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‘O sistema do Estado é horrível’: Caraguatatuba é campeã em violência contra a mulher

O relógio se aproxima das onze da manhã quando Alcione senta na poltrona da sala de acolhimento. A mulher, cujo nome homenageia a sambista, está lá para contar sua história que, nos últimos anos, tem sido marcada por ciclos de violência e resistência. Um tormento que se agrava quando o ex-marido, em recusa ao fim do casamento, a ameaça de morte. Uma mulher que reflete milhares de outras Brasil afora, presas a uma espiral de violência enquanto lutam pelo direito de seguirem vivas.

A poucos metros dali, as ondas quebram ao chegarem na faixa de areia, vazia devido à baixa temporada. Estamos em Caraguatatuba, no litoral norte de São Paulo, o município brasileiro com mais de 100 mil habitantes que possui a maior taxa de mulheres atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) devido à violência física. A taxa média dos últimos dez anos é de 312 casos por 100 mil habitantes, o triplo do estado de São Paulo, segundo levantamento feito pela Agência Pública a partir de dados do DataSUS de 2016 a 2025.

Além de estar no topo do ranking das cidades com a maior taxa de violência física, Caraguatatuba também é o município paulista com mais de 50 mil habitantes com a maior taxa de tentativa de feminicídio: foram 24 entre 2021 e 2025, quase cinco por ano, segundo dados do Ministério da Justiça. Apesar disso, os feminicídios estão abaixo da média: foram seis no mesmo período. Um indício de que a cidade pode estar conseguindo acolher mulheres vítimas de violência, impedindo que cheguem a ser assassinadas.

“A institucionalidade na prevenção à violência contra as mulheres previne mortes. Quanto mais equipamentos você tem, menor a chance  do agravamento dessa violência intrafamiliar, que é o feminicídio”, analisa a demógrafa Jackeline Ferreira Romio, que pesquisou o cenário do feminicídio no Brasil a partir de dados do sistema de saúde.

Apesar de evitar mortes, os equipamentos públicos não têm sido eficientes na prevenção inicial da violência, atuando de forma reativa, quando a mulher já corre risco grave. Medidas protetivas seguem sendo negadas e, quando concedidas, violadas. Mesmo equipada com aparelhos públicos voltados para a proteção das mulheres que vão desde Conselhos, delegacia especializada, centros de acolhimento e aplicativos de denúncia, Caraguatatuba ainda não viu os números de agressões e tentativas de feminicídio caírem. Falta algo.

Alcione relata que o comportamento controlador do marido se agravou no segundo ano de casamento. Àquela altura, João*, retomou um antigo vício em álcool e outras drogas e, desempregado, começou a vender os móveis da casa para sustentar a dependência. Quando o marido quis vender a bicicleta que haviam comprado juntos, ela pediu para que ele saísse da casa, que era dela.

Ele saiu, mas pouco tempo depois, apareceu no portão de Alcione. Chorando, disse que estava dormindo na rua e pediu ajuda para se alimentar. Com pena, ela permitiu que ele entrasse, ofereceu banho e comida. O clima amigável mudou quando ela se recusou a reatar o relacionamento.

“Ele me aferiu um tapa na cara, um tapa muito forte. Eu fui até a cozinha chorando, ele foi me acompanhando e disse ‘Não chora, porque esse tapa não doeu. Vai doer agora, porque eu vou pegar uma faca e te matar’”.

A mulher correu até a casa da frente, onde mora sua mãe, e pediu ajuda aos familiares presentes. João conseguiu fugir. No dia seguinte, Alcione buscou atendimento na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Caraguatatuba. Mesmo sendo uma unidade especializada em violência contra mulheres, sentiu-se desrespeitada: foi atendida por uma funcionária da prefeitura que não demonstrou preparo em acolhê-la.

“Uma pessoa grossa. Fazia perguntas como se eu fosse a culpada. Saí de lá humilhada. Tive vontade de desistir.” Após a mobilização de Alcione e outras vítimas, a funcionária foi retirada da delegacia e uma assistente social a substituiu.

Alcione foi ameaçada de morte pelo ex-marido, mas conseguiu sair do ciclo de dor e violência.

Para Márcia Coelho, presidente do Conselho da Mulher de Caraguatatuba (CMDMC), as mudanças recentes na Delegacia de Defesa da Mulher melhoraram o acolhimento, mas ainda há dinâmicas sistêmicas que prejudicam a experiência de quem busca atendimento: “O sistema do Estado é horrível. É uma coisa fria. Na sala de espera há um balcão com vidro e você tem que falar ali na frente de todo mundo”, explica.

As caraguatatubenses que sofrem qualquer tipo de violência de gênero durante os finais de semana ou feriados precisam aguardar até o próximo dia útil para que possam buscar atendimento especializado. Isso porque a Delegacia de Defesa da Mulher do município, assim como 75,8% das DDMs do país, atende apenas de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h. A alternativa oferecida pelo Governo do Estado é uma Sala DDM 24h, que opera dentro de uma delegacia comum. O problema é que as agressões são mais frequentes quando o homem está em casa – à noite ou no final de semana.

Segundo a vereadora Cássia Gonçalves de Jesus (PT), a experiência nessas salas pode agravar o estado emocional da mulher, pois “o acolhimento é feito pelo mesmo delegado, o mesmo plantonista. Não são pessoas especializadas. Escutamos muitos relatos de mulheres que sofreram outra violência durante o atendimento”, explica.

Crime crescente no Brasil e em São Paulo

No estado, houve um aumento de 22,2% nos casos de feminicídio entre 2023 e 2025 (saindo de 221 mortes de mulheres para 270) – um aumento três vezes maior do que a média nacional (de 6,3% no período).

Em sua campanha eleitoral, o governador Tarcísio de Freitas, reeleito com 62,6% dos votos, trouxe a segurança da mulher como um de seus focos. Ele promete o “fortalecimento da rede”, aumentar em três vezes o número de Delegacias de Defesa da Mulher 24 horas, a expansão do aplicativo SP Mulher Segura e a continuidade da Patrulha SP Mulher Segura.

As promessas de campanha, no entanto, não condizem com o que foi feito nos primeiros quatro anos de governo. Tarcísio deixou de destinar R$ 35,7 milhões entre 2023 e 2025 para as Delegacias de Defesa da Mulher e para a Secretaria de Política para as Mulheres, segundo dados compilados pela Agência Pública.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, deixou de destinar R$ 35,7 milhões entre 2023 e 2025 para programas de proteção às mulheres.

“No ano passado, por exemplo, menos de 30% do recurso destinado ao enfrentamento da violência contra a mulher foi aplicado no estado. Ou seja, mais de 70% do que estava disponível não foi investido”, critica a vereadora.

Cássia explica que parte do alto índice de agressão à mulher em Caraguatatuba tem relação com o fato de a cidade ser muito desigual e violenta. O município também lidera o ranking da maior taxa de mortes violentas do estado, concentrando 17,6 mortes a cada 100 mil habitantes, conforme dados divulgados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Os altos índices refletem as fragilidades estruturais e a desigualdade socioeconômica do município, acentuadas pela escassez de investimentos estatais e por um déficit histórico de políticas habitacionais e de infraestrutura pública, como analisa a vereadora.

“Se você pegar o mapa da violência em Caraguatatuba, vai ver que ela se concentra na região sul, onde vive mais de 50% da população, majoritariamente a classe trabalhadora. É a área onde os equipamentos públicos são mais ausentes e onde falta o braço do Estado para garantir direitos básicos, como moradia. Isso também impacta a violência – que recai sobre as mulheres.”

Procurada, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP) afirma que, assim como a Delegacia da Mulher, a Sala DDM permite registrar ocorrências, solicitar medidas protetivas e receber orientações, prezando por um atendimento em ambiente reservado, com sigilo e escuta qualificada. A instituição destaca o aumento das prisões em flagrante por violência doméstica e o crescimento dos investimentos em políticas para mulheres, mas não comenta porque quase R$ 36 milhões deixaram de ser investidos nos últimos quatro anos.

Em nota, a prefeitura de Caraguatatuba diz que o município segue os fluxos oficiais de notificação e conta com uma rede de proteção que integra serviços de assistência social, saúde e segurança pública, entre outros. Sobre a profissional mencionada por Alcione, informa que ela deixou de integrar a equipe da Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) em julho de 2026. Por fim, reconhece que a existência de serviços não é suficiente para eliminar a violência e afirma que busca aprimorar os fluxos de atendimento, a integração entre os serviços e as ações de prevenção e proteção às mulheres.

Violência patrimonial

Na contramão da declaração de Cássia, Marília* teve uma experiência positiva quando buscou a delegacia de polícia do município para denunciar uma ameaça de feminicídio de seu marido.

Ainda jovem, se apaixonou por um homem mais velho vindo de uma família rica. Como prova de seu amor, na hora de assinarem os documentos oficializando o casamento, concordou com uma união com separação total de bens. O que ela viria a descobrir depois é que, junto da união, havia assinado também um acordo que eximia o parceiro de arcar com qualquer tipo de gasto relacionado a ela, nem mesmo gastos para alimentação.

Não demorou para se ver presa em um casamento pautado pelo dinheiro. Ao longo dos anos, dividida entre cuidar do filho e reformar os imóveis do marido sem qualquer remuneração, definhou em uma espiral depressiva. A situação se arrastou até o início do segundo semestre de 2026, quando ele se recusou a pagar um tratamento psicológico para Marília.

Para ajudá-la, o filho do casal, um adolescente de 17 anos, se prontificou a ir até o pai e convencê-lo a mudar de ideia. Depois desse encontro, Marília estranhou a insistência do menino para que a mãe não voltasse para casa. Inquieta, questionou o porquê até que o jovem falasse a verdade.

“Ele foi pra cima do meu filho, falando que, quando eu chegasse, ele daria uma facada em mim. Assim que ouvi aquilo decidi fazer o B.O [boletim de ocorrência]. Não tenho família para pedir ajuda, queria só que, caso ele me matasse, a polícia soubesse quem foi”.

Uma cidade de contrastes: de um lado, lindas praias, de outro, recorde em violência contra a mulher

Na delegacia, mãe e filho foram encaminhados para atendimento psicológico e psiquiátrico, serviços que acessam até hoje. As consultas ajudaram Marília a entender que estava vivendo violência psicológica e patrimonial.

Contempladas pela Lei Maria da Penha desde sua criação em 2006, a violência psicológica e a patrimonial são reconhecidas como formas de violência doméstica. A violência psicológica caracteriza-se por condutas que causem dano emocional, diminuam a autoestima ou busquem controlar, limitar ou perturbar as ações, comportamentos, crenças e decisões da vítima. Atualmente, determinadas condutas dessa natureza podem configurar o crime autônomo de violência psicológica contra a mulher, previsto no o Código Penal, cuja pena é de reclusão de 6 meses a 2 anos e multa, salvo se o fato constituir crime mais grave.

Já a violência patrimonial consiste na retenção, subtração, destruição parcial ou total ou apropriação de bens, valores, documentos pessoais, instrumentos de trabalho, direitos ou recursos econômicos da mulher. Diferentemente da violência psicológica, não existe um único crime denominado “violência patrimonial”, de modo que a conduta praticada poderá configurar crimes diversos, como furto, apropriação indébita, dano ou estelionato. Ambas violências podem ser sofridas simultaneamente e, mesmo que a agressão física não ocorra, devem ser denunciadas.

‘O ideal seria o agressor sair imediatamente’

Além do amparo para a saúde mental, mãe e filho foram encaminhados para a Casa de Acolhimento Provisório. O espaço, criado em 2023, é destinado a mulheres em situação de violência sem risco iminente de morte, acompanhadas ou não de filhos menores de 18 anos. O acesso ocorre mediante encaminhamento da delegacia ou do CREAS (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) e o tempo de permanência é de 15 dias podendo ser estendido por mais 15 dias. Dentro desse prazo, a vítima precisa encontrar uma nova casa.

Sônia Cordeiro, diretora da Divisão de Proteção Especial da Secretaria de Assistência Social de Caraguatatuba, conta que a moradia é o principal desafio no rompimento do ciclo da violência doméstica. “Elas vão para a casa de acolhimento porque o agressor continua no domicílio, mas não é uma residência permanente e muitas não possuem renda própria para irem para outro lugar. Hoje o Governo do estado oferece uma ajuda de R$ 500, mas é um valor baixo, não dá pra custear um aluguel”.

Jackeline esclarece que esses mecanismos são importantes, mas ainda se limitam a soluções primárias: “Não são o melhor para a mulher, mas é o melhor que podemos oferecer hoje. O ideal seria o agressor sair da casa imediatamente, deixando ela para a mulher e o filho. O Estado ainda oferece apenas o básico. É triste pensar que, para manter mulheres vivas, estamos ofertando apenas estratégias mínimas”.

Marilia e o filho voltaram a morar em uma das casas reformadas por ela. Sem renda, a mulher começou a trabalhar como motorista de aplicativo, mas ainda não ganha o suficiente para sustentar os dois.

“Muitas vezes eu saio desesperada pra trabalhar, pra comprar comida pro mesmo dia. O que mais me dói é ver meu filho vender os brinquedos que ele coleciona pra me ajudar a comprar nossas coisas. Ele podia continuar com o pai e ter tudo, mas preferiu ficar comigo comendo pão com mortadela”, diz, emocionada.

A medida que falha em proteger

Com o apoio das assistentes sociais, Marília foi até o Ministério Público solicitar uma medida protetiva de urgência. O promotor negou o pedido sob a alegação de que se ela não estava fisicamente machucada, não havia justificativa para a proteção.

“Eu falei pra ele: ‘Olha, eu preferia que o meu marido me espancasse e eu parasse num hospital, do que eu passar esses 20 anos de abuso psicológico, tomando vários remédios. Até suicídio eu tentei, porque não achava saída’. O que mata o ser humano é essa comparação. Como eu vou mensurar o tamanho da dor que cada mulher está sentindo?” Marília desabafa.

Manifestação em São Paulo em comemoração dos 20 anos da lei Maria da Penha.

A segunda solicitação foi aceita. Agora, ela e o filho possuem uma medida protetiva provisória que vigora até novembro deste ano. Desde que foi concedida, o marido mudou-se para outra cidade. Com medo do que pode acontecer caso a medida não seja renovada, Marília vai semanalmente à Defensoria Pública pedindo uma atualização, mas voltava para casa com a mesma resposta.

“Toda vez é um estagiário diferente e eu tenho que contar a mesma história de novo e de novo. Isso já é violento. No fim, eles falam que eu tenho que esperar e que deveria voltar quando faltasse quinze dias pro prazo acabar. Eu e meu filho temos medo. Eu sei que ele tá esperando o prazo acabar pra vir atrás da gente”. Os únicos momentos em que Marília chora são ao falar do filho e do medo que tem do que o marido pode fazer contra os dois.

Em nota, a Defensoria Pública afirma que o atendimento a mulheres em situação de violência doméstica é considerado urgente e segue um protocolo que prevê o relato dos fatos uma única vez, para evitar a revitimização. As medidas protetivas são acompanhadas e, quando provisórias, é feito um agendamento do retorno antes que o prazo acabe, para reavaliar a situação de risco e adotar as providências necessárias à continuidade da proteção.

Em 2025, Alcione também conseguiu uma medida protetiva provisória que, na época, precisava ser renovada a cada dois meses. Assim que foi notificado sobre a proibição de aproximação, João passou a persegui-la. Em uma das vezes, entrou na casa de Alcione e tentou estuprá-la.

O agressor chegou a passar cinco meses preso, mas, assim que foi solto, retomou as tentativas de assédio. Cada invasão foi registrada pelas câmeras de segurança da casa e pelo acionamento do Botão do Pânico – aplicativo que aciona a Guarda Civil Municipal automaticamente. Nenhuma delas foi considerada no primeiro julgamento. Após duas audiências, João segue respondendo por seus crimes em liberdade.

“Eu estou revoltada, porque foi uma luta. Todas as vezes que ele ia lá, eu tinha que ir na delegacia, para mim também era humilhante. E hoje ele está solto sabendo que, provavelmente, não vai ter nada. Eu acredito que a justiça vai chegar”, Alcione diz, decidida.

Em 2025, para cada um dos 1.571 feminicídios no país, houve 2,7 tentativas de feminicídio e 84 descumprimentos de medidas protetivas de urgência foram registrados. Em números absolutos, o estado de São Paulo lidera as denúncias de tentativas de feminicídios – das 4.189 tentativas totais, 757 foram no estado – e fica em segundo lugar nos descumprimentos de medidas, com 22.820 casos, atrás apenas do Paraná, com 23.220 infrações.

Na visão de Jackeline, também falta, a nível nacional, um plano de reabilitação para os agressores: “A gente não tem um serviço de psicologia social voltado à readaptação desse homem violento para relações harmônicas e não patriarcais. Não basta esperar que a vítima saia da violência. A gente precisa responsabilizar o agressor para que novas violências não aconteçam”.

Caraguatatuba ainda enfrenta o problema estrutural de um governo que, há décadas, não volta seus olhos para as demandas da população feminina. É o que devende a vereadora: “São governos de direita que não enxergam esse tema como central na construção de uma sociedade. É a estrutura machista e patriarcal que se não conseguirmos romper, não vamos avançar. Temos que botar o pé na porta e falar: ‘É necessário olhar pra isso, porque precisamos seguir vivas”.

Onde buscar ajuda

Ligue 180 — Central de Atendimento à Mulher. Gratuito, 24 horas. Orienta sobre direitos, recebe denúncias e indica serviços de atendimento próximos. Também atende pelo WhatsApp: (61) 9610-0180. 

Ligue 190 — Em caso de emergência, risco imediato ou violência acontecendo naquele momento, acione a Polícia Militar. 

Delegacia da Mulher — Para registrar a ocorrência e solicitar medidas protetivas de urgência. Na ausência de uma delegacia especializada, busque uma delegacia de polícia. 

Casa da Mulher Brasileira e Centros de Referência (CRAM/CRAMS) — Oferecem acolhimento e podem reunir atendimento psicológico, social, jurídico e outros serviços da rede de proteção. 

Serviços de saúde — UBS, UPA e hospitais também podem acolher mulheres em situação de violência. Em casos de violência sexual, procure atendimento o quanto antes.

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Solidão “premium”: como redes sociais e consumo transformam estar só em desejo

No Pauta Pública desta semana, Andrea Dip recebe Lucas Liedke e André Alves, psicanalistas, pesquisadores e fundadores da Float Vibes, instituto de estudos culturais e pesquisa comportamental. Apresentadores do podcast Vibes em Análise, eles discutem como as redes sociais transformam a noção de coletividade e de individualidade e como as empresas por trás dessas plataformas se beneficiam da solidão. Para Lucas, o consumidor solitário tende a ser mais rentável para o mercado. 

Segundo um relatório da Organização Mundial da Saúde, uma em cada seis pessoas no mundo se sente sozinha, com impactos significativos na saúde e no bem-estar. Para os entrevistados, as redes sociais prometem conexão e pertencimento, mas também podem intensificar o avanço da solidão entre as pessoas e transformar em espetáculo. “Quem filma a solidão […] no limite também está colocando a câmera como testemunha, ou a suposta audiência como testemunha… um artifício para não estar exatamente sozinho”, resume André Alves. Para Lucas Liedke, este é exatamente o ponto de atenção, já que as plataformas lucram com essa dinâmica. “O imaginário divertido e hipersocial das mídias sociais pode ser opressor”.

As redes sociais não só contribuem para este fenômeno como podem transformá-lo em uma espécie de espetáculo. 

Leia os principais pontos da conversa e ouça o podcast completo abaixo.

EP 239 A solidão “premium” – com Vibes em Análise

23 de outubro de 2026 · Psicanalistas do Vibes em Análise falam sobre o aumento da solidão e como as redes transformaram a ideia de coletividade

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Vocês escreveram esse texto, Solidão Premium, que é uma análise sobre muitos temas que se entrelaçam. Então pra começar, o que é a solidão premium?

Lucas Liedke: A discussão sobre solidão vem acontecendo enquanto sintoma global há algum tempo. Com certeza com mais força há uns cinco anos, a partir da pandemia, do trabalho remoto, do isolamento social. Alguns fenômenos que já eram uma realidade, mas que foram ganhando expansão, se tornando uma necessidade e nós sabemos que muitas pessoas nunca conseguiram voltar ao que era antes.

