Jones Manoel defende corte de 80% nas emendas parlamentares e critica ajuste fiscal de Lula
O deputado federal eleito Jones Manoel (PSOL) defendeu, nesta quarta-feira (28), uma redução de 80% no volume de recursos destinados às emendas parlamentares no Orçamento da União. Durante participação na Super Manhã da Rádio Jornal, o parlamentar criticou o crescimento do controle do Congresso sobre os recursos públicos e afirmou que pretende atuar para devolver ao Poder Executivo maior responsabilidade sobre a definição das despesas federais.
"Eu defendo cortar em 80% o valor das emendas. Quem foi eleito para controlar o orçamento foi o presidente da República", declarou.
Jones, que recebeu 249.077 votos e foi o segundo deputado federal mais votado de Pernambuco nas eleições de 4 de outubro, afirmou que pretende utilizar as emendas parlamentares durante o mandato, desde que sejam respeitados critérios de transparência e rastreabilidade.
O parlamentar citou instituições de ensino, hospitais e movimentos sociais entre os possíveis destinatários dos recursos que pretende indicar. Segundo ele, o uso das emendas não altera sua posição contrária ao atual modelo de distribuição orçamentária.
Para 2027, o projeto de Orçamento encaminhado pelo governo federal prevê R$ 44,8 bilhões em emendas individuais e de bancada, montante que ainda pode crescer durante a tramitação no Congresso com a inclusão de emendas de comissão.
Jones considera que o crescimento desses recursos prejudica o planejamento das políticas públicas e favorece a reprodução de mandatos por meio da destinação de verbas.
Independência e críticas ao governo Lula
Apesar de ter participado da campanha pela reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Jones afirmou que manterá independência política em relação ao governo federal e anunciou oposição a eventuais medidas de ajuste fiscal que impliquem cortes em políticas sociais.
O deputado eleito criticou declarações do ministro da Fazenda, Dario Durigan, sobre a necessidade de medidas para o cumprimento das metas fiscais. Na terça-feira (27), o ministro afirmou que a equipe econômica estuda propostas de ajuste, incluindo mudanças nas regras de contingenciamento de despesas, ainda dependentes de discussão e autorização do governo.
Para Jones, a adoção de medidas de austeridade representaria uma contradição com o discurso utilizado na campanha presidencial contra Flávio Bolsonaro (PL).
"A gente acabou de derrotar o Flávio Bolsonaro, dizendo que o Flávio Bolsonaro queria fazer um tesouraço e atacar saúde, educação, salário mínimo, BPC, aposentadoria", afirmou.
"A gente não pode chegar e fazer um ajuste fiscal. Isso não é aceitável", acrescentou.
Jones também criticou o arcabouço fiscal aprovado durante o terceiro mandato de Lula. Na avaliação dele, as regras de controle das despesas limitam investimentos em serviços públicos e contribuem para dificuldades enfrentadas por instituições como a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
O parlamentar argumentou que o debate sobre as contas públicas deveria priorizar a redução das despesas com juros e o enfrentamento dos problemas do sistema financeiro.
Ele também reiterou críticas a iniciativas de concessão e privatização de serviços públicos, citando o Metrô do Recife e a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa). Jones afirmou que pretende atuar no Congresso contra o processo de privatização do sistema metroviário da capital pernambucana.
"Acho que o nosso compromisso é com a classe trabalhadora, não é com governos. O governo é um meio de transformar a vida das pessoas, de garantir direitos, garantir melhores condições de vida", declarou.
O deputado eleito ponderou que continuará apoiando iniciativas do governo federal que considere positivas, como a ampliação da isenção do Imposto de Renda e medidas de proteção aos trabalhadores.
"Eu não sou militante do PT. Eu sou militante do PSOL. O PSOL é um partido socialista. É um partido que tem um programa para a classe trabalhadora", afirmou.
Fim da autonomia do Banco Central
Jones também defendeu a revogação da autonomia do Banco Central, aprovada em 2021. Para o deputado eleito, a definição da política monetária deve estar diretamente submetida ao presidente da República, eleito pelo voto popular.
O parlamentar argumentou que o governo federal deve ter responsabilidade direta pelas decisões relacionadas às taxas de juros, à inflação e ao crédito.
"Quem manda não é o voto popular? Não é a vontade da maioria da população? Então, o presidente da República, eleito pelo voto popular, escolhido pela maioria da população, tem que mandar na política monetária", defendeu.
Jones também questionou a atuação do Banco Central na fiscalização de instituições financeiras e defendeu maior rigor no controle sobre operações bancárias e financeiras utilizadas para lavagem de dinheiro.
Na avaliação dele, o combate à circulação de recursos provenientes do crime organizado deve incluir a fiscalização de fintechs e outras instituições do setor financeiro. O deputado citou investigações como a Operação Carbono Oculto para defender a necessidade de aperfeiçoar a regulação do mercado.
