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Fuga de Flávio Bolsonaro abre disputa por liderança da direita no Brasil

A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL) do Brasil, dois dias depois de perder o segundo turno para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), abriu uma disputa pela liderança da oposição e da direita no Brasil.

O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é visto por aliados da família Bolsonaro e pelo Centrão como o nome mais bem posicionado para ocupar esse espaço.

Alguns aliados, porém, ponderam que, mesmo que Tarcísio se consolide como principal líder da oposição, o protagonismo no dia a dia deverá ser dividido com deputados e senadores.

Na avaliação desse grupo, é no Congresso que a oposição terá os instrumentos mais imediatos para enfrentar o governo Lula, seja na votação de projetos, na instalação de CPIs ou na pressão sobre a agenda econômica.

Por governar São Paulo, Tarcísio teria uma atuação mais voltada ao debate nacional e à articulação política, enquanto as bancadas da direita na Câmara e no Senado ficariam com o embate direto com o Planalto.

Como noticiado pela CNN, Flávio entrou na Argentina por via terrestre na noite de terça-feira (27), acompanhado da mulher e das duas filhas, e embarcou em um voo privado com destino ao Equador. A expectativa é que siga para os Estados Unidos.

No mesmo dia, Tarcísio publicou um vídeo em que reconheceu a vitória de Lula, mas fez cobranças ao governo.

“Reconhecer o resultado não significa calar sobre os excessos. O uso da máquina, programas lançados fora do prazo, a interferência do Judiciário. Tudo isso marcou esta eleição e precisa deixar lições”, afirmou.

O governador também disse que o país segue “fraturado e dividido” e que as promessas de campanha “precisam ser examinadas com rigor, porque a conta sempre chega para o contribuinte”.

No vídeo, ele agradeceu a Flávio pela “caminhada” na campanha, mas não comentou a saída do senador do país.

Voz da oposição

Segundo apuração da analista de política da CNN Jussara Soares, alguns aliados do clã Bolsonaro e pessoas próximas a Tarcísio avaliam que a fuga de Flávio fortalece o governador como principal voz de oposição a Lula.

Com o ex-presidente Jair Bolsonaro em prisão domiciliar e os filhos Flávio e Eduardo fora do país, esses interlocutores consideram Tarcísio mais articulado do que os integrantes da família que seguem no Brasil.

Eleito senador por Santa Catarina, Carlos Bolsonaro é descrito por aliados como alguém que não gosta da articulação política e sempre atuou nos bastidores. Já a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, eleita senadora pelo Distrito Federal, tem o respaldo do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, mas enfrenta resistência dos filhos do ex-presidente e de parte do bolsonarismo.

Pesa também a favor de Tarcísio o fato de ter sido reeleito em primeiro turno no maior estado do país e de ter atuado como um dos principais conselheiros de Flávio no segundo turno. Ele esteve entre os aliados que orientaram o senador a não contestar o resultado das urnas e a não deixar o país.

Entre os governadores de direita eleitos neste ano, como Sergio Moro (PL), no Paraná, e Douglas Ruas (PL), no Rio de Janeiro, a avaliação é que nenhum tem a mesma estatura para liderar a oposição.

Projeto para 2030

Segundo o analista de política da CNN Caio Junqueira, Tarcísio sinalizou a interlocutores, já desde a noite de domingo (25), que pretende trabalhar para liderar a oposição, com vistas à disputa presidencial de 2030.

O governador lembrou que estará livre para concorrer ao fim do segundo mandato, mas ponderou que outros nomes da direita devem surgir até lá e que sua candidatura dependerá dos resultados à frente do governo paulista.

Na avaliação de Tarcísio, a oposição sempre foi desorganizada e individualista e precisa agora atuar como um time, com uma agenda centrada em economia, custo de vida e segurança pública, temas da campanha de Flávio.

O governador tem dito a aliados que o novo mandato de Lula começa com uma crise fiscal contratada e que, se o presidente cumprir todas as promessas de campanha, as contas públicas não fecham.

Se não cumprir, avalia, será acusado de estelionato eleitoral. Tarcísio pretende se posicionar como porta-voz dos setores produtivos de São Paulo nos debates econômicos nacionais.

Ainda segundo os relatos, Tarcísio não tem planos de deixar o Republicanos rumo ao PL. O partido, que apoiou Flávio desde o primeiro turno, tem uma ala próxima ao governo Lula.

Direita não bolsonarista

A derrota de Flávio já havia reacendido o debate sobre o futuro do bolsonarismo. Partidos do centrão e alas moderadas da direita, inclusive no PL, defendem que é hora de se descolar do sobrenome Bolsonaro.

Para o analista de política da CNN Pedro Venceslau, a fuga do senador abriu uma janela para a direita não bolsonarista.

Além de Tarcísio, que o centrão quer projetar nacionalmente, o dirigente do Missão, Renan Santos, já admitiu que pode disputar novamente a Presidência em 2030.

Aliados avaliam que o sentimento antibolsonarista pesou nas duas últimas eleições presidenciais, em que um membro da família Bolsonaro perdeu para Lula.