No Japão tem esse fenômeno do hikikomori, que são os indivíduos que não saem de casa, de forma alguma, e ficam nesse confinamento extremo. Na China, a gente viu o lançamento de um aplicativo, que tem um nome bastante macabro, que é Você Está Morto?, onde as pessoas são convidadas a fazer um check-in a cada dois dias para mostrar para as outras que elas ainda estão vivas.

Nesse contexto, a gente começou a perceber um movimento também de influenciadores de solidão. Pessoas que afirmam ter um um orgulho de não ter uma família próxima, de não ter muitos amigos, de passar um sábado à noite sozinho em casa, assistindo o que quiser no streaming, comendo o que quiser no delivery, sem ter que negociar os seus gostos, as suas escolhas com ninguém. E isso é um contraste curioso para as redes sociais, que sempre foi um lugar mais de expor o quanto você é sociável, o quanto você se diverte, as suas conexões, enquanto uma espécie de capital social. Essa contradição foi o que nos levou a escrever esse texto “Solidão Premium”.

André Alves: Tem o famoso relatório da OMS de 2025 sobre como uma em cada seis pessoas no mundo se sente afetada pela solidão. Sob à luz da psicanálise – que é o campo de onde a gente parte – a definição da solidão parte de uma espécie de déficit relacional. “Eu não tenho quantitativamente e ou qualitativamente relações suficientes na minha vida”. Claro que nunca a gente tem a suficiência na psicanálise, a gente está sempre trabalhando exatamente com ausências e faltas, mas no caso da epidemia de solidão, é algo que diz sobre faltar demais, sobre eu não ter relações profundas o suficiente, e/ou pessoas o suficiente na minha vida com quem eu possa trocar e que considerem a minha dor como algo importante.

A Solidão Premium, da qual a gente tem falado e esse texto que o Lucas escreveu, parte da ideia de que, no estado atual desse movimento, a gente tem observado muitos criadores de conteúdo, e não só, mas também outras áreas da cultura e da vida de uma forma geral, promovendo uma espécie de estetização da solidão. Um rebranding da solidão: a solidão passando a ser algo ou um estado não só difícil, vergonhoso, culposo, negativo, mas também como um estado aspiracional, algo que eu quero ter na minha vida, pertencer, e acho que dá para a gente falar, inclusive, um pouco sobre como o consumo afeta essa história.

Lucas Liedke: Porque essa solidão espetacularizada, o quanto ela é uma escolha? Ou o quanto que é tentar se contentar com o que tem, ou com o que não tem. Porque talvez o que a gente tenha perdido, muitos de nós, não seja só a proximidade com os outros, mas a capacidade e o desejo de se relacionar. Então, nesse espetáculo tem algo meio contraditório, que é você pode estar disposto a não ter mais o valor das relações interpessoais, mas, ao mesmo tempo, tem um gozo em possuir uma audiência e agradar uma audiência, que está validando ali a sua vida solitária, mas que está cheia de prazeres e que custa caro. Como o André falou, ela é aspiracional. Tem uma ostentação, tem um luxo de um certo consumo de que é: “eu estou sozinho, mas eu sou feliz aqui no meu castelo”.

Lucas Liedke e André Alves, psicanalistas, pesquisadores e fundadores da Float Vibes, instituto de estudos culturais e pesquisa comportamental
Lucas Liedke e André Alves, psicanalistas, pesquisadores e fundadores da Float Vibes, instituto de estudos culturais e pesquisa comportamental

Sobre essa ideia da solidão performada; de que solidão estamos falando, quando uma pessoa monta um esquema para se filmar curtindo estar sozinha, para depois apresentar para as pessoas e esperar delas curtidas e comentários? De que tipo de solidão estamos falando quando pensamos nessa solidão performática para o outro?

André Alves: Eu vou trazer três autores para pensarmos a solidão. O Winnicott, psicanalista britânico, tem um texto muito importante, do final dos anos 50, em que ele fala sobre a capacidade de estar só, sobre como a solidão ou a solitude é um estado conquistado. A criança aprende a estar só. Primeiro com os cuidadores observando a criança brincar sozinha, e depois a criança vai integrando essa capacidade de estar feliz em sua própria companhia, ou satisfeita minimamente na sua própria companhia.

Vamos guardar essa informação. Tem uma outra autora que é pouco falada quando se discute solidão – pelo menos nas minhas andanças por aí – que é a Melanie Klein. Já no final de sua obra, tem um texto em que ela descreve a solidão muito ligada a uma nostalgia de um estado perfeito de compreensão total, que nunca existiu mas é a fantasia da relação sem palavras com o objeto primário. A fantasia de que há um outro que me entende completamente, totalmente e me suporta integralmente.

Eu trouxe esses dois autores porque os dois estão falando, de alguma forma, desse ambiente perfeito. E a gente não anda muito bom de desidealizar as coisas. Pelo contrário, a gente anda muito bom de ideais saturados. É o que o consumo especialmente nos promove ou nos promete, né. É exatamente o ambiente perfeito. A casa que ela tem é maravilhosa a ponto de você não querer sair mais dela. Ela faz total sentido, ela reflete todos os seus gostos, né. Esse ambiente de conveniência máxima como se fosse um ambiente perfeito. Que a gente sabe, não existe, mas ao mesmo tempo parece que o consumo tem ficado especialmente bom em nos convencer do contrário.

E aí entra a viralidade e o conteúdo promovendo essa repetição em loop. Eu falei que eram três autores, e acho que tem um terceiro autor importante também da psicanálise britânica, que é o Christopher Bollas, que tem uma grande obra também no século XXI, de como o que a gente busca no consumo é o que o bebê geralmente busca na mãe. Não só um objeto, mas uma experiência de transformação. É isso que o consumo nos promete. “Use isso, tenha isso, viva isso, e você sairá dessa muito melhor, transformado, muito mais aspiracional, inclusive”. É como se a conveniência entrasse também como uma suplantação da carência e de uma constante presença.

Por que a gente tem visto tantos creators ou criadores de conteúdo falando sobre solidão? Exatamente para remontar esse ambiente perfeito e idealizado, colocar nos objetos e nessa casa perfeita cheia de coisas incríveis a ideia de experiência de transformação ou de preservação, e três, uma fala constante e ininterrupta sobre solidão exatamente para não ter que experimentar a solidão. Porque quem filma a solidão ou transforma a solidão em espetáculo – como o Lucas estava dizendo – também está colocando a câmera como testemunha, ou a suposta audiência como testemunha como também um artifício para não estar exatamente sozinho.

Lucas Liedke: Existem dados científicos de como o sentimento de solidão atua como um fator de risco para a nossa saúde, tanto quanto ser sedentário, quanto obesidade, ou tabagismo. Tem até essa ideia de que a solidão é considerada tão prejudicial à saúde quanto fumar 15 cigarros por dia. Mas a solidão é bem subjetiva, você pode estar cercado de muita gente, ainda assim se sentir só, ou o contrário. Então, é claro que não é tanto sobre estar sozinho apenas por opção, mas ter a opção de sair do isolamento quando você quer ou precisa.

Então vale a gente problematizar um pouco que o imaginário divertido e hipersocial das mídias sociais pode ser opressor. Mas a gente também pode demonizar uma vida solitária, assim como romantizar um sentimento de solidão. A gente enxerga que são dois becos sem saída porque tem um empuxo muito do nosso tempo hoje do hiper indivíduo de um grande projeto de se auto-otimizar. E aí as relações nem sempre ajudam nisso, porque você tem que abrir mão de alguma coisa. Precisa se adaptar, quebrar sua rotina, sacrificar alguma coisa. E aí o outro produz um tipo de diferença, ou de atrito, ou de imprevisibilidade nos seus planos. E aí quem entrega essa vida “social” sem fricção é a economia da companhia artificial. A inteligência artificial enquanto essa solução para um problema que foi criado pelas próprias tecnologias.

Não podemos deixar de lado como essa solidão serve ao capitalismo neoliberal, a individualização extrema. Por um lado, a libido tem que estar totalmente investida no trabalho, porque estamos sendo esmagados o tempo inteiro por demandas e não tem mais separação do trabalho para casa, nem fisicamente, nem na nossa cabeça. E aí quais os impactos dessa ideia que os vínculos interpessoais podem oferecer risco para o grande projeto de auto-otimização do super indivíduo?

Lucas Liedke: Tem um tratado do jornalista Derek Thompson que ele chama de século antissocial. Ele fala por esse viés mais do consumo, de a quem que interessa a gente ficar mais e mais sozinhos. Porque mesmo os aplicativos de relacionamento são projetados de forma que você continue lá. Eles não querem perder esses clientes e consumidores. 

O consumidor solitário tende a ser mais rentável para o mercado. São as porções menores e mais caras, é mais embalagem, tem mais transações individuais. A gente tem hoje uma análise de dados também, de algoritmo, que funciona de um jeito muito menos genérico, – como era a visão demográfica do consumidor – hoje, é muito singular, muito específico. E a gente vai sendo suprido com muita conveniência, como se isso desse conta da complexidade do nosso afeto e das nossas carências.

André Alves: O Bumble lançou esse ano o concierge de IA. Você não precisa mais conversar com 10, 50, 100 pessoas até achar uma pessoa que seria “perfeita”. Porque a gente sabe que o trabalho relacional começa exatamente depois do encontro, e não necessariamente no encontro perfeito, do objeto perfeito que vai satisfazer todas as suas necessidades. E aí o concierge de IA, na verdade, filtra quem são as três pessoas perfeitas. Depois, os concierges de IA vão conversar entre si para encontrar a sua probabilidade perfeita.

Então, é um sintoma social, da mediação relacional e também da comunicação assíncrona, de uma quantidade muito grande de ansiedades sociais, da evitação do conflito e principalmente – do que a gente no Instituto Float Vibes, que eu e o Lucas temos – chamamos de era das intimidades sintéticas. A gente fica acostumado demais não com as relações, mas com aquilo que é “sabor-relação”, que me dá o simulacro de relação o simulacro de comunidade, pegando um termo do Zygmunt Bauman.

Outra coisa que eu acho interessante pensar, bem fisheriano, é como essa relação é um golpe de mestre do capitalismo tardio. Primeiro, ele degrada a coletividade e depois nos vende ela de volta, só que com mensalidades, com grupos, com clubes. E aí nós vamos tentando reintegrar a nossa necessidade de fazer pontes e de pertencer através de serviços pagos. Só que, junto com isso, há uma tese em curso que ganha força – especialmente no final dos anos 80 e nos anos 90 –, de que o sucesso é uma questão de disciplina e especialmente de dedicação. Thompson, citado por Lucas, escreveu bastante sobre como o trabalho suplanta a ausência de religiosidade e espiritualidade desse período, consequentemente, o trabalho vira um sistema de devoção. 

Porque se o sujeito contemporâneo, do hiper desempenho, acredita que o sucesso é uma questão de disciplina, as relações vão se transformando em distrações. A relação tem um risco especialmente para os homens, como temos acompanhado em alguns estudos que temos feito e publicado. As relações vão sendo encaradas não mais como algo que você tem que fazer para pertencer ao meio social, mas sim, algo que você pode evitar para continuar comprometido com o seu projeto de sucesso e ascensão.

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Será que Lula 4 nos conduzirá ao futuro ancestral?

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Em seu discurso de vitória na noite de 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) prometeu, em seu quarto mandato, uma nova forma de governar. Com isso, quis dizer que buscaria uma comunicação mais ativa com as ruas, prolongando o sucesso da estratégia digital e de mobilização no segundo turno. Me pergunto se o novo mandato também poderia representar uma oportunidade de inovar na economia e no meio ambiente. Seria possível aprofundar um projeto socioambiental que proteja nossos biomas e favoreça os povos indígenas?

Na candidatura de Lula, a redução do desmatamento, o combate às mudanças climáticas e a proteção aos direitos indígenas estavam presentes. Bem ao contrário do projeto abertamente danoso do bolsonarismo, que negava o direito à demarcação dos territórios indígenas e prometia o desmonte da legislação ambiental. Os jornalistas e ativistas que analisaram os programas de governo dos candidatos do PT e do PL encontraram centenas de menções aos temas socioambientais no caso do petista e quase nenhuma nas propostas de Flávio Bolsonaro.

Por isso, julgo que, a partir de janeiro de 2027, há possibilidades de avanços nas políticas do poder executivo. A trajetória de redução do desmatamento coloca o Brasil como líder na transição ecológica. Tudo indica que será possível acabar com as derrubadas ilegais na Amazônia até 2030. O caminho pode ser um pouco mais longo no Cerrado, onde a agricultura industrial obtém maior lucro. Para estancar a destruição neste bioma, será preciso repensar incentivos financeiros, como os créditos agrícolas, ou mesmo sancionar as propriedades privadas que insistem em destruir para produzir.

Há, no entanto, um caminho mais profundo e de longo prazo. Uma articulação política e territorial que se inspira nos modelos comunitários e de manejo da natureza dos povos indígenas.

A frase “O futuro é ancestral” se popularizou a partir do pensador e escritor Ailton Krenak, o primeiro indígena a ser eleito para a Academia Brasileira de Letras. Em seu livro de mesmo nome, publicado em 2022, ele traz uma mensagem de esperança ao apontar que o futuro não precisa ser apocalíptico, já que a solução sobre como viver em harmonia neste planeta já está entre nós. Contrário à noção de um progresso ocidental, que transforma a natureza somente em recurso, o pensamento indígena enxerga a terra, as florestas e os rios como entes vivos, nossos parentes mais antigos neste mundo.

Krenak popularizou o conceito, mas o senso de comunidade e o respeito à mãe natureza são algo que observamos em muitas culturas indígenas. Quando escutamos que grandes lideranças como o xamã Yanomami Davi Kopenawa nos alertam dos riscos de liberar os espíritos maléficos quando destruímos a floresta, é fácil entender a violência das invasões garimpeiras em seu território.

Essa visão de mundo, tão distinta da economia capitalista, tem consequências concretas para todos nós. A demarcação de terras indígenas, direito garantido aos povos originários na Constituição de 1988, permitiu que uma vasta extensão de ecossistemas nativos na Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica e Pantanal fosse conservada até hoje. Existe uma centena de estudos científicos que demonstram que as áreas sob cuidado dos indígenas estão em melhor condição do que as terras não demarcadas.

Em complemento a estas evidências sobre a efetividade dos territórios indígenas nas estratégias de conservação, temos um estudo muito importante liderado pelos pesquisadores do grupo de ecologia tropical do Instituto Serrapilheira, que foi capaz de calcular a contribuição econômica que as terras indígenas geram ao agronegócio.

A conexão entre floresta, chuvas e lavouras

Essa conexão se dá exatamente pela relação entre a floresta e as chuvas: a umidade advinda dos chamados rios voadores alimenta as lavouras do Centro-Oeste e Sul do país. Segundo nota técnica publicada em dezembro de 2024, as chuvas vindas das terras indígenas da Amazônia abasteceram 80% da atividade agropecuária do país, o que gerou R$ 338 bilhões em 2021, ou 57% da receita total.

Estes mesmos pesquisadores, junto a outros nomes de peso, como José Marengo, atual diretor do Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais, publicaram também em 2024 na revista Nature um artigo em que mostram que as terras indígenas são essenciais para evitar o colapso ambiental da Amazônia, o chamado ponto de não retorno. Neste estágio crítico, as florestas deixariam de absorver carbono em quantidade útil para o equilíbrio do clima. Tornando-se mais seca com tantas queimadas e calor, a maior floresta tropical úmida do mundo não mais seria a provedora de chuvas essenciais.

Por esta razão, políticas públicas que reconheçam a importância das terras indígenas para o bem-estar de toda a nação são cada vez mais urgentes. Lula, junto à ministra Marina Silva foram bem sucedidos em criar o Fundo Amazônia em 2008 e com isso atrair recursos de governos estrangeiros e investir na manutenção e proteção dos territórios indígenas.

Mas é preciso avançar mais nos mecanismos de pagamento por serviços ambientais, que ainda engatinham ou flertam com soluções mercadológicas como os créditos de carbono.

Reforço o que havia dito há algumas semanas, quando defendi que povos da floresta estão unidos contra a extrema direita. O senso comunitário que historicamente permitiu a mobilização política em defesa dos direitos à terra, contra a invasão de desmatadores, garimpeiros ilegais é o mesmo que se uniu contra a proposta de entregar o Brasil aos grileiros.

Para saber mais

Já que hoje estamos falando do saber indígena, gostaria de recomendar a leitura do especial “Manejo do Mundo” publicado na edição deste mês da revista piauí e reproduzido em uma super versão interativa no site da mesma.

Este trabalho mostra como atuam os Agentes Indígenas de Manejo Ambiental (AIMAS) das terras indígenas do Alto Rio Negro. Através de diários sobre as condições climáticas e observações da fauna e flora, estes pesquisadores indígenas trazem uma representação incrivelmente completa do meio ambiente e suas transformações.

https://piaui.uol.com.br/revista/241/o-manejo-do-mundo/

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Críticas do público fizeram imprensa dar nome a golpismo de Bolsonaro, diz Fabiana Moraes

Assim que foi divulgada a carta golpista na qual o candidato derrotado Flávio Bolsonaro se autoproclamou “presidente” do Brasil, muitos jornais brasileiros divulgaram a fala como se fosse mais uma notícia, em tom declaratório, sem evidenciar seu teor golpista.

“Em carta divulgada por aliados, Flávio Bolsonaro se diz presidente eleito do Brasil após chegar aos EUA fugido”, noticiou a Folha de S.Paulo. “Nos EUA, Flávio se autodeclara ‘verdadeiro presidente eleito’ e agradece a Trump e a Milei”, manchetou o Estadão. Outros veículos também fizeram títulos similares.

Depois de alguns minutos no ar, a maioria dos portais corrigiu o tom. “Flávio Bolsonaro se diz presidente eleito do Brasil em carta golpista divulgada por aliados”, reformulou a Folha. O Estadão também mudou: “Após fuga, Flávio se autodeclara ‘presidente eleito em carta golpista e agradece a Trump e a Milei”. Mais tarde, o próprio candidato derrotado postou uma nova carta, na qual se chama “líder do Brasil”.

Carta de Flávio Bolsonaro com duas versões sobre seu 'cargo' após eleições
Duas versões da mesma “carta” golpista apresentada por Flávio Bolsonaro no dia de hoje

A Agência Pública conversou com Fabiana Moraes, professora e pesquisadora do Núcleo de Design e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), para quem a mudança de postura dos grandes veículos nesta ocasião pode ter sido fruto de um maior “letramento midiático” do público depois das últimas eleições, que atua de forma mais crítica ao trabalho da imprensa.

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A professora, que pesquisa a objetividade jornalística — isto é, a crença de que o jornalismo consegue ser isento de ideologias e vieses — relembra como a mídia foi alvo de muitas críticas nesta cobertura eleitoral. “Flávio almoçar com a Globo antes da entrevista no Jornal Nacional foi um escândalo”, disse, sobre a reunião do ex-senador com executivos da emissora no dia em que seria sabatinado. “Acho que essas eleições ensinaram para uma população maior algumas questões que geralmente ficariam uma conversa entre jornalistas.”

A pesquisadora aponta que parte dos veículos que, em um primeiro momento, normalizaram o discurso golpista “queriam Flávio presidente, ou sempre tiveram uma enorme antipatia por Lula”. “Eu não diria que há uma nova postura [deles], mas uma correção nesse caso específico porque rapidamente as pessoas questionaram as manchetes.”

A pesquisadora relembra que ficou evidente que os algoritmos das redes sociais não são puramente técnicos e, por isso, podem ser questionados. Do mesmo modo, o jornalismo também não é puramente técnico, no entendimento de Moraes. “Acho que há uma questão de mostrar para onde a imprensa estava indo”, aponta, citando como exemplo as relações da imprensa com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que atuava quase como um ‘editor-chefe’ de algumas redações. A Pública mostrou a interferência editorial de Vorcaro no alto escalão do grupo Globo.

Moraes também aponta que, nessas eleições, ficou mais claro o peso do jornalismo independente, além do peso de estratégias diferentes da cobertura tradicional, como o uso de humor, ficção e de influenciadores digitais.

Um dos livros de Moraes é “A pauta é uma arma de combate”, em que trata sobre como os jornalistas definem o que vai ser ou não notícia, muitas vezes reproduzindo preconceitos e hierarquias de gênero, classe social e raça.