Reforma política e participação popular
Sobre a proposta de reforma política apresentada pelo presidente da Câmara dos Deputados Hugo Motta (Republicanos-PB), Jones afirmou que ainda precisa avaliar os detalhes do voto distrital misto antes de assumir uma posição definitiva, mas demonstrou preocupação com o modelo sugerido por Motta.
O formato discutido prevê a combinação de representantes eleitos por distritos geográficos e por listas partidárias. A proposta anunciada pela presidência da Câmara prevê uma transição em 2030, com implantação do sistema em 2034.
Jones demonstrou preocupação com o risco de o sistema distrital fortalecer grupos políticos com controle territorial e com a possibilidade de listas fechadas ampliarem o poder das direções partidárias sobre a escolha dos candidatos.
"Eu tenho dúvida sobre o distrital misto. Eu acho que precisa avaliar e aprofundar melhor, porque modelo distrital pode reforçar certa dinâmica oligárquica de controle de território", afirmou.
O deputado também defendeu que uma reforma política inclua mecanismos para ampliar a participação direta da população nas decisões nacionais. Entre as possibilidades mencionadas estão a realização de plebiscitos e referendos com regras menos restritivas para sua convocação.
"Qualquer debate sobre reforma política que não passe por aprofundamento da participação popular direta tem um problema", afirmou.
Relação com a bancada pernambucana
Questionado sobre a convivência com deputados de diferentes posições ideológicas na nova bancada federal de Pernambuco, Jones afirmou que pretende buscar apoio para propostas relacionadas à defesa de direitos sociais, ao enfrentamento da desigualdade e à melhoria dos serviços públicos.
O parlamentar reconheceu que haverá divergências entre representantes da esquerda e de outros campos políticos, mas avaliou que algumas pautas podem permitir a construção de acordos.
Jones citou a deputada federal Iza Arruda (MDB) e o deputado Lula da Fonte (PP) como exemplos de parlamentares com os quais acredita ser possível dialogar. Entre os projetos que pretende apresentar, mencionou a criação de um 13º pagamento para beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC).
"Eu tenho certeza que dá pra dialogar com a Iza Arruda. Dá pra dialogar com outras figuras. Dá pra dialogar com o Lula da Fonte, por exemplo", afirmou.
Por outro lado, Jones fez críticas a integrantes da direita eleitos por Pernambuco, especialmente Thiago Medina, do PL, com quem declarou não enxergar espaço para diálogo político.
O deputado eleito também apontou temas como a infraestrutura, os serviços públicos e o combate à fome entre as questões que devem mobilizar sua atuação no Congresso.
Mandato de dez anos para ministros do STF
Outra proposta defendida por Jones durante o debate foi a fixação de mandato de dez anos para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O parlamentar afirmou que considera necessária uma reforma mais ampla do Judiciário, envolvendo critérios de permanência nos tribunais, limites remuneratórios e mecanismos de controle das decisões judiciais.
Jones citou a reforma judicial realizada no México como uma experiência que pode contribuir para o debate brasileiro, embora tenha reconhecido a necessidade de adaptações às particularidades do país.
Ele também criticou o uso de pedidos de impeachment de ministros do STF como instrumento de disputa política, diferenciando essa estratégia de uma discussão institucional sobre o funcionamento da Justiça.
Futuro do PSOL após decisão do TSE
Em entrevista exclusiva ao Jornal do Commercio após a participação na Rádio Jornal, Jones também comentou a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que reconheceu o cumprimento da cláusula de barreira pela federação PSOL-Rede.
Na terça-feira (27), a Corte aceitou, por unanimidade, o arredondamento do percentual de votos obtidos pela federação no Espírito Santo, de 1,4912% para 1,5%. Com isso, a aliança partidária alcançou o percentual mínimo exigido em nove unidades da Federação e preservou o acesso aos fundos partidário e eleitoral e à propaganda gratuita.
Jones afirmou que a decisão era esperada e argumentou que o desempenho eleitoral demonstra o fortalecimento do PSOL, apesar das dificuldades enfrentadas para superar a exigência legal.
O deputado também criticou setores internos que defenderam uma aproximação maior com o PT, incluindo a possibilidade de uma federação partidária entre as legendas.
Segundo ele, o crescimento eleitoral do PSOL reforça a possibilidade de uma atuação independente no campo da esquerda. Jones reconheceu, no entanto, que o partido ainda precisa ampliar sua presença fora das grandes capitais e regiões metropolitanas, conquistando espaço em cidades pequenas e médias.
Para o deputado eleito, a expansão partidária pode transformar o PSOL em uma das principais referências da esquerda nacional nos próximos anos.
"O PSOL cresce, se fortalece, supera o problema da cláusula de barreira e tem tudo para se afirmar a médio e longo prazo como o principal partido da esquerda brasileira", declarou.


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