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Entre a razão e o ódio
O jornalista e escritor Eric Blair se tornou conhecido além de seu tempo, e se tornou nome clássico do século XX, ao deixar obras que denunciaram o totalitarismo de esquerda e de direita: “A revolução dos bichos” e “1984”, publicadas em 1945 e 1949, respectivamente, foram assinadas pelo pseudônimo George Orwell. Em coletânea de textos publicada no Brasil pela Companhia das Letras, intitulada “Sobre a verdade”, podemos ler um trecho de um livro anterior, “Um pouco de ar, por favor!”, de 1939, no qual o autor antecipou a descrição do uso da emoção pela política, que viria a utilizar em cena mareante da distopia “1984”.
A tradução de Claudio Alves Marcondes diz assim: “É algo horripilante ficar diante de um realejo humano que despeja propaganda a todo momento. A mesma coisa repetida sem cessar. Ódio, ódio, ódio. Vamos todos nos juntar e expressar um bom ódio. De novo e de novo”. E logo adiante, relacionando a prática que se repete e sua consequência: “Mas não é a guerra que importa, e sim o pós-guerra. O mundo em que estamos caindo, esse mundo de ódio, esse mundo de slogans”, apontando uma realidade em que a veneração de líderes pela multidão e a violência de Estado se confundem.
Se o Brasil de 2026 estivesse para dar um passo no abismo da negação democrática, o prenúncio do ódio massificado talvez fosse o ânimo nessa direção. “Tudo isso vai acontecer. Ou não? Há dias em que me parece impossível, noutros sei que isso é inevitável”, indaga e reflete Orwell no mesmo texto, após pintar o cenário com camisas coloridas, celas secretas e desfiles com cartazes de rostos enormes. Desejamos acreditar que tal ímpeto não mova, neste domingo, o eleitorado brasileiro que vai às seções eleitorais para exercer o direito do voto na escolha do presidente da República. Mas a disseminação do ódio pelas campanhas dos candidatos que chegaram ao segundo turno, infelizmente, vem alimentando a polarização que perturba a estabilidade institucional e destrói o equilíbrio emocional da população, afetando as relações familiares e de amizade.
Difícil imaginar que o Brasil vire o voto, não de um candidato a outro, mas do ódio emocional carregado de traumas para a reflexão consciente que suscite a escolha da razão – por qualquer um dos dois que disputam a primazia da cadeira presidencial para os próximos quatro anos. Entre a razão e o ódio há distância nem sempre percebida por quem odeia, tratando o ódio como suficiente razão. Os riscos de tal descontrole emocional para as liberdades individuais e coletivas, como alertou Orwell, são maiores do que se imagina no exercício normalizado de um impulso que, levado às urnas, costuma resultar nas piores consequências. Pois uma vez consumada com raiva a decisão, o que proíbe um governo baseado nela, do líder ungido pela aversão ao outro? Na evolução simbólica do mundo de ódio, qualquer outro é alvo da ira coletiva, materializada num Estado de exceção, intolerância e violência.
Seja qual for a escolha do povo brasileiro neste domingo, a esperança é que a razão retorne logo ao cotidiano, afastando fantasmas e devolvendo a atenção aos graves problemas da nação.


© Thiago Lucas
CNT/MDA: Flávio tem 50,5% e Lula, 49,5% dos votos válidos no 2º turno
A primeira pesquisa CNT/MDA sobre o segundo turno da eleição presidencial de 2026 aponta uma disputa acirrada entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Divulgado nesta sexta-feira (16), o levantamento mostra Flávio com 50,5% das intenções de voto válidas, enquanto Lula aparece com 49,5%. Os dois estão tecnicamente empatados.
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No cálculo dos votos válidos, são desconsideradas as respostas de eleitores que pretendem votar em branco ou nulo, além dos que ainda estão indecisos. Esse é o critério utilizado pela Justiça Eleitoral para definir o resultado das eleições.
No cenário estimulado, quando os entrevistados recebem os nomes dos candidatos, Flávio registra 46,8% das intenções de voto, ante 45,9% de Lula. Outros 4,9% afirmam que votarão em branco ou nulo, enquanto 2,4% não souberam responder.
A pesquisa espontânea, na qual os nomes dos candidatos não são apresentados aos entrevistados, também mostra vantagem numérica do senador. Flávio tem 45,6%, contra 44,1% do presidente.
O levantamento também mediu a disposição dos eleitores em votar nos dois candidatos. Flávio Bolsonaro soma 43,9% de eleitores que afirmam votar nele com certeza e outros 7,3% que admitem essa possibilidade. No total, seu potencial de voto chega a 51,2%. Já 46,6% dizem que não votariam no senador.
Lula tem 43,3% de eleitores que declaram voto certo e 6,6% que poderiam votar nele. O potencial de voto do presidente chega a 49,9%, enquanto 48,8% afirmam que não votariam no petista.
Segundo a pesquisa, 93% dos entrevistados estão convictos de sua escolha, enquanto 7% ainda admitem a possibilidade de mudar o voto.
Avaliação do governo
O levantamento também avaliou a gestão federal. A avaliação positiva do governo Lula, que reúne as respostas ótimo e bom, chegou a 38%. Na pesquisa anterior, divulgada em 3 de outubro, o índice era de 35%.
A avaliação negativa, que reúne ruim e péssimo, passou de 41% para 40%. Já a parcela que considera a administração regular caiu de 23% para 21,8%.
Em relação à aprovação pessoal do presidente, 47,7% dos entrevistados aprovam sua atuação, enquanto 49,3% desaprovam. Outros 3% não souberam ou não responderam.
A pesquisa CNT/MDA ouviu 2.014 eleitores em todo o país entre os dias 13 e 15 de outubro, por meio de entrevistas presenciais. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.
O levantamento foi contratado pela Confederação Nacional do Transporte (CNT) e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-00652/2026.
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