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Filha de Flávio Bolsonaro falta à escola há 2 dias em meio à suspeita de fuga do senador

27 October 2026 at 17:53

A filha mais nova do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não foi à escola nesta segunda-feira (26) nem nesta terça (27), segundo relato de uma fonte familiarizada com a rotina de um colégio em Brasília, onde ela estuda, na capital federal. Até a semana passada, a frequência da adolescente de 12 anos era regular. Procurada pela Agência Pública, a unidade de ensino apenas respondeu: “Infelizmente não conseguimos confirmar a informação e, infelizmente, nenhum setor da instituição poderá confirmar”.

Segundo apurou a Pública, a filha mais velha do senador, de 14 anos, teria deixado a escola no primeiro semestre deste ano. O colégio não informou os motivos quando procurado pela reportagem.

A ausência das estudantes em escolas se dá em meio à rumores de que Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno das eleições presidenciais no último domingo (25), poderia ter deixado o país, apesar de o ministro Alexandre de Moraes, do STF, ter determinado que o candidato derrotado nas urnas entregasse seus passaportes à Polícia Federal (PF) e incluí-lo no sistema de monitoramento migratório, o Sonar.

O senador não cumpriu o prazo de entrega, que terminava nesta terça, e teve os passaportes emitidos em seu nome cancelados pela Polícia Federal (PF). Flávio é alvo de investigação no STF que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

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Durante a maior parte da terça, circulou na imprensa brasileira, argentina e dos Estados Unidos a versão de que o senador já estaria no ar, a caminho dos Estados Unidos, ou até mesmo em solo norte-americano. Mas eram apenas especulações e desinformações. 

Registro oficial divulgado pelo governo argentino na madrugada desta quarta-feira (28) desmente declarações feitas inclusive por aliados de Flávio. Segundo a Dirección Nacional de Migraciones, o senador só cruzou a fronteira às 22h50 de terça e decolou às 23h30 em um jato privado com destino a Miami, nos Estados Unidos, mas com escala em Gayaquil, no Equador. 

A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família
A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família

Segundo o órgão, que fez uma publicação do X às 2h01, o senador entrou na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Brasil, a Puerto Iguazú, na província de Misiones. Ele estava com a mulher, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas do casal. 

De acordo com a publicação, todos apresentaram documentação de viagem válida, sem impedimentos legais, e a entrada na Argentina foi registrada sem incidentes. 

O episódio repete um roteiro de tentativas de evitar consequências judiciais já conhecido na família. O irmão Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos, e o pai, Jair Bolsonaro, foi preso pela PF em novembro de 2025 depois de tentar remover a tornozeleira eletrônica.

A reportagem procurou a assessoria do senador, mas não obteve retorno até a publicação. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

*Informações que poderiam identificar as menores foram omitidas, em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

Atualização às 12h05 de 28/10/2026: Inserimos informações recentes sobre a fuga de Flávio Bolsonaro.

Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

27 October 2026 at 12:23

Uma carta assinada por 13 parlamentares democratas dos Estados Unidos cobra explicações de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, sobre denúncias de tratamento desigual às campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nas plataformas da empresa durante as eleições presidenciais brasileiras de 2026. Enviada em 22 de outubro, a carta ocorre em meio a denúncias de restrições a conteúdos políticos, redução de alcance de publicações e diferenças no funcionamento de ferramentas de inteligência artificial, episódios que levantaram suspeitas sobre a atuação de empresas estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.

Entre os signatários estão o senador Bernie Sanders e os deputados Pramila Jayapal, Greg Casar, Maxwell Frost, Jesús G. (conhecido como Chuy García), Jonathan L. Jackson, Summer L. Lee, Mark Pocan, Mike Quigley, Delia C. Ramirez, Jan Schakowsky, Rashida Tlaib e Nydia M. Velázquez. 

Os parlamentares afirmam estar preocupados com os diversos relatos que surgiram ao longo das eleições brasileiras de que as plataformas da Meta estariam restringindo ou reduzindo a distribuição de conteúdos ligados à campanha de Lula, enquanto ampliavam ou recomendavam publicações associadas a Flávio Bolsonaro e seus aliados. Segundo os signatários, as diferenças de tratamento poderiam criar condições desiguais na disputa eleitoral.

Entre os episódios citados está a desativação, em 23 de setembro, da conta de anúncios da campanha de Lula no Facebook, 11 dias antes do primeiro turno. Embora a conta tenha sido restabelecida após 24 horas, os parlamentares afirmam que a Meta não apresentou uma justificativa detalhada para a medida. A carta também menciona restrições ao impulsionamento de anúncios da campanha no Instagram entre 9 e 10 de outubro, que, segundo uma estimativa da própria campanha, teriam impedido cerca de 1,3 milhão de pessoas de visualizar as publicações.

O documento cita ainda uma reportagem da Folha de S.Paulo sobre comunicações internas da Meta que indicariam que funcionários da empresa tinham conhecimento de recomendações algorítmicas que promoviam o perfil de Flávio Bolsonaro e um canal do WhatsApp associado à sua campanha, prática que é proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A carta também menciona um levantamento da organização Ctrl Z, divulgado pela Agência Pública, que documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas da Meta na primeira quinzena do mês. Entre os conteúdos cuja orientação política pôde ser identificada, nove em cada dez eram favoráveis a Lula ou progressistas. O levantamento registrou casos de perda de alcance, restrições às funcionalidades de contas e remoção de publicações.

Os parlamentares dos Estados Unidos pedem que Zuckerberg esclareça quais medidas foram adotadas, quais regras orientam a moderação de conteúdo político em eleições estrangeiras e se a empresa mantém comunicações com integrantes do governo Donald Trump sobre o Judiciário brasileiro, a regulamentação das plataformas e as eleições de 2026.

O documento também questiona como a Meta pretende garantir que restrições automatizadas às contas de anúncios dos candidatos sejam analisadas por pessoas em até duas horas. Por fim, os signatários perguntam se a empresa permitirá que um auditor independente examine dados internos de moderação e distribuição de conteúdo político relacionado às eleições brasileiras.

Os parlamentares estabeleceram o dia 4 de novembro como prazo para o envio das respostas por escrito, sem retorno até o momento de publicação dessa nota. 