*Com informações de Pedro Venceslau, Jussara Soares, Caio Junqueira e Teo Cury

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Adolescentes são apreendidos por morte de jovem espancado após ato pró-Lula

Dois adolescentes foram apreendidos pela Polícia Civil por suspeita de envolvimento na morte do engenheiro ambiental e mestrando Marcelo de Oliveira Rocha, de 30 anos, espancado e roubado após participar de um ato em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em Santos, no litoral paulista. A informação foi confirmada pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP).

Segundo a pasta, o 4º Distrito Policial de Santos identificou cinco adolescentes e dois adultos suspeitos de participação no latrocínio. Os policiais cumpriram mandados de busca e apreensão contra dois dos adolescentes. As investigações continuam.

Marcelo foi agredido na madrugada de sábado, 24, depois de participar de uma apresentação da Banda Esquerdantina, na Avenida Conselheiro Nébias, nas proximidades do Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista (Sindipetro).

 

Por volta das 3h, ele se afastou dos amigos para ir ao banheiro e foi encontrado inconsciente. Segundo a SSP, o engenheiro foi abordado por um grupo de homens, que o espancou e roubou seus pertences.

Após a agressão, Marcelo foi levado à Santa Casa de Santos e, posteriormente, transferido para o Hospital São Paulo, hospital universitário da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele permaneceu em coma induzido e morreu na tarde de segunda-feira, 26.

Imagens divulgadas nesta terça-feira, 27, pelo portal g1, mostram que os agressores fizeram uma transmissão ao vivo durante o crime. Na gravação, um dos suspeitos exige que Marcelo entregue o celular e faz ameaças. Em seguida, o engenheiro recebe um soco, cai no chão e tem seus pertences roubados.

Inicialmente registrado como roubo com resultado de lesão corporal grave, o caso passou a ser investigado como latrocínio após a morte da vítima.

Em nota, a Unifesp lamentou a morte do estudante e cobrou a identificação e responsabilização dos envolvidos. A universidade afirmou que acompanha o caso e presta apoio à família.

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Policiais que atropelaram homem durante vitória de Lula serão investigados

Segundo o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina), os policiais militares envolvidos no atropelamento e na prisão de um motociclista, no último domingo (25), após vitória do presidente Lula (PT), serão investigados. O inquérito foi aberto pela 42ª Promotoria de Justiça da Comarca da Capital.

O caso aconteceu no bairro dos ingleses, na capital Florianópolis. “Após a análise do que foi produzido na investigação, o Ministério Público poderá tomar providências como, por exemplo, pedido de diligências complementares, responsabilização criminal dos agentes envolvidos ou mesmo o arquivamento do caso”, alega o MP por meio de nota enviada à CNN Brasil.

Já o motociclista que estava preso, mesmo hospitalizado, teve a prisão revogada pela Justiça, nesta terça-feira (27), segundo o vereador Leonel Camasão (PSOL) que acompanha o caso. De acordo com o parlamentar, o homem está hospitalizado e quebrou várias partes do corpo e ainda passará por cirurgias.

O MP alega que o pedido de prisão preventiva aconteceu por outros fatos, além das supostas manobras ilegais que os policiais alegaram para o atropelamento. O homem teria histórico de envolvimento em infrações penais no trânsito, além de ser condenado por desobediência a ordem de parada durante fiscalização de trânsito.

 

*Sob supervisão de Thiago Félix

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Indígenas denunciam ameaças após eleições no MS

O povo indígena Terena, localizado no Mato Grosso do Sul, denunciou, nesta terça-feira (27), ameaças, intimidações e episódios de racismo dentro das próprias aldeias durante o segundo turno das eleições presidenciais.  

A APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), ainda publicou situações em que os indígenas foram impedidos de votar em escolas localizadas nas aldeias. Muitos ainda foram chamados de “bugres”, termo pejorativo, racista e histórico usado no Brasil para designar os povos originários.  

Um dos áudios pulicados em meio a denúncia mostra o desejo de um homem de que os povos não deveriam votar.  

“Senão nós não vamos começar a botar isso, trabalhar, mandar fechar a porteira para não sair mais para a cidade, porque índio é só no mato. E cortar luz, cortar água, porque índio também não pode ter nada disso, é só lamparina. E água no poço. E eu acho que o índio também não podia voltar”, ressaltava um dos áudios da denúncia.  

A APIB destacou que repudia essas violações e exige que as denúncias sejam investigadas, com a responsabilização dos envolvidos e a garantia da segurança das comunidades.  “O direito ao voto é de todos! Nenhum povo indígena pode ser ameaçado, discriminado ou silenciado por exercer seus direitos políticos”, ainda afirmou o órgão.  

 A CNN Brasil entrou em contato com o Governo do Mato Grosso do Sul, com a Polícia Federal e com o Tribunal Regional Eleitoral do Mato Grosso do Sul, mas até o momento não obteve resposta. 

Povo Terena

Os Terena são um povo indígena falante de língua Aruak. Atualmente, uma das maiores populações indígenas do país, habitam terras indígenas em dois estados brasileiros, Mato Grosso do Sul e São Paulo.

Os Ministérios dos Povos Indígenas (MPI), dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) e da Igualdade Racial (MIR), por meio de nota, apontaram que estão atuando em conjunto para investigar as denúncias de violência relacionadas aos povos indígenas, comunidades quilombolas e povos de terreiro, após o segundo turno das eleições. 