Moraes acredita que essa eleição será importante para “riscar o chão com a faca” para pactuar novas posturas. “Por exemplo, que precisamos promover de fato o jornalismo independente e financiá-lo. Porque é isso: Lula se torna presidente em uma eleição mais do que histórica, e, no dia seguinte, os jornais estão falando sobre a Bolsa de Valores – algo que sempre acontece –, mas minimizam o tamanho dessa vitória. Quando você olha para a imprensa internacional no dia seguinte, a cobertura e o peso que se dá a essa vitória do Lula são bem diferentes”, afirma.

“A imprensa vai continuar seguindo suas apostas, como a Globo com Flávio – apostas mesmo, né? Mas acho que há uma coisa boa, que é o reconhecimento do jornalismo que olha para a democracia não como negócio, mas como um ambiente necessário para respirar.”

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Lula vence em seções eleitorais com local alterado, apesar de abstenção maior

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o segundo turno das eleições realizadas no último domingo, 25 de outubro, em 247 das 431 seções eleitorais cujo local de votação foi modificado pelos tribunais eleitorais.

Nessas sessões, Lula recebeu 34.053 votos (55,3%) contra 25.691 (41,7%) de Flávio Bolsonaro, apesar de a abstenção média dessas urnas, de 20,36%, ter superado o índice de eleitores faltosos registrado nacionalmente, que foi de 19,2% no segundo turno. No primeiro turno, a abstenção foi de 21,08%, a maior desde 1998, e o grande alvo da campanha de Lula para realizar a virada e alcançar a reeleição.

A Agência Pública comparou como foi a votação nas 247 seções eleitorais entre o primeiro e segundo turnos, checando os boletins de urna na plataforma Resultados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O levantamento considera os dados entre 20 de outubro, quando o sistema do TSE anunciava 453 alterações em 22 Estados, e a lista final de seções que mudaram de local de votação, publicada na manhã do dia em que houve o segundo turno, 25 de outubro. O número de urnas também foi utilizado na reportagem da Pública, que detectou que Lula havia vencido no total de votos nas seções cuja alteração estava prevista na lista do TSE de 20 de outubro.

O número de urnas cujo local foi anunciado que seria alterado, segundo a reportagem, chegou a 4.352, depois caiu para 2.033, até chegar ao número final de 431 em 25 de outubro, tudo isso anunciado no sistema de informações eleitorais do TSE, sujeito a até quatro anúncios diários com modificações. Ou seja, o número de seções eleitorais alteradas poderiam mudar até quatro vezes num só dia.

Abstenção maior e mais votos para Lula

Apesar de uma abstenção maior, as urnas que foram alteradas de local tiveram um comportamento semelhante às do restante da eleição pelo país.

As 247 urnas checadas pela Pública tinham um eleitorado total de 77.338 eleitores dos quais 61.586 compareceram no segundo turno, 1,4% a mais do que os 60.702 do primeiro turno. Essas seções eleitorais estavam distribuídas em 19 estados, nas cinco regiões do país.

Lula teve mais votos em relação ao primeiro turno em 233 das 247 seções, 94% do total, enquanto Flávio Bolsonaro perdeu votos em 70 das 247 seções ou apenas manteve a votação do primeiro turno.

Analisando essas 247 urnas, fica clara a mobilização dos eleitores de levar mais gente a procurar às urnas no segundo turno e como se distribuíram os votos.

Viradas em urnas de seis Estados

Em Minas Gerais, analisando as 37 seções do Estado que fizeram parte do levantamento, a mudança da orientação fica evidente no voto no Estado, no qual Lula ficou em segundo, no primeiro turno, com 43,3% dos votos, e venceu o segundo turno com 50,4% dos votos.

No estado, foram oito seções em que o presidente perdeu no primeiro turno e passou a ter mais votos que o adversário no segundo turno. As viradas pró-Lula foram registradas em seções nos municípios de Arinos, Carmo da Mata, Ubá e Unaí. Em seções localizadas no Rio de Janeiro, São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraíba e Pará também foi identificado o movimento de virada de votos.

Bolsonaro venceu nos seus redutos, mas Lula recuperou terreno

Outro comportamento notado na votação foi que Lula teve muito mais votos adicionais no segundo turno em relação ao concorrente, mesmo em estados onde não teve a maioria dos votos, caso de São Paulo, Paraná, Mato Grosso e Rondônia.

Lula virou em uma seção da zona norte de São Paulo, na capital paulista, que se tornou um reduto da direita, obtendo 139 votos, 37 a mais do que havia recebido no primeiro turno, e o suficiente para bater Bolsonaro por 2 votos.

No estado de São Paulo, Lula obteve 2,6 milhões de votos a mais no segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro teve 1,2 milhão a mais.

Em uma seção do município de Confresa, Mato Grosso, modificada devido a questões climáticas, 283 eleitores compareceram no segundo turno ante os 271 da primeira votação. Bolsonaro recebeu 205 votos, nove a mais que no primeiro turno, enquanto Lula recebeu 72 votos, 18 a mais que a votação que teve na primeira rodada.

No Mato Grosso, Lula teve 112 mil votos novos, enquanto Flávio Bolsonaro conseguiu apenas 52,5 mil votos adicionais.

Em Laranjeiras do Sul, no Paraná, em uma das seções alteradas, Lula recebeu 75 votos no primeiro turno e 102 no segundo, 27 a mais, enquanto Bolsonaro recebeu 164 votos, apenas 14 a mais que no primeiro turno. No Paraná, Lula teve 511,9 mil votos a mais no segundo turno contra 337 mil votos adicionais de Bolsonaro.

Em Rondônia, estado onde Flávio Bolsonaro venceu, com 69,6% dos votos, estavam 12 das 247 urnas do levantamento, oito delas registraram um comparecimento de eleitores menor que no primeiro turno. Ou seja, em estados que venceu, Flávio não teve uma melhora significativa em sua votação.

Em todo o Estado de Rondônia, enquanto Lula obteve 43.779 votos a mais no segundo turno, Bolsonaro obteve apenas 21.394 votos a mais.

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Flávio Bolsonaro pode assistir de camarote derrota de Trump nas eleições dos EUA

Na terça-feira, 3 de novembro, até 200 milhões de eleitores registrados poderão ir às urnas nos Estados Unidos para votar em todos os 435 membros da Câmara dos Representantes, 33 senadores, 36 dos 50 governadores, além de integrantes de legislaturas estaduais e locais. As pesquisas indicam que Donald Trump e o Partido Republicano têm grandes chances de sofrer uma derrota acachapante, perdendo o controle da Câmara dos Representantes e, possivelmente, do Senado. O apoio ao presidente está em queda em todas as questões. Segundo a revista The Economist, apenas 34% dos entrevistados aprovam a presidência de Trump, enquanto 61% se opõem às suas políticas.

Analistas políticos estão divididos sobre se ocorrerá uma “onda azul” (cor associada aos Democratas pelos veículos de imprensa desde as eleições de 2000) ou um verdadeiro tsunami eleitoral, ainda mais poderoso. De qualquer forma, a possível perda do controle democrata da Câmara — e, talvez, do Senado — deixará Trump vulnerável a investigações parlamentares voltadas a limitar seu poder excessivo e a retomar atribuições e responsabilidades que o Congresso, sob controle republicano, havia cedido ao Poder Executivo.

Trump entra na última semana da temporada eleitoral deste ano em posição extremamente fragilizada. A insistente retórica do presidente dos EUA de que a economia vive seu melhor momento — e de que as dificuldades financeiras, em especial o acentuado aumento do custo de vida, não passam de uma farsa do Partido Democrata — não parece convencer os eleitores. Os preços da gasolina e do diesel permanecem altíssimos, e o custo dos alimentos e de itens de consumo básico exerce pressão real sobre o orçamento das famílias. Até mesmo muitos de seus apoiadores republicanos, que se opõem ao envolvimento dos EUA em “guerras sem fim”, estão perdendo a confiança nas promessas de Trump de que o fim do conflito com o Irã estaria próximo.

Fora isso, Trump parece apostar todas as cartas em interferir com as eleições brasileiras ao recepcionar Flávio Bolsonaro — candidato derrotado e fugido do Brasil, que um dia antes havia dito que não deixaria o país.

O Futuro das Relações entre Brasil e Estados Unidos

Uma das grandes mudanças que podem acontecer nos EUA, caso os republicanos percam as eleições de novembro, são os contrapontos em relação à postura dos Estados Unidos com o Brasil.

Trump, que recebe o candidato derrotado Flávio Bolsonaro, ainda não reconheceu oficialmente o resultado das eleições, e já discursou alegando fraude nas eleições brasileiras, sem provas, claro. Steve Bannon endossou o apelo de que o Brasil se tornou uma ditadura que merece sanções severas por parte dos Estados Unidos.

Do outro lado, membros do Congresso dos EUA enviaram prontamente mensagens de felicitações ao presidente Lula. Publicações nas redes sociais refletiram as opiniões de democratas de todo o espectro político — desde figuras social-democratas conhecidas, como o deputado estadual de Nova York Zohran Mamdani, o senador por Vermont Bernie Sanders e a deputada federal por Nova York Alexandria Ocasio-Cortez, até membros mais moderados do Congresso.

A derrota de Flávio Bolsonaro representou uma perda contundente para Trump, que implementou uma série de medidas fiscais, políticas e (provavelmente) clandestinas para ajudar seu aliado brasileiro a vencer. Em uma região atualmente dominada por governos de direita, o Brasil — ao lado do México e do Uruguai — continuará na linha de frente da resistência às tentativas de Trump de impor uma dominação neocolonial sobre a América Latina e o Caribe. A vitória de virada de Lula elevou o Brasil à condição de referência internacional na luta contra a extrema direita.

Caso os republicanos percam as próximas eleições legislativas e para governos estaduais, isso significará que os democratas no Congresso, que defenderam a democracia brasileira em 2022 e 2026, poderão desempenhar um papel importante ao garantir que aqueles que minaram a democracia não utilizem os Estados Unidos tão livremente como plataforma para atacar o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva.

Rejeição às políticas de imigração

Na campanha presidencial de 2024, o discurso anti-imigrante e xenófobo de Trump — que incluiu alegações falsas de que refugiados haitianos estariam “comendo nossos gatos e cachorros” — foi um dos muitos fatores que levaram os republicanos à conquista da Casa Branca e ao controle do Congresso.

No entanto, uma pesquisa recente com 30 mil americanos em todos os cinquenta estados revelou que apenas 37% aprovam as políticas de imigração do presidente. Nessa amostra, 11% dos democratas apoiam as medidas da Casa Branca, enquanto entre os republicanos o apoio cai para 78%. Uma pesquisa de setembro, conduzida pela rede conservadora Fox, indicou que 53% dos eleitores registrados consideram que Trump “foi longe demais” nas operações em larga escala do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) para deter trabalhadores sem documentação — mão de obra que constitui a base dos setores de serviços e da agricultura.

As mortes, tanto de cidadãos quanto de imigrantes, causadas por agentes mascarados, provocaram indignação em todo o país, desencadeando protestos em massa contra o uso excessivo de força pelo governo na detenção de pessoas supostamente em situação irregular.

Temendo uma derrota eleitoral iminente na próxima semana, Trump insiste que seus oponentes venceram eleições especiais recentes porque o Partido Democrata permitiu que imigrantes não cidadãos participassem do processo eleitoral. O Departamento de Justiça afirma ter compilado listas de pessoas em diferentes estados que estão registradas ilegalmente para votar e exige uma intervenção federal para evitar fraudes eleitorais.

Porém, autoridades locais responsáveis pela condução das eleições nos cinquenta estados constataram que um número extremamente reduzido de eleitores inelegíveis chegou a votar. Por exemplo, este ano, o governo dos EUA alegou que 16 mil não cidadãos estavam registrados para votar em Nevada, mas enviou apenas 185 nomes às autoridades eleitorais estaduais. Após revisarem os registros de eleitores do estado, verificaram que todos os 185 eram, na verdade, cidadãos americanos elegíveis.

O secretário de Estado da Geórgia, que supervisiona o processo eleitoral, informou que, nos últimos 30 anos, seu órgão identificou apenas 432 possíveis não cidadãos. Caso algum deles tenha votado, tratar-se-ia de um número infinitesimalmente pequeno, se comparado às centenas de milhões de votos computados nas últimas três décadas.

Ainda assim, Trump continua a propagar essa inverdade para semear, na mente de seus apoiadores, dúvidas sobre a legitimidade de qualquer eleição que ele — ou seus aliados — venha a perder.

Oposição a uma guerra sem fim contra o Irã

Historicamente, os cidadãos americanos tendem a se unir em torno do presidente nas fases iniciais de conflitos no exterior, à medida que o patriotismo cresce, acompanhado do apoio às tropas americanas enviadas ao combate. Durante a Guerra do Vietnã, foram necessários anos para que uma oposição de massa influenciasse a opinião pública. Da mesma forma, no início, a maioria dos americanos apoiou a invasão do Afeganistão — após os ataques de 11 de setembro de 2001 às Torres Gêmeas, em Nova York — bem como as duas guerras no Iraque. Com o tempo, o sentimento público mudou, passando a se opor a essas incursões militares.

Esse não é o caso em relação à guerra contra o Irã. A ausência de objetivos claramente definidos para o conflito, somada à disparada descontrolada dos preços dos combustíveis, fez com que a opinião pública se voltasse contra o conflito desde o início. Uma pesquisa da CNN, realizada em setembro, revelou que o apoio à guerra entre os eleitores republicanos caiu de 73% para 60%. Em todo o país, os agricultores — que, nos últimos anos, têm tido a tendência de votar no Partido Republicano — estão sofrendo com os preços elevados do diesel, que afetam o plantio, a colheita e o transporte de produtos agrícolas; isso, por sua vez, tem provocado um aumento significativo nos preços dos alimentos.

As tarifas de Trump abalam a economia dos EUA

As políticas tarifárias erráticas da Casa Branca também desestabilizaram a economia. O conflito de Trump com o Canadá — um dos parceiros comerciais mais importantes dos Estados Unidos — gerou caos em estados que dependem do comércio entre os dois países, afetando, em particular, empresas e mercados localizados ao longo da fronteira. Trump descartou o acordo comercial negociado com o México e o Canadá durante seu primeiro mandato, provocando graves transtornos para empresas do setor manufatureiro que fornecem componentes para a produção de bens.

Alguns mercados de exportação de alimentos foram encerrados, e muitos importadores de produtos estrangeiros viram-se obrigados a aumentar os preços para arcar com as tarifas de importação.

Paralelamente, Trump mente recorrentemente ao público ao afirmar que é o país exportador que paga as tarifas, quando, na realidade, é o importador ou o consumidor final que arca com esses custos adicionais.

Disputas-chave no Senado para acompanhar

Nas eleições presidenciais de 2024, especialistas observaram que homens negros, latinos e pessoas com menos de 30 anos migraram para o Partido Republicano. Com base nessa suposta tendência, legislaturas estaduais controladas pelos republicanos começaram a redesenhar os distritos eleitorais para favorecer seu partido, garantindo cerca de uma dúzia de distritos adicionais considerados “seguros” para seus candidatos.

Contudo, a estratégia saiu pela culatra. Pesquisas recentes indicam que esses três grupos demográficos, desiludidos com as políticas de Trump, abandonaram os republicanos e, provavelmente, ajudarão a eleger mais democratas para o Congresso, contribuindo para que o partido conquiste o controle da Câmara dos Representantes.

Nesse contexto — e diante da provável derrota dos republicanos na Câmara —, as disputas pelo Senado tornaram-se o foco da campanha de Trump na reta final das eleições. Para assumir o controle do Senado, os democratas precisam garantir a reeleição de senadores em estados com eleitorado dividido e, simultaneamente, conquistar vitórias em estados atualmente representados por republicanos.

As disputas na Geórgia e na Carolina do Norte parecem estar claramente inclinadas a favor do Partido Democrata. Em Michigan, o candidato democrata Abdul El-Sayed — médico de saúde pública e muçulmano, filho de pais egípcios — também protagoniza uma disputa acirrada. Seu oponente republicano tem proferido insultos racistas e antimuçulmanos contra ele, além de acusações de que ele seria um “socialista radical”, na tentativa de desacreditar sua candidatura. El-Sayed, que lidera as pesquisas com 6% de vantagem — assim como quase todos os candidatos democratas —, manteve-se fiel ao seu discurso, denunciando o alto custo de vida e a guerra no Irã.

Outra disputa importante para o Senado que merece atenção ocorre no Texas, onde o seminarista protestante progressista James Tallarico — capaz de debater com brilhantismo interpretações da Bíblia diante de oponentes republicanos conservadores — mantém uma leve vantagem. Há décadas, o estado não elege um democrata para o Senado.

Com eleitores ansiosos para votar contra Trump, os democratas também encontraram novas oportunidades de vencer eleições senatoriais em estados tradicionalmente conservadores: Alasca, Iowa, Kansas, Nebraska e Ohio. Em 2024, Trump venceu nesses estados por uma margem de dois dígitos. O foco dele nesses estados, que são redutos republicanos sólidos, revela o quanto o partido está na defensiva. New Hampshire e Maine são outros dois estados em que os candidatos democratas estão empatados com seus oponentes republicanos ou apresentam uma leve vantagem.

Em suma, se os democratas tiverem sorte — ou se ocorrer uma “tsunami azul” —, Trump poderá enfrentar uma maioria hostil no Congresso no próximo ano.

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Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

A Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, amanheceu mais alegre do que de costume. Era 12 de outubro deste ano, Dia de Nossa Senhora Aparecida e também das Crianças. A rua foi tomada por balões, brinquedos infláveis, pula-pulas e até show de mágica.

No meio dela, acontecia uma batalha de barbeiros, uma competição para ver quem fazia os cortes de cabelo mais perfeitos e o melhor “loiro pivete”, estilo descolorido popular entre os jovens das favelas cariocas. A criançada fazia fila para ganhar bolo, pipoca, cachorro-quente e refrigerante. Por toda parte, gritos de alegria e clima de festa.

Rio de Janeiro, 12 de Outubro. 
Comemoração do Dia das crianças, Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, favela do Complexo da Penha. Um ano antes, a comunidade foi acometida pela pela Operação Contenção, que deixou 122 pessoas mortas. No local, os moradores enfileiraram os corpos recolhidos por eles numa área de mata usada como rota de fuga, no dia seguinte ao massacre.
Rio de Janeiro, 12 de Outubro. 
Comemoração do Dia das crianças, Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, favela do Complexo da Penha. Um ano antes, a comunidade foi acometida pela pela Operação Contenção, que deixou 122 pessoas mortas. No local, os moradores enfileiraram os corpos recolhidos por eles numa área de mata usada como rota de fuga, no dia seguinte ao massacre.
Comemoração do Dia das Crianças, na Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha

Em outubro do ano passado, o cenário na mesma praça era bem diferente. “Fazia um ano que eu não pisava aqui”, disse Tauã Brito, de 37 anos, com os olhos cheios de lágrimas. “Quando pintaram a praça na Copa do Mundo, eu queria muito ter vindo, porque foi um amigo meu que fez as pinturas. Mas não consegui. Toda vez que eu via as filmagens do drone, eu dizia: ‘Está lindo o chão, mas eu só consigo olhar e ver o corpo do meu filho estirado nele.’”

Seu filho, Wellington Brito, de 20 anos, foi uma das vítimas da chacina da Penha, chamada oficialmente de “Operação Contenção” pela Polícia Civil. A megaoperação contra o Comando Vermelho foi realizada há um ano, em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio. Ação do então governador Cláudio Castro (PL), executada pelas polícias Civil e Militar, tornou-se a operação policial mais letal da história do Brasil: 122 mortos, entre eles cinco policiais.

Foi ali, na Praça São Lucas, que os próprios moradores enfileiraram os corpos recolhidos por eles numa área de mata usada como rota de fuga, no dia seguinte ao massacre. Caminhonetes não paravam de chegar com as vítimas empilhadas, mutiladas e com sinais claros de execução. O cheiro de morte impregnava o ar. O silêncio sepulcral só era cortado pelo choro desesperado de mães, esposas e irmãs das vítimas. As imagens dos corpos estendidos no chão rodaram o mundo.