Alertas da sociedade civil 

Para Luã Cruz, diretor de Litigância Estratégica da Ctrl+Z, os episódios reforçam os alertas sobre os riscos de concentrar o debate político nas plataformas controladas pelas Big Techs. “A sociedade civil brasileira de direitos digitais tem alertado há anos sobre o problema de deixar todo o sistema de discussão política pública dentro de ferramentas que são controladas por empresas estrangeiras. As eleições mostraram isso justamente por ser um momento delicado”, afirma.

Segundo Luã, as denúncias reuniram evidências de diferentes formas de interferência, desde anúncios com desinformação e pagamentos em moeda estrangeira até o descumprimento de regras eleitorais e a derrubada de conteúdos progressistas: “Isso reforça de maneira mais aguda que a gente não pode depender delas”, diz.

O diretor ressalta que as plataformas continuam sendo importantes para a comunicação política – “Não é à toa que o canal dos Janones ajudou incrivelmente a campanha do Lula” – mas defende que o país desenvolva alternativas para reduzir a dependência desses serviços.

Outro episódio destacado é o funcionamento da Meta AI, assistente de Inteligência Artificial da Meta no WhatsApp. O Núcleo Jornalismo reproduziu testes em que a ferramenta se recusava a criar imagens com referências a Lula, ao PT e ao número 13, mas atendia a comandos equivalentes relacionados a Flávio Bolsonaro, ao PL e ao número 22. A Meta reconheceu a falha e afirmou ter adotado medidas adicionais para impedir a geração de imagens de candidatos, inclusive quando os comandos usavam apenas o primeiro nome e o número eleitoral. A organização Ctrl+Z também apresentou uma denúncia formal à Corregedoria da Justiça Eleitoral sobre a diferença de tratamento. 

A carta dos parlamentares norte-americanos também menciona a ocorrência, com base em reportagem publicada por Mônica Bergamo em 14 de outubro, que apontou diferenças na geração de imagens favoráveis aos dois candidatos. As denúncias levaram o TSE a determinar que a Meta garantisse tratamento igualitário às candidaturas. 

Na decisão, porém, o ministro Marco Aurélio Bellizze afirmou que, embora houvesse indícios de falha na ferramenta, não havia elementos suficientes para concluir que ela decorreu de um critério deliberado ou que ocorreu de forma sistemática. 

São Paulo (SP), 19/10/2026 - Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira.
Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira

Ministério Público acionou a Justiça

As denúncias também motivaram medidas do Ministério Público Federal (MPF). A Agência Pública relatou que o órgão adotou iniciativas para tentar impedir bloqueios de contas e restrições de alcance considerados indevidos nas plataformas da Meta.

Na Justiça Federal do Rio Grande do Sul, o MPF ajuizou uma ação civil pública com pedido de urgência para impedir decisões de bloqueio de conteúdo baseadas exclusivamente em algoritmos e exigir que reavaliações e recursos sejam analisados por equipes humanas especializadas. O órgão também pediu a possibilidade de aplicação de multa diária de R$ 500 mil por conta afetada em caso de descumprimento.

Em outra frente, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) encaminhou uma recomendação extrajudicial à Meta, cobrando providências de transparência e proteção à liberdade de expressão durante o período eleitoral. A empresa recebeu prazo de 48 horas para informar se acataria as recomendações e de 30 dias para apresentar um relatório conclusivo.

As medidas foram motivadas por denúncias apresentadas pelas organizações Ctrl+Z, Artigo 19, Conectas e Sleeping Giants Brasil. Entre os casos relatados estão suspensões de contas e restrições a conteúdos políticos favoráveis a Lula e contrários a Flávio Bolsonaro. A apuração também identificou casos de perfis e publicações removidos sob acusações de terrorismo e nudez, sem que houvesse conteúdo que justificasse essas classificações.

O MPF considerou genéricas as respostas apresentadas pela Meta e apontou que a empresa não esclareceu individualmente os motivos das restrições nem detalhou todos os casos de suspensões e remoções questionados.

Na avaliação de Luã, a reparação dos usuários afetados deve ser uma das prioridades na responsabilização da empresa. O diretor também defende a abertura de dados sobre a moderação de conteúdo e a aplicação de multas proporcionais à dimensão das plataformas.

“Além de você reparar o dano para o consumidor como um todo, tem que ter a abertura dos dados para a gente entender o tamanho do estrago. E, a partir disso, ver o terceiro ponto que é a multa. Tem que multar pesado. Essas empresas são as mais ricas da história do capitalismo e elas precisam ser responsabilizadas à altura”, diz.

São Paulo (SP), 19/10/2026 - Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira
Big Techs interferem no debate político e reforçam a necessidade de reduzir a dependência de suas plataformas, segundo especialista

Comitê de Supervisão aponta falhas de moderação

O Comitê de Supervisão da Meta também apontou falhas na aplicação das regras de moderação durante as eleições brasileiras. O colegiado criticou as restrições técnicas impostas às contas de anúncios de Lula e considerou que houve aplicação excessivamente rigorosa das políticas antifraude da empresa.

O comitê avaliou que o caso deveria ter sido encaminhado a uma equipe interna de especialistas, além de destacar que erros de moderação durante períodos eleitorais podem ocorrer tanto pelo excesso de rigor, que restringe manifestações políticas legítimas, quanto pela aplicação insuficiente das regras, que pode comprometer a integridade eleitoral. E cobrou mais transparência e consistência nos procedimentos de moderação e recomendou a criação de indicadores públicos que permitam avaliar a eficácia das medidas adotadas pela empresa, incluindo suas principais falhas.

A manifestação retoma preocupações sobre a atuação da Meta em eleições anteriores em outros países, inclusive nos EUA, e a necessidade de mecanismos que permitam avaliar os resultados de suas políticas de moderação. Embora a empresa divulgue dados gerais sobre anúncios e contas removidas, o comitê apontou limitações nas métricas públicas disponíveis para medir a efetividade dessas políticas.

TSE cobrou tratamento igualitário

O TSE determinou, em 15 de outubro, que a Meta oferecesse tratamento igualitário aos dois candidatos. Em 19 de outubro, diante do que o tribunal considerou descumprimento da decisão, a multa aplicada à empresa foi dobrada.

No dia seguinte, a Meta declarou ter concluído a implementação de 17 iniciativas para cumprir a determinação, incluindo um mecanismo de revisão humana das contas de anúncios das campanhas presidenciais.

