chéquia a apresentarem o crescimento mais expressivo. Portugal destaca-se ainda por nunca ter registado poupança negativa desde 1995, ao contrário da Bulgária, da Grécia e da Roménia, que apresentaram valores negativos nos três anos mais recentes.
A comparação com os restantes países da União Europeia mostra diferenças significativas. Em 2025, a taxa de poupança atingiu 19,2% na Alemanha e na Chéquia, enquanto a Dinamarca registou 14,9%. A média europeia foi de 14,3%, contra 12,3% em Portugal. Itália ficou abaixo de Portugal, com 11%.
Os dados disponíveis para 2024 mostram uma taxa de poupança de 20% na Alemanha, 17,9% em França, 16,7% nos Países Baixos, 12,7% em Espanha e 11,2% em Itália. Portugal registava então 12,5%, face a uma média europeia de 14,5%.
A evolução portuguesa é, contudo, mais favorável quando se considera a poupança média anual ao longo de dois períodos de cinco anos. Entre 2016-2020 e 2021-2025, aumentou 53% em termos reais, o quinto maior crescimento entre os 27 Estados-membros.
Só Chipre, com uma subida de 195%, Malta, com 147%, Chéquia, com 78%, e Irlanda, com 60%, registaram aumentos superiores. Na União Europeia, 21 países tiveram uma evolução positiva. A Alemanha registou um crescimento de 10%, a Suécia de 9%, a Eslováquia de 8% e Itália de apenas 1%. A Estónia foi o país com a maior quebra entre os casos apresentados, com uma diminuição de 16%.
Portugal destaca-se ainda por nunca ter registado poupança negativa desde 1995. Bulgária, Grécia e Roménia apresentaram valores negativos nos três anos mais recentes considerados no estudo.
A evolução da poupança ocorreu num contexto de recuperação dos salários reais. Entre 2020 e 2024, o salário médio real aumentou em mais de 80% dos Estados-membros. Portugal registou o quinto maior crescimento, de 11,3%. O salário médio mensal ajustado a tempo completo atingiu 2.068,2 euros em 2024.
A subida da poupança não depende, porém, apenas da evolução dos salários. O estudo assinala que também se verificou um aumento das taxas de poupança em países onde o salário médio perdeu poder de compra, como Alemanha, Estónia, Finlândia, Grécia, Itália e Suécia.

A poupança portuguesa recuperou depois da pandemia
A evolução da taxa de poupança em Portugal mostra uma recuperação nos últimos anos, embora com algumas oscilações. Em 2018, situava-se em 6,9% e, no ano seguinte, em 7%. Em 2020, subiu para 12,1%, antes de recuar para 11% em 2021 e 7,3% em 2022. Em 2023, voltou a aumentar, para 8,9%, e em 2024 atingiu 12,5%. Em 2025, ficou nos 12,3%.
Na União Europeia, a taxa média passou de 11,6% em 2018 para 12,2% em 2019. Em 2020, no primeiro ano da pandemia, disparou para 18,3%, descendo para 16,3% em 2021 e 12,7% em 2022. Recuperou para 13,6% em 2023 e 14,5% em 2024, fixando-se em 14,3% em 2025.
Em Portugal, o valor total poupado também aumentou de forma expressiva na comparação entre os dois quinquénios analisados. A poupança média anual passou de 13.587 milhões de euros, entre 2016 e 2020, para 20.781 milhões, entre 2021 e 2025, a preços reais.
Habitação, alimentação e transportes levam quase dois terços do orçamento
Para perceber o que acontece ao dinheiro das famílias, é preciso olhar para as despesas. De acordo com o Inquérito às Despesas das Famílias de 2022/2023, cada agregado gastava, em média, 23.900 euros por ano. As famílias com maiores despesas gastavam, em média, mais do dobro dos agregados com menos despesas (34.994 € no 5º quintil vs. 16.294 € no 1º quintil).
A habitação, incluindo água, eletricidade, gás e outros combustíveis, absorvia 39,3% do orçamento. Seguiam-se a alimentação, com 12,9%, e os transportes, com 12,1%. Em conjunto, estas três categorias representavam mais de 64% das despesas familiares.
A pressão é particularmente evidente nos agregados com menores despesas. Entre os 20% de famílias com menos gastos, a habitação representava 41,5% do orçamento e a alimentação 15,8%. Nos 20% com maiores despesas, os valores eram de 40,1% e 9,8%, respetivamente.