“É inaceitável que discordâncias políticas possam ter como resultado o uso de violência para reprimir e intimidar opiniões diferentes, colocando em risco a vida das pessoas. Vivemos em um país democrático em que as diferentes visões de mundo devem ser respeitadas e coexistir de forma pacífica e livre”, afirmou a nota.  

 

 

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Bolsonaristas fogem da Justiça e se espalham por ao menos quatro países

Flávio Bolsonaro (PL) pode ser o mais novo integrante da lista de bolsonaristas que deixaram o Brasil. Caso confirmada a chegada aos Estados Unidos, o candidato derrotado nas eleições de 2026 se somará a parentes, influenciadores e ex-membros do governo de Jair Bolsonaro, que deixaram o país por condenações ou investigações. Sempre sob o argumento de perseguição política. 

A denúncia partiu do veículo argentino Infobae, que publicou hoje, 27 de outubro, que Flávio estaria na cidade de Puerto Iguazú, que faz fronteira com o Brasil, pronto para tomar um voo rumo aos EUA. Ainda não se sabe como o senador teria saído do Brasil para o país vizinho. Em 26 de outubro, dia seguinte à derrota nas urnas, o ministro Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse o passaporte à Justiça.

Um dos fundamentos da decisão de Moraes foi uma entrevista do irmão de Flávio, Eduardo Bolsonaro, dada dois dias antes do segundo turno, afirmando que o então candidato deveria deixar o país se perdesse o pleito. Também nesta terça, o blogueiro Paulo Figueiredo disse em sua live que, na noite de domingo, após confirmada a derrota, havia aconselhado o senador a ir para os EUA.

Flávio Bolsonaro é investigado em duas frentes pelo Supremo Tribunal Federal, mas, terminado seu mandato como senador, em 31 de janeiro de 2027, perderá o foro privilegiado. Sob relatoria do ministro André Mendonça, ele é investigado pela suspeita de evasão de divisas e de lavagem de dinheiro por conta do financiamento da produção do filme “Dark Horse”, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro. A investigação mira repasses de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, à produção do longa. 

Em outra frente, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, Flávio é investigado pela suspeita de lavagem de dinheiro por meio de uma casa de apostas. A Polícia Federal (PF) quebrou o sigilo telemático do advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio, e encontrou e-mails que apontariam que o senador foi cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária da empresa Alcazar Holdings, de propriedade de Tomaz.

Segundo a PF, há indícios de “vínculo de controle ou propriedade de fato de Willer Tomaz sobre a Rede Loto”, a primeira a obter autorização estadual da Loterj, no Rio de Janeiro, para explorar bets no estado.

Publicação de Flávio Bolsonaro no Instagram
O senador Flávio Bolsonaro afirmou em seu Instagram ter sido intimado pela Polícia Federal (PF), nesta segunda-feira (26), a entregar seus passaportes

Bolsonaristas nos EUA de Trump

Eduardo Bolsonaro mora no Texas (EUA) desde março de 2025. Ele foi condenado pelo STF em junho de 2026 por sua atuação para obter sanções americanas contra autoridades brasileiras. O ex-deputado teve a prisão decretada em outubro, entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

Eduardo tem passaporte italiano e também conseguiu o green card, documento que garante a residência permanente nos EUA. Desde que fugiu do Brasil, ele fez diversas viagens ao Oriente Médio e chegou a abrir uma empresa no Bahrein, conforme a Pública revelou.

Seu braço direito nos EUA, Paulo Figueiredo, mora na Flórida há dez anos. Ele é investigado no Inquérito das fake news e foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023. Seu caso nunca foi julgado porque o neto do ex-ditador João Figueiredo nunca foi intimado, mas ele é considerado foragido.

Eduardo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem juntos, em 2026, em encontro nos EUA
Eduardo, Allan dos Santos e Alexandre Ramagem juntos, em 2026, em encontro nos EUA

Outro foragido que vive na Flórida é o blogueiro Allan dos Santos. Ele teve mandado de prisão preventiva decretado pelo STF em outubro de 2021 e reforçado em 2024, bem como o bloqueio de suas contas bancárias e perfis digitais no Brasil. O criador do extinto “Terça Livre” também é investigado no Inquérito das fake news e das milícias digitais por disseminação de conteúdo falso e ataques a autoridades.

Ainda na Flórida mora Alexandre Ramagem, ex-diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e ex-deputado federal pelo PL. Ele foi alvo de pedido de extradição após ser condenado pelo STF a 16 anos de prisão pela trama golpista.

A fuga, em setembro de 2025, contou com a ajuda de Rodrigo Cataratas, condenado por liderar o garimpo ilegal na Terra Yanomami, conforme revelou a Pública. O empresário do garimpo também está foragido por ter ajudado na fuga de Ramagem.

Em abril de 2026, Ramagem chegou a ser detido pelo serviço de imigração dos EUA (ICE), mas foi liberado dois dias depois. Hoje, ele é um imigrante ilegal no país, segundo o Departamento de Segurança Interna (DHS, na sigla em inglês) e está sujeito a detenção e deportação, como a Pública também mostrou.