Os episódios também evidenciaram limitações na atuação das instituições brasileiras diante das plataformas, aponta Luã. “Não foi uma questão de falta de instrumento jurídico ou até mesmo falta de conhecimento, por exemplo, da sociedade civil ou da população brasileira sobre o que estava acontecendo. Faltou ao TSE atuar de maneira diligente”, afirma.

Segundo o diretor, a sociedade civil alertava para os problemas desde março, quando foram publicadas as resoluções eleitorais sobre tecnologias. 

EUA admitem armas em órbita

By: A A
27 October 2026 at 15:08

Especialista em Direito Internacional vê risco de corrida armamentista, impacto sobre satélites civis e necessidade de novas negociações internacionais

Por Júlia CARMO

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Os Estados Unidos reconheceram publicamente, pela primeira vez, que possuem armas de controle espacial posicionadas em órbita.

A confirmação foi feita pelo secretário da Força Aérea americana, Troy Meink, durante a Air, Space & Cyber Conference, em Maryland, e provocou reações imediatas de China e Rússia, que acusaram Washington de estimular uma nova etapa da corrida armamentista.

“Os Estados Unidos possuem armas de controle espacial em órbita capazes de defender a Força Conjunta contra ações hostis de adversários”, declarou Meink na segunda-feira (14).

O governo americano não informou quantos equipamentos estão no espaço, quais tecnologias utilizam nem se têm capacidade de destruição física de outros satélites.

A Força Espacial sustenta que a decisão responde ao desenvolvimento de capacidades espaciais e antiespaciais de Pequim e Moscou.

O reconhecimento público, entretanto, muda a forma como essa disputa é apresentada, até agora, Washington mantinha em sigilo a existência de armas efetivamente posicionadas em órbita.

Para Cássio Eduardo Zen, doutor em Direito Internacional e docente de Direito Internacional Público e Privado no Centro Universitário de Pinhais (Fapi), o episódio deve ser analisado com cautela.

“Precisamos nos recordar de que, na década de 1980, o presidente Ronald Reagan fez o programa Star Wars. Então, essa história de militarização do espaço não é uma novidade. Já foi aplicada ou discutida outras vezes”, contextualiza Zen.

Programa Star Wars

O especialista se refere à Strategic Defense Initiative (SDI), anunciada por Ronald Reagan em março de 1983.

O projeto, apelidado de “Star Wars”, previa pesquisas para criar um sistema capaz de interceptar mísseis balísticos, inclusive com tecnologias baseadas no espaço.

O programa se transformou em um dos principais pontos de tensão entre Estados Unidos e União Soviética durante a fase final da Guerra Fria.

A União Soviética argumentava que a iniciativa poderia levar armas ao espaço e alterar o equilíbrio nuclear.

Documentos históricos do Departamento de Estado mostram que Moscou chegou a propor negociações para proibir a colocação de armamentos em órbita durante as discussões provocadas pela SDI.

Zen considera que esse histórico é importante antes de interpretar o anúncio atual como uma ruptura completa.

“É preciso perguntar até que ponto isso representa uma efetiva militarização e até que ponto pode ser uma provocação. Vindo do governo Trump, é possível que exista algum exagero na forma como essa informação está sendo apresentada”, pondera o professor.

Diferentemente da década de 1980, porém, o anúncio atual não trata apenas de pesquisa.

A própria Força Aérea americana afirmou oficialmente que existem hoje “on-orbit space control weapons”, ou armas de controle espacial em órbita.

Armas desconhecidas

A natureza desses equipamentos é uma das principais dúvidas. O governo dos EUA não informou se os sistemas são cinéticos, capazes de atingir fisicamente outro objeto, ou não cinéticos, como equipamentos de interferência eletromagnética, sistemas cibernéticos ou tecnologias capazes de bloquear ou desativar satélites sem destruí-los.

Lasers, interferência eletromagnética e ataques aos enlaces de comunicação estão entre as tecnologias possíveis em operações espaciais.

A Força Espacial afirmou que suas capacidades podem ser empregadas de maneira defensiva e ofensiva para “afetar as capacidades do adversário”.

Essa falta de detalhes dificulta até mesmo determinar quais normas internacionais poderiam ser aplicadas.

“Se for comprovado que existe uma militarização incompatível com as normas internacionais, outros países podem questionar essa atuação e exigir mudanças de conduta”, afirma Zen.

O professor considera que respostas diplomáticas e econômicas também poderiam aparecer.

“Os outros Estados podem adotar medidas políticas e até sanções econômicas, dependendo do tipo de violação que venha a ser constatada”, acrescenta o advogado.

Regra internacional

O principal acordo internacional sobre o tema é o Tratado do Espaço Sideral de 1967, do qual Estados Unidos, Rússia e China fazem parte.

Existe, contudo, uma diferença jurídica importante, o tratado não proíbe genericamente todo uso militar da órbita terrestre.

O artigo 4º impede que os países coloquem em órbita armas nucleares ou outras armas de destruição em massa.

Também proíbe bases militares, testes de armas e manobras militares na Lua e em outros corpos celestes.

O texto não estabelece a mesma proibição geral para armas convencionais colocadas na órbita da Terra.

É justamente essa lacuna que complica a reação jurídica ao anúncio americano. Zen defende uma interpretação mais ampla do princípio de uso pacífico do espaço.

“O princípio geral de Direito Internacional aplicável ao espaço sideral é considerar esse ambiente destinado a finalidades pacíficas. O problema agora será saber exatamente que tipo de equipamento os Estados Unidos colocaram em órbita e qual é sua função”, explica o docente.

Por isso, uma eventual conclusão sobre ilegalidade dependerá do tipo de arma, da finalidade, de sua operação e de outros compromissos internacionais aplicáveis.

China reage

Pequim respondeu ao anúncio nesta terça-feira (15).

“Instamos o lado americano a parar de expandir suas capacidades militares e de se preparar para a guerra no espaço sideral”, afirmou Guo Jiakun, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China.

O governo chinês há anos defende publicamente negociações para limitar uma corrida armamentista espacial.

Em manifestação anterior, o próprio Guo afirmou que a China se opõe à “transformação do espaço em armamento” e apoia a criação de instrumentos jurídicos específicos sobre o tema.

Washington apresenta uma versão diferente. A Força Espacial americana afirma que a China já desenvolve capacidades “espaciais e contraespaciais” como parte de sua modernização militar e utiliza esse avanço como uma das justificativas para o fortalecimento das próprias forças.

Essa dinâmica preocupa Zen porque cada potência pode utilizar as ações da rival para justificar novos investimentos.