A diferença também se verifica no valor absoluto das despesas. As famílias com maiores gastos, pertencentes ao quinto quintil, despendiam em média 34.994 euros por ano, mais do dobro dos 16.294 euros das famílias com menores despesas.
Os agregados com maiores despesas destinavam 6,2% do orçamento a acessórios para o lar, equipamento doméstico e manutenção corrente da habitação, contra 3,1% entre os que menos gastavam. No lazer, recreação, desporto e cultura, a diferença era igualmente expressiva: 4,5% contra 2,1%.
Já a alimentação tinha um peso superior nos orçamentos mais reduzidos. Os produtos alimentares e bebidas não alcoólicas representavam 15,8% das despesas das famílias com menores gastos, contra 9,8% nas famílias com maiores despesas.
Quase dois milhões de famílias têm dívidas
Além das despesas correntes, o endividamento continua a pesar nos orçamentos. Em 2024, cerca de 1,9 milhões dos 4,5 milhões de agregados familiares residentes em Portugal tinham algum tipo de dívida, o equivalente a 41,7%. A proporção diminuiu cinco pontos percentuais face a 2020, devido à redução do número de famílias com empréstimos para a compra da residência principal.
A hipoteca da habitação própria era a dívida mais frequente, abrangendo 24,7% dos agregados. Seguiam-se os empréstimos sem garantia imobiliária, contraídos por 18,7% das famílias, e as dívidas de cartões de crédito, linhas de crédito e descobertos bancários, que afetavam 10,3%.
A idade é um fator importante na exposição ao endividamento. Mais de metade dos agregados cujo indivíduo de referência tinha menos de 35 anos apresentava dívidas (53,9%). A proporção subia para 64,9% entre os 35 e os 44 anos e situava-se em 63,1% na faixa dos 45 aos 54 anos. A partir daí, a incidência diminuía. Entre os 55 e os 64 anos, 44,2% dos agregados tinham dívidas, descendo para 20,9% entre os 65 e os 74 anos e para apenas 8% nas famílias com 75 ou mais anos.
O esforço financeiro associado ao pagamento das dívidas também merece atenção. Entre os agregados endividados, metade destinava pelo menos 15% do rendimento líquido anual ao serviço da dívida. Entre as famílias cujo indivíduo de referência tinha entre 35 e 44 anos, o rácio mediano subia para 17%.
A diferença entre gerações é ainda mais acentuada quando se compara o valor da dívida com o rendimento anual. Metade das famílias endividadas entre os 35 e os 44 anos tinha uma dívida equivalente a, pelo menos, 180,5% do rendimento líquido anual. Nos agregados com 75 ou mais anos, o valor mediano era de 15,9%.
Um em cada cinco contribuintes recebe até 625 euros por mês depois do IRS
As diferenças na capacidade financeira também se refletem nos rendimentos declarados. Em 2024, um em cada cinco contribuintes declarou rendimentos anuais até 7.500 euros, depois de deduzido o IRS liquidado. O valor corresponde a 625 euros por mês e era cerca de 24% inferior ao salário mínimo nacional desse ano.
Este limiar aumentou 30% face a 2020 em termos nominais e 12% em termos reais, descontando a inflação.
No extremo oposto, um em cada cinco contribuintes teve um rendimento anual superior a 20.712 euros depois da dedução do IRS, equivalente a mais de 1.726 euros mensais. Este valor também cresceu face a 2020: 26% em termos nominais e 9% em termos reais.
A casa representa metade do património das famílias
O património das famílias também aumentou. Em 2024, a riqueza líquida média dos 4,5 milhões de agregados familiares residentes em Portugal atingia 278.300 euros, mais 51% do que em 2020 em termos nominais e 21% em termos reais.
Mas a média esconde diferenças importantes. A riqueza líquida mediana era de 143.300 euros, o que significa que metade dos agregados tinha um património igual ou inferior a esse valor e a outra metade igual ou superior. Trata-se do património líquido médio por agregado, independentemente do número de pessoas que o compõem, e não de rendimento ou dinheiro disponível para gastar.
A habitação própria é o principal componente da riqueza das famílias. Em 2024, a residência principal representava 50,3% do valor total dos ativos reais e financeiros dos agregados. Os outros bens imóveis correspondiam a 23,7%, enquanto os negócios por conta própria representavam 11,3%.
Os restantes ativos tinham pesos mais reduzidos: os veículos motorizados representavam 3,4%, os depósitos a prazo 5,4%, os depósitos à ordem 2,7%, os ativos transacionáveis 1,4%, as joias, obras de arte e outros objetos de valor 0,6%, os planos voluntários de pensões 0,6% e outros ativos financeiros 0,6%.