Bolsonaristas na Argentina, Itália e Espanha

Na Itália, a ex-deputada federal Carla Zambelli chegou a ser presa em junho de 2025. Em maio de 2026, ela foi solta pela Corte de Cassação de Roma, última instância da Justiça do país. Ela havia sido condenada pelo STF a dez anos de prisão por contratar um hacker para inserir um mandado de prisão falso contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, no sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Ainda na Europa, mas na Espanha, mora o blogueiro Oswaldo Eustáquio, considerado foragido da Justiça brasileira desde 2023. Em outubro de 2026, ele se tornou réu por associação criminosa no âmbito do inquérito que investiga a tentativa de golpe de 8 de janeiro. Em junho de 2025, o governo espanhol rejeitou o pedido de extradição do governo brasileiro por considerar que houve motivação política.

Leonardo Rodrigues de Jesus, o Leo Índio, é primo de Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro. Ele é investigado no inquérito do golpe de Estado em 2023 e teve a prisão decretada em 2025. Ele mora na cidade de Puerto Iguazú, do lado argentino da tríplice fronteira, por onde Flávio Bolsonaro teria passado para tomar um voo para os EUA. A Pública mostrou que Leo é um dos investigados por desinformação e tentativa de golpe que seguem ativos nas redes em 2026.

Também na Argentina, estão cinco brasileiros condenados pelos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023, que foram extraditados em dezembro de 2025: Joelton Gusmão de Oliveira, Joel Borges Correa, Rodrigo de Freitas Moro, Wellington Firmino e Ana Paula de Souza, segundo apuração da BBC Brasil.

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O Grande Debate: O que virou o jogo, a mobilização ou o antibolsonarismo?

Os comentaristas da CNN José Eduardo Cardozo e Vinicius Poit debateram, na segunda-feira (26), em O Grande Debate (de segunda a sexta-feira, às 23h), se “a mobilização popular ou o antibolsonarismo que definiu a virada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições de domingo (25)”.

Lula foi reeleito no segundo turno das eleições, superando Flávio Bolsonaro por mais de 4,5 milhões de votos. Foi a primeira vez na história da República que um candidato que saiu atrás no primeiro turno conseguiu reverter o resultado no segundo.

Fatores que determinaram a virada

O comentarista José Eduardo Cardozo defendeu que os dois fatores são inseparáveis. “Não existe essa alternativa”, afirmou. Para ele, a mobilização observada nas ruas de diversas cidades do país, especialmente em São Paulo, na Avenida Paulista, foi de uma intensidade raramente vista.

“Lembrava grandes mobilizações da época do fim da ditadura, e talvez com maior expressão”, destacou Cardozo.

Cardozo apontou que a vitória resultou de uma combinação de elementos. De um lado, havia eleitores que viam na campanha de Lula a continuidade de boas políticas e a defesa da democracia. De outro, setores sem grande identidade com a esquerda, mas que enxergavam no bolsonarismo um risco para a democracia brasileira.

“Uma parte da direita se deslocou porque sabia que não podia ser hegemonizada pelo bolsonarismo”, analisou. O comentarista também citou erros da campanha adversária, como a postura considerada arrogante de Flávio Bolsonaro após o primeiro turno e declarações polêmicas nos debates televisivos.

O comentarista Vinícius Poit concordou que a virada foi resultado de uma combinação de fatores. Ele reconheceu que a campanha de Lula teve uma mobilização expressiva, com a entrada de nomes como Camilo Santana (PT-CE) e Rafael Fonteles (PT), que conferiram um tom diferente ao segundo turno.

“Os caras da esquerda trabalharam e foram atrás do voto”, disse Poit. Ele também admitiu, com ressalvas, que houve “salto alto” por parte de setores da direita após o primeiro turno, embora tenha discordado da avaliação de Cardozo sobre o desempenho de Flávio Bolsonaro nos debates, considerando que o candidato se saiu bem nas duas ocasiões.

Questionamentos e perspectivas após a eleição

Poit mencionou que aliados de Flávio Bolsonaro cogitam questionar a eleição com base em suspeitas de abuso de poder econômico relacionado à mobilização digital da campanha vencedora. No entanto, o próprio comentarista se posicionou contra tentativas de reverter o resultado.

“Quem vai julgar qualquer possível irregularidade é o TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o STF (Supremo Tribunal Federal). Vamos em frente”, declarou. Poit também destacou que o próprio partido de Flávio Bolsonaro já reconheceu a vitória de Lula. Para o comentarista, independentemente do resultado, o caminho agora é seguir adiante, de olho nas próximas eleições.

Os textos gerados por inteligência artificial na CNN Brasil são feitos com base nos cortes de vídeos dos jornais de sua programação. Todas as informações são apuradas e checadas por jornalistas. O texto final também passa pela revisão da equipe de jornalismo da CNN. Clique aqui para saber mais.
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Zucco destinou emenda pix para evento evangélico liderado por pastor bolsonarista

O político do Partido Liberal (PL) de Santa Maria, Jader Maretoli, se intitula como um apóstolo. Foi com essa autodenominação que ele coordenou um evento gospel realizado no final do ano passado. No encerramento do Dia da Família, em 7 de dezembro, o pastor da Jesus Church pediu bênçãos para o padrinho do evento, o tenente-coronel Luciano Zucco, então deputado federal bolsonarista.