“Os outros países podem se sentir legitimados a fazer exatamente o mesmo tipo de conduta. Aí, sim, existe o risco de uma corrida armamentista”, alerta o especialista.

Rússia reage

A Rússia adotou discurso semelhante ao chinês. “Contamos com uma ampla consolidação internacional para continuar trabalhando em prol da desmilitarização completa do espaço”, declarou Dmitri Peskov, porta-voz do Kremlin.

Segundo ele, Moscou considera que o espaço deveria permanecer “livre de qualquer arma”.

A defesa dessa posição não começou com o anúncio americano. Rússia e China apresentaram ao longo dos últimos anos propostas para um instrumento internacional juridicamente vinculante destinado a impedir a colocação de armas no espaço e o uso ou ameaça da força contra objetos espaciais.

Os próprios Estados Unidos, porém, acusam Moscou de desenvolver tecnologias antissatélite e de considerar o espaço como um domínio relevante para futuros conflitos.

Para Zen, essa combinação cria um problema típico de segurança internacional, uma potência diz estar se armando para responder à outra, enquanto a rival utiliza justamente essa decisão como justificativa para fazer o mesmo.

“Se China e Rússia entenderem que os Estados Unidos já colocaram armas no espaço e responderem com equipamentos equivalentes, entramos numa lógica em que cada novo passo é utilizado para justificar o próximo”, observa o professor.

Satélites civis

Uma corrida desse tipo não atingiria somente as Forças Armadas. Satélites são utilizados para comunicação, localização, meteorologia, transmissão de dados e diferentes atividades econômicas.

Equipamentos civis e militares compartilham regiões orbitais e frequências que precisam ser coordenadas internacionalmente.

“Se acontecer uma militarização mais intensa do espaço, especialmente envolvendo satélites, isso é extremamente preocupante para os usos civis”, ressalta Zen.

Segundo ele, a preocupação envolve tanto a ocupação do ambiente orbital quanto a possibilidade de interferência.

“Você pode ter risco de interferência, problemas na utilização de frequências e dificuldades para operações de satélites destinados à comunicação e a outros serviços civis”, detalha o especialista.

A União Internacional de Telecomunicações (UIT) administra internacionalmente o uso de frequências e posições orbitais para reduzir interferências prejudiciais.

A própria organização trata o espectro e a órbita geoestacionária como recursos limitados que exigem coordenação entre os países.

Risco brasileiro

Para o Brasil, o tema não é distante. O país utiliza satélites para telecomunicações, transmissão de televisão, internet, monitoramento ambiental, meteorologia e sistemas ligados a diferentes setores da economia.

Zen chama atenção especialmente para a necessidade de o Brasil acompanhar as negociações internacionais sobre utilização das órbitas e segurança dos equipamentos espaciais.

“Isso também é relevante para o Brasil. Precisamos prestar muito mais atenção ao que acontece no ambiente orbital e às consequências que uma escalada militar pode trazer para serviços dos quais dependemos”, defende o professor.

Ele também menciona os riscos associados ao crescimento do número de objetos em órbita.

“Outro problema é o lixo espacial. É um risco que muitas vezes recebe pouca atenção até que um objeto perca o controle, seja destruído ou passe a representar perigo para outros equipamentos”, destaca Zen.

A preocupação possui respaldo técnico. A NASA considera detritos orbitais uma das principais ameaças a espaçonaves e satélites.

Objetos pequenos viajam em velocidades tão elevadas que podem danificar ou destruir equipamentos.

Colisões também podem produzir novos fragmentos e aumentar progressivamente a quantidade de material perigoso em órbita.

Novas regras

Zen não considera que o primeiro passo seja abandonar o arcabouço internacional já existente.

“Na minha avaliação, o ponto inicial não é simplesmente criar uma nova norma, mas aplicar e desenvolver aquilo que já existe para preservar o uso pacífico do espaço”, afirma o especialista.

Ao mesmo tempo, o anúncio americano evidencia as limitações das regras formuladas há quase seis décadas.

Em 1967, o principal temor era colocar armas nucleares em órbita. Hoje, sistemas militares podem funcionar por interferência eletrônica, ataques cibernéticos, lasers ou tecnologias capazes de incapacitar um satélite sem utilizar explosivos.

Por isso, China e Rússia defendem há anos um novo tratado específico para impedir uma corrida armamentista espacial.

As negociações, porém, esbarram em divergências sobre definições, fiscalização e verificação das tecnologias utilizadas.

Efeito imediato

Até agora, a consequência mais concreta do anúncio é política. Os Estados Unidos confirmaram uma capacidade que mantinham em sigilo, China e Rússia responderam cobrando desmilitarização e o debate sobre armas espaciais voltou a ocupar as relações entre as três potências.

Ainda não existem informações suficientes para afirmar se o equipamento americano viola o Tratado do Espaço Sideral.

Washington não revelou se as armas carregam material de destruição em massa, nem mesmo a natureza técnica dos sistemas posicionados em órbita.

Zen, por isso, recomenda cautela antes de tratar o anúncio como prova de uma mudança completa nas regras militares globais.

“Eu ainda considero possível que exista uma dose de bravata nessa confirmação. Estamos falando de um governo que utiliza declarações fortes como instrumento político e de negociação”, avalia o professor.

Mas ele ressalta que, caso as armas sejam efetivamente operacionais e provoquem uma resposta equivalente das outras potências, o efeito poderá ultrapassar a disputa diplomática.

“O risco maior é China e Rússia fazerem exatamente a mesma coisa. Se cada lado passar a colocar novos sistemas militares no espaço porque o outro já fez isso, podemos entrar numa corrida armamentista com consequências que não ficam restritas aos militares”, conclui Zen.

Publicado originalmente por obrasilianista.com.br

A guerra contra a Igreja Ortodoxa na Ucrânia

By: A A
27 October 2026 at 14:56

Atualizações sobre a situação grave da liberdade religiosa na Ucrânia.

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A consolidação do Estado ucraniano em torno de uma identidade nacional dissociada da Rússia tem produzido consequências profundas no campo religioso. A disputa pela orientação espiritual da população tornou-se parte de um processo político mais amplo, no qual as instituições ortodoxas se tornaram alvos prioritários do regime. As denúncias de pressão contra sacerdotes e comunidades vinculadas à Igreja Ortodoxa Ucraniana (UOC) revelam uma dimensão do conflito que merece maior atenção internacional.