A composição do património varia bastante consoante a riqueza das famílias. Entre os 20% de agregados com menor património, os veículos motorizados representavam 33,3% dos ativos e os depósitos à ordem 13,2%. A residência principal tinha um peso de 34,5%, enquanto os depósitos a prazo correspondiam a 6%.
No grupo intermédio, entre os percentis 40 e 60, a habitação própria representava 76,7% do património. Já entre os 10% mais ricos, o peso da residência principal descia para 30,2%. Neste grupo, os outros imóveis representavam 35,6% dos ativos e os negócios por conta própria 20,3%.
A comparação com 2020 mostra como mudou a composição dos ativos. O peso da residência principal aumentou 2,4 pontos percentuais em quatro anos, passando de 47,9% para 50,3%. Os outros bens imóveis ganharam quatro pontos, de 19,7% para 23,7%.
Em sentido contrário, os negócios por conta própria perderam 3,9 pontos percentuais, de 15,2% para 11,3%. Os veículos motorizados passaram de 4,1% para 3,4% e os depósitos à ordem recuaram de 3,6% para 2,7%. Os depósitos a prazo aumentaram ligeiramente, de 5,2% para 5,4%.
A valorização imobiliária ajuda a explicar o crescimento do património, mas não significa necessariamente maior liquidez ou facilidade de acesso à habitação. Uma casa pode valer mais sem que o agregado tenha mais dinheiro disponível para as despesas do dia a dia.
Os 10% mais ricos concentram quase metade da riqueza
A riqueza líquida média das famílias portuguesas atingiu os 278,3 mil euros em 2024, mais 51% do que em 2020 em termos nominais. Mesmo descontando a inflação, o aumento foi de 21%.
Mas a riqueza não está distribuída de forma igual. A riqueza mediana situou-se nos 143,3 mil euros, o que significa que metade dos agregados familiares possuía um património inferior a esse valor. A diferença entre média e mediana revela uma forte concentração de riqueza.
Os dados mostram que os 10% mais ricos concentram quase metade de toda a riqueza líquida do país, representando 49,7% do património total das famílias. Em contraste, os 20% mais pobres detêm apenas 0,2% da riqueza total.
Grande parte do aumento do património resulta da valorização dos imóveis. A residência principal representa mais de 30% da riqueza em todos os estratos analisados e chega a corresponder a 77% do património das famílias situadas no escalão intermédio.
Trata-se, porém, de uma riqueza muitas vezes pouco líquida. O facto de uma casa valer mais não significa necessariamente maior capacidade financeira, sobretudo para quem continua a enfrentar dificuldades no acesso à habitação.
Entre as famílias com menor riqueza, os veículos motorizados representam cerca de 33% do património e os depósitos à ordem cerca de 13%. Já entre as famílias mais ricas, destacam-se os outros bens imóveis, com um peso de 36%, e os negócios por conta própria, responsáveis por 20% da riqueza acumulada.
O estudo mostra, assim, que o aumento da riqueza não se distribuiu de forma uniforme. A valorização da habitação contribuiu para reforçar o património de quem já era proprietário, enquanto a capacidade de poupar e acumular ativos continua muito diferente entre famílias.
Mais património, mais poupança, mas pouca folga no final do mês
Há um paradoxo evidente nos dados divulgados pela Pordata. As famílias portuguesas estão hoje mais ricas, poupam mais e beneficiaram da recuperação dos salários reais. Mas grande parte dessa riqueza resulta da valorização das casas e não de uma maior liquidez disponível para enfrentar as despesas do dia a dia.
Ao mesmo tempo, a habitação continua a absorver uma fatia crescente do orçamento familiar, milhões de portugueses permanecem dependentes do crédito e uma parte significativa da população vive com rendimentos muito reduzidos.
No fundo, os portugueses nunca tiveram um património tão elevado. O problema é que uma parte importante dessa riqueza está investida em ativos que não pagam as contas do final do mês. E é precisamente aí, no dinheiro que sobra depois da renda ou da prestação da casa, do supermercado, dos transportes e dos créditos, que se mede a verdadeira saúde financeira das famílias.
No Dia Mundial da Poupança, os números deixam uma questão central: não basta saber quanto dinheiro as famílias conseguem guardar. É igualmente importante perceber quanto lhes sobra depois de pagar a casa, a alimentação, os transportes e os créditos — e que património conseguem efetivamente acumular.