Tauã Brito, de 37 anos, mãe de uma das vítimas da chacina da Penha
Tauã Brito, de 37 anos, segura foto do filho, Wellington Brito, de 20, uma das vítimas da chacina da Penha
Tauã Brito, de 37 anos, segura foto do filho, Wellington Brito, de 20, uma das vítimas da chacina do ano passado

Desde então, os moradores da Penha se mobilizam para tentar superar a tragédia. “Estar aqui hoje é quebrar um tabu, tentar mudar na minha mente um cenário de muita dor. Você não vai ver quase nenhuma mãe das vítimas aqui, porque esse local ficou marcado por muita tristeza”, afirma Brito.

A escolha da Praça São Lucas para o evento do Dia das Crianças, organizada pela associação de moradores, não foi por acaso. Nascida e criada no bairro, Brito precisou deixar a Vila Cruzeiro depois de receber ameaças de policiais nos meses que se seguiram ao massacre. Mesmo assim, fez questão de participar como voluntária naquele dia, e até fez um bolo para colaborar com a festa.

“A gente está fazendo isso para tentar olhar a praça com outros olhos. A favela é vida, é alegria, e a gente quer mostrar isso para o mundo”, disse. “Muitas das nossas crianças viram aquelas cenas de morte. Nós, mães das vítimas, vamos carregar essa dor dentro de nós para sempre. Mas a comunidade precisa seguir a vida aqui dentro de forma mais leve.”

Andressa Ignácio, de 29 anos, moradora da Vila Cruzeiro, também voltava à Praça São Lucas naquele dia pela primeira vez desde a chacina. Veio à festa acompanhada dos dois filhos. “Fico muito feliz, porque as crianças hoje estão vendo um lugar colorido e animado, e não aquela cena de corpo jogado no chão”, disse. Até então, Ignácio evitava passar pelo local. “Para gente que mora aqui, a lembrança ainda é muito recente e dolorosa. O brilho da comunidade se apagou por causa do que aconteceu.”

Um ano depois, moradores dizem que pouco mudou na presença do Estado no bairro. “Não chegou nada de importante na área social, na saúde, na educação”, afirma Gilberto Santiago, advogado criminalista e morador da Vila Cruzeiro. “Quando o Estado entra, só entra pra matar.”

Foto da operação nos complexos da Penha e do Alemão, realizada tanto pela Polícia Militar quanto pela Civil, que resultou em 121 mortos.
No ano passado, fotos de corpos empilhados e enfileirados após a chacina chocaram o mundo

Chacina é usada eleitoralmente por Flávio Bolsonaro e apoiadores

Logo após a chacina, em 2025, a operação foi fortemente aplaudida por políticos de direita e de extrema direita. Castro a definiu como “um sucesso” e afirmou que as únicas vítimas eram os policiais mortos. Dois dias depois, recebeu no Palácio Guanabara governadores de oposição ao presidente Lula e anunciou a criação de um “Consórcio da Paz” para ações conjuntas contra o crime organizado.

Na época, a Agência Pública mostrou como a maioria dos governadores que integram o consórcio teve um aumento nas mortes causadas por policiais nos respectivos estados durante a sua gestão.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que a ação havia sido realizada “com muita excelência”. A operação também teve respaldo da maioria da população: segundo o Datafolha, 57% dos moradores da capital e da região metropolitana do Rio a avaliaram como um sucesso.

Para a pesquisadora Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF), a operação teve um efeito político imediato, mudando os termos do debate sobre segurança pública no Brasil. Na época, o Planalto defendia a PEC da Segurança Pública e apostava em investigações para asfixiar financeiramente as facções. “O governo federal vinha com propostas de ataque inteligente, de desmantelamento de redes, de seguir o dinheiro”, diz Grillo. “E, naquele momento, a partir do Rio de Janeiro, conseguiu-se deslocar a discussão para ser contra ou a favor do massacre.”

O senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado nas eleições de 2026, já falava em guerra às facções antes mesmo da operação. Cinco dias antes da chacina, ao compartilhar uma publicação do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, sobre o ataque a uma embarcação no Pacífico, escreveu em inglês, no X: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”. No dia seguinte, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, protocolou no Supremo Tribunal Federal (STF) uma representação criminal contra o senador por afronta à soberania nacional.

Print da conta do ex-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, que diz, em inglês e português: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?" em referência à chacina na Penha e Alemão
Print da conta de Flávio Bolsonaro em que ele sugere ação contra barcos na Baía de Guanabara, em referência à chacina na Penha e no Alemão

Em maio deste ano, depois de um encontro com Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca, Flávio disse ter pedido ao presidente norte-americano que o Comando Vermelho e o PCC fossem classificados como organizações terroristas. Disse que, enquanto Lula pedia a Trump que não adotasse a medida, ele fazia “o contrário”. No início daquele mês, Lula havia se reunido com Trump e apresentado argumentos contra a designação: o governo temia que ela abrisse caminho para sanções ou até para uma ação militar dos Estados Unidos em território brasileiro.

Dois dias após o encontro com Flávio, o Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, designou as duas facções como “terroristas globais especialmente designados” e anunciou sua inclusão na lista de organizações terroristas estrangeiras a partir de 5 de junho. Nos bastidores, aliados da oposição viram a decisão como uma vitória política do senador.

Para Grillo, a classificação foi política, não técnica. “Os Estados Unidos não se basearam na realidade, mas usaram um artifício político”, afirma. Segundo ela, as facções brasileiras não têm projeto ideológico, religioso ou de mudança de regime, características que definem o terrorismo. “São grupos do crime organizado que, como cartéis e máfias, buscam apenas o lucro. É simples assim.”

A pesquisadora não vê risco de intervenção militar norte-americana no curto ou no médio prazo, embora reconheça que a medida cria “uma abertura jurídica” para isso. O impacto mais imediato, diz, seria econômico. “Os Estados Unidos se autorizam a confiscar todos os ativos de qualquer empresa que tenha alguma forma de vínculo com organizações terroristas, mesmo que a empresa não saiba disso. Isso cria insegurança jurídica para todas as empresas que atuam aqui.”

Santiago, que mora no Complexo da Penha há 45 anos, inverte o argumento. “Terrorismo é o que o Estado pratica nas comunidades”, afirma o advogado. “Praticar terrorismo é fechar escolas, creches, aterrorizar crianças, mulheres grávidas, moradores, matar pessoas inocentes, executar pessoas rendidas. Isso é terrorismo.”

Em agosto deste ano, já candidato à Presidência, Flávio levou o tema para o centro da campanha. No lançamento da candidatura de Douglas Ruas (PL) ao governo do Rio, no Maracanãzinho, declarou “guerra aos narcoterroristas” e prometeu que, se eleito, também classificaria o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas no Brasil.

Mortes viram trampolim eleitoral no Rio de Janeiro

A chacina também serviu de trampolim eleitoral para quem a comandou. O ex-secretário da Polícia Civil Felipe Curi foi eleito deputado federal pelo Progressistas (PP), com mais de 133 mil votos. Ainda à frente da Polícia Civil, dias depois da chacina, Curi defendeu que as facções recebessem “tratamento à altura de terroristas”.

Segundo reportagens, aliados e integrantes da área de segurança associaram, durante a campanha, o número de urna de Curi, 1122, ao total de mortos na operação. O ex-secretário da Polícia Militar Marcelo de Menezes (PL) conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), com mais de 46 mil votos. O delegado Bernardo Leal, que também participou da ação, foi eleito deputado estadual com mais de 57 mil votos.

Para Grillo, o termo “narcoterrorismo” dá voto justamente por traduzir uma sensação cada vez mais presente entre os brasileiros: o medo. “É uma forma de mobilizar o medo da população por meio de uma categoria exagerada”, explica. A pesquisadora também afirma que megaoperações como a da Penha não reduzem o poder das facções. “No segundo em que a polícia saiu, aquele território continuou sob controle do Comando Vermelho”, diz.

“Todas as pessoas que foram mortas são insubstituíveis do ponto de vista dos seus familiares, mas perfeitamente substituíveis do ponto de vista das facções.” Operações como esta, segundo ela, não passam de “um método ineficaz e populista. E todo populismo, de alguma forma, mira as eleições”, conclui.

Curi e Menezes chegam ao Legislativo enquanto a operação que comandaram segue sob investigação. Familiares relataram ter sido impedidos de reconhecer os corpos das vítimas. A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) abriram investigações, e o MPRJ já denunciou 17 policiais por condutas como invasão de domicílios, apropriação de bens e armamentos, constrangimento de moradores e tentativas de impedir ou prejudicar o registro das câmeras corporais.

A ONG Human Rights Watch apontou que a Polícia Civil não preservou os locais das mortes, comprometendo as perícias. Em abril deste ano, a PF informou ao STF que ainda não havia recebido as imagens das câmeras corporais dos policiais militares que participaram da ação.

Castro tentou surfar a mesma onda. Após a operação, recebeu o aval da cúpula nacional do PL para disputar o Senado, e seu perfil no Instagram ganhou cerca de 1,5 milhão de seguidores. Mas, em março de 2026, um dia depois de renunciar ao governo para concorrer, foi declarado inelegível por oito anos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por abuso de poder político e econômico na eleição de 2022.

Coube a Ruas, seu aliado e ex-secretário estadual das Cidades, levar a bandeira adiante. Durante a campanha, Ruas buscou se afastar de Castro e do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, ambos investigados, mas não abandonou a defesa da Operação Contenção em suas falas públicas.

O discurso parece ter colado: em 10 de outubro, depois que o TSE anulou os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) e o Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) refez a totalização, Ruas foi declarado eleito em primeiro turno, com 50,88% dos votos válidos, contra 44,16% de Eduardo Paes (PSD).

Depois das eleições, o medo de operações ainda mais letais

Em sua primeira entrevista como governador eleito, à TV Globo, Ruas afirmou que a segurança pública será o foco central de sua gestão. Prometeu convocar logo no início do mandato os aprovados em concursos das forças de segurança e retomar territórios dominados pelo tráfico e pela milícia com operações planejadas, seguidas da ocupação permanente das áreas. Questionado sobre quais comunidades seriam as primeiras, respondeu: “Não vou fazer assessoria para bandidos”.

Na Penha, a promessa é recebida com desconfiança. “Vão entrar para matar mais”, afirma Tauã Brito. “Muita gente aplaudiu o que aconteceu aqui. Então eles entenderam que morte, de certa forma, dá voto.” Para Andressa Ignácio, a eleição de Ruas repete a de Castro. “As próprias pessoas elegeram um segundo Cláudio Castro. Eles são farinha do mesmo saco”, afirmou, antes do segundo turno.

O temor cresceu com a disputa eleitoral. Em 9 de outubro, ao lado de Ruas, na Barra da Tijuca, Flávio, que disputou o segundo turno contra Lula em 25 de outubro, disse que os dois estão alinhados para “declarar guerra” ao crime organizado e mandou um recado “aos narcoterroristas de Comando Vermelho, PCC e milícias”. Nas urnas, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, segundo o TSE. A designação das facções como terroristas pelos Estados Unidos, decidida em maio, não depende do resultado eleitoral brasileiro.

Nesta quarta-feira, 28 de outubro, dia em que a chacina completa um ano, os familiares das vítimas organizam um grande ato pacífico na Praça São Lucas. O evento acontece três dias depois do segundo turno, com Ruas eleito no estado e Lula reconduzido ao Planalto.

Perguntada sobre o que pediria a quem vencesse a corrida pela presidência, a mãe de Wellington respondeu: “Eu só peço que olhem para a Penha não como um cenário para tirar vidas, mas de uma forma mais humana. Que lembrem que existem pessoas aqui dentro que precisam ser respeitadas, crianças que precisam crescer num ambiente de paz. As crianças da favela precisam voltar a ser crianças”.

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Um beijo em uma mulher trans

A cena toda deve ter durado cerca de três segundos: A deputada federal Erika Hilton (Psol-SP) faz um vídeo comemorando a eleição de Lula após a contagem das urnas, no dia 25 de outubro. Ele passa por ela, pega seu rosto, tasca um beijo carinhoso em sua bochecha e sai do quadro. Um gesto simples, espontâneo, terno, um carinho. 

Eu não sei se Lula tem noção do tamanho da declaração que fez pro mundo. O presidente de um país, que acaba de ser reeleito em um processo histórico e inédito em tantos níveis – com participação popular e engajamento sociais sem igual, em uma virada épica que acontece apesar de todo tipo de sabotagem das Big Techs ao governo Trump, de tentativas de boicote ao transporte público para que as pessoas não chegassem às urnas a uma grande imprensa tacanha jogando contra – um homem de 81 anos, que tem os olhos do mundo virados para si, mostra publicamente afeto a uma mulher trans. 

Durante comemoração da vitória no segundo turno das eleições 2026, presidente Lula da beijo em bochecha da deputada federal Erika Hilton
Trecho de vídeo publicado por Erika Hilton

Essa cena me emociona por diferentes motivos. Tenho passado os últimos anos me infiltrando em eventos da extrema direita pelo mundo e entrevistando essas figuras. Posso afirmar que não houve um desses congressos sequer, nenhuma dessas conversas, que não passou por discursos ultraviolentos contra pessoas trans. 

Já escrevi bastante sobre isso, inclusive sobre como no governo Trump essa violência levou a resoluções e políticas públicas desde seu primeiro dia de mandato. Não vou me repetir aqui sobre a maneira como essas narrativas são construídas com base no pânico moral e na ideia da destruição da família e de valores sagrados. O que quero ressaltar é que a demonização de pessoas trans está hoje no epicentro político da extrema direita. É um tema de consenso entre eles, usado para mobilizar o medo, o ressentimento e o ódio e que tem efeitos concretos na vida de milhares de pessoas. 

E a mobilização desses afetos não é exclusiva da extrema direita, também é importante dizer. Não sei dizer quantas vezes eu mesma fui perseguida, ameaçada e exposta por mulheres que se dizem feministas radicais trans excludentes ou quantas vezes o Pauta Pública foi alvo de ódio quando apontamos nosso microfone para pessoas trans. Tudo bem. Como me disse Judith Butler, ser perseguida por essas pessoas é um distintivo de coragem. 

Um outro ponto importante é que o Brasil é um dos países que mais mata transexuais no mundo. Quando Lula faz esse gesto, que mensagem ele manda para o povo? E que mensagem ele manda para as pessoas trans?

A cena me lembrou o relato de Suzanne Hommel, uma alemã nascida em 1938 que falou no documentário “Encontro com Lacan” sobre o tempo em que foi paciente do psicanalista francês. Ela carregava traumas profundos de sua vivência durante a Segunda Guerra Mundial, mas, em uma de suas sessões com Lacan, contou de um sonho recorrente que a acordava sob forte angústia todos os dias pontualmente às 5h da manhã. Acrescentou o contexto histórico de sua infância: “Era às 5h da manhã que a Gestapo vinha buscar os judeus em suas casas”. Ao ouvir a palavra “Gestapo” (polícia secreta oficial da Alemanha Nazista) o psicanalista levantou-se rapidamente da poltrona e fez um carinho suave em seu rosto. Quando ela conta isso no documentário, imediatamente leva a mão ao rosto imitando o gesto. 

Através desse ato físico e verbal, Lacan transformou a palavra “Gestapo” em “geste à peau”, que em francês significa “gesto na pele”, e introduziu ternura onde antes habitava apenas o horror e o trauma. No documentário, ela se emociona ao dizer que isso não apagou seu sofrimento mas o modificou de forma definitiva e que mesmo décadas depois, ela ainda sentia aquele toque que mudou a forma como olhava para a própria história e sua própria dor. 

O “geste à peau” de Lula em Erika Hilton neste momento da nossa história, me parece muito poderoso, simbólico, um marco de posição diante do mundo, que pode ressignificar um monte de afetos pra muita gente. E ao mesmo tempo é tão bonito precisamente porque foi um afago espontâneo em um país que está ressignificando sua relação com a política, que ainda sofre com o trauma dos quatro anos sob o governo genocida de Bolsonaro – e que escolheu neste domingo apostar na ternura ao invés do horror.

Aliás, que fique marcado aqui: Erika Hilton foi reeleita como a mulher mais votada da história para a Câmara dos Deputados e, com 1,5 milhão de votos conquistados em São Paulo, é a segunda parlamentar no país a romper a barreira de 1 milhão de votos para o cargo. 

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A fuga de Flávio Bolsonaro: a verdadeira rota que levou o senador de Brasília até Miami

O candidato derrotado no último domingo, 25 de outubro, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chegou à Miami, nos Estados Unidos, na manhã desta quarta-feira, 28, depois de uma série de desinformações sobre o seu paradeiro. Durante a maior parte da terça-feira (27), circulou na imprensa brasileira, argentina e dos Estados Unidos a versão de que o senador já estaria no ar, a caminho dos Estados Unidos, e até mesmo em solo norte-americano.

O registro oficial divulgado pelo governo argentino na madrugada desta quarta-feira (28) desmente essa cronologia. Segundo a Dirección Nacional de Migraciones, o senador só cruzou a fronteira às 22h50 de terça, e o jato que o levou decolou com destino declarado para Guayaquil, no Equador. 

A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família
A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família

Em comunicado publicado no X, a Migraciones, que na terça de manhã havia afirmado não ter registro de entrada de Flávio na Argentina, divulgou a informação às 2h01. Segundo o órgão, o senador entrou pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu (PR) a Puerto Iguazú, na província de Misiones. Ele estava com a mulher, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas do casal, o que confirma a informação divulgada pela Agência Pública sobre a ausência das filhas na escola em Brasília. 

De acordo com a publicação, todos apresentaram documentação de viagem válida, sem impedimentos legais, e a entrada na Argentina foi registrada sem incidentes. Quarenta minutos depois, às 23h30, o grupo embarcou em um voo privado da empresa Baires Fly S.A. com destino a Guayaquil, conforme o plano de voo. Sites que monitoram voos registraram a aeronave sobrevoando a cidade equatoriana por volta das 5h40. Depois, por volta das 6h20, a aeronave decolou novamente com direção ao Norte. Segundo o jornal “Folha de S.Paulo”, o avião pousou nos Estados Unidos às 10h23, no horário de Brasília.  

A saída de Flávio ocorre depois que o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou que Flávio entregasse seus passaportes à Polícia Federal e que ele fosse incluído no Sonar, o sistema de monitoramento migratório. O senador não cumpriu o prazo, que se encerrou às 11h da terça-feira, e a PF cancelou os passaportes emitidos em seu nome. Ele é investigado no STF por suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Entre os países do Mercosul, a carteira de identidade é aceita como documento de viagem, o que explica a menção da Migraciones a “documentação hábil”. Ainda não está esclarecido como o senador atravessou a Ponte Tancredo Neves sem ser detido do lado brasileiro, já que constava no Sonar.

A aeronave pertence à empresa usada por Javier Milei, presidente argentino, para ir aos EUA após sua eleição. Segundo a imprensa argentina, a empresa teria vínculos com o empresário Maurício Macri, e à época, em 2023, o custo do voo de Milei foi alvo de questionamento. A viagem teria custado entre R$ 1,2 milhão e R$ 1,35 milhão. Milei, até o momento, não reconheceu a vitória de Lula nas eleições. 

Imagem de suposto jatinho utilizado por Flávio Bolsonaro em sua fuga do Brasil
Imagens do jato da empresa Baires Fly onde Flávio e família teriam embarcado rumo aos EUA

Notícia de que já estava nos EUA não se confirmou

O horário oficial contradiz o que vinha sendo noticiado pela imprensa, segundo pessoas próximas à família e o entorno político de Flávio, de que o senador já teria partido para os Estados Unidos e que o avião estaria em rota na terça-feira, 27 de outubro. O portal argentino Infobae relatou que ele teria cruzado a fronteira com a carteira de identidade rumo a Puerto Iguazú, de onde seguiria em voo privado para os EUA.

Pela cronologia oficial, quando essas versões circulavam, Flávio ainda não havia passado por nenhum posto de controle migratório argentino. O avião também não tinha decolado. O jato é um Gulfstream G400 de matrícula argentina LV-JQW. 

Aeronave onde estaria Flávio decolou de Gayaquil por volta de 6h20 rumo aos Estados Unidos

Segundo o jornal Clarín, a decolagem foi retida durante a tarde devido a pendências na documentação de um dos passageiros. O portal Misiones Online havia noticiado que a aeronave estava no aeroporto de Puerto Iguazú e que partiria para Guayaquil.