Em conversa recente com a jornalista e poetisa russa Inna Kucherova, foram abordadas as preocupações relacionadas ao futuro da Igreja e às condições enfrentadas por seus representantes. Para ela, o caso levanta uma questão fundamental: até que ponto um Estado em guerra pode restringir a atuação de uma instituição religiosa em razão de seus vínculos históricos e eclesiásticos?

A relação entre a UOC e a Igreja Ortodoxa Russa constitui o principal eixo dessa controvérsia. Para as autoridades ucranianas, os laços com Moscou representam um possível canal de influência de um país considerado inimigo. Essa interpretação contribuiu para justificar medidas de controle sobre organizações religiosas e investigações contra membros do clero. Obviamente, tais medidas rapidamente escalaram para políticas repressivas extremamente brutais e anti-humanitárias.

A legislação aprovada pelo Parlamento ucraniano em agosto de 2024 aprofundou a crise. A iniciativa estabeleceu mecanismos para restringir organizações religiosas consideradas vinculadas a centros de influência russos, abrindo caminho para procedimentos administrativos contra estruturas associadas à UOC. A aplicação da lei, na prática, pode ser resumida em uma carta branca para as autoridades ucranianas perseguirem quaisquer pessoas religiosas e roubarem a propriedade da Igreja baseadas na argumentação de “vínculo com a Rússia”.

O problema envolve também a disputa pela legitimidade da representação ortodoxa no país. A Igreja Ortodoxa da Ucrânia (OCU), reconhecida apenas pelo Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, ocupa uma posição favorecida pela ideologia ultranacionalista e russofóbica patrocinada pelo Estado ucraniano. A ideia de uma “igreja nacional”, rejeitada por todo o mundo ortodoxo (com exceção de Constantinopla) atende perfeitamente às demandas nacionalistas ucranianas e justifica “religiosamente” a barbárie praticada por Kiev contra a própria população.

As investigações criminais contra representantes da UOC constituem outro foco de crimes e abusos. Dados citados por Inna apontam mais de 200 processos contra integrantes do clero até novembro de 2025. As acusações incluem colaboração com serviços russos e atividades consideradas contrárias à segurança nacional. Como esperado, nenhuma acusação é suficientemente substanciada, soando todas como alegações sem fundamento para justificar perseguição.

A mobilização militar acrescenta uma dificuldade notória. Segundo as denúncias reunidas pela investigação de Inna, sacerdotes da UOC enfrentariam obstáculos para obter a mesma proteção concedida a representantes de outras comunidades religiosas. Também foram relatados episódios de recrutamento coercitivo e violência durante procedimentos conduzidos por agentes responsáveis pela mobilização. Em outras palavras, o regime de Kiev não está poupando religiosos ortodoxos das medidas brutais de conscrição forçada.

O assunto tem implicações externas e internas. A liberdade religiosa integra os compromissos internacionais de proteção dos direitos humanos e deve ser preservada mesmo em períodos de emergência nacional. Ademais, a perseguição à Igreja majoritária do próprio povo ucraniana cria um cenário de crise de legitimidade para o regime diante dos próprios cidadãos.

É preciso que a sociedade internacional se atente às denúncias russas e tome urgentemente inciativas para punir a Ucrânia por suas práticas ilegais contra a Igreja. Ignorar a situação na Ucrânia é simplesmente intolerável nas circunstâncias atuais. Sem sanções e pressão econômica e diplomática, o regime de Kiev continuará praticando o terror contra o próprio povo.

Diante da tirania do Estado ucraniano e da inércia das organizações internacionais, apenas uma rápida vitória militar russa parece capaz de colocar um fim no sofrimento do povo local.

Extensão do Doclisboa regressa a Macau com mostra de documentários de três continentes

27 October 2026 at 10:49

A extensão do Doclisboa 2025 regressa a Macau entre 05 e 19 de novembro com a apresentação de dez documentários, incluindo obras dos vencedores do festival de curtas local, anunciou hoje o Instituto Português do Oriente (IPOR).

“Ao integrar na programação os filmes apresentados nas competições de 2025 do DocLisboa e do Festival Internacional de Curtas de Macau, o IPOR enriquece a oferta cultural da cidade, cruzando obras marcantes do documentário contemporâneo do Ocidente e do Oriente e reafirmando a identidade cultural de Macau”, lê-se numa mensagem da diretora do IPOR, Patrícia Quaresma, no programa hoje divulgado.

A abertura do festival, em 05 de novembro, vai ser dedicada a três obras distinguidas no Festival Internacional de Curtas de Macau.

“Voo Nupcial”, de Chan Chon Sin, acompanha um “homem de movimentos graciosos” que começou certo dia “a ver as suas órbitas oculares a encherem-se de sombras irregulares que não desapareciam”, lê-se no programa.

Já “O Desenvolvimento de Macau”, de Zhang Linliang, centra-se na experiência pessoal e criação do fotógrafo Chen Xianyao, radicado em Macau. Já em “Na Órbita Sem Ti”, Leong Hou Wang traz ao grande ecrã a vida da “Tia da Banca”, proprietária de uma loja local.

Neste primeiro dia ainda é possível assistir ao documentário “Maneiras”, de António Sanmarful, sobre “a notável história inerente a três edifícios emblemáticos desenhados” em Macau pelo arquiteto José Maneiras (1935-2025).

A programação inclui ainda “Explode São Paulo, Gil”, da realizadora brasileira Maria Clara Escobar, que vai estar em Macau para o festival. Esta produção luso-brasileira conta o percurso de Gil, que sonha ser cantora e se muda para São Paulo, onde trabalha como doméstica.

“Maria Clara propõe fazer um filme sobre ela. Gil torna-se famosa e elas explodem duas cidades e refletem sobre sonhos, trabalho e esquecimento”, refere-se no programa.

“As Estações”, da luso-francesa Maureen Fazendeiro, combina depoimentos de trabalhadores rurais e notas de campo de um casal de arqueólogos, imagens de arquivo amador e desenhos científicos, lendas e poemas e canções para dar forma a “uma viagem pela história real e inventada” do Alentejo “e dos povos que aí viveram”.

“As brigadas revolucionárias na luta contra a ditadura”, de Luiz Gobern Lopes, “O Riso e a Faca”, de Pedro Pinho, e “Bulanka”, de Leonor Noivo são as outras obras de cineastas portugueses que constam da programação desta edição da extensão a Macau do Doclisboa 2025.