“Nós precisamos honrar quem merece honra. A Bíblia nos diz isso. Se tem alguém que nos ajudou muito, que é o grande padrinho deste evento, é o tenente-coronel Zucco”, disse aos fiéis presentes. “Eu quero que você, nas suas orações, nessa noite, ore pela vida dele, porque, com certeza, Deus vai o abençoar muito mais, para que ele continue nos abençoando e sendo canal de Deus nos próximos anos aqui na nossa cidade, na nossa região.”

Zucco não estava presente no evento, mas destinou R$ 200 mil para custear o Dia da Família de 5 a 7 de dezembro. O evento, que reuniu de motoqueiros a fiéis evangélicos, incluiu também a contratação de um cantor gospel sem licitação. O repasse destoa do perfil das emendas pix enviadas pelo então deputado federal e atual candidato ao governo do Rio Grande do Sul e foi a única ocasião em que Zucco destinou a eventos. 

Uma análise feita pela Matinal das emendas pix enviadas por Zucco entre 2024 e 2026, com base no Emendômetro, mostra que a maior parte dos R$ 5,6 milhões foi destinada à educação e segurança pública. Quase não há detalhamento de onde foi parar o dinheiro enviado a escolas. No que tange à segurança pública, os recursos foram aplicados na compra de veículos, armas e outros materiais para guardas municipais, Polícia Militar e delegacias.

Apesar de Maretoli ter homenageado Zucco como padrinho do evento, a equipe de comunicação do candidato do PL disse à Matinal que a demanda partiu do próprio município. “O mandato recebe solicitações apresentadas por prefeituras, câmaras de vereadores, entidades, associações, representantes municipais e também por cidadãos”, informou. 

Com base nestas demandas, a comunicação do candidato especificou que são considerados critérios técnicos e legais como “relevância e o interesse público, a pertinência para o município, a possibilidade legal de atendimento, a adequação do objeto à modalidade do recurso, a disponibilidade orçamentária e a viabilidade de execução”. Após a resposta, questionamos qual seria a relevância social e a pertinência do Dia da Família, mas a comunicação do candidato disse que não ia prestar novos esclarecimentos. Disse ter atendido às demandas do veículo e que o questionamento sobre o destino da emenda está ligado ao alinhamento editorial do veículo.

Nas respostas enviadas, Zucco e sua equipe afirmam zelar pela correta destinação das emendas parlamentares. “Caso seja identificado qualquer indício de irregularidade na aplicação dos recursos, o mandato exerce sua prerrogativa de fiscalização e adota as providências cabíveis perante os órgãos competentes”, diz a nota. O deputado também enviou ofício à Controladoria Geral da União solicitando fiscalização das emendas parlamentares individuais indicadas por ele no exercício de 2025, visando a lisura e transparência na execução.

Porém, disse também que, durante a indicação da emenda parlamentar para o evento em Santa Maria, o mandato só tinha conhecimento de que a ocasião denominava-se “Marcha da Família” e nada mais (confira as respostas na íntegra).

A reportagem entrou em contato com o pastor Jader Maretoli quatro vezes, sem sucesso. No último contato, ele comprometeu-se a prestar esclarecimentos, e pediu que as perguntas fossem enviadas por mensagem de WhatsApp, mas, até o momento, não houve resposta.

Além de apóstolo da Jesus Church de Santa Maria e organizador do Dia da Família, Maretoli é vereador suplente e concorreu pelo PL em 2024. De 2019 a 2020, enquanto filiado ao Republicanos, Maretoli ocupou o cargo de secretário-adjunto da Secretaria Estadual do Esporte e Lazer do governo Eduardo Leite (PSDB). 

Ele se apresenta, no Instagram, como o 12º vereador mais votado na cidade, apesar de não ter sido eleito. Hoje, pouco menos de 12 meses depois do evento, atua como cabo eleitoral de Zucco e dos candidatos ao Senado, Marcel Van Hattem (Novo) e Sanderson (PL). 

O sogro de Maretoli, o pastor Oséas Costa, concorre ao cargo de deputado estadual pelo Republicanos. No Dia da Família, Costa figurou como atração.

Da esquerda para a direita: Sanderson, Jader Maretoli, Érika Maretoli, Zucco e Van Hattem
Da esquerda para a direita: Sanderson, Jader Maretoli, Érika Maretoli, Zucco e Van Hattem

Prefeitura de SM se omite 

Organizadora oficial do Dia da Família, a gestão de Rodrigo Decimo (PSDB) não respondeu aos questionamentos enviados pela Matinal. Decimo esteve no evento e posou para fotos com Maretoli.

A Secretaria de Comunicação de Santa Maria foi procurada em quatro ocasiões. Questionamos se a gestão escolheu o destino do recurso, se fez parte da realização do evento e se o evento só aconteceu por conta do repasse. A pasta confirmou o recebimento das questões, mas não respondeu até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

No plano de trabalho da emenda pix enviada por Zucco, que é de responsabilidade da prefeitura, fica claro que se tratava de um evento religioso voltado “à valorização dos valores familiares e homenagem à família”, incluindo rodas e espaços de oração e um show gospel com duração de 90 minutos, no valor de R$ 90 mil. O contratado foi o cantor David Quinlan, também alinhado ao bolsonarismo.

Outros R$ 83,4 mil foram destinados para a estrutura física da marcha, incluindo grades, cobertura, tendas e palco; R$ 24 mil, destinados à locação de um painel de LED. No total, os gastos somaram R$ 197,9 mil.

O material de divulgação do Dia da Família não cita nominalmente o deputado e menciona o apoio da prefeitura de Santa Maria e de comércios locais.

STF exigiu detalhamento de repasses a eventos até 2024

Apesar de o Supremo Tribunal Federal ter publicado uma série de regramentos para as emendas pix, como a necessidade de planos de trabalho e proibição de saques em dinheiro e de repasses para organizações não governamentais chefiadas por parentes de deputados, nenhum se debruça sobre eventos.

Em junho deste ano, a Corte definiu aplicação de multas para estados e municípios que não apresentarem informações sobre os recursos destinados a eventos, de forma retroativa, entre os anos de 2020 a 2024.

Na decisão, o ministro Flávio Dino sustentou deficiências de transparência e rastreabilidade na destinação de emendas voltadas à promoção de eventos em geral.

A fiscalização deve abranger consistência documental, compatibilidade entre o que é pactuado e efetivamente contratado, e adequação de preços e valores, respeitando a proporcionalidade dos recursos junto ao porte do evento.

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Bolsonaristas capturam perfis nas redes para inflar apoio religioso a Mendonça

Perfis no Instagram que promovem políticos bolsonaristas, como o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), passaram a atuar de forma articulada para impulsionar perfis dedicados ao ministro André Mendonça nas redes sociais em meio à crise no STF (Supremo Tribunal Federal) provocada pelo caso Master.

Um levantamento do Aos Fatos identificou na rede social da Meta ao menos 24 perfis dedicados ao magistrado e promovidos por meio de publicações colaborativas e convocações para que seguidores de contas políticas de extrema-direita passassem a acompanhá-los.

Há entre esses perfis aqueles que nem mesmo foram criados originalmente para enaltecer Mendonça: ao menos dois são contas preexistentes que trocaram de nome e passaram a se dedicar exclusivamente ao magistrado em setembro, após o estopim da crise.

Essa prática é conhecida como astroturfing, movimento que simula um apoio popular espontâneo, mas que é, na verdade, orquestrado por grupos de interesse.

Por que isso importa?

  • Redes bolsonaristas atuam de forma articulada para inflar apoio a Mendonça em meio à crise no STF

O maior perfil, com 1,9 milhão de seguidores, existe desde novembro de 2024, mudou de nome oito vezes desde então e recebeu o selo de verificação do Instagram em agosto. Antes de aderir de vez a Mendonça, o perfil já republicava posts religiosos, anti-LGBTQIA+ e sobre futebol.

A imagem mostra uma captura de tela do perfil do Instagram 'andremendoncas2', com selo azul de verificação e botão 'Seguir'. A publicação exibe uma grade de imagens com conteúdo predominantemente religioso e mensagens de fé. Entre as imagens aparecem um jogador de futebol com uma camisa do Flamengo e a frase 'Jesus é suficiente', uma representação de Jesus, uma pessoa ajoelhada em oração, um homem pregando diante de um púlpito, uma criança, um cachorro com a frase 'Good morning!', além de imagens com referências bíblicas e frases como 'Muito em breve, você vai sorrir e dizer: Deus, isso e mais do que imaginei, obrigado! Mande para você mesmo', 'Só passa pro lado, confia em mim!', 'Tem peito pra ler essa?', 'Satanás não quer que você leia isto'.
Reposts do perfil @andremendoncas2 demonstram que página já existia e publicava conteúdo religioso

O segundo com maior engajamento, criado em abril, mudou de nome duas vezes e, assim como o primeiro, não exibe publicações anteriores a setembro. O Instagram não informa quais eram os nomes anteriores das contas. 

A movimentação ocorre enquanto Mendonça é ungido como símbolo religioso nas redes. Entre 1º e 9 de setembro, 156 publicações analisadas pelo Aos Fatos que equiparam a atuação do ministro a uma jornada do herói evangélica, somaram 228 milhões de visualizações. 

Em geral, esses conteúdos pedem orações pelo magistrado, o apresentam como um “servo de Deus” e retratam sua performance no STF como se fosse uma missão divina. No entanto, não é possível determinar em que medida esse engajamento é autêntico.

Cruzada nas redes

Desde que a crise transbordou no STF, no início de setembro, o Aos Fatos identificou ao menos 24 perfis dedicados a Mendonça no Instagram, que somavam 5,6 milhões de seguidores até quarta-feira (16). Destes, 12 já existiam antes da crise no STF e apenas trocaram de nome.

As contas @andremendoncas2 e @andremendoncas3, que, juntas, têm quase 3 milhões de seguidores, já existiam antes de setembro e passaram por mudanças de nome antes da identidade atual.

A @andremendoncas2, hoje com 1,9 milhão de seguidores, foi criada em novembro de 2024, mas não mantém nenhuma publicação anterior a setembro deste ano.

Print de tela mostra dados sobre a conta Andremendoncas2. No topo da tela, está escrito: Sobre esta conta. Logo abaixo está o ícone do perfil. Alguns dados aparecem abaixo: data de entrada: Novembro de 2024; Conta situada em: Brasil; Nomes de usuários anteriores (8). Verificação: agosto de 2026.
Apesar das mudanças, a plataforma não informa quais eram os nomes anteriores do perfil

O mesmo padrão aparece na @andremendoncas3. A conta foi criada em abril, mudou de nome duas vezes e também não exibe publicações anteriores a setembro.

Os primeiros posts atualmente disponíveis nesses perfis foram publicados em 5 e 7 de setembro. Desde então, os dois passaram a funcionar como perfis de apoio a Mendonça, compartilhando publicações quase idênticas, muitas das quais também distribuídas por outras contas identificadas no levantamento do Aos Fatos.

Captura de tela mostra postagens idênticas de duas contas: @michellepresidentes2 e @andremendoncas3. A legenda da postagem diz: ‘Em uma declaração marcada pela fé, o ministro do STF André Mendonça falou sobre aquilo que considera sua principal missão: servir a Deus e honrar o nome de Jesus Cristo. Mendonça pediu orações, reafirmou sua confiança nas promessas de Deus e destacou que sua caminhada não está baseada em méritos pessoais. Para ele, quanto maior a proximidade com Deus, maior também é a consciência das próprias limitações e falhas. O ministro ainda relembrou uma mensagem sobre promessas que ouviu de um pastor durante um culto, reforçando publicamente sua convicção na fé cristã e a importância de manter um testemunho coerente com aquilo em que acredita. Em tempos de tanta tensão e divisão no Brasil, uma declaração de fé vinda de uma das maiores autoridades do Judiciário certamente chama atenção’
Diferentes contas publicam posts quase idênticos com o objetivo de angariar seguidores para os perfis de apoio a Mendonça

A identidade religiosa que impulsiona a mobilização aparece desde os primeiros posts disponíveis dos dois perfis. Ambos, inclusive, enganam ao associar uma pregação feita pelo ministro em fevereiro deste ano, durante uma conferência cristã de apoio a mães de pessoas atípicas, às discussões recentes no STF. Até esta quarta-feira (16), essas publicações acumulavam cerca de 2 milhões de visualizações.

Captura de tela mostra postagens idênticas de duas contas (@andremendoncas2 e @andremendoncas3). A imagem dos posts incluem uma imagem do ministro e, ao lado, imagem de outros integrantes da corte. Um texto em um fundo branco que diz: Profeta no STF, André Mendonça manda forte recado para os poderosos.
Ministro é retratado em tom messiânico por perfis de apoio

As novas identidades das contas passaram a ser impulsionadas por perfis com audiências já consolidadas. O @nikolasferreiradms3, que usa o nome e a imagem do deputado federal mineiro, por exemplo, publicou uma chamada para que seu público seguisse a @andremendoncas2.

A imagem mostra uma captura de tela de uma publicação no Instagram. À esquerda, há uma montagem com fotos de Alexandre de Moraes e André Mendonça tendo ao fundo a bandeira do Brasil, o prédio do tribunal e uma estátua. Sobre a imagem aparecem as frases 'GRANDE DIA!', 'PÁGINA DE APOIO AO MENDONÇA', 'ACABA DE BATER' e '18 MILHÃO SEGUIDORES', além do perfil '@andremendoncas2'. À direita, aparece uma publicação do perfil 'nikolasferreiradms3', com a chamada ‘SIGA @andremendoncas2 André Mendonça tem seu apoio? Sim ou NÃO?'. O texto apresenta informações sobre a trajetória acadêmica de André Mendonça.
Contas pedem que audiência também siga perfil de apoio ao ministro

Aos Fatos identificou ainda um padrão que sinaliza a existência de uma articulação na rede social: o uso do recurso de collabs do Instagram entre esses perfis e outros dedicados a políticos bolsonaristas.

Em outros casos, diferentes perfis reproduziram imagens, vídeos e legendas idênticas e direcionaram seus seguidores para uma mesma página de apoio ao ministro.

Uma mesma postagem que anunciava que um perfil dedicado ao ministro havia superado 240 mil seguidores em 24 horas, por exemplo, foi distribuída por diferentes perfis bolsonaristas.

A imagem é uma montagem de capturas de tela de publicações no Instagram. À esquerda, há uma arte com uma fotografia de André Mendonça sorrindo, usando toga preta e gravata vermelha, com outras pessoas ao fundo. Sobre a imagem, aparecem os textos 'GRANDE DIA!', 'PÁGINA DE APOIO AO MENDONÇA', 'ACABA DE BATER MAIS DE 240 MIL SEGUIDORES EM 24 HORAS!' e 'SE VOCÊ AINDA NÃO FAZ PARTE, BASTA SEGUIR O PERFIL DE APOIO ABAIXO DESTA IMAGEM!'. Na parte inferior, aparece a identificação @andremendoncas3 e uma bandeira do Brasil. A montagem demonstra que outros perfis publicaram a mesma peça em datas similares.
Ciclo de amplificação: perfis com audiências direcionam seguidores para contas de apoio a Mendonça e transformam crescimento em conteúdo

Servo de Deus

A escalada da disputa entre os ministros do Supremo foi acompanhada por uma explosão de conteúdos em defesa de Mendonça no Instagram em perfis religiosos, contas ditas noticiosas e políticos bolsonaristas.

A disputa institucional em torno das revelações do caso Master é apresentada como uma missão atribuída ao ministro por Deus ou como uma batalha entre o bem e o mal, formulação comumente utilizada pelo ex-presidente Bolsonaro ao longo de seu mandato.

A imagem traz, na parte superior, a frase 'Nunca foi TÃO FÁCIL escolher um lado!', acompanhada de uma bandeira do Brasil. Abaixo, há duas ilustrações lado a lado. À esquerda, um homem representando Jesus aparece beijando a testa de outro homem e colocando uma das mãos sobre a cabeça dele. À direita, uma figura com aparência demoníaca, com chifres, orelhas pontudas e pele enrugada, coloca a mão sobre a cabeça de outro homem. Na parte inferior, aparece a pergunta 'Quem você escolhe', seguida das opções 'Deus' e 'Diabo', com a palavra 'Ou' entre elas.
Posts comparam ministros a figuras religiosas em busca por engajamento

A mobilização também foi incorporada ao discurso eleitoral. Das publicações analisadas, 20 foram feitas por candidatos ou políticos com mandato. Exemplo disso é o deputado federal Alfredo Gaspar (União Brasil-AL), candidato a vice na chapa presidencial de Flávio, que associou a disputa envolvendo o magistrado à eleição de outubro.

Segundo ele, Moraes e o presidente Lula (PT) representariam um “sistema” que estaria tentando impedir Mendonça de avançar nas investigações sobre o Banco Master e as fraudes no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social): “que Deus abençoe o ministro André Mendonça”. Até esta quarta-feira (16), o vídeo acumulava 2,2 milhões de visualizações e 27 mil compartilhamentos.

A imagem mostra uma captura de tela de uma publicação no Instagram. À esquerda, aparece o perfil identificado como 'alfredogaspar', seguido de um selo de verificação e da opção 'Seguir'. A legenda diz: 'O Brasil está vivendo uma crise institucional sem precedentes. O sistema corrupto quer trucidar a verdade. As próximas horas são de extrema atenção, e o povo brasileiro tem que ficar atento. Deus abençoe o ministro André Mendonça.' Em seguida, o texto afirma: 'Diante do desespero dos que estão no poder e da iminente vitória do presidente Flávio Bolsonaro, toda atenção para qualquer armação ou ataque ao nosso próximo presidente, Flávio Bolsonaro. Eles são capazes de tudo!' Na parte inferior da legenda aparece 'PARTIDO LIBERAL – PL – 68.581.907/0001-25'. À direita, há um vídeo vertical mostrando um homem de cabelos grisalhos sentado dentro de um carro, usando camisa clara, paletó escuro e cinto de segurança. Sobre o vídeo aparece, em letras grandes vermelhas, a palavra 'Urgente!'. No lado direito da tela estão os ícones de curtida, comentários, compartilhamento e outras opções, com a indicação de 24,3 mil comentários e 27 mil compartilhamento.
Vice na chapa de Flávio Bolsonaro, Gaspar publicou vídeo relacionando Mendonça, Deus e as eleições

Segundo Marcos Jorge, coordenador jurídico do escritório Wilson Gomes Advogados e especialista em direito eleitoral, a legislação não proíbe que candidatos compartilhem declarações de autoridades, manifestem apoio ou utilizem falas de Mendonça durante a campanha.

A avaliação seria diferente caso as publicações atribuíssem ao ministro um apoio eleitoral inexistente, segundo o especialista. Gaspar, por exemplo, apesar de realizar uma associação explícita entre Mendonça e Flávio, não atribuiu ao ministro um apoio que ele não declarou.

Também haveria problema caso fosse demonstrada anuência ou articulação prévia de Mendonça para o uso eleitoral de suas manifestações, observa Jorge.

O advogado e mestre em Direito e Políticas Públicas Adriano Fonseca afirma que, neste caso, a conduta poderia suscitar questionamentos éticos e constitucionais. O Aos Fatos não encontrou evidências de que Mendonça autorizou ou participou da elaboração dessas publicações.

Outro lado

Aos Fatos entrou em contato com o gabinete de André Mendonça e com as assessorias de imprensa do deputado federal Nikolas Ferreira e do senador Flávio Bolsonaro para abrir espaço para comentários.

A reportagem tentou ligar para o gabinete de Alfredo Gaspar mas, como ninguém atendeu, enviou um e-mail com um resumo da citação feita no texto. Nenhum dos quatro citados havia respondido até a publicação desta reportagem.

Aos Fatos também enviou um pedido de posicionamento para a Meta questionando se a reutilização de uma conta com audiência preexistente, após sucessivas mudanças de nome e de temática, para promover uma figura pública, violaria regras da plataforma. A reportagem será atualizada em caso de resposta.

O caminho da apuração

Aos Fatos analisou 156 publicações no Instagram encontradas a partir dos termos “Mendonça” e “Deus”, classificando os conteúdos de acordo com os perfis responsáveis, o alcance e as principais narrativas utilizadas na defesa do magistrado.

A reportagem também mapeou 24 contas dedicadas a Mendonça e analisou informações disponibilizadas pela própria plataforma, como data de criação dos perfis e mudanças de nome, identificando uma rede de contas políticas que impulsionam perfis de apoio ao ministro. 

Por fim, Aos Fatos entrevistou Guilherme Arduini, coordenador do LAR (Laboratório de Antropologia da Religião) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), o especialista em direito eleitoral Marcos Jorge e o advogado e mestre em Direito e Políticas Públicas Adriano Fonseca sobre a mobilização religiosa em torno de Mendonça e os limites jurídicos dessa atuação.

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