As negativas oficiais da terça-feira (27), que pareciam contradizer as notícias sobre a fuga, eram compatíveis com o registro divulgado depois. Pela manhã, a Migraciones disse que não tinha registro do ingresso do senador. Mais tarde, o porta-voz do presidente Javier Milei, Fabián Fernández, negou à Bloomberg que Flávio tivesse entrado no país. Pelo comunicado desta madrugada da Direção Nacional de Migrações da Argentina, ele de fato ainda não tinha entrado.

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Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

Flávio Bolsonaro (PL) pode ser o mais novo integrante da lista de bolsonaristas que deixaram o Brasil. Caso confirmada a chegada aos Estados Unidos, o candidato derrotado nas eleições de 2026 se somará a parentes, influenciadores e ex-membros do governo de Jair Bolsonaro, que deixaram o país por condenações ou investigações. Sempre sob o argumento de perseguição política. 

A denúncia partiu do veículo argentino Infobae, que publicou hoje, 27 de outubro, que Flávio estaria na cidade de Puerto Iguazú, que faz fronteira com o Brasil, pronto para tomar um voo rumo aos EUA. Ainda não se sabe como o senador teria saído do Brasil para o país vizinho. Em 26 de outubro, dia seguinte à derrota nas urnas, o ministro Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse o passaporte à Justiça.

Um dos fundamentos da decisão de Moraes foi uma entrevista do irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, dada dois dias antes do segundo turno, afirmando que o então candidato deveria deixar o país se perdesse o pleito. Também nesta terça, o blogueiro Paulo Figueiredo disse em sua live que, na noite de domingo, após confirmada a derrota, havia aconselhado o senador a ir para os EUA.

Flávio Bolsonaro é investigado em duas frentes pelo Supremo Tribunal Federal, mas, terminado seu mandato como senador, em 31 de janeiro de 2027, perderá o foro privilegiado. Sob relatoria do ministro André Mendonça, ele é investigado pela suspeita de evasão de divisas e de lavagem de dinheiro por conta do financiamento da produção do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. A investigação mira repasses de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, à produção do longa. 

Em outra frente, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, Flávio é investigado pela suspeita de lavagem de dinheiro por meio de uma casa de apostas. A Polícia Federal (PF) quebrou o sigilo telemático do advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, e encontrou e-mails que apontariam que o senador foi cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária da empresa Alcazar Holdings, de propriedade de Tomaz.

Segundo a PF, há indícios de “vínculo de controle ou propriedade de fato de Willer Tomaz sobre a Rede Loto”, a primeira a obter autorização estadual da Loterj, no Rio de Janeiro, para explorar bets no estado.

Publicação de Flávio Bolsonaro no Instagram
O senador Flávio Bolsonaro afirmou em seu Instagram ter sido intimado pela Polícia Federal (PF), nesta segunda-feira (26), a entregar seus passaportes

Bolsonaristas nos EUA de Trump

Eduardo Bolsonaro mora no Texas (EUA) desde março de 2025. Ele foi condenado pelo STF em junho de 2026 por sua atuação para obter sanções americanas contra autoridades brasileiras. O ex-deputado teve a prisão decretada em outubro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

Eduardo tem passaporte italiano e também conseguiu o green card, documento que garante a residência permanente nos EUA. Desde que fugiu do Brasil, ele fez diversas viagens ao Oriente Médio e chegou a abrir uma empresa no Bahrein, conforme a Pública revelou.

Seu braço direito nos EUA, Paulo Figueiredo, mora na Flórida há dez anos. Ele é investigado no Inquérito das fake news e foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023. Seu caso nunca foi julgado porque o neto do ex-ditador João Figueiredo nunca foi intimado, mas ele é considerado foragido.

Eduardo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem juntos, em 2026, em encontro nos EUA
Eduardo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem juntos, em 2026, em encontro nos EUA

Outro foragido que vive na Flórida é o blogueiro Allan dos Santos. Ele teve mandado de prisão preventiva decretado pelo STF em outubro de 2021 e reforçado em 2024, bem como o bloqueio de suas contas bancárias e perfis digitais no Brasil. O criador do extinto “Terça Livre” também é investigado no Inquérito das fake news e das milícias digitais por disseminação de conteúdo falso e ataques a autoridades.

Ainda na Flórida mora Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e ex-deputado federal pelo PL. Ele foi alvo de pedido de extradição após ser condenado pelo STF a 16 anos de prisão pela trama golpista.

A fuga, em setembro de 2025, contou com a ajuda de Rodrigo Cataratas, condenado por liderar o garimpo ilegal na Terra Yanomami, conforme revelou a Pública. O empresário do garimpo também está foragido por ter ajudado na fuga de Ramagem.

Em abril de 2026, Ramagem chegou a ser detido pelo serviço de imigração dos EUA (ICE), mas foi liberado dois dias depois. Hoje, ele é um imigrante ilegal no país, segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) e está sujeito a detenção e deportação, como a Pública também mostrou.

Bolsonaristas na Argentina, Itália e Espanha

Na Itália, a ex-deputada federal Carla Zambelli chegou a ser presa em junho de 2025. Em maio de 2026, ela foi solta pela Corte de Cassação de Roma, última instância da Justiça do país. Ela havia sido condenada pelo STF a dez anos de prisão por contratar um hacker para inserir um mandado de prisão falso contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, no sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Ainda na Europa, mas na Espanha, mora o blogueiro Oswaldo Eustáquio, considerado foragido da Justiça brasileira desde 2023. Em outubro de 2026, ele se tornou réu por associação criminosa no âmbito do inquérito que investiga a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Em junho de 2025, o governo espanhol rejeitou o pedido de extradição do governo brasileiro por considerar que houve motivação política.

Leonardo Rodrigues de Jesus, o Leo Índio, é primo de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Ele é investigado no inquérito do golpe de Estado em 2023 e teve a prisão decretada em 2025. Ele mora na cidade de Puerto Iguazú, do lado argentino da tríplice fronteira, por onde Flávio Bolsonaro teria passado para tomar um voo para os EUA. A Pública mostrou que Leo é um dos investigados por desinformação e tentativa de golpe que seguem ativos nas redes em 2026.

Também na Argentina, estão cinco brasileiros condenados pelos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, que foram extraditados em dezembro de 2025: Joelton Gusmão de Oliveira, Joel Borges Correa, Rodrigo de Freitas Moro, Wellington Firmino e Ana Paula de Souza, segundo apuração da BBC Brasil.

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Filha de Flávio Bolsonaro falta à escola há 2 dias em meio à suspeita de fuga do senador

A filha mais nova do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não foi à escola nesta segunda-feira (26) nem nesta terça (27), segundo relato de uma fonte familiarizada com a rotina de um colégio em Brasília, onde ela estuda, na capital federal. Até a semana passada, a frequência da adolescente de 12 anos era regular. Procurada pela Agência Pública, a unidade de ensino apenas respondeu: “Infelizmente não conseguimos confirmar a informação e, infelizmente, nenhum setor da instituição poderá confirmar”.

Segundo apurou a Pública, a filha mais velha do senador, de 14 anos, teria deixado a escola no primeiro semestre deste ano. O colégio não informou os motivos quando procurado pela reportagem.

A ausência das estudantes em escolas se dá em meio à rumores de que Flávio Bolsonaro, derrotado por Lula no segundo turno das eleições presidenciais no último domingo (25), poderia ter deixado o país, apesar de o ministro Alexandre de Moraes, do STF, ter determinado que o candidato derrotado nas urnas entregasse seus passaportes à Polícia Federal (PF) e incluí-lo no sistema de monitoramento migratório, o Sonar.

O senador não cumpriu o prazo de entrega, que terminava nesta terça, e teve os passaportes emitidos em seu nome cancelados pela Polícia Federal (PF). Flávio é alvo de investigação no STF que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

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Durante a maior parte da terça, circulou na imprensa brasileira, argentina e dos Estados Unidos a versão de que o senador já estaria no ar, a caminho dos Estados Unidos, ou até mesmo em solo norte-americano. Mas eram apenas especulações e desinformações. 

Registro oficial divulgado pelo governo argentino na madrugada desta quarta-feira (28) desmente declarações feitas inclusive por aliados de Flávio. Segundo a Dirección Nacional de Migraciones, o senador só cruzou a fronteira às 22h50 de terça e decolou às 23h30 em um jato privado com destino a Miami, nos Estados Unidos, mas com escala em Gayaquil, no Equador. 

A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família
A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, ingressaram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, Flavio Nantes Bolsonaro e família

Segundo o órgão, que fez uma publicação do X às 2h01, o senador entrou na Argentina pela Ponte Internacional Tancredo Neves, que liga Foz do Iguaçu, no Brasil, a Puerto Iguazú, na província de Misiones. Ele estava com a mulher, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, e as duas filhas do casal. 

De acordo com a publicação, todos apresentaram documentação de viagem válida, sem impedimentos legais, e a entrada na Argentina foi registrada sem incidentes. 

O episódio repete um roteiro de tentativas de evitar consequências judiciais já conhecido na família. O irmão Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos, e o pai, Jair Bolsonaro, foi preso pela PF em novembro de 2025 depois de tentar remover a tornozeleira eletrônica.

A reportagem procurou a assessoria do senador, mas não obteve retorno até a publicação. Em caso de manifestação, este espaço será atualizado.

*Informações que poderiam identificar as menores foram omitidas, em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente.

Atualização às 12h05 de 28/10/2026: Inserimos informações recentes sobre a fuga de Flávio Bolsonaro.

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Parlamentares dos EUA cobram Meta por tratamento desigual a Lula

Uma carta assinada por 13 parlamentares democratas dos Estados Unidos cobra explicações de Mark Zuckerberg, CEO da Meta, sobre denúncias de tratamento desigual às campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) nas plataformas da empresa durante as eleições presidenciais brasileiras de 2026. Enviada em 22 de outubro, a carta ocorre em meio a denúncias de restrições a conteúdos políticos, redução de alcance de publicações e diferenças no funcionamento de ferramentas de inteligência artificial, episódios que levantaram suspeitas sobre a atuação de empresas estrangeiras no processo eleitoral brasileiro.

Entre os signatários estão o senador Bernie Sanders e os deputados Pramila Jayapal, Greg Casar, Maxwell Frost, Jesús G. (conhecido como Chuy García), Jonathan L. Jackson, Summer L. Lee, Mark Pocan, Mike Quigley, Delia C. Ramirez, Jan Schakowsky, Rashida Tlaib e Nydia M. Velázquez. 

Os parlamentares afirmam estar preocupados com os diversos relatos que surgiram ao longo das eleições brasileiras de que as plataformas da Meta estariam restringindo ou reduzindo a distribuição de conteúdos ligados à campanha de Lula, enquanto ampliavam ou recomendavam publicações associadas a Flávio Bolsonaro e seus aliados. Segundo os signatários, as diferenças de tratamento poderiam criar condições desiguais na disputa eleitoral.

Entre os episódios citados está a desativação, em 23 de setembro, da conta de anúncios da campanha de Lula no Facebook, 11 dias antes do primeiro turno. Embora a conta tenha sido restabelecida após 24 horas, os parlamentares afirmam que a Meta não apresentou uma justificativa detalhada para a medida. A carta também menciona restrições ao impulsionamento de anúncios da campanha no Instagram entre 9 e 10 de outubro, que, segundo uma estimativa da própria campanha, teriam impedido cerca de 1,3 milhão de pessoas de visualizar as publicações.

O documento cita ainda uma reportagem da Folha de S.Paulo sobre comunicações internas da Meta que indicariam que funcionários da empresa tinham conhecimento de recomendações algorítmicas que promoviam o perfil de Flávio Bolsonaro e um canal do WhatsApp associado à sua campanha, prática que é proibida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

A carta também menciona um levantamento da organização Ctrl Z, divulgado pela Agência Pública, que documentou mais de mil casos de restrições e banimentos nas plataformas da Meta na primeira quinzena do mês. Entre os conteúdos cuja orientação política pôde ser identificada, nove em cada dez eram favoráveis a Lula ou progressistas. O levantamento registrou casos de perda de alcance, restrições às funcionalidades de contas e remoção de publicações.

Os parlamentares dos Estados Unidos pedem que Zuckerberg esclareça quais medidas foram adotadas, quais regras orientam a moderação de conteúdo político em eleições estrangeiras e se a empresa mantém comunicações com integrantes do governo Donald Trump sobre o Judiciário brasileiro, a regulamentação das plataformas e as eleições de 2026.

O documento também questiona como a Meta pretende garantir que restrições automatizadas às contas de anúncios dos candidatos sejam analisadas por pessoas em até duas horas. Por fim, os signatários perguntam se a empresa permitirá que um auditor independente examine dados internos de moderação e distribuição de conteúdo político relacionado às eleições brasileiras.

Os parlamentares estabeleceram o dia 4 de novembro como prazo para o envio das respostas por escrito, sem retorno até o momento de publicação dessa nota. 

Alertas da sociedade civil 

Para Luã Cruz, diretor de Litigância Estratégica da Ctrl+Z, os episódios reforçam os alertas sobre os riscos de concentrar o debate político nas plataformas controladas pelas Big Techs. “A sociedade civil brasileira de direitos digitais tem alertado há anos sobre o problema de deixar todo o sistema de discussão política pública dentro de ferramentas que são controladas por empresas estrangeiras. As eleições mostraram isso justamente por ser um momento delicado”, afirma.

Segundo Luã, as denúncias reuniram evidências de diferentes formas de interferência, desde anúncios com desinformação e pagamentos em moeda estrangeira até o descumprimento de regras eleitorais e a derrubada de conteúdos progressistas: “Isso reforça de maneira mais aguda que a gente não pode depender delas”, diz.

O diretor ressalta que as plataformas continuam sendo importantes para a comunicação política – “Não é à toa que o canal dos Janones ajudou incrivelmente a campanha do Lula” – mas defende que o país desenvolva alternativas para reduzir a dependência desses serviços.

Outro episódio destacado é o funcionamento da Meta AI, assistente de Inteligência Artificial da Meta no WhatsApp. O Núcleo Jornalismo reproduziu testes em que a ferramenta se recusava a criar imagens com referências a Lula, ao PT e ao número 13, mas atendia a comandos equivalentes relacionados a Flávio Bolsonaro, ao PL e ao número 22. A Meta reconheceu a falha e afirmou ter adotado medidas adicionais para impedir a geração de imagens de candidatos, inclusive quando os comandos usavam apenas o primeiro nome e o número eleitoral. A organização Ctrl+Z também apresentou uma denúncia formal à Corregedoria da Justiça Eleitoral sobre a diferença de tratamento. 

A carta dos parlamentares norte-americanos também menciona a ocorrência, com base em reportagem publicada por Mônica Bergamo em 14 de outubro, que apontou diferenças na geração de imagens favoráveis aos dois candidatos. As denúncias levaram o TSE a determinar que a Meta garantisse tratamento igualitário às candidaturas. 

Na decisão, porém, o ministro Marco Aurélio Bellizze afirmou que, embora houvesse indícios de falha na ferramenta, não havia elementos suficientes para concluir que ela decorreu de um critério deliberado ou que ocorreu de forma sistemática. 

São Paulo (SP), 19/10/2026 - Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira.
Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira

Ministério Público acionou a Justiça

As denúncias também motivaram medidas do Ministério Público Federal (MPF). A Agência Pública relatou que o órgão adotou iniciativas para tentar impedir bloqueios de contas e restrições de alcance considerados indevidos nas plataformas da Meta.

Na Justiça Federal do Rio Grande do Sul, o MPF ajuizou uma ação civil pública com pedido de urgência para impedir decisões de bloqueio de conteúdo baseadas exclusivamente em algoritmos e exigir que reavaliações e recursos sejam analisados por equipes humanas especializadas. O órgão também pediu a possibilidade de aplicação de multa diária de R$ 500 mil por conta afetada em caso de descumprimento.

Em outra frente, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC) encaminhou uma recomendação extrajudicial à Meta, cobrando providências de transparência e proteção à liberdade de expressão durante o período eleitoral. A empresa recebeu prazo de 48 horas para informar se acataria as recomendações e de 30 dias para apresentar um relatório conclusivo.

As medidas foram motivadas por denúncias apresentadas pelas organizações Ctrl+Z, Artigo 19, Conectas e Sleeping Giants Brasil. Entre os casos relatados estão suspensões de contas e restrições a conteúdos políticos favoráveis a Lula e contrários a Flávio Bolsonaro. A apuração também identificou casos de perfis e publicações removidos sob acusações de terrorismo e nudez, sem que houvesse conteúdo que justificasse essas classificações.

O MPF considerou genéricas as respostas apresentadas pela Meta e apontou que a empresa não esclareceu individualmente os motivos das restrições nem detalhou todos os casos de suspensões e remoções questionados.

Na avaliação de Luã, a reparação dos usuários afetados deve ser uma das prioridades na responsabilização da empresa. O diretor também defende a abertura de dados sobre a moderação de conteúdo e a aplicação de multas proporcionais à dimensão das plataformas.

“Além de você reparar o dano para o consumidor como um todo, tem que ter a abertura dos dados para a gente entender o tamanho do estrago. E, a partir disso, ver o terceiro ponto que é a multa. Tem que multar pesado. Essas empresas são as mais ricas da história do capitalismo e elas precisam ser responsabilizadas à altura”, diz.

São Paulo (SP), 19/10/2026 - Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira
Big Techs interferem no debate político e reforçam a necessidade de reduzir a dependência de suas plataformas, segundo especialista

Comitê de Supervisão aponta falhas de moderação

O Comitê de Supervisão da Meta também apontou falhas na aplicação das regras de moderação durante as eleições brasileiras. O colegiado criticou as restrições técnicas impostas às contas de anúncios de Lula e considerou que houve aplicação excessivamente rigorosa das políticas antifraude da empresa.

O comitê avaliou que o caso deveria ter sido encaminhado a uma equipe interna de especialistas, além de destacar que erros de moderação durante períodos eleitorais podem ocorrer tanto pelo excesso de rigor, que restringe manifestações políticas legítimas, quanto pela aplicação insuficiente das regras, que pode comprometer a integridade eleitoral. E cobrou mais transparência e consistência nos procedimentos de moderação e recomendou a criação de indicadores públicos que permitam avaliar a eficácia das medidas adotadas pela empresa, incluindo suas principais falhas.

A manifestação retoma preocupações sobre a atuação da Meta em eleições anteriores em outros países, inclusive nos EUA, e a necessidade de mecanismos que permitam avaliar os resultados de suas políticas de moderação. Embora a empresa divulgue dados gerais sobre anúncios e contas removidas, o comitê apontou limitações nas métricas públicas disponíveis para medir a efetividade dessas políticas.

TSE cobrou tratamento igualitário

O TSE determinou, em 15 de outubro, que a Meta oferecesse tratamento igualitário aos dois candidatos. Em 19 de outubro, diante do que o tribunal considerou descumprimento da decisão, a multa aplicada à empresa foi dobrada.

No dia seguinte, a Meta declarou ter concluído a implementação de 17 iniciativas para cumprir a determinação, incluindo um mecanismo de revisão humana das contas de anúncios das campanhas presidenciais.

Os episódios também evidenciaram limitações na atuação das instituições brasileiras diante das plataformas, aponta Luã. “Não foi uma questão de falta de instrumento jurídico ou até mesmo falta de conhecimento, por exemplo, da sociedade civil ou da população brasileira sobre o que estava acontecendo. Faltou ao TSE atuar de maneira diligente”, afirma.

Segundo o diretor, a sociedade civil alertava para os problemas desde março, quando foram publicadas as resoluções eleitorais sobre tecnologias. 

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As decisões favoráveis de Mendonça à Hapvida após encontro com executivo na Alemanha

No início de março deste ano, quase um mês depois de assumir a relatoria das investigações do caso Master, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça viajou a Frankfurt, na Alemanha, para participar de um autointitulado “debate de alto nível”. Ele havia acabado de cancelar sua participação em outro evento internacional, um congresso jurídico na Espanha, sob a alegação de preservar a imagem de imparcialidade do Supremo, já que lá estaria um integrante da defesa de Daniel Vorcaro.

Mas ele não deixou passar sua participação no seminário em terras germânicas porque o Instituto Iter, fundado pelo ministro em 2023 (e que contou com sua participação até setembro deste ano), foi um dos organizadores do evento. Lá, Mendonça esteve ao lado de pessoas relacionadas ao ex-banqueiro do Master, além de empresários ligados a grandes grupos empresariais cujos processos tramitam no STF – inclusive sob sua própria relatoria.