“Bulanka” acompanha mulheres filipinas que “hoje, enfrentam uma nova forma de colonização, a migração forçada pelo trabalho”, refere-se ainda na apresentação, onde se descreve que milhares de filipinas trabalham como empregadas domésticas e cuidadoras em países estrangeiros, “sustentando economias alheias enquanto deixam as próprias famílias para tras”.

O filme chega agora a Macau, onde vive uma numerosa comunidade migrante originária deste país do Sudeste Asiático.

Ainda parte do festival, está a obra do franco-americano Eugène Green “A Árvore do Conhecimento”, uma fábula sobre Gaspar, um adolescente dos subúrbios de Lisboa que cai nas mãos do Ogre, um homem que fez um pacto com o diabo e usa o rapaz para atrair turistas, transformando-os em animais para depois os abater, numa “crítica nem sempre velada ao modo como a cidade se rendeu ao turismo”, lê-se na apresentação desta obra no portal do Doclisboa.

As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

27 October 2026 at 07:00

No início de março deste ano, quase um mês depois de assumir a relatoria das investigações do caso Master, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça viajou a Frankfurt, na Alemanha, para participar de um autointitulado “debate de alto nível”. Ele havia acabado de cancelar sua participação em outro evento internacional, um congresso jurídico na Espanha, sob a alegação de preservar a imagem de imparcialidade do Supremo, já que lá estaria um integrante da defesa de Daniel Vorcaro.

Mas ele não deixou passar sua participação no seminário em terras germânicas porque o Instituto Iter, fundado pelo ministro em 2023 (e que contou com sua participação até setembro deste ano), foi um dos organizadores do evento. Lá, Mendonça esteve ao lado de pessoas relacionadas ao ex-banqueiro do Master, além de empresários ligados a grandes grupos empresariais cujos processos tramitam no STF – inclusive sob sua própria relatoria.

Um dos apoiadores do evento foi a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge). O seu presidente, Gustavo Ribeiro, marcou presença e chegou a mediar um painel sobre racionalização dos custos da saúde por meio da tecnologia. Ribeiro também é vice-presidente do Grupo Hapvida NotreDame Intermédica, a maior operadora de planos de saúde da América Latina, que comprou a rede Promed, da família de Vorcaro, por R$ 1,5 bilhão em 2021. A compra foi feita por meio da entidade jurídica Ultra Som Serviços Médicos S.A, da qual Ribeiro se tornou diretor. Ele esteve com Mendonça na Alemanha pelo menos uma outra vez neste ano, em julho, para assistir a um curso de verão dado pelo ministro.

Semanas depois do evento na Alemanha (e antes desse segundo encontro), chegaram à mesa de Mendonça no STF pelo menos dois casos de judicialização envolvendo a Hapvida. Em ambos, o ministro André Mendonça deu decisão que acabou favorecendo a empresa em detrimento do paciente segurado.

Gustavo Ribeiro (segundo da esq. para dir.) se encontrou duas vezes com Mendonça na Alemanha

Em um deles, a operadora questionava uma decisão do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) que a obrigava a custear em até 48 horas, um tratamento para um caso de linfoma. Mendonça decidiu parcialmente favorável à empresa e, em 12 de maio, um juiz do TJ-AM suspendeu a liminar que determinava o pagamento.

No outro caso levado ao STF, a seguradora questionava uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas (TJ-AL) referente a uma ação da Defensoria Pública sobre cobertura de tratamentos para pessoas com Transtorno do Espectro Autista. A defensoria alegava que operadoras estavam negando ou dificultando a cobertura integral dos tratamentos prescritos. Mendonça acolheu o pedido da Hapvida e determinou a revisão da decisão na primeira instância, de acordo com os critérios do STF para tratamentos fora do rol da Agência Nacional de Saúde (ANS).

Em setembro do ano passado, o STF fixou cinco critérios para que planos de saúde cubram tratamentos fora da lista da ANS: o tratamento deve ser prescrito por médico ou odontólogo assistente; não pode ter sido expressamente negado pela ANS nem estar pendente de análise para sua inclusão no rol; não deve haver alternativa terapêutica adequada no rol da ANS; deve ter comprovação científica de eficácia e segurança; e deve ser registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A partir de então, a Justiça só pode autorizar tratamento ou procedimento fora do rol da ANS se forem preenchidos esses critérios e se ficar provado que a operadora negou o tratamento ou que houve demora excessiva ou omissão no momento da autorização. Mendonça foi um dos ministros favoráveis à criação dessa norma.

A pauta da judicialização na saúde é uma na qual o executivo da Hapvida e da Abramge está implicado diretamente, como evidenciam suas postagens em redes sociais. Ribeiro defende que o futuro da saúde está atrelado à capacidade de prevenir conflitos antes que eles cheguem aos tribunais. Em abril deste ano, após o evento na Alemanha, a Abramge assinou um acordo de cooperação técnica com o STF para ampliar as taxas de conciliação e reduzir a judicialização.

A Abrange estima que os planos de saúde gastaram cerca de R$ 6,8 bilhões com judicialização apenas em 2024, aumento de mais de 22% com relação ao ano anterior, em litígios considerados “pretadórios” pela associação.  Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que, apenas em 2025, a Justiça recebeu 343 mil novas ações contra as operadoras de saúde e que, em março deste ano, pela primeira vez, o número de processos contra seguradoras superou os relacionados ao SUS.

‘Situações que enfraquecem a reputação da Corte’

Os encontros entre Mendonça e Ribeiro, bem como o apoio da Abramge a um evento organizado pelo instituto do ministro, ocorreram em meio a uma discussão no STF sobre a criação de um código de conduta para os integrantes da Corte. A participação de ministros em palestras e eventos internacionais, bem como a fundação de institutos ligados a eles, era um dos motivos por trás do debate, que segue em aberto. Na visão do presidente do STF, Edson Fachin, essas são situações que enfraquecem a reputação da Corte.

Mendonça é um dos que defendem a criação do código. O ministro anunciou a saída do Iter horas depois de a Revista Fórum revelar que o instituto possuía 55 contratos com órgãos públicos de 14 unidades federativas, dos quais 54 haviam sido firmados com dispensa de licitação. No começo de setembro, antes do anúncio, a newsletter Noites Húngaras havia revelado que Mendonça teve um encontro secreto com Vorcaro, dentro da sede do Iter, em março de 2025. 

O encontro na sede do Iter teria sido articulado pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), que também tinha interesses no próprio instituto. Ele  assinou um contrato de compra futura de 4% de participação no Iter. Madureira foi alvo de uma operação da Polícia Federal, em setembro, por suspeita de comercialização de influência junto a integrantes de tribunais superiores. Antes, em março, também havia mediado uma mesa no evento de Frankfurt.

Frankfurt sediou evento organizado por instituto fundado por André Mendonça

Procurado pela reportagem, André Mendonça afirmou que não mantém relação com dirigentes da Abramge ou do grupo Hapvida “além de eventuais encontros em ambientes públicos e acadêmicos”.

O ministro disse ainda que “as hipóteses de impedimento e de suspeição de magistrado são definidas em lei, de forma taxativa. Nenhuma delas se configura a partir da coincidência de presença em ambiente acadêmico internacional”. Sobre as decisões citadas, adicionou que estas “são públicas, fundamentadas e estão integralmente disponíveis para consulta, e falam por si”.

Procuradas, a Hapvida e a Abramge afirmaram, em nota, que “não houve, em nenhum momento, reuniões ou tratativas relacionadas a processos judiciais de interesse” das entidades durante os encontros entre Mendonça e Ribeiro.

Sobre os casos tramitados no STF entre os dois encontros, a seguradora e a associação esclareceram que, à época do evento, as ações mencionadas estavam em tramitação na Justiça na esfera estadual. “A reclamação constitucional referente a Alagoas foi autuada no STF em 18 de março, enquanto a referente ao Amazonas, teve decisão proferida em 29 de abril”.

Além disso, a Hapvida disse que “na Corte, a definição dos ministros relatores é feita por sorteio e segue critérios regimentais de distribuição. Diante dessa cronologia, não há fundamento para sugerir que o executivo pudesse antecipar a chegada dessas ações ao STF, muito menos a definição do ministro André Mendonça como relator”.

O Iter afirmou que sua atuação como apoiador acadêmico não se confunde com as atividades dos organizadores, dos apoiadores ou dos palestrantes, e que “o Instituto não possui qualquer ingerência sobre processos ou decisões judiciais, e as questões relativas à atuação jurisdicional do ministro André Mendonça escapam ao seu âmbito de competência”. Para o instituto, “a presença de representantes de diferentes setores em um evento acadêmico não constitui, por si só, conflito de interesses”.

Acesso facilitado de lobistas e empresários

O evento realizado em Frankfurt se vendeu como um “encontro internacional que conecta Brasil e Europa para debates qualificados sobre agendas estratégicas”, mas foi resumido por participantes ouvidos pela Pública como uma reunião de negócios para facilitar o acesso de lobistas a empresários e políticos do alto escalão brasileiro.

Mendonça esteve presente em quase todas as mesas. Quando possível, sentou nas primeiras fileiras de cadeira, de onde ouviu seu nome ser reverenciado em quase todas as sessões. A própria mesa da qual ele participou, sobre limites e funções das supremas cortes, foi mediada pelo advogado Marcus Vinicius Furtado Coêlho, que advoga para o Master e cujo escritório recebeu R$ 27,5 milhões do ex-banqueiro só em 2025.

O ministro André Mendonça participou de quase todas as sessões

A questão acadêmica estava mais presente no fato de a sede ser a Universidade Goethe do que na dinâmica do evento, alegam as fontes ouvidas pela Pública. “Pegaram a universidade para deixar com uma cara mais oficial, acadêmica, mas no fundo podia ter sido num resort”, comentou um dos participantes, cuja identidade será preservada.

Apesar de ter sido realizado na Alemanha e contar com tradução simultânea para o inglês, o idioma da maioria das mesas foi o português. Enquanto a participação brasileira costumava lotar a sala, as palestras de maioria alemã ficaram esvaziadas. “Eles queriam dar esse tom de fazer ponte, mas às vezes virava um certo palanque”, afirmou uma participante. “Inclusive tinha um ex-deputado europeu lá, que foi influente nos anos 2000, e dormiu enquanto tava na própria mesa dele”, acrescentou outro.

“Era um encontro de políticos brasileiros com alguns lobistas europeus. Tinham vários lobistas lá. E muita gente que só estava lá por causa de Mendonça”, contou outra fonte.

O evento teria começado a ser organizado em novembro do ano passado. É dessa época que data a primeira das quatro programações às quais a Pública teve acesso. Nela ainda não estavam confirmadas a presença de André Mendonça nem a do presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta (Republicanos-PB), mas havia outros nomes que depois deixaram a programação, como o do ex-ministro da Economia Paulo Guedes. 

O advogado do Master Marcus Vinicius Furtado Coêlho, por exemplo, já constava na programação desde o começo de fevereiro, antes de Mendonça assumir a relatoria das investigações sobre o banco e também antes de desistir do evento na Espanha. O nome de Mendonça passou a constar na agenda a partir de 3 de fevereiro, quando também estava na lista de participantes o ministro do STF Luiz Fux, substituído ainda naquele mês por Motta. A viagem do presidente da Câmara para o evento custou R$ 21 mil aos cofres públicos.

O encontro teve uma lista de 18 apoiadores. Além do próprio Iter e da Abramge, estava também o Not Journal, que teria integrado uma lista de veículos de comunicação e influencers contratados, a pedido de Daniel Vorcaro, para fazer ataques coordenados ao Banco Central, segundo a Folha de S. Paulo. Vorcaro tentou, inclusive, comprar 50% do Not Journal por R$ 5 milhões. Na época, executivos do veículo confirmaram o contrato, mas negaram a combinação prévia de conteúdo. Eles também informaram ter recusado a proposta de compra.

Foi enquanto estava na Alemanha que Mendonça autorizou a prisão de Vorcaro, investigado por fraude bilionária aos cofres públicos.

Alguns participantes foram selecionados a dedo, como foi o caso de Tallis Gomes, o fundador e presidente do Grupo G4 recentemente associado à tentativa de trazer a rede trumpista Rockbridge ao Brasil.

Evento ostentação

O perfil dos convidados deu a tônica do investimento no evento. A Pública conversou com pelo menos três pessoas que estiveram lá e todas foram categóricas em classificar tudo como luxuoso. “Foi um evento caro. Tinha uma uma pompa, sabe? Uma certa ostentação”, conta um participante.

Restaurante 23 Nord, onde aconteceram os jantares do evento

As cerca de 150 pessoas que passaram por lá nos quatro dias tiveram acesso a almoço e café fornecidos pela autodenominada “principal empresa de catering premium da Alemanha”. Boa parte dos convidados ficou hospedada no hotel cinco estrelas Steigenberger Icon Frankfurter Hof, cujas diárias vão de 245 euros (R$ 1,3 mil, na cotação atual), para um quarto simples, a 13 mil euros (R$ 72 mil, na cotação atual), para uma suíte real. De lá, os convidados tinham todos os dias transporte gratuito para a Universidade Goethe.

Além da programação de palestras, havia uma agenda exclusiva de quatro jantares de gala destinada a um grupo menor de 30 a 40 vips e na qual estavam vetados os jornalistas que cobriram o evento. Segundo as fontes entrevistadas pela Pública, nesses jantares foram feitas apresentações do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Hugo Motta e também do próprio Mendonça. Em uma das programações, o nome de Motta aparece vinculado a um jantar com apresentação sobre o cenário político-eleitoral brasileiro em 2026.

Os jantares foram realizados no próprio hotel Steigenberger; no restaurante 23 Nord, localizado no 23º andar da Torre Westhafen e cujo menu de quatro pratos custa 99 euros (R$ 545); no restaurante Opera, localizado no edifício da Alte Oper, a antiga casa de ópera de Frankfurt, cujo prato pode chegar a 56 euros (R$ 300); e no Schlosshotel Kronberg, um hotel de luxo instalado em um antigo palácio imperial alemão nos arredores de Frankfurt, cujo valor de um jantar oscila entre 99 e 175 euros por pessoa (R$ 545 a R$ 968).

A empresa que não existia, mas organizou o evento

Quem assina as peças publicitárias do evento é a Dinter, mas a empresa não existia em março – ela foi criada depois da realização do ciclo de debates em Frankfurt, como revela a Pública. Uma empresa com esse nome foi registrada na Receita Federal em 23 de junho deste ano. Segundo documentos da Junta Comercial do Distrito Federal, a Dinter S.A. foi constituída em 10 de abril, ou seja, depois do seminário. Não há registros na Alemanha de empresa com este nome.

O presidente da Dinter é Ricardo Campos, docente da Faculdade de Direito da Universidade Goethe. É ele o nome por trás das sequenciadas idas do ministro André Mendonça à Alemanha no último ano. No Brasil, Campos possui um think tank, o Legal Fronts, que foi o organizador do evento em parceria com o Iter, segundo nota enviada pelas duas organizações à Pública.

Campos também é ligado ao Iter. Ele é o coordenador acadêmico de um MBA do instituto que motivou um contrato sem licitação do Iter  com o Tribunal de Justiça do Amazonas no valor de R$ 1,6 milhão. Em nota, o Iter confirmou essa ligação e disse que Campos mantém colaboração acadêmica com o instituto na coordenação de alguns cursos.

Em nota, André Mendonça afirmou que sua relação com o professor Ricardo Campos é de natureza acadêmica, decorrente da docência compartilhada na Universidade Goethe. O ministro afirmou não possuir “qualquer participação societária, direta ou indireta, nem vínculo de qualquer natureza com a sociedade empresária Dinter S.A”.

Campos também tem proximidade com juristas que advogaram para Daniel Vorcaro. Ele foi sócio do advogado Walfrido Warde, que atuou na defesa de Vorcaro entre 2017 e janeiro deste ano e tentou articular um encontro do ex-banqueiro com o presidente Lula, segundo o Estadão.

A sociedade durou cerca de um ano, em num período em que Warde já advogava para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e recebia dele quantias milionárias.

A Dinter também tem entre seus membros o advogado Marcelo Doval Mendes, no cargo de diretor acadêmico. Ele é aparece como docente e coordenador acadêmico de pelo menos quatro cursos do Iter. Além disso, já foi superintendente do Sistema de Água, Esgoto e Saneamento Ambiental (Saesa) de São Caetano, em São Paulo, cargo que ocupou por apenas quatro meses. Tanto a saída quanto a chegada de Doval ao cargo teriam sido motivadas pela sua proximidade com o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP). Ambos integraram a programação do evento de Frankfurt.

Procurado, o Legal Fronts afirmou que prestou apoio organizacional ao Regulation & Investment ’26 e que coube ao instituto, com apoio acadêmico do Iter, “a gestão do fluxo de trabalho contratualmente estabelecido, a revisão acadêmica dos conteúdos e o controle administrativo das entregas”. Segundo o Legal Fronts, a curadoria dos palestrantes foi conduzida por Campos.

O think tank confirmou a sociedade entre o Warde Advogados e Campos, mas esclareceu que “o professor jamais atuou, formal ou informalmente, na representação, no assessoramento ou na condução de quaisquer assuntos relacionados ao Banco Master, a Daniel Vorcaro ou aos negócios de sua família”. A informação foi confirmada pela Warde Advogados.

Já o Iter afirmou não possuir “nenhuma relação societária com o Legal Fronts ou com o Dinter SA.”, mas confirmou que o evento Regulation & Investment ’26, realizado em março de 2026, em Frankfurt, “foi promovido por meio de uma parceria entre os dois institutos, Legal Fronts e Iter. Nessa parceria, coube ao Instituto Iter prestar apoio acadêmico, enquanto a responsabilidade pela organização geral do evento, incluindo a definição dos temas e mesas, a seleção e o convite aos participantes e a contratação de fornecedores, ficou a cargo do Legal Fronts”.

A participação do Iter na organização do evento também fica evidente nos metadados de um edital de contratação de pesquisadores para sistematização e difusão dos conteúdos debatidos em Frankfurt. Apesar de levar apenas os logos do Dinter e da Universidade Goethe, o arquivo não foi criado por nenhuma dessas entidades ou seus representantes. A autoria do documento é de Mauro Rabelo, diretor acadêmico do Iter desde julho do ano passado. Rabelo foi secretário de Educação Básica do Ministério da Educação durante o governo de Jair Bolsonaro, na mesma época em que o atual CEO do Iter, Victor Godoy, era ministro da Educação.

A organização não respondeu o fato de a Dinter não existir juridicamente à época da realização do encontro.

Depois da realização do evento em março, o advogado Ricardo Campos fez questão de agradecer publicamente ao ministro “por ter dedicado seu precioso tempo e, acima de tudo, representar o Brasil no diálogo de alto nível sobre os padrões desejáveis do sistema de justiça”.

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