Um dos apoiadores do evento foi a Associação Brasileira de Planos de Saúde (Abramge). O seu presidente, Gustavo Ribeiro, marcou presença e chegou a mediar um painel sobre racionalização dos custos da saúde por meio da tecnologia. Ribeiro também é vice-presidente do Grupo Hapvida NotreDame Intermédica, a maior operadora de planos de saúde da América Latina, que comprou a rede Promed, da família de Vorcaro, por R$ 1,5 bilhão em 2021. A compra foi feita por meio da entidade jurídica Ultra Som Serviços Médicos S.A, da qual Ribeiro se tornou diretor. Ele esteve com Mendonça na Alemanha pelo menos uma outra vez neste ano, em julho, para assistir a um curso de verão dado pelo ministro.

Semanas depois do evento na Alemanha (e antes desse segundo encontro), chegaram à mesa de Mendonça no STF pelo menos dois casos de judicialização envolvendo a Hapvida. Em ambos, o ministro André Mendonça deu decisão que acabou favorecendo a empresa em detrimento do paciente segurado.

Gustavo Ribeiro (segundo da esq. para dir.) se encontrou duas vezes com Mendonça na Alemanha

Em um deles, a operadora questionava uma decisão do Tribunal de Justiça do Amazonas (TJ-AM) que a obrigava a custear em até 48 horas, um tratamento para um caso de linfoma. Mendonça decidiu parcialmente favorável à empresa e, em 12 de maio, um juiz do TJ-AM suspendeu a liminar que determinava o pagamento.

No outro caso levado ao STF, a seguradora questionava uma decisão do Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas (TJ-AL) referente a uma ação da Defensoria Pública sobre cobertura de tratamentos para pessoas com Transtorno do Espectro Autista. A defensoria alegava que operadoras estavam negando ou dificultando a cobertura integral dos tratamentos prescritos. Mendonça acolheu o pedido da Hapvida e determinou a revisão da decisão na primeira instância, de acordo com os critérios do STF para tratamentos fora do rol da Agência Nacional de Saúde (ANS).

Em setembro do ano passado, o STF fixou cinco critérios para que planos de saúde cubram tratamentos fora da lista da ANS: o tratamento deve ser prescrito por médico ou odontólogo assistente; não pode ter sido expressamente negado pela ANS nem estar pendente de análise para sua inclusão no rol; não deve haver alternativa terapêutica adequada no rol da ANS; deve ter comprovação científica de eficácia e segurança; e deve ser registrado na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A partir de então, a Justiça só pode autorizar tratamento ou procedimento fora do rol da ANS se forem preenchidos esses critérios e se ficar provado que a operadora negou o tratamento ou que houve demora excessiva ou omissão no momento da autorização. Mendonça foi um dos ministros favoráveis à criação dessa norma.

A pauta da judicialização na saúde é uma na qual o executivo da Hapvida e da Abramge está implicado diretamente, como evidenciam suas postagens em redes sociais. Ribeiro defende que o futuro da saúde está atrelado à capacidade de prevenir conflitos antes que eles cheguem aos tribunais. Em abril deste ano, após o evento na Alemanha, a Abramge assinou um acordo de cooperação técnica com o STF para ampliar as taxas de conciliação e reduzir a judicialização.

A Abrange estima que os planos de saúde gastaram cerca de R$ 6,8 bilhões com judicialização apenas em 2024, aumento de mais de 22% com relação ao ano anterior, em litígios considerados “pretadórios” pela associação.  Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostram que, apenas em 2025, a Justiça recebeu 343 mil novas ações contra as operadoras de saúde e que, em março deste ano, pela primeira vez, o número de processos contra seguradoras superou os relacionados ao SUS.

‘Situações que enfraquecem a reputação da Corte’

Os encontros entre Mendonça e Ribeiro, bem como o apoio da Abramge a um evento organizado pelo instituto do ministro, ocorreram em meio a uma discussão no STF sobre a criação de um código de conduta para os integrantes da Corte. A participação de ministros em palestras e eventos internacionais, bem como a fundação de institutos ligados a eles, era um dos motivos por trás do debate, que segue em aberto. Na visão do presidente do STF, Edson Fachin, essas são situações que enfraquecem a reputação da Corte.

Mendonça é um dos que defendem a criação do código. O ministro anunciou a saída do Iter horas depois de a Revista Fórum revelar que o instituto possuía 55 contratos com órgãos públicos de 14 unidades federativas, dos quais 54 haviam sido firmados com dispensa de licitação. No começo de setembro, antes do anúncio, a newsletter Noites Húngaras havia revelado que Mendonça teve um encontro secreto com Vorcaro, dentro da sede do Iter, em março de 2025. 

O encontro na sede do Iter teria sido articulado pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP), que também tinha interesses no próprio instituto. Ele  assinou um contrato de compra futura de 4% de participação no Iter. Madureira foi alvo de uma operação da Polícia Federal, em setembro, por suspeita de comercialização de influência junto a integrantes de tribunais superiores. Antes, em março, também havia mediado uma mesa no evento de Frankfurt.

Frankfurt sediou evento organizado por instituto fundado por André Mendonça

Procurado pela reportagem, André Mendonça afirmou que não mantém relação com dirigentes da Abramge ou do grupo Hapvida “além de eventuais encontros em ambientes públicos e acadêmicos”.

O ministro disse ainda que “as hipóteses de impedimento e de suspeição de magistrado são definidas em lei, de forma taxativa. Nenhuma delas se configura a partir da coincidência de presença em ambiente acadêmico internacional”. Sobre as decisões citadas, adicionou que estas “são públicas, fundamentadas e estão integralmente disponíveis para consulta, e falam por si”.

Procuradas, a Hapvida e a Abramge afirmaram, em nota, que “não houve, em nenhum momento, reuniões ou tratativas relacionadas a processos judiciais de interesse” das entidades durante os encontros entre Mendonça e Ribeiro.

Sobre os casos tramitados no STF entre os dois encontros, a seguradora e a associação esclareceram que, à época do evento, as ações mencionadas estavam em tramitação na Justiça na esfera estadual. “A reclamação constitucional referente a Alagoas foi autuada no STF em 18 de março, enquanto a referente ao Amazonas, teve decisão proferida em 29 de abril”.

Além disso, a Hapvida disse que “na Corte, a definição dos ministros relatores é feita por sorteio e segue critérios regimentais de distribuição. Diante dessa cronologia, não há fundamento para sugerir que o executivo pudesse antecipar a chegada dessas ações ao STF, muito menos a definição do ministro André Mendonça como relator”.

O Iter afirmou que sua atuação como apoiador acadêmico não se confunde com as atividades dos organizadores, dos apoiadores ou dos palestrantes, e que “o Instituto não possui qualquer ingerência sobre processos ou decisões judiciais, e as questões relativas à atuação jurisdicional do ministro André Mendonça escapam ao seu âmbito de competência”. Para o instituto, “a presença de representantes de diferentes setores em um evento acadêmico não constitui, por si só, conflito de interesses”.

Acesso facilitado de lobistas e empresários

O evento realizado em Frankfurt se vendeu como um “encontro internacional que conecta Brasil e Europa para debates qualificados sobre agendas estratégicas”, mas foi resumido por participantes ouvidos pela Pública como uma reunião de negócios para facilitar o acesso de lobistas a empresários e políticos do alto escalão brasileiro.

Mendonça esteve presente em quase todas as mesas. Quando possível, sentou nas primeiras fileiras de cadeira, de onde ouviu seu nome ser reverenciado em quase todas as sessões. A própria mesa da qual ele participou, sobre limites e funções das supremas cortes, foi mediada pelo advogado Marcus Vinicius Furtado Coêlho, que advoga para o Master e cujo escritório recebeu R$ 27,5 milhões do ex-banqueiro só em 2025.

O ministro André Mendonça participou de quase todas as sessões

A questão acadêmica estava mais presente no fato de a sede ser a Universidade Goethe do que na dinâmica do evento, alegam as fontes ouvidas pela Pública. “Pegaram a universidade para deixar com uma cara mais oficial, acadêmica, mas no fundo podia ter sido num resort”, comentou um dos participantes, cuja identidade será preservada.

Apesar de ter sido realizado na Alemanha e contar com tradução simultânea para o inglês, o idioma da maioria das mesas foi o português. Enquanto a participação brasileira costumava lotar a sala, as palestras de maioria alemã ficaram esvaziadas. “Eles queriam dar esse tom de fazer ponte, mas às vezes virava um certo palanque”, afirmou uma participante. “Inclusive tinha um ex-deputado europeu lá, que foi influente nos anos 2000, e dormiu enquanto tava na própria mesa dele”, acrescentou outro.

“Era um encontro de políticos brasileiros com alguns lobistas europeus. Tinham vários lobistas lá. E muita gente que só estava lá por causa de Mendonça”, contou outra fonte.

O evento teria começado a ser organizado em novembro do ano passado. É dessa época que data a primeira das quatro programações às quais a Pública teve acesso. Nela ainda não estavam confirmadas a presença de André Mendonça nem a do presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta (Republicanos-PB), mas havia outros nomes que depois deixaram a programação, como o do ex-ministro da Economia Paulo Guedes. 

O advogado do Master Marcus Vinicius Furtado Coêlho, por exemplo, já constava na programação desde o começo de fevereiro, antes de Mendonça assumir a relatoria das investigações sobre o banco e também antes de desistir do evento na Espanha. O nome de Mendonça passou a constar na agenda a partir de 3 de fevereiro, quando também estava na lista de participantes o ministro do STF Luiz Fux, substituído ainda naquele mês por Motta. A viagem do presidente da Câmara para o evento custou R$ 21 mil aos cofres públicos.

O encontro teve uma lista de 18 apoiadores. Além do próprio Iter e da Abramge, estava também o Not Journal, que teria integrado uma lista de veículos de comunicação e influencers contratados, a pedido de Daniel Vorcaro, para fazer ataques coordenados ao Banco Central, segundo a Folha de S. Paulo. Vorcaro tentou, inclusive, comprar 50% do Not Journal por R$ 5 milhões. Na época, executivos do veículo confirmaram o contrato, mas negaram a combinação prévia de conteúdo. Eles também informaram ter recusado a proposta de compra.

Foi enquanto estava na Alemanha que Mendonça autorizou a prisão de Vorcaro, investigado por fraude bilionária aos cofres públicos.

Alguns participantes foram selecionados a dedo, como foi o caso de Tallis Gomes, o fundador e presidente do Grupo G4 recentemente associado à tentativa de trazer a rede trumpista Rockbridge ao Brasil.

Evento ostentação

O perfil dos convidados deu a tônica do investimento no evento. A Pública conversou com pelo menos três pessoas que estiveram lá e todas foram categóricas em classificar tudo como luxuoso. “Foi um evento caro. Tinha uma uma pompa, sabe? Uma certa ostentação”, conta um participante.

Restaurante 23 Nord, onde aconteceram os jantares do evento

As cerca de 150 pessoas que passaram por lá nos quatro dias tiveram acesso a almoço e café fornecidos pela autodenominada “principal empresa de catering premium da Alemanha”. Boa parte dos convidados ficou hospedada no hotel cinco estrelas Steigenberger Icon Frankfurter Hof, cujas diárias vão de 245 euros (R$ 1,3 mil, na cotação atual), para um quarto simples, a 13 mil euros (R$ 72 mil, na cotação atual), para uma suíte real. De lá, os convidados tinham todos os dias transporte gratuito para a Universidade Goethe.

Além da programação de palestras, havia uma agenda exclusiva de quatro jantares de gala destinada a um grupo menor de 30 a 40 vips e na qual estavam vetados os jornalistas que cobriram o evento. Segundo as fontes entrevistadas pela Pública, nesses jantares foram feitas apresentações do governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Hugo Motta e também do próprio Mendonça. Em uma das programações, o nome de Motta aparece vinculado a um jantar com apresentação sobre o cenário político-eleitoral brasileiro em 2026.

Os jantares foram realizados no próprio hotel Steigenberger; no restaurante 23 Nord, localizado no 23º andar da Torre Westhafen e cujo menu de quatro pratos custa 99 euros (R$ 545); no restaurante Opera, localizado no edifício da Alte Oper, a antiga casa de ópera de Frankfurt, cujo prato pode chegar a 56 euros (R$ 300); e no Schlosshotel Kronberg, um hotel de luxo instalado em um antigo palácio imperial alemão nos arredores de Frankfurt, cujo valor de um jantar oscila entre 99 e 175 euros por pessoa (R$ 545 a R$ 968).

A empresa que não existia, mas organizou o evento

Quem assina as peças publicitárias do evento é a Dinter, mas a empresa não existia em março – ela foi criada depois da realização do ciclo de debates em Frankfurt, como revela a Pública. Uma empresa com esse nome foi registrada na Receita Federal em 23 de junho deste ano. Segundo documentos da Junta Comercial do Distrito Federal, a Dinter S.A. foi constituída em 10 de abril, ou seja, depois do seminário. Não há registros na Alemanha de empresa com este nome.

O presidente da Dinter é Ricardo Campos, docente da Faculdade de Direito da Universidade Goethe. É ele o nome por trás das sequenciadas idas do ministro André Mendonça à Alemanha no último ano. No Brasil, Campos possui um think tank, o Legal Fronts, que foi o organizador do evento em parceria com o Iter, segundo nota enviada pelas duas organizações à Pública.

Campos também é ligado ao Iter. Ele é o coordenador acadêmico de um MBA do instituto que motivou um contrato sem licitação do Iter  com o Tribunal de Justiça do Amazonas no valor de R$ 1,6 milhão. Em nota, o Iter confirmou essa ligação e disse que Campos mantém colaboração acadêmica com o instituto na coordenação de alguns cursos.

Em nota, André Mendonça afirmou que sua relação com o professor Ricardo Campos é de natureza acadêmica, decorrente da docência compartilhada na Universidade Goethe. O ministro afirmou não possuir “qualquer participação societária, direta ou indireta, nem vínculo de qualquer natureza com a sociedade empresária Dinter S.A”.

Campos também tem proximidade com juristas que advogaram para Daniel Vorcaro. Ele foi sócio do advogado Walfrido Warde, que atuou na defesa de Vorcaro entre 2017 e janeiro deste ano e tentou articular um encontro do ex-banqueiro com o presidente Lula, segundo o Estadão.

A sociedade durou cerca de um ano, em num período em que Warde já advogava para o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e recebia dele quantias milionárias.

A Dinter também tem entre seus membros o advogado Marcelo Doval Mendes, no cargo de diretor acadêmico. Ele é aparece como docente e coordenador acadêmico de pelo menos quatro cursos do Iter. Além disso, já foi superintendente do Sistema de Água, Esgoto e Saneamento Ambiental (Saesa) de São Caetano, em São Paulo, cargo que ocupou por apenas quatro meses. Tanto a saída quanto a chegada de Doval ao cargo teriam sido motivadas pela sua proximidade com o deputado Cezinha de Madureira (PL-SP). Ambos integraram a programação do evento de Frankfurt.

Procurado, o Legal Fronts afirmou que prestou apoio organizacional ao Regulation & Investment ’26 e que coube ao instituto, com apoio acadêmico do Iter, “a gestão do fluxo de trabalho contratualmente estabelecido, a revisão acadêmica dos conteúdos e o controle administrativo das entregas”. Segundo o Legal Fronts, a curadoria dos palestrantes foi conduzida por Campos.

O think tank confirmou a sociedade entre o Warde Advogados e Campos, mas esclareceu que “o professor jamais atuou, formal ou informalmente, na representação, no assessoramento ou na condução de quaisquer assuntos relacionados ao Banco Master, a Daniel Vorcaro ou aos negócios de sua família”. A informação foi confirmada pela Warde Advogados.

Já o Iter afirmou não possuir “nenhuma relação societária com o Legal Fronts ou com o Dinter SA.”, mas confirmou que o evento Regulation & Investment ’26, realizado em março de 2026, em Frankfurt, “foi promovido por meio de uma parceria entre os dois institutos, Legal Fronts e Iter. Nessa parceria, coube ao Instituto Iter prestar apoio acadêmico, enquanto a responsabilidade pela organização geral do evento, incluindo a definição dos temas e mesas, a seleção e o convite aos participantes e a contratação de fornecedores, ficou a cargo do Legal Fronts”.

A participação do Iter na organização do evento também fica evidente nos metadados de um edital de contratação de pesquisadores para sistematização e difusão dos conteúdos debatidos em Frankfurt. Apesar de levar apenas os logos do Dinter e da Universidade Goethe, o arquivo não foi criado por nenhuma dessas entidades ou seus representantes. A autoria do documento é de Mauro Rabelo, diretor acadêmico do Iter desde julho do ano passado. Rabelo foi secretário de Educação Básica do Ministério da Educação durante o governo de Jair Bolsonaro, na mesma época em que o atual CEO do Iter, Victor Godoy, era ministro da Educação.

A organização não respondeu o fato de a Dinter não existir juridicamente à época da realização do encontro.

Depois da realização do evento em março, o advogado Ricardo Campos fez questão de agradecer publicamente ao ministro “por ter dedicado seu precioso tempo e, acima de tudo, representar o Brasil no diálogo de alto nível sobre os padrões desejáveis do sistema de justiça”.

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A democracia tem que ser defendida na unha

O resultado do segundo turno neste domingo, uma virada inédita do presidente Luíz Inácio Lula da Silva, demonstra que a política, como a conhecíamos, acabou de vez.

O resultado foi fruto de uma mobilização cidadã como nunca se viu desde que as redes sociais se tornaram onipresentes na vida dos brasileiros. A campanha digital, mobilizada especialmente por meio de um canal no WhatsApp que concentrou 5% da população — 1 em cada 10 eleitores de Lula — demonstrou que, na era digital, a política se faz com mobilização e participação. Este engajamento conseguiu dominar a conversa digital, saiu das redes e foi para as conversas no bar, em filas de supermercado. Conseguiu superar o boicote descarado da Meta, Big Tech que tem maior controle sobre a esfera de debate público no Brasil — são 110 milhões de usuários no Facebook, 130 milhões no Instagram e 160 milhões no WhatsApp. Foi também a mobilização da sociedade civil que levou essa empresa a ser questionada pela ONU, intimada pelo TSE e investigada pelo Ministério Público Federal.

Os jornalistas investigativos — em especial os de veículos independentes — trabalharam obstinadamente, incansavelmente. Do caso Dark Horse às ligações de Flávio com o Careca do INSS, foi graças ao trabalho de nossos colegas que o público foi informado sobre o passado do candidato do PL, fatos de interesse público fundamentais para o cidadão decidir seu voto.

Aqui na Agência Pública, revelamos as suspeitas de corrupção e omissão nos hospitais federais do Rio que eram o “feudo” de Flávio Bolsonaro durante o governo do seu pai; detalhamos laços do amigo de Flávio, Willer Tomaz, com o Careca do INSS; levantamos o estilo de vida de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nos EUA, descobrimos uma empresa que Eduardo abriu com o passaporte Italiano no Bahrein, apuramos as medidas da Meta para prejudicar postagens da campanha de Lula. Mostramos como o assunto que mais afeta os brasileiros — a segurança pública — impacta nossas vidas. Revelamos mensagens inéditas que evidenciam como Daniel Vorcaro, do Banco Master, mantém uma relação umbilical com figuras da direita brasileira, e também da imprensa. Foi nosso jornalismo que revelou ao Brasil a história da professora Vânia de Souza Borges, que perdeu seu filho, Rafael Borges, para o vício em Bets, no especial Jogo Perigoso: o Brasil das Bets. No meio da campanha eleitoral, Vânia foi pessoalmente pedir ao presidente Lula a proibição das Bets – e foi atendida.

Nosso trabalho resultou em ataques, intimidação e assédio digitais. Também enfrentamos o boicote da Meta — tanto pela redução do alcance do Instagram quanto pela censura descarada de pelo menos um post que denunciamos na véspera do segundo turno. Mesmo assim, as revelações que apuramos voaram: foram amplamente republicadas, embasaram episódios da série documental do Youtube Revelando, viraram postagens de influenciadores e memes.

André Janones transformou uma de nossas matérias em uma “missão” do Canal Exército do Lula, comandando a tropa a pesquisar a frase “FLÁVIO BOLSONARO ESQUEMA PANDEMIA”. O primeiro resultado a aparecer foi a investigação da Agência Pública. No último domingo, antes da votação, no debate da TV Bandeirantes, o caso virou um questionamento ao candidato do PL em rede nacional. ⁠

Neste momento, a recusa de Flávio Bolsonaro em aceitar a derrota e as denúncias de “golpe” por parte de nomes importantes da extrema direita vão fortalecer a narrativa de perseguição, de fraudes nas urnas e de uma suposta “ditadura”. Figuras como Nikolas Ferreira, Pablo Marçal e Eduardo Bolsonaro já começaram a dizer que a ampliação do período de votação constitui “roubo”. Os contra-ataques à eleição popular serão fortalecidos, ainda, pelo controle do Senado e da Câmara Federal, onde o partido PL obteve a maior bancada desde 1990. É uma bancada empenhada em desconstruir avanços como a proibição das bets, o fim da escala 6 x 1, a proteção do meio ambiente e dos direitos dos indígenas e a regulação das Big Techs.

O contexto pós-eleitoral se complica ainda mais porque o repuxo bolsonarista insere-se em um movimento global de forças antidemocráticas que querem matar justamente o tipo de mobilização cidadã que se viu no Brasil. Os EUA e seus aliados mais próximos no continente — como a Argentina de Milei — não reconheceram, até o momento, a eleição de Lula.

Neste contexto, nosso jornalismo será ainda mais necessário. Nosso compromisso é seguir investindo no jornalismo investigativo, ampliar nossa presença no Youtube para participar cada vez mais do debate que ocorre em vídeos nas telas de todos os brasileiros, além de fortalecer as redes de colaboração internacionais que distribuem nossos conteúdos e ampliam a vigilância sobre a democracia brasileira. Sabemos que o jornalismo cada vez mais faz parte de uma disputa que não se esgota na votação. Defender a democracia é, neste novo contexto, uma tarefa cotidiana que continuará a impulsionar nosso trabalho ao lado da sociedade civil e de movimentos organizados.

Há muito trabalho a ser feito. Vamos a ele.

A direção

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Com “exército” de Janones, Lula consegue virada inédita e é reeleito presidente

Nunca antes na história deste país, um candidato à presidência havia chegado ao segundo turno em desvantagem e revertido a posição. Aconteceu. Com 51,79% dos votos, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) está reeleito presidente do Brasil e vai exercer seu quarto mandato.

A virada improvável, que envolveu uma redução inédita na abstenção entre um turno e o outro (de 21,08% para 19,22%), tem relação direta com uma mobilização sem precedentes nas redes sociais – justamente o terreno em que a extrema direita deitou e rolou nos últimos anos.

A tomada das redes pelo campo progressista – que transbordou para as ruas, com as maiores manifestações da esquerda em décadas em todo o país – envolveu vários jovens parlamentares que subiram ao palanque do petista, como Ana Elisa, deputada federal eleita pelo PT em Minas Gerais aos 21 anos e Érika Hilton, reeleita pelo PSOL em São Paulo. Mas nenhuma figura se destacou tanto quanto a do deputado federal reeleito André Janones (Rede-MG) e seu canal do WhatsApp “Exército do Lula”, que soma quase 11 milhões de participantes.

Para os especialistas em comunicação e política ouvidos pela Agência Pública, é consenso que a estratégia digital capitaneada por Janones foi central na histórica virada de Lula.

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“O Janones entendeu a lógica das plataformas [digitais], no sentido de que não adianta só fazer conteúdo impulsionado e ou divulgado por influenciadores. O trabalho de formiguinha das pessoas para os seus grupos, das pessoas para as suas redes, é muito importante”, aponta Raquel Recuero, coordenadora do Laboratório de pesquisa MIDIARS (Mídia, Discurso e Análise de Redes Sociais) da Universidade Federal de Pelotas (UfPel).

A pesquisadora destaca que a estratégia conduzida por Janones também acertou ao gerar rejeição a Flávio – algo que a extrema direita vinha fazendo desde o início do terceiro mandato de Lula. “O que mobilizou foi a emoção, o medo de uma vitória de Flávio Bolsonaro [PL]. Não existe comparação com a campanha do primeiro turno. Foi uma campanha muito mais abrangente, digital, que chegou muito mais nas pessoas, já que, querendo ou não, o espaço do debate hoje é o digital”, diz.

Recuero destaca ainda a relevância da campanha digital em um cenário adverso para Lula no Congresso. “A mobilização é importante porque mostra que o presidente eleito tem força de mobilização, ou seja, tem apoio popular, isso pressiona o Congresso, pressiona as instituições. Mas vai ser um governo difícil”, afirma.

A pesquisadora Maria Paula Almada, codiretora executiva do Aláfia Lab e doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), destaca as circunstâncias em que a virada histórica ocorreu, com denúncias de interferência por parte da Meta e, de acordo com a pesquisadora, com “o ministro Kassio Nunes Marques agindo de maneira dúbia, muitas vezes juridicamente equivocada, favorecendo claramente um dos lados”.

“A gente viveu, pela primeira vez na história do Brasil, uma eleição das bolhas, em que a gente não tinha acesso ao que o outro lado estava consumindo e tomando como percepção da realidade”, diz Almada. “A gente sempre soube da importância das redes e sempre soube que a direita domina essa lógica, mas o papel dos algoritmos, das plataformas e o não acesso ao conteúdo que está sendo disseminado do outro lado é um fenômeno novo”.

Para a pesquisadora, o fato de Lula ter ficado em segundo lugar em um primeiro turno morno, com uma esquerda desengajada, fez com que as pessoas começassem a se mobilizar, encarando um papel de “protagonistas”, com as missões desenvolvidas por Janones no canal de WhatsApp, o que foi central para reduzir a abstenção.

Tatiana Dourado, pesquisadora e professora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da PUC-Rio (PPGCOM PUC-Rio), destaca a importância da identificação na campanha vitoriosa de Lula. “O que vimos foi uma mobilização em larga escala, com milhões de pessoas acompanhando canais de WhatsApp e produzindo e compartilhando conteúdos virais que geravam identificação, ampliavam o alcance dessa onda e contribuíam para consolidar convicções de voto, que vão se reproduzindo por contágio”, descreve.

Ela aponta que essa identificação, para além do conteúdo racional, tem uma expressão emocional, que mobiliza afetos – e por isso é bem sucedida. “O canal de Janones, que chegou a superar 10 milhões de inscritos, foi a grande expressão desse fenômeno. Mais do que criar um canal, Janones conseguiu estabelecer pontes com públicos, com uso de uma linguagem bastante direta, emocional e popular, mobilizando afetos, estimulando o compartilhamento de mensagens e investindo com muita autenticidade na manutenção dessa onda”, diz.

Dourado aponta que ainda é cedo para entender o quanto essa transformação da estratégia digital progressista irá se manter, mas destaca como a mobilização soube contrapor táticas que já eram usadas pelo campo bolsonarista nas redes. “Não vejo isso como uma transformação restrita à esquerda, mas como a articulação de diferentes atores em torno de uma oposição ao bolsonarismo, que se expressou tanto nas redes sociais quanto nas urnas. Ainda é difícil afirmar que essa capacidade de mobilização se tornou permanente, porque também depende de conjunturas políticas, redes de participação e condições específicas de engajamento”, pontua.

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Lula é eleito presidente do Brasil. Pela 4ª vez. Em virada histórica.

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Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito presidente do Brasil neste domingo, dia 25 de outubro de 2026. O resultado acontece em um dia de votação extremamente conturbado pela falta de ônibus para eleitores e a ampliação tardia do horário de votação.

A vitória de Lula é histórica: é a primeira vez no período democrático atual que um presidente é reeleito para um quarto mandato. Também é a primeira vez no período recente que um candidato à presidência que estava em segundo lugar no primeiro turno consegue virar o jogo e terminar em primeiro.

Outro fato histórico — e problemático — desde domingo foi a ampliação do horário de votação em duas horas. O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Cristiano Zanin, tomou a decisão nos minutos finais da votação, após pedidos das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro para que a votação fosse ampliada. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Kassio Nunes Marques não ampliou o horário, apesar do Tribunal ter sido acionado muitas horas antes do fim das votações.

O pedido da campanha de Lula se baseou nas inúmeras denúncias de falta de transporte público para que a população votasse em várias cidades do Brasil. Ao longo do domingo, a Agência Pública mostrou como a redução da oferta de ônibus dificultou o deslocamento dos eleitores.

Em São Paulo, a Pública encontrou pontos de ônibus lotados e eleitores enfrentando trajetos muito mais longos que o habitual. Um eleitor, ouvido pela reportagem, levou mais de duas horas para percorrer um trajeto que normalmente faria em cerca de 40 minutos e chegou a temer não conseguir votar antes do encerramento previsto para as 17h.

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A situação ocorreu apesar de uma determinação para que a cidade mantivesse 100% da frota equivalente à de um dia útil. A denúncia do PT apontou que os ônibus circulavam com cerca de 70% da frota total. A redução do transporte também afetou eleitores que conseguiram votar, mas enfrentavam dificuldades para retornar para casa.

Em Salvador, o problema foi ainda mais explícito. A Secretaria Municipal de Mobilidade confirmou que pelo menos 75 ônibus foram impedidos de sair das garagens depois que foram encontrados adesivos com o número de Lula nos veículos. A apuração do governo estadual chegou a identificar 252 ônibus parados em três garagens.

A redução da frota provocou a reação do TRE-BA. O presidente do tribunal determinou a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade, Pablo Souza, que está em Paris. O tribunal também determinou a retomada de 100% dos ônibus, sob pena de multa de R$ 1 milhão por hora.

O prefeito Bruno Reis, responsável pela administração municipal, é aliado da candidatura de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Lula obteve 65,26% dos votos em Salvador, contra 27,03% de Flávio.

A situação em São Paulo tem paralelo com a de Salvador: Lula também foi o candidato que mais teve votos no 1º turno na cidade. O petista teve quase 300 mil votos a mais que Flávio Bolsonaro na capital paulista, que é o maior colegiado eleitoral do país. Lula se saiu melhor, além do centro da cidade, em bairros da periferia, em especial os mais distantes do centro.

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“Não vi um único ônibus passar”: o dia em que Salvador votou de carona com estranhos

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Tássia Novaes saiu de carro com a filha neste domingo, 25 de outubro, dia do segundo turno. Entre 13h30 e 16h, rodou por três dos principais corredores de ônibus de Salvador, entre eles a região do Acesso Norte, estação de transbordo, e a Avenida Bonocô. “Nesse período eu não vi um único ônibus passar”, conta. Ela parava de ponto em ponto, baixava o vidro e perguntava quem ainda não tinha votado. “Tinha gente que falava assim: eu tô aqui há duas horas e não passou ônibus.”

Levou cerca de dez pessoas até os locais de votação. Um casal, uma senhora com o filho, outros grupos pequenos. “Em ponto de transbordo, que é onde geralmente tem mais ônibus circulando, não tinha ônibus. É surreal”, reclama. “Pela primeira vez eu tô vendo isso, de não ter ônibus em Salvador para as pessoas irem votar.”

Ao longo do dia, a Secretaria de Mobilidade de Salvador (Semob) confirmou que pelo menos 75 ônibus foram impedidos de sair das garagens. A justificativa foi a presença de adesivos com o número do candidato Lula (PT) nos veículos, como mostrou a Agência Pública. O secretário da Justiça da Bahia, Felipe Freitas, contou 252 veículos parados em três garagens. O Procon-BA autuou a empresa OT Trans depois de encontrar 55 ônibus estacionados no pátio.

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Às 13h15, o presidente do TRE-BA, desembargador Mauricio Kertzman Szporer, mandou a Polícia Federal prender em flagrante o secretário de Mobilidade, Pablo Souza, que estava em Paris. A decisão também obrigou a prefeitura a colocar 100% da frota nas ruas em uma hora, com tarifa zero, sob multa de R$ 1 milhão por hora. Para o magistrado, a retenção “frustra a participação eleitoral dos cidadãos soteropolitanos”. Pouco depois das 17h, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), prorrogou a votação até as 19h em todo o país.

O prefeito Bruno Reis (União Brasil), aliado da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), negou ter dado ordem para “reduzir ou impedir a circulação dos ônibus”. Disse que a saída atrasou porque foi preciso retirar propaganda irregular dos veículos, que a operação foi normalizada por volta das 10h30 e criticou a “politização” do episódio. Os relatos colhidos pela Pública contam outra história. Oito dias antes, a Câmara Municipal havia entregado a Flávio o título de cidadão soteropolitano, em cerimônia no Farol da Barra, ao lado de um comício do candidato. No primeiro turno, Lula teve 65,26% dos votos válidos na cidade, a maior votação dele entre as capitais.

“Não, deixa tudo aí, vai”

Clara Matos não deu carona porque estava com a filha pequena no carro. Mas cruzou cerca de 20 quilômetros da cidade entre o meio-dia e o fim da tarde. “Contando, vimos dois ônibus em cinco avenidas grandes”, diz. Perto do meio-dia, segundo ela, ainda havia “ônibus zero” e pontos cheios.

Por volta das 15h, numa loja de material de construção, o funcionário que carregava o carro da família comentou que ainda não tinha votado. Estava no trabalho desde cedo e só seria liberado depois das três. “Já soube que não tem ônibus, e não sei se eu vou conseguir chegar a tempo para votar”, contou ele. Clara dispensou o serviço: “Não, deixa tudo aí, vai”. Ela não sabe se ele conseguiu chegar a tempo.

Mais tarde, numa lanchonete perto de casa, a atendente do caixa de McDonald disse que só sairia às 16h15 e que sua seção ficava longe. “De ônibus, ela levaria no mínimo uma hora para chegar, se conseguisse ônibus”, diz Clara. O marido dela se ofereceu para pagar um Uber, “muito discretamente”, porque o gerente acompanhava a conversa. A moça aceitou.

“Os ônibus foram sequestrados”, resume Maíra

Maíra Rocha já tinha levado de manhã uma pessoa que votava no mesmo colégio que ela e outra pessoa até São Caetano, no Subúrbio Ferroviário. “Notei que no Subúrbio tava muito cheio”, conta. Quando os grupos de mensagens começaram a convocar caronas, depois do almoço, ela hesitou. “Fiquei receosa de sair sozinha e de cadastrar meu telefone”, diz. Chamou um amigo do Rio Vermelho para acompanhá-la.

Às 15h, a caminho de Periperi, também no Subúrbio, ela já via muitos carros oferecendo carona e os primeiros ônibus de volta às ruas, depois da ordem judicial. Na Federação, embarcou um grupo que ia votar na Faculdade de Arquitetura. Ao todo, levou cerca de seis pessoas aos seus locais de votação. Quem ela pegou no ponto contou que, pela manhã, até viu ônibus passar, mas vazios e com o letreiro “Garagem”.

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Com menos ônibus em São Paulo, eleitores demoram mais de 2 horas para votar

O trabalhador autônomo, Alexandre Mendes, 44 anos, olhava para o celular repetidamente enquanto aguardava o ônibus Jardim das Rosas, linha 6820, no ponto próximo à estação Capão Redondo, na Zona Sul de São Paulo. Às 16h12, ele recebeu uma mensagem da filha o alertando que existia a possibilidade do horário de votação se estender até às 19h. “Tomara, se não eu não vou conseguir chegar”.

Mendes havia saído da região de Interlagos, por volta de 14h para atravessar a Zona Sul e votar no Jardim das Rosas, mas mesmo após 2h10 de trajeto ele ainda não havia chegado ao destino. “Eu me programei para chegar em 40 minutos. O ônibus que eu estava esperando lá não passava. Tive que ir andando até o metrô. Fui para Santo Amaro, desci na estação Capão e estou aqui há quase meia hora. Acho que não vou conseguir votar ”.

Era 16h33 quando a linha que Mendes aguardava chegou no ponto. “Acho que vai dar tempo de votar, deixa eu correr lá”, disse enquanto dava sinal para o motorista.

A parada de ônibus em que Mendes aguardava não era a única lotada naquela região da Zona Sul. A reportagem circulou pelas estradas do Campo Limpo, Itapecerica e Avenida Carlos Caldeira Filho e presenciou diversos pontos cheios.

Levantamento do G1 mostrou que a frota de ônibus em São Paulo estava circulando com cerca de 70% da capacidade, apesar da decisão da Justiça Eleitoral de que a frota deveria manter 100% do equivalente a dias úteis.

A extensão do horário para a votação que a filha de Mendes alertou veio, mas veio muito tarde. O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, demorou horas para avaliar os pedidos das campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro. Enfim, comunicou à imprensa que não haveria extensão. A poucos minutos do fim da votação, prevista para as 17h, o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Cristiano Zanin, decidiu que a votação se estenderia por mais duas horas.

Agora, a situação é inédita na história do país — e extremamente confusa. A divulgação dos resultados, que havia sido iniciada, foi paralisada. A Agência Pública vai seguir com a apuração e irá atualizar a reportagem com mais informações.

  • Neste domingo de 2º turno, eleitores lotam paradas de ônibus no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo
  • Neste domingo de 2º turno, eleitores lotam paradas de ônibus no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo
  • Neste domingo de 2º turno, eleitores lotam paradas de ônibus no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo
  • Neste domingo de 2º turno, eleitores lotam paradas de ônibus no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo
  • Neste domingo de 2º turno, eleitores lotam paradas de ônibus no Capão Redondo, Zona Sul de São Paulo

PT pede prisão de prefeito de São Paulo

Enquanto se protegia da chuva, a atendente de cafeteria Priscila Mourão, 28 anos, disse à reportagem que estava aliviada por ter conseguido ter ido votar pela manhã. “Sou CLT, né moço. Tive que votar antes de ir trabalhar”, contou.

Mourão, no entanto, estava preocupada com a volta para casa devido ao transporte público. “Hoje parece que tem menos ônibus, está demorando muito. Pode ser por causa da chuva, mas acho que não. Todo domingo eu faço este mesmo trajeto, mas hoje demorou muito mais”, relata.

A Pública mostrou no 1º turno que trabalhadores têm dificuldade para irem votar. Os problemas vão desde quem não tem liberação dos patrões a pessoas que são liberadas, mas que não têm tempo suficiente para chegar às seções, ou até quem opta por fazer horas extras para conseguir mais dinheiro no fim do mês.

Assim como ocorreu em Salvador — onde restrições na frota de ônibus também prejudicaram eleitores e isso levou a um pedido de prisão contra o prefeito Bruno Reis (União Brasil) — foi pedida a prisão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes. Na capital paulista, o pedido veio do PT, que pediu também a detenção do secretário de Mobilidade Urbana e Transportes da cidade, Celso Jorge Caldeira. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência de Lula, Guilherme Boulos, afirmou que já há precedente para que isso aconteça, a exemplo do pedido de Salvador.

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Assim como Salvador, Lula também ganhou em São Paulo no primeiro turno

A situação de São Paulo tem paralelo com o que ocorreu em Salvador: em ambas as cidades, Lula foi o candidato que mais teve votos no 1º turno. O petista teve quase 300 mil votos a mais que Flávio Bolsonaro na capital paulista, que é o maior colegiado eleitoral do país.

A votação em São Paulo, como em várias grandes cidades, também varia pela região. Como mostrou levantamento do Globo, Lula se saiu melhor, além do centro da cidade, em bairros da periferia, em especial os mais distantes do centro.

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Faltou ônibus em Salvador no 2º turno, oito dias após Câmara dar título a Flávio Bolsonaro

Neste domingo de eleições, 25 de outubro, o transporte de ônibus de Salvador entrou no centro do debate eleitoral. Começou com moradores da capital, que denunciaram nas redes sociais dificuldades para ir votar devido ao atraso ou mesmo falta dos veículos nos pontos. Depois, a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) confirmou à imprensa que, ao menos, 75 ônibus foram impedidos de sair das garagens. O motivo seriam adesivos colados nos veículos com o número do candidato à Presidência do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

A situação escalou rapidamente: o presidente do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia (TRE-BA), desembargador Mauricio Kertzman Szporer, determinou que a Polícia Federal (PF) prendesse em flagrante o secretário municipal de Mobilidade de Salvador, Pablo Souza, atualmente em Paris. A decisão, assinada às 13h15, atribui à secretaria a ordem para reduzir a frota de ônibus durante a votação e manda a prefeitura recolocar 100% dos veículos nas ruas em até uma hora, com tarifa zero, sob multa de R$ 1 milhão por hora.

Ônibus com adesivos com número do candidato Lula parados em garagem; TRE determinou que 100% da frota nas ruas e prisão do secretário de mobilidade de Salvador
Ônibus com adesivos com número do candidato Lula parados em garagem; TRE determinou que 100% da frota nas ruas e prisão do secretário de mobilidade de Salvador

O pedido partiu da Federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV). Às 10h30, a federação informou ao tribunal que o transporte coletivo da capital operava com redução superior a 50% em relação aos dias úteis. Entre 10h56 e 11h09, anexou vídeos e fotos de dezenas de ônibus parados em garagens durante o horário de votação, depois listou os endereços das concessionárias onde os veículos estariam retidos e pediu a prisão em flagrante dos responsáveis.

O ponto central da decisão é um termo de vistoria elaborado pelo juiz auxiliar Antônio Marcelo Oliveira Libonati na sede do BRT, na avenida Barros Reis. Segundo o documento, o magistrado encontrou “diversos veículos na garagem”, e o supervisor do local, Igor Cesar da Cruz Moraes, informou que a frota em atividade era inferior à dos dias de semana, “seguindo orientação da SEMOB”, a Secretaria Municipal de Mobilidade de Salvador. Avisado da obrigação de manter a frota de dia útil, o supervisor disse que mobilizaria motoristas, o que, segundo a decisão, não havia ocorrido até então.

“Considerando-se que a orientação para redução da frota partiu da Secretaria Municipal de Mobilidade de Salvador (SEMOB), diante das evidências da violação dos artigos 297, 304 e 347 do Código Eleitoral, determino que seja procedida a imediata prisão do seu titular”, escreveu o desembargador. Os artigos tratam de impedir ou embaraçar o exercício do voto, de sonegar meios de transporte no dia da eleição e de desobedecer a ordens da Justiça Eleitoral. O texto dá à própria decisão “força de mandado”.

O Procon-BA autuou a empresa OT Trans após encontrar 55 ônibus aptos a rodar parados no pátio. Segundo o secretário estadual de Justiça e Direitos Humanos, Felipe Freitas, o órgão contou 252 veículos parados em três garagens da cidade.

A federação petista pretende pedir que a votação na Bahia seja estendida até as 19h — o prazo normal é às 17h. Até a publicação deste texto, não havia confirmação de que a prisão de Pablo Souza tivesse sido cumprida. A reportagem procurou o secretário, que não respondeu.

Também a Federação Brasil da Esperança (PT/PCdoB/PV) pediu ao TRE-BA, às 12h42, a prisão em flagrante do prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil). O pedido acusa prefeitura e concessionárias de descumprir uma decisão do próprio tribunal, tomada às 11h54, que mandava colocar toda a frota nas ruas, com gratuidade, para garantir o deslocamento dos eleitores. Para os advogados, a situação configura crime eleitoral por dificultar o voto e desobedecer à Justiça Eleitoral. Eles pedem também que a multa recaia pessoalmente sobre o prefeito. O Tribunal ainda não decidiu sobre o pedido.

Segundo nota da Prefeitura de Salvador: “A Secretaria de Mobilidade (Semob) determinou que todos os ônibus fossem liberados das garagens, com a frota máxima, ainda que estivessem com adesivação considerada como propaganda irregular, facilitando a locomoção dos eleitores neste domingo (25), segundo turno das eleições. A prioridade segue sendo a circulação de veículos e o deslocamento da população. A operação já está sendo normalizada através do diálogo entre as equipes da Secretaria e representantes sindicais”.

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75 ônibus foram impedidos de sair das garagens de Salvador, o que gerou atraso aos eleitores

Lula venceu em Salvador no primeiro turno com 65,26%

O prefeito de Salvador é Bruno Reis (União Brasil), reeleito em 2024 para o mandato de 2025 a 2028 e alinhado à chapa de Flávio Bolsonaro. No primeiro turno, Lula, do PT, obteve 944.358 votos (65,26%), enquanto Flávio obteve 391.188 votos (27,03%). A vitória de Lula em Salvador foi a maior porcentagem dentre todas as capitais brasileiras, sendo que a cidade é a quinta do país com maior número de eleitores.

O desembargador ampara a ordem no julgamento da ADPF 1013, em que o Supremo Tribunal Federal (STF) declarou inconstitucional a omissão do poder público em oferecer, nos dias de eleição, transporte gratuito com frequência igual à dos dias úteis. A regra foi incorporada pela Resolução TSE n.º 23.751/2026, cujo artigo 23 prevê responsabilização penal eleitoral em caso de redução do serviço. Para o magistrado, a retenção da frota “frustra a participação eleitoral dos cidadãos soteropolitanos” e cria risco de “dano irreparável à soberania popular”.

A multa recai solidariamente sobre o município, o secretário e as empresas concessionárias. A decisão também determina que a PF fiscalize as garagens, garanta a saída imediata dos ônibus e prenda em flagrante quem impedir o cumprimento da ordem. Cópia do processo foi enviada à Procuradoria Regional Eleitoral para investigação criminal. A gratuidade e a frota completa devem ser mantidas até o fim da votação e pelo tempo necessário para que os eleitores voltem para casa.

Após disputa na Justiça e manobra de vereadores, Flávio Bolsonaro ganhou neste mês título de cidadão de Salvador

Câmara de Salvador disputou na Justiça para homenagear Flávio em meio a campanha eleitoral

A história começou em 13 de abril deste ano, quando a Mesa Diretora da Câmara Municipal de Salvador publicou o projeto de número 28, que concedia o título de “Cidadão da Cidade de Salvador” a Flávio Bolsonaro (PL). O documento original, ao qual a Pública teve acesso, foi assinado pelo presidente da Câmara, Carlos Muniz, do PSDB.

Na justificativa do projeto, o texto afirma que a homenagem reconhece os “relevantes serviços prestados à sociedade brasileira e à sua contribuição para o fortalecimento dos valores democráticos, institucionais e sociais que refletem diretamente o desenvolvimento da cidade de Salvador”.

O projeto também traz que “ainda que sua atuação se dê em âmbito nacional, suas iniciativas legislativas e posicionamentos reverberam em todo o território brasileiro, alcançando também os cidadãos de Salvador, contribuindo para o aprimoramento de políticas públicas que impactam diretamente a capital baiana”.

No dia 28 de abril, a proposta avançou, e foi aprovada pela Comissão de Justiça da Câmara. Em 6 de maio ela foi aprovada pela Câmara. Já em 10 de junho, foi publicada no Diário Oficial.

A entrega da homenagem a Flávio Bolsonaro seria marcada mais para frente, para o dia 17 de outubro — já dentro do calendário eleitoral — o que foi denunciado por políticos da oposição como ato de campanha. Além disso, a Câmara aprovou uma transferência temporária da sede para o Farol da Barra, para que a homenagem pudesse acontecer no local junto a um comício de Flávio.

“Deslocar a cerimônia para um palanque converte a mais alta honraria da cidade em peça de propaganda de uma candidatura, em afronta aos princípios da impessoalidade e da moralidade que regem a Administração Pública”, escreveu o vereador Hamilton Assis, do PSOL, em 14 de outubro, num projeto que pediu a suspensão da homenagem.

Quem articulou a transferência de local foi o vereador Cezar Leite (PL), que inclusive se colocou como o responsável para entregar a honraria a Flávio. “Foi um pedido do vereador Cezar Leite, que só se deu após ser aprovado pelos pares em plenário. Agora é possível dizer que já está tudo certo para que aconteça. Nós aqui somos democráticos; o que a maioria decidir está decidido”, disse o presidente da Câmara.

“Estou feliz. A gente acabou de aprovar o requerimento que fiz para a mudança de sede para a entrega do título de cidadão soteropolitano a Flávio Bolsonaro, o nosso futuro presidente da República. Então, vai ser entregue no Farol da Barra, em um grande encontro com o povo. Nada melhor do que entregar um título de cidadão soteropolitano no meio do povo, que hoje está aclamando Flávio Bolsonaro como presidente da República”, disse Leite à época.

No dia 16, a Vara da Fazenda Pública de Salvador suspendeu a cerimônia, entendendo que o movimento poderia “comprometer a imparcialidade da atuação institucional do Legislativo municipal no período eleitoral”. No dia seguinte, após Cezar Leite recorrer, o Tribunal de Justiça do Estado voltou a autorizar a entrega da condecoração, que aconteceu no Farol da Barra na mesma data.

Flávio recebeu o título de cidadão de Salvador no dia 17 de outubro, ao lado do atual prefeito, Bruno Reis (União Brasil), do deputado federal Nikolas Ferreira de Minas Gerais (PL), do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), fora outros políticos. O título foi entregue pelo vereador César Leite. Um dia após receber a homenagem, Flávio errou o nome da avenida onde foi agraciado, confundindo a Avenida Oceânica, em Salvador, com a Atlântica, no Rio de Janeiro.

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Uma sala e 90 empresas: o mapa que liga Flávio Bolsonaro, Willer Tomaz e o careca do INSS

Uma única sala comercial em Águas Claras, no Distrito Federal, reúne no papel o candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, seu advogado e amigo, Willer Tomaz, e parte da rede investigada pelo desvio de dinheiro de aposentados do INSS, que inclui Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”. A Agência Pública levantou os registros das 90 empresas que já tiveram sede na sala 2601 do Edifício Connect Towers e achou 25 citadas nas investigações sobre as fraudes no INSS, ligadas a Antunes, além de outras seis pessoas indiciadas pela CPMI.

Um elo entre essas empresas é a Voga, um escritório de contabilidade instalado no prédio desde 2009, cujos e-mail e endereço se repetem nos cadastros obtidos pela Pública. O ICL Notícias revelou a ligação da sala com uma empresa de Flávio, a Bravo Grafeno (que já teve Jair Bolsonaro como sócio), e 16 outras ligadas ao escândalo do INSS, em setembro deste ano.

A Voga é comandada pela família dos Reis. Alexandre Caetano dos Reis, sócio do “careca”, está preso desde dezembro, apontado pela Polícia Federal (PF) como contador no esquema de lavagem de dinheiro. A irmã dele, Letícia Reis, administra o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro, como revelou a Pública em 2022.

A Pública também descobriu que Willer Tomaz, investigado junto ao senador no STF por lavagem de dinheiro com bets, defende a Voga num processo trabalhista. Ele também tem uma empresa em nome da irmã na mesma sala.

Senador Flávio Bolsonaro
Na mesma sala onde foi registrada a empresa de Flávio Bolsonaro, existem outras 25 citadas no escândalo do INSS

Uma contabilidade, muitas empresas

A principal conexão entre as muitas empresas registradas na sala 2601 é a Voga, uma empresa de contabilidade. O primeiro documento que a Pública encontrou é de 2009, quando a empresa foi registrada no Edifício Connect Towers, em salas ao lado da 2601, segundo a Receita Federal.

Fachada do Connect Towers
Na mesma sala do edifício comercial, estão registradas 90 empresas, incluindo a que tem Flávio Bolsonaro como sócio

Um dos sócios da empresa é Alexandre Caetano dos Reis, preso desde dezembro do ano passado por decisão do ministro André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a PF, Caetano atuou como contador de diversas empresas do “careca” em atividades de lavagem de dinheiro no esquema de fraudes do INSS.

A Voga tem uma empresa “filha”, chamada Voga Serviços, essa sim com sede na sala 2601 e aberta em 2021. O termo filha não é ao acaso: essa segunda Voga tem no registro Paula Batista dos Reis, a filha de Alessandra Batista Perdigão dos Reis, esposa de Alexandre. O email de Paula é usado tanto no cadastro da Voga Serviços, quanto da Voga Contabilidade aberta em 2009.

É neste endereço da sala 2601, além dos emails de Paula e da própria Voga que se conectam um emaranhado de 90 empresas nas quais os membros da família dos Reis se revezam nas sociedades.

É importante lembrar que a família dos Reis está ligada diretamente a Flávio Bolsonaro: é a irmã de Alexandre, Letícia Caetano dos Reis, que administra o escritório de advocacia de Flávio — o mesmo escritório registrado na mansão milionária do senador, cuja compra foi financiada pelo Banco de Brasília (BRB) e que teve o empréstimo quitado em tempo recorde.

Advogado Willer Tomaz
Amigo de Flávio, Willer atua como advogado para empresa de contabilidade que liga empresas registradas na sala 2601

Willer Tomaz defende Voga em processo contra família dos Reis

A Pública tentou visitar a sala da Voga na manhã desta sexta-feira, 23 de outubro. O acesso, contudo, foi barrado. A circulação no edifício foi limitada após a imprensa ter revelado o local.

Os 90 empreendimentos registrados na sala 2601 têm atividades variadas. A maioria é de consultoria e serviços administrativos (26), seguido por construção civil e incorporação imobiliária (19), comércio (16) e holdings (13).

Recepção da Connect Towers
Entrada da sala foi limitada após revelação de que Flávio Bolsonaro e careca do INSS têm escritório no mesmo local

A Pública teve acesso a um processo trabalhista que reforça os laços entre as empresas da sala. É o mesmo processo noticiado pelo Uol neste sábado, 24 de outubro. Na ação, um profissional afirma que trabalhou mais de dez anos para a Voga, até 2025. A pessoa afirma que a jornada de trabalho era extenuante e não remunerada. E ainda que foi obrigada pela chefia a apagar dados que poderiam comprometer a empresa junto ao escândalo do INSS. Alexandre atuaria diretamente como “chefe”, dando ordens de destruição dos arquivos.

Na peça, o profissional acusa os sócios de usarem “CPFs de terceiros, comumente denominados “laranjas”, para frustrar o cumprimento de obrigações legais e dificultar a satisfação de créditos trabalhistas”. A acusação contra a Voga é direcionada à família dos Reis: Alexandre; Alessandra, sua esposa; e Paula.

Quem defende a Voga e os membros da família dos Reis nesse processo é Willer Tomaz.

A reportagem procurou a assessoria do advogado para esclarecer qual a relação dele com a Voga e as demais empresas registradas na sala 2601, além de um posicionamento sobre a acusação trabalhista, mas ainda não tivemos resposta até a publicação. O espaço segue aberto à manifestação.

Outra ligação também aproxima Willer das empresas registradas na sala 2601. É a Bonsucesso, consultoria criada em setembro de 2025 na sala da Voga. A Pública apurou que, no mesmo dia em que foi constituída, ela foi transferida para um endereço em São Paulo.

A empresa foi registrada em nome de Lídia Mazelli, apontada como suposta laranja de Tomaz por assinar os papéis de 14 empreendimentos ligados a ele. Depois, em julho de 2026, a Bonsucesso foi transferida para Flavia Oliveira Correa Tomaz, esposa de Willer.

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A família Bolsonaro e a sala 2601

A ligação mais direta entre a família Bolsonaro e as empresas da sala 2601 é a Bravo Grafeno, loja online que vende capacetes estilizados com as cores da bandeira do Brasil, como mostrou o ICL. A grafeno foi aberta em junho de 2024.

A sociedade reúne Flávio, seu irmão Carlos Bolsonaro, recém-eleito senador por Santa Catarina, e outras três pessoas. O ex-presidente Jair Bolsonaro também já fez parte do quadro societário.

A Bravo Grafeno também tem como sócio Pedro Luiz Dias Leite, ex-sócio de Marcello de Oliveira Lopes, marqueteiro de Flávio que deixou a pré-campanha em maio. A saída ocorreu após a crise envolvendo a revelação pelo Intercept Brasil de que o senador pediu R$ 134 milhões ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o filme Dark Horse, sobre seu pai. A PF também identificou um repasse de Lopes para a produtora do filme.

Os outros sócios da empresa de capacetes são o ex-assessor do senador, Fernando Nascimento Pessoa, que chegou a ser investigado no caso da rachadinha no gabinete de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, e o personal trainer Paulo Giordano Bernardi.

A Pública descobriu que outra pessoa ligada à família Bolsonaro tem um negócio na sala 2601: o fisioterapeuta Kleber Caiado, que atende Jair desde agosto de 2025, quando o ex-presidente passou a cumprir prisão domiciliar. Quando ele foi condenado, a defesa do ex-mandatário pediu autorização para que as sessões de fisioterapia com Caiado tivessem continuidade na cela da PF.

Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como o "Careca do INSS"
Acusados de envolvimento com o “careca do INSS” também têm empresas no endereço

Mais empresas ligadas ao escândalo do INSS na sala 2601

Era 23 de setembro de 2025, a Polícia Legislativa da Câmara dos Deputados foi acionada para prender o economista e empresário Rubens Oliveira Costa, por falso testemunho e ocultação de documentos na Comissão Parlamentar de Inquéritos (CPMI) do INSS. O pedido foi feito tanto pelo presidente da comissão, o deputado Carlos Viana (Podemos-MG), quanto pelo relator Alfredo Gaspar (PL-AL), após mais de sete horas de reunião.

Costa foi ouvido na condição de testemunha, amparado por um habeas corpus, concedido pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Luiz Fux. Ele não respondeu à maioria das perguntas feitas pelos parlamentares sobre a sua relação com o “careca” e teria apresentado contradições em suas falas, o que levantou a suspeita dos interrogadores.

A suspeita de relação com a fraude do INSS se estende também às três empresas em seu nome: a Fronteira Consultoria e Gestão Financeira, a Silva e Rodrigues Consultoria e Assessoria Empresarial (Brain Consultoria) e a Capify Gestão e Consultoria Financeira. A Pública apurou que essas três empresas dividem a mesma sala 2601 com a Voga.

Procurada, a defesa do empresário afirmou que “Rubens Oliveira Costa jamais foi proprietário de qualquer empresa, tendo atuado exclusivamente como administrador financeiro contratado”, afirmou o advogado Bernardo Simões Coelho. Ele acrescentou ainda que o seu cliente não mantinha negócios com políticos ou integrantes da administração pública. Leia a nota na íntegra.

Já o técnico em contabilidade e empresário Milton Salvador de Almeida Júnior aparece como sócio ou diretor de pelo menos 11 empresas de ramos variados, e em oito delas, ele divide a sociedade com o “careca”. Em 19 de setembro de 2025, ele foi convocado para depor na CPMI do INSS, após nove requerimentos, sendo um deles do próprio relator da comissão, o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) – hoje vice na chapa com Flávio Bolsonaro.

Quatro empresas ligadas a Almeida Júnior estão na sala 2601 do Contect Tower: a Prospect Consultoria Empresarial,  Plural Intermediações de Negócios, RPLD Construtora e Incorporadora e a DRPL Comercialização e Locação de Veículos.

A Prospect Consultoria é citada no relatório da Polícia Federal como uma das empresas utilizadas para executar o esquema fraudulento. A empresa foi fundada em janeiro de 2022, está em atividade e tem capital social de R$ 30 mil. Procurada, a defesa de Almeida Junior não respondeu aos questionamentos da reportagem. O espaço segue aberto para manifestações.

Romeu Carvalho Antunes, filho de Antunes, também aparece na sala 2601, em sociedade com Almeida Junior na Plural Intermediações de Negócios.

Romeu foi preso na manhã de 18 de dezembro de 2024 na Operação Sem Descontos. Além da relação com as empresas do pai, a PF identificou um aumento abrupto nos rendimentos do filho do “careca”, cujo crescimento seria incompatível com o seu histórico profissional.

Procurada pela reportagem, a defesa de Romeu disse que ele tem apenas 1% de participação na Plural, e que suas empresas estão baixadas há um ano, não mantendo “relação comercial com absolutamente ninguém mais”. Além disso, a defesa alega que ele nunca teve qualquer relação com a família Bolsonaro e Willer Tomaz. Os advogados também informaram que não tiveram acesso à informação de que o patrimônio era incompatível. 

Já Cristiana Alcântara Alves Zago é sócia de oito empresas na sala 2601. Segundo o relatório final da CPMI do INSS, ela figuraria como “suporte” contratada pelo “careca” para, inicialmente, realizar serviços de consultoria relacionados à estruturação de negócios no setor de cannabis medicinal”, e teria recebido créditos bancários de investigados no esquema de fraudes envolvendo o INSS. Ela teria recebido ao menos R$ 610 mil dos investigados, de acordo com o relatório.

Procurada, a defesa de Zago não respondeu.

Já a defesa de Antônio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, afirmou que ele não tem nenhum elo com as empresas de Willer Tomaz e nem da família Bolsonaro